Ainda estava confuso quando percebeu o luar sobre o lago. A chuva o levara a se abrigar naquele ambiente até então estranho. Então algum telefone começou estridentemente a tocar.
Bateu a mão nos bolsos e percebeu que estava nu.
— Como pode isto? — refletiu entre raios, trovoadas e o telefone que não parava de gritar.
Seguiu o som. Após três tombos tateando o escuro, chegou ao aparelho. Deduziu que era uma ferramenta de contato, mas não tinha teclas nem controles de comando. Ao tentar levar as mãos ao objeto estranho, sentiu-se preso. Uma enorme pressão no tórax. Imobilidade nos membros inferiores.
Foi então que Madalena veio.
Madalena era uma menina bonita e má. Morava na beira da praia e detestava areia. Todo dia repetia um mantra que, segundo a própria, ajudava-a a desenvolver foco, paz interior e vibrações positivas. Mas Madalena era má, sim — e ele sabia disso —, e também sabia que ela só existia em planos plurais.
Ele deu por conta de que estava preso. Imóvel. O corpo desaparecido num terreno plano que parecia ser uma imensa mesa de estilo colonial. Aquilo não era terreno — não da forma como ele pensava —, apesar da vastidão da área deserta. Com muita dificuldade, torceu o corpo ora para a direita, ora para a esquerda, e percebeu que, para suportar a imobilidade, precisava se perder em Madalena.
E então ela voltava, mais nítida:
Nenhuma menina da vila era mais bonita que Madalena. Tinha tudo no lugar certo, nas medidas exatas, na cor desejada, no delineamento do corpo: passo a passo, palmo a palmo, polegada a polegada, milímetro a milímetro. Cada centímetro de sua pele era uma delícia inefável, uma beleza infinda, um perfume inebriante.
Ele começou a divagar que seu corpo não era mais seu corpo.
— Era uma coisa mefistofélica — pensou —, não tenho pés, nem pernas, nem braços. Sou, do pescoço para baixo, uma coisa a ser definida.
Girando o corpo mais um pouco para a esquerda, conseguiu voltar ao campo original forçando um movimento para a direita. Mas Madalena não saía. Ela estava ali, na imensa mesa colonial, deitada sobre uma miríade de possibilidades.
Madalena era plena de si, com a certeza absoluta de ser uma mulher indescritível, indizível, inexprimível, inenarrável, sublime e maravilhosa — feito Vênus, a deusa do amor, da beleza, do desejo, da fertilidade e da prosperidade.
Ele dera o máximo de si naquela conjunção retrógrada, feito Mercúrio. Transformara-se num parafuso preso ao ponto magnífico entre o limite astral e o setentrional de Madalena — mas ela, Madalena, nunca estivera ali. Ela só existia em planos plurais, e aquele plano, o da mesa colonial e do telefone que não atendia, era singular demais para contê-la.
Aos poucos, ele foi se libertando da própria magia que o encantava.
O telefone, enfim, parou de tocar.
Sobrou apenas o luar sobre o lago, e o silêncio.
É isto aí!
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Gratidão!