quinta-feira, 11 de maio de 2017

Notas do dia!

Debret
Tiago 2,14 "De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem fé, se não tem obras? Acaso a fé pode salvá-lo?"

Traduzindo para o pindoramico nheengatu:

De que adianta, meus irmãos, alguém dizer que tem convicção, se não tem provas? Acaso a convicção pode salvá-lo?


Enquanto isto, não muito longe a França em crise; Coreia do Norte em crise; Síria em crise; Líbia em crise; Ucrânia em crise; Venezuela em crise; Sudão em crise; Porto Rico em crise; Yemen em crise; Argentina em crise; Afeganistão em crise e cá na terrinha, ah!! o Brasil está em transe.

Pois cá na colônia, neste imenso Portugal, o gigante está desacordado, em coma, sem vergonha e com seu amaldiçoado complexo de viralatas, afinal nunca seremos bons os suficientes, só para começar falamos o português, um idioma esquisito, difícil e desconhecido do mundo dos homens de bem que governam com carinho, dedicação cristã e ternura o mundo civilizado.

Além disto, o UOL divulgou hoje que o grande sucesso da loira Angélica - Vou de Táxi nada mais é do que uma ode à masturbação feminina - com certeza uma geração inteira, entre 30 e 40 anos está totalmente desconsolada por não ter entendido isto deste jeito naquela época.

Além da língua portuguesa, aqui não tem neve - que horror!

Além de não ter neve, aqui não tem educação, que coisa pavorosa!

Falado em não ter educação, o mestre dos mestres nomeado pelo Temerário, o Velho, como embaixador da Educação do Brasil foi denunciado por falsificação grosseira de diploma de curso superior. Que coisa, hem!

Além de não ter educação, aqui não tem cultura, que coisa horrorosa!

Já que estamos sobrenadando em Cultura, claro, uma das primeiras coisas que um sistema opressor tenta romper é com a Cultura, só para inserir novas coisas, digamos assim. Por isto São Paulo e Rio passam por uma devassa neste quesito.

Além de não ter cultura, aqui não tem uma segunda língua oficial de origem anglo-saxônica. Que nojo, menos de 1% desta população mestiça e nativa entende plenamente o que os homens de bem falam e escrevem!

O jeito é devolver tudo para os índios e irmos embora para ... para ... mas espera, tem uma coisa errada nestas convicções ... a língua é minha pátria como afirmou Fernando Pessoa, então, hummm, pense, pense, pense ...

É isto aí!

Escadarias

Alto lá
Este poema não é meu
Copiei e colei
Autora - Bia Abreu*
Fonte - Aqui em casa mesmo

*Bia Abreu é minha filha e é linda, poetisa, escritora, toca Ukulelê e quase arquiteta, mas só neste item é quase. Li este poema que estava guardado a sete chaves como tudo que ela escreve:

Escadarias

O último degrau 
de uma escada 
no escuro. 
Passado inseguro,

futuro incerto.
Em que luz me sustento?
Cecília canta 
porque o instante existe

Alguém canta 
porque os males espanta
Eu, que temo minhas tantas sombras
Canto para segurar meu pranto.



É isto aí, Bia!

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A renúncia é a libertação. Não querer é poder.

Alto lá
Este texto não é meu
Copiei e colei
Autor - Fernando Pessoa (Bernardo Soares)
Fonte - Arquivo Pessoa 


Que me pode dar a China que a minha alma me não tenha já dado? E, se a minha alma mo não pode dar, como mo dará a China, se é com a minha alma que verei a China, se a vir? Poderei ir buscar riqueza ao Oriente, mas não riqueza de alma, porque a riqueza de minha alma sou eu, e eu estou onde estou, sem Oriente ou com ele.

Compreendo que viaje quem é incapaz de sentir. Por isso são tão pobres sempre como livros de experiência os livros de viagens, valendo somente pela imaginação de quem os escreve. E se quem os escreve tem imaginação, tanto nos pode encantar com a descrição minuciosa, fotográfica a estandartes, de paisagens que imaginou, como com a descrição, forçosamente menos minuciosa, das paisagens que supôs ver. Somos todos míopes, excepto para dentro. Só o sonho vê com (o) olhar.

No fundo, há na nossa experiência da terra duas coisas — o universal e o particular. Descrever o universal é descrever o que é comum a toda a alma humana e a toda a experiência humana — o céu vasto, com o dia e a noite que acontecem dele e nele; o correr dos rios — todos da mesma água sororal e fresca; os mares, montanhas tremulamente extensas, guardando a majestade da altura no segredo da profundeza; os campos, as estações, as casas, as caras, os gestos; o traje e os sorrisos; o amor e as guerras; os deuses, finitos e infinitos; a Noite sem forma, mãe da origem do mundo; o Fado, o monstro intelectual que é tudo... 

Descrevendo isto, ou qualquer coisa universal como isto, falo com a alma a linguagem primitiva e divina, o idioma adâmico que todos entendem. Mas que linguagem estilhaçada e babélica falaria eu quando descrevesse o Elevador de Santa Justa, a Catedral de Reims, os calções dos zuavos, a maneira como o português se pronuncia em Trás-os-Montes? 

