quarta-feira, 20 de abril de 2016

A sessão de cura

Entrou no consultório meio atabalhoada, e foi logo sentando na cadeira, revelando seus mais íntimos e secretos segredos. Falou de tudo, chorou, soluçou, enfim, desabafou de uma forma nunca feita em toda a sua vida. Ao fim de tudo, pois tudo uma hora termina, pegou o lenço oferecido, enxugou as lágrimas, refez sua saia levantada pela posição da confortável poltrona.

Foi aí, e só aí é que deu-se conta que aquele era um consultório odontológico e não a clínica do analista, que estava na sala ao lado. Sorriu sem graça, levantou-se leve, mas envergonhada. Aproximou-se do dentista, abraçou-o com veemência e beijou-o em frenesi. Mantiveram-se abraçados em longos minutos, em impávido silêncio.

Saiu dali curada.

É isto aí!



domingo, 17 de abril de 2016

Papo de esquina VIII

- Aí, vão fundar um partido novo.

- Outro? Será mais um só para encher o saco.

- Também acho, mas que partido é este?

- É o PCU, o Partido dos Cleptocratas Unidos.

- Hummm, este negócio vai dar pau ...

É isto aí!

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O homem nu da repartição.

Parlamento húngaro em Budapeste, às margens do Rio Danúbio
Saiu de casa apressado, atrasado, amargurado, entediado, desesperado, frustrado e triste, sobretudo triste. Naquela manhã desejou ansiosamente a morte. Mas de alguma forma havia o impulso de ir de encontro a algo novo, quem sabe a felicidade? Vinte minutos de caminhada e já adentrava no hall do edifício onde trabalhava e só aí se deu conta de que estava nu.

O engraçado é que ninguém parecia ligar para aquela situação. Subiu ao sétimo andar, entrou na repartição pública onde era lotado há vinte e seis anos. Nada, nem sequer um olhar diferente, uma palavra acerca de, enfim, percebeu-se um zero no meio da multidão.

Até aí tudo transcorria em quase normalidade, onde logo assegurou-se de que as coisas não poderiam ser tão ruins a ponto de piorar. Foi então que Merindinha, a mais gostosa das mais gostosas da área, parou em frente à mesa, olhou-o nos olhos e falou:

- Afonsinho, você está tão diferente. Está tudo bem com você? 
- Respondeu que sim. Tinha lá seus problemas, mas achava que poderia conviver com eles.
- Pode repetir sua resposta, por favor?
- Perfeitamente, Merindinha - estou bem, mas tenho alguns problemas que posso conviver com eles.

A moça deu um grito agudo e desvairado - gente - o Afonsinho está possuído.

Toda a repartição correu à mesa para ver, entender e participar da cena dantesca. Afonsinho, nu, sentado sem entender nada, olhava a todos com ânsia agravada por uma inevitável crise hipertensiva, com tremores e sudorese.

Lacerda quebrou o gelo do espanto e dirigiu-lhe a palavra:

- Diga, Afonsinho, tudo bem com você?

- Sim, quer dizer, eu acho, mas desculpem, eu sei que estou nu, mas como ...

- Puta que pariu, Afonsinho, vou chamar o SAMU agora, tem algo aí que está muito esquisito.

Nisto se aproxima da mesa um contribuinte cansado de esperar o atendimento. Olha bem nos olhos dele e trava um diálogo bem macabro aos ouvidos presente:

- Jó reggelt! Az én nevem Áder.  Segítség?

No que Afonsinho respondeu:

- Jól vagyok.

Então o homem de fala sinistra virou-se para a platéia de curiosos e falou com um sotaque desconcertante:

- Este homem é húngaro, e disse que está tudo bem com ele. Desta maneira não precisam se preocupar. 

Cada um voltou para seu lugar, uns achando engraçado, outros achando nada e Afonsinho ficou ali, sozinho, nu e sem a compreensão do mundo.

É isto aí!

Papo de esquina VII

- Então! Qual a melhor lição que tiramos desta temida trama cunhada nos porões da sordície?

- O crime compensa ...

- É, e além disto recompensa ...

- Humm, este negócio vai dar pau.

É isto aí!

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Este golpe que está aí não passa

Este golpe que está aí é bandido!
é golpe de farrapos.

Este golpe que está aí é traiçoeiro.
é golpe sim senhores, sim senhoras!

