quinta-feira, 8 de abril de 2021

Via Láctea (Olavo Bilac)



Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?

E eu vos direi: Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

terça-feira, 6 de abril de 2021

Desintoxicação emocional. (Alessandra Santtos)

Alto lá
Este texto não é meu
Confesso que copiei e colei
Autora: Alessandra Santtos
Fonte: Instagram



Eu sempre soube que lidar com pessoas não era uma tarefa fácil. Mas descobri ao longo da vida que lidar comigo mesma de forma honesta e sem curvas me traria paz, mas também não seria fácil.

E neste desejo eminente pela minha paz interior e minha saúde emocional fui perdoando fatos e pessoas. Não me permiti mais o acúmulo das mágoas provenientes das decepções vividas com aqueles que um dia conviveram comigo.

A faxina emocional começou assim: Liberei perdão àqueles que um dia falaram de mim quando eu não estava presente, mas diante de mim demonstravam ser verdadeiros e não eram.

Perdoei àqueles que nunca me conheceram e mesmo assim, falaram daquilo que nunca souberam. Eu perdoei àqueles que enalteceram os meus erros com terceiros, mas nunca chegaram para mim e falaram o que sentiam.

Eu perdoei àqueles que me trocaram por supostas companhias melhores. Eu perdoei àqueles que vinham a mim apenas com a intenção de obterem qualquer tipo de benefício. Eu perdoei àqueles que um dia chamei de amigos, mas com o tempo vi que nunca houve amizade entre nós.

Eu perdoei àqueles que maliciosamente tramaram coisas intrigantes a meu respeito. Eu perdoei àqueles que tantas vezes me criticavam e hoje fazem as mesmas coisas que eu.

E neste processo, eu perdoei a mim por te guardado tralhas em minha alma devido a tudo isto. Eu gosto das voltas que a vida dá, pois são nestas voltas que podemos deixar ir o que nos aprisionou.

Mas nestas voltas, chegam muitas coisas lindas também. Hoje sou livre e não me permito mais carregar tralhas emocionais. O que passou, passou mesmo .... Estou no processo de desintoxicação emocional.

E agora? perguntou-se



Nunca pensou 
naquilo que passou 
pela sua mente 
na hora que falou 
o que não deveria ter dito
e agora? perguntou-se
agora fodeu tudo
respondeu a si com zelo.
cheio de razão plena
como devem ser as razões
repletas de erros

É isto aí!

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Por que estamos aqui?

 


Mark Twain afirmou 

que os dois dias 

mais importantes 

da sua vida 

são o dia em que nasceu 

e o dia em que descobrir o porquê.

E sigo me perguntando

Por que estamos aqui? 

Por que existe vida? 

Por que o universo existe? 

Por que eu existo? 

Qual é o meu lugar nisso tudo?

Por que eu amo você?

Por que não fiz isto?

Por que ainda não faço?

Por que  fiz aquilo?

Por que faço assim?

Por que nada deu certo?

Por qual razão soltamos as mãos?

Por qual motivo perdi seu telefone?

Perdi seu aniversário, nosso natal?

Não fui ao futuro por medo

não voltei ao passado por arrependimento

porque tenho certeza que não sei

a respostas e os porquês!

Estão todas guardadas com você.


É isto aí!


Imagem - Tempo Perdido

Citação - Mark Twain (os dois dias mais importantes da sua vida são o dia em que nasceu e o dia em que descobrir o porquê.)

O canto da Águia te deixa feliz e produz Dopamina Instantânea



domingo, 4 de abril de 2021

O Analista da Pitangueira e as perguntas de alto impacto


Boa tarde!

Talvez!

Entre, por favor!

Claro, não pago para ser atendida em pé feito cliente de veterinário.

Já foi atendida por um veterinário?

Doutor, olha o limite entre nós.

Sente-se à cadeira, ou deite no Divã, onde preferir.

No Divã é melhor, sabe, não conseguirei olhar para seus olhos enquanto falo de mim.

Por favor, fique à vontade.

Doutor, olha o limite entre nós, não quero ficar à vontade, quero apenas a sessão.

O que a trás aqui, senhora?

Senhorita, mas pode me chamar de você, mas de um jeito que não ultrapasse o limite.

Certo, o que a trás aqui?

