segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Sobre ruínas e vendavais


Era uma vez
aquela vez
quando se erra
e se erra de vez.

E era a vez
Era aquele agora 
Eram os clichês
sofrer e chorar

Maldito instante
vozes lágrimas
olhares pausas
dia de ser infeliz

perdoar e ficar     
odiar e fugir
perdoar ou fugir
odiar ou ficar

o coração contraido
a negação do porvir
sentir-se um rio 
evitando o mar

partir partir
sem adeus
que foi
o deus da vez.

É isto aí!

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Preciso Me Encontrar (Cartola)



Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer
Quero viver

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar

Eu quero nascer
Quero viver

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por…






segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Só (Edgar Allan Poe)

Desde a infância eu tenho sido
Diferente d'outros – tenho visto
D'outro modo – minhas paixões
Tinham uma outra fonte e
Minhas mágoas outra origem -
No mesmo tom não despertava
O meu coração para a alegria -
O que amei – eu amei só.
Então – na infância – a aurora
Da vida atormentada – estava
Em cada nicho de bem e mal
O mistério que me prendia -
Da correnteza, da fonte -
Da escarpas rubras do monte -
Do sol que me rodeava
Em pleno outono dourado -
Do relâmpago nos céus
Quando sobre mim passava -
Do trovão, da tormenta -
E a nuvem tem a forma
(Quando o resto do céu é azul)
D'um demônio aos meus olhos.

sábado, 4 de agosto de 2018

As eleições no reino

D. Maria I, a Piedosa
Como sabem, e já falei sobre isto, da Colina do Bom Senso acesso o Putoscópio, o potente aparelho de observação política em Bananaland. Como tinha poucos créditos no meu Nókia analógico, obtive poucas e assustadoras observações sobre o fenômeno quadrienal na famosa pátria amada pelos vikings, celtas, apaches, comanches e sioux. Então consultei o Mago da Pitangueira que me assombrou com suas previsões.

Algumas publicáveis:

- Meu filho, os astros estão em polvorosa depois da Lua de Sangue, não posso dizer tudo que vejo, mas eis algumas reflexões:

- Vejo um réu que é refém por dentro e por fora, mas mais por dentro do que por fora.

- Assim como disse Dom Corleone, os traidores são amigos de longa data que negociarão acordos mágicos entre as partes. Parecerão sinceros mas são os piores inimigos.

- A justiça é cega, surda e muda, já a injustiça ...

Mago ... puxa vida, tem algo mais que possa ser pior  do que isto?

- Nada que uma colônia não saiba 

Como assim, Mestre?

- O reinado do próximo príncipe será de grande atividade legislativa, comercial e diplomática, na qual se poderá destacar o tratado de comércio que assinará com os homens de bem. Desenvolverá a cultura e as ciências, com o envio de missões científicas à Casa da Mãe Joana, e a fundação de várias instituições, entre elas a Academia Real das Ciências de Bordel e a Real Biblioteca Pública de Corte e Costura. No âmbito da assistência, fundará a Casa Pia de Brasília. Fundará ainda a Academia Real de Martinha para formação de oficios pré-aprovados.

A 2 de janeiro promulgará um alvará impondo pesadas restrições à atividade industrial de Bananaland, para salvar o Planeta de grandes e graves poluições produzidas pela choldra. Durante seu reinado ocorrerá o processo, condenação e execução do povinho suburbano.

Mas, Mestre, isto tudo já ocorreu no Reinado de Dona Maria, a Louca

- Louca para você súdito ingrato, pois para a corte e para a fina flor da sociedade era reconhecida como Maria, a Piedosa ...

Meu Deus do céu, Mestre ...

- Esqueça, filho, quando a trinca poderosa (com jucá&tudo) come o fruto proibido do Paraíso do Golpe, ninguém sai ileso.

É isto aí!  



sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Estou ficando velho ...

Havia no final da rua, na casa verde da direita, um homem solitário, de pouca conversa e nenhum convívio. Engraçado, nunca ouvi a voz dele. Na casa de reboco e janela torta, que eu chamava de casa Torta, morava um casal, ela era lavadeira, ele carpinteiro de dia e bêbado de noite. Um excelente carpinteiro, e nunca ouvi gritando, cantando, enfim, era o bêbado triste eu acho.

Na casa da castanheira, falando assim por que, claro, tinha uma enorme castanheira na frente, morava a dona Rosa, um senhora de idade indefinida, pele enrugada e rosto tenso em tempo integral. Eventualmente o homem da casa verde da direita entrava e ficava por um tempo na casa da castanheira.

