segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Esta Espécie de Loucura (Fernando Pessoa)

Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,

Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há

domingo, 24 de julho de 2016

O analista da Pitangueira - Mãe não corre!

- Posso contar um sonho que tive?

- Sim, claro, por favor.

- Sonhei que estava num campo verdejante, daí apareceu uma enorme vaca, corri muito, mas então ela me alcançou e começou a me encarar meio esquisita ... sabe o que isto significa?

- Vamos ampliar o leque de percepções. Talvez na próxima sessão tenhamos uma resposta que melhor represente este fato, ok? Seu tempo acabou, até mais.

Na próxima sessão:

- Tive outro sonho. Mas achei tão esquisito.

- Fique à vontade. Se perceber nele alguma importância e se sentir confortável em relatá-lo, sou todo ouvidos.

- Eu estava no quintal da minha casa da infância, brincando de barro. Mas o interessante era que o quintal era enorme. Havia nele uma vaca plácida, abanando o rabo, olhando para o infinito e curtindo a sombra da mangueira que a vovó plantou. De repente ela se assustou com a chegada de um homem alto, escondido sob uma enorme capa preta e um chapéu imenso. Correu para a fuga, parou bruscamente na minha frente, olhou nos meus olhos, olhou minhas mãos sujas, lambeu meu cabelo até ficar penteado, meio que lambido de vaca e .. caramba, lambeu minhas mãos até ficarem limpas. Então, doutor, é grave?

- Se é grave ainda não sabemos, mas no sonho anterior acatei o palpite, joguei a vaca no milhar e faturei trinta mil na cabeça. Então decidi dividir com você. Toma aqui seus quinze mil.

- Nossa, muito obrigado, senhor, puxa vida. Valeu!! Então, e hoje? Jogamos de novo?

- Não, hoje não.

- Mas por quê?

- Mãe não corre ...

É isto aí!

Papo de Esquina XXIV

- Tenso ...

- Muito tenso ...

- Bastante tenso ...

É isto aí!

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Carminha e Armandinho - Discutindo a relação aberta

- Posso te perguntar qualquer coisa, Armandinho?

- Claro, Carminha, nossa relação é aberta. Não tenho nada para esconder.

- Bem, então vamos falar das mulheres que passaram pela sua vida, pelo menos das que tenho conhecimento e o que cada uma delas representou para você.

- Nossa, que assunto difícil. Mas vamos lá, minha história é sua.

- Isto, gostei do que estou ouvindo. Fale da Telma.

- Telma era completamente louca. Assim que a deixei, senti-me horrível pelo abandono de uma incapaz.

- Raquel?

- Devassa, devassa, devassa. Nunca entendi o mérito daquele relacionamento.

- Cristina?

- Retardada. Simples assim, retardada. Não deu conta da minha ausência nem quando fui embora.

- Lourdes?

- Espera aí. Eu já falei alguma vez qualquer coisa da Lourdinha? Como você sabe dela? Nossa, puxa vida! Com vou dizer algo sobre a Lú? Ela era gostosa demais da conta. Educadíssima. Linda, linda, linda. Chorei muito por muito tempo, mas a vida segue e a fila anda.

- Bem, pelo que sei, esta mocreia da tal de Lourdinha já casou e mora a oito mil quilômetros daqui. Mas é bom saber que ... deixa prá lá. E a Patrícia?

- A Pat? Caramba!! Doida doidona doidaça. Tomava uns ácidos e ficava ali sem eu entender nada de onde estava ou o que se passava.

- Jandira?

- Jandira ... Jandira ... engraçado, não lembro desta.

- Não se faça de bobo. Jandira é minha ex-melhor amiga de todos os tempos. Armandinho, e vocês estiveram juntos quando já estávamos juntos em momento de ligeiro afastamento. Seu safado, seu sem-vergonha, seu cachorro. Eu perdi a amizade que tínhamos desde a infância por sua causa.

- Mas como abriu mão de uma amizade assim tão forte, Carminha?

- Em primeiro lugar, ela rompeu com o trato entre as melhores amigas de nunca pegar o ex da outra. Em segundo lugar a outra sou eu. Em função disto, abri mão da nossa história batendo nela com a mesma vontade que estou de encher esta sua cara porca de tapa e pancadaria.

