quinta-feira, 16 de junho de 2016
segunda-feira, 13 de junho de 2016
O Profeta da Pitangueira e o momento político.
Fomos hoje ao Templo do Profeta, em discreta residência nos arredores da Pitangueira. Como o números de pessoas esperando pelo místico era elevado, tivemos que fazer apenas seis perguntas e as considerações finais.
1 - Profeta, como o senhor vê a Pátria Tupynambá, neste mês de Junho?
Meu filho, Santo Antônio abre a roda das quadrilhas e isto tudo ocorrendo a partir desta semana de Lua Crescente.
2 - Mas e os quatro paladinos da justiça virtual, aqueles que falaram no telefone com fulano e agora viraram beatos da ordem franciscana?
Este quadrado formado pelo Sol, Netuno, Júpiter e Saturno ainda permanece, mas não de forma tão intensa quanto nas vidas passadas.
3 - E o virtual?
Ele se acha a Lua Crescente, e julga ter uma fase de desafio por natureza heroica, porém tem brilho mas não tem luz própria. Neste momento está sendo impulsionado a agir e fazer crescer os objetivos plantados na negritude da Lua Nova. Por isso essa será uma semana acelerada, mas não será mais fácil se adaptar a essa energia.
4 - Por que não será fácil, Mestre?
Meu caro, somente porque Mercúrio, planeta regente de Gêmeos, ingressa neste signo no próximo domingo. A comunicação que já estava lenta ganha movimento excêntrico.
5 - Gêmeos? Quem Mestre são estes seres?
Dois iguais, meu filho, um destruiu muito e o outro quer destruir tudo, tocando seu fogoso corcel serra abaixo sem breque e sem volante.
- Profeta, a última pergunta - o que podemos esperar a partir de hoje?
Meu filho, o mês de junho será o portal de muitas mudanças e tensões, mas o pior ainda virá, pois Netuno iniciará o movimento retrógrado e esta será a hora de rever os caminhos para buscar a transcendência. Durante o período de retrogradação, até o dia 20 de novembro haverá muita confusão, ilusão e enganos.
- Profeta, alguma mensagem final de conforto para nossos leitores?
Bem, depois de Santo Antônio, Vênus ingressa em Câncer na sexta e ficaremos mais românticos e protetores no amor, mas o senhor dos anéis, aquele que não pode ser nomeado - por voto, tipo Saturno, viverá em aspecto difícil com Netuno, o senhor dos mares e das marés, o que poderá trazer duros choques de realidade. Portanto, nada de fantasia e ilusão neste momento.
É isto aí!
Alto nível
Numa tarde morna de Brasília, em debates de alto nível no Congresso, para três testemunhas e uma taquígrafa, dois amigos de longa data se estranham pela delação de uma terceira pessoa, nefasta, mal-agradecida e pusilâmine:
Senhor presidente, quero aqui manifestar meu enorme repúdio ao processo 2673/8765-00 referente à delação do senhor Pústula, afilhado político do nobre colega aqui presente, o congressista Dr. Beltrano, cuja maior obra da vida pública foi declarar como seus os dois filhos da sua esposa legítima, herdeira de poderosa clã de jogatinas no seu estado de origem.
Senhor presidente, como fui citado, exijo intervir na verborrágica declaratória do nobre congressista e dizer-lhe que Vossa Excelência é um espoliador contumaz!
Veja bem senhor presidente. A carapuça serviu ao meliante e quero aqui afirmar em alto e bom tom que não posso ouvir tal coisa sem deixar registrado nos autos que Vossa excelência é um parvo claudicante!
Data vênia, senhor presidente, nunca em toda a minha imaculada vida pública fui tão ofendido como estou sendo agora. Não bastasse oferecer os préstimos da generosidade de sua esposa aos amigos, senhor congressista, Vossa excelência sabe que não sou eu a lograr clavadas sob a égide da improbidade, mas sim a sua irresponsabilidade para com a coisa pública.
Senhor presidente, permita-me a tréplica para que este energúmeno, cuja glossa suga o sangue dos inocentes deste país coloque-se no portal da sua insignificância, pois Vossa Excelência é, e isto reconheço com afinco, o magno mestre das ações sub-reptícias sobre o erário público.
Senhor presidente, a altercação é inevitável, dada à impossibilidade de diálogo com um neandertal, feito Vossa Excelência aqui presente.
Então, vai ser no pau, Geraldinho, vai ser no pau ...
Ordem ... seguranças ... ordem ... parem com isto ... seguranças ...
É isto aí!
sexta-feira, 10 de junho de 2016
Xingamentos (Gregorio Duvivier)
Xingamentos
Autor: Gregorio Duvivier
Fonte: UJS
Originalmente publicado na Folha de São Paulo - 06/01/2014
Fonte da Imagem: TheWallpaper
Puta, piranha, vadia, vagabunda, quenga, rameira, devassa, rapariga, biscate, piriguete. Quando um homem odeia uma mulher — e quando uma mulher odeia uma mulher também— a culpa é sempre da devassidão sexual. Outro dia um amigo, revoltado com o aumento do IOF, proferiu: “Brother, essa Dilma é uma piranha”. Não sou fã da Dilma. Mas fiquei mal. Brother: a Dilma não é uma piranha. A Dilma tem muitos defeitos. Mas certamente nenhum deles diz respeito à sua intensa vida sexual. Não que eu saiba. E mesmo que ela fosse uma piranha. Isso é defeito? O fato dela ter dado pra meio Planalto faria dela uma pessoa pior?
Recentemente anunciaram que uma mulher seria presidenta de uma estatal. Todos os comentários da notícia versavam sobre sua aparência: “Essa eu comeria fácil” ou “Até que não é tão baranga assim”. O primeiro comentário sobre uma mulher é sempre esse: feia. Bonita. Gorda. Gostosa. Comeria. Não comeria. Só que ela não perguntou, em momento nenhum, se alguém queria comê-la. Não era isso que estava em julgamento (ou melhor: não deveria ser). Tinham que ensinar na escola:
1. Nem toda mulher está oferecendo o corpo.
2. As que estão não são pessoas piores.
Baranga, tilanga, canhão, dragão, tribufu, jaburu, mocreia. Nenhum dos xingamentos estéticos tem equivalente masculino. Nunca vi ninguém dizendo que o Lula é feio: “O Lula foi um bom presidente, mas no segundo mandato embarangou.” Percebam que ele é gordinho, tem nariz adunco e orelhas de abano. Se fosse mulher, tava frito. Mas é homem. Não nasceu pra ser atraente. Nasceu pra mandar. Ele é xingado. Mas de outras coisas.
