sábado, 8 de agosto de 2026

Para todo o sempre


Sabe do que eu não gosto? — perguntou a moça ao enamorado, amigo e companheiro.

Veio o silêncio com um profundo e eterno vazio e ocupou o lugar. Ele sabia que a pergunta capciosa trazia consigo uma articulosa engenharia passional, com risco calculado e data para um embaraçoso adeus.

Então, mais uma vez, ela guardou o silêncio na ampulheta dos adventos com obstáculos complexos, tais como os segredos. Daquele dia em diante, ele engendrou uma via capaz de recebê-lo em alta velocidade, em curva sinuosa, sem machucar e sem destruir o que já havia edificado. Aguardou o momento certo.

Tempos depois:

Sabe quem eu vi na festa da minha prima? — indagou ao companheiro de jornada pelos caminhos dos corpos ardentes. O rapaz arqueou a sobrancelha direita e indagou tateando a resposta, então veio um olhar conjugado com um sorriso há muitas semanas ensaiado, revelando uma expressão fria, calculista e séria, simbolizando a perda da sincronicidade entre os dois e a maldade inerente ao significado da citação da prima. 

Ocorreu que em determinada era pré-romântica, naqueles dias prévios em que há a dança do acasalamento engraçou-se por Lalá, uma deliciosa escultura de carne em pele sedosa, amiga para sempre da prima Julinha, e com Lalá manteve secretamente o relacionamento íntimo e sensual por semanas, mesmo após o aceite da moça. Sua prima ...  na festa? Não faço a menor ideia..

Então, pelo viés da elegância, ele em silêncio sabia que ela sabia e resolveu desviar a conversa para assuntos vários, até ela entrar no catártico tema das eleições. Ele prestava atenção máxima até onde daria aquela prosa, escutava atentamente para não se perder nada. A moça falou das traições, dos candidatos ruins, péssimos, medianos, sarcásticos, maledicentes, desonestos, apátridas e imorais. E até existem, creia, os falsos bonzinhos com boas intenções.

Ele sentiu o golpe; olhou no fundo do vazio que abrigara seus olhos amendoados outrora, levantou-se, abriu o guarda-chuva imenso e proferiu a sentença:

— Estou indo porque vem a chuva, com raios, trovoadas e alagamentos.

Depois disso, com o final do dilúvio, reencontraram-se na praça da Matriz. Ela transpassou por ele e, então, finalmente, ficou preso ao coração dela, sem achar a saída.

É isto aí!

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