- Mas por quê não me falou? Por quê resolveu ficar na boa comigo, amor?

- A resposta não é fácil, mas saiba que melhores amigas sempre virão, mas otários héteros para pagar as contas, abrir a porta do carro, fazer comida e nos levar aos lugares que queremos são raros no mercado. E quieta o facho que isto não foi um elogio.

É isto aí!

domingo, 17 de julho de 2016

Os turcos, o Cruzeiro e a choldra

Eu ia falar do golpe na Turquia, mas os turcos estão bem adiantados na história, quando comparados à pátria amada, idolatrada, salve, salve. Têm pelo menos uns oito mil anos na frente. Foi na Turquia que Noé desceu da barca e desde então aquele belo país vem fazendo sua história.

Então, nada de falar de golpe, por que dá até vergonha o que se vê por aqui. É tanta falta de tanta coisa que dá nojo de saber que existem seres humanos capazes de se dar ao trabalho de serem tão maus e tão incompetentes ao mesmo tempo.

Enquanto isto, o Cruzeiro, glorioso e vencedor, vai cambaleando no cambaleante campeonato tupynambá. Vai cair para deleite da choldra, mas vamos que vamos, que a semana promete.

É isto aí!


sábado, 16 de julho de 2016

E a gente nada de confessar (Ana Larousse)




Alto lá!! Este texto é da Ana Larousse.

Confesso que achei danado de bom, copiei e colei aqui na Pitangueira. 


eu odeio
quando você não percebe 
que é pra você que escrevo, 
que é sobre você que escrevo 
e que é por você que me apaixono
um tantinho mais a cada dia.

odeio 
quando você sorri 
escondido 
enquanto eu sorrio 
escondida 
e a gente nada de se juntar.

odeio 
quando você 
sabe que me ama 
e descansa no medo 
de nos enfrentar.

odeio 
quando falamos 
de outros amores e, em seguida, 
saímos a roubar flores 
no ensaio de nos entregar.

odeio 
quando roubamos flores 
e deixamos todas murcharem 
na vergonha de nos desvendar.

odeio 
que você sabe 
e sabe tanto quanto eu 
que o meu amor te cabe 
e que o teu amor é meu.

odeio 
que a gente se pinte 
de amigo e brinque 
que vai casar

odeio 
que nos pertence, 
por agora, se esconder
quando tudo que a gente quer 
é ficar junto e olhar o mar
quando tudo que a gente quer 
é se viver e se amarrar
e a gente nada de confessar




sexta-feira, 15 de julho de 2016

Estou logo ali

É fato que ando fugindo do Blog, mas ele está aqui, bem diante dos meus olhos. Poderia falar mais de política, virar um Blog chato prá caramba, mas a política é muito maior do que o discurso de um vereador em véspera de eleição. Está além dos prefeitinhos de merdas e outros de merendas, tão em voga e em moda. Ultrapassa os governadores polidos e prolixos, as assembléias inoperantes, até chegar ao núcleo do poder.

Núcleo? Onde está o núcleo? Você sabe? Com certeza acha que sabe. Tem seus candidatos, tem seus preferidos, seus deputadinhos e deputadinhas, seus senadorizinhos e senadorazinhas, tem também um presidentinho ou mesmo até uma presidentinha. Até aí você vai, mas não passa desta linha amarela de checklist. Por que daí em diante, num labirinto complexo, ardiloso e capcioso, está o poder, o verdadeiro e real poder, que é inatingível a nós mortais.

Falar de amor? Todos amam alguma coisa, uns mais outros menos, mas amam, então, todos são doutos na arte de amor. O fato ém que estou logo ali,bem diante de mim, portanto, eu que me conheço há dezenas de anos, sei que esta fase de estar logo ali passa e logo logo estarei bem aqui.

Um abraço que volto em breve.

PS - A gravura acima é de Salvador Dali - Baby Map Of The World / 1939

The Platters - My Prayer


Imagem: The Platters



The Platters é um grupo vocal estadunidense, considerado "o mais bem sucedido dos anos 1950". Chegou a vender mais de 53 milhões de discos e está, desde 1990, no Rock And Roll Hall of Fame. Foi quem primeiro gravou o sucesso "Only You". Entre seus sucessos também se destacam "My Prayer" (composta por Georges Boulanger com o nome "Avant de Mourir"), "The Great Pretender", "You’ve Got The Magic Touch", "You’ll Never Know", "Smoke Gets In Your Eyes" (composta por Jerome Kern e Otto Harbach) entre outros.