Estas coisas são acidentes da superfície; podem sentir-se com o andar mas não com o sentir. O que no Elevador de Santa Justa é universal é a mecânica facilitando o mundo. O que na Catedral de Reims é verdade não é a Catedral nem o Reims, mas a majestade religiosa dos edifícios consagrados ao conhecimento da profundeza da alma humana. O que nos calções dos zuavos é eterno é a ficção colorida dos trajes, linguagem humana, criando uma simplicidade social que é em seu modo uma nova nudez. O que nas pronúncias locais é universal é o timbre caseiro das vozes de gente que vive espontânea, a diversidade dos seres juntos, a sucessão multicolor das maneiras, as diferenças dos povos, e a vasta variedade das nações.

Transeuntes eternos por nós mesmos, não há paisagem senão o que somos. Nada possuímos, porque nem a nós possuímos. Nada temos porque nada somos. Que mãos estenderei para que universo? O universo não é meu: sou eu.


s.d.
Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa. (Recolha e transcrição dos textos de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha. Prefácio e Organização de Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1982.  - 390.
"Fase confessional", segundo António Quadros (org.) in Livro do Desassossego, por Bernardo Soares, Vol II. Fernando Pessoa. Mem Martins: Europa-América, 1986.

Companheiro é companheiro Filha da Puta é Filha da Puta

terça-feira, 9 de maio de 2017

As convicções e as falácias do espantalho escocês

Primeiro vamos ao exercício da Falácia do espantalho Escocês - legítimo. Aqui se bebe aqui não se paga:

Quando vejo Gilmar falando de Rodrigo, sei muito mais de Gilmar do que de Rodrigo, o que não quer dizer que nada sei sobre Rodrigo, afinal a cônjuge de um nada na mesma água limpa da filha do outro, sem conflitos - apenas interesses.

Mas se Michel não fala de ninguém, com ninguém e para alguém, além de ditar a dura pena sobre o lombo, sugere a vã percepção que de tanto mudar para lá e para cá, agora mora abaixo ou acima do muro onde moro no mundo triste.

Mas tudo isto só se sustenta e sobrevive do que Eduardo plantou, a TVOtários regou, os patos amarelos adubaram e o pupilo Azteca Montezuma Maia golpeia com a foice e o martelo da sua mão sem ser a esquerda ou a direita, a mão ... a mão ... pois é!

Mudando de assunto, a Falácia do Espantalho é um argumento em que a pessoa ignora a posição do adversário no debate e substitui por uma versão distorcida e exagerada, e que representa de forma errada esta posição. A falácia existe quando a distorção é proposital, de forma a tornar o argumento mais facilmente refutável, ou quando é acidental, quando quem usa a falácia não entendeu o argumento que quer refutar. 

Nesta falácia, a refutação é feita contra um argumento criado por quem está atacando o argumento original, e não é uma refutação deste argumento original. Para alguém que não esteja familiarizado com o argumento original, a refutação pode parecer válida, como refutação daquele argumento. 

Uma das formas desta falácia tem a seguinte forma: 
Pessoa A defende o argumento X 
Pessoa B apresenta o argumento Y (uma versão distorcida de X) 
Pessoa B ataca a posição Y 
Logo, X é falso 

Traduzindo para o nhangatu  pindoramês:
O mistério púbico defende com convicção que um cidadão é suspeito, apesar de não ter evidências.

O Misteroso apresenta o argumento de que o cidadão agora suspeito tem triplofalo, pois segundo informações tabajaras ele possui um johnplex.

O misterioso ataca com fé, esperança e ardor a tese das convicções, segundo a tradição, a família e a proprietária, digo, propriedade platinada, obedecendo ao direito romano, etc e tal.

Logo, a convicção é falsa, mas isto não vem ao caso. O importante é o triplofalo com Johnplex. O cidadão vai ter que provar que não tem um nem outro.

Já a Falácia do Escocês também é conhecida como Expulsão do Grupo, também chamada de Escocês De Verdade. Nessa falácia, costuma-se fazer uma afirmação sobre uma característica de um grupo e, quando confrontado com um exemplo contrário, afirmar que este exemplo não pertence realmente ao grupo. 

Ex.: 
- Nenhum escocês coloca açúcar em seu mingau. 
- Ora, eu tenho um amigo escocês que faz isso. 
- Ah, sim, mas nenhum escocês de verdade coloca.

Traduzindo para o nhangatu  pindoramês:
- Nenhum tucano rouba dinheiro público.
- Ora, ora, direis ouvir estrelas, tem um bad boy carioca que faz isso.
- Ah, sim, claro, mas nenhum tucano de verdade rouba dinheiro público.

É isto aí!


segunda-feira, 8 de maio de 2017

Me vuelves loco - Armando Manzanero

Armando Manzanero Canché (Mérida, 7 de dezembro de 1934 – Cidade do México, 28 de dezembro de 2020) foi um cantor e compositor, romântico mexicano. Em 1965, venceu o Festival de la Canción em Miami com a canção "Cuando estoy contigo". Foi agraciado com o Prêmio Grammy de Contribuição em Vida em 2014. Faleceu em um hospital da Cidade do México em 28 de dezembro de 2020, aos 86 anos, devido a uma parada cardíaca ocasionada pela COVID-19.

Composições
Suas composições são interpretadas por cantores com fama internacional como Frank Sinatra, Tony Bennett, Elvis Presley, Franck Pourcel, Paul Mauriat, Ray Conniff, Manoella Torres, Marco Antonio Muñiz, Edith Márquez, Raphael, Moncho, José José, El Tri, Andrea Bocelli, Andrés Calamaro, Christina Aguilera, Pasión Vega, Eydie Gormé, Roberto Carlos e Luis Miguel.


