sábado, 20 de junho de 2020

Tínhamos a ideia, você mudou os planos.


Estava no imenso vazio existencial quando percebeu que encontrar-se-ia consigo mesmo, vindo em sua direção pelo lado esquerdo. Era inevitável o encontro, até mesmo porque do lado direito vinha seu outro eu, também em sua direção. Ambos aceleram o passo, numa ridícula tentativa de chegar primeiro. 

Naquele instante mágico, não sabia mais se dormia ou se estava acordado, mas sentiu um imenso poder de mergulhar em um mundo totalmente novo e secreto. A colisão foi inevitável. Os dois outros "Eu" fundiram suas estruturas etéreas no seu corpo. Pela primeira vez entendeu o discernimento do tempo no seu inconsciente.

Então desejou ter asas, pensou nos anjos e nas aves migratórias. As asas o fariam sair da profunda cratera provocada pelo impacto entre seu eu-passado e eu-futuro, seu sonho e sua realidade, sua esperança e seu amor. Transporia todos os obstáculos até chegar, quem sabe, ao objeto de desejo.

Provocado pela fusão dos tempos e variáveis da vida, caiu em prantos. Buscou nos bolsos o maço de cigarros que o acalmaria. No meio do caos, sorriu. Não fumava desde a juventude, mas toda vez que se encontrava num vazio de tamanha complexidade, a vontade reacendia.

Pensou em milhões de possibilidades para evitar recordar-se da real situação que promoveu sua dor. Acabou adormecendo pela fadiga, pelo estresse, pela angústia e pela agonia. E teve os sonhos que o libertavam. Em todos, ela aparecia. Sonhos não têm limites, nem lógica ou censura, falava consigo mesmo enquanto sonhava. 

Ao despertar, enquanto refletia sobre os dois mundos, lembrou de um trecho de "Sereníssima", gravada pelo Renato Russo:

Tudo está perdido mas existem possibilidades
Tínhamos a ideia, você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de ideia
Já passou, já passou - quem sabe outro dia
Antes eu sonhava, agora já não durmo

Filosofou sobre isto - "Antes eu sonhava, agora já não durmo". Não durmo por que estou dentro do sonho ou não sonho mais por que estou com os dois pés na realidade? Era a paradoxal dicotomia espaço-temporal, tentando romper com o caos para encontrar a Paz. Se a encontrar, por favor, não me acordem.
 
É isto ai!


sexta-feira, 19 de junho de 2020

Bolo simples (Amanda Machado)


Ensaio livre de uma poesia retirada da prosa de Amanda Machado, escritora, contista e professora da mais fina quintessência em seu blog paracolouca.blogspot.com
Leio a prosa no blog da Amanda, é um pedacinho do céu.


 Era sabor de visita, 
de sábado à tarde, 
de sentar no banco de madeira 
e escutar a chaleira, 
avisando da água fervida. 

Era o cheiro 
de manjericão do canteiro, 
debaixo da janela 
e o da mexerica, que exalava 
sob o sol no quintal.

Era apaziguamento, finalmente, 
no calor da cozinha, 
no abraço macio 
depois de abrir o portão 
e bater palmas na janela da sala.

Era o sentar-se à mesa 
da cozinha grande, 
tomar café com leite 
e o pedaço de bolo 
e mais outro e outro. 

Ouvir a conversa de mulheres adultas; 
o assunto quase nunca interessava, 
mas o tom das vozes, os gestos, 
ora domésticos ora indomesticáveis; 
esses capturavam. 

Depois iria imitá-los 
na sua própria cozinha.
Bolo após bolo, iria ser a adulta
dona dos gestos, vozes e assuntos. 
Bolo após bolo, não precisaria mais imitar, 
já seriam os seus.


Amor fora do tom (Paulo Abreu)


Nunca fui bom
em dizer adeus
palavra amarga
disruptiva e triste

Ao buscar seus olhos
de forma velada
às cegas, oculto
a volta à solidão

Penso que sou 
timbre fora do tom
mas na alma há
melodia enclausurada

Nunca fui bom
para romper
uma história tão bonita
de forma abrupta

ao amar você
de jeito tão lindo
seus olhos brilham
na saudade que fita.