Filho da puta, filho de rapariga, corno, chifrudo. Até quando a gente quer bater no homem, é na mulher que a gente bate. A maior ofensa que se pode fazer a um homem não é um ataque a ele, mas à mãe — filho da puta, ou à esposa — corno. Nos dois casos, ele sai ileso: calhou de ser filho ou de casar com uma mulher da vida. Hijo de puta, son of a bitch, fils de pute, hurensohn.
O xingamento mais universal do mundo é o que diz: sua mãe vende o corpo.
1. Não vende.
2. E se vendesse? E a sua, que vende esquemas de pirâmide? Isso não é pior?
Pobres putas. Pobres filhos da puta. Eles não têm nada a ver com isso. Deixem as putas e suas famílias em paz. Deixem as barangas e os viados em paz. Vamos lembrar (ou pelo menos tentar lembrar) de bater na pessoa em questão: crápula, escroto, mau-caráter, babaca, ladrão, pilantra, machista, corrupto, fascista.
A mulher nem sempre tem culpa.
Poesia Coquetista (Marco Merlin)
Autor - Marco Merlin
No II Concurso Literário da Revista Piauí de julho/09, a revista desafiou os poetas a encaixar a seguinte frase:
“E dizer que estraguei anos de minha vida, que eu quis morrer, que tive meu maior amor, por uma mulher que não me agradava, que não fazia o meu gênero!” (Marcel Proust, do 1º volume da obra “Em Busca do Tempo Perdido”).
A frase era grande demais, ela já dizia muito. Marco Merlin resolveu então levar a ideia de “encaixar” a frase às últimas consequências. Esta aí o resultado: acabou conseguindo mostrar qual é o “gênero” da mulher em questão sem acrescentar uma só palavra! Saiu publicado na Piauí de agosto/09.
Tipo assim um soslaio (poemeu)
No desvelo
do amor
leve e teso
fiquei preso
Em decúbito
e você nua
súbito de lua
percebo o medo.
Pelo passado
cego e vesgo
de soslaio sei
é arremedo.
É isto aí!
quinta-feira, 9 de junho de 2016
Seu Desinho
- Florípedes Cardoso ... Florípedes ... Florípedes Cardoso ...
- (Silêncio) Oito mulheres e um senhor na sala de espera do consultório - a recepcionista olha para um lado, para o outro - a senhora é dona Florípedes? A senhora? A senhora? Por favor, acordem este senhor e perguntem seu nome.
- Senhor ... senhor ... o senhor se chama Florípedes Cardoso?
- Ahn! Ahn! Florí ... eu? Não, me chamo Desinho. Mas espera, acho que meu nome é este mesmo - Florípedes, é sou eu mesmo, mas meu nome mesmo é Desinho.
- Ok, senhor Desinho, pode entrar, disse a atendente.
- Sabe de uma coisa - para que eu preciso de médico? - perguntou à mocinha.
- Não sei ainda, porém o senhor agendou uma consulta, e agora é a sua vez de ser atendido.
- Tem que pagar?
- Não precisa pagar, agora entre no consultório, por favor.
- Bom dia senhor Florípedes.
- Bom dia, doutor, mas pode me chamar de Desinho, que é como o mundo me conhece.
- Muito bem, seu Desinho, sente-se e vamos iniciar a consulta.
- Prá que isto, doutor, que luxo é este de sentar para consultar? Antigamente o Dr. Floriano, só d'eu passar na porta, já falava o que tinha e do que precisava. Então não gasta este trabalho todo, não.
- Bem, seu Desinho, não conheci o Dr. Floriano, e acredito que perdi muito em não ter tido a oportunidade. Tem muito tempo isto?
- Nossa Senhora, eu era menino ainda, e naquela época ele já era famoso, além disto era um homem bom e justo.
- Qual a idade do senhor?
- 84 anos, doutor, graças a Deus.
- Que beleza, e sente alguma coisa, tem algum problema específico?
- Na verdade, tenho, doutor ... sabe, é a Belinha.
- Belinha? Quem é Belinha? A sua esposa?
- Não, minha esposa faleceu tem uns quinze anos, eu acho. Belinha é minha namorada.
- Que bom, seu Desinho, sua namorada. E ela tem a sua idade? Está com algum problema que a impediu de estar aqui hoje?
- Que é isto, doutor? Eu gosto é de filet mignon. Belinha tem 18 anos, completados semana passada.
- Dezoito anos? Interessante., e qual o problema, exatamente?
- Belinha está grávida e eu queria saber se depois de certa idade a gestação é mais curta.
- Mais curta? Como assim?
- Bem, doutor, eu apanhei ela ainda moça, de jeito que tem uns tres meses que desaflorou, e agora surgiu lá uma barriguinha, uns troços esquisitos, e a doutora falou que ela vai ter nenem daqui a dois meses. Daí fiz as contas e percebi que não batia com os prazos que vi da falecida.
- O senhor gosta dela?
- Apaixonadíssimo, doutor, apaixonadíssimo.
- Ela gosta do senhor?
- Doida comigo.
- Então vá e seja feliz, Desinho, pois a sua fé te salvou.
- Gente, agora eu vi que o senhor incorporou mesmo o Dr. Floriano. No fundo, no fundo ele nunca falhava, e agora o senhor fala como se fosse ele aqui, na minha frente. Só pode ser incorporação, doutor, só pode ser isto.
- Entendo, seu Desinho, deve ser isto mesmo ... entendo ...
É isto aí!
Bem no fundo (Paulo Leminski)
No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
A partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo.
Extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais.
Mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos
saem todos a passear:
o problema, sua senhora,
e outros pequenos probleminhas.
Papo de esquina XXIII
- Mandaram prender os caciques fenícios. E agora?
- Mas ninguém vai prender os apaches, os sioux, os comanches, dakotas, navajos, e cheyennes?
- Ora, direis, ouvir estrelas ... não sabe que estes estão protegidos, aliás, muito bem protegidos, e além disto são nações regimentais? - Não sabe também que os fenícios apenas foram rota da seda, das especiarias, do ópio e do cedro desde o início dos tempos?
