segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Eu, a sina e Fulaninha


Estou caminhando por um corredor imenso, ladeira acima, sem corrimão, sem tapete, sem lâmpadas — agora que reparei que está tudo claro, sem lâmpadas — e não tem janelas, mas há um ar leve, agradável a me envolver. Não sinto frio nem calor. Estou há horas subindo este caminho único e não sinto cansaço nem suor.

Eventualmente ouvia umas músicas estranhas, das quais nunca ouvi em vida — opa, tive um arrepio enorme agora. Será que morri? — Caramba, deve ser isto. Ou então estou sonhando, sei lá. Melhor seguir o fluxo. Cheguei a um descampado lindíssimo. Havia céu, rosas e flores de todas as cores e aspectos sobre um gramado absolutamente nivelado.

Abria os olhos e estava num ambiente hospitalar, fechava os olhos, voltava ao descampado. Aquilo estava me divertindo, já que não tinha muita coisa para fazer. De repente sinto uma forte cutucada na costela que dói muito. Fui me levantando bem devagar e sentei numa cadeira comum, nada de excepcional. Havia uma luz intensa à minha frente.

Fechei os olhos e me deparei com uma face conhecida. Era Fulaninha, o grande amor da minha vida. Chamei-a pelo nome e imediatamente dois gigantes de mais de dois metros entraram à minha frente e taparam a visão dos olhos fechados. Parece um paradoxo, mas era o que tinha. Resolvi retornar ao ambiente hospitalar - ouço vozes - "ele voltou, segura a pressão".

Alguém me chamou em voz alta e balançou meus ombros. "Se não houver resposta, ela está inconsciente", sussurrou uma mulher. Apertei levemente a mão que segurava a minha mão esquerda. "Ele está consciente!", gritou e então vieram as intermináveis compressões torácicas.

Fulaninha ficava aparecendo e desaparecendo no meu campo visual e uma voz sobrenatural, que transpassava minha existência e ecoava em várias dimensões, indagou-me sobre um silêncio total: "Houve compaixão demonstrada com o próximo?"

Fulaninha ia e vinha, ia e vinha... meu corpo vagava num silêncio transformador. Compreendia tudo, desde o princípio até o agora e para sempre. Apertei com força a mão de Fulaninha e voltei a sonhar. Estava de volta de não sei onde e agora devo cumprir minha sina.


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