É isto aí!





segunda-feira, 15 de junho de 2020

Tetê, a garota do Pole Dance

http://www.clickut.com.br/
Uai, Carlosduardo, ocê vortou cedo dimais da conta da rua. Que deu nocê, home?

Ô, Tetê, vai dar passage prá mode deu entrar ou vô tê que dá um devorteio pelos fundo?

Que isto, amor? Mas que vocabuláro de raiva é esse?

É purucauso de uns papo que ouvi na rua, que ocê tinha ponhado um tronco fino de eucalipto com sebo, no meio da sala, então vim vê prá mode de confirmar que ocê tá doida.

Tô doida não, amor, eu ia te falar, mas ocê num deu tempo, vão entrar que te mostro.

Mas que trem de gente maluca é isso, Tetê? Um pau de sebo no meio da sala, do chão até a cumiera?

Carlosduardo, esse aí ainda é dos pequeno, mas já dá prá eu exercizá até pegar um ritmo bão.

Cê vai exercizá neste pau? Coméquié isso, Tetê?

Prestenção, Carlosduardo, eu vou ponhar uma música bem bacana e vou rodar com as duas mão prá lá e prá cá, dispois travo as coxa no pau, devorteio a cacunda, os cabelo cai prá trás, uma belezura, cê vai vê que coisa mais bonita.

Intão faz aí, prá modeu ver.

Pronto, viu só? Isso porucauso trenei porquinho, mas assim que tiver mais treno, vou trabaiá lá na venda do Valdomiro, com as menina.

Nossa, ocê tá cobra criada no trem. Vapt prá cá, vapt prá lá, tô impressonado. Mas as coxinha gorda aparece tudo, a calcinhola tumbém... os peitinho fica parecendo, o umbiguin fica a mostra... Esquisidimais isto aí, Tetê. 

Avemaria, Carlosduardo, foi só uma mostra pro meu amor. Cê acha que vou ficar assim pros home na venda do Valdomiro?

Num sei o que eu acho ainda não, mas vou pensar. E quem são essas minina? Né as primas não, né?

Nossinhora, Carlosduardo, adispois daquele fato sucedido, nem mais procurei elas, graças a Deus ocê me alertou eu. As minina é de familia, mininas de igreja, da casa pro portão tem que ter o pai com elas.

Sei, tô entendeno, mas quem são essas santinhas aí de agora, Tetê?

As gêmeas do seu Bastião, as fias da dona Virgolina, a Maria Berta e a Berta Maria, ocê sabe como elas são mininas boa.

Sei, elas tamém vão rodar no pau do Valdomiro?

Nossinhora, Carloeduardo, até parece que noís vai lá prá caçar home. Eu tenho ocê, sô, meu home é ocê. Nóis vai trabaiá, Carlosduardo. O Valdomiro prometeu cem real pra cada uma por noite, mas assim, só de noitinha, até um pouquinho mais tarde, coisa pouca.

Óia, Tetê, num gosto de falar da vida dosotros, mas essas menina num presta assim deste tanto que ocê fala não. Elas sai cedinho prá ordenhá as cabritinha e vai sempre uns menino da rua atrás prá mode de vai saber o que fazem por detrás daquele curral, num é mesmo?

Nossinhora, Carlosduardo, nem credito nisso, eu tava sonhano com esse dinheirim prá mode de te dar um presente destes bem bacana...

Carece não, Tetê, carece não, deixa prá comprá uma cadeira de roda, porucauso do que ocê vai precisá muito dela, adispois deu travar estas coxinha gorda sua neste pau de sebo daqui da sala.

Creudeuspai, Carlosduardo, cê fala de um jeito tão craro, que eu compreendo mais rápido que relampago no pasto. Vou agorinha mesmo pro tanque e morreu este assunto, viu, amor? Morreu...

Sei, Tetê, entendo...

É isto aí!