Na casa do muro, a única que tinha muro na rua descalça, morava aquela que seria por anos o alimento dos meus sonhos mais prazerosos. O que aconteceu com ela? Perdi o contato e a visão das suas pernas flutuando na rua descalça. 

Tinha a venda do Zé Vieira, tinha a Marlene (nunca entendi bem do que vivia a Marlene), tinha os meninos da rua de baixo que vinham jogar bola com a gente, por que na nossa rua não passava carro e sobretudo por que os adultos não rasgavam as bolas.

Dia destes fui a um casamento e a mãe do noivo era desta época, morava na casa do tarrafeiro, era filha dele. Nos vimos, nos cumprimentamos e pronto, só isto, achei engraçado - não éramos da mesma turma ...rs

Engraçado a infância, ela guarda muitas histórias, mas nomes não importam. Estou ficando velho ...

É isto aí!

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Da Colina do Bom Senso


Dia destes estive no Observatório Imperial da Colina do Bom Senso, no Estado de Direito Monocrático e Democrático do Reino da Pitangueira, conquistado e concedido a mim por mim mesmo mediante cláusulas pétreas, perfeitas e serenas.

Na Colina do Bom Senso observei Bananaland, a próspera pátria do futuro onde jorra leite e mel. Poderia aqui desfiar fio a fio o que vi, mas não precisa - Bananaland está condenada a ser apenas o que seus dominadores marcianos, plutonianos, jupiterianos e saturninos desejarem que seja. Só e somente só isto. 

É isto aí!

terça-feira, 31 de julho de 2018

Este amor é do tempo das cartas


- Bom dia, senhor, sou a Divina, e estou aqui para servi-lo. Pois não?
- Olá, é aqui que compram amor?
- Bem, nesta repartição pública não usamos este termo "comprar", mas sim, guardamos o seu amor para alguém que necessite dele.
- E como faço para vende-lo?
- Bem, senhor, a intermediação do seu amor para outrem é simples. Preencha este formulário de próprio punho e entregue no guichet 4, para o Freitas, da nossa seção responsável por este processo.

- Sr. Freitas?!
- Pois não?
- Eu vim para fazer  o processo de intermediação do amor.
- Preencheu o formulário?
- Sim
-  Deixa eu ver ... deixa eu ver ... hummmm, ihhh! rapaz - Ôôô Farias (aos plenos pulmões), Ôô Divina, chama aí o Farias no microfone. - Dr. Farias, favor se apresentar no guichet 4 ...
- O que está acontecendo? O senhor não poderia ser mais discreto? Algum problema.
- Momentinho, o Farias já vem.

- Pois não Freitas?
- Farias, olha só este formulário ...
- deixa eu dar uma olhada ... hummmm, hummmm ... nossa ... que coisa hem Freitas.

- Os senhores poderiam me dizer o que está acontecendo?

- Pode deixar, Freitas, agora é comigo. O senhor me acompanhe por favor até minha sala.
- Olha, pode deixar, eu nem quero isto mais.
- Não, não, faça isto. É para o seu próprio bem. Pode vir.
- Tudo bem, eu vou ... disse num tom de lamento.

- Bem, o senhor colocou aqui que é um amor antigo, que ainda tem cartas dela. 
- Sim, tenho algumas cartas, conservadas nos envelopes originais.
- Cartas? Este amor é do tempo das cartas? Caramba. E fotos, o senhor tem fotos?
- Tenho uma. Aqui, dá um olhada.
- Uau, que gata, hem ... mas e tem foto atual dela ou esta é da filha dela?
- É dela, eu copiei de uma rede social.
- Como é que é? De uma rede social? Dona Divina, manda chamar urgente o Almeida na minha sala.

- Dr. Almeida, favor comparecer com urgência na sala do Dr. Freitas ... Dr. Almeida ...

- Fala Freitas, qual é o assunto tão grave que me fez sair de uma reunião com...
- Almeida, ele quer desfazer de um amor antigo, mas tem foto copiada de rede social.
- deixa eu ver a foto ... uau, Freitas, que morena, hem ... é filha dela?
- Ele falou que é ela hoje, Almeida.

- Prazer, sou o Dr. Almeida, Coordenador Geral desta repartição. Quanto à foto, o senhor acessou clandestinamente ou recebeu permissão para isto?
- Eu solicitei e ela deu permissão.
- Assim? O senhor acessou a página dela, pediu licença e ela deixou entrar? E aí o senhor teve acesso a todas as fotos dela?
- Sim, foi assim.
- É ... isto é um complicador.
- Como assim?

