sábado, 29 de agosto de 2026

Sobre o amor e as ausências matriciais

 


Dia sim, dia não, ele passava empurrando seu carrinho. Da janela da sala cumprimentava-o para seguir o dia, dava um sorriso largo e cada qual para sua batalha.

Todo dia ela passava, linda e sensual, pela calçada e nossos olhos se cruzavam cada vez mais ternos. Sorríamos discretamente e cada um seguia seu caminho.

Todos os dias, ao chegar no escritório, recebia um bom dia da zeladora do prédio. Acenava a cabeça para ela e seguia sem dar retorno ao agrado.

Toda quarta-feira tinha o encontro da turma no bar do Zé Gomes. Nunca cumprimentei o tal do Zé Gomes.

Todo dia chegava em casa cansado, a esposa estava de mal humor, como sempre. Entrava no banho, depois demorava nos documentos online que precisava do meu aval até as sete horas da manhã.

Todo dia chegava no quarto, ela dormindo e eu desejando a vizinha, o sexo era uma coisa mecânica, sem carinho, sem olhares sem nada, até ela dormir.

Todo dia tudo igual e eu ainda não reparava que estava morto há décadas.


É isto aí!

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