Depois de vinte e três anos, sete meses, 13 dias e cinco horas, reencontrei-me com ela, por acaso, numa feira de brechó. Ignoramo-nos de forma histriônica. Mais ágil, saí primeiro. Na movimentada calçada senti um puxão. Pelo jeito, parecia o marido dela. Fez sinal para segui-lo, entrou e saiu por vários becos e barracas ambulantes até entrarmos num café pra lá de sinistro.
Sentamos à mesa três e ficamos nos indagando em silêncio o que era aquilo. O marido parecia ser mais velho que eu, sabe? Tinha um estilo cafetão aposentado. Pediu uma cerveja barata e dois copos. Aquilo prometia ser demorado.
Em meia hora éramos os melhores amigos do mundo, até que ele fez a pergunta proibida — Meu amigo, por que você não casou com ela? Fiquei ali, desfocado e deslocado de tempo e espaço. Não entendi a pergunta. Não sabia a resposta, e agora, o que eu falo?
Na mente, a sangria das dores começou. Uma voz ficou irritantemente falando — Eu disse, eu avisei — e outra mais nervosinha insistia com — eu sabia, eu sabia — e nisto personas foram saindo de mim um a um, bem de fininho. Quando voltei ao plano terrestre, o marido já não estava mais ali.
Pedi a conta, já estava paga. Voltei ao brechó e ela não estava mais ali. Peguei a bicicleta e parti para casa. Cheguei e, para meu completo desespero, as duas estavam sentadas, tomando chá com torradas, dando gargalhadas. A esposa apresentou-a como amiga da infância e além disto tinham amigas em comum, gostos parecidos etc etc etc.
Passei direto para o quarto. Sentei na cama e chorei.
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