— Senhor Lindolfo, pode entrar — disse placidamente a secretária.
— Sente-se onde estiver mais confortável, Lindolfo. Vamos conversar.
— Doutor, eu preciso que o senhor acredite em mim — disse, com a voz trêmula.
— Procure ficar calmo. Conte-me o que está ocorrendo com o senhor.
— Começou comigo achando que aquilo era estranho, uma aberração, uma anormalidade. Tinha vergonha de falar para as pessoas; tinha medo de ser mal interpretado. Procurei vários especialistas e já estava desistindo quando me informaram sobre o senhor. Afinal, aquilo já estava passando dos limites.
— (silêncio contemplativo)
— Não sei como dizer isto... (lágrimas)
— (silêncio interrogativo)
— Sabe, as pessoas me acham esquisito...
— (silêncio investigativo)
— Mas eu não sou esquisito. Não me entendem...
— Quem não entende?
— Eles... as pessoas, a família... ninguém compreende.
— Pessoas da família ou pessoas estranhas e a família?
— Faz diferença para o senhor ser incompreendido?
— Não, para mim, não. Mas, para você, parece que isso é importante.
— Como assim, "para mim"?
— Quem o trouxe aqui, Lindolfo?
— Vim sozinho. Por quê? Você acha que ela me trouxe? Como soube?
— Não sou o oráculo das suas dúvidas, Lindolfo. As respostas estão em algum lugar dentro de você.
— Não! Não... Não está dentro de mim...
— O que não está dentro de você?
— Essa sombra. Não percebe? Ela... ela... Meu Deus! Você não vê?
— O que você vê que eu deveria ver, Lindolfo?
— Meu Deus, você não vê essa sombra?
— Fale-me mais sobre isso. O que há nessa sombra?
— Não é o que há... Meu Deus... Como explicar? Olha, eu não sou doido...
— Sim, prossiga. Sei que você não é doido. Fique à vontade para falar o que o aflige.
— Sabe... puxa vida... como falar? Ela... essa sombra... Olha, eu não sou maluco, mas a minha sombra é uma mulher...
— Entendo... prossiga...
— Entende? Você entende? Entende mesmo? Olha, ela... ela... É incrível... ela... ela... (lágrimas escorrem).
— (silêncio estarrecedor)
— Ela é ninfomaníaca. É insaciável. Quer sexo o tempo todo, me provoca, me deixa louco, fico excitado, e ela nunca se sacia.
— Veja bem: essa imagem é um arquétipo, uma projeção do seu subconsciente, composto por um conjunto organizado de imagens, palavras e emoções, formando uma estrutura autônoma e dissociada do eu consciente.
— Você disse que entende, mas não sabe de nada. Não tem nada disso de arquétipo.
— Ouça, Lindolfo. Essa sombra feminina constitui apenas uma "subpersonalidade", comparável a uma personagem de uma peça de teatro: autônoma, independente de você e dotada de personalidade própria, projetada por você.
— Doutor, o senhor está excitando ela com esse papo.
— É? E como você acredita que isso seja possível? Lindolfo? Lindolfo? Cadê você?
— Aqui, embaixo do divã, com meu arquétipo...
— Caramba! Que sombra sedutora é essa? É real? O que é isso? Nunca vi nada parecido.
— Tira o olho, doutor! Tira o olho! É minha. Isso! Mexe, sua doida! Ai, que loucura! Ela ficou excitada demais com essa conversa.
— Bem, vamos seguir o trajeto dessa sombra desde a origem, nas próximas sessões, Lindolfo.
— O senhor acha que ela tem cura?
— Ela? Sessão dupla. Isso vai ser interessante. Terminou. Semana que vem quero ver os dois, no mesmo horário.
É isto aí!

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