Melhor assim! Então, eu cansei de ser normal, sabe, certinha, rigorosa comigo mesma, imparcial até nas cores. Eu quero ser uma mulher diferente, um símbolo da modernidade líquida, uma figura excêntrica na acepção da palavra.

Defina o que é ser normal, por favor.

Ora, ora, doutor, olha para mim, basta uma simples varredura com sua percepção analítica que verá e constatará que sou normal, normalíssima. Eu apresento um comportamento e aparência que é socialmente aceitável e comum à natureza humana.

Vejo aqui na ficha que a sen, perdão, você nasceu em

Não fale doutor, não fale, não fale. Cale-se sobre isto, é invasão de privacidade.

Ah, perdão. Mudando de assunto, vejo que você foi casa...

Está difícil, isto viu. Minhas questões íntimas e sexuais não tem relação com as perversões daquele tarado que já partiu.

Seu ex-marido era um pervertido sexual?

Claro, o tarado queria dormir de luz apagada, só de calção e ficava lá, aquela coisa, nossa, nem quero lembrar disto.

Quer falar sobre aquela coisa?

Doutor, eu sou normal, não tenho nada além da normalidade, mas cansei. Se o senhor não sabe pegar uma pessoa normal e fazer dela uma pessoa excêntrica, então vou atravessar a rua e ...

E???

Sentar no meio fio e chorar até o senhor ir lá e me fazer excêntrica.

Hummm, veja, Nietzsche, por exemplo, disse que “O valor de todos os estados mórbidos consiste no fato de mostrarem, com uma lente de aumento, certas condições que (...) são dificilmente visíveis no estado normal”. Talvez se fizer isto ...

Não saio daqui, não saio daqui, alguém, por favor, tranca a porta, não me deixem sair daqui, eu sou normal, eu sou normal

Calma, ninguém irá tira-la daqui. Calma! Saiba que é impossível definir uma excentricidade baseada num critério puramente quantitativo, sendo necessário apelar para o discurso sobre seu desejo, ou seja, da ideia que você tem de um estado ideal que gostaria de atingir e que a sua normalidade a impede de alcançar.

Ah, é isso? Então, pode perguntar o que quiser.

Sua idade?

Espera lá, doutor, espera lá, não vale perguntas de alto impacto por enquanto ...

É isto aí!


sábado, 3 de abril de 2021

Quando fores velha (When You Are Old - William Butler Yeats)



Alto lá
Este poema não é meu
Confesso que copiei e colei
Autor:  William Butler Yeats (Nobel Literatura)


Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.


When You Are Old

When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;

How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;

And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.


William Butler Yeats, muitas vezes apenas designado por W.B. Yeats (Dublin, 13 de junho de 1865 — Menton, França, 28 de janeiro de 1939), foi um poeta, dramaturgo e místico irlandês. Atuou ativamente no Renascimento Literário Irlandês e foi co-fundador do Abbey Theatre. 

As suas obras iniciais eram caracterizadas por tendência romântica exuberante e fantasiosa, que transparece no título da sua coletânea de 1893, The Celtic Twilight ("O Crepúsculo Celta"). Posteriormente, por volta dos seus 40 anos, e em resultado da sua relação com poetas modernistas, como Ezra Pound, e também do seu envolvimento ativo no nacionalismo irlandês, o seu estilo torna-se mais austero e moderno. 

Foi também senador irlandês, cargo que exerceu com dedicação e seriedade. Foi galardoado com o Nobel de Literatura de 1923. O Comité de entrega do prémio justificou a sua decisão pela "sua poesia sempre inspirada, que através de uma forma de elevado nível artístico dá expressão ao espírito de toda uma nação." Em 1934 compartilhou o Prémio Gothenburg para poesia com Rudyard Kipling.

Diário das memórias de cada um



Chegou ao carro e deu por falta dos óculos. Apalpou a face, bateu a mão no peito e nos bolsos e nada de encontrar o objeto. Voltou ao apartamento, no segundo andar, procurou por todos os possíveis locais onde geralmente não o coloca, até que finalmente deparou com o fugitivo na pia do banheiro. Colocou os óculos e desceu até a garagem.

Mão na maçaneta e deu com a porta trancada. Temeu pelo pior, as chaves terem ficado dentro do carro. Olhou, olhou olhou até que teve a ideia de ligar a lanterna do celular. Procurou em todos os compartimentos da roupa e notou que não o carregava. Encostou no automóvel, suspirou, balançou a cabeça e voltou ao apartamento. 