O grupo foi formado por adolescentes em Los Angeles no ano de 1952, com o nome de "Flamingos", com uma formação inicial que não se manteve: Cornell Gunter, Gaynel Hodge e seu irmão Alex, Joe “Jody” Jefferson e Curtis Williams. O grupo passou por várias alterações na sua formação; o nome original teve ser trocado antes mesmo do lançamento porque um outro grupo, em Chicago, surgira como The Flamingos e, por sugestão de Herb Reed, adotaram o The Platters, referência ao nome dado aos discos de 78 rotações.

Em 1954, foram lançadas duas músicas do conjunto "Voo-Vee-Ah-Vee" e "Shake It Up Mambo" na gravadora Federal Records, sem grande sucesso; então, por intercessão do empresário Buck Ram foram contratados pela Mercury Records e em 1955 atingiram os primeiros lugares nas paradas com Only You e The Great Pretenders, fazendo assim o sucesso do grupo.


" My Prayer " é uma canção popular de 1939 com música do violinista de salão Georges Boulanger e letra de Carlos Gomez Barrera e Jimmy Kennedy . Foi originalmente escrita por Boulanger com o título Avant de mourir (Antes de morrer) 1926. A letra desta versão foi adicionada por Kennedy em 1939.

Glenn Miller gravou a música naquele ano para o segundo lugar e a versão do Ink Spots com Bill Kenny alcançou o terceiro lugar também naquele ano. Foi gravado muitas vezes desde então, mas a versão de maior sucesso foi uma versão doo-wop em 1956 pelos Platters, cujo lançamento em single alcançou o número um no Top 100 da Billboard no verão, e ficou em quarto lugar para o ano. Esta versão também alcançou o primeiro lugar nas paradas R&B Airplay e R&B Juke Box. 

A gravação dos Platters aparece no filme de 2008 O Curioso Caso de Benjamin Button , no filme Mischief de 1985 , no filme October Sky de 1999 , e em dois episódios da série de 2017 de Twin Peaks . A versão da música dos Ink Spots foi apresentada no filme de 1992 Malcolm X. Vera Lynn cantou a música no filme britânico One Exciting Night em 1944. 

A canção também virou tango na versão italiana da orquestra de Norma Bruni e Cinico Angelini (1940), " Sì, voglio vivere ancor! ". 


Fonte: Musixmatch
Compositores: Georges Boulanger / James B. Kennedy
Letra de My Prayer (Original artist re-recording) © Eschig Max Soc., Peter Maurice Music Co. Ltd., Bote & Bock Gmbh, Bote Bock Der Boosey Hawkes Bote Bock, Peter Maurice Music Co Ltd, Peter Maurice Music Co., Ltd.

When the twilight has gone
And no songbirds are singing
When the twilight has gone
You come into my heart
And here in my heart you will stay
While I pray

My prayer is to linger with you
At the end of the day
In a dream that's divine

My prayer is a rapture in blue
With the world far away
And your lips close to mine

Tonight, while our hearts are a glow
Oh, tell me the words that I'm longing to know

My prayer and the answer you give
May they still be the same for as long as we live
That you'll always be there
At the end of my prayer


quinta-feira, 14 de julho de 2016

A primeira novela da Pitangueira

A morte de César, Jean-Léon Gérôme (1867)

- Muito bem, vamos começar. Hoje vou fazer apenas a sinopse da nova peça que ensaiaremos. Todos já leram a peça? Já conseguiram entrar em seus personagens?

Sim, diretor ...

- Atenção, isto é uma ficção, não cabendo sequer comparação com a realidade de quaisquer pessoas, temas e fatos em todo o mundo. Tudo bem? Mas antes de começarmos... Tiago, quer fazer o favor de largar a boca, os braços e a bunda da Helena? Isto ... isto. Helena, quer fazer o favor de colocar sua roupa? Muito boa, digo, muito bem.

