Este texto não é meu
Copiei e colei (sem delação premiada)
Autor Fernando Horta
Fonte Esquerda Caviar
Fonte Fernando Horta Facebook
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| Debret |
“Seu ódio fala sobre você” é um poema que se constrói a partir de um gesto simples e, ao mesmo tempo, estruturalmente sofisticado: a repetição interrogativa. Em vez de afirmar, o poema pergunta. Em vez de acusar diretamente, ele conduz o leitor a confrontar a si mesmo. Essa escolha formal não é apenas estética, mas funcional — ela constitui o próprio mecanismo de revelação que sustenta o texto.
Desde seus primeiros versos, o poema organiza-se como um interrogatório moral. As perguntas se acumulam sem transição narrativa ou explicativa: odeia pobres, ricos, ideologias, comportamentos, religiões, nacionalidades. Não há hierarquia entre os objetos do ódio, nem qualquer tentativa de justificar ou contextualizar esse sentimento. Ao contrário, o que o poema faz é progressivamente esvaziar a relevância do objeto odiado, até que reste apenas o próprio ato de odiar como fenômeno central.
Esse é o primeiro deslocamento importante operado pelo texto: o foco não está no mundo, mas no sujeito. O poema não investiga as razões externas do ódio, mas sua função interna. Ao universalizar os possíveis alvos, ele revela que o ódio, quando sistemático, deixa de ser uma reação específica e passa a constituir uma estrutura da própria consciência.
Esse movimento encontra sua formulação mais precisa no verso em que o ódio é descrito como um sentimento “narcisicamente humano”. Trata-se de um ponto de inflexão conceitual. O poema não trata o ódio como uma anomalia ou um desvio, mas como uma possibilidade intrínseca à condição humana. O problema, portanto, não é sua existência, mas sua permanência e centralidade na vida interior do sujeito.
A partir desse momento, o poema abandona gradualmente sua estrutura interrogativa e assume um tom declarativo. O que antes era investigação torna-se diagnóstico. O narrador deixa de perguntar e passa a afirmar que o ódio não corrói o mundo, mas aquele que o abriga. O fechamento do poema é particularmente contundente nesse sentido, ao sugerir que o ódio não é apenas um posicionamento emocional, mas um processo de enfraquecimento interior — uma espécie de doença silenciosa da alma.
Essa transição estrutural é decisiva. O poema começa como um espelho e termina como um diagnóstico. Ele não condena explicitamente, mas revela as consequências existenciais do ódio persistente. O leitor não é acusado; ele é exposto a uma possibilidade inquietante: a de que o ódio, mais do que um julgamento sobre o outro, é uma forma de auto-revelação.
É nesse ponto que o poema ultrapassa o campo da crítica social ou política e entra em um território mais propriamente filosófico. Seu interesse não está nas tensões entre grupos, mas na condição interior do indivíduo. O ódio não aparece como um erro ideológico, mas como um sintoma existencial. Ele revela menos sobre o mundo do que sobre aquele que o sente.
A mudança de título, de “Seu ódio é seu atestado de óbito” para “Seu ódio fala sobre você”, é particularmente significativa nesse contexto. O título original operava como uma sentença definitiva, sugerindo um estado irreversível. O novo título, por sua vez, desloca o foco da condenação para a revelação. O ódio deixa de ser apresentado como um fim e passa a ser compreendido como uma linguagem — um sinal que revela algo mais profundo sobre o sujeito.
Essa alteração representa um amadurecimento estético importante. O poema deixa de operar como um veredito e passa a funcionar como um instrumento de leitura da condição humana. Em vez de encerrar o sujeito em uma definição, ele abre a possibilidade de reconhecimento.
Formalmente, o texto é econômico e direto. Não há imagens ornamentais nem metáforas elaboradas. Essa contenção estilística reforça o caráter clínico do poema. A linguagem não busca seduzir, mas expor. O efeito resultante é uma espécie de clareza incômoda, na qual o leitor é conduzido, sem mediações, ao núcleo conceitual do texto.
No conjunto, “Seu ódio fala sobre você” é um poema que se sustenta menos pela musicalidade ou pela imagem e mais pela precisão estrutural de seu gesto. Sua força reside na coerência entre forma e conteúdo: o poema não apenas fala sobre o ódio, mas reproduz, em sua própria forma interrogativa, o processo de desmontagem das justificativas que o sustentam.
Trata-se, em última instância, de um poema sobre o interior humano — não em sua dimensão sentimental, mas em sua fragilidade estrutural. Ao deslocar o foco do mundo para o sujeito, o texto revela que o ódio, quando persistente, deixa de ser uma reação e passa a ser uma condição. E é nesse reconhecimento que reside sua potência mais duradoura.
Estava visitando os pais quando recebeu um telefonema que esperara, ansiosamente, vinte anos atrás. Lembrava-se da tensão do momento de embarcar naquela viagem que transformaria sua juventude no adulto em que se tornara. Ela não ligou, nunca escreveu e nunca mais retornou suas ligações.
Tinham acabado de se formar na faculdade: ele com uma proposta para trabalhar no Nordeste; ela com o desejo de ficar ali e revolucionar o mundo. O amor não conseguiu romper a barreira dos sonhos individuais, mas permaneceu no vácuo, guardado, à espera de um renascimento.
Depois disso, ele passou por um casamento que gerou uma filha e terminou num divórcio tempestuoso e pavoroso. Carregava consigo a marca estigmatizada do “nunca mais aquilo outra vez”. Mas aquele telefonema — a voz embargada, a saudade do que poderia ter dado certo se um tivesse cedido — conduziu-o ao destino. No trajeto, comprou rosas, vinho, chocolates finos, amêndoas e um CD do Chico César, para ouvir Por que você não vem morar comigo repetidas vezes até chegar. Sentia-se um adolescente. Como ela estava? Como estava sua vida, seu corpo, sua boca, sua alma? Perguntas guardadas por vinte anos.
