quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Memória

Memória
Carlos Drummond de Andrade


Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.



Escultura em madeira - Bruno Walpoth

Escultura em madeira - Bruno 
http://www.walpoth.com/


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A mulher dos meus sonhos


Meu nome é Carlos, sou economista, mas pode ser Carlinhos também. Tenho 42 anos e estou em uma capela que está com poucos convidados, basicamente apenas os amigos mais próximos e a família da Amelinha, minha noiva. Vista de fora, é pequena, mas quando se entra para casar, vira um tapete de uns três quilômetros.

Ficamos enamorados e noivos a apenas quatro semanas, apesar de sermos vizinhos de porta a mais de quinze anos. Amelinha é bonitinha, meio que gordinha, engraçadinha, um metro e meio mais alguma coisa, tem 38 anos, cabelos castanhos escuros e é analista de sistemas.

Sempre nos olhamos, às vezes uma troca rápida de assuntos aleatórios na viagem do elevador, durante os 17 andares até a garagem, mas nada além disto. Na realidade nem sequer sabia seu nome até três semanas atrás, quando até então era um solteiro convicto, determinado e seletivo no gosto com mulheres. Bem, vou tentar fazer um resumo de como tudo isto começou.

Três meses atrás, numa segunda-feira:

Tive uma noite estranha. Dormia sozinho em casa e, puxa vida, dormi assustadoramente demais. Não recordo de nada, mas tive um sonho que era tão real que mal conseguia distinguir entre realidade mundana e onírica. Deixa pensar... não bebi, isto não bebi nada ontem. Não estava tomando barbitúricos, nem aqueles legais, é verdade, tem uns que dão barato... mas não tomei nada.

Agora estava ali, de olhos fechados, pensando no que foi aquela noite. Será que morri? - pensei antes de abrir os olhos.  Minha analista - meu Deus, como ela é gostosa, certa feita confidenciou-me que o sonho é o resultado de uma conciliação. 

Segundo ela, dorme-se e, não obstante, vivencia-se a remoção de um desejo. Satisfaz-se um desejo, porém, ao mesmo tempo, continua-se a dormir. Ambas as realizações são em parte concretizadas e em parte abandonadas. 

Bem, vou abrir os olhos, e então saberei de algo. Caramba, estou moído, triturado. Mas, espere, o que é isto ao meu lado... aaaaiiiii, como você entrou aqui? Quem é você? Ei... acorda, moça... acorda... quem é você?

Hummm, bom dia amor... vem cá, me dá um beijinho de bom dia...

Quem é você? Espera... eu morri? É isto?

Bobinho, tem nada disto. Olha bem para mim, pensa bem - você sabe quem eu sou.

Sei apenas que não sei de nada, agora se explique - este é o meu quarto, esta é a minha cama e você...

Eu sou sua.

Minha? Que papo doido é este? Espere (pulei da cama, corri todo o apartamento, olhei as portas, conferi as janelas, liguei para a portaria para saber se alguém subiu nas últimas doze horas). Refleti - Moro no décimo sétimo andar, como esta moça entrou aqui?  Voltei para o quarto, e não mais a vi. Desesperado, voltei à sala, abri a porta, olhei no corredor, voltei, olhei no banheiro, cozinha, nada da moça.

Voltei à analista, contei detalhes, dei informações que nem lembrava mais. Olhou-me com aquela expressão intelectual irritante, cruzou suas coxas delirantes, e professou a sentença - Carlinhos, você a conhece, mas não está ligando a pessoa ao fato. Veja com outros olhos.

Saí dali desesperado. Procurava ansioso nas ruas, nos rostos anônimos das calçadas, vitrines, restaurantes e no escritório. Nada, ela entrou e saiu da minha vida de uma forma tão surpreendente que fiquei atordoado.

Três semanas atrás, num domingo às seis horas da manhã:

Creditei aos problemas do trabalho e ao cansaço, o sono pesado daquela experiência. Mas aí acordei num domingo com ela ao meu lado, ainda dormindo. Linda, angelical. Desta vez não assustei tanto. É um sonho, pensei. Afaguei-lhe o rosto, desfilei os dedos entre seus cabelos, apertei-lhe brandamente as bochechas. Descobri-a e admirei seu corpo formoso e encantadoramente sensual sob um pijama de seda. Tirei meu pijama, ajoelhei-me no chão ao seu lado e...