Como já sabem, esta peça trata de uma hipotética trama política interna de uma grande empresa. Helena fará o papel de secretária e o Tiago é o presidente. Nutrem um sentimento platônico. A personagem tem como seu grande amigo o Juca, um contínuo, e Tiago é casado com Telma Pavão do Rabo Dourado, a musa do Piscinão de Ramos. 

Senhor diretor ...

Pois não, Helena?!

Por que a moça é a secretária e o rapaz é o presidente? Não poderia inverter isto aí não? É de natureza machista este texto, da forma na qual se apresenta neste mundo tão globalizado

Helena, lindinha, meu bem, querida, isto é entre os produtores e o autor, tudo bem? Quem decide o que, quando, onde  por que são os produtores, e que cala e consente é o escritor, ok? Ator e atriz atuam e pronto.

Como viram a peça gira no amor platônico entre a Helena e o Tiago. A Helena é desejada pelo Juquinha, e para afastá-lo definitivamente da sua vida emocional, tomará medidas que poderão atingir o Tiago, e isto permitirá a todos, desde o porteiro ao síndico do condomínio, passando pelos lavadores de carro até os topa-tudo, terem ódio dele com ou sem motivo.

O Juquinha, por sua vez, que de bobo não tem nada ..., espera aí, Juquinha, tira esta merda deste fone do ouvido, por favor? Ok, muito bem.

Então, o Juquinha procura o Joãozinho, que disputou a vaga de presidência com o Tiago e perdeu por duas diretoras traíras, para auxiliá-lo na sua intenção, e para incentivá-lo bota pilha na possibilidade de anulação da posse do adversário.

Joãozinho, membro do Conselho Diretor, inflamado pelas multidões instigadas pelo Juquinha, entra batendo em todo mundo, querendo puxar o tapete do algoz de qualquer jeito, e acaba perdendo o contato com Juquinha e claro, também o controle das suas próprias ações. A coisa vai perdendo o foco, e amigos comuns começam a ter problemas com a empresa, com a família e com os negócios, graças às intrigas, denúncias e agressões entre as partes.

Um dia, Helena, num momento melancólico pró-Tiago, trama uma inversão de posição para enfraquecer e confundir os adversários malvados e conquistar o seu grande e verdadeiro amor. Convence a esposa do Tiago, Telma Pavão do Rabo Dourado  a assumir a empresa. A esposa, como filha única do dono, dá um pontapé na vaga preenchida pelo marido, assume o controle e multiplica o capital várias vezes.

Tiago fica a ver navios, no cais do porto e neste declínio de fraqueza, Helena buscará consolá-lo. Mas o que encontra é um homem sem brios, com baixa auto-estima, depressivo e chato. Perde o tempo e o rebolado. Ao retornar à empresa, descobre que Juquinha está no seu lugar e de caso com Telma.

Ao final da história, Joãozinho vai pagar pelos seus pecados de bobo da corte e é entregue aos leões para apaziguar os novos cristãos.

- Só uma coisa que não entendi, senhor diretor.

- Pois não, Helena?!?

- Quem é Gaius Octavius?

- É o senhor das trevas, o inominável, o maldito, a sombra dos labirintos da empresa, aquele que controla tudo e não pode ser controlado.

- Mas por que só ele vai pagar o pato?

- Não pelo que fez, mas pelo que sabe. Simples assim. Mas não se preocupe, a arte é apenas arte enquanto a vida segue e faz a sua parte. 

É isto aí!

domingo, 10 de julho de 2016

Faltam-me palavras, Carminha!

Preciso achar uma frase perfeita, pensou em completo silêncio enquanto se escondia no lavabo. Tenho que falar exatamente o que surtirá o efeito que espero que aconteça. Uma frase, apenas uma frase e serei o homem mais, hummm ... mais, ah! não interessa, esta frase será o ponto de mutação da minha vida.

10 minutos depois

- Armandinho!?!?!? Você está bem?

- Sim, Carminha, estou bem.

- Precisa de alguma coisa? Tem papel, toalha, sabonete? 

- Sim, Carminha, está tudo aqui.

15 minutos depois

- Armandinho, estamos te esperando. Você está passando mal? Precisa que chame socorro?

- Não, Carminha, estou bem. Já já estou saindo.

20 minutos depois

- Armandinho, estou perdendo a paciência. Abre esta porta agora.

