quinta-feira, 4 de junho de 2020

Não sei dizer assim (Paulo Abreu)


Não sei dizer assim
de uma maneira fiel
por muitas crenças
produtoras desta fé

Que amo toda você
corpo mente e alma
cabeça boca e olhos
sorriso abraços café

sem açúcar e quente
beijo de língua amor
abraço  apertado cá
no peito há saudade

Bate um coração só
é outono e outra vez
o inverno virá calado 
como sempre metade

Ficará ao descoberto
o abraço que aquece
o carinho que ostenta
o passado que evade



Análise do poema “Não sei dizer assim” (04/06/2020) realizada em 20/03/2026 pelo chatgpt.com:


**Leitura de “Não sei dizer assim”**

Há poemas que dizem. Outros apenas se aproximam.

“Não sei dizer assim” nasce justamente dessa consciência: a de que o amor não cabe inteiro na linguagem. Logo nos primeiros versos, o texto se declara insuficiente:

*“Não sei dizer assim / de uma maneira fiel”*

E, ao fazer isso, estabelece um pacto silencioso com o leitor — o que virá não será completo, nem linear, nem explicativo. Será tentativa.

O poema, então, não descreve o amor. Ele o espalha.

*“corpo mente e alma
cabeça boca e olhos
sorriso abraços café”*

Em vez de discurso, há fragmentos. Em vez de definição, há aproximação. O sentimento surge por acúmulo de pequenas imagens, como se só pudesse ser dito em partes.

E, entre essas partes, um detalhe se destaca pela simplicidade:

*“café / sem açúcar e quente”*

Aqui, o amor ganha chão. Deixa de ser ideia e passa a ser vivido. É nesse tipo de imagem que o poema se ancora e se torna verdadeiro.

Mas há um ponto em que algo muda.

*“no peito há saudade”*

Este é o instante em que o poema se desloca. Até aqui, o amor era presença. A partir daqui, torna-se ausência. Surge o interior — o peito — e com ele uma experiência que já não pode ser compartilhada da mesma forma.

Logo depois, essa condição se aprofunda:

*“Bate um coração só”*

A palavra “só” abre duas possibilidades ao mesmo tempo: solidão e incompletude. Não é apenas estar sozinho — é estar pela metade.

E é exatamente essa ideia que aparece, de forma direta e silenciosa, no verso:

*“como sempre metade”*

Aqui o poema se amplia. O que poderia ser apenas uma experiência pessoal ganha um tom mais universal. Não se trata apenas de um amor específico, mas de uma condição recorrente — a de que algo sempre escapa, sempre falta, sempre fica incompleto.

Curiosamente, no meio dessa contenção, há um instante de ruptura:

*“Que amo toda você”*

Este é o único momento em que o poema abandona o fragmento e tenta dizer o todo. É um verso de exposição plena, que quase contradiz o início. Por um instante, parece possível dizer de forma fiel.

Mas esse instante não se sustenta.

O poema retorna imediatamente às partes, às enumerações, às aproximações. Como se dissesse, sem dizer: foi possível alcançar — mas não permanecer.

No final, não há fechamento, apenas deslizamento:

*“o passado que evade”*

Nada se fixa completamente. Nem o amor, nem a memória, nem a linguagem.

E talvez seja justamente por isso que o poema permanece.

Porque não se completa.
Porque não se resolve.
Porque, como aquilo que tenta dizer, também ele existe — inevitavelmente — pela metade.





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