sexta-feira, 14 de agosto de 2026

MoçaFlor, você me deixou mal acostumado 2


Deu que, num dia destes, longos e doloridos, passando sem notícias suas, deu da ideia que assobradou pelas partes até chegar ao teto da laje da cabeça, e vi que foi das minhas ideias uma das mais apaixonadas que nós dois poderíamos ter numa aninhada rede de algodão, feito seu corpinho de boneca, macia e confortável.

Suspiro só de pensar que enquadrei meus sonhos voltados para a frequência dos rádios daqui da cidade. Assim como penso em você todo o tempo, e você deve também pensar em mim todos os dias, concluí que isto só acontece porque estamos sintonizados na mesma frequência. Vi isso numa viatura da polícia que estava parada e logo entendi: é tudo questão de sincronizar.

Deu de eu procurar o Padre Joãozinho, um gigante da fé, e relatei a ele minha descoberta. Pedi para ele ligar a antena do céu, igual à dos homens da farda, já que ele sempre faz esta ligação com o Divino e o Amor. Ele ficava só me olhando ali, com aqueles olhos esquisitos e cada vez mais estranhos, enquanto eu fazia a solicitação.

Daí ele perguntou se eu rezava todos os dias ou se passava muito tempo sem falar com Deus?

Olhei nos olhos dele e falei que nem que sim, nem que não, pois meus processos de pensamento estão travados e ficam fervilhando por você, MoçaFlor, por causa do modo como ficamos, um para lá e outro para cá, sem sintonia fina. Só queria a liberação do céu, ele ligando e nós no bem — bom, que custa?

Daí ele levantou, foi até uma cadeirinha de madeira, colocou um pano comprido, travado na nuca, e me convidou para sentar. Deu a volta, sentou-se de frente e lascou a pergunta que eu ouvi junto com você, na mesma frequência:

— Você já perdoou quem te machucou ou guardou rancor e desejo de vingança?

— Isto é entre eu e meus amigos e inimigos, seu Padre, não é da sua conta.

Ele levantou as duas sobrancelhas, seguidas do levante dos olhos, suspirou fundo e fez outra pergunta:

— O senhor falou mal dos outros por maldade, interesse ou fofoca, e julgou o próximo?

Ali senti o fervilhar do sangue, fui esquentando as partes, os membros, e o calor seguiu bufando. Com os dentes travados, devolvi a grosseria em voz alta:

— Está me estranhando? Sou lá homem de fofoca, melindre e mentiras?

Aí, MoçaFlor, ele fez a pergunta que atazanou nós dois, já que eu sabia que você me ouvia. Como pode um homem padre fazer uma pergunta destas?

— Seus pensamentos, desejos e ações são puros ou contaminados pelo pecado?

Ah! MoçaFlor, quando abri os olhos, estava dentro do camburão da lei, todo amarrado, machucado e confuso. Mas aí dei de prestar atenção no moço do tal aparelho que fala e responde. Tinha que abrir e fechar os pensamentos com a chave do Câmbio.

De hoje em diante, acertei os passos das conversas. Abro e fecho os pensamentos no Câmbio e pronto. MoçaFlor, eu amo você, Câmbio.


É isto aí!

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