quinta-feira, 11 de junho de 2026

A saga de Waltinho - terça-feira, 24 de setembro de 2013



Esta crônica foi publicada em 24 de setembro de 2013. O Blog nasceu em setembro de 2010 e foi a primeira postagem de autoria própria, naquela época, a ultrapassar cem acessos. Espero que você goste. Ainda era uma época onde o Blog buscava uma definição para suas postagens com narrativas e histórias próprias deste autor que lhe escreve. Até hoje tem busca ativa. 

O fato é que depois que alguém lê — Waltinho imaginava o pai comendo a mãe com garfo e faca — dificilmente esquece a história. E a literatura humorística vive justamente dessa capacidade de permanecer na memória do leitor muito depois da última frase.

A saga de Waltinho

Waltinho tinha ódio do seu pai, Dr. Wernon Frans Waltz Früber. Tudo começou em uma tragédia familiar. Tinha seis anos quando sua mãe faleceu em um complicado trabalho de parto, levando a óbito também a criança, que era uma menina.

Na escola, Pedrinho, seu melhor amigo, disse-lhe que ouvira em casa que quando ocorrem estas mortes de parto, é porque a mulher foi mal comida. Waltinho teve ânsia de vômito por dias seguidos.

Passou a imaginar seu pai comendo sua mãe com garfo e faca, como fazem os adultos, mastigando e cuspindo os pedaços. Fez uma anorexia e tornou-se vegetariano por não suportar a ideia do pai ter comido mal a sua mãe.

Na adolescência, Waltinho entendeu que aquilo tudo não passara de um mal-entendido. Pedrinho disse-lhe que seu pai havia comido sua mãe várias vezes e o pior, ela gostava disto. E aquilo se chamava fazer sexo. Pronto. Waltinho agora era um catedrático em sexo por meio de informações precisas e importantes de Pedrinho, que ouvira toda esta conversa em casa.

Waltinho voltou a comer carne, mas ficou fechado, recluso, aprendeu a tocar e cantar igual ao João Gilberto, ficava horas dentro do quarto ensaiando por semanas seguidas um show que nunca daria. Waltinho cada vez mais tinha ódio do seu pai, porque fez sexo com a sua mãe.

Na juventude, Waltinho ingressou na faculdade. Pedrinho, seu melhor amigo, havia se iniciado em artes místicas e frequentava o Núcleo de Atividades Virtuosas, Esotéricas, Exorcistas e Exóticas, ou NAVE3, como era mais conhecida.

Pedrinho levou Waltinho ao NAVE3 e este se encantou com o esplendor e a paz celestial que o lugar oferecia. Era uma gigantesca nave espacial, com luzes estrambóticas, painéis de LED, tapetes persas, lounge music, bebidas naturais de ervas e chás alucinógenos, enfim, um imenso inferninho conjugado.

A Bruxa Mística Guia, Irene, era uma morena voluptuosa, gostosa, carnuda, lábios doces, olhos de meretriz e corpo de bailarina de auditório merengue.

Pedrinho informou a Waltinho que ela era a virgem inatingível, intangível bem como inacessível. Era adoradora do deus Ratjar Faied, habitante de Orion, e prometida a Djacar Molaievsk, um ser supremo que viria a salvar todo o planeta.

Irene, desapegada de valores materiais, a princípio desprezava Waltinho como fazia a todos que a cortejavam. Um dia, sem nenhuma pretensão amorosa, Irene soube pelas Musas da NAVE3 que Waltinho era herdeiro da maior fortuna da região.

Naquela mesma noite teve a grande revelação celestial pelos Fantásticos Seres Margyteran. Naquela noite soube que Waltinho era a encarnação de Djacar Molaievsk, e sua mãe fora iniciada nas artes místicas em um evento de realidade paralela, incompreensível aos humanos, gerando-o de Ratjar Faied.

E mais, as Musas revelaram que sua mãe não faleceu, foi teletransportada para a 9ª Dimensão, onde seria o limite de compreensão humana possível com a finalidade de se aproximar de Ratjar Faied.

Waltinho foi eleito o Príncipe do reino Krely Sariun, um dos maiores reinos de poder galáctico. Irene se entregou a ele como uma ninfa se entrega aos deuses. Reinaram loucamente por dias, semanas e meses a fio.