A pegar na maçaneta externa, deparou com o molho de chaves na fechadura, pelo lado de fora, o que era indício de que esquecera de retira-lo ao sair, apressado pelo atraso para ir ... para ir ... não lembrava para onde deveria ir. Entrou, fechou a porta segurando as chaves, sentou-se na cadeira que fica ao lado, onde desde antigamente era o local do telefone fixo.  

Olhou para o aparelho analógico, secular e lembrou que poderia discar para o celular e seguiria o som. Retirou o monofone do gancho e ... não lembrava seu número. Voltou o monofone à base, colocou as duas mãos sobre o rosto e deu um suspiro profundo, acenando negativamente a cabeça. Espere, já sei, anotei o número num cartão que está na minha carteira.

Levantou-se entusiasmado, bateu a mão nos bolsos da calça e ficou preocupado - perdeu a carteira com todos seus documentos, cartão do banco, dinheiro para eventuais necessidades e sobretudo o número do celular, que contem todas as senhas inclusive o número do seu telefone fixo, seu endereço, telefone da família, foto dos netos, etc.   

Cabisbaixo, suspirando, foi até o quarto, onde encontrou a carteira no criado-mudo, como havia deixado na noite anterior. Imediatamente a abriu, pegou o cartão, colocou a carteira no bolso e ligou para seu celular. Não escutava a chamada. Ligou muitas vezes e o silêncio era terrível. Bom, o jeito é descer e ir para fazer o que preciso fazer.

Desceu as escadas pesaroso, até que abriu o carro e viu o celular no banco do carona. Riu de si mesmo. Assim que o teve nas mãos, viu que o aparelho estava descarregado. Colocou a cabeça no encosto da poltrona do automóvel e olhando fixamente para a frente, não sabia para onde deveria ir. Subiu as escadas, desta vez conferindo todos os pertences e foi deitar.

Do outro lado da cidade filhos e parentes o aguardavam para uma festa surpresa de aniversário, à qual não compareceu. Despediram-se dos convidados todos resmungando um pouco. Guardaram todos enfeites, dividiram o bolo entre as crianças, e tiraram a conclusão que lhes parecia a mais confortável - papai é previsível mesmo, foi só sentir que faríamos a festa, desligou o celular e deve estar tomando sua cervejinha ... aquele velho é terrível.  

Nesta hora deve estar jogando truco com os amigos ...
Ou bebendo num boteco destes sujos ...
Ou namorando alguma coroa da vizinhança ...
Ou se divertindo ... Nem vou me preocupar, amanhã ele aparece sorrindo ...

É isto aí!
 


sexta-feira, 2 de abril de 2021

O Mago da Pitangueira 2021 - 1


 

Nesta semana pascal subi o Monte da Sabedoria em busca de conhecimentos que possam facilitar minha compreensão diante desta realidade líquida do novo mundo ou da nova ordem deste planeta. Fui de encontro ao Grande Mago da Pitangueira, o sábio da natureza humana.

Mestre, eis-me aqui para aprender com sua imensa sabedoria.

- Eis que muito aprendo com você também, meu filho. Diga-me, a subida foi fácil ou difícil?

Difícil, Mestre, muito difícil.

- Então pergunte algo que valha a pena saber.

Mestre, quero saber sobre esta pandemia, onde está e para onde vai a nossa humanidade. O que é tudo isto?

- Veja, meu filho, somente a espiritualidade ajudará na compreensão dos sofrimentos e na construção de significados e propósito à vida. 

Mas, Mestre, e o kit-pré-apocalíptico que evita o mal? E as máscaras? E o infesto quixotesco do planalto? E o álcool gel? E o fique-em-casa?

- Vejo que tem as mesmas dúvidas espalhadas em múltiplas perguntas. Vou procurar respondê-las em dois tempos. Primeiro aprenda com David, o grande rei, pai de Salomão, que ensinou - "Livra-me, ó Senhor, do homem mau; guarda-me do homem violento, que pensa o mal no coração; continuamente se ajunta para a guerra." Esta é a chave que abre as comportas da Paz, meu filho.

Puxa, vida, mestre, mas onde está este homem mal?