Olá... disse sussurrando e acariciando sua face. Ela espreguiçou lentamente, abriu os olhos, sorriu de forma angelical, levou a mão ao meu encontro, em movimentos delicados, e com uma voz deliciosa, retribui-me a saudação. Senti sua falta, disse-lhe trêmulo e emocionado. Não sei quem é você, mas você não saiu do meu pensamento, eu a busquei loucamente nestas semanas.

Eu sou a mulher dos seus sonhos... 

Dos meus sonhos? Como assim? 

Sou seus desejos, suas vontades, seu prazer. Sou sua, toda sua.

Como é isto? Eu só gosto de loiras, sempre tive só namoradas loiras, eu gosto de mulheres altas, seios grandes, e você, desculpe, mas você não está enquadrada nestes parâmetros. Não sei como entrou aqui, nem sei como saiu da outra vez, mas como assim - mulher dos meus sonhos? E você disse que eu sabia quem era, e eu não tenho a menor ideia disto.

—Olhe bem para mim, Carlinhos, nos meus olhos...

Aí fui olhando, olhando, olhando e de repente, em um estalo, gritei em pleno desespero - Mamãe! É você, mamãe?! Mas o que é isto? O que está acontecendo comigo? Ah!

De salto, pulei para fora do quarto aos gritos, ainda nu, abri abruptamente a porta da sala e deparei com Amelinha de porta aberta, frente à minha, de camisolinha transparente, curta. Olhamos nos olhos, cruzamos a extensão do corpo de um no cobiçado olhar do outro corpo, olhamos para os lados, dei três passos em sua direção, ajoelhei-me, peguei a sua mão e a pedi em casamento. Ajoelhou, abraçou-me, beijamos e agora estou aqui, nesta Capela...


É isto aí!

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Templo da Filosofia Ecumênica Macunaímica

O pregador: Meus irmão e minhas irmãos, caríssimos, em verdade, em verdade vos digo - Deus é amor. Assim está escrito, assim o é. O amor...

O fiel - Mas como Deus é amor se o amor é cego?

A gorda sexy - Mas meu pai também é cego.

A gostosa do Templo - Caramba, será que o pai da gorda sexy é Deus?

O pai da gorda sexy - Não sou Deus, além disso sempre disseram-me que sou ninguém.

A beata solteira - Convenhamos, você sabe que ninguém é perfeito, talvez por isto seja cego.

O ex-delinquente recuperado - Humm, espera, se o pai da gorda é ninguém, logo ele é perfeito.

O pregador - Só Deus é perfeito.

A gorda sexy - Então meu pai é Deus?

O fiel - Milagre... Deus se fez carne no nosso Templo, o pai da gorda é Deus...

A beata solteira - Se o pai da gorda sexy é Deus, a partir de agora quero ser igual a ele.

A gorda sexy - Estou cega... estou cega...

É isto aí!

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Um conto imoral

Tudo deu errado na vida de Aureliano Cantareira. Nasceu pobre, família modesta, estudou como desejava o pai, concluiu o segundo grau, ingressou em uma carreira pública como assessor de certo vereador do bairro, e daí fez faculdade, conheceu Rosinha, uma morena deslumbrante e ao seu lado deu passos largos e tombos inevitáveis. Perdeu tudo, de Rosinha ao chaveiro do carro.

Passou a vagar aqui e ali, morando em pensões baratas, comendo quando podia, capinando um quintal, coletando sucatas, enfim, conheceu o lado dos desvalidos até a velhice, que viu chegar lenta e progressivamente dolorosa. Ao fim, acomodado em um asilo municipal, com melhor conforto do que vivera nos últimos trinta anos, passou a ter tempo para refletir sobre sua vida.

Onde deu errado? Por que tudo teve que acontecer desta forma? E chorava, meditava, refletia, porém a resposta não vinha. Um dia chegou no horário de visitas um velho bem vestido, pletórico, e foi direto ao seu encontro. 