- Como sempre, todos os caminhos levam à Roma. Esta merda vai dar pau!
É isto aí!
quarta-feira, 8 de junho de 2016
Discutindo a relação
Mas, Carminha, quando você me acolheu, eu estava na sarjeta da desilusão, e você mesma prometeu nunca me cobrar um sentimento que eu não pudesse oferecer.
Maaaaas isto foi há três anos e até agora você comeu do melhor, bebeu de fonte segura, aninhou-se no conforto do meu amor e nada? Não aconteceu nada?
Estamos discutindo nossa relação? É para ser sincero do fundo do meu coração?
Sim, estamos discutindo nossa relação. E, claro, é óbvio que você tem a obrigação de contar toda a verdade. Por que você não diz nunca que me ama, Carlos Olavo?
Sabe, Carminha, nem sei por onde começar. Sinto que estou aqui fisicamente, mas por dentro ainda estou sofrendo de mal de amor não resolvido.
Mal de amor? Mas existirá um mal de amor? Vamos conversar sobre isto para encontrarmos respostas que poderão aliviar seu sofrimento. Vamos começar do ponto de mutação, quando se deu isto, onde vocês se desconheceram e depois como se deu o início do nosso relacionamento.
Então, foi numa festa na casa de nossa amiga em comum que nos vimos pela última vez, e deu que nossos olhos se descruzaram, nossos corações se emudeceram e naquele instante tudo girou enquanto ficávamos estáticos, obnubilados e desconfortáveis um pelo outro, foi então que na saída, tropecei na escada e caí literalmente aos seus pés, desacordado pela queda, aí você chamou pelo SAMU e ficou ao meu lado até que eu voltasse ao mundo real.
E o que o fez se anular por ela?
Anular, não digo, mas há um lugar em mim que ainda é limítrofe dela. Sabe o que mais me fascinou? A voz. Sim, a voz aveludada, macia, saindo do fundo de sua alma, passando pelas cordas vocais, que feito um instrumento afinadíssimo, numa divisão em compassos marcados por tempos fortes e fracos. Havia ainda o ritmo singular com padrões de duração das sílabas tônicas.
Interessante isto, a voz, as palavras, a percepção pela expressão vocal. Muito interessante. Mas plágios estão aí pipocando desde que o mundo cabe num CD, então isto é canoa furada.
Bem, nunca pensei por este lado, mas além disto, a pele, humm, a pele. Leve, brilhante, macia e suave feito uma seda pura ao mais leve toque, em toda a extensão corpórea. Era impossível resistir àquela fragrância natural que exalava de seus poros, bem como não perceber a textura do seu tecido epitelial.
Carlos Olavo, isto daí não tem nada de mais, afinal ego é antes de tudo corporal. Ele assinala que as sensações táteis se diferenciam dos demais registros sensoriais por fornecerem dupla percepção: sentimos o objeto que toca nossa pele e, com isso, temos consciência da pele sendo tocada. Então é uma coisa física e não tem nada de metafísico nisto.
Sério isto? Dupla percepção? Nossa, que susto, havia entendido dupla .., mas isto não ocorreu. Mas, uau, chego até a senti-la falando assim desta maneira. Carminha, poderia me explicar um pouco mais sobre isto?
Digamos que o toque entre a sua pele jovem e a dela, foi o que de fato inaugurou a existência entre as partes. Mas prossiga, vamos penetrar neste labirinto neuro-sensorial mais um pouco e ver a porta por onde esta vadia, digo, esta fantasia sai de você..
Neuro-sensorial? Bem, disto não entendo, mas, claro, falarei do corpo. que coisa divina, fantástica, insinuante, sedutora, maravilhosa, fenomenal, estonteante, sensacional, esculpida para ser uma semi-deusa do Olimpo. Seu andar era mágico, seu gingado tinha uma candura e ao mesmo tempo uma frenética evolução. Era um pecado num corpo santo ou uma santa em atos pecaminosos. As coxas, puxa vida, lapidadas pela natureza para seduzirem, bem como os braços, as mãos, as pernas, os pés. O cabelo, olha, parecia que fazia propaganda de shampoo em tempo integral Isto sem falar nos dentes, simetricamente postos numa boca cujos lábios me deixavam louco.
Bem, nestes termos, Carlos Olavo Júnior, devido à sua obsessão libidinosa e patológica, por favor, saia daqui e vá em busca da sua amada, mas não levará nada do que é meu, como o carro, o cartão, as milhas, as roupas que comprei pensando no fruto que seria gerado deste relacionamento, enfim, volte para o aconchego dos seus delírios.
Carminha, espera ...
Sim???
Incrível isto, mas num raio de rompante cósmico, me vejo extasiado por você. Eu te amo!
Entendo, mas mesmo assim, eu preciso falar-lhe uma coisa que vai mudar nossas vidas, Carlos Olavo.
Fala, amor, pode falar, eu sou todo ouvidos, sou todo seu, sou a sua vontade.
Carlos Olavo Júnior, vai se foder, vá à puta e à reputa que o pariu, vá à merda, vá aos quintos dos infernos, vá ver se estou lá fora, melhor, vá ver se a putinha de tafetá está te esperando no bordel da sua mãe.
Carminha, então ... então ... Car car car minha ... você não me ama mais?
Sim, Carlos Olavo, eu te amo, porém eu me amo muito mais, em dose cavalar tríplice. Agora sai por bem ou sairá por coice.
Sim, Carlos Olavo, eu te amo, porém eu me amo muito mais, em dose cavalar tríplice. Agora sai por bem ou sairá por coice.
É isto aí!
terça-feira, 7 de junho de 2016
Universos paralelos
Bom dia turma, espero que estejam bem dispostos e bem dispostas. Hoje a aula será sobre a existência de universos paralelos, exatamente como o nosso. Esses universos estariam todos relacionados ao nosso. Na verdade, eles derivariam do nosso, que, por sua vez, seria derivado de outros. Nesses universos paralelos, nossas guerras surtiriam outros efeitos dos conhecidos por nós. Espécies já extintas no nosso universo se desenvolveriam e se adaptariam em outros e nós, humanos, poderíamos estar extintos nesses outros lugares.
Professor ...
