Deu B.O. na D.R. da fila
Cena 1 — No caixa
Estava tudo tranquilo, menos o grande movimento do supermercado, em razão do feriado do dia seguinte, emendando com o domingo. O povo fica excitado numa situação dessas, sei lá, vai saber... Melhor não peregrinar por esta via.
Cheguei à fila do caixa. Era o terceiro, tendo à minha frente um casal de idosos com dois carrinhos lotados. Lentamente, o senhor colocava as compras na esteira, numa longa e detalhada operação: pegava uma mercadoria do carrinho, conferia numa lista e, finalmente, entregava-a ao caixa, que rapidamente a repassava à senhora. Ela, por sua vez, reexaminava a qualidade da embalagem, a validade do produto e procurava a melhor posição para depositar a mercadoria no carrinho que ele havia colocado para montar a carga.
O segundo da fila era um homem de cerca de 40 anos, comum. Nada de excepcional que merecesse destaque. Atrás de mim, uma mulher imensa, com bobes no cabelo cobertos por um lenço verde-esmeralda, camiseta preta de algodão pima, tamanho extra G, e uma calça legging fitness, feita de suplex neon. Aos pés, uma indefectível e desgastada rasteirinha dourada, feita de tiras e nós. Unhas de gel douradas, também desgastadas. Os dedos, à velocidade da luz, percorriam uma rede social.
Cena 2 — Discutindo a relação na fila
— Alaor... Alaor, está surdo? — disse a mulher. — Ajuda estes velhinhos lerdos, senão não sairemos daqui hoje e ainda tenho que deixar estas comprinhas para a mamãe.
“Comprinhas” era uma forma educada de explicar o dobro das compras do homem à minha frente.
— A idosa logo gritou: — Alto lá! Sou idosa, mas não sou baranga. Além disso, estou dentro do meu direito, sua ridícula.
— Alaor, fala alguma coisa. Dá uma chamada neste estropício. Ela me ofendeu demais. Alaor... Alaor, merda, está surdo? Já não estou boa com você e ainda se faz de surdo, seu merdinha.
Alaor se virou no estreito corredor do caixa, esticou o braço direito na direção da esposa, colando-o ao meu ouvido.
— Olha aqui, Dagmara, vá à merda. Se não está satisfeita, fala logo. O que eu fiz para te deixar tão histérica?
— Histérica, eu? — gritou a esposa. — Olha só, seu marginal, você se derreteu quando estacionamos o carro neste mercadinho mequetrefe, só para que sua ex-pirata do job te cumprimentasse. Aquela vaca não merece nem pisar na poeira por onde eu passo. Uma desqualificada, uma sem-vergonha. Vontade de ter esmurrado ela.
Cena 3 — A causa aparece
— Agora entendi este enfezamento. Está com ciúme da Beatriz. Veja bem, Dagmara, ela é mãe dos meus filhos, trata-os com carinho e dedicação, e o fato de ser minha ex-esposa não me faz ser inimigo dela.
— Alaor, você é um idiota. Eu que faço você andar para frente. Se não fosse euzinha, aquela vaca já tinha te tocado de volta para o pasto dela. Alaor, espera! Alaor, onde você vai? Alaor, deixe pelo menos o cartão. Alaorzinho, volta... volta, seu merda.
É isto aí!
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