- Olá Aureliano.
- Olá... nos conhecemos?
- Sim, nos conhecemos.
- Sério? Qual o seu nome?
- Rafael. Não se lembra de mim? Brincávamos na infancia, eramos amigos em tudo, inseparáveis.
- Verdade? Bom, a que devo a honra da sua visita, Rafael?
- Você tem se cobrado muito pelo motivo pelo qual está aqui, como tudo aconteceu, então quer uma resposta para suas divagações, e eu vim responder. Pode perguntar.
- Como você sabe disto? Eu não te conheço e você sabe meu nome e minhas angústias?
- Pergunte, Aureliano, não tenha medo.
- Você é Deus?
- É assim que me vê?
- Não sei, está tudo tão estranho, você aqui, esta conversa...
- Eu sou o que sou  estou aqui para cumprir com minha obrigação.
- Você faz truques? faz mágicas? Multiplica as coisas? Faz aparecer dinheiro do nada?
- Aureliano Cantareira, você é um incorrigível perdedor. Pare com suas dúvidas e questionamentos superficiais e arrisque saber a verdade.
- Está certo. Estava com medo de você, medo da verdade. Passei a vida com medo. Diga, Rafael, onde errei?
- Onde errou? Você é um tremendo de um filho de uma puta, um pulha, um asqueroso dejeto humano, você é uma bosta seca no pasto árido, inútil e idiota.
- Mas o que é isto? Veio aqui chutar um velho derrotado?
- Derrotado hoje, mas no dia que roubou meu emprego na Câmara e a minha namorada, Rosinha, eu jurei que iria destruir a sua vida. E me dediquei à esta obra por cada segundo que passou desde a semente do ódio germinada. Eu destruí você, Aureliano. E agora? Vim te dizer que prometi e cumpri. Vai tomar no c*, Aureliano.
- O que você ganhou com isto, qual é a moral desta história?
- Ganhei a liberdade de vim te dizer que você é um cagão e a moral da história é que não há imoralidade entre fazer e destruir um imbecil como você. Adeus, babaca.
- Rafael, espere, não vá ainda, preciso te dizer uma coisa...
- Fala, farrapo.
- Muito obrigado por tudo, ninguém nunca havia feito nada por mim e você dedicou toda a sua vida à minha vida.   
- Vá à merda, Aureliano, e retire este sorriso cínico do rosto, por que se não o fizer eu farei de tudo para removê-lo.
- Rafael... escute... Rosinha não valia isto tudo, acredite.
- Eu sei, esta é a minha ira. Quando finalmente a tive nos braços, descobri o quanto você estava feliz por te-la perdido. Eu te odeio, Aureliano...

É isto aí!

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Só pensando e viajando nas estrelas

É claro para mim, como pai e ser político, que o falecimento do candidato à presidência pelo PSB, Eduardo Campos, é muito triste. Não só dele, como dos companheiros de vôo. Impossível não sentir uma dor pela tragédia e uma reflexão sobre a morte.

Nesta semana dezenas de pessoas perderam a vida em acidentes no Brasil. Aqui, a poucos minutos de distância de minha casa, um jovem casal universitário partiu deste plano da mesma forma que todas as outras tragédias rodoviárias, terrestres ou de navegação. 

Li aqui e ali imbecilidades sem fim. Acusações, regras demoníacas, superstições idiotas e até um suposto filosofo guru da banda podre aventou a possibilidade de um atentado. Estão todos impressionados, pressionados e aprisionados em um redemoinho, que psicanalista fosse, enredaria pela Pulsão da Morte de Freud.

Do que têm medo estas pessoas? Do futuro? Não acho. O pânico é sobre o AGORA. O que resta disto tudo? O agora. Só isto e mais nada. Quem vencerá as eleições, quem ganhará o campeonato, quem tirará a virgindade da gostosa do 701 do Bloco B? Nada disto interessa ao passado, e não está no futuro.

E há algo importante a ressaltar: nada está traçado para a  vida de uma forma reta, pré-destinada, o futuro está sempre mudando. Todas possibilidades existem, a vida pode tomar qualquer rumo, pra melhor ou pior, o que define como alguém vai desenvolver o seu caminho e aprendizado é o personagem que esta pessoa cria pra ela mesma, as suas escolhas em geral e o seu estado de consciência.