Sim, senhorita Katy? (discreto)
Professor, então seria possível a gente, digo, assim, no geral, uma pessoa ter relacionamento íntimo e pessoal com outra pessoa mais velha, deliberadamente sensual e culta, neste exato momento, num mundo paralelo ao nosso?
Bem, turma, esta teoria dos Muitos Mundos, veio à tona da superfície sagrada da ciência para responder uma questão muito difícil relacionada à física quântica: por que a matéria quântica se comporta irregularmente?
Professor ...
Pois não, senhorita Katy? (tenso)
Comportar-se irregularmente seria um atenuante para a dedicada entrega ao desejo num mundo paralelo, tipo assim, no geral, entre duas pessoas nascidas em tempos diferentes, mas monogamicamente destinadas uma à outra?
Então, como eu ia dizendo, o nível quântico é o menor já detectado pela ciência. O estudo da física quântica começou em 1900, quando o físico Max Planck apresentou o conceito para o mundo científico. Seu estudo sobre a radiação trouxe algumas descobertas que contradiziam as leis da física clássica. Essas descobertas sugeriram que existem outras leis operando no universo de forma mais profunda do que as que conhecemos.
Professor ...
Pois não, senhorita Katy? (trêmulo)
Estas outras leis operando no universo não facilitariam a operacionalidade de dois mundos se encaixando numa hiperbólica conjunção de esferas, ductos e canais de lascívia?
Muito bem , por hoje é só, e obrigado pela atenção. Tenham todos um bom dia.
Professor ...
Pois não, senhorita Katy? (transpirando bicas)
É possível o senhor me conceder o direito de entender melhor esta aula?
Senhorita Katy, dado o avançar do tempo que navego neste planeta, em comparação à sua juventude, posso garantir-lhe que ao perceber seu corpo se deslocando no espaço e afetando a gravidade da minha matéria, fortalece em mim o Princípio da Incerteza de Heisenberg, que sugeriu que, apenas observando a matéria quântica, afetamos seu comportamento; sendo assim, nunca podemos estar totalmente certos sobre a natureza de um objeto quântico ou seus atributos.
Ah, professor, finalmente estamos em rota de colisão, pois a condição de um objeto existir em todos seus possíveis estados, de uma só vez, é chamada de superposição, e neste momento é tudo que quero.
Muito bem, senhorita Katy, mas tudo em nome da ciência ... tudo em nome da ciência ...
Bobinho, você é meu fóton irradiante!
É isto aí!
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Parabéns, atingimos a burrice máxima
Ou - A “baranga” Simone de Beauvoir e a importância de um livro que ensina a conversar com fascistas.
"Não há limites para a idiotice"
Alto lá - este texto não é meu
Por delação premiada da minha consciência, confesso que copiei e colei sem mudar nada.
A autora é Eliane Brum
A moça é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas.
Site: desacontecimentos.com
Email: elianebrum.coluna@gmail.com
Twitter: @brumelianebru
"Não há limites para a idiotice"
Alto lá - este texto não é meu
Por delação premiada da minha consciência, confesso que copiei e colei sem mudar nada.
A autora é Eliane Brum
A moça é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas.
Site: desacontecimentos.com
Email: elianebrum.coluna@gmail.com
Twitter: @brumelianebru
A fogueira de Simone de Beauvoir a partir da questão do ENEM mostrou que a burrice se tornou um problema estrutural do Brasil. Se não for enfrentada, não há chance. Hordas e hordas de burros que ocupam espaços institucionais, burros que ocupam bancadas de TV, burros pagos por dinheiro público, burros pagos por dinheiro privado, burros em lugares privilegiados, atacaram a filósofa francesa porque o Exame Nacional de Ensino Médio colocou na prova um trecho de uma de suas obras, O Segundo Sexo, começando pela frase célebre: “Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. Bastou para os burros levantarem as orelhas e relincharem sua ignorância em volumes constrangedores. Debater com seriedade a burrice nacional é mais urgente do que discutir a crise econômica e o baixo crescimento do país. A burrice está na raiz da crise política mais ampla. A burrice corrompe a vida, a privada e a pública. Dia após dia.
Recapitulando alguns espasmos do mais recente surto de burrice. O verbete de Simone de Beauvoir (1908-1986) na Wikipedia, conforme mostrou uma reportagem da BBC, foi invadido para tachar a escritora de “pedófila” e “nazista”. A Câmara de Vereadores de Campinas, no estado de São Paulo, aprovou uma “moção de repúdio” à filósofa. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), da Bancada da Bíblia, descobriu na frase “uma escolha adrede, ardilosa e discrepante do que se tem decidido sobre o que se deve ensinar aos nossos jovens”. Em sua página no Facebook, o promotor de justiça do município paulista de Sorocaba, Jorge Alberto de Oliveira Marum, chamou Beauvoir de “baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”. Como o tema da redação do ENEM era “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, houve gente que estudou em colégios caros afirmando que este era um tema de esquerda, e portanto um sinal inequívoco de uma conspiração ideológica por parte do governo federal. Como sugeriu o crítico de cinema Inácio Araújo em seu blog, se defender que a mulher tenha o direito de andar sem ser perturbada, agredida e chutada é tema de esquerda, isso só pode significar que a direita vai muito mal.
A única arma capaz de derrotar a burrice é o pensamento:
Está cada vez mais difícil fazer humor no Brasil. Como nada do que foi relatado acima é piada, somos submetidos cotidianamente a uma experiência de perversão. Também não tem sido fácil escrever quando não se é humorista, por que o que se pode dizer, seriamente, diante de uma moção de repúdio à Simone de Beauvoir? Mas é preciso tratar com seriedade, porque talvez não exista nada mais sério do que a boçalidade que atravessa o país. Torna-se urgente, prioritário, fazer um esforço coletivo e enfrentar a burrice com o único instrumento capaz de derrotá-la: o pensamento.
Esta é a potência e a generosidade de um livro lançado pela filósofa Márcia Tiburi, escritora e professora universitária. O título vai direto ao ponto, afinal os tempos são graves demais para papinhos de salão: Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Record). Nas 194 páginas, Márcia enfrenta as várias faces do cotidiano atual com profundidade, mas de forma acessível a quem não está familiarizado com os conceitos. Faz o mais difícil: escrever simples sem simplificar. É um livro que se pretende para todos, e não para os seus pares. Quem acompanha a trajetória da filósofa conhece a sua coragem. E este é um livro de coragem, já que é tão difícil quanto arriscado escrever sobre o que está em movimento, sem a proteção assegurada pelo distanciamento histórico. Poucos são os intelectuais que se arriscam a sair do conforto de seus feudos para enfrentar o debate público com suas dúvidas. E por isso aqueles que se arriscam de forma honesta, sem ficar arrotando suas certezas e suas credenciais, ou usando-as para massacrar aqueles que já são massacrados, são tão preciosos.
