quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Olhos Sanpaku

 


Notas prévias de esclarecimento

Olá! Meu nome é Teobaldo Aristarco de Samos. Pouquíssimas pessoas sabem disso. A verdade é que odeio Teobaldo. Isto sempre me deixa irado. Ideia do meu pai ter um filho ousado, audacioso, destemido, quando eu só queria ser milionário e ficar rico.

No meio jurídico, onde fiz fama, glória e fortuna, sou o Dr. Aristarco. E aí está o que sempre adorei: ser heliocêntrico em tempo integral.

Tenho 43 anos, três filhas — graças às preces, nenhum menino para chamar de Teobaldo. Não tenho deixado faltar nada a elas nem à mãe delas. A separação foi de comum acordo, numa trama fiduciária cujo risco calculado deu certo. Passados dez anos do divórcio, ainda temos um relacionamento respeitoso e ameno.

Um dia, depois de uma vitória considerada impossível — quando alguns desembargadores já haviam sinalizado um resultado adverso —, saí com minha equipe para comemorar.

Comemorávamos o impossível.

O Preço do Amor Sanpaku

Aviso de utilidade pública: cruzar o olhar de uma deusa sanpaku é assinar, em cartório, o termo de doação do próprio amor-próprio.

Naquela tarde, início da noite, já abusando do Martini, fui fisgado por um olhar que me absorveu por completo.

A partir daquele encontro, entreguei-me a uma mulher tão voluptuosa que a gravidade parecia curvar-se ao seu redor, mas com aquelas íris caídas que fitavam o horizonte como se eu fosse apenas um boleto vencido.

Perdi completamente minha autoestima, entregando-me integralmente ao seu frio e protocolar amor.

Ela não dizia “eu te amo”, mas exigia todo o meu amor.

Emitia um recibo de tolerância afetiva, com direito a carimbo e cópia autenticada. Seu abraço era um procedimento técnico de baixa caloria que durava segundos — tempo suficiente para desintegrar o resto da minha dignidade.

A Noite do Adeus

Numa noite, sóbrio, disse adeus.

Ela olhou-me furiosamente com seus olhos sanpaku.

Vivi uma experiência única. Travei todo o corpo, e ela, como se fosse desenhada por algum grande mestre da pintura em um dia de ódio, andava como quem pisa em baratas metafísicas.

Eu aplaudia cada pisada no meu ego.

Só que não sabia que quem recusa amar uma sanpaku fria acaba virando lenda urbana na boca dos amigos de bar.

Eu não virei lenda.

Virei mobília.

Rota de Fuga

Havia algo neandertal nos meus pensamentos. Eles passaram a alucinar com vários fetiches diante daquela deusa exuberante. Até hoje me pergunto se aquilo foi real.

Vi nós dois dividindo uma coxa de mamute crua diante da fogueira sagrada. Achei que seria sacrificado para agradá-la, linda e sensual, vestida com peles de grandes felinos.

Abriu-se, de súbito, um portal para o túnel de escape de pensamentos. Saltei para dentro dele e fugi dali.

Saltei de um penhasco enquanto, ao mesmo tempo, naufragava em um mar de curvas tempestuosas, numa indiferença jurássica.

Ainda não sei como saí, mas me senti seguro deitado no sofá da minha sala.

Os Efeitos Colaterais da Fuga

Aí começaram a acontecer coisas estranhas.

Primeiro veio a gagueira.

Aquilo foi o princípio da ruína para um bem-sucedido advogado.

Eu, que raramente perdia causas complexas, dono de enorme poder de persuasão e de uma capacidade mnemônica ímpar, amanheci estranho e, no decorrer do dia, virei um gago trêmulo.

Imagine o melhor advogado de toda a história forense acometido por uma gagueira psicogênica.

Seria motivo de riso e escárnio.

E isso significaria a destruição da credibilidade.

Toda vez que eu pensava no olhar sanpaku daquela deusa, minha língua travava como um motor sem óleo.

Desesperanças e Consequências

Desesperado, fui ao terreiro de Mãe Dorinha.

Ela me aconselhou a pular a fogueira três vezes no sentido norte-sul e três vezes no sentido leste-oeste; andar descalço sobre as brasas e, por fim, tomar um banho de descarrego.

Pulei o fogo, andei na brasa e me senti melhor.

O banho de ervas levou embora o lodo da humilhação.

Virei um novo homem.

A gagueira sumiu, e minha língua voltou a ser uma máquina de fechar contratos de milhões.

Quando levantei os olhos, deparei-me com aquele olhar de ódio, acompanhado de palavras de maldição.

Dessa vez, o feitiço não bateu.

Eu estava curado.

Nervos de Aço e Ingenuidade Infantil

Um dia, acordei num acampamento romani.

Eu conhecia aquele lugar. Não sei por qual motivo, mas havia uma estranha sensação de pertencimento.

Minha alma de advogado parecia ter encontrado sua verdadeira vocação ancestral.

Foi então que ela entrou na tenda, sorriu, despiu-se dos véus e começou a esmurrar meu tórax.

Foi direto no esterno, com uma sequência de ganchos e cruzados, para me lembrar de que o amor dói.

Foi quando o cenário mudou.

Passei a sentir contrações. Minha boca estava travada, e ela gritava:

— Volte! Volte!

Ao mesmo tempo, alguém pressionava um desfibrilador contra meu peito.

Eu estava numa ambulância.

Enquanto lutava contra seres disformes, as descargas elétricas de um paramédico tentavam reanimar meu coração parado.

Minha boca travada era o tubo de oxigênio na garganta.

Eu havia sofrido um baita infarto fulminante.

Minha autoestima caiu tanto que meu coração resolveu parar de bater só para não passar mais vergonha.

Acordava vez ou outra numa UTI, entre bipes e silêncios sepulcrais.

Nos raros momentos em que meus olhos se abriam naquele ambiente estéril, a imagem dela surgia através do vidro embaçado.

Os olhos sanpaku continuavam me fitando.

Mas agora estavam cheios de cansaço e pânico de me perder.

Eu precisei quase morrer para entender o tamanho do espaço que ocupava na vida dela.

Depois da alta, voltei ao apartamento.

Quando a equipe saiu e a porta se fechou, o suspense voltou.

Ela se aproximou devagar, com aquela presença voluptuosa.

Mordiscando os lábios, sorriu maliciosamente e perguntou:

— Querido, foi bom para você?

Gargalhou.

E desapareceu num piscar de olhos.

A porta continuava fechada.

O quarto continuava vazio.

Só o perfume exótico dela ainda flutuava no ar.

Olhei para o lado e vi o papel da alta médica.

Ela se foi, pensei, mas deixou a conta do hospital e o preço da minha humilhação para eu pagar sozinho.

Espero que vocês nunca entreguem seu coração a quem tem olhos sanpaku, a menos que você tenha um ótimo plano de saúde.




É isto aí!

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