quinta-feira, 2 de julho de 2026

O Analista da Pitangueira e a Sombra interativa


 — Senhor Lindolfo, pode entrar — disse placidamente a secretária.

— Sente-se onde estiver mais confortável, Lindolfo. Vamos conversar.

— Doutor, eu preciso que o senhor acredite em mim — disse, com a voz trêmula.

—  Procure ficar calmo. Conte-me o que está ocorrendo com o senhor.

— Começou comigo achando que aquilo era estranho, uma aberração, uma anormalidade. Tinha vergonha de falar para as pessoas; tinha medo de ser mal interpretado. Procurei vários especialistas e já estava desistindo quando me informaram sobre o senhor. Afinal, aquilo já estava passando dos limites.

— (silêncio contemplativo)

— Não sei como dizer isto... (lágrimas)

— (silêncio interrogativo)

— Sabe, as pessoas me acham esquisito...

— (silêncio investigativo)

— Mas eu não sou esquisito. Não me entendem...

— Quem não entende?

— Eles... as pessoas, a família... ninguém compreende.

— Pessoas da família ou pessoas estranhas e a família?

— Faz diferença para o senhor ser incompreendido?

— Não, para mim, não. Mas, para você, parece que isso é importante.

— Como assim, "para mim"?

— Quem o trouxe aqui, Lindolfo?

— Vim sozinho. Por quê? Você acha que ela me trouxe? Como soube?

— Não sou o oráculo das suas dúvidas, Lindolfo. As respostas estão em algum lugar dentro de você.

— Não! Não... Não está dentro de mim...

— O que não está dentro de você?

— Essa sombra. Não percebe? Ela... ela... Meu Deus! Você não vê?

— O que você vê que eu deveria ver, Lindolfo?

— Meu Deus, você não vê essa sombra?

— Fale-me mais sobre isso. O que há nessa sombra?

— Não é o que há... Meu Deus... Como explicar? Olha, eu não sou doido...

— Sim, prossiga. Sei que você não é doido. Fique à vontade para falar o que o aflige.

— Sabe... puxa vida... como falar? Ela... essa sombra... Olha, eu não sou maluco, mas a minha sombra é uma mulher...

— Entendo... prossiga...

— Entende? Você entende? Entende mesmo? Olha, ela... ela... É incrível... ela... ela... (lágrimas escorrem).

— (silêncio estarrecedor)

— Ela é ninfomaníaca. É insaciável. Quer sexo o tempo todo, me provoca, me deixa louco, fico excitado, e ela nunca se sacia.

— Veja bem: essa imagem é um arquétipo, uma projeção do seu subconsciente, composto por um conjunto organizado de imagens, palavras e emoções, formando uma estrutura autônoma e dissociada do eu consciente.

— Você disse que entende, mas não sabe de nada. Não tem nada disso de arquétipo.

— Ouça, Lindolfo. Essa sombra feminina constitui apenas uma "subpersonalidade", comparável a uma personagem de uma peça de teatro: autônoma, independente de você e dotada de personalidade própria, projetada por você.

— Doutor, o senhor está excitando ela com esse papo.

— É? E como você acredita que isso seja possível? Lindolfo? Lindolfo? Cadê você?

— Aqui, embaixo do divã, com meu arquétipo...

— Caramba! Que sombra sedutora é essa? É real? O que é isso? Nunca vi nada parecido.

— Tira o olho, doutor! Tira o olho! É minha. Isso! Mexe, sua doida! Ai, que loucura! Ela ficou excitada demais com essa conversa.

— Bem, vamos seguir o trajeto dessa sombra desde a origem, nas próximas sessões, Lindolfo.

— O senhor acha que ela tem cura?

— Ela? Sessão dupla. Isso vai ser interessante. Terminou. Semana que vem quero ver os dois, no mesmo horário.


É isto aí!

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