- Senhor, só por curiosidade, quanto o senhor quer por este amor?

- Dr. Almeida, eu quero o fim da insônia, a redução da angústia e o aniquilamento da saudade.
- Mas olha que morena, hem... O senhor tem certeza?
- Tenho.
- Sem olhar a foto, descreva-a para mim.
- Ela é linda, é mais nova que eu entre três e quatro anos, morena, tem um metro e cinquenta e cinco mais ou menos, cabelo escuro liso e curto, partido da direita para a esquerda, olhos castanhos amendoados, olhar triste, sobrancelha bonita, sorriso encantador, duas covinhas, uma boca celestial, uma voz aveludada, mãos de fada ...
- Pode parar. Olha, eu vou te falar que o preço até está justo, mas num caso destes a gente não compra, por que amanhã o senhor estará aqui arrependido. E disto eu conheço. 
- Mas ... mas ...
- Sinto muito ...

É isto aí!

Vingança (Fernando Mattoso/José Maria Abreu) - Mariana e David Salgado


Lá na beira do roçado, onde a tristeza não vem
Eu vivia sossegado com a viola do meu lado 
Mais feliz do que ninguém
Numa festa no arraiá vi dois óio me olhá
Decidi no improviso, ela me deu um sorriso
E comigo foi morar

Nunca mais fui cantador e a viola descansou
Eu vivia pra cabocla, eu vivia pra cabocla
Só pensava em meu amor
Nunca fui feliz assim, eu mesmo disse pra mim,
Pensei que a felicidade, pensei que a felicidade
Não pudesse ter um fim

Mas um dia a malvada foi-se embora e me esqueceu
Com um caboclo decidido, Juca Antônio conhecido
Cantador mais do que eu
Já cansado de esperar, desisti de procurar
A cabocla que um dia levou minha alegria
E eu jurei de vingar

Numa festa fui cantar e a mulata tava lá
Juro por Nossa Senhora, juro por Nossa Senhora
Que a cabocla eu quis matar
Mas fiquei sem respirar quando vi ela dançar
Ela tava tão bonita, ela tava tão bonita
Que esqueci de me vingar

Mônica Salmaso - Vingança (Fernando Mattoso/José Maria Abreu)


Lá na beira do roçado, onde a tristeza não vem
Eu vivia sossegado com a viola do meu lado 
Mais feliz do que ninguém
Numa festa no arraiá vi dois óio me olhá
Decidi no improviso, ela me deu um sorriso
E comigo foi morar

Nunca mais fui cantador e a viola descansou
Eu vivia pra cabocla, eu vivia pra cabocla
Só pensava em meu amor
Nunca fui feliz assim, eu mesmo disse pra mim,
Pensei que a felicidade, pensei que a felicidade
Não pudesse ter um fim

Mas um dia a malvada foi-se embora e me esqueceu
Com um caboclo decidido, Juca Antônio conhecido
Cantador mais do que eu
Já cansado de esperar, desisti de procurar
A cabocla que um dia levou minha alegria
E eu jurei de vingar

Numa festa fui cantar e a mulata tava lá
Juro por Nossa Senhora, juro por Nossa Senhora
Que a cabocla eu quis matar
Mas fiquei sem respirar quando vi ela dançar
Ela tava tão bonita, ela tava tão bonita
Que esqueci de me vingar


domingo, 29 de julho de 2018

Quase retornando

Este reino voltará quase à normalidade (???) e à rotina de labuta tradicional no decorrer desta semana (assim espero). Recebi milhares de mensagens, num total de cinco unidades, onde heroicas moças de boa família e de fino trato buscaram informações sobre a Pitangueira. Muito obrigado a todas vocês que enviaram perguntas sobre a suspensão das postagens

A maioria das quatro mensagens recebidas foi bem educada, maioria por que das quatro teve uma  muito elegante (uau) e também teve mamãe, que escreveu para saber se estava tudo bem, e como sabem, mamãe não conta.

Bem, vida que segue!

É isto aí!

sábado, 21 de julho de 2018

Dúzias de oito ou "Cenas de uma autobiografia não autorizada"


Na mocidade em BH, lembro que ela vendia rosas na esquina da Tamoios com a Rio de Janeiro, atrás da Igreja São José. Eu gostava de passar por ali apenas para ver seu sorriso, iluminando as manhãs da cidade. Tinha dezessete anos, e aos dezessete anos apaixona-se até pela brisa que por ato do acaso nos envolva num repente da primavera. 