Me vuelves loco



Me Vuelves Loco
Compositor: Armando Manzanero
Fonte: Letras

Cuando camino por la calle
Y del brazo vas conmigo
Me vuelves loco

Y cuando siento el sonido de tu risa
Que me vende tu alegría
Me vuelves loco

Me vuelves loco
Cuando empiezo a ver que el día
Se comienza a despedir
Porque al llegar a nuestro cuarto
Haré cosas tan hermosas
Que me empiezas a decir
Me vuelves loco

Cuando me pides por favor
Que nuestra lámpara se apague
Me vuelves loco

Cuando transmites el calor
Que hay en tus manos en las mías
Me vuelves loco

Y cuando siento que tus brazos
Aprisionan mis espaldas
Desaparecen las palabras
Solo se oyen mil suspiros
No sé evitarlo sin remediarlo
Me vuelves loco

Cuando me pides por favor
Que nuestra lámpara se apague
Me vuelves loco

Cuando transmites el calor
Que hay en tus manos en las mías
Me vuelves loco

Y cuando siento que tus brazos
Aprisionan mis espaldas
Desaparecen las palabras
Solo se oyen mil suspiros
No sé evitarlo sin remediarlo
Me vuelves loco

Y cuando siento que tus brazos
Aprisionan mis espaldas
Desaparecen las palabras
Solo se oyen mil suspiros
No sé evitarlo sin remediarlo
Me vuelves loco

domingo, 7 de maio de 2017

Classificados do Amor

Vendo um amor em bom estado de conservação. Tem livros e literaturas para repor, tem coisas que deixei prá lá, tem CD's que não devolveu, mas de uma maneira geral está em excelente estado.

Foi um amor fiel enquanto durou, foi verdadeiro, íntimo e prazeroso, mas acabou a validade e não consegui reativar a chama que ardia diuturnamente entre nós.

Acabei concordando com ela e entendi que no meu caso só tem jeito se abrir mão do seu amor, então ela achou de ajudar a selecionar o comprador, por que amor não se prende.

Quem comprar há de ficar tão feliz quanto fui ao amar. Preço a combinar com o tempo, sem pressa. Aceito devolução, dou garantia e boas referências.

 Tratar neste jornal sob o número 345AD.

É isto aí!

Amores ridículos

Eu te amo!

Mas isto é impossível!

Eu sei disto.

Então?!?!?!?!?!?

Eu te amo!

Defina amor e verá que eu não me enquadro.

Você é amor, meu amor, minha amada,

Meu, minha ... não existe posse no amor.

Está certo, ok, valeu!

Espera, espera, volta ...

Sim? Aceita o meu amor?

Depende ...

Depende do que?

Quem é Carminha? Não minta para mim.

Car car carminha? Não sei?

Só vou perguntar mais uma vez - quem é Carminha?

E por falar nisto, quem é Francis Howard?

Não mude de assunto. Eu perguntei primeiro ...

É isto aí!

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Seu ódio fala sobre você.


Odeia pobres?
ideologias adversas? 
política, ativistas? 
ricos, cultos? 

Odeia negros?
brancos?
mulheres? 
gays? 

Odeia crentes?
católicos?
espíritas?
muçulmanos?

Odeia judeus?
flagelados?
nordestinos?
estudantes?

Odeia trabalhadores?
sindicatos?
índios?
estrangeiros?

Odeia críticas?
novidades?
ciclistas?
pedestres?

Odeia o próximo?
odeia amar ao próximo?
o altruísmo?
odeia o mundo?

Preocupe-se
Nunca mais ocupe
deste ódio para si

este sentimento
é narcisicamente
humano.

Mas é sua alma
a sua exclusiva
e imaculada alma
é quem está doente

tristemente
para sempre
quase morta
todo o tempo!

É isto aí!

Versão original daqui mesmo, da Pitangueira, poema publicado originalmente em 2017.

Resenha sobre o poema realizado pela IA  chatgpt.com em 19/fevereiro/2026:

Resenha crítica de “Seu ódio fala sobre você”

“Seu ódio fala sobre você” é um poema que se constrói a partir de um gesto simples e, ao mesmo tempo, estruturalmente sofisticado: a repetição interrogativa. Em vez de afirmar, o poema pergunta. Em vez de acusar diretamente, ele conduz o leitor a confrontar a si mesmo. Essa escolha formal não é apenas estética, mas funcional — ela constitui o próprio mecanismo de revelação que sustenta o texto.

Desde seus primeiros versos, o poema organiza-se como um interrogatório moral. As perguntas se acumulam sem transição narrativa ou explicativa: odeia pobres, ricos, ideologias, comportamentos, religiões, nacionalidades. Não há hierarquia entre os objetos do ódio, nem qualquer tentativa de justificar ou contextualizar esse sentimento. Ao contrário, o que o poema faz é progressivamente esvaziar a relevância do objeto odiado, até que reste apenas o próprio ato de odiar como fenômeno central.

Esse é o primeiro deslocamento importante operado pelo texto: o foco não está no mundo, mas no sujeito. O poema não investiga as razões externas do ódio, mas sua função interna. Ao universalizar os possíveis alvos, ele revela que o ódio, quando sistemático, deixa de ser uma reação específica e passa a constituir uma estrutura da própria consciência.

