Estou sentado no improvisado escritório, onde outrora fora o quarto das crianças, que jurei que jamais cresceriam e acabaram partindo cada qual para seu canto. Contemplativo diante da tela do computador, penso na engenhosidade científica que faz surgir, em sua superfície, as imagens, textos e vídeos formados por milhares de pequenos pixels que emitem luz e cor para formar o que acredito ver.
As crianças se comunicam por meio destes aplicativos onde se fala, se vê, se escuta, se expressa, e pronto, nada de abraçar o pai, nada de sentar no colo para contar sobre as travessuras na escolinha. Há pelo menos 15 anos migraram para seus sonhos e um dia também estarão divagando que tempos bons eram aqueles.
De repente dou por falta do celular, este aparelho que virou o terceiro membro superior, cibernético e mágico da existência humana. Sei pouco sobre ele, mas já li que parece vincular-se quase imediatamente ao córtex cerebral, associado a funções como memória, linguagem, raciocínio e controle motor. Por enquanto estes aparelhos ainda não têm o mesmo DNA da nossa existência ... por enquanto.
De repente dou por falta do aparelho. Corro os olhos na mesa de trabalho, dou uma volta de 360 graus na cadeira, levanto para verificar no banheiro (sim, existem pessoas que o levam ao sanitário). E nada. Saio em direção ao quarto, onde a patroa ainda dorme. Tateio o criado mudo, passo a mão sob o travesseiro e nada. Desço para a sala de visitas, corro os olhos em todos os cantos neste ambiente que raramente utilizo na casa e nada.
Começo a ficar preocupado, logo vai dar quatro horas da manhã e ainda estou à procura do aparelho. Sigo para a sala de estar, revisto as prateleiras, o sofá, as poltronas e nada. O tempo vai passando. Dirijo-me à cozinha, busco até dentro da geladeira, e nada. Talvez na copa, quem sabe? Nada, nada, nada.
Sabe a Rádio Cabeça, aquela que vive compondo a trilha sonora da nossa vida, em tempo integral? Ela mesmo vai e resgata Ronda, do Paulo Vanzolini - Volto pra casa abatido, desencantado da vida, o sonho, alegria me dá, nele você está ...
Retorno ao improvisado escritório, que teimo em chamar de provisório, vai que as crianças voltam? Sento diante do monitor e não desisto, a busca não pode ser inútil. Olho para as horas e ... (maestro, música de suspense) lá está ele onde esteve o tempo todo, acomodado na mão esquerda.
Música Incidental: Ronda - Paulo Vanzolini
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