- Calma, Carminha, já estou abrindo. Mas seus pais já foram?

- Como foram, Armandinho? Como foram? Nós estamos na casa deles.

- Caramba, tinha me esquecido disto. Estou saindo.

25 minutos depois

- Armandinho, ou você sai ou a porta será aberta. Minha mãe me entregou a chave reserva.

- Carminha, você está sozinha? (a frase, preciso encontrar a frase exata.)

- Sim, claro, pode falar, estou sozinha.

- Então, sabe como eu fico quando estou nervoso? Esta é a primeira vez que visito seus pais.

- Sei, você fica cheio de gases. É um horror.

- Pois é, eu hoje fiquei muito, mas muito nervoso com esta conversa de casamento.

- E daí?

- E daí ... (a frase ... cadê a frase?). Faltam-me palavras, Carminha.

- Armandinho? É comigo? Você quer terminar tudo? Você tem outra?

- E daí que eu me caguei todo, Carminha. Achei que era um peidinho, mas sujei a calça, cueca, meia, sapato, estou todo cagado ...

- Ufa, que susto, achei que você ia me deixar ...

É isto aí!

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Papo de Esquina XXV

- Alguém aí sabe os principais tópicos do plano de desgoverno do exomorfo mutante?

- Eu li que ele quer o fim do SUS, criando uma grande rede de proteção aos interesses privados, cobrando por tudo. No fim quem paga o pato é o pobre.

- Eu ouvi que vai aumentar a idade de aposentadoria dos pobres para algo entre 70 e 75 anos, mas se formos bonzinhos abaixa para 65, porém só vale para pobre. 

- Eu também  fiquei sabendo que tomou uns cogumelos azuis e viu que a única solução para a nação grande e deitada eternamente em berço esplêndido crescer, é o pobre trabalhar 80 horas por semana para sustentar a safadeza.

- Puta merda, este negócio vai dar pau!

É isto aí!

Papo de Esquina XXIV

Podem me citar aí três qualidades do exomorfo mutante?

Corrupto, ladrão, desonesto.

Canalha, cretino, bandido.

Credo, esta merda ainda vai dar pau!

É isto aí!

domingo, 3 de julho de 2016

O solfejo do professor de piano

Passou na casa de Sinhá Chica, onde tomou benção, passe e água. Desceu a galope a ladeira doas Aflitos, tomou a rua da Farmácia, atravessou em direção ao Beco dos Borges, passou pela estreita viela e entrou por uma porta velha, carcomida e pesada.

Lá dentro estava Delfina, a musa da sua vida, linda, cheia de graça e de consolo. Abraçou, beijou, beijou, beijou e deu-lhe a aula de piano para a qual era contratado pelo seu pai. Ao final do horário já não sabia mais onde estavam as oitavas, nem mesmo os pedais. Delfina tocava-lhe o coração sem sustenidos.

Saiu ofegante, continuou descendo o Beco até atingir a Rua Moleque, de onde avistava a casa azul com ipês amarelos na frente, onde logo logo estaria nos braços de Clotilde, esposa de Tenório, escrivão da guarda municipal. A digníssima senhora era sua aluna de canto, e em todos os cantos da casa já apalpara seus redondos e fartos motivos de canto lírico.

Refeito da atividade, voltou à caminhada, seguiu a passos largos pela Rua do Contra, subiu a Travessa dos Travessos, atravessou a pinguela do Córrego dos Macacos e entrou pela cozinha da residência dos Tevez, cujas filhas gêmeas eram fortes candidatas a participarem de um concerto regional de Bach, graças ao ilustre e dedicado professor e maestro da cidade.

Naquela tarde, enquanto ardiam em completa devoção à arte musical, a mãe, uma das mais distintas damas da sociedade local, surpreendeu aos três em intrigante menage por sob a calda do instrumento de origem alemã, de nome impronunciável. Arrumou-se no que pode e saiu em desvairada correria de retorno ao lar.

No entardecer frio e triste daquele dia, batem à porta. Eram os pais da gêmeas. Tremeu até a última célula do corpo. O homem tinha fama de bravo e historias de tiros por causas menores. Abriu a porta esperando a morte. O entendiado marido cumprimentou-o formalmente, mediu-o de cima a baixo, indagou com os olhos algo à esposa e perguntou se o distinto cavalheiro se incomodaria de dar umas lições particulares em sua casa à esposa, pois as meninas não queriam mais aprender piano e a mãe ficou convencida de que a presença dele na casa poderia melindrar o desejo das filhas.