Esse movimento encontra sua formulação mais precisa no verso em que o ódio é descrito como um sentimento “narcisicamente humano”. Trata-se de um ponto de inflexão conceitual. O poema não trata o ódio como uma anomalia ou um desvio, mas como uma possibilidade intrínseca à condição humana. O problema, portanto, não é sua existência, mas sua permanência e centralidade na vida interior do sujeito.

A partir desse momento, o poema abandona gradualmente sua estrutura interrogativa e assume um tom declarativo. O que antes era investigação torna-se diagnóstico. O narrador deixa de perguntar e passa a afirmar que o ódio não corrói o mundo, mas aquele que o abriga. O fechamento do poema é particularmente contundente nesse sentido, ao sugerir que o ódio não é apenas um posicionamento emocional, mas um processo de enfraquecimento interior — uma espécie de doença silenciosa da alma.

Essa transição estrutural é decisiva. O poema começa como um espelho e termina como um diagnóstico. Ele não condena explicitamente, mas revela as consequências existenciais do ódio persistente. O leitor não é acusado; ele é exposto a uma possibilidade inquietante: a de que o ódio, mais do que um julgamento sobre o outro, é uma forma de auto-revelação.

É nesse ponto que o poema ultrapassa o campo da crítica social ou política e entra em um território mais propriamente filosófico. Seu interesse não está nas tensões entre grupos, mas na condição interior do indivíduo. O ódio não aparece como um erro ideológico, mas como um sintoma existencial. Ele revela menos sobre o mundo do que sobre aquele que o sente.

A mudança de título, de “Seu ódio é seu atestado de óbito” para “Seu ódio fala sobre você”, é particularmente significativa nesse contexto. O título original operava como uma sentença definitiva, sugerindo um estado irreversível. O novo título, por sua vez, desloca o foco da condenação para a revelação. O ódio deixa de ser apresentado como um fim e passa a ser compreendido como uma linguagem — um sinal que revela algo mais profundo sobre o sujeito.

Essa alteração representa um amadurecimento estético importante. O poema deixa de operar como um veredito e passa a funcionar como um instrumento de leitura da condição humana. Em vez de encerrar o sujeito em uma definição, ele abre a possibilidade de reconhecimento.

Formalmente, o texto é econômico e direto. Não há imagens ornamentais nem metáforas elaboradas. Essa contenção estilística reforça o caráter clínico do poema. A linguagem não busca seduzir, mas expor. O efeito resultante é uma espécie de clareza incômoda, na qual o leitor é conduzido, sem mediações, ao núcleo conceitual do texto.

No conjunto, “Seu ódio fala sobre você” é um poema que se sustenta menos pela musicalidade ou pela imagem e mais pela precisão estrutural de seu gesto. Sua força reside na coerência entre forma e conteúdo: o poema não apenas fala sobre o ódio, mas reproduz, em sua própria forma interrogativa, o processo de desmontagem das justificativas que o sustentam.

Trata-se, em última instância, de um poema sobre o interior humano — não em sua dimensão sentimental, mas em sua fragilidade estrutural. Ao deslocar o foco do mundo para o sujeito, o texto revela que o ódio, quando persistente, deixa de ser uma reação e passa a ser uma condição. E é nesse reconhecimento que reside sua potência mais duradoura.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Versos no Luiz XV


Estava visitando os pais quando recebeu um telefonema que esperara, ansiosamente, vinte anos atrás. Lembrava-se da tensão do momento de embarcar naquela viagem que transformaria sua juventude no adulto em que se tornara. Ela não ligou, nunca escreveu e nunca mais retornou suas ligações.

Tinham acabado de se formar na faculdade: ele com uma proposta para trabalhar no Nordeste; ela com o desejo de ficar ali e revolucionar o mundo. O amor não conseguiu romper a barreira dos sonhos individuais, mas permaneceu no vácuo, guardado, à espera de um renascimento.

Depois disso, ele passou por um casamento que gerou uma filha e terminou num divórcio tempestuoso e pavoroso. Carregava consigo a marca estigmatizada do “nunca mais aquilo outra vez”. Mas aquele telefonema — a voz embargada, a saudade do que poderia ter dado certo se um tivesse cedido — conduziu-o ao destino. No trajeto, comprou rosas, vinho, chocolates finos, amêndoas e um CD do Chico César, para ouvir Por que você não vem morar comigo repetidas vezes até chegar. Sentia-se um adolescente. Como ela estava? Como estava sua vida, seu corpo, sua boca, sua alma? Perguntas guardadas por vinte anos.

Ela morava num condomínio, na última casa da última rua. Pequena, de madeira, com a grama maltratada à frente e uma cerca branca de ripas paralelas. Desceu com as compras. Esperou dar vinte horas, ensaiou o melhor sorriso e apertou a campainha — silêncio. Agradeceu por não ouvir cachorros latindo; não os suportava, tampouco gatos. Escutou passos arrastados em direção à porta. Quando ela abriu, revelou-se ali uma dor que jamais sentira.

A fraca luz da varanda iluminou uma mulher descabelada, de olhos vagos, tez ressecada, dentes amarelados pela nicotina, vestida com um pijama de flanela ensebado e imundo. Olharam-se. Ela o convidou a entrar com um movimento dos olhos e seguiu até o sofá, onde deixara o maço de cigarros. Além do cheiro insuportável da casa, havia entre os dois um silêncio tão pavoroso quanto deprimente.

