sexta-feira, 17 de julho de 2026

Conto da palavra perdida

 

Era uma vez uma palavra perdida 

que caminhava sem pressa 

rumo às análises morfológicas. 

Veio um verbo irregular

que não se manifestou 

enquanto sujeito da ação.

Passou por um substantivo, 

mas era abstrato demais.

Viu de longe um adjetivo 

que mudava tudo ao seu redor; 

escondeu-se porque achou-o perigoso.

Continuou vagando ávida

até que seus olhos correram 

para uma reluzente Preposição,

Era o seu complemento mágico

E foram felizes até que 

os versos e os reversos se acabem.

Uanga, meu Ego Groenlandês.



Numa calorosa tarde de verão, enterrei o corpo do meu pai no jazigo perpétuo da família. Aquilo sempre me incomodou: *jazigo perpétuo* não seria um pleonasmo?

No outono, perdi mamãe e despedi-me da sua existência física, da sua alegria, da sua amizade e de tudo o que ela representava para mim, no jazigo da família. Daí vieram as angústias e os tropeços.

Naqueles dias, recorri à minha voz interior, a quem sempre chamei de Uanga. Foi ele quem me disse que, com o poder da retórica, faria de mim um ser invencível, insensível e inabalável. Errei nos desejos, mas acertei na companhia.

Então batizei-o como **Uanga Takuneqarsinnaanngilanga**.

Traduzido para a culta e bela língua pátria, significa: **"Eu sou invisível."** Aos poucos, fui tateando sua presença e descobrindo suas ações dentro da minha existência.

— Diga-me, Uanga, quais são as vantagens de existir e ser invisível?

— Uanga sabe, mas não diz. Uanga é quem manda, com ou sem cerimônia sacra.

— Caramba! Como assim você é o mandatário da minha existência e dos meus problemas?

— Alto lá, *Homo sapiens*, alto lá! Desde os primeiros átomos da sua longa existência, eu já estava presente, executando o que há de melhor em você. Sou eu quem, por meio de uma desproporcional força silenciosa, molda quem você é. Sou eu quem dita suas resistências e seus apegos sem que a sua frágil consciência perceba.

"Além disso, sempre fui eu, invisível, a impulsionar sua ridícula luta pela aprovação entre seus pares e ímpares. E saiba, filho de Adão, que serei sempre eu quem insistirá em seus próprios julgamentos e, pasme, grácil ser, quem o fará evitar a vulnerabilidade a todo custo."

— Mas, Uanga, e o meu livre-arbítrio? E a minha capacidade de escolha?

— Ora, ora... Então você acredita na liberdade das escolhas? Crê na ilusão de que sempre decidiu em favor da verdade ou do bem, individual ou coletivo? E acredita, ainda, que é eternamente responsável por todas as suas decisões?

— Espera... Você está brincando, não é? E esse negócio de ser da Groenlândia também é ilusão? Qual é o sentido simbólico disso? Quando serei livre?

— Calma, rapaz. Uma dor a cada passo, ou um passo de cada vez. Guarde isto: a liberdade autêntica começa quando **Eu** deixo de ser invisível e passo a ser observado.

Mas como acontecerá isso?

Uanga...?

Nenhuma resposta.

É isto aí!

terça-feira, 14 de julho de 2026

A Vaca triste


A vaca triste

A vaca parou no pasto,
travou, pensou, mugiu,
olhou para o lado de cá
e abanou o rabo para lá.

Chamou seu bezerro
com bramidos do mar,
com bramidos do vento
e expressou lamentos.

Berrou com medo,
deu por falta, ainda cedo,
do seu filhote peralta
e chorou de soluçar.



segunda-feira, 13 de julho de 2026

Cartas de Amor 125


Reino da Pitangueira,

Planeta Terra & Lua,

3º do Sistema Solar,

Via Láctea, Zona Sul


Cartas de Amor 125

Epistulae Amoris CXXV


Querida,

Jurei que não voltaria e acabei desconjurando o dane-se. O caso é que não há mais como frear este cérebro em movimento acelerado, ladeira abaixo, no presente contínuo.