Este golpe que está aí fede!
é golpe de latrina demente.

Este golpe que está aí é cruel!
é golpe contra os pobres.

Este golpe que está aí não passa!
é golpe natimorto de uma política frustrada.

Vença a urna, conquiste o povo,
Faça valer seu voto.

É isto aí!


Atestado de óbito

Eu quero o divórcio, disse ela em tom sereno, com uma candura imensurável. Passou os dedos levemente por sobre a mesa do jantar, olhou nos olhos dele e aguardou a resposta.

silêncio

Ele levantou-se, foi até a sala, abriu a pasta e tirou de lá uma carta. Voltou, entregou-lhe e disse que iria comprar cigarros e na volta discutiriam o assunto.

Ela assentiu com um leve movimento da cabeça, pegou delicadamente o envelope. Quando ocorreu que ele havia parado de fumar há mais de dez anos, levantou-se para indagá-lo sobre isto, mas já havia saído. Ao abrir o documento, o que leu deixou-a confusa e perplexa - tratava-se do processo do divórcio já definido, aguardando apenas a assinatura dela.

Com lágrimas copiosas e lábios trêmulos, sentiu-se mal, sufocada, diante do que denominou de um atestado de óbito do casamento que acreditava ser modelo de amor eterno.

É isto aí!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Rendas e Redes

Mas o que vocês querem comigo? O que estou fazendo aqui? Quem é você?

Nós queremos a verdade. Você está aqui como colaboradora da verdade pela libertação da pátria de pessoas nefastas. E quem sou eu é o que menos importa a você.

Uma vez apresentados, explique por que você está cursando Ciências Sociais.

Por que eu quero, por que eu gosto.

Entendo. Agora comece a falar do seu pai, Mary Anne. 

Prefiro não falar muito dele, até mesmo por que ele próprio pede para que não falemos.

Mas ele mora com vocês?

Posso saber porque você está tão interessado no papai?

Nada, só curiosidade.

Sei.

Mas, ele, hummm, seu pai, ele vota em quem?

No candidato dele, que eu saiba.

E quem é o candidato dele?

A pessoa que recebeu seu voto.

Pessoa? Então pode ser uma mulher?

Nada impede.

Mary Anne, pela última vez, o que faz seu pai?

Nada demais. Ele é só negador de rendas.

E de onde vêm estas rendas?

É de Natal, eu acho.

De costas, Mary Anne. Você está presa por retenção de informação útil ao sistema. Alô, John?! Manda prender o Smith, ele é sonegador de rendas , foi a própria filha quem denunciou. E trás também uma Edna Tal, deve ser comparsa.

Mas o que é isto? Você é doido ...

Cala a boca. Você mesma entregou seu pai como sonegador de rendas.

Mas é o que ele é. Ele trabalha no controle de qualidade de redes e exclui as rendas com defeito.

Alô?! Hunter - o vigarista trabalha com uma rede, providencia um mandato de busca e apreensão para a quadrilha toda.

É isto aí!

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Papo de Esquina VI

Três condições para que o Bonder sorria ao dizer o nome do novo regente tupy-guarany

Narcisista, maquiavélico, corrupto.

Altruísta, democrático e honesto.

É ... vai dar pau isto daí!

É isto aí!

Cenas de Amor 2º Ato

mesmo sem saber quem você era, sabia que seria minha (meu).

Eu me apaixonei por você, desde o primeiro momento em que te vi!

Eu quase não acreditei quando ouvi você dizer sim,

quando você aceitou ser minha namorada, minha!

Foi um momento mágico!

E ainda é mágico poder estar com você todos os dias,

poder te abraçar, te tocar, sentir teu cheiro,

provar do teu sabor, beijar você.

Como é mágico poder te amar!

Saber que você é minha,

que os teus carinhos são meus,

que teus melhores beijos são para mim

e saber que o seu amor é só meu!

Eu nem poderia imaginar que a nossa história seria assim,

repleta de amor e felicidade!

Eu nem poderia imaginar que eu saberia amar desta maneira, com todo o meu ser.

E esse amor é teu, somente teu.

Eu Te Amo Muito meu Amor.

Você é tudo pra mim!

Cenas de amor 1º Ato

Muito bem. Atenção - silêncio. Quero uma luz difusa sobre os dois, que começará em rosa leve. Por favor, saiam todos do set. Quem não for da produção, queira se retirar.

