Naqueles dias recorri à minha voz interior, que sempre chamei de Uanga e disse que com o poder da retórica, Uanga faria de mim um ser invencível, insensível e inabalável. Errei nos desejos, mas acertei na companhia.
Daí batizei-o como Uanga Takuneqarsinnaanngilanga.
Traduzindo para a culta e bela língua pátria significa "Eu sou invisível", e aos poucos fui tateando e descobrindo suas ações dentro da minha existência.
— Diga-me, Uanga, quais a vantagens de existir e ser invisível?
— Uanga sabe, mas não diz, Uanga é quem manda com ou sem cerimonia sacra.
— Caramba, como assim você é o mandatário da minha existência e dos meus problemas?
— Alto lá, Homo Sapiens, alto lá! Desde o dia da sua longeva existência, ainda nos primeiros átimos de tempo, eu já estava lá, executando o que há de melh0r em você, promovendo através de uma desproporcional força silenciosa a moldagem de quem você é. Sou eu quem dita suas resistências e apegos sem que a sua frágil existência perceba. Além disto sempre fui eu, invisível, a impulsionar a sua ridícula luta para buscar aprovação entre seus pares e ímpares, e saiba, filho de Adão, que sou eu sempre aquele que irá insistir em seus próprios julgamentos e, pasme grácil ser, serei sempre Eu aquele que o fará evitar a vulnerabilidade a todo custo.
— Mas Uanga, e meu livre arbítrio, e minha capacidade de escolha?
— Ora ora... então você crê na liberdade das escolhas? Crê na ilusão de que você se torna eternamente responsável pelas suas opções e sempre o fez em prol da verdade e do bem unitário ou coletivo?
— Espera, você está brincando, não é? Este negócio de ser da Groelândia também é ilusão? Qual o sentido simbólico de ser da Groelândia? Quando serei livre?
— Calma rapaz, uma dor a cada passo, ou um passo de cada vez. Guarde consigo que voltarei mais ao tema e tenha sempre anotado que liberdade autêntica começa quando Eu deixo de ser invisível e passo a ser observado.
Mas como acontecerá isto? Que loucura é esta? Uanga?? Você ainda está aqui? Uanga??
É isto aí!
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