sexta-feira, 13 de março de 2026

Cartas de Amor 117 / Epistulae Amoris CXVII


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra & Lua,
3º do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, você é um permanente estar em mim.

Escrevo esta carta num presente continuo porque nos despedimos num olhar súbito que em tese substitui o adeus e preserva para sempre nossas identidade. A última vez que nos vimos nesta dimensão, estávamos no hospital e nos despedimos no olhar.

Até hoje adoro ver seus olhinhos brilharem quando digo sobre você e sua existência em minha vida. Sorria mais vezes porque você tem este sorriso que me alucina pelo charme. Suas covinhas na face movimentam tantas outras ações reclamadas pelo amor, que até pela fotografia apaziguam a saudade.

A vida não me pediu licença para continuarmos em espaços físicos separados e metafísicos entrelaçados. Eu, por instinto de sobrevivência, aceitei o jogo. Meu bem, saiba que não há estática nem estatísticas nem ao menos o trauma; na sua ausência há o movimento contínuo de quem precisa lavar o rosto, atender o telefone, pagar as contas e reconhecer o próprio reflexo no espelho, mesmo que ele pareça um pouco mais triste hoje.

Entendi, finalmente, que a nossa ausência após o até breve não é um vazio que me falta, mas uma presença que agora me habita de outro modo. Recorro ao poeta Drummond, com quem aprendi que devo deixar de lastimar a 'falta' para entender que você se tornou um 'estar em mim'. Um estar complexo, feito de memórias doces da saudade , que não me impede de caminhar.

Preciso retomar quem eu sou ao seu lado, num ato de reintegração com a vida. Estou aprendendo a carregar esse novo dilema sem que ele me paralise. A vida corre lá fora, em cada esquina do mundo, e corre aqui dentro também. Vou em frente, não para fugir do que fomos, mas para levar comigo tudo o que restou de essencial, agora que a tempestade deu lugar à correnteza do tempo.




 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gratidão!