Tudo bem. Disse a mim mesmo que a vida é isto que se vê em 15% e aquilo que não se vê em 84%. O restante, esse intrigante 1%, deve ser a força que faz girar a vida e que não joga os dados, como dizia Einstein.

Quantas vezes morri sem saber que estava convicto de haver errado e, no fundo, no fundo, duvidava disso. Quando me reencontrava, ressuscitava com aquele terrível sentimento de que fizera uma enorme besteira.

Saiba, meu bem, que, falando em fundo, há dias em que minha vida entra nas vagas de Nazaré, aquelas ondas gigantes ao norte de Portugal, formando paredões que podem ultrapassar os 25 metros de altura. E só então, no desespero da luta, vejo você, eu e tanta gente tentando manter o equilíbrio para não se afogar nas próprias mágoas.

É inútil fugir desses paredões para abdicar dos problemas, pois isso apenas piora as coisas, provoca novas tempestades e potencializa a ondulação desse imenso oceano de seres e problemas vivos. A solução para uma vida sem sentido não é fugir, mas encará-la e vivê-la em sua totalidade, lutando contra o absurdo com revolta.

Cansei. Envelheci. Enfrentei árduos combates; alguns venci, muitos me machucaram. Hoje tomei uma decisão que, por enquanto, apenas toca um dos pontos mais sensíveis da minha existência.

Querida, descobri que não sei escrever cartas de amor. Não sei explicar esta luta que me habita. Não sei dizer coisas fáceis, escrever coisas óbvias, ler livros chatos, assistir a filmes hipócritas... 

Não sei. Não, não sei mesmo.

Só sei que você é esta profusão de amor em mim.


É isto aí!


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Sobre Picles e o sentido da vida


 — Amor, quando você me beija, o que você sente?

— Querida, sabia que já viajei de trem bala?

— Amor, você está tergiversando.

— Querida, nunca usei e jamais recorro a subterfúgios para com você.

— Amor, dar desculpas e fazer rodeios é mister da sua existência. 

— Querida, nunca evitei dar uma resposta direta e clara sobre quaisquer assuntos levantados por você.

— Amor, você, com esta voz macia e este tom melodioso, está está a evasivar para evitar uma resposta clara.

— Querida, longe de mim  ganhar tempo ou enganar você com ferramentas de fuga de diálogos que nos alimentam.

— Amor, Onde você gosta mais de me beijar? Fala a verdade. 

— Querida, gosto de toda a sua pela, suas mucosas, seus relevos, sua doçura ...

— Amor, onde você não gosta de me beijar. Fala a verdade ou...

— Querida, tudo bem, não faltarei com a verdade. Não gosto de beijar a sua boca em tempo integral.

— Amor, está brincando, não é?

— Querida, não estou brincando.

— Amor... é brincadeira, não é? (choramingando).

— Querida ... (silêncio)

— Amor, fala o motivo, diz a verdade, pelamordedeus (gritando e chorando)

— Querida, sua boca tem gosto de picles.

— (Silêncio sepulcral entre as partes.)

— Cafajeste, monstro, insensível, adeus, nunca mais outra vez terá meu gosto na sua boca de sapo.

 — Boca de sapo quem tem é sua mãe, sua chata.

— Chata é a mocreia da sua irmã.

— Aposto que você nunca beijou outra menina, nem sabe o gosto das minhas amigas.

— Celeste tem sabor de framboesa, Chiquinha tem gosto de glacê e Dadá,  tem gosto de cereja.

— Você é um monstro insensível, um pusilânime, só resta o adeus.

—  Querida, antes de partir poderíamos ...

— Posso entender o sentido disto?

— Adoro picles na língua...

quinta-feira, 2 de julho de 2026

O Analista da Pitangueira e a Sombra interativa


 — Senhor Lindolfo, pode entrar — disse placidamente a secretária.