O confronto atual não é entre direita e esquerda, mas entre os que pensam e os que não pensam:
“Eu queria saber por que dialogar é impossível”, conta Márcia Tiburi, sobre a pergunta que a moveu nessa busca. Para enfrentar a ausência do pensamento, a filósofa propõe a resistência pelo diálogo. Este é um esforço de cada um – e de todos. Arriscar-se a deixar o “isolamento em comunidade”, a forma atual da vida social e política, para confrontar o que ela chama de “consumismo da linguagem”. Compreender o confronto atual como um confronto entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, machistas e feministas é, segundo ela, uma redução. O confronto atual seria mais profundo e também mais dramático: entre os que pensam e os que não pensam.
O exercício que faço, deste parágrafo em diante, é buscar compreender a fogueira em que Simone de Beauvoir foi jogada nos últimos dias, entre outros fatos recentes, a partir das ideias deste livro. Para começar, a seriedade do episódio do ENEM pode ser demonstrada neste trecho tão agudo: “Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está muito fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem. O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência”.
Vale perguntar:
Num país em que a preocupação com a educação é uma flatulência, em que a não educação é a regra, para onde vai o lixo e que tipo de impacto ele produz na tessitura do cotidiano, nos corações e mentes de quem o consome? O que acontece com a fogueira de Simone de Beauvoir num contexto em que aqueles que a jogaram no fogo possivelmente sequer a leram? Que restos dos discursos vazios sobre a filósofa permanecerão na memória de uma população que não tem seus livros na estante e que tipo de eco produzirão?
Como dimensionar a gravidade de um vereador eleito, pago com dinheiro público para legislar e, portanto, para decidir destinos coletivos, dizer que a escolha da frase de Simone de Beauvoir para uma prova do ENEM é algo “demoníaco”, como afirmou Campos Filho (DEM)? E como enfrentá-la com a seriedade necessária?
Com a palavra, o autor da “moção de repúdio”: “Foram buscar lá Simone de Beauvoir, lá pro ano de mil trocentos e pôco.... (...) A grande maioria é favorável à lei da natureza. Homem é homem. Mulher é mulher. (...) Cuidado com essa pulsão, essa pulsão pode levar à cadeia. O senhor pode passar na frente do caixa eletrônico e ter uma pulsão de vontade de roubar e vai preso. Pode ter uma pulsão de vontade de estuprar e vai preso. Então, tomem cuidado com essa pulsão, ah, hoje de manhã sou menina, agora à noite eu sou homem....”.
O vazio de pensamento não é silencioso, mas repleto de clichês, frases prontas e repetições:
O vereador nem sequer sabe em que século Simone de Beauvoir nasceu, viveu e produziu pensamento – “mil trocentos e pôco”. Nem sequer tentou compreender o que a frase citada no ENEM significa. Não é engraçado. É a ruína causando mais ruína. O que interessa é fazer barulho, porque o barulho encobre o vazio de ideias. O que importa é perverter a palavra, usando o que sequer tentou entender para enclausurar o pensamento e reafirmar a certeza em nome de uma suposta “lei da natureza” que jamais existiu. A perversão do fascista é a de acusar o outro de manipulação ideológica quando é ele o manipulador. É acusar o outro de impor um pensamento quando é ele que empreende todo os esforços para barrar qualquer pensamento. É impedir o diálogo denunciando o outro pelo ato que ele próprio cometeu. É nessa repetição de boçalidades que seguem os discursos de outros vereadores, invocando clichês bíblicos, lembrando de Sodoma e Gomorra e Adão e Eva, abusando de Deus.
Para perverter a realidade, o fascista conta com o consumismo da linguagem. Trata-se, como aponta Márcia Tiburi, de um vazio repleto de falas prontas. Não é um vazio silencioso, espaço aberto para buscar o outro, o inusitado, o surpreendente. Mas sim um vazio barulhento, abarrotado de clichês, de frases repetidas e repetitivas, usadas para se proteger do pensamento. Os lugares-comuns, neste caso específico a constante invocação de Deus e de leis bíblicas, são usados como um escudo contra a reflexão. Todo o esforço é empreendido para não existir qualquer chance de pensamento, ainda que um bem pequenino.
Neste vazio, a filósofa acredita que os meios tecnológicos e a mídia desempenham um papel crucial. Repete-se o que é dito na TV, no rádio. Fala-se, muito, sem pensar no que se diz. No gesto do mero “compartilhar” sem ler, tão fácil quanto comprar com um clique pela internet, foge-se do pensamento analítico e crítico, trocando-o pelo vazio consumista da linguagem e da ação repetitiva. É assim que a burrice se multiplica em cliques, propagando-se em rede. O título deste artigo é esperançoso, mas não corresponde à realidade: a burrice não tem limites, ela sempre pode atingir patamares ainda mais extremos.
Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos:
Episódios semelhantes à “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir ocorriam esporadicamente em rincões afastados, e logo eram ridicularizados. Hoje, acontecem na Câmara de Vereadores de uma das maiores e mais ricas cidades do estado de São Paulo, no sudeste do Brasil, uma cidade que abriga várias universidades, entre elas a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), uma das mais respeitadas do país. E cadê os intelectuais? Rindo dos burros nas cantinas universitárias? Será? Não era de se esperar mais iniciativas de busca do diálogo, de criação de oportunidades para explicar quem é Simone de Beauvoir e refletir sobre sua obra, ou mesmo a ocupação da Câmara, para produzir reação e movimento que permitisse o conhecimento e combatesse a ignorância?