Então foi assim a primeira paixão, uma coisa floral, andarilha e descompassada. Agora estou com dezoito anos, tem a menina da escola, que julguei ser amor eterno (esqueci seu nome) e estou na Afonso Pena, chegando na Curitiba, rumo ao ponto de ônibus. Uma moça linda (inesquecivelmente linda) aos meus olhos me pergunta algo, como as horas, ou uma rua, não me recordo da pergunta. Mas ao olhar seus olhos, estava tão perdida quanto eu naquela cidade. Beijamo-nos ali - demoradamente - e abraçamo-nos apaixonadamente. Beijo e abraço inesquecíveis, cujo sensorial ainda persiste. 

Nunca soube seu nome, sua origem ou seu destino, mas acredito que selamos um pacto de sermos inesperadamente perceptores dos nossos desejos. Não voltei mais àquela esquina, pois na semana seguinte parti para Juiz de Fora, que não saiu de mim até a presente data, mesmo depois de dar a volta ao leste, ao sul, ao nordeste, além mar e trás os montes.

São coisas escondidas  nos segredos mais bem guardados no cofre ultra blindado das memórias. Numa fase difícil, onde tinha poucas respostas para muitas perguntas, encontrei uma solução parcial para estas lembranças persistentes. Em homenagem à florista, de saudosa paixão da pré-juventude, passei a denominar estes pensamentos inconclusivos, mal resolvidos ou indeterminados de dúzias de oito. São dúzias, mas sempre percebendo que ficou alguma coisa faltando ali. No meio deles, acabei encaixando a Teoria do Hiato Passional. E a vida seguiu com ou sem minha vontade.

O Ministério do Ego informa: Por ser este texto parte de uma autobiografia não autorizada, poderá ser suspenso a qualquer momento por força de alguma liminar memorial ou por um tribunal da consciência debochada. Amém! Assim seja!

É isto aí!

sexta-feira, 20 de julho de 2018

E a diferença é você


Começou a ficar triste aos poucos. Até que um dia, ainda conectado ao mundo, aos amigos, ao trabalho, à família, fugiu para dentro de si. Buscou refúgio apenas nas suas memórias, e desta forma abandonou o real para viver o talvez, o se, o será que, enfim, a amarga sensação de que o tempo não para, desde que a alma resista.

Quando vinha à tona parte das sensações experimentadas no amor que teve, perdia-se em horas sentado num canto do quintal, fitando o nada e escutando Dinah Washington em What Difference A Day Makes. Às vezes chorava, às vezes ficava apenas triste, no geral era um ser inerte até o momento do poente da dor.

Raramente conversava, e nestes momentos referia-se a um mundo particular, envolvido no manto do universo cósmico. - Já repararam que até o tempo, que é instável, flui por forças estáveis. Ora sol, ora chuva, ora vento, ora brisa, frutos da previsibilidade do dia e da noite, das fases da lua, dos solstícios. Então é isto, quem sabe talvez o amor esteja dentre as imprevisibilidades contidas na previsibilidade de um universo organizado e ordenado em funções concatenadas umas às outras.

Chegou a fazer ensaios de poesia, mas tudo acabava sendo descartado, como descartáveis são os segundos que se passaram sem ela, murmurava. Não, não ... menos ela, ela é tangível, tangenciável, tateável. Nosso amor começou com uma  desconexão de partículas do seu universo perceptível, que foram criando matérias, luzes, sons, e acabaram por se dissiparem na loucura do medo - O medo, ah!!! o medo tem medo, o medo não tem modos, o medo é modal, o medo é mudo, o medo é uma merda. Eu quero você, dizia ela, para sempre por que nunca é tempo demais, mas eu dizia sempre que o nunca é uma palavra perigosa que quando entra em ação, o jamais agradece os aplausos da consciência crítica aos meus erros.

E na vitrola, Dinah Washington  encantava com sua voz, numa tradução livre que fizera numa madrugada dentre tantas outras, acordado por ela:

Que diferença um dia fez
Vinte e quatro pequenas horas
Trouxe o sol e as flores
Onde costumava haver chuva

Meu ontem foi triste, querida
Hoje sou parte de você, querida
Minhas noites solitárias estão terminadas, querida
Desde que você me disse que era minha

Senhor Deus, que diferença um dia faz
Existe um arco-íris diante de mim
O céu acima não pode ser tempestuoso
Desde aquele momento de felicidade, aquele beijo emocionante

É céu quando você encontra romance em sua lista
Que diferença um dia fez
E a diferença é você

Que diferença um dia fez
Existe um arco-íris diante de mim
O céu acima não pode ser tempestuoso
Desde aquele momento de felicidade, aquele beijo emocionante

É céu quando você encontra romance em sua lista
Que diferença um dia fez
E a diferença é você

É isto aí!