— Sente-se onde estiver mais confortável, Lindolfo. Vamos conversar.

— Doutor, eu preciso que o senhor acredite em mim — disse, com a voz trêmula.

—  Procure ficar calmo. Conte-me o que está ocorrendo com o senhor.

— Começou comigo achando que aquilo era estranho, uma aberração, uma anormalidade. Tinha vergonha de falar para as pessoas; tinha medo de ser mal interpretado. Procurei vários especialistas e já estava desistindo quando me informaram sobre o senhor. Afinal, aquilo já estava passando dos limites.

— (silêncio contemplativo)

— Não sei como dizer isto... (lágrimas)

— (silêncio interrogativo)

— Sabe, as pessoas me acham esquisito...

— (silêncio investigativo)

— Mas eu não sou esquisito. Não me entendem...

— Quem não entende?

— Eles... as pessoas, a família... ninguém compreende.

— Pessoas da família ou pessoas estranhas e a família?

— Faz diferença para o senhor ser incompreendido?

— Não, para mim, não. Mas, para você, parece que isso é importante.

— Como assim, "para mim"?

— Quem o trouxe aqui, Lindolfo?

— Vim sozinho. Por quê? Você acha que ela me trouxe? Como soube?

— Não sou o oráculo das suas dúvidas, Lindolfo. As respostas estão em algum lugar dentro de você.

— Não! Não... Não está dentro de mim...

— O que não está dentro de você?

— Essa sombra. Não percebe? Ela... ela... Meu Deus! Você não vê?

— O que você vê que eu deveria ver, Lindolfo?

— Meu Deus, você não vê essa sombra?

— Fale-me mais sobre isso. O que há nessa sombra?

— Não é o que há... Meu Deus... Como explicar? Olha, eu não sou doido...

— Sim, prossiga. Sei que você não é doido. Fique à vontade para falar o que o aflige.

— Sabe... puxa vida... como falar? Ela... essa sombra... Olha, eu não sou maluco, mas a minha sombra é uma mulher...

— Entendo... prossiga...

— Entende? Você entende? Entende mesmo? Olha, ela... ela... É incrível... ela... ela... (lágrimas escorrem).

— (silêncio estarrecedor)

— Ela é ninfomaníaca. É insaciável. Quer sexo o tempo todo, me provoca, me deixa louco, fico excitado, e ela nunca se sacia.

— Veja bem: essa imagem é um arquétipo, uma projeção do seu subconsciente, composto por um conjunto organizado de imagens, palavras e emoções, formando uma estrutura autônoma e dissociada do eu consciente.

— Você disse que entende, mas não sabe de nada. Não tem nada disso de arquétipo.

— Ouça, Lindolfo. Essa sombra feminina constitui apenas uma "subpersonalidade", comparável a uma personagem de uma peça de teatro: autônoma, independente de você e dotada de personalidade própria, projetada por você.

— Doutor, o senhor está excitando ela com esse papo.

— É? E como você acredita que isso seja possível? Lindolfo? Lindolfo? Cadê você?

— Aqui, embaixo do divã, com meu arquétipo...

— Caramba! Que sombra sedutora é essa? É real? O que é isso? Nunca vi nada parecido.

— Tira o olho, doutor! Tira o olho! É minha. Isso! Mexe, sua doida! Ai, que loucura! Ela ficou excitada demais com essa conversa.

— Bem, vamos seguir o trajeto dessa sombra desde a origem, nas próximas sessões, Lindolfo.

— O senhor acha que ela tem cura?

— Ela? Sessão dupla. Isso vai ser interessante. Terminou. Semana que vem quero ver os dois, no mesmo horário.


É isto aí!

Sobre faltas e ausências .


Estou sentado no improvisado escritório, onde outrora fora o quarto das crianças, que jurei que jamais cresceriam e acabaram partindo cada qual para seu canto. Contemplativo diante da tela do computador, penso na engenhosidade científica que faz surgir, em sua superfície, as imagens, textos e vídeos formados por milhares de pequenos pixels que emitem luz e cor para formar o que acredito ver.