Esqueça Einstein, Planck, Curie e outros notáveis. Existe uma nova teoria que foi proposta no final da década de 80 pelos físicos russos Mikhail Vasiliev e Efin Fradkin, do Lebedev Institute, em Moscou, que é conhecida nos meios científicos como "A Teoria Vasiliev" (para fins de brevidade, o nome Fradkin é deixado de lado) e leva a ideia básica da Física Moderna a extremos: o mundo consiste de campos – os campos elétrico e magnético, além de um punhado de outros que representam as forças conhecidas da natureza e seus tipos de matéria. A teoria Vasiliev postula um número infinito de campos. Eles vêm em variedades cada vez mais complicadas descritas pela propriedade quântico-mecânica do spin.

Assim, lendo desta forma, tanto você quanto eu não não está entendendo nada, mas parece que a teoria afirma que o tempo está inserido no plano espaço, e por isto temos vários "agora" coexistindo em nossa existência. Então por que preocupar com o futuro se o "agora" que estou nele não for compatível com o "agora" que me levará a outras respostas e perguntas?

Vou repensar isto tudo e parar de beber enquanto escrevo...

É isto aí

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Sabe por que ela é tão sensacional?

ATENÇÃO - ESTE TEXTO NÃO É MEU - COPIEI E COLEI
Autora - Nathalí Macedo*
Fonte - http://www.entendaoshomens.com.br

http://www.zupi.com.br/as-pin-ups-de-elvgren/
Sabe por que ela é tão sensacional? Porque ela te faz esperar. Te faz implorar. Te deixa ridiculamente vulnerável, te rouba o sossego, te faz trocar o travesseiro pela cachaça, o sorriso pela lágrima, a paz pelo desespero.

Sabe por que ela te parece tão inspiradora? Porque ela é uma filha da puta. Que te trocou por outro, não respondeu as tuas mensagens, cuspiu na sua dignidade e continua sendo musa das suas poesias.

Ela não tem uma bunda insubstituível, nem faz um sexo sensacional, nem tem a sensualidade de uma deusa – o que tornaria, talvez, explicável toda essa obsessão patética. Só há uma diferença verdadeiramente expressiva entre ela e aquela moça que te elogiou o sorriso: é que ela não te quer. Ela tornou-se inalcançável e isto te atraiu de uma maneira que você simplesmente não consegue lidar. Que grandessíssimo babaca é você, deixando mulheres sensacionais para trás enquanto se ocupa em remoer o desprezo de quem simplesmente não te ama mais.

Você parece tão adulto, mas que grandessíssimo babaca – amando sem ser amado pelo simples prazer de protagonizar um pseudodrama imbecil.

Quer saber de uma coisa realmente dolorosa – e da qual um imbecil como você é completamente merecedor? – ela não te quer. Nem por um diazinho. Nem pra lamber-lhe os sapatos e lavar-lhe as calcinhas. Ela deixou de te querer quando percebeu que continuar te querendo era o primeiro passo pra deixar de te merecer. Porque um homem como você só se contenta com o impossível, com o difícil, com o problemático – e, embora você seja realmente muito filho da puta, quem sou eu pra te julgar? Eu também gosto dos filhos da puta.

Mas, acredite, ela faria qualquer coisa pra se ver livre dessa sua patética dor de cotovelo. Ela não vê, mas seria tão simples: a ela bastaria se apaixonar por você. Ouvir tuas palavras, te aquecer numa noite fria, tomar uma cerveja com você no fim do expediente. Cuidar bem do teu amor.

E então, ela deixaria de ser sua musa inalcançável para tornar-se um inconveniente, um infortúnio. Deixaria de ser venerada para ser simplesmente indesejada no momento em que correspondesse a estes anseios ridiculamente exagerados que você alimenta. Ela ouviria um milhão de nãos no instante em que te dissesse sim. Por que um homem como você não ama o amor: ama a conquista, a vitória, o triunfo. Um homem como você é babaca demais pra perceber: ela só é tão sensacional porque não ser mais tua.

*Sobre Nathalí Macedo

Atriz por vocação, escritora por amor e feminista em tempo integral. Adora rir de si mesma e costuma se dar ao luxo de passar os domingos de pijama vendo desenho animado. Apesar de tirar fotos olhando por cima do ombro, garante que é a simplicidade em pessoa. No mais, nunca foi santa. Escreve sobre tudo em: facebook.com/escritosnathalimacedo


sábado, 9 de agosto de 2014

Armando e Laurinha - A pesquisa eleitoral

Eu odeio gatos, disse a moça segurando uma enorme caneca de café. E também não gosto de saudade, nem despedidas, nem rapidinhas, e muito menos beijo sem língua. Detesto encoxadas sem continuidade bem como não gosto só de provocações sem complementação. E, deixa-me pensar - cigarro, isto, eu odeio cheiro de cigarro a qualquer dia e a qualquer hora.