Em toda a parte, meu filho, uns são fáceis de serem notados, como o que citou, mas 99,9% estão nas sombras, operam silenciosamente, tramam de uma maneira de tamanha engenhosidade maligna, que a culpa recairá sempre sobre um inocente útil.

E o segundo tempo da sua grande resposta, Mestre?

Meu filho, deverão as suas habilidades espirituais serem reconhecidas pela sua consciência racional como essenciais, afinal você é um ser feito à imagem e semelhança, com sua dupla natureza, uma em carne e a outra em espírito. Desta forma a ciência é importante e deve ser respeitada e o cuidado espiritual é indispensável no enfrentamento desta pandemia. Agora vá, e não acredite em quem não acredita que você é um vetor da paz. Se todos os vetores das paz, que são bilhões, se unissem, o mal não teria espaço para avançar.

O Mestre acabou de responder e recolheu-se ao silêncio do seu eremitério. Pela primeira vez desci em lágrimas.

É isto aí!


quarta-feira, 31 de março de 2021

Você sabe que tem algo errado (Paulo Abreu)


Você
sabe
que
tem
algo
errado.
Você sabe 
pelo tempo
Dei o prazo
mas destruiu
algo em você
algo deturpado
fez tudo errado
perdeu o agora
sabe, o abraço
e se até sei eu
não desminta  
seu desamor 
tem algo seu 
está com algo
equivocado ruim
você é seu algoz
acabou nosso nós
sabe, sabe sim.
aí, deu vacilo
e perdeu!


É isto aí!


domingo, 28 de março de 2021

Cartas à Neguinha em tempos de Covid 2


Neguinha, eu amo você! Sim, sei, é uma frase fácil de dizer, mas cá entre nós, tem que ter uma coragem danada para assumir isto e confirmar e reconhecer com firmeza e cravar o testemunho  e provar o que está falando e cantar aquela música daquele cara que canta daquele jeito que você adora e rebola magistralmente de uma maneira íntima, pessoal e solitária. 

Neguinha, estou com saudade de muita coisa. Saudade da minha infância numa rua descalça e a vida eterna e vadia. Saudade dos seus olhos; saudade das suas mãos delicadas; saudades dos seus beijos; saudades das suas covinhas. Claro que tudo isto uma hora passa, mas tenho a inútil saudade de vinho quente barato com queijo frescal gelado e azeitona com caroço. Mas subo o tom com as saudades de beijar seu pescoço, sua nuca, sua boca.

Neguinha, dia destes, estacionado numa vaga de supermercado, uma mulher se aproximou de mim para pedir algo. Alta, elegante, mas simples no estar e existir. Ao chegar próxima da janela do carona, abri o vidro - entreolhamos, esbocei um sorriso, ela antecipou uma dúvida e perguntei - pois não, senhora? - Puxa vida, ela começou a chorar, ninguém mais me chamou de senhora desde que fui arrastada para as ruas.

Neguinha, queria você ali para me ajudar a entender o mundo dentro daquela dor plural. A dor do mundo estava naquela mulher. Dei um dinheiro a ela, que recusou. Ela se sentiu humana depois de tempos, foi reconhecida como uma senhora. Choramos na nossa impotência - ela em pé no vidro do carona e eu sentado ao volante. Naquele dia e naquela hora queria você ali para me ajudar. 

Neguinha, duas semanas depois, passo por uma esquina e vejo aquela senhora desacordada pelas drogas, no chão, sem alguém para elevar seu estado de espírito. Senti uma dor terrível. Não sabia o que fazer, as pessoas passavam para lá  e para cá, não tinham pedras nas mãos, mas as carregavam no desdém e no desprezo nítido. Quantas vezes nossa humanidade apenas deseja ser reconhecida como tal? Fiquei ali, parado e abalado, até que uma pessoa se aproximou a levou.

Neguinha, eu amo você! Sim, já disse isto, já escrevi isto, já falei sobre isto, já me olhei pelo avesso procurando a possibilidade de ser um engano,  um erro cósmico, um desvio do universo, mas não encontro nada. Eu amo você, suas covinhas e sua existência. Nunca mais outra vez um agora tão difícil como este tempo de vírus letal e ao mesmo tempo instrumento de tortura física, mental, financeira  e psicológica. Mas isto fica para outro dia.  

É isto aí!


Sