quarta-feira, 15 de abril de 2026

O Caixeiro, a Viúva e o Enteado


Fui caixeiro viajante no começo da minha vida comercial. Vendia tecidos, perfumes, jogos de cama e chapéus. Naquela época rodava pelas vilas, aglomerados e cidadezinhas fora do mapa, numa kombi com bagageiro no teto. A cidade que mais gostava de passar era Limoeiro do Livramento. Deu que engracei com uma viúva nova, bonita e elegante que tinha uma pequena lanchonete e fazia almoço sob encomenda. 

A viúva tinha um enteado de 8 anos, Totó do Passatempo. Moleque esperto, menino bom, educado e talentoso. Quando fez dez anos, levei para ele dois livros — "As Aventuras de Tom Sawyer" e "As Aventuras de Huckleberry Finn". Ficou encantado com o poder das palavras e desde então queria viver aventuras e desbravamentos com toda a intensidade dos livros. 

O tempo passou, Totó chegou forte na juventude, envelheci ao lado da viúva e aquele menino sonhador me seguiu na carreira durante o dia e atravessava as noites fazendo anotações e desenvolvendo fórmulas de sucesso para vencer a depressão dos difíceis anos setenta. 

Sonhava em ser livre como seus dois heróis nascidos na genialidade de Mark Twain. No princípio achei aquilo tudo engraçado, devia ser apenas uma das muitas fases em que derramava palavras belas e frágeis para justificar sua capacidade de gênio, comprovada numa edição da revista Seleções através de três exames de QI.

Totó passou a levar a revista para a Praça do Coreto, de frente para a Igreja Matriz e passou a aplicar os testes ao custo de um cruzeiro novo. Com a popularidade do evento, Rapino Soluço, proprietário da agência Lotérica, que era também papelaria e posto telefônico cresceu o olho nesta popularidade e sugeriu a Totó que a Agência Lotérica comandasse este processo, assim divulgava o evento, cobrava dois cruzeiros novos, dividindo o lucro líquido com Totó, que ficava com 50 centavos de cada teste, e o povo concorria a um sorteio de três guaranazinhos naturais com três paçoquinhas na Lanchonete da Viúva.

Num destes complexos testes de inteligência cognitiva, na pequena e pacata Limoeiro do Livramento, naquele final de tarde, dois competidores empataram. A comunidade estava em delírio. A Bandinha Municipal tocava dobrados. 

Totó definiu que o desempate se daria com a resolução quase impossível do teste da famosa Charada do Peixe: 

O locutor Toninho  Garganta, com sua voz rouca e terno de risca de giz antigo e surrado fez a enigmática pergunta: Cidadãos e cidadonas, adultos, aflitos e molequinhos, aproximem-se, façam suas apostas, agora está  valendo uma pizza e três guaranazinhos caseiros, além da cachaça de rolha exclusiva da venda do Onofre. A situação  de hoje é a seguinte.

Temos dois fortes finalistas. Deste lado direito e para os que estão atrás, do Coreto, do seu lado esquerdo e vice versa ou não sei lá, vai saber. Bem, aqui temos Zezinho da Grota. Podem aplaudir, isto, muito bem. aplausos. E dou outro lado, que não é este lado de cá, temos  Geraldinho Cambota, o rei do pé de valsa de Limoeiro do Livramento. Aplausos, aplausos, aplausos, já ganhou já ganhou já ganhou —  gritava a sua família. 

Atenção, disse Toninho Garganta, atenção Zezinho da Grota. Quem levantar a mão primeiro e acertar fica com tudo.

Silêncio total. Senhores, prontos? Vamos lá:

— Considerando um peixe, onde a cabeça mede 9cm, a cauda é igual à cabeça mais metade do corpo, e o corpo é igual à cabeça mais a cauda, quanto mede o peixe?

Zézinho da Grota respondeu no talo: 111, noves fora 102 tirando a metade, cai para 51 cuja régua vai até 9 x 3 elevado a 1 - 45. Então ele deve ter alguma coisa entre dois numerais ou não, tudo pode acontecer, já que número é conceito abstrato.

Silêncio total em volta do Coreto. Alguém gritou - chamem o Padre, que ele saberá se Zezinho da Grota está certo ou quase certo. O padre mandou dizer que está em oração pelo ganhador. Aí matutei cá dentro no silêncio — Eu não sei nem como se faz uma resposta mediante este problema.

Logo Totó do Passatempo levantou o braço devido a uma coceira crônica que tinha no sobaco das axilas, como diagnosticou Gentilinho da Farmácia. Todos olharam para ele que não olhava para ninguém.

Silêncio total no entorno do Coreto. A Bandinha da Prefeitura quieta, esperando Totó. Aí um gritou - fala, Totó, outro também gritou em em poucos minutos toda a praça gritava - fala Totó.  

Totó sabia que não poderia falhar ali, logo ele que começou a disputa que gerou movimentação na praça com ambulantes e visitantes. Pensou assim - se eu fosse o Tom Sawyer, como sairia desta? Já sei, sorriu e bradou em voz alta - já sei. A cidade em polvorosa na praça do Coreto gritava - Totó, Totó, Totó... aplausos, gritos apitos e até a bandinha começou um Dobrado. 

Totó levantou o braço novamente devido à coceira crônica no sobaco das axilas. Silêncio total. Sorrindo proferiu a sentença matemática. Olha só, se soma do quadrado dos catetos é a hipotenusa, logo menos b mais ou menos raiz quadrada de Bê2  menos 4ac, divididos por 2A , considerando que o peixe, onde a cabeça mede 9cm, a cauda é igual à cabeça mais metade do corpo e o corpo é igual à cabeça mais a cauda, o peixe não mede, ele nada.

O povo foi ao delírio. Gritos, Totó para prefeito, e a Bandinha tocou até a alvorada.


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