Gente esta é a última passagem. Caprichem, hem ... Geraldinho, quero você olhando nos olhos da Carminha. Carminha, quero você olhando alhures.

Muito bem, gravando ... silêncio ... silêncio ... silêncio ... mas que merda de silêncio é este? Estão esperando o quê, os dois pombinhos. Comecem esta merda logo.

(Geraldinho) Ainda me lembro da primeira vez em que te vi.

(Carminha) Infelizmente eu também ...

Coooooooooooooooooooooooorrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrtaaaa!!! Cadê o texto? pelo amor de Deus, de onde você tirou esta fala, Carminha?

Seu Diretor - este animal estava na cama ontem com a minha melhor amiga. Eu odeio ele.

Carminha, isto aqui é só uma novela, ok? Existem milhares de fãs apostando no exemplo de vocês dois e lá fora isto não existe. Muito bem, segue com a fala da Carminha.

(Carminha) Naquele momento eu tive a certeza de você era mesmo o Amor da minha vida! (ânsia de vômito)

Corta corta corta. Salva  a fala da doida, salva a fala ... segue...

(Geraldinho) Sabia que desde aquele dia não consegui tirar você do meu pensamento?

Excelente ...

(Carminha) Deve ser o tal de mau olhado ...

Coooooooooooooooooooooorrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrtaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!! Para tudo - para tudo - para tudo. Contra-regra, trás um rivotril, um valium e um lexotan, amarra esta doida e joga os tres na boca dela e trava. Vai ter que engolir. Carminha, sua maluca, sabe quanto custa 1 minuto de gravação desta merda?

É isto aí (1º Ato)

Papo de esquina V

Pensem numa mulher bem gostosa!

Lili Bartô.

Lili Bartô.

poft#craw*tuft#lapd** minha mãe não, caralho, minha mãe não... paft## zupt## porrada...porrada ...

É isto aí!

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Papo de esquina IV

Alguém aí tem uma rima para sacanagem?

Nossa, tenho muitas.

Eu também, mas são todas redundantes.

Então vamos ficar só na cunhagem. Só tem sacanagem / Isto tudo é uma puta cunhagem / Ah! É sim / Pois sim, pois sim

É isto aí!

Morrer em Paris

Veio de Paris a confirmação que todos temiam. Tio Zoinho falecera naquela tarde-noite de inverno francês, à beira do Sena. Poderia ser poético, romântico, exemplo de vida e sagacidade, mas ele estava literalmente falido quando fugiu com a amante, uma caboclinha lindíssima, que encontrou num passeio quando esteve em Natal. Tinha 69 anos e por incrível que pareça, tinha sempre aquele aspecto de homem maduro, sem idade definida e de banho tomado.

Tia Fafá não chorou nem sequer demonstrou raiva, ódio, pena, nada. Estávamos todos ao seu lado quando a mensagem chegou, de certa forma esperada, pois a caboclinha, cujo nome era proibido de ser citado, ligara na véspera para a Dedé, filha do tio Zoinho com a tia Fafá. Neste contato, havia relatado que ele passou mal e que foi levado para o Hotel Dieu, o mais famoso hospital público da cidade. Como não era emergência, pelo menos não parecia e as horas foram passando sem atendimento, disse que iria ao banheiro e desapareceu.

Ela comunicou o fato à polícia e somente na manhã seguinte recebeu a notícia de que o corpo havia sido encontrado às margens do Sena, e no bolso havia o passaporte e duas cartas, sendo uma dirigida a ela, em francês e uma em português para  a família. Além disto, de forma legível, havia seu nome, número de celular no bolso do paletó, para emergências.

Enquanto aguardávamos novas informações, tia Fafá levantou-se abruptamente, bateu espalmado com força por sobre a mesa de jacarandá, deu uma gargalhada monstruosa, e gritou em desabafo e desapego:

- Quer saber (risos sarcásticos) - quando aquela caboclinha filha de uma rapariga tornar a ligar, digam a ela que faça o favor de jogar o corpo do imbecil no Sena, por que Paris tem uma das melhores estações de tratamento de esgoto do mundo ... e saiu em desabalada carreira para seu quarto.

Desde então e depois disto tudo, chorou ... chorou ... chorou ... até o fim dos seus dias. A mágoa maior que tinha era de que nunca a levara a Paris.