Consentiu com um leve e trêmulo aceno de cabeça, enquanto três homens desciam um piano do caminhão parado à sua porta. Tamanho foi o desgosto pela rotina, que nunca mais repetiu seus feitos da mocidade. Casou-se com Delfina, manteve um relacionamento fiel e exclusivo com a mãe das gêmeas e foi infeliz para sempre.

É isto aí!



sexta-feira, 1 de julho de 2016

Não tem volta (Poemeu)



A moça pudica,
imaculada e santa,
ascendeu à luz
por um rapaz pudico,
imaculado e santo.

Tocaram-se,
trêmulos e
em pânico,
fremiram medos
dedos e suor
pelos flancos.

Tensos constritos
corpos aflitos.
Olham pro lado,
miram-se cúmplices
e roubam as mãos ...

Mergulham
à jusante.
Dão-se para sempre
enquanto dura
a vasante.

É isto aí!











sábado, 25 de junho de 2016

Flavinha e o beijo roubado.

Chegou exausto do escritório. Reuniões, tensões, protestos, enfim, um dia normal de um executivo de 50 anos de idade. Entrou calado no apartamento, desta vez pela porta dos fundos, por que não desejava ver ninguém na sala, de onde se escutava conversas e música alta..

Ali, na sua cozinha, encostada na bancada da pia, estava a vizinha mais linda de todas as mulheres que conhecia, no alto dos seus 35 anos. Nutria um desejo até então silencioso e controlado, afinal era casada, frequentavam o mesmo clube, os mesmos lugares, tinham amigos em comum, etc.

Trocaram um olhar de cumplicidade. Perdeu a razão, segurou-lhe os braços e deu-lhe um beijo escandaloso, impávido e inesperado, seguido de outros dois, com abraços e carícias. Em seguida, apertou-a, afagou-a, apalpou-a e beijou-a desta vez com maior êxtase. A mulher, a princípio assustada pelo assédio inédito, não entendeu nada e cedeu pelo impulso. Ficou ali esperando o próximo passo que não ocorreu.

Saiu da cozinha atordoado, passou na sala sem perceber quem estava ali (se estivesse olhado, veria o marido e as duas filhas da vizinha conversando com a sua esposa e seus dois filhos). Tomou um cowboy duplo seco sem pestanejar. Bateu com o copo na bancada e seguiu para o quarto. A esposa, companheira de trinta anos o acompanhou em silêncio até o quarto.

Deu uma olhada de relance para ela, que acenou levemente a cabeça seguido de um sorriso monalisa, ao perceber seu estado emocional alterado. Caminhou para o banheiro com a garrafa do whisky. Sentou no vaso, e foi bebendo sem pressa. Pelas tantas abriu o chuveiro, jogando a camisa, paletó, gravata, calça e o sapato ao lado de fora da porta.

Pensava coisas desconexas, na Flavinha e numa vontade diferente. A esposa começou a achar que havia muito passado tempo após estar lá dentro, e intuiu que tinha algo errado. Bateu à porta, chamou, gritou, espancou com toda a sua força. Histérica, começou a gritar ininterruptamente. Correram ao seu chamado os filhos, os vizinhos, a Flavinha e o síndico.

 A porta maciça nem balançava, e a água começava a sair pelo chão, providencialmente estancada por uma toalha jogada pela vizinha, que foi retirada assim que a esposa reconheceu nela uma parte do seu enxoval, mandando aos berros alguém buscar um pano de chão.

Chegaram os policiais e os bombeiros. A mulher proibiu o arrombamento, pois a seguradora já enviara o chaveiro. O profissional foi entrando com cerca de trinta pessoas no quarto, passou empurrando aqui e ali até achegar à porta. Tirou suas chaves mestras da maleta, e finalmente abriu-a. Não teve tempo de se levantar, pois foi atropelado pela turba.