Dinah Washington 

What A Difference A Day Makes
What a difference a day made
Twenty-four little hours
Brought the sun and the flowers
Where there used to be rain

My yesterday was blue, dear
Today I'm part of you, dear
My lonely nights are through, dear
Since you said you were mine

Lord, what a difference a day makes
There's a rainbow before me
Skies above can't be stormy
Since that moment of bliss, that thrilling kiss

It's heaven when you find romance on your menu
What a difference a day made
And the difference is you

What a difference a day makes
There's a rainbow before me
Skies above can't be stormy

Since that moment of bliss, that thrilling kiss
It's heaven when you find romance on your menu
What a difference a day makes
And the difference is you

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Os versos que te fiz (Florbela Espanca)

Deixa dizer-te os lindos versos raros 
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder ...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda ...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto ! E nunca te beijei ...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!


Flor da pele (Zeca Baleiro)

Ando tão à flor da pele,
Que qualquer beijo de novela me faz chorar,
Ando tão à flor da pele,
Que teu olhar flor na janela me faz morrer,
Ando tão à flor da pele,
Que meu desejo se confunde 
Com a vontade de não ser,
Ando tão à flor da pele,
Que a minha pele tem o fogo do juízo final

Um barco sem porto,
Sem rumo,
Sem vela,
Cavalo sem sela,
Um bicho solto,
Um cão sem dono,
Um menino,
Um bandido,
Às vezes me preservo noutras suicido.

Oh sim eu estou tão cansado,
Mas não pra dizer,
Que não acredito mais em você

Eu não preciso de muito dinheiro,
Graças a Deus
Mas vou tomar aquele velho navio,
Aquele velho navio..



Não te amo mais (Clarice Lispector)



Não te amo mais.

Estarei mentindo dizendo que

Ainda te quero como sempre quis.

Tenho certeza que

Nada foi em vão.

Sinto dentro de mim que

Você não significa nada.

Não poderia dizer jamais que

Alimento um grande amor.

Sinto cada vez mais que

Já te esqueci!

E jamais usarei a frase:

EU TE AMO!

Sinto, mas tenho que dizer a verdade

É tarde demais...



Obs.: Agora leia de baixo para cima.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Armandinho e Carminha - uma noite na casa do patrão


Ainda não tinha achado as chaves do carro, quando deparou com os óculos sobre a mesa da copa. Colocou-o no rosto, e ao passar peça cozinha viu a carteira com os documentos na aba lateral do velho fogão esmaltado. Ritualmente benzeu-se e agradeceu ao santo de plantão pelo achado.

Entrou no quarto, na cama uma mulher totalmente desconhecida, linda, na casa dos quarenta anos, mais ou menos. Ela entreabriu os olhos, puxou-o violentamente e uma hora depois viu a camisa social na cadeira, como deixara na véspera. Deu dois passos para trás e só então percebeu que ainda estava com a camisa do pijama. Riu da situação, e ao colocar a camisa, só então deu conta de que ainda não vestira a calça. Olhou para a cadeira, levou a mão direita no queixo e nada. A memória estava irritantemente traiçoeira.

Voltou à cozinha, viu o lixo sobre a pia, fechou a sacola e foi colocá-la na área externa, quando do deu conta de que a calça dormira no varal. Riu do absurdo. vestiu a calça quando percebeu que estava sem os sapatos e as meias. Caminhou até a sala, sentou no sofá e viu o sapato no canto da porta. Lembrou que tirou para entrar em casa. Calçou as meias e os sapatos. 

Bateu a mão no bolso e sentiu a carteira, passou os dedos na face e sentiu os óculos, cutucou o bolso da frente da calça e lembrou das chaves do carro. Então era isto que eu procurava. Voltou ao quarto e 
avistou o paletó na cabeceira da cama. Achou graça da situação. 
Vestiu o paletó e logo o barulho do molho de chaves soou do bolso inferior externo. Levou a mão esquerda ao bolso superior interno e achou o documento do carro.