Senhora, por favor...

Por favor digo eu - senhorita, moça, mocinha, garota ou outras expressões de características similares eu aceito, mas "senhora"? Como assim? Pareço ser sua mãe? Eu não sou velha, não sou chata, não sou gorda, não sou burra, não sou ... ah, o que você pensou, também não sou.

Moça, acalme-se, deixe-me explicar...

Meu ciclo menstrual é normal, minha TPM é legal, adoro fazer  sexo em locais bizarros, faço academia, natação e ioga; ciclismo, caminhada e boxe tailandês. Dirijo bem, detesto ônibus com aquelas aglomerações pornoletários, entende, uma mistura de um porno com a classe proletária, mas não sou preconceituosa, pois um pretinho básico sempre cai bem.

Posso falar?

Olha, passar bem, querido. Vai tabular sua prancheta em outras bandas, já disse tudo. Ah, gosto de fazer tipo cachorrinho, entende? Deve ser por isto que não gosto de gatos... Valeu, já sabe tudo de mim, beijinhos e tchau.

Com quem você falava tanto na porta da sala, Laurinha?

Armandinho, era um carinha aí, sei lá, meio esquisito, falando que era entrevistador de pesquisa eleitoral, aí empolguei e falei de toda a minha plataforma...

Mas assim, Laurinha?

Assim como, Armandinho?

Nua?

Meu Deus, será que ele pensou alguma coisa sobre mim? Gorda? Feia? Será, será??? E meus peitos? Será que achou que estão caídos? E agora vai tudo para ser divulgado na TV? Meu Deus, meu Deus!!!! 

Laurinha, você é muito doidinha, mas eu te amo.Era uma pesquisa para saber em quem vai votar, só isto...

Nossa, era só pra isto? Então... vamos brincar de boca de urna? Não para, Armandinho, não para, ai... você me mata, Armandinho...

É isto aí!

sábado, 2 de agosto de 2014

ESPERANZA SPALDING - Samba em Prelúdio - Baden Powell

Disritmia (Martinho da Vila)


Eu quero me esconder debaixo
Dessa sua saia prá fugir do mundo
Pretendo também me embrenhar
No emaranhado desses seus cabelos

Preciso transfundir seu sangue
Pro meu coração, que é tão vagabundo
Me deixa te trazer num dengo
Pra num cafuné fazer os meus apelos
Me deixa te trazer num dengo
Pra num cafuné fazer os meus apelos

Eu quero ser exorcizado
Pela água benta desse olhar infindo
Que bom é ser fotografado
Mas pelas retinas desses olhos lindos

Me deixe hipnotizado pra acabar de vez
Com essa disritmia
Vem logo, vem curar teu nego
Que chegou de porre lá da boemia
Vem logo, vem curar teu nego
Que chegou de porre lá da boemia

Eu quero ser exorcizado
Pela água benta desse olhar infindo
Que bom é ser fotografado
Mas pelas retinas desses olhos lindos

Me deixe hipnotizado pra acabar de vez
Com essa disritmia
Vem logo, vem curar teu nego
Que chegou de porre lá da boemia
Vem logo, vem curar teu nego
Que chegou de porre lá da boemia
Vem logo, vem curar teu nego
Que chegou de porre lá da boemia
Vem logo, vem curar teu nego
Que chegou de porre lá da boemia
Vem logo, vem curar teu nego
Que chegou de porre lá da boemia
Vem logo, vem curar teu nego

Que chegou de porre lá da boemia

Lama (Ailce Chaves / Paulo Marques) - Elza Soares e Banda Luar de Prata


"Lama" é um samba composto por Paulo Marques e Ailce Chaves em 1952. Foi gravado originalmente por Linda Rodrigues na Continental. Um dos fatos mais importantes ligados a esse samba foi protagonizado pelo início da carreira da então jovem Elza Soares.

 Em 1953, Elza Soares fez o primeiro teste na Rádio Tupi, no programa "Calouros em desfile", de Ary Barroso. No teste Elza interpretou a música "Lama" ganhando o primeiro lugar. Esse fato é sempre lembrado nas entrevistas da cantora.