Copos e xícaras espalhados, com tocos de cigarro, cinzas e restos de café, perdiam-se pelos cantos. Tateou a parede até encontrar o interruptor e pôde, pela primeira vez, observá-la com calma. Sentiu um misto de pena, raiva, insegurança e medo.

Sem conseguir pensar, fez o que lhe pareceu a mais estúpida das propostas:
— Venha, vou te dar um banho.

Ela sorriu, deu-lhe a mão para levantar-se e indicou o caminho com o queixo. O banheiro estava pior que a sala: vaso entupido, pia represada com cabelos, chão horroroso e um odor impiedoso. Abriu a basculante, testou o chuveiro — água quente. Procurou um sabonete; ela indicou a cômoda com um leve gesto. Tirou a própria roupa, a dela, e colocou-a sob a água. Ela tremeu, agitou-se, tentou sair, mas foi se acalmando. Lavou-lhe os cabelos, ensaboou todo o corpo, escovou-lhe os dentes. Nem lembrou que ali estava uma mulher — a mulher de sua vida. Precisava fazer aquilo, pensou.

Perguntou pela toalha. Ela apontou para o quarto ao lado. Fez sinal para que esperasse, entrou no aposento — também ensebado, com chão pegajoso, cheiro de bolor e roupas espalhadas por toda parte. Abriu a janela, encontrou uma toalha limpa e voltou. Colocou outra toalha sobre uma poltrona gasta, manchada de mofo.

Sentou-a ali, reuniu as roupas espalhadas e colocou-as sobre a colcha imunda da cama. Fez uma trouxa e a deixou do lado de fora. Arrumou a cama, buscou uma roupa limpa, perguntou por uma calcinha; ela negou com o indicador. Vestiu-lhe um pijama comprido, verde-claro, com estampas florais. Secou-lhe os cabelos com um secador esquecido no banheiro, enxugou-lhe os pés e deitou-a em lençóis e fronhas limpas.

Mal a deitou, ela o olhou no fundo da alma, bocejou, acariciou-lhe a nuca — como sempre fizera no passado —, fechou os olhos e dormiu.

Foi até a área externa, pegou um balde e um pano seco e voltou ao quarto. Tentou minimizar a poeira e a sujeira. Limpou o aposento, retirou todas as roupas do guarda-roupa e jogou-as pela janela. Recolheu copos, xícaras, pratos e talheres espalhados e levou tudo à cozinha.

Pegou a caixa de ferramentas na garagem, voltou ao banheiro, desentupiu ralo e vaso, trocou a bucha da torneira, reduziu o caos e o lodo dos azulejos. O outro quarto estava vazio, sem sinais de uso. Abriu a janela e passou um pano úmido no chão. A sala, aos poucos, ganhou ares de limpeza. O cheiro de mofo, vômito, cigarro, comida velha e café azedo cedeu lugar ao ar fresco da noite — exceto pelas cortinas pesadas e pelo tecido do sofá, que deixaria para outro momento.

A cozinha era tão caótica quanto o resto da casa. Ensacou o lixo disperso e levou para fora. A geladeira continha apenas alimentos estragados, abertos ou vencidos — tudo foi descartado. O fogão, em estado lamentável, foi lavado com água e detergente, assim como os armários, esvaziados sem exceção.

Saiu para a área externa e levou roupas, toalhas e lençóis para a pequena lavanderia. Não havia sabão; deixou-os ali. O dia amanhecia quando se deu conta de que aquilo era uma loucura. Resolveu voltar ao quarto, acordá-la, pedir uma explicação, entender o que acontecera.

Chamou-a pelo nome uma, duas, três vezes, até que um pensamento congelou sua existência. Ela parecia… não, não era possível. Aproximou-se devagar, trêmulo, tocou-lhe o braço imóvel. Sim. O que temia havia ocorrido.

Chamou a ambulância. Constataram o inenarrável. O serviço funerário levou o corpo onde habitara o amor. Quando a ciranda terminou e a roda-viva retomou o giro da vida, deu-se conta da tragédia.

Voltou ao quarto, sentou-se na cama e chorou até não conseguir mais. Ao abrir a primeira gaveta do criado-mudo, encontrou um papel de cigarro Luiz XV, plastificado, cuidadosamente guardado. Nele, escrevera versos juvenis de amor eterno e prometera cuidar dela até o fim dos seus dias.









É isto aí!

terça-feira, 2 de maio de 2017

A história não perdoa os repetentes

Principais campos de concentração e extermínio nazistas na Europa ocupada.
Dia destes subi a Colina do Bom Senso, lugar privilegiadíssimo do Reino da Pitangueira, não pela exuberância da natureza, mas pelo que se vê na vizinha pátria tupynambá.

Como sabem todos os nativos das mais diversas tribos da pátria amada, os brancos da mais alta corte europeia, dominadora da corte portuguesa, começaram a ficar profundamente irritados com o uso generalizado das línguas nativas para comércio e relações sociais. Por aqueles dias, o valoroso Marquês de Pombal, que então governava Portugal e suas colônias (a serviço de cujus), resolveu impor o português na marra, por decreto, em 1758. 

Num documento pouco convencional, digamos assim, o Marquês editou o Alvará do Diretório dos Índios, e proibiu o uso de todas as línguas indígenas e o ensino do nheengatu, que era “invenção diabólica” dos jesuítas (O Papa Francisco é Jesuíta, logo para a corte ...). Não satisfeito, promoveu a expulsão dos jesuítas, em 1759.