Pensou que poderia estar atrasado e não viu o relógio no pulso e nem o celular no bolso. Voltou à sala, abriu a porta e dirigiu-se ao carro. A vizinha acenou do outro lado da rua. Atravessou lentamente, olhando para os lados, meio intrigado com tudo. Ela abriu a porta, puxou-o rapidamente, e gemeu falando ou falou gemendo - entra logo, que ele já saiu ... Ao se despedirem, num longo e apaixonado beijo, ela devolveu o celular e o relógio que ficaram na mesa da sala.

Passou a manhã tentando lembrar quem era aquela mulher, a outra mulher ... que lugar era aquele, aí se lembrou que prometeu dormiu na casa do chefe que viajou. Assim que chegou no escritório, tinha cinco recados para ele. Era do chefe.

Retornou a ligação, e antes de explicar, ouviu o mais estranho pedido de desculpas que já escutara:

Armandinho, desculpa, eu te dei o endereço errado. Era Rua da Tarde, 45, Bairro Floresta e na pressa eu disse rua Floresta 45, Bairro da Tarde. desculpa aí, puxa vida. Foi mal. Semana que vem eu chego e a gente beba alguma coisa para compensar este erro. E não precisa se preocupar, já resolvi com o zelador, que vai cuidar da casa. Obrigado pela compreensão.

Ligou para a esposa - Carminha, vou ter que dormir outra vez na casa do patrão , amanhã eu prometo que volto, eu sei que é exploração, mas fazer o que, Carminha?

É isto aí!

terça-feira, 17 de julho de 2018

“Os pratos que eu lavo ele não vê” Blog Pareço Louca




Amanda Machado é escritora, e tem no Blog Pareço Louca, que é muito bom, textos de rara preciosidade do universo feminino. Leia abaixo sobre o lançamento do seu segundo livro em Juiz de Fora, em matéria do Jornal Tribuna de Minas:

Amanda Machado dá voz aos silêncios das mais diversas personagens femininas em “Os pratos que eu lavo ele não vê” - Tribuna de Minas:


A escritora foi selecionada pela Quintal Edições a partir de uma chamada aberta para trabalhos de autoras mulheres. Sua obra passa a integrar a coleção Yebá, cujo propósito é destacar o papel da mulher enquanto geradora. Seus contos dão voz aos silêncios das mais diversas personagens femininas. O título? “Os pratos que eu lavo ele não vê”. Inquieta e curiosa, a jornalista se sente intimada a perguntar: “É importante se dizer autora mulher dentro do campo literário brasileiro atual?” Amanda Machado não vacila. É firme. Responde com a certeza do lugar que ocupa.

“Muito. Acho fundamental. Porque demarca uma posição, um lugar específico de onde falo. Autora mulher e de origem periférica que também faz literatura. Porque acredito que contribui para a representatividade, quem sabe possa inspirar outras mulheres de periferia a ler autoras mulheres, encorajá-las a escreverem e não se envergonharem de expor, publicar, ter seus trabalhos lidos. Assim como acho importante dizer autora mulher negra, autora mulher lésbica. Dá visibilidade, proporciona a identificação de alguém que não se vê representada quando só tem acesso, ou em um número muito superior, aos livros escritos por homens”, dispara ela, inconformada com as disparidades.

“Eles são mais lidos, vendidos, premiados e, por isso também, mais valorizados. Reconhecer-me como autora mulher, no Brasil, um país com uma cultura machista muito arraigada, ainda, é uma tomada de posição; é uma possibilidade de agradecer a todas que me abriram o caminho e convidar tantas outras que virão”, sentencia a autora, que se colocou entre os escritores publicados com seu livro de estreia “Centopeia de mil pés errados”,  nascido em 2016. Também está entre os cronistas do livro “As cidades e os desejos” (Editora Aliás) e é lida por quem acompanha suas postagens do blog Pareço Louca?!.

Amanda é Juiz-forana e lança “Os pratos que eu lavo ele não vê” na próxima quinta-feira, no Breu. A obra vai estar disponível no site da  Quintal Edições (http://loja.quintaledicoes.com.br). Já “Centopeia de mil pés errados” pode ser adquirido em www.confrariadovento.com. “Se para Giorgio Agamben, contemporâneo é aquele que mantém o olhar fixo no seu tempo a fim de nele encontrar não apenas luzes, porém escuridão, a escrita de Amanda Machado é contemporânea na medida em que nos incita a questionar as luzes-certezas da vida, convidando-nos à escuridão labiríntica da dúvida: ‘vida é improviso’. Sua prosa amorosa é assim tecida para todos os gostos, casos, gêneros, absolvições; soluções ou dissoluções, a depender do olhar de quem a lê”, garante-nos, na orelha da nova publicação, a doutoranda em Estudos de Linguagem Amanda Lopes de Freitas.