Lama (Ailce Chaves / Paulo Marques) 

Se quiser fumar eu fumo
Se quiser beber eu bebo
Não interessa a ninguém.

Se o meu passado foi lama,
Hoje quem me difama
Viveu na lama também.

Comendo da minha comida
Bebendo a mesma bebida
Respirando o mesmo ar.

E hoje, por ciúme ou por despeito
Acha-se com o direito 
de querer me humilhar.

Quem és tu?
Quem foste tu?
Não és nada!
Se na vida fui errada
Tu foste errado também

Não compreendeste o sacrifício
Sorriste do meu suplício
Me trocando por alguém

Se eu errei, se eu pequei
Pouco importa
Se aos teus olhos estou morta
Pra mim morreste também!

Quem és tu?
Quem foste tu? Não és nada!
Se na vida fui errada
Tu foste errado também

Não compreendeste o sacrifício
Sorriste do meu suplício
Me trocando por alguém

Se eu errei, se eu pequei,
Pouco importa
Se aos teus olhos estou morta,
Pra mim morreste também.

Áudio extraído do Cd da Trilha Sonora de Chega de Saudade
Música: Lama
Artista: Elza Soares, Marku Ribas e Bid
Álbum: Trilha Sonora Original do Filme: Chega de Saudade
Licenciado para o YouTube por
The Orchard Music (em nome de Tratore); LatinAutor - SonyATV e 2 associações de direitos musicais


Orgulho

Angela Maria e Maria Bethânia
De: Nelson Wederkind - Waldir Rocha

Tu me mandaste embora, eu irei
Mas comigo também levarei
O orgulho de não mais voltar

Mesmo que a vida se torne cruel
Se transforme numa taça de fel
Este trapo tu não mais verás

Eu seguirei com o meu dissabor
Com a alma partida de dor
Procurando esquecer

Deus sabe bem quem errou de nós dois
E dará o castigo depois

O castigo a quem merecer


sexta-feira, 25 de julho de 2014

Samba Quadrado (Milton Carlos/Isolda)


Fonte da imagem: Arquivo Musical (youtube)
Fonte do Texto: Milton Carlos - Wikipédia
Fonte da Letra da Música: Letras mus
Fonte do Vídeo Youtube: darney1971

Milton Taciano Fantucci Filho (São Paulo, 13 de novembro de 1954 — Jundiaí, 21 de outubro de 1976), conhecido artisticamente por Milton Carlos, foi um cantor e compositor brasileiro.[1]

Carreira
Lançou seu primeiro LP em 1970, tendo como principais faixas "Desta vez te perdi", "Tudo parou", "Eu vou caminhar" e "Um presente para ela", compostas por ele e sua irmã, Isolda Bourdot (falecida em 2018), que também foi sua principal parceira musical.

Em 1973, gravou "Samba Quadrado" (seu principal sucesso), "Contrassenso" (com Martinha), "Você precisa saber das coisas", "Memórias do Café Nice" (Artúlio Reis e Monalisa) e "Amigos, Amigos", que foi sua primeira composição gravada por Roberto Carlos. Dois anos depois, um terceiro álbum homônimo foi lançado e, em 1976, Roberto Carlos gravou "Pelo avesso" e "Um jeito estúpido de te amar" (também de autoria de Milton Carlos e Isolda). O quarto disco do cantor, gravado em 1977, foi também seu último na carreira, com destaque para "Enredo", "Ana Cláudia", "Maria de tal" e "Saudade do Bexiga".

Morte
Em 21 de outubro de 1976, morreu tragicamente, em decorrência de um acidente fatal de carro junto com sua noiva Mariney Lima. Tinha apenas 22 anos incompletos. Na época de sua morte, Milton Carlos fazia sucesso com uma regravação de "Dorinha meu amor" (Freitinhas).

Seu corpo foi sepultado no Cemitério da Quarta Parada, em São Paulo.


