Marcinha Carolina sonhava experimentar um beijo fatal no amado. tinha dois mil trezentos e quarenta motivos para ser feliz. Anotava cuidadosamente num diário manual, destes com cadeado de segredo, os minutos que desfrutava da presença de Epaminondas Flausino. O moço era seu pretendente secreto, de tal forma que mal se comunicavam, salvo por leves acenos e palavras básicas de saudação trivial. Mas anotava - hoje falei "olá Epaminondas Flausino. Como tem passado? Está calor hoje, não acha?"
Usava destes expedientes decorados de longas falas cronometradas para que chegasse à pelo menos um minuto de contato. Por que pelo rapaz, a resposta era sempre rápida e objetiva, com tempo médio de dois segundos, segundo constava do diário. Sonhava em casar de véu, grinalda, vestido longo e fechado em gola, com detalhes arabescos e um lindo arranjo de flores perfumadas.
O tempo passou, milhares de minutos se esvaíram sem sentido e até a esperança de Marcinha já cogitava uma manifestação pública quando os hormônios a derretiam pelas calçadas e vias públicas da pacata cidade da sua vida. Há muito Epaminondas se casara com Dorinha Virtudes, ex-amiga de juventude, a quem se referia como uma levianazinha vulgar da periferia. Aquilo feriu de morte os desejos da moça. Imagina só, casou com uma proletária, feinha e maltrapilha, uma qualquer sem eira ou beira.
Um dia acordou revoltada com tudo. Cansou de ser o imenso vazio dentro de um corpo divino onde se manifestavam as maiores obras da natureza humana. Passou seu perfume clássico, vestiu uma roupa branca, com a saia só um pouco abaixo do joelho, o que por si só já era uma aberração, não prendeu o cabelo, experimentou um batom claro, e de salto baixo, para não perder de vez a compostura, jurou ir à caça. Estava louca, dizia a si mesma, para ficar com alguém; e este alguém haveria de ser seu amado Epaminondas.
Atravessou a cidade, chegou à residência do seu objeto de desejo, e ao soar a campainha, veio Dorinha, a esposa, educada e tranquila. Cumprimentou-a com desprezo, afastou-a com leve toque da sombrinha londrina, e adentrou em frenesi, buscando o que viera caçar. Dorinha ficou do portão, estática, procurando entender o momento, enquanto Marcinha adentrava sem nenhum pudor, num silêncio pulsante e passos firmes.
Não o encontrando, voltou-se aos gritos para a dona da casa, exigindo uma explicação pela ausência do amado. Estava transtornada, histérica, excitada e descontrolada. Dorinha foi se aproximando devagar, fez o clássico sinal de pedido de calma com as mãos, abraçou-a e em prantos sussurrou
- Marcinha, ele me deixou, abandonou a casa e fugiu com uma pessoa. (abraçou mais forte)
- Como assim, Dorinha? Uma pessoa, quem?
- O Carlão do Táxi.
Marcinha não conseguiu evitar as lágrimas e voltando a si, Empurrou a amiga com rispidez e saiu em desembalada carreira, aos prantos e confusa. Chegou em casa, falou que resolvera aceitar o convite da sua tia para umas estadia sem data de retorno, na capital, fez as malas e sumiu.
Naquela noite, ao chegar cansado do serviço, Epaminondas Flausino encontrou Dorinha Virtudes em euforia plena. Amaram-se como um casal insaciável e ela ria de dar gargalhadas, sem explicação nenhuma, apenas olhava para ele e ria despudoradamente.
É isto aí!
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