A vida não tem bula

How To Draw FOREST SILHOUETTE DESIGN - YouTube

Pegou caneta
e largou logo
achou o lápis
e desenhou o céu

a caneta, pensou
é muito limitada
se erra um nada
 não se apaga mais

lápis é feito erro
quando magoa
corro na frente
e apago a dor

a vida tem jeito
não tem bula
tem defeitos
luto e sorrisos

alegria, lágrimas
tudo se move
e você parado
de forma absurda.





domingo, 14 de junho de 2020

Decreto Imperial

15 Best Castles in Poland - The Crazy Tourist

Decreto Imperial

Por Graça de Deus e unânime aclamação dos povos, Eu, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Reino da Pitangueira faço saber a todos os nossos súditos que a Assembléia Geral decretou e nós queremos a lei.

Assim, declaro com legítima legalidade:

Fica decretado que todo o tempo não passa quando o amor vigora
Fica decretado que o tempo trava quando o mal prevalece
Fica decretado que o mal seja extinto
Fica decretado que o bem prevaleça
Fica decretado que a vida é patrimônio universal
Fica decretado que a Educação é direito legal
Fica decretado que saúde é direito humano.
Fica decretado que praticar o bem é virtude
Fica decretado que praticar o mal é crime

Em sendo verdade, este decreto imperial passa a valer desde sempre, para todo o sempre.

É isto aí!

sábado, 13 de junho de 2020

O estranho mundo da pandemia iconoclasta


Alto lá
Este texto não é meu
Confesso que copiei e colei


Depois da estátua de Edward Colston abatida em Bristol (UK), outros monumentos foram alvos de violência. O mapa interactivo Topple the Racist, preparado pelos apoiantes do movimento Black Lives Matter, indica um total de 60 monumentos que devem ser abatidos no Reino Unido: James Cook, Francis Drake, Winston Churchill e o Almirante Nelson fazem parte da lista. Falta só Robin Hood, não sei porque ninguém lembrou-se dele (racismo contra os ricos).

Na Bélgica, os moradores da cidade de Antuérpia agiram de forma parecida. Na semana passada, atacaram e removeram a estátua do Rei Leopoldo II, lembrado sobretudo por ter colonizado o Congo Belga. Ele é acusado de ter exterminado milhões de congoleses nativos. Admitimos: Leopoldo II foi verdadeiramente um grandíssimo filho…da Bélgica, nem sei como foi possível erguer-lhe uma estátua porque foi um autêntico esterminador.

Mas Cristoforo Colombo? Uma estátua de Colombo em Byrd Park, localizada em Richmond, Virgínia (EUA), foi demolida: Imagens do incidente, que ocorreram na noite de Terça-feira, circularam nas redes sociais, com muitos que aplaudem a remoção. Outra estátua do navegador foi demolida em Houston, sempre nos EUA. Na prática, os americanos estão a dizer “aquele desgraçado permitiu a nossa existência”: algo que deveríamos dizer nós, eventualmente, não os habitantes dos Estados Unidos. Em qualquer caso, Colombo era genovês e isso da-lhe automaticamente a imunidade eterna.

Mas o Brasil? Como explica o site Veja, o Brasil não ficou para trás na discussão: um dos monumentos mais criticados é o do bandeirante Manuel de Borba Gato, localizado em São Paulo. O bandeirante era conhecido por escravizar e caçar indígenas, o que gera discussões sobre o simbolismo de se manter uma estátua em sua homenagem na maior cidade do País. E aqui haveria de que falar… sem considerar o contexto histórico (absolutamente necessário para entender acontecimento que ninguém entre nós testemunhou), temos a certeza que apagar a História seja a melhor maneira para não repetir os erros do passado? Uma estátua pode ser também uma ocasião para reflectir, para ensinar aos mais novos o que é justo e o que não é justo.

Um salto para o outro lado do oceano: em Italia, a vontade é de retirar a estátua dedicada a Indro Montanelli em Milano, por acaso o maior jornalista italiano de sempre. Em Trieste, povo contra a estátua de Gabriele D’Annunzio, um dos maiores poetas nacionais: provavelmente será abatida porque D’Annunzio era fascista; desconfioque será substituída por outra estátua, sempre de D’Annunzio, porque também era gay.