Um dia, e este dia sempre chega, Waltinho levou Irene para conhecer seu pai. Ao chegarem em casa, percebeu que ela e seu pai trocaram olhares místicos. Dali não saíram de perto um do outro. Foram se encontrando dia após dia nos assuntos comuns, nas ideologias, na teologia, enfim, Irene e seu pai passaram a coexistir fora do seu eixo existencial.

Daquele dia em diante Waltinho teve ânsia de vômito por dias seguidos. Imaginou seu pai comendo Irene com garfo e faca, como fazem os tarados e cuspindo os pedaços. Fez uma anorexia e retornou ao mundo dos seres vegetarianos.

Pedrinho, já um Raftar na seita da NAVE3, revelou a Waltinho que tivesse paciência. Tudo aquilo seria um dia explicado pelos Fantásticos Seres Margyteran. Mas Waltinho já nutria ódio do seu pai.

Um dia, e este dia estava profetizado no Livro das Brants Karlês, as musas da NAVE3, Waltinho foi informado que seu pai iria se casar com Irene. Waltinho teve ódio, dores lancinantes, suores frios, tremores, vômitos, cegueira súbita e ficou em estado catatônico.

Raftar Pedrinho, o agora Babalaô Natiê Azul da NAVE3 procurou Waltinho para dar a triste notícia de que seu pai havia falecido, talvez por excesso de uns comprimidinhos azuis que tomava sem critérios.

Waltinho saiu do estado catatônico, penetrou em um paraíso celestial, foi em busca de Irene, casou com ela e viveu feliz para sempre. Agora estava curado, perdoara seu pai e sentiu-se vingado por sua mãe. Irene era realmente a grande Mística Guia da NAVE3!



É isto aí!




quarta-feira, 10 de junho de 2026

Cartas Avulsas 32


Cartas Avulsas 32
Litterae solutae XXXII

32ª Carta Avulsa
Reino da Pitangueira,
10 de Junho de 2026
161º dia do calendário gregoriano.
Faltam  204 dias ou 4.900 horas para acabar o ano.

Dia da Língua Portuguesa
Pôr do Sol às 17H:19min. 
A fase da Lua do dia 10 é Lua Minguante
A estação atual é o outono

Tem dia que escrevo livre, tem dia que apenas escrevo. Deve ser você com seus poderes telecinéticos a me levantar.

Não sei se vou te amar pelo resto dos meus dias, contradizendo o poeta. Isto é tão — como dizer-lhe sem ser exatamente o que penso, mas precisando fazê-lo para manifestar o avesso enquanto verdade?

Não sei se vou te amar depois da primavera, do encantamento da natureza abraçando-a por entre violetas,  jasmins, gardênias, lavandas, pitangueiras, romãs e tudo o mais que floresce entre nós. 

Ontem fui visitar uma casa de acolhimento de desvalidos, abandonados, desprotegidos, miseráveis e carentes. Há ali uma sublimação de amor, dor e acolhimento. 

Não sei bem explicar como aquela centena de seres humanos consegue, sem nos dirigir a palavra, transmitir a esperança. Não são especiais, são humanos da nobre linhagem dos que passam ao largo do calendário rumo à eternidade no grande banquete dos escolhidos do Pai. 

Voltarei a te buscar nos sonhos, pensamentos, palavras e sentimentalidades outras ainda a aflorarem na primavera.

Até breve! Não se preocupe, pois eu ainda volto para te ver. 


segunda-feira, 8 de junho de 2026

Nunca mais outra vez


Depois de vinte e três anos, sete meses, 13 dias e cinco horas, reencontrei-me com ela, por acaso, numa feira de brechó. Ignoramo-nos de forma histriônica. Mais ágil, saí primeiro. Na movimentada calçada senti um puxão. Pelo jeito, parecia o marido dela. Fez sinal para segui-lo, entrou e saiu por vários becos e barracas ambulantes até entrarmos num café pra lá de sinistro.  

Sentamos à mesa três e ficamos nos indagando em silêncio o que era aquilo.  O marido parecia ser mais velho que eu, sabe? Tinha um estilo cafetão aposentado. Pediu uma cerveja barata e dois copos. Aquilo prometia ser demorado.

Em meia hora éramos os melhores amigos do mundo, até que ele fez a pergunta proibida  — Meu amigo, por que você não casou com ela? Fiquei ali, desfocado e deslocado de tempo e espaço. Não entendi a pergunta. Não sabia a resposta, e agora, o que eu falo? 

Na mente, a sangria das dores começou. Uma voz ficou irritantemente falando —  Eu disse, eu avisei —  e outra mais nervosinha insistia  com  eu sabia, eu sabia e nisto personas foram saindo de mim um a um, bem de fininho. Quando voltei ao plano terrestre, o marido já não estava mais ali. 

Pedi a conta, já estava paga. Voltei ao brechó e ela não estava mais ali. Peguei a bicicleta e parti para casa. Cheguei e, para meu completo desespero, as duas estavam sentadas, tomando chá com torradas, dando gargalhadas. A esposa apresentou-a como amiga da infância e além disto tinham amigas em comum, gostos parecidos etc etc etc. 

Passei direto para o quarto. Sentei na cama e chorei. 

Tudo sobre a minha bicicleta


madrugada fria, 

inverno elegante 

promete ser tenso, 

intenso e extenso. 

A falta das palavras tem incomodado o equilíbrio por sobre a minha bicicleta e o passado que alonga  mas nunca acaba. Saudade é um elemento elástico. Quando entrar setembro, pouco antes da primavera, vou plantar menos saudade. 

Tem dia que escrever é uma ferramenta de descaso para com a realidade.

Esta é apenas uma postagem desconectada da minha racionalidade vigente. Para você que não sonha, não delira, não sai dos trilhos, saiba que viver é mais fácil do que parece.

Na dúvida, irei me debruçar sobree este assunto. Hummm, pode ser perigoso, mas aí chamo o Bruce Wayne para explicar a duplicidade pacífica do ser e estar da pessoa perdida dentro de si.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Cartas de Amor 124


Reino da Pitangueira,
Planeta Terra & Lua,
3º do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Cartas de Amor 124
Epistulae Amoris CXXIV


Querida, sou poeta sem sê-lo, sou escritor sem sabê-lo


Calma, meu bem, logo explico ou melhor, tento explicar, já que a inefabilidade ecoa por entre os bosques do Reino. Saiba, minha amada, que neste monocrático e democrático reino onde você reside enamorada nos meus sonhos, por sua função aqui dezenas de vezes descrita, a minha escrita — que é para você — vai encontrando seu rumo enquanto caminha, como quem segue uma trilha sem conhecer completamente o destino.

Dia destes escrevi para você, retirado e alterado do contexto original da lindíssima canção da Amália Rodrigues, que tudo isto existe, mas nem tudo isto é triste, e nem tudo isto é fado no caminho solitário por entre as letras que formam nossa história. Hoje estou estranhamente feliz,  e devo isto a você.

Não vou me alongar muito nesta manhã. Sinto-me tão ansioso quanto um comandante da Nau que navegará por mares revoltos sem saber como e quando chegará em algum porto seguro. 

A carta é breve, mas nela estão todas as palavras que são quase tudo que hoje tenho para dar a você. O que faltar enviarei pelo correio onírico. Aqui está ameaçando neve, frio intenso, ventos fortes e a solidão que virá das noites longas. Quando chegar setembro, com a primavera à porta, quem sabe, colheremos flores juntos?

Querida, não sei não amar você!


Citação incidental de Amália Rodrigues
Citação da Música: Tudo isto é Fado
Compositores: Anibal Nazare / Fernando Carvalho
Letra de Tudo isto é fado © Musica Del Sur, Musica Del Sur Ediciones

Sobre mãos e orações



Minhas orações
são o que são
minhas mãos

fortes e firmes
fracas e leves
luz no caminho

tão carentes 
quanto amenas
e sinceras

Minhas mãos
são as minhas 
orações amém!










quarta-feira, 3 de junho de 2026

As três lágrimas



Estava na sala onde o esquife guardava sua amada. Homem não chora, disse para si mesmo, dezenas de vezes, por pensamento. Homem não chora, é isto. 

Meu pai me ensinou a crença de que o homem só tem três lágrimas, uma quando nasce, outra quando é batizado e a terceira é quando perde a mãe.

Ficou a repetir o pensamento, unhas provocando dor nos cantos das falanges distais. Quando do fechamento da urna, sentindo o mundo ruir ao seu redor pela perda da amada, sussurrou segurando as lágrimas: Eu não vou chorar, sua vadia.

O cortejo adentrou ao cemitério, cachorros latindo, mulheres cantando hinos religiosos, homens saindo do ambiente rumo ao bar do Zé do Bar.