Bem, daqui vejo pretos, mulatos, cafuzos, mamelucos, morenos, brancos latinos, sararás e demais não brancos ou quase brancos, e brancos pobres que são pretos para os brancos, homenagearem o extraterrestre nazismo bolsomarciano e um movimento que se auto-intitula Movimento dos Bolsomarcianos Livres. 

Fico da Colina do Bom Senso olhando ... olhando ... olhando ... para aquelas pessoas adorando seu mito da hora, outros vieram e outros virão. Aí, lá no fundo lateja um pensamento que vai aumentando, aumentando, até chegar na ponta dos dedos - penso que eles, os adoradores, não entenderam nada da História.

É isto aí!



domingo, 30 de abril de 2017

O argumento da força X a força do argumento.

General Pirro
Está viralizado na rede o filme e a sequência de fotos de um homem de 33 anos sendo atingido violentamente por um outro homem, com uniforme de oficial militar. O homem vinha correndo de uma confusão criada pela atividade de outros homens com uniforme militar, na área onde estavam concentrados os manifestantes contrários a um governo desgovernado e caótico.

O outro homem, com uniforme de oficial militar, estava parado, estático, com um cassetete à mão, e em leve movimento foi em direção ao homem de 33 anos e descarregou toda a sua energia contra a testa daquele que não estava armado, não estava ameaçando, não estava gritando, não estava em rota de fuga por algum crime cometido, e nem sabia que a sua vida seria exposta ao risco da morte por estar ali, correndo de uma confusão criada pelos homens com uniforme militar,

O Papa Francisco vem desde 2013 enfrentando o ódio pelas suas percepções sociais e espirituais e o mais grave, pelas suas declarações oficiais sobre elas. Depois de várias batalhas no campo teológico, o campo político dominado pelo mesmo poder que acionou o cassetete do homem com uniforme de oficial militar prepara-lhe um ataque frontal, da mesma forma que bateu numa presidente eleita pela vontade popular, bem como da mesma forma que atingiu o homem de 33 anos.

Há no fálico cassetete a simbologia de que é o único* argumento másculo da força de dissipação capaz de calar e/ou intimidar os inimigos com riscos minimizados, mas é ineficaz contra a legítima força do argumento que uma vez liberta, exclui ódio, dúvidas e combate as sabotagens à democracia. *(excluindo armamentos pérfuro-contundentes por permitirem a distância da vítima, pérfuro-cortantes (raramente utilizados) e spray de pimenta que não denota poder e sim aversão às pessoas)

O argumento da força leva ao caos, sempre, seguido de um enorme vazio, seguido de depressão, seguido de dores e ranger de dentes, seguido de perversões e maldades, seguido de corrupção e sacanagem. Trás consigo a supressão dos direitos humanos, trabalhistas, religiosos e acadêmicos. No pacote da maldade estão embutidos ditadores, fascistas, nazistas, mulheres vazias e homens covardes.

O argumento da força não é exclusividade humana, faz parte da irracionalidade do mundo animal, vegetal, monera, protista e fungi. Só a força do argumento é humana, por que exige mente, corpo e alma, sobretudo alma.

É isto aí!

Dançou!

Querida, tem alguma coisa na sala.

Sim, eu já ouvi há muito tempo.

E por que não foi ver?

Por que não sou o homem da casa.

Nem eu.

Mas ele não está e você está no lugar dele.

Como assim no lugar dele? Eu não sou substituto do seu marido.

Sim, de fato não é.

O que você quis dizer com isto? Não gosto de comparações, hem!!

Eu disse o que eu sei - você é bom, mas é muito rápido, já chega e pronto, e com sorte rola uma segunda corridinha depois de muito tempo, além disto não lê livros, não assiste filmes cults, não lê blogs sujos ...

Não sou seu marido e sou bom naquilo que faço.

É, é bom, mas muito rapidinho, sabe, você parece movido a pilha duracell, e eu gosto de valsa vienense, sabe, com ele é uma delícia, nisto ele é bom.

Isto foi demais. Quer saber? Eu vou embora.

Isto, vai mesmo, mas antes checa o barulho na sala, por que ele parou enquanto discutíamos a relação.

Parou? Parou mesmo? Como assim? Vou ver isto.

Ora, ora, já és um homenzinho ...

Não provoca. Eu vou.

Ué, já voltou?

Já - era seu marido que estava na sala.

Meu Deus do céu, minha santa madalena dos pecados remidos, estou acabada. Ele ainda está lá?

Não, foi embora, mas tinha uma felicidade tão inenarrável na face que não parava de rir da nossa discussão. Não entendi muito a parte onde ele agradeceu muito a minha performance e disse que depois ligaria para você. O que significa "performance"?

É isto aí!

"Mas nós sabemos que a lei é boa, contanto que dela se faça um uso legítimo" 1 Timóteo 1:9

Eu queria escrever que este grupo que tomou de assalto a pátria é nefasto, mas estou com muita raiva para escrever sobre isto.

Eu queria escrever sobre a classe média que sente vergonha de ser classe média e fica lambendo e babando na sola dos ricos, mas estou muito decepcionado por ter amigos nesta condição.

Eu queria escrever sobre a falência provocativa do SUS, mas estou me sentido enojado da gula dos grandes grupos que estão para tomar de assalto as dores do povo.

Eu queria escrever sobre meu amigo Sérgio que buscou hoje a saída abrupta deste plano existencial deixando o testemunho de que toda esta maldade golpista o havia consumido e destruído seus sonhos.