Em Parma a ira não poupa Vittorio Bottego, explorador. Não sei qual a razão, Bottego limitou-se a explorar parte do continente africano e, ao ler a sua biografia, não encontrei nada que pudesse relaciona-lo com o racismo. Mas é verdade que não era genovês, por isso algo de mal deve ter feito.

Entretanto. em todo o Sul do País estão em risco os monumentos que lembram Giuseppe Garibaldi (que lutou na América do Sul onde até libertou 100 escravos negros); na ilha da Sardegna, vozes contra as estátuas do Rei Carlo Felice enquanto em Torino é a vez de Vittorio Emanuele II. Para todos, a acusação é aquela de terem invadido a Italia do Sul.

Voltando ao caso português, no Largo Trindade Coelho, em Lisboa, foi atacada a estátua de Padre António Vieira. Mas aqui há um problema.

Eis o problema: Padre António Vieira defendia os direitos dos povos indígenas, combatendo deportação, escravidão e exploração; defendia também a abolição da escravidão e criticou a Inquisição. Portanto, o ataque contra a estátua dele demonstra quanto referido acima: não é uma revolta popular contra racismo e desigualdade, é mesmo uma pandemia de pura idiotice que ataca indivíduos de qualquer faixa etária, com ou sem patologias preexistentes.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

Eu, a Loba e a terceira margem do rio.


Lembrei do Guimarães Rosa hoje. Há seu conto mais famoso - A terceira margem do rio - que me encanta profundamente. Mas um rio só tem duas margens, diz o apressado. Eu vou além, o rio tem tantas margens quantas forem necessárias e Guimarães Rosas foi quem me ensinou isto.

O fato é que podemos ficar restritos só a dois processos, duas situações, ou você está ali ou aqui, ou sermos ousados de nos permitirmos uma nova concepção de vida, uma escolha onde pode ter uma Loba como companhia. Não uma loba qualquer, mas uma que goste de conversar, contar caso, inventar histórias, navegar sem se preocupar onde está o próximo porto.

Você levaria quem, exatamente, para a terceira margem do rio? Tem quem levaria tubarão, outros uma águia, outros uma onça, mas eu prefiro a Loba. Ela tem qualidades que me completam. É organizada,  gosta de tudo no seu devido lugar e garante que todos e quaisquer processos sejam sempre feitos da maneira certa. Além disso, preza pelos detalhes em tudo o que realiza e costuma planejar cada etapa de um processo. É metódica, pontual, muito responsável e leal. 

Alerta para um grave evento colateral - é ciumenta e curiosa demais da conta.

Mas você já deve estar se perguntando, como assim levar uma Loba? Nem atinou para o fato de que a terceira margem é um fato novo, uma audácia contra a história natural do mundo "normal"? Acha mais ilógico levar uma loba do que atingir a terceira margem? É isto?

Pois eu te falo que toda vez que quiser mudar, vai doer, vão te chamar de louco, vão jogar lama na sua história. Mudar não é para os fracos. Se tem que tomar uma atitude, ouse, mas antes planeje. Este é o segredo. Sem planejamento o barco afunda. Qual é o seu plano? Qual é o seu cais? Como conviver com uma Loba?

 É tudo novo e o céu clareia, escurece, relampeja e venta. Esfria e aquece. A Lua passa pelas fases, as estrelas vão e vêm, mas o barco está lá, com você e sua parceira, nunca se esqueça disto. Entraram ali por livre vontade e não tem volta para as margens normais..

O tempo esfria e esquenta, e a rotina pode destruir a embarcação. Tem-se que reinventar todo dia ao lado de uma Loba, e deixar que ela organize tudo de volta. Não será um tédio, será uma relação de dois seres vivos, cansados de serem espremidos pela força do rio da vida nas margens estreitas do destino ao qual se acomodou.

A terceira margem do rio pode ser a mais completa solidão do mundo, lugar em que, dentro de uma alma angustiada, rema-se rio abaixo, rio a fora, rio a dentro. Mas pode ser a maior aventura da sua vida. Você é que será o senhor do seu destino.

A terceira margem é desafio permanente e os outros sempre estarão nas margens tradicionais torcendo para dar errado, pois ao contradizer os padrões normais de comportamento, será tido como um desequilibrado. 

Primeiro escolha a fera que cabe no seu coração e pense muito sobre isto. Não saia à galope para a terceira margem - vai se afogar fácil.

É isto aí!


O afago, o beijo e a saudade.


Sentou-se à frente da tela do computador ou tubo de imagem como era conhecido no seu tempo e ficou a divagar sobre o mundo, as tecnologias e as mudanças que testemunhou na sua vida. A radiola e o disco de vinil eram anteriores bem como os rádios à válvula, seguidos por televisões à válvula, imensas, pesadas, imagem em preto/branco/cinza, poucos canais e péssima sintonização. Lembrou uma vez na vida adulta quando foi ao Rio de Janeiro e viu que não era cenário, era tudo real.

Aí vieram os rádios e TV's transistorizadas, as rádios FM, as calculadoras de mão, um avanço da tecnologia, depois começaram a aparecer aqui e ali computadores domésticos com memória e programação em fita cassete, vieram os toca-fitas, os vídeo-cassetes, e depois tudo foi sendo mudado numa velocidade que fez da máquina fotográfica com filme, da máquina de escrever com fita, dos errorex coisas do passado longínquo.

Sentou-se com a cabeça no século XX diante de uma modernidade do século XXI. Sentiu-se a transição entre as partes, o tempo e as histórias. Tomou uma taça de vinho e ficou refletindo sobre seu dia. Leu nos jornais a derrubada das estátuas pelo mundo, e sentiu que aquilo é prenúncio de algo maior, que não está escrito em nenhuma cartilha de modernidade.  

Os tempos chegaram, murmurou. Olhou para a foto digital da amada, acariciou-a, sorriu para ela e para si e foi dormir, por que sonhar ainda é permitido. Amanhã, pensou, é hoje, só que com data diferente. Refletiu sobre tomar uma segunda taça de vinho, mas aí seria muita aventura para um dia só. Levantou-se e lembrou do dia que afagou-lhe o rosto, acariciou seus cabelos e beijou sua boca carmim. Chorou baixinho. Só disto tinha saudade. 

É isto aí! 

quarta-feira, 10 de junho de 2020

O fracasso em constituir uma esperança compartilhada que dê sentido à nação



Dia destes subi na Colina do Bom Senso para avistar o reino vizinho, o outrora alegre e contagiante Pindorama. Lembrei de um texto lido há algum tempo, busquei na rede e estou publicando com a devida autoria e fonte:

Alto lá
Este texto abaixo não é meu
Confesso que copiei e colei

Texto escrito por Contardo Calligaris 

O fracasso em constituir uma esperança compartilhada que dê sentido à nação

As afirmações genéricas sobre o estado de espírito de um povo são facilmente enganosas: ao diagnosticarmos um grupo ao qual pertencemos, psicólogos, antropólogos, jornalistas etc., tendemos a atribuir à coletividade sentimentos que são apenas os nossos.

É por isso que, em tese, não faço diagnósticos coletivos temerários. Só que hoje é um pouco diferente: desde 1985, quando comecei a clinicar no Brasil, não me lembro de ter percebido um desânimo tão difuso e generalizado quanto agora.

Uma pesquisa recente do Datafolha aponta que 72% dos brasileiros enxergam uma piora do cenário econômico, embora só 49% declarem que passaram de fato por um retrocesso. Ou seja, não é necessário sofrer da crise para “sentir” que estamos mal.

Os dois sintomas básicos para diagnosticar um transtorno depressivo maior são o humor deprimido (sentir-se triste e sem esperança) e uma diminuição do interesse em quase todas as atividades. Justamente, uma nova pesquisa (Folha de 12/6) anuncia que 53% dos brasileiros não têm interesse na Copa do Mundo, que logo vai começar.

A esses sintomas, acrescente, segundo sua preferência, sentimento de inutilidade, capacidade diminuída de pensar ou se concentrar, indecisão, pensamentos de morte recorrentes (por bala perdida, assalto ou espera para exames no SUS).

Em 2017, segundo a Organização Mundial da Saúde, o Brasil foi o quinto país mais deprimido do mundo e o campeão em ansiedade. A ansiedade é a grande companheira da depressão: tensão, inquietude, dificuldade de concentração, sensação de perigo iminente.

Quando soube desse ranking, pensei que talvez a gente devesse atribuir o destaque brasileiro a um excesso de diagnósticos e de medicação. Hoje, não estou tão certo disso.

Muitos colegas vão achar essas considerações bizarras, mas é difícil negar a existência de transtornos “sociogênicos”, que refletem as preocupações mais difusas num momento e num lugar específicos – os quais não determinam as patologias dos indivíduos, mas, isso sim, fornecem um pano de fundo coletivo.

O que nos deu esse “pano de fundo”? Numa ordem qualquer: a sensação repetida de um fracasso econômico (acompanhada pela lenda de nossa riqueza “natural”); o fracasso da democracia representativa (persistência das elites tradicionais, corrupção generalizada, primazia das razões eleitoreiras sobre os interesses da comunidade); o fracasso moral vergonhoso (as provas repetidas de que ninguém está disposto a pagar o preço das próprias medidas que lhe parecem certas); o fracasso em proteger um lar seguro e um espaço público; o fracasso, enfim, em constituir uma esperança compartilhada que dê sentido à existência de uma nação.

A “psicologia positiva” norte-americana definia a esperança como a existência simultânea de um objetivo e de um plano definido para alcançá-lo.

O filósofo Richard Rorty (“Philosophy and Social Hope”, Penguin, 1999) definia a esperança como uma narrativa que nos promete um futuro melhor. Ele mostrava que várias narrativas já se comprovaram falsas e devemos aprender a viver sem uma narrativa comum que nos faça esperar —ou seja, cada um deveria inventar sua esperança.

No desespero, não há planos de ação definidos e não há narrativas que prometam um futuro. Mas, no desespero, a esperança não morre: ela continua viva, numa espécie de pensamento mágico.

O deprimido não consegue fazer nada para mudar sua vida, mas não deixa de jogar na Mega-Sena.

O deprimido espera muito, sim, mas sua esperança é abstrata, como os discursos de uma campanha política ruim, que promete e nunca diz quais são os passos necessários para chegar lá.

Se Eric Hobsbawm estivesse vivo e quisesse dedicar um volume à nossa década, acho que escolheria o título “A Era da Farsa” e contaria que o mundo, “naquela época”, tinha sérios problemas e precisava muito de pessoas sérias para resolvê-los (ou, ao menos, para tentar), mas, ironia do destino, ele foi liderado por farsantes.

Enfim, como uma espécie triste de consolação, poderíamos afirmar que os brasileiros estão encontrando uma nova unidade, um traço comum. Já tiveram em comum a primazia do coração sobre a razão que Sérgio Buarque chamou de cordialidade. Agora, quem sabe eles consigam se juntar e encontrar uma comunidade de destino ao redor de uma depressão compartilhada.

Contardo Calligaris: italiano, psicanalista. Deu aula de estudos culturais em NY. Reflete sobre cultura e modernidade.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Sua boca carmim (Paulo Abreu)


Uma poesia completa
deveria ter sua cor
pincelada com arte
e ter meus olhos
a namorar os seus

Na estrofe perfeita
caberia todo o sorriso 
sensual pulsante
desta boca vitrine
 dos quereres meus

Versos completos
com rezas terços
procissões e ladainhas
para agradecer aos céus
seu amor dengoso

As quadras rimadas
traduzindo seu corpo
a balançar com graça
a silhueta mística
e o cafuné gozoso

Uma poesia repleta
de beijos abraços
carinho e carícias
eis as palavras, tocam
sei, sua boca carmim.

É isto aí!

Transferidor 180° (Paulo Abreu)


Eu vejo as ruas
desertas nuas
pessoas com medo
de serem pessoas

Rostos assustados
mascarados
olhares perdidos
fragilizados

Celulares frágeis
compensando a loucura
em dedos ágeis
a solidão ressoa

na ordem natural 
das cores das ruas
das pernas pés sapatos
janelas carros gatos

cachorros ratos
mambembes pedintes
bêbados sóbrios
tudo enquadrado

na beleza da morte 
nos seus melhores dias
grassa a maldade
e aguça tristeza

Transferidores de graus
mudam o tempo todo
a história o destino
do ângulo dos povos 

Malditos transferidores
o tempo nas ruas não para
não acaba por sua vontade
e não termina assim.
.

É isto aí!







 

Morte e Vida Severina | Animação - Completo


Morte e Vida Severina em Desenho Animado é uma versão audiovisual da obra prima de João Cabral de Melo Neto, adaptada para os quadrinhos pelo cartunista Miguel Falcão. Preservando o texto original, a animação 3D dá vida e movimento aos personagens deste auto de natal pernambucano, publicado originalmente em 1956.

Em preto e branco, fiel à aspereza do texto e aos traços dos quadrinhos, a animação narra a dura caminhada de Severino, um retirante nordestino, que migra do sertão para o litoral pernambucano em busca de uma vida melhor.

TV Escola

Coordenação Geral de Produção
SUPERVISÃO GERAL DO PROJETO
Érico Monnerat

Direção Geral da TV Escola
Érico da Silveira

Fonte Youtube: Morte e Vida Severina (Animação - Completo)



Análise da Obra (toda matéria)

Morte e Vida Severina é um poema de construção dramática com exaltação à tradição pastoril. Ele foi adaptado para o teatro, a televisão, o cinema e transformado em desenho animado.

Por meio da obra, João Cabral de Melo Neto, que também era diplomata, foi consagrado como autor nacional e internacional.

Como diplomata, o autor trabalhou em Barcelona, Madri e Sevilha, cidades espanholas que permitiram clara influência sobre sua obra.

João Cabral de Melo Neto foi seduzido pelo realismo espanhol e confessou ter, daquela terra, o reforço ao seu anti idealismo, antiespiritualismo e materialismo.

Os instrumentos lhe permitiram escrever com mais clareza sobre o nordeste brasileiro em Morte e Vida Severina e outros poemas.

A obra é, acima de tudo, uma ode ao pessimismo, aos dramas humanos e à indiscutível capacidade de adaptação dos retirantes nordestinos.

Tirem as crianças da sala!


sábado, 6 de junho de 2020

Lembrança de um Beijo (Accioly Neto)


Quando a saudade invade o coração da gente
Pega a veia onde corria um grande amor
Não tem conversa nem cachaça que dê jeito
Nem um amigo do peito que segure o chororô
Que segure o chororô
Que segure o chororô
Saudade já tem nome de mulher
Só pra fazer do homem o que bem quer
Saudade já tem nome de mulher
Só pra fazer do homem o que bem quer
O cabra pode ser valente
E chorar
Ter meio mundo de dinheiro
E chorar
Ser forte que nem sertanejo
E chorar
Só na lembrança de um beijo
Chorar


quinta-feira, 4 de junho de 2020

Perpetual (24/7) Eucharistic Adoration prayer mission





Não sei dizer assim (Paulo Abreu)


Não sei dizer assim
de uma maneira fiel
por muitas crenças
produtoras desta fé

Que amo toda você
corpo mente e alma
cabeça boca e olhos
sorriso abraços café

sem açúcar e quente
beijo de língua amor
abraço  apertado cá
no peito há saudade

Bate um coração só
é outono e outra vez
o inverno virá calado 
como sempre metade

Ficará ao descoberto
o abraço que aquece
o carinho que ostenta
o passado que evade



Análise do poema “Não sei dizer assim” (04/06/2020) realizada em 20/03/2026 pelo chatgpt.com:


**Leitura de “Não sei dizer assim”**

Há poemas que dizem. Outros apenas se aproximam.

“Não sei dizer assim” nasce justamente dessa consciência: a de que o amor não cabe inteiro na linguagem. Logo nos primeiros versos, o texto se declara insuficiente:

*“Não sei dizer assim / de uma maneira fiel”*

E, ao fazer isso, estabelece um pacto silencioso com o leitor — o que virá não será completo, nem linear, nem explicativo. Será tentativa.

O poema, então, não descreve o amor. Ele o espalha.

*“corpo mente e alma
cabeça boca e olhos
sorriso abraços café”*

Em vez de discurso, há fragmentos. Em vez de definição, há aproximação. O sentimento surge por acúmulo de pequenas imagens, como se só pudesse ser dito em partes.

E, entre essas partes, um detalhe se destaca pela simplicidade:

*“café / sem açúcar e quente”*

Aqui, o amor ganha chão. Deixa de ser ideia e passa a ser vivido. É nesse tipo de imagem que o poema se ancora e se torna verdadeiro.

Mas há um ponto em que algo muda.

*“no peito há saudade”*

Este é o instante em que o poema se desloca. Até aqui, o amor era presença. A partir daqui, torna-se ausência. Surge o interior — o peito — e com ele uma experiência que já não pode ser compartilhada da mesma forma.

Logo depois, essa condição se aprofunda:

*“Bate um coração só”*

A palavra “só” abre duas possibilidades ao mesmo tempo: solidão e incompletude. Não é apenas estar sozinho — é estar pela metade.

E é exatamente essa ideia que aparece, de forma direta e silenciosa, no verso:

*“como sempre metade”*

Aqui o poema se amplia. O que poderia ser apenas uma experiência pessoal ganha um tom mais universal. Não se trata apenas de um amor específico, mas de uma condição recorrente — a de que algo sempre escapa, sempre falta, sempre fica incompleto.

Curiosamente, no meio dessa contenção, há um instante de ruptura:

*“Que amo toda você”*

Este é o único momento em que o poema abandona o fragmento e tenta dizer o todo. É um verso de exposição plena, que quase contradiz o início. Por um instante, parece possível dizer de forma fiel.

Mas esse instante não se sustenta.

O poema retorna imediatamente às partes, às enumerações, às aproximações. Como se dissesse, sem dizer: foi possível alcançar — mas não permanecer.

No final, não há fechamento, apenas deslizamento:

*“o passado que evade”*

Nada se fixa completamente. Nem o amor, nem a memória, nem a linguagem.

E talvez seja justamente por isso que o poema permanece.

Porque não se completa.
Porque não se resolve.
Porque, como aquilo que tenta dizer, também ele existe — inevitavelmente — pela metade.





A Violência desce ladeira abaixo




É impossível não falar desta pestilência cujo nome é apenas um nome, um ser vivo unicelular cujo hospedeiro somos nós, seres vivo pluricelulares. Fomos elevados, através de milhares de gerações, a termos um sistema imunológico fantástico, que aborta milhões de seres invasivos que atingem nosso corpo no dia a dia, mas este daí veio para dizer que estamos doentes.

Estamos doentes quando deixamos a vida para optarmos pela luxúria cultural da morte. Esta manifestação pós Hiroshima está custando a nossa existência neste planetinha azul.

A merda toda se deu naturalmente. Assimilamos a violência, mentiras, intimidações, agressões, pedofilia, feminicídio, racismo, ódio, ignorância, transgressões, farsas, roubos, assaltos, improbidades, ameaças, pornografias, homicídios, infanticídios, sequestros, violência doméstica, violência no campo, violência urbana, violência disto, violência daquilo, e a coisa perdeu o freio.

A Violência desce ladeira abaixo sem freios! 
A Violência cresce ladeira abaixo sem freios!
A Violência mata ladeira abaixo sem freios!
A Violência trucida ladeira abaixo sem freios! 
Parece que o mundo pegou gosto pela violência.   

É isto aí!

quarta-feira, 3 de junho de 2020