Talvez o polêmico livro Submissão (Alfaguara), do francês Michel Houellebecq, possa ter alguma ressonância maior por aqui. Nele, só para lembrar, o protagonista é um acadêmico desencantado que se depara com a vitória de um partido islâmico nas eleições da França. Depois de assistir ao desenrolar dos acontecimentos pela TV, já que não se sente motivado a participar de nenhum debate que não seja sobre a sua própria tese acadêmica (ou nem mesmo sobre ela), se choca com o resultado eleitoral. É o protagonista que não protagoniza – ou só protagoniza por omissão (ou submissão). Aos poucos, os novos donos do poder lhe acenam não só com a manutenção dos privilégios, mas com uma considerável ampliação dos privilégios. E ele, afinal, conclui que aderir pode não ser tão ruim assim.
Os burros estão por toda parte e muitos deles estudaram nas melhores escolas e, o pior, muitos ensinam nas melhores escolas. A “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir foi aprovada pela Câmara de Campinas por 25 votos a cinco. Assim, os burros são a maioria. É preciso enfrentá-los com pensamento, fazer a resistência pelo diálogo.
Ou, como diz Márcia Tiburi:
“Sem pensamento não há diálogo possível nem emancipação em nível algum. Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos”.
O promotor e professor universitário que reduziu Simone de Beauvoir a “uma baranga”, ao comentar a questão do ENEM em sua página no Facebook, fez o seguinte comentário: “Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista. Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila”. Depois da repercussão negativa, o que incluiu uma nota de repúdio por parte da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Jorge Alberto de Oliveira Marum apagou os posts e defendeu-se, em outra postagem, alegando que pretendia ter sido irônico: “Ironia, para quem não sabe, é uma figura de linguagem que consiste em afirmar o contrário do que se pensa”.
Interprete-se.
A burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu.
“Distorcer é poder” é o título de um dos capítulos do livro em que a filósofa enfrenta a prática amplamente difundida de esvaziar as palavras pela distorção. Como transformar a vítima em culpada, como se faz rotineiramente com as mulheres no falso debate do aborto, por exemplo, ou no tratamento do estupro. Ou distorcer para que aquele que detém os privilégios pareça ser o que têm seus direitos ameaçados: o branco, por exemplo, quando se apresenta como prejudicado pelo sistema de cotas raciais que busca reparar injustiças históricas cometidas contra os negros, ocultando assim que sempre foi o privilegiado; ou quando se invoca um suposto “orgulho heterossexual” na tentativa de mascarar a violência contra os homossexuais, alegando que querem privilégios, quando todos sabem que a heterossexualidade jamais foi contestada ou atacada, nem em sua expressão nem em seus direitos. E também é por essa conversão que os manifestantes de junho de 2013 foram tachados de “vândalos” por parte da mídia e, hoje, uma lei em discussão no Congresso ameaça converter quem protesta em “terrorista”.
A própria “democracia” pode ser vista a partir da prática da distorção, já que há aquela, mais difundida, que é vendida pelo mercado. “De um lado, há uma democracia que deve parecer como realizada, contra outra democracia, que está na ordem do desejo e do sonho e que não teria preço”. O capitalismo sequestra a democracia também como palavra, que passa a ser consumida, junto com outras: felicidade, ética, liberdade, oportunidade, mérito. Palavras que a filósofa chama de “mágicas”, invocadas a serviço do ocultamento da opressão. “Antidemocrático, o capitalismo precisaria ocultar sua única democracia verdadeira: a partilha da miséria e, hoje em dia, cada vez mais, a matabilidade”, afirma Márcia Tiburi.
Quando se invade o verbete de Simone de Beauvoir na Wikipedia é também disso que se trata: distorcer e replicar até virar “verdade”. Aliena-se os fatos de seu contexto histórico para produzir rótulos. Assim, após o ENEM, a filósofa foi tachada de “pedófila” e de “nazista”. Ambas as afirmações já foram retiradas da página pelo responsável, avisando que a manteria fechada até “que o furor acabasse e as pessoas perdessem o interesse em danificar o artigo”. Entre as dezenas de distorções do verbete, segundo a matéria da BBC, um usuário disse que a filósofa havia escrito um "livro de estupro". Outro informou que Beauvoir era uma "antifeminista". Um terceiro disse ainda que ela era "muito conhecida por seu comodismo e pela luta na justiça por uma lei que proibia o trabalho das mulheres fora de casa”.
Se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?
As distorções servem à reprodutibilidade da burrice. Ao converter a filósofa no que é interpretado como o mais monstruoso – “pedófila” e “nazista” – o objetivo é tornar impossível refletir sobre o que ela escreveu: “uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. A ampla distorção das palavras serve, de novo, ao vazio do pensamento. Pede-se aos burros que a repliquem à exaustão em cliques histéricos. A linguagem, como escreve Márcia Tiburi, tem sido rebaixada à distribuição da violência – também pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. “Vivemos no império da canalhice, onde a burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu”, afirma. “Ela se transformou no todo do poder.”
Aderir é viver. Esta parece ser a frase deste momento de orgulho da ignorância e exaltação da burrice. Aqui, a pergunta se impõe: “se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?”.
Na semana passada, foi divulgado na página da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República um estudo que reuniu pesquisadores de diversas instituições, apresentado como o mais completo já feito no Brasil sobre os efeitos da mudança climática. Refletir seriamente sobre a mudança climática é urgente, mas há muito menos pensamento e ação do que o momento exigiria, apesar de estarmos às vésperas da Conferência do Clima em Paris. Assim, a divulgação de um estudo com as conclusões a que se chegou poderia ser uma oportunidade excelente para promover participação e diálogo. Mas, entre as tantas previsões que apontaram para um possível drama climático daqui a 25 anos, em 2040 – doenças, calor extremo, falta d’água e de energia etc –, uma foi destacada por diferentes veículos da imprensa: a possível perda de uma área imobiliária avaliada em R$ 109 bilhões no Rio de Janeiro, devido à elevação do nível do mar causada pelo aquecimento global.
Não as perdas humanas, não a corrosão da vida, não o aniquilamento dos mais pobres e dos mais frágeis. Não. O que se destaca é aquilo que se monetariza, é a perda do patrimônio material, no caso imobiliário. O que merece título é o cifrão. O episódio evoca um dos capítulos mais interessantes de "Como conversar com um fascista": “O capitalismo é a redução da vida ao plano econômico. (...) O pensamento está minado pela lógica do ‘rendimento’. Viver torna-se uma questão apenas econômica. A economia torna-se uma forma de vida administrada com regras próprias, tais como o consumo, o endividamento, a segurança pela qual se pode pagar. Tudo isso é sistêmico e, ao mesmo tempo, algo histérico. (...) As palavras funcionam como estigmas ou como dogmas que sustentam ideias orientadoras de práticas”. Se a ordem do discurso capitalista é basicamente teológica, é porque ele funciona como uma religião no âmbito das escrituras e das pregações (em geral no púlpito tecnológico da televisão)”. Se depois de tanto calarmos sobre a mudança climática, falarmos dela a partir da lógica monetária, estamos todos (mais) perdidos.