Samba Quadrado
Milton Carlos/Isolda
Fonte: Letras musica

Eu fiz um samba quadrado pra você sentir
Que quanto maior a distância
Maior é o fim

Eu fiz da rua escura
Pedaço de lua 
pra te iluminar

Eu fiz de versos mais rimas
Palavras e cismas
Pra te chatear

Eu fiz um samba quadrado pra você voltar
Eu fiz da viola a desculpa
Pra me consolar

Eu fiz do ontem o hoje
E do hoje o amanhã
Pra te ver aqui

Mas é bem melhor
Para o mundo eu chorar
Pra você eu mentir

Lourinha, gotinha d'água
Lourinha da minha mágoa

Milton Carlos samba quadrado
Fonte Youtube: darney1971



quinta-feira, 24 de julho de 2014

Uma crônica de Rubem Braga

Retrato de um artista -  Homenagem à Rubem Braga
por Weberson Santiago
As boas coisas da vida - Rubem Braga

Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer as “dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Sem pensar demasiado, fez esta pequena lista:

- Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.

- Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.

- Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos servente de pedreiro.

- Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.

- Aquele momento em que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade – ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.

- Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne – a mulher que não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.

- Viajar, partir…

- Voltar.

- Quando se vive na Europa, voltar para Paris, quando se vive no Brasil, voltar para o Rio

- Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte – o assim chamado descanso eterno.


Autor: Rubem Braga

terça-feira, 22 de julho de 2014

Wisława Szymborska

Wisława Szymborska

As Três Palavras Mais Estranhas
Quando eu pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando eu pronuncio a palavra Silêncio,
Eu o destruo.
Quando eu pronuncio a palavra Nada,
Eu faço algo que nenhum não-ser pode reter.


Maria Wisława Anna Szymborska  [vʲiswava ʂɨmbɔrska] (2 de Julho 1923-1 fevereiro de 2012) foi uma poetisa polonesa , ensaísta , tradutora e Nobel da Literatura. Nascida em Prowent, que desde então se tornou parte de Kórnik , mais tarde residiu em Cracóvia até o final de sua vida. Na Polônia, os livros de Szymborska alcançaram vendas que rivalizam com autores de prosa proeminentes, embora ela tenha dito certa vez em um poema, "Some Like Poetry" ("Niektórzy lubią poezję"), que não mais do que duas em mil pessoas teriam cuidado com a arte. 

Szymborska foi agraciada com o Prêmio Nobel de Literatura de 1996 "pela poesia que, com precisão irônica, permite que o contexto histórico e biológico venha à luz em fragmentos da realidade humana" e se tornou mais conhecida internacionalmente como resultado disso. Seu trabalho foi traduzido para o inglês e muitos idiomas europeus , assim como para o árabe , hebraico , japonês , persa e chinês .

domingo, 20 de julho de 2014

Não sei de nada...

Eu queria dizer que te amo, sem ser vulgar, sei lá, algo diferente.

Apenas diga.

Mas não dá, não sinto sua necessidade de saber disto.

Como pode saber se não disser?

Já lhe dei tudo, já fizemos muito e não sei ainda. São seus olhos...

Meus olhos? 

Sim, eles não brilham. Não há luz em seu olhar. A iluminação dos amantes, entende?

Em qual galáxia você mora? Como quer brilho nos meus olhos com a crise mundial que está aí. Sabia que o Planeta Terra está atravessando um momento crítico?

Eu te amo, e só quero saber disto.

Você sabia que um avião comercial foi abatido por um míssil na Ucrânia?

Eu te amo, olha para mim.

E em Israel, viu a chacina de civis palestinos?

Eu te amo, olha.

Está a par das graves denúncias compartilhadas contra certo candidato?

Eu te amo...

Leu sobre as manipulações das pesquisas para favorecer interesses ocultos?

Eu te amo, para com isto...

Sabia que São Paulo, a maior cidade do país, está ficando sem água?

Eu te amo até o fim do mundo...

Leu que o Dunga foi convidado a assumir a seleção?

Ah, não! Aí não, aí vou chamar os blackblocs, o escambau, o Dunga não... o Dunga não...

É isto aí!

Rubem Alves

Esta crônica é de Rubem Alves - Atemporal, como ele. Tocante, imortal. Li que quer suas cinzas lançadas ao pê do Ipê que plantou, ouvindo declamação de poemas selecionados de Cecília Meirelles e Drummond.

Para emocionar a gente:

"Eu havia colocado no toca-discos aquele disco com poemas de Vinícius e do Drumond, disco antigo, long-play, o perigo são os riscos que fazem a agulha saltar, felizmente até ali tudo tinha estado liso e bonito, sem pulos e sem chiados, o próprio Vinícius, na sua voz rouca de uísque e fumo, havia recitado os sonetos da separação, da despedida, do amor total, dos olhos da amada.

Chegara finalmente o último poema, meu favorito, "o haver" - o Vinícius percebia que a noite estava chegando, tratava então de fazer um balanço de tudo o que se fez e disso, o que foi que sobrou? Por isso as estrofes começam todas com uma mesma palavra, "resta..." - foi isso que sobrou. Resta essa capacidade de ternura, essa intimidade perfeita com o silêncio...

Resta essa vontade de chorar diante da beleza, essa cólera cega em face da injustiça e do mal entendido...Resta essa faculdade incoercível de sonhar e essa pequenina luz indecifrável a que às vezes os poetas tomam por esperança...

Começava naquele momento a última quadra, e de tantas vezes lê-la e outras tantas ouvi-la, eu já sabia de cor as suas palavras, e as ia repetindo dentro de mim, antecipando a última, que seria o fim, sabendo que tudo o que é belo precisa terminar.

O pôr-do-sol é belo porque as suas cores são efêmeras, em poucos minutos não mais existirão. A sonata é bela porque sua vida é curta, não dura mais que vinte minutos. Se a sonata fosse uma música sem fim é certo que o seu lugar seria entre os instrumentos de tortura do diabo, no inferno. Até o beijo... Que amante suportaria um beijo que não terminasse nunca?

O poema também tinha de morrer para que fosse perfeito, para que fosse belo e para que eu tivesse saudades dele, depois do seu fim. Tudo o que fica perfeito pede para morrer. Depois da morte do poema viria o silêncio, o vazio. Nasceria então outra coisa no seu lugar: a saudade. A saudade só floresce na ausência.

É na saudade que nascem os deuses - eles existem para que o amado que se perdeu possa retornar - que a vida seja como o disco, que pode ser tocado quantas vezes se desejar. Os deuses - nenhum amor tenho por eles, em si mesmos. Eu os amo só por isso, pelo seu poder de trazer de volta para que o abraço se repita. Divinos não são os deuses. Divino é o reencontro.

A voz de Vinícius já anunciava o fim. Ele passou a falar mais baixo. Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio pelo momento a vir, quando, emocionada, ela virá me abrir a porta como uma velha amante...

E eu, na minha cabeça, automaticamente me adiantei, recitando em silêncio o último verso: ".. Sem saber que é a minha mais nova namorada."

Foi então que, no último momento, o imprevisto aconteceu: a agulha pulou para trás, talvez tenha achado o poema tão bonito que se recusava a ser uma cúmplice do seu fim, não aceitava a sua morte, e ali ficou a voz morta do Vinícius repetindo palavras sem sentido: "sem saber que é a minha mais nova"..."sem saber que é a minha mais nova"... "sem saber que é a minha mais nova..."

Levantei-me do meu lugar, fui até ao toca-discos, e consumei o assassinato: empurrei suavemente o braço com o meu dedo, e ajudei a beleza a morrer, ajudei-a a ficar perfeita. Ela me agradeceu, disse o que precisava dizer, sem saber que é a minha mais nova namorada... Depois disso foi o silêncio.

Fiquei pensando se aquilo não era uma parábola para a vida, a vida como uma obra de arte, sonata, poema,coreográfico. Já no primeiro momento quando compositor, ou o poeta ou o dançarino preparam a sua obra, o último momento já está em gestação. É bem possível que o último verso do poema tenha sido o primeiro a ser escrito por Vinícius. A vida é tecida como as teias de aranha: começam sempre do fim. Quando a vida começa do fim ela é sempre bela por ser colorida com as cores do crepúsculo.

Não, eu não acredito que a vida biológica deva ser preservada a qualquer preço. "para todas as coisas há o momento certo. Existe o tempo de nascer e o tempo de morrer" (eclesiastes 3, 1s).

A vida não é uma coisa biológica. A vida é uma entidade estética. Morta a possibilidade de sentir alegria diante do belo, morreu também a vida, tal como Deus no-la deu - ainda que a parafernália dos médicos continue a emitir seus bips e a produzir ziguezagues no vídeo. A vida é como aquela peça. É preciso terminar. A morte é o último acorde que diz: está completo. Tudo o que se completa deseja morrer".