“Gostaria que o “Os pratos que eu lavo ele não vê”, em alguma medida, libertasse o leitor, o afetasse e apontasse que podemos ser diferentes. Se algum dos contos proporcionar isso, ainda que a um só leitor, será uma realização imensa.”

Marisa Loures – Na orelha do livro, Amanda Lopes de Freitas diz que nós, leitores, nos convertemos também em personagens dos seus textos “como se nos lessem, discretamente, qualquer canto escondido de alma, nossas fragilidades e pequenas coragens.” O que você espera despertar nos leitores de “Os pratos que eu lavo ele não vê”?

Amanda Machado – Susan Sontag, escritora estadunidense, disse que “aquilo que os escritores fazem deveria nos libertar, nos sacudir. Abrir avenidas de compaixão e interesses novos. Lembrar-nos que podemos, simplesmente podemos, aspirar a ser diferentes, e melhores, do que somos. Lembrar-nos que podemos mudar”. Acho que é uma aspiração belíssima e muito potente, gostaria que o “Os pratos que eu lavo ele não vê”, em alguma medida, libertasse o leitor, o afetasse e apontasse que podemos ser diferentes. Se algum dos contos proporcionar isso, ainda que a um só leitor, será uma realização imensa.

– Jorge Luis Borges procura uma palavra. Garcia Márquez fixa sua atenção em alguma imagem antes de iniciar um conto. Como surge o conto na sua mente?

– Sou muito ligada às imagens, gosto muito das Artes visuais: Cinema, Fotografia e Artes Plásticas. Elas abastecem os meus contos, alimentam as cenas e me inspiram profundamente. Mas foi a palavra que possibilitou a minha visita a outros mundos. Primeiro através da oralidade, antes de ser alfabetizada, porque sempre gostei de ouvir histórias de ficção ou verossimilhantes, diálogos entre desconhecidos; o que me chama a atenção, muitas vezes, é o estilo de contar uma história, mais até do que o próprio enredo. Gosto da multiplicidade das vozes e dos estilos particulares de narrativas. Então é a palavra que cria o meu mundo, nesse sentido, estou mais para Borges, que é inclusive um dos personagens do livro.

– Em seus contos, você dá voz aos silêncios das mais diversas personagens femininas. A Amanda Freitas falou sobre uma linha tênue que separa o real e o ficcional na sua prosa. Com qual das mulheres retratadas em seus escritos você mais se identifica? E por quê?

– Com todas, absolutamente. São diversas, mas com alguma angústia similar, um olhar para vida compartilhado. Porque elas estão atravessadas pelas dúvidas, pressões, anseios e desejos que, em alguma medida, também são meus. Elas amam, se divertem, sofrem, se recuperam ou não, mas, sobretudo, sentem-se convocadas a experimentar a vida. E acho que isso é muito próximo da minha existência, aceitar aos chamamentos e lidar com as consequências de cada um, sem saber o que virá.

“O termo literatura feminina é um incômodo na medida em que delimita, foi utilizada para acentuar uma exceção à outra literatura, porque a oficial, era (e ainda é) a masculina. Literatura feminina, a meu ver, é uma subcategoria. Homens e mulheres que escrevem e que são absorvidos pelo trabalho com as palavras fazem literatura e isto deveria ser tudo.”

– Por falar em dar voz aos silêncios das mais diversas personagens femininas, há quem se incomode com o termo literatura feminina. Você classificaria sua nova obra assim?

– Não. Classificaria como literatura cuja autora é mulher. O termo literatura feminina é um incômodo na medida em que delimita, foi utilizada para acentuar uma exceção à outra literatura, porque a oficial, era (e ainda é) a masculina. Literatura feminina, a meu ver, é uma subcategoria. Homens e mulheres que escrevem e que são absorvidos pelo trabalho com as palavras fazem literatura e isto deveria ser tudo. É claro que o gênero no qual fui socializada e com o qual me identifico me limitou, não me permitiu uma série de experiências, me deu algumas outras e tantas outras eu tive que conquistar, o que possivelmente impacta nos meus olhares, escolhas e, finalmente, escrita. Assim como a minha classe social, origem regional e raça também influenciam. Mas, historicamente, dizer literatura feminina é pejorativo.

domingo, 15 de julho de 2018

Atos do destino

Era uma noite de maio de 1995 - Igreja lotada, convidados e padrinhos alinhados, o noivo já está no altar aguardando o momento que consagrará a sua união. Toca a música de entrada da noiva de apenas vinte anos e ... nada. Ela fez uma crise de pânico, abandonou a celebração, correu para o outro lado da praça, entrou num táxi e seguiu para a casa de uma tia, que a amparou. Trocou de roupa, pegou o carro e fugiu.

