Merda — gritei a plenos pulmões — deitado, travado e desnorteado. Nada sei deste lugar e nenhuma referência passa pelos pensamentos, vagos e confusos. Lembro das aulas onde aprendi sobre o curare.
Puta merda, tenho asco daquele professor de farmacognosia até hoje. Se não morreu, deveria. Estou só. E merda: outra vez merda. Mudando o plano rotacional dos pensamentos inúteis, recordo as lições de Latim, onde aprendi que a palavra merda significava literalmente fezes, excremento ou esterco. Dou um leve sorriso pela lembrança da Dona Ruth se esforçando para sermos alguma coisa.
Já falei do curare, eu acho, parece que sim. Veio aqui, na beirada da memória que ele é um veneno paralisante extraído de certas plantas amazônicas, historicamente usadas por povos indígenas em flechas para caça. Se bem me lembro, atua bloqueando os impulsos nervosos nos músculos, causando paralisia muscular intensa.
Agora estou aqui, xingando todas as merdas paralisantes. E, claro, mudando de foco e permanecendo travado, digo que a palavra puta também vem do latim e significa exatamente o que quer dizer. Essa palavra, lógico, Dona Ruth nunca ensinou — aprendi nos guetos, becos e vielas. Dona Ruth era uma santa e o da farmacognosia era o antagonista das pessoas santificadas.
Vejamos: estou só, preso ao chão pela força da gravidade, sem muitos movimentos, a não ser os olhos, que descobriram um espelho à minha esquerda. Do espelho vejo a fresta da luz começando seus primeiros raios na atmosfera. E há um perfume — não um perfume qualquer, mas um perfume feminino, desses exclusivos para os pés da mulher amada ou desejada.
Sinto a respiração pausada, leve, educada, fina e elegante de alguém no ambiente me inspecionando. Era a mulher do perfume nos pés, com certeza. Agora sei onde estou, sei quem é ela e sei o que estou fazendo aqui. Sei onde estou e daqui a pouco tudo acabará.
Simboralá levantar e trabalhar...
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