domingo, 14 de junho de 2026

A moça do voil rosa



Acordo angustiado pelo desejo de, mais uma vez, admirar a extrema leveza, fluidez e graça que desfilam sob meu olhar.

Toda manhã, sobre a passarela da calçada, lá vem ela, a beleza da rua, que passa hoje, sensualmente, num vestido de voil de algodão, amplo e esvoaçante, suavemente rosa, ao caminhar sozinha pela rua dourada pelo outono, permitindo a entrada suave da luz natural em seu corpo divino, sob a privacidade de um forro discreto e liso.

Naquele instante, solitário, observo e absorvo seu andar dengoso, que, em seu natural deslocamento, deixa no ar um perfume gozoso enquanto desfila anônima, imprevisível, secretamente amada; segue linda ao encontro do destino e passa afeita à bruma da natureza solidária.

Abraçada pelo outono, esvoaçante bailarina que ainda não sabe, mas já cabe inteira no meu abandono, deixa a rua iluminada e arejada por existir desde sempre dentro de mim.

Nisso, num ímpeto primitivo, falo:

— Moça, moça!

— Pois não?

— Você quer namorar comigo?

— Sim.

— Sim? Você disse sim?

— Sim — respondeu, sorrindo. — Eu aceito seu pedido.

— E agora, o que eu faço?

— Desça aqui, e vamos conversar.

E foram felizes para sempre!

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