Eu queria escrever sobre o ensino público, vendido e destruído para louvor e glória de grandes filhos de putas ricas.

Eu queria escrever sobre o crime do sistema financeiro sobre a classe média, com juros desleais e custos estratosféricos.

Eu queria escrever sobre coisas bonitas da manifestação popular de ontem, mas a violência desproporcional dos senhores que se julgam superiores sobre os homens e mulheres que trabalham e produzem a riqueza deste país, neste dia de paralisação e greve nacional foi criminosa. Um dia, e este dia chega, a conta vence.

Eu queria escrever sobre a justiça cega, sobre a insegurança, sobre os bilhões roubados por canalhas instalados nos poderes constitucionais e  que fazem escárnio da nossa luta, mas como direito de todos os cidadãos, a justiça realmente está cega. 

É isto aí!

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Mulheres de luz

Quando vejo
as fotos nuas
das moças pálidas
sob luz difusa

Siliconadas
Torneadas
Saradas
e plastificadas

Sem suor, sem poros
nas curvas aloiradas
onde a luz filtra
o difuso desejo

Aos macambúzios
aos solitários
aos idiotizados
e macários satanizados

Penso nas moças
pagãs, lindas,
tangíveis nas sombras
e imperdíveis ao tato.

Sob a luz dura
sem maiores alardes
gemem, sussurram, amam
se entregam devardes

Livres, sem pressa
Ah! Mulheres sem filtro
são musas divinas
feito messe luzidia.


 É isto aí!


* Na foto - Maria Antonieta Pons: Dançarina, atriz e maior mito do cinema mexicano dos anos 1940,  nasceu no dia 11 de julho de 1922, em Havana, Cuba e faleceu aos 82 anos em 20 de agosto de 2004 na Cidade do México , México.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Como fazer um poema

Alto lá
Este poema não é meu
Copiei e colei
Autor - Itárcio Ferreira*
Fonte - Se não canto, pelo menos grito



Primeiro, finja-se de morto,
distraído, o idiota da aldeia.
E como quem não quer nada,
agarre a perninha do poema.
Segure-a de leve, puxando-a com carinho.
Deite o poema no papel, sorria.
Balance o pequeno poema recém-nascido,
examine-o: cada letra, cada palavra, cada som, cada silêncio.
Banhe-o com a palavra solidariedade,
que só pode ser encontrada no vocabulário do socialismo.
Dispa-se de qualquer preconceito:
entregue-o ao leitor.

* Itárcio Ferreira nasceu em Carpina-PE (1962), mora em Recife. É poeta, contista e cantor. Publicou “Se Não Canto, Pelo Menos Grito” (poemas — 1983); “Apocalipse e Outros Poemas” (poemas — 1989); “A Construção e Outros Contos” (contos — 1991) e “Toda Colheita” (poemas — 2016). Em 2002 gravou o CD “Maracatu Prá Ela”. Publica seus poemas no blog “Itárcio Ferreira, poemas” (http://itarcioferreira.blogspot.com.br/).

Admiração (Paulinho Moska)

Meus olhos, famintos, não se cansam
de te acariciar 
Procuram sempre um novo ângulo 
pra te admirar
E sonham mergulhar na sua boca de vulcão
Provar todo o calor que há na sua erupção

Escorregar nos rios claros
das margens dos teus pêlos 
E encontrar o ouro escondido 
que brilha em seus cabelos
Devorar a fruta que te emprestou o cheiro
E talvez desfrutar de um amor puro e verdadeiro

Esquecer o espaço, o tempo e o viver
Perder a noção do que é ter a noção do perder
Se um dia eu fui alegria ao te conhecer
Agora canto porque sinto a dor de não te ter


Chico Buarque - Fado Tropical - (abertura "Grândola Vila Morena" de Zeca...



Poema completo de Ruy Guerra e Chico Buarque:

Oh, musa do meu fado 
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado 
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata 
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata 
Se perdeu e se encontrou

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano 
uma boa dose de lirismo
(além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas
 em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga Alecrins no canavial
Licores na moringa Um vinho tropical
E a linda mulata Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata Arrebato um beijo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa
E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa

Guitarras e sanfonas, 
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca 
Num suave azulejo
E o rio Amazonas 
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca deságua no Tejo

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal


quarta-feira, 26 de abril de 2017

O Censo Fonográfico


Bom dia, senhor, somos do Censo Fonográfico do Ministério da Ordem Pública e Social do nosso glorioso e destemido Governo Instaurado, Inserido, Implantado e Protegido pela Companhia do Sagrado Coração dos Homens de Bem do Pato Amarelo, liderado pelo poluto e imaculado grande líder Dom Miguel, o Velho, doravante denominado somente como O Grande Líder, e queremos saber quais músicas o senhor escuta quando está triste.

Ahn? Como é que é?

Em nome da lei e da ordem, por determinação do Grande Líder, eu quero a relação das músicas que o senhor escuta quando está triste

Todas?

Não,  limitamos a doze, pois cientificamente acima disto o gosto musical começa a ser repetitivo, tendendo para apenas um ritmo, segundo estudos psico-fonográficos feitos pelo Estado Maior das Forças Sonoras do governo do nosso Grande Líder.

Interessante, não sabia que existiam estas coisas.

Há mais coisas entre o Poder Pleno dos Homens de Bem do Pato Amarelo e o senhor do que possa imaginar seu insignificante estado de ser e existir, senhor.