Crianças corriam em volta da capelinha, atrás de uma bola que apareceu do nada no meio deles. As meninas reparavam nas roupas das outras meninas e vice-versa. 

Quando chegaram ao túmulo, ele gritou para esperar. Queria dar a última olhada. Abriram o caixão, aproximou-se e sentiu que ela o segurou pela lapela do paletó, e sussurrou: Vadia é a puta que o pariu!

Levantou-se lentamente e chorou por dias até ser encontrado morto sobre a sepultura da companheira.


É isto aí!

terça-feira, 2 de junho de 2026

A moça no supermercado


Vi uma moça andando e divagando num supermercado, concomitante à minha presença. Não gosto de olhar mais de três vezes nestes casos, pois aí já passa para reprovação de comportamento. Veja só, um idoso olhando com olhos de catarata para a juventude, desta forma. Deve ser destes tarados embutidos em roupa de tergal. 

A mulher era nova, tinha algo de 23 anos, talvez menos um pouco. As mulheres nesta faixa etária estão no ápice da beleza juvenil, migrando para a fase adulta. E é melhor tirar a mira fixa do corpo destas beldades, a não ser que saiba trabalhar com cálculo integral, e, quer seja definida ou indefinida, não alimente muita esperança de chegar a algum resultado, já que calcular áreas sob curvas, volumes de sólidos e acumulações de taxas não é para amadores. 

Foi viajando nestes conceitos matemáticos que passaram por minha vida acadêmica e nunca, e quando digo nunca, quero dizer nunca, me foram úteis enquanto ferramental de avaliação de área, porém, apesar de ser um completo desconhecedor das profundezas matemáticas, sou do tipo que nunca desiste.

Depois de alguns segundos de reflexão científica mal resolvida desde priscas eras, cheguei ao mesmo resultado de sempre.

 Conclusão: Nada. Não concluo nada, apenas vi uma moça e achei bonita, foi só isto.

É isto aí!

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Cartas avulsas 31


Cartas Avulsas 31
Litterae solutae XXXI

31ª Carta Avulsa
Reino da Pitangueira,
01 de Junho de 2026
153 dias desde o início do ano
Faltam 213 dias para acabar o ano.

Dia Nacional de comemoração da Imprensa no Brasil
Pôr do Sol 17:19. 
Lua na fase Cheia
Estação Outono

Chegará logo o dia de rever você, quando tudo será melhor, mais bonito, mais doce, mais delicado, mais envolvente, mais feliz. É isto então — tudo indo e vindo em todos os vértices da felicidade, feito ondas apaixonadamente lindas.

Serão como sempre foram — românticas e reluzentes, em todas as formas concêntricas e excêntricas de amar você. Tudo incidirá no ponto de encontro entre nós dois, ora em ondas retas, ora em linhas; dezenas, centenas, milhares delas, em curvas que aqui denomino você: a razão da existência do amor.

Daquele dia, daquela hora que virá, o impacto das nossas vidas. Gritarei como um guerreiro defendendo nossa integralidade, batendo com a mão fechada sobre o coração, gritando impropérios contra o... puxa vida, isto é tão estranho, pois nos meus sonhos funcionavam muito bem estas ações e estes eventos primevos.

De repente, ainda bradando, mas abaixando o tom e deixando cair o tacape, não vejo mais você. Não que não esteja aqui, pois está em todos os lugares e dentro de mim, feito a mais perfeita pérola. Percebo estar, verdadeiramente, numa outra dimensão que não tangencia meu querer. Tudo é tão lindo quanto exótico ou inefável, e todas as coisas acontecendo ao mesmo tempo.

Pássaros ou algo do tipo, em plena cantoria, sobrevoam para um ponto infinito. Sinto um frio glacial. E seres indescritíveis, como se estivessem dobrando o universo, seguem no mesmo rumo das aves, como se todos soubessem para onde ir, menos eu. Há medo, e agora lágrimas que aparecem do nada preenchem um imenso vazio em mim. Acho que morri.

Este silêncio, os olhares alhures de pessoas que não são exatamente pessoas. Mas minha consciência ainda me banca; ainda posso ver minhas mãos. Não, espera, não posso ver minhas mãos, mas posso senti-las. Então é aqui a Eternidade. Vou caminhar para ver onde dará esta estrada.


É isto aí!