Ela morava num condomínio, na última casa da última rua. Pequena, de madeira, com a grama maltratada à frente e uma cerca branca de ripas paralelas. Desceu com as compras. Esperou dar vinte horas, ensaiou o melhor sorriso e apertou a campainha — silêncio. Agradeceu por não ouvir cachorros latindo; não os suportava, tampouco gatos. Escutou passos arrastados em direção à porta. Quando ela abriu, revelou-se ali uma dor que jamais sentira.
A fraca luz da varanda iluminou uma mulher descabelada, de olhos vagos, tez ressecada, dentes amarelados pela nicotina, vestida com um pijama de flanela ensebado e imundo. Olharam-se. Ela o convidou a entrar com um movimento dos olhos e seguiu até o sofá, onde deixara o maço de cigarros. Além do cheiro insuportável da casa, havia entre os dois um silêncio tão pavoroso quanto deprimente.
Copos e xícaras espalhados, com tocos de cigarro, cinzas e restos de café, perdiam-se pelos cantos. Tateou a parede até encontrar o interruptor e pôde, pela primeira vez, observá-la com calma. Sentiu um misto de pena, raiva, insegurança e medo.
Sem conseguir pensar, fez o que lhe pareceu a mais estúpida das propostas:
— Venha, vou te dar um banho.
Ela sorriu, deu-lhe a mão para levantar-se e indicou o caminho com o queixo. O banheiro estava pior que a sala: vaso entupido, pia represada com cabelos, chão horroroso e um odor impiedoso. Abriu a basculante, testou o chuveiro — água quente. Procurou um sabonete; ela indicou a cômoda com um leve gesto. Tirou a própria roupa, a dela, e colocou-a sob a água. Ela tremeu, agitou-se, tentou sair, mas foi se acalmando. Lavou-lhe os cabelos, ensaboou todo o corpo, escovou-lhe os dentes. Nem lembrou que ali estava uma mulher — a mulher de sua vida. Precisava fazer aquilo, pensou.
Perguntou pela toalha. Ela apontou para o quarto ao lado. Fez sinal para que esperasse, entrou no aposento — também ensebado, com chão pegajoso, cheiro de bolor e roupas espalhadas por toda parte. Abriu a janela, encontrou uma toalha limpa e voltou. Colocou outra toalha sobre uma poltrona gasta, manchada de mofo.
Sentou-a ali, reuniu as roupas espalhadas e colocou-as sobre a colcha imunda da cama. Fez uma trouxa e a deixou do lado de fora. Arrumou a cama, buscou uma roupa limpa, perguntou por uma calcinha; ela negou com o indicador. Vestiu-lhe um pijama comprido, verde-claro, com estampas florais. Secou-lhe os cabelos com um secador esquecido no banheiro, enxugou-lhe os pés e deitou-a em lençóis e fronhas limpas.
Mal a deitou, ela o olhou no fundo da alma, bocejou, acariciou-lhe a nuca — como sempre fizera no passado —, fechou os olhos e dormiu.
Foi até a área externa, pegou um balde e um pano seco e voltou ao quarto. Tentou minimizar a poeira e a sujeira. Limpou o aposento, retirou todas as roupas do guarda-roupa e jogou-as pela janela. Recolheu copos, xícaras, pratos e talheres espalhados e levou tudo à cozinha.
Pegou a caixa de ferramentas na garagem, voltou ao banheiro, desentupiu ralo e vaso, trocou a bucha da torneira, reduziu o caos e o lodo dos azulejos. O outro quarto estava vazio, sem sinais de uso. Abriu a janela e passou um pano úmido no chão. A sala, aos poucos, ganhou ares de limpeza. O cheiro de mofo, vômito, cigarro, comida velha e café azedo cedeu lugar ao ar fresco da noite — exceto pelas cortinas pesadas e pelo tecido do sofá, que deixaria para outro momento.
A cozinha era tão caótica quanto o resto da casa. Ensacou o lixo disperso e levou para fora. A geladeira continha apenas alimentos estragados, abertos ou vencidos — tudo foi descartado. O fogão, em estado lamentável, foi lavado com água e detergente, assim como os armários, esvaziados sem exceção.
Saiu para a área externa e levou roupas, toalhas e lençóis para a pequena lavanderia. Não havia sabão; deixou-os ali. O dia amanhecia quando se deu conta de que aquilo era uma loucura. Resolveu voltar ao quarto, acordá-la, pedir uma explicação, entender o que acontecera.
Chamou-a pelo nome uma, duas, três vezes, até que um pensamento congelou sua existência. Ela parecia… não, não era possível. Aproximou-se devagar, trêmulo, tocou-lhe o braço imóvel. Sim. O que temia havia ocorrido.
Chamou a ambulância. Constataram o inenarrável. O serviço funerário levou o corpo onde habitara o amor. Quando a ciranda terminou e a roda-viva retomou o giro da vida, deu-se conta da tragédia.
Voltou ao quarto, sentou-se na cama e chorou até não conseguir mais. Ao abrir a primeira gaveta do criado-mudo, encontrou um papel de cigarro Luiz XV, plastificado, cuidadosamente guardado. Nele, escrevera versos juvenis de amor eterno e prometera cuidar dela até o fim dos seus dias.
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| Principais campos de concentração e extermínio nazistas na Europa ocupada. |
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| General Pirro |
onde a luz filtra
e imperdíveis ao tato.