Bem, em sendo assim compulsório, visto a presença destes silenciosos senhores armados com potentes equipamentos de cunho letal, vou revelar:

Cunha, o senhor falou Cunha?

Não, podem abaixar isto daí, eu disse cunho, Cunho CU-NHO

Ah, bom, pode prosseguir.

Eu vou dar um pulo lá dentro para pegar meus cds.

Lulalá? O senhor disse lulalá?

Nãããããão. Caramba, precisa bater? Que isto agora? Não era só um censo? Eu disse um-pu-lo-lá.

Ah, bom, mas não pode sair daqui. Tem que ser espontâneo.

Tudo de uma vez?

Dilma vê? Dilma vê o que, senhor? Quer ser preso por desacato a autoridade? Está achando o que, seu merdinha?

Esquece. Vou citar alguns de cabeça, ok?

Certo, mas não vá nos enganar, hem - detectamos terroristas só pelo andar deles.

Terroristas? Mas não era só uma pesquisa ...

Quem pergunta aqui sou eu, senhor. Quero a delação, digo, a relação agora.

Bem, assim de ouvido, vamos lá:

Eu escuto Izumi Sakai  cantando Can't take my eyes off of you
Aquela japonezinha? Boa escolha

Eu escuto Vander Lee cantando Onde Deus possa me ouvir.
Hummm ... muito bom!

Eu escuto Stevie Wonder cantando For once in my life
Clássico, não é? É um clássico!

Eu escuto Willie Nelson cantando Crazy
Rapaz, você fica triste mesmo, hem!

Eu escuto Aline Hrasko cantando Eu não existo sem você
A garota capixaba. Gostei, está indo bem!

Eu escuto Yamandu Costa & Dominguinhos tocando Pedacinho do Céu
Excelente escolha! Excelente escolha. O que mais?

Eu escuto Astor Piazzola tocando Adios Nonino
Isto sim é ficar triste com classe. Prossiga.

Eu escuto Tom Jobim cantando Falando de amor
Musiquinha nheco nheco, mas cada um é triste à sua maneira. Próxima.

Eu escuto Raíssa Amaral tocando Bachianinha n° 1 (Paulinho Nogueira)
Linda a moça, e qualquer música cai bem nela. Boa escolha. Próxima.

Eu escuto Diana Krall cantando Este teu olhar
Um sofrimento com bossa, boa. Próxima.

Eu escuto Dalida cantando Paroles Paroles
Musa, não é? Musa. Parabéns pela escolha. Muito bem, senhor. Só mais uma e está liberado.

Mais uma ... mais uma ... puxa vida, difícil demais, vamos lá:
Eu escuto Pink Floyd cantando Another Brick In The Wall

Eu sabia!! Terroristazinho de merda! Por qual motivo o senhor escuta Pink Floyd?

Não sei, pelo amor de Deus, nem sei por que falei isto ... me dá mais uma chance, eu falo uma do Roberto.

Já teve a sua chance, senhor.

Não, eu canto qualquer coisa, eu nem sei de onde saiu esta música, nem conheço este pessoal, olha eu peço desculpas ...

Não há mais nada a fazer neste caso, e segundo o Código o senhor fez de boa fé uma delação de réu confesso e conforme as seis testemunhas oficiais aqui designadas em nome do Grande Líder e pelos poderes a mim instituídos, o senhor está sendo multado em 300.000 dinheiros por destruir a sequência lógica de manifestação sonora autorizada para estados tristes segundo decreto-lei 23.654-AX9 do Grande Líder, também conhecida como Lei Magna do Calado, para servir a ele, que é a  nossa força maior.

Além disto, como suspeito de terrorismo intelectual, está detido para averiguação musical de relevância ácida, digamos assim, e por porte de memória estranha à nova ordem. Por favor nos acompanhe ...

Madalena ... Ô mulher, Madalena!!!! Pelamordedeus, vem cá, mulher!!!!!

O que foi? Mas o que é isto? Agenor, o que está acontecendo? Quem são estas pessoas? Você está algemado?

Madalena, não tenho tempo para explicar, liga para o Osório e pede para ele ir urgente na na ... para onde vocês estão me levando mesmo?

Olha aqui seu terrorista, traidor da pátria, para onde estamos te levando não te interessa. E se está falando do Osório Almeida, aquele advogadozinho comunista da Avenida das Mangas, pode esquecer, por que ele já está lá.

Já está lá? Como assim já está lá?

Fez uma relação fraquinha fraquinha e em ato falho incluiu a esquerdochata Tracy Chapman, mas bastou uma pequena conversa que tivemos em local incerto e não sabido, te entregou rapidinho e posso ver que você é mais perigoso do que ele  - vamos vamos, lugar de terrorista é no buraco.

Madalena, faça alguma coisa ... liga para minha mãe ... liga para o Papa Francisco ... Madalena ...

É isto aí!

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ana Lobo esteve aqui

Para minha alegria (imensurável), recebo agora como leitora deste expositor das coisas do Reino da Pitangueira, a Ana Lobo.

Olha, Ana Lobo é um doce, uma das minhas maiores alegrias, que bom! que bom!

Olha, Ana, ache aqui um canto, se acomode, e declaro que até onde sua vista alcança é da sua liberdade total vagar, sem freio, sem censura, sem protestos,

Venha sempre, vem sem pressa!

Um forte abraço