As crianças se comunicam por meio destes aplicativos onde se fala, se vê, se escuta, se expressa, e pronto, nada de abraçar o pai, nada de sentar no colo para contar sobre as travessuras na escolinha. Há pelo menos 15 anos migraram para seus sonhos e um dia também estarão divagando que tempos bons eram aqueles.

De repente dou por falta do celular, este aparelho que virou o terceiro membro superior, cibernético e mágico da existência humana. Sei pouco sobre ele, mas já li que parece vincular-se quase imediatamente ao córtex cerebral, associado a funções como memória, linguagem, raciocínio e controle motor. Por enquanto estes aparelhos ainda não têm o mesmo DNA da nossa existência ... por enquanto.

De repente dou por falta do aparelho. Corro os olhos na mesa de trabalho, dou uma volta de 360 graus na cadeira, levanto para verificar no banheiro (sim, existem pessoas que o levam ao sanitário). E nada. Saio em direção ao quarto, onde a patroa ainda dorme. Tateio o criado mudo, passo a mão sob o travesseiro e nada. Desço para a sala de visitas, corro os olhos em todos os cantos neste ambiente que raramente utilizo na casa e nada. 

Começo a ficar preocupado, logo vai dar quatro horas da manhã e ainda estou à procura do aparelho. Sigo para a sala de estar, revisto as prateleiras, o sofá, as poltronas e nada. O tempo vai passando. Dirijo-me à cozinha, busco até dentro da geladeira, e nada. Talvez na copa, quem sabe? Nada, nada, nada.

Sabe a Rádio Cabeça, aquela que vive compondo a trilha sonora da nossa vida, em tempo integral? Ela mesmo vai e resgata Ronda, do Paulo Vanzolini - Volto pra casa abatido, desencantado da vida, o sonho, alegria me dá, nele você está ...

Retorno ao improvisado escritório, que teimo em chamar de provisório, vai que as crianças voltam? Sento diante do monitor e não desisto, a busca não pode ser inútil. Olho para as horas e ... (maestro, música de suspense) lá está ele onde esteve o tempo todo, acomodado na mão esquerda.

Música Incidental: Ronda - Paulo Vanzolini

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Papo de Esquina - O gerente enfezado

O gerente foi se aproximando da minha mesa e, assustadoramente, mirava os olhos sobre um ponto fixo, que parecia ser eu. Logo eu, mudo, calado, reservado e sempre tentando ser invisível. Por experiências anteriores pensei que, nos segundos seguintes, ele se aproximaria e faria da minha vida um caos em queda contínua.

Andava apressado, corpo rígido e ereto, feito um recém nomeado chefe da turma do batalhão de choque, sendo que aqui é a sala da turma de análise de mercado. Mas ele é um imbecil e sempre confunde alhos com bugalhos da mãe dele.

Para evitar o dano causado por não saber, você, sim, você que por agora lê este inventário não profano, saiba que, desde as eras primeiras da criação da nossa pátria-mãe, a querida Portugal, reza a lenda que a analogia entre alhos e bugalhos deu-se por ser o alho bem conhecido, de bulbo em gomos, e bugalho, uma excrescência em formato de bola que se forma nos ramos de certas árvores.

Bem, pelo menos agora você já tem assunto para quando estiver conversando consigo sobre o número que sonhou, mas não jogou, e, para aumentar o sofrimento, e o que é pior, recusa-se a buscar o resultado oficial.

Voltando ao beócio: cada vez mais perto, cada vez mais próximo, até que, diante da minha mesa, foi direto para a caixa da chave do banheiro de uso restrito, mantido sempre limpo. Correu para lá, impulsionado por gases fétidos terrivelmente tóxicos. A contar pelos gemidos e sons diversos, literalmente esvaziou-se em si mesmo.

Moral da História: nem tudo é o que parece. O gerente era um cagão contumaz, e eu, tenso e assustado, havia esquecido disto.


É isto aí!