Num outro sonho, pregando para uma multidão, na colina das Lavadeiras, perguntei aos aflitos, boias-frias, andarilhos, maltrapilhos, doentes, dementes, crentes, dependentes de ar contaminado, incoerentes entre o discurso e a ação. Perguntei, como quem cantasse uma ária, com a voz fluindo desembaraçada:
— Quem dentre vós nunca mentiu? Quem detém uma voz entre delírios e ilusões? Quem dentre vós, com a sua voz, nunca sonhou artimanhas pecaminosas?
Não sei se sabem. Nunca falamos sobre nossas libidinagens. Mas mentiras são verdades até que se prove o contrário, diferentes das hipóteses, que não são mentiras, uma vez que a hipótese é neutra e honesta e, além disso, pode ser apenas uma explicação provisória, criada dentro das nossas memórias, para responder a uma pergunta abstrata ou fundamentar uma linha de pensamento sobre a realidade.
Aí acordei, dei pela minha insignificância e toquei a andar rumo ao desconhecido, para ver onde vai dar isto. Pode ser que vá de encontro ao conhecimento ou depare com uma nova existência no meu delírio.
É isto aí!

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