A mocinha, toda lindinha, toda cheirosinha, olhou nos olhos dele com aquele brilho que lhe pareceu ser do desejo maternal. E ficou convicto que não era qualquer olhar, era o apelo do ato gestacional. Ele olhou para a moça, correu os olhos por uma saída de emergência e percebeu-se atado ao momento.
Aquilo não era instinto, era puro ato de defesa dos seus princípios — não nasceu para ser pai, nunca desejou ser pai e tinha convicção disto. Nada contra ela, nada contra crianças, nada contra o direito feminino de escolher o pai da sua geração. No fundo, no fundo acreditava piamente que o desejo materno iria muito além de um mero instinto.
Pensou nas fraldas, nos choros, nas madrugadas em claro, veio à luz a ressignificação da paternidade como um elemento peremptório para a fuga. Dirigiu-se à porta, parou petrificado ao tocar a maçaneta. Com muito esforço dirigiu-se para a saída da área de serviço. E a mocinha olhando e ele evitando olhar para ela.
Na área de serviço percebeu que a porta estava trancada. Era o ponto final. Voltou à sala, trocaram o olhar inevitável. Reconheceu que poderia estar errado e aquele momento espiritual acenou-lhe que também precisa do perdão da autopiedade. Perdoar é deixar o orgulho de lado e enxergá-la como a sua metade existencial.
Voltou os olhos para ela. Estava convicto que ela o encarava com olhos esbugalhados e ardentemente passionais. Partiu ao encontro dos seus braços e ela botou a mão espalmada no seu peito e bradou - alto lá, meu bem, hoje é daqueles dias sem condições de ceder aos seus desejos primitivos.
Então abraçou-a e chorou compulsivamente. Foi salvo pela natureza da amada em franco e pleno funcionamento hormonal. Só pensava que aquilo fora um alarme falso que nunca ocorreu até então. Após a catarse, sentiu-se purificado, com a alma limpa gerando a sensação de liberdade. Naquele dia conheceu um medo que nunca antes sentira. Teve medo de si mesmo.
É isto aí!

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