Já a caboclinha herdou uma boa fortuna guardada a sete chaves num pequeno e discreto banco vienense e viveu feliz para sempre. De certa forma cumpriu o desejo do casal - Cremou o corpo e jogou as cinzas no Sena.

É isto aí!

Papo de Esquina III

Mas, o que vocês falam daquele surto da Janaina?

Arretada, diria minha tia.

Possuída, diria minha avó. E você?

Chata, muito muito chata, mas muito chata mesmo.

É isto aí!



terça-feira, 5 de abril de 2016

Papo de Esquina II

Caramba, este pessoal sem voto está cada vez mais doido.

Mas isto é razoável.

Como assim, razoável? Estão todos agindo como se não houvesse amanhã.

Elementar! Quem tem cunha tem medo.

É isto aí!

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Papo de esquina I

Já pensou em ser famoso?

Já!

E aí?

Nada, pensar não custa nada.

Sério? E quando fosse famoso, o que faria?

Nada.

É isto aí!

O analista da Pitangueira e o armário.

Olá, tudo bem?

Não.

Então entre e vamos avaliar este sentimento.

Tudo bem quanto a entrar, mas daí a avaliar este sentimento acho no mínimo insensato.

Interessante, quer falar sobre esta sensação de insensatez?

Veja bem; você cobra por hora e eu geralmente pago por programa.

Entendo. Acredita que a minha atividade é prostituta de uma forma diferenciada?

O senhor quem disse isto.

Bem, já que estamos num caminho interessante, fale o que o trouxe aqui.

Primeiro não existe "nós".

Como assim?

Esta fala barata de estarmos no caminho. Eu não estou no seu caminho.

Com certeza não está.

Mas mesmo assim disse.

Se estamos os dois aqui, de alguma forma estamos num processo onde caminharemos na mesma direção, a qual você será o condutor e eu apenas analisarei a paisagem e as condições da estrada.

Ah, bom. Eu é que serei o condutor. Gostei de saber. Achei que o senhor tinha por hábito querer ser o macho alfa de uma relação de análise.

E isto te incomoda?

Como assim? Para onde quer levar esta conversa. O senhor é solteiro liberal?

Não. Eu não sou, mas seria importante para você que seu analista fosse um solteiro liberal?

Levantou-se abruptamente e nunca mais voltou ...

É isto aí!


domingo, 3 de abril de 2016

Como ser triste em dois atos.

Chegou em casa madrugada quase esmaecida e encontrou-a nua nos braços do ex-marido. Fingiu que não viu e voltou como entrou, em silêncio e ansiedade. Voltou para a casa da mãe, que o esperava todas as manhãs, com o café feito, o pão que mais gostava, a manteiga da roça e aquela ar de "Não te disse?".

A mãe o recebeu com naturalidade, levou-o à copa, serviu o desjejum, colocou o jornal por sobre a mesa, buscou seu chinelo, colocou ao seu lado e deixou-o só, dizendo que deveria ir em algum lugar conversar com alguém.

Entrou no seu quarto, da mesma forma de quando saira há oito anos. As suas fotos, a cama grande e macia, e dormiu o sono dos injustos que têm mãe. Acordou já entardecendo, tomou um banho demorado, barbeou-se, e só aí se deu conta de que dezenas de processos, clientes, funcionários, e mais um tanto de responsabilidades laborais ficaram ao léu. Mas estava se sentindo bem, e isto era estranho.

Chamou pela mãe e um silêncio imperou no ambiente. Saiu enrolado na toalha em direção à cozinha para alimentar-se e deu de cara com Cleidinha, a primeira e interminável paixão da sua vida, mal resolvida, mal começada, mal vivida e mal terminada. Nem linda nem feia, nem gorda nem magra, nem envelhecida nem jovem - Cleidinha ainda era uma grande incógnita.

Ela se aproximou lentamente, metamorfosicamente (como diria Bolão, um amigo), abraçou-o e na sua cabeça passou um filme. Deixou-se levar pelo desejo e entrou na profunda e obscura relação com a moça. Nunca foi feliz ao seu lado e sempre achava que se tivesse encarado a situação com o flagrante da ex, seria mais honesto com seu sentimento. Passaram-se anos e aí morreu triste, abraçado em Cleidinha, desejando a ex.

É isto aí!

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Papo de esquina

Está com medo?

Sim, estou.

Eu também ... eu também ...

É isto aí!