Precisamos resistir em nome de um diálogo que torne o ódio impotente:
Mas é em outro episódio destes últimos dias que a perversão do Brasil atual se revelou em toda a sua monstruosidade: a Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro concluiu em inquérito que o policial que matou um menino de dez anos agiu em “legítima defesa”. Eduardo de Jesus brincava na porta da sua casa, numa das favelas do Complexo do Alemão, quando teve a cabeça atingida por um tiro de fuzil. Sua mãe encontrou parte do seu cérebro na sala. O inquérito isentou de qualquer responsabilidade os policiais envolvidos, por estarem supostamente em confronto com narcotraficantes. Eles teriam apenas “errado” o tiro.
Eduardo estava a cinco metros do policial que o matou. Terezinha de Jesus, a mãe do menino, afirma que não havia tiroteio naquele dia. “Eu parti para cima do policial. Gritei que tinha matado meu filho e ele me respondeu, com seu fuzil na minha cabeça, que igual que tinha matado ele poderia também me matar, porque o menino era filho de bandido. Nunca vou esquecer aquilo. Posso estar em qualquer lugar do mundo, que nunca esquecerei a cara daquele policial”. Ao ser informada por jornalistas que a polícia concluiu que seu filho foi morto em legítima defesa, Terezinha disse que sentia vontade “de quebrar tudo”.
Quando a perversão supera tal limite é porque estamos quase no ponto de não retorno. “Não acabaremos com o ódio pregando o amor”, diz Márcia Tiburi. “Mas agindo em nome de um diálogo que não apenas mostre que o ódio é impotente, mas que o torne impotente.”
Em Como conversar com um fascista, a filósofa defende a necessidade de começar a tentar falar de outro modo. O diálogo não como salvação, mas como experimento, como ativismo filosófico para enfrentar a antipolítica. A política, lembra a autora, “é laço amoroso entre pessoas que podem falar e se escutar não porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapaças de ódio e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades estão enterradas”.
Num país de antipolítica e antieducação generalizada como o Brasil é preciso se mover. É urgente aprender a conversar com um fascista, mesmo que pareça impossível. Expor ao outro aquele que não suporta a diferença. Revelar suas contradições e confrontá-lo pelo diálogo é um ato de resistência.
Enfrentar a burrice com a única arma que ela teme: o pensamento. É isso ou não vai adiantar nem estocar alimentos.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebru
sábado, 4 de junho de 2016
Só refletindo
Só refletindo aqui, escondido nesta nuvem cibernética, de acesso aberto ao mundo. O que tem de sites de supervisão, digamos assim, entrando neste blog todo dia é uma coisa interessante. A maioria é apache e uns poucos celtas, e dois tupiniquins. Basta escrever uma palavra morta, destas de monitoramento celestial, que aparecem feito formiga no doce.
Em vezes outras que isto ocorreu, denominei-os de lacerdinhas, em homenagem ao deputado Carlos Lacerda, que dispensa comentários sobre a sua história política à pátria deitada eternamente em berço esplêndido. E são exatamente isto, uns lacerdinhas modernos. Mas este blog não tem nada demais, nem denúncias, nem acusações, mas eles voltam ... sempre voltam ... talvez para certificar, talvez para saber, talvez para amedrontar.
Acho que vou mudar o foco para vinhos e culinária medieval. Viu gente - a partir de hoje só falo de coisas que não entendo nada, ou não, vai saber!
É isto aí!
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Papo de Esquina XXII
- E o tiosão do Leblon? Estava a favor, depois ficou contra e agora colocou o fiel escudeiro para melar e antecipar, mas é a favor por dentro e contra por fora. Parece uma melancia passada.
- Bem dizia o Nelson Rodrigues que no Brasil quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte. O Otto Lara está certo: O mineiro só é solidário no câncer.
- Já que falou dele, certa vez afirmou: Amigos, eis uma verdade eterna: — o passado sempre tem razão.
- Este troço vai dar merda ...
É isto aí!
quinta-feira, 2 de junho de 2016
É louca (poemeu)
Nunca comeu bolo suado
É um fardo, é um fato.
Nunca lavou roupa suja
É uma bruxa, é esdrúxula
Nunca mentiu em entrevista
É artista, é alienista
Nem teve dor de dente
É vidente, é senciente.
Nunca amou na vida
É atrevida, é sofrida.
Nunca falou mentira
É caipira, é maníaca.
Nunca beijou na boca
Aí é louca, é bem louca ...
É isto aí!
É um fardo, é um fato.
Nunca lavou roupa suja
É uma bruxa, é esdrúxula
Nunca mentiu em entrevista
É artista, é alienista
Nem teve dor de dente
É vidente, é senciente.
Nunca amou na vida
É atrevida, é sofrida.
Nunca falou mentira
É caipira, é maníaca.
Nunca beijou na boca
Aí é louca, é bem louca ...
É isto aí!
Papo de Esquina XXI
- Temos saída? Temos volta? Temos futuro? Nada a temer ou tudo a temer?
- Bem, diante desta luta pelo desmando, lembrei do Foucault, que afirmou que o poder não existe, o que existe são as relações de poder.
- É, falando em Foucault, já que você comentou, ele discrimina a forma de tratar os não alinhados:
1 Assegurar sua segurança pessoal e de sua família;
2 Libertá-los das influências pessoais;
3 Submetê-los à força a um regime ;
4 Impor-lhes novos hábitos intelectuais e morais;
- Não alinhados? Mas este procedimento não faz parte do seu ensaio sobre a loucura? Será aquela pessoa, cujo nome não pode ser revelado, o alienista machadiano de Foucault, sob a tênue linha que separa a loucura do poder?
- Este troço vai dar merda ...
É isto aí!
quarta-feira, 1 de junho de 2016
Papo na fila do banco
- Você me ama?
- Tem dúvida?
- Você não me respondeu. É sim ou não, simples assim.
- Eu já te falei sobre isto.