Não havia ninguém no banheiro, apesar das evidências de ter sido usado, com o chuveiro aberto e a porta trancada por dentro. Nunca mais foi visto. Os filhos encontraram seus caminhos, a esposa se encaixou na fortuna herdada e Flavinha, bem, Flavinha, de súbito, divorciou e se mudou para local incerto e não sabido onde lhe aguardava a sequência do ato.

É isto aí!



sexta-feira, 24 de junho de 2016

Danem-se os ingleses

Leio entre as manchetes do dia que os ingleses sairam da União Europeia, de onde nunca entraram, a não ser para sacanear os latinos (Portugal, Espanha, França e Italia), e de quebra os gregos. 

Não me espanta nada esta notícia, pois é sabido desde a Guerra Fria, que o Reino Unido quer a bancarrota da União Europeia. Ganharam alguns passos e perderam outros encontrões. Por exemplo, foram deixados para trás com a eleição de Christine Lagarde para o FMI, considerada péssima para a Rainha, pois o FMI de Lagarde passou a defender o euro, o que no Reino Unido ninguém queria e nem aceita. 

De triste memória para os humanos normais, a neo-capitalista Thatcher afirmou em certa ocasião política, que a Europa só teria uma moeda única no momento em que o Parlamento Britânico desaparecesse. Razão tinha o General de Gaulle que dizia que os ingleses só queriam entrar na Comunidade para melhor a destruir e que ele se oporia sempre à entrada do cavalo de Tróia britânico na cidadela comunitária. 

Efetivamente, desde que entrou, a posição do Reino Unido tem sido sempre a de estar apenas com um pé na União Europeia e com outro fora, exigindo um opt-out em relação a uma série de matérias e até a devolução das suas contribuições para a União Europeia (o famoso cheque britânico). depois recusou-se sistematicamente a participar no resgate de outro Estado europeu (Grécia), apelando antes a que este decretasse a bancarrota. Que grande solidariedade europeia a de um Estado-Membro que apela à bancarrota de outro Estado-Membro! Com amigos assim quem precisa de inimigos.

Enquanto isto, na pátria tupynambá, onde bugres babam pelos ingleses como se fossem seus amestradores, a discussão na patológica mídia comensal é sobre o avanço das forças intestinas por sobre um partido político fundado por Pero Vaz de Caminha, que destruiu a nação dando de comer e de estudar aos pobres - isto é uma vergonha- onde já se viu pretos e pobres poderem ter coisas privativas da Corte? 

Tem também em destque garrafal nos noticiários pigais o aniversário (??) de um ano da morte de determinado cantor/compositor sertanejo, em trágico acidente de carro e o vazio que ficou.

Se não bastasse esta dor tão doída, Zezé de Camargo foi fotografado em voo doméstico na pátria amada e é criticado pelos mesmos bugres que babam os ingleses, pois segundo a lógica esquizoide o Safadão tem jatinho, logo é melhor do que o Zezé. É este o povo que quer conquistar a pátria livre? Melhor continuar sendo quintal e/ou esgoto dos ingleses, afinal lá tem glamour ... SQN

É isto aí!

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Nada de novo no front

Nada de novo no front, mas na vizinha pátria tupynambá, logo ali do outro lado da tela, a coisa anda muito esquisita, muito, muito muito esquisita. Já vi este filme, já li o livro, já escutei a trilha sonora - o enredo é sempre o mesmo - a tradição pelos valores morais, éticos e constitucionais; a proteção e o zelo pelas famílias dignas, educadas, elegantes e platinadas; e a garantia da propriedade do que conseguir conquistar, independente da origem, desde que esteja dentro do que o grupo alfa determine como certo.

É assim desde que o mundo é mundo - as leis são para servir aos mandatários e manter os comandados nos trilhos. Se e somente se alguma vez um tresloucado ousar transpor os limites da ordem e da gloriosa moral dos bons costumes, será amarrado no tronco, espancado e deixado como exemplo para que não sigam suas ações.

Dom Miguel tomou o trono português a fórceps, sob a alegação de ser filho legítimo de Dom João VI, o que mais tarde coube dúvidas a ponto de ser possível suspeitar-se de uma fraude. Mas desde o golpe até o seu banimento, Portugal viveu um banho de sangue fratricida. Pedro I aqui, e Pedro IV lá, tomou o controle da situação. Dom  Miguel ... pois é ... Miguel ... Miguel ... a história só se repete como farsa, já disse um famoso pensador alemão.