Cinco anos depois ele está com uma suposta namorada e se encontram no acaso de destino, numa tarde em Cabo Frio. Encontro inevitável, incontornável, salvo por ele não tê-la reconhecido. Não que tivesse mudado radicalmente, ficado loura, engordasse ou emagrecesse, nem implantou silicone ou fez aplicação de botox. Mudou o penteado para um chanel básico, só isto. Ficou chateadíssima, chorou muito, e voltou ao terapeuta que a acudiu na fuga.

Em 2007, solteira e descoladíssima, profissional liberal em ascensão, estava em Milão, na Galeria Vittorio Emanuele, acompanhada de duas amigas, fazendo um tour com grife, como relatou no facebook. Eram 18h quando passou pelo  Restaurante Biffi procurando uma mesa e ele estava apreciando um ossobuco  ao lado da mesma mulhersinha vulgar de Cabo Frio. Teve uma crise de pânico ali mesmo, o que resultou num final melancólico de passeio. Ele sequer olhou para o tumulto do seu desmaio, segundo a amiga que a acudiu.

Em 2010, para comemorar seus 35 anos, o último aniversário de solteira como relatou à família, fez uma viagem mística para a França, onde foi a Lourdes, voltou ao oeste e do sopé dos Pirineus iniciou o Caminho de Santiago em seus 800 Km de meditação e descoberta do eu interior. Para seu completo desgosto, em Santa Maria de Arzua, ao cruzar com peregrinos que fazem a rota de Leon, eis que vê o ex-noivo acompanhado daquela vaca paquidérmica. Cruza forçosamente o seu caminho, esbarra no seu ombro, ele sequer pede desculpas, nem trocam um olhar, e aquilo a fez abandonar o final da rota. Ele sequer percebeu quem era ela, e nem provocou ou olhou nos seus olhos, o idiota, e ainda com aquela piranha vulgar com ele ...

Em 2016, andando sozinha na Rua Florida, em Buenos Aires, num inverno rigoroso, sente uma mão batendo no seu ombro. Estava num clássico London Fog de famoso outlet de Miami, com balaclava térmica. Ao se virar viu que era ele e aquela baleia azul ao seu lado, vestida para matar trogloditas num verão equatoriano. Num espanhol ridículo pede uma informação. Ficou detida em pensamentos estranhos - Não lembro de mais nada, recordo vagamente de gritos, parece que teve polícia também, acredito que minha mão arrancou um tufo de cabelo seboso da piriguete, também lembro de morder algo, e agora estou aqui sedada, unhas quebradas, algemada e monitorada numa maca de enfermaria de um hospital público. Ao recobrar os sentidos, pagou a multa e foi escoltada até o avião que levou a São Paulo.

No verão de 2018 o vê atravessar sozinho a Avenida Atlântica, na sua direção, em frente ao Copacabana Pálace. Resolveu dar um basta no destino e o ficou aguardando. Ao chegar à calçada, foi ao seu encontro:

Juninho, que surpresa agradável.

Celinha? É você mesma? Nossa, você está linda ... quanto tempo.

Pois é, quanto tempo, hem Juninho.

Verdade, desde ... desde, bem, você sabe ... desde o episódio da celebração

(Silêncio)

(Silêncio)

Você está morando aqui no Rio?

Não, Celinha, eu moro em BH, e você?

Por que você quer saber?

Como assim?

Não quer saber se estou bem, se estou casada, se estou feliz em te ver, nada?

Celinha, você me parou aqui, pergunta se moro no Rio e agora quer o quê exatamente?

Juninho, primeiro dizer que te acho um retardado, depois dizer que te odeio, depois quero saber se você está casado, depois quero saber se tem filhos, depois quero ...

Celinha, você não mudou nada. Adeus.

Espera, Juninho, espera ...

Sim?

Vai tomar no raio que o parta, vai para a puta que te pariu seu corno, vai pro inferno, Juninho ...

Está bom, Celinha, estou indo ... estou indo ... adeus ...

Juninho ... Juninho ... merda, por que você não foi atrás de mim? Por que você nunca mais me procurou? E o pior, acabei sem saber quem é aquela sirigaita... que ódio ... que ódio ...

É isto aí!