- Sim, já disse, mas quero escutar de novo. Vai, fala.
- O que você quer que eu fale?
- Você me ama?
- Afinal de contas, o que é o amor?
- Você está respondendo com uma pergunta ... então não sabe a resposta.
- Eu sei a resposta.
- Então fala. Você me ama?
- Não.
- Não o que?
Olha, chegou a nossa vez ...
É isto aí!
- Tem dúvida?
- Você não me respondeu. É sim ou não, simples assim.
- Eu já te falei sobre isto.
- Sim, já disse, mas quero escutar de novo. Vai, fala.
- O que você quer que eu fale?
- Você me ama?
- Afinal de contas, o que é o amor?
- Você está respondendo com uma pergunta ... então não sabe a resposta.
- Eu sei a resposta.
- Então fala. Você me ama?
- Não.
- Não o que?
Olha, chegou a nossa vez ...
É isto aí!
terça-feira, 31 de maio de 2016
Na noite terrível (Fernando Pessoa)
![]() |
| metaphorical-journey (Vladimir Kush) |
Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
Relembro, velando em modorra incômoda,
Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
Relembro, e uma angústia
Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
Na ilusão do espaço e do tempo,
Na falsidade do decorrer.
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
O que só agora vejo que deveria ter feito,
O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver ...
Se em certa altura
Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
Se em certo momento
Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
Se em certa conversa
Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
Se tudo isso tivesse sido assim,
Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
Seria insensivelmente levado a ser outro também.
Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
Claras, inevitáveis, naturais,
A conversa fechada concludentemente,
A matéria toda resolvida...
Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.
O que falhei deveras não tem esperança nenhuma
Em sistema metafísico nenhum.
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,
Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
Como uma verdade de que não partilho,
E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p'ra mim.
Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Jorge Bafão, o vira-casaca
Atenção, silêncio. Cena 1 - Ato I
Entra o deputado Bartolomeu Bafão.
Para tudo - Jorge, cadê o terno?
Que terno?
Você é o deputado, tem que ter terno.
Mas você falou que era para eu ficar à vontade, então fiquei.
Jorginho, meu filho, estamos repassando os textos para a estréia. Contra-regra, providencie o terno do deputado.
Ok! Tudo certo? Tudo bem? Entra o deputado Bartolomeu Bafão.
Puta o que o pariu - mas o que é isto, Jorge?
Um terno, você não determinou que minha entrada deveria ser em terno, então ...
Não é assim, merda - eu disse Terno de vestuário e não terno de cara de bunda para compaixão alheia. Contra-regra, cadê a merda do terno?
Eu entreguei na mão dele, diretor, mas ele falou que já tinha um tipo de terno.
Jorginho, meu querido, vai vestir a porra do terno com paletó e gravata, entendeu? E não faz cara de paisagem terna e sim cara de mafioso, você é mafioso, ladrão, bandido, assaltante, meliante, desonesto, safado, sem-vergonha e mau, muito mau, entendeu? Sentiu? Percebeu?
Ah, bom, agora eu entendi. Vou lá vestir o terno, mas não farei cara de terno.
Atenção, silêncio. Cena 1 - Ato I
Entra o deputado Bartolomeu Bafão.
Merda, mas o que é isto? Sua roupa está do lado avesso, Jorginho.
Jorginho não, por favor - meu nome é Deputado Bartolomeu Bafão, mais conhecido como o Bafão Vira-Casaca - sou candidato das massas e deputado dos maços ...
Uau, agora sim você incorporou o personagem ...
É isto aí!
segunda-feira, 30 de maio de 2016
Entre quatro paredes.
Jota Cardoso pediu a mão da casta Carminha Fonseca em casamento, fazendo votos secretos, juras de amor eternas e promessas infindas. Naquela noite beijou-a demoradamente na sala de estar da residência da moça. Tocaram-se como se fossem unir seus corpos em uma transcendente metafísica. Navegou pelo corpinho miúdo da amada como um marujo a dobrar o Cabo das Tormentas, com firmeza e segurança.
Carminha Fonseca conteve-se enquanto pode, segurou ao máximo a estranha sensação de prazer nunca antes percebida até que desmaiou no sofá, em tom pálido e pele gélida, sem reação e sem nenhuma atividade carnal. O vestido decotado caído sobre o ventre, a barra suspensa até o quadril, ali, imóvel, estática e fria.
Jota Cardoso saiu bem devagar, de costas, contemplando a sua Vênus de Milo com coração acelerado, tremores desconcertantes e pernas bambas, amolecidas feito molas frágeis. Arrumou a roupa, abriu a janela que dava para o beco, de onde alcançou a rua e partiu célere para os braços de Marcinha, uma inesgotável fonte de luxúrias da rua do pecado.
Carminha Fonseca abriu os olhos devagar, olhou ao redor, recompôs-se e aguardou chegar o grande dia do que seria o dia mais feliz da sua vida. Mas este dia estava fadado a nunca mais chegar, pois sua cara metade submergiu na maré baixa do mundo. A mocinha partiu para a busca espiritual de respostas. Apelou ao padre, ao pastor, à mãe de santo, ao pai de santo, ao benzedor, à mãe de terreiro, e nada lhe servia.
Foi então, meses depois do processo, que Jota Cardoso retornou à sua porta. Trazia consigo três duzias de rosas vermelhas, um anel de brilhantes e um sorriso largo na sua face quadrada. A abandonada olhou-o nos olhos escorregadios, sentiu nojo, desprezo, ódio, amargura, mágoa e asco. Deu-lhe um tapa estatelante. O rapaz permaneceu parado. Deu-lhe outro tapa e outro e mais outro.
Ele acabou por segurar-lhe as mãos, beijou-lhe escandalosamente, empurrou-lhe para a sala que outrora fora o início do desejo e possuiu-a em completa descoordenação moral. Carminha Fonseca entregou-se sem questionar, sem pestanejar e sem querer parar. Foram ao final, quando desmaiou. Desta vez, Jota Cardoso manteve-se ao seu lado, em posição de conforto. A noiva voltou ao mundo real gritou - não para não para não para, e esbofeteou o rapaz em grande estilo, daí viajaram ao delírio, seguido de desmaios, seguido de volúpia, seguido de desmaio, seguido de ...
É isto aí!
Assinar:
Comentários (Atom)