É isto aí! 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Coisas inúteis que você não sabia

Coisas inúteis que você não sabia:

Exatamente às 19h34 desta segunda-feira, o Sol esteve acima do trópico de Capricórnio, dando início ao inverno no hemisfério Sul. Algumas horas antes, porém, a Lua chegou à fase cheia, uma coincidência que ocorreu a última vez em 1967.

Diferentemente de outros anos, entretanto, o início do Solstício de junho de 2016 foi marcado por uma interessante coincidência astronômica, pois no mesmo dia a Lua se tornou cheia. Essa repetição não acontecia há 49 anos.

Em 1967, no auge do movimento Hippie, o solstício de junho junto à mudança para Lua Cheia deu início ao que ficou conhecido como o "Verão do Amor", no hemisfério norte e os Anos de Chumbo por estas bandas.

Isto mudou a sua vida?

Então responda rápido - uma mãe tem uma nota de R$ 20,00 para para dividir com as suas duas queridas filhas. Sabendo que ambas recebem partes iguais, a que tantas horas elas se encontraram?

Não sabe? Hummm ... fudeu tudo!

É isto aí!

terça-feira, 21 de junho de 2016

Só um duplo mal entendido

- Tinha jurado nunca mais olhar para ela, mas, caramba, como eu sou mentiroso quando trato das coisas ocultas de mim.

- O que você falou, meu bem?

- Nada, nada, só pensei algo sobre qualquer coisa que acho que vi num filme.

- Que filme é este? Conta prá mim, vai, pode contar. Nós assistimos juntos?

- Não é nada, querida, foi só um filmezinho fraco da sessão da tarde.

- Sessão da tarde? Como assim? Tem TV no escritório?

- Não, foi tipo assim, acho que foi na Netflix.

- Humm, mas você tem tempo para assistir alguma coisa que acha que é Netflix e não tem tempo para me levar ao cinema?

- Não foi nada disto, foi por acaso, só liguei e desliguei. Estava abarrotado de serviço e achei que fazendo aquilo me aliviaria.

- Fazendo aquilo? Mas não era um filme na sessão da tarde, depois foi um filme que acha que foi na Netflix, depois foi só uma ligada e desligada e agora aliviou fazendo aquilo?

- É, fazendo aquilo, querida.

- Clodoaldo, fala a verdade.

- Clotilde, a verdade é que estou tendo um caso com a minha secretária e vou te deixar para ficar com ela.

- Nossa, Clodoaldo, você é bobo demais. Quase me convenceu que estava tendo um caso com aquela sirigaita. Deixa prá lá, amor, volta para seus filmes e arruma um enredo melhorzinho. Você é muito engraçado.

- Tudo bem (ufa ...) 

- Mas, olha aqui, Clodoaldo, é bom que seja só um enredo fraquinho, por que se tiver 1% de possibilidade de ser próximo de algo que possa a vir a ser verdade, eu te capo, e depois fujo com a Rubinho.

- Rubinho, quem é Rubinho?

- Rubinho? Não tenho a menor ideia, querido, saiu sem querer. Acho que ouvi na novela ...

- Ah, bom!

- Vai querer algo diferente na janta, amor? (ufa ...)

É isto aí!

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Falo que escuta

- Armandinho, tenho um negócio sério prá te falar.

- Credo, Carminha, o que pode ser tão sério assim?

- É que falta uma coisa nova no nosso relacionamento, sabe - há um vazio se avolumando entre nossas existências.

- Coisa? vazio? Existência?

- Está vendo? Ao invés de refletir, fica aí repetindo o que falo. Eu quero uma coisa nova, Armandinho.

- Como assim? Poderia me dar uma dica? É na parte espiritual?

- Não, até que não - esta está até bem legal depois daquele negócio meio chines, meio javanês que você trouxe para dentro do nosso aconchego.

- É na parte de conversação, tipo "Falo que escuta"?

- Puta que o pariu, Armandinho - é isto. Um falo que escuta - falta isto. Gostei .. uau ... nossa ... um falo que escuta ...

- Ahn? Perdi alguma coisa? Carminha, que cara boba é esta? E estes olhos virados? Carminha ... fala comigo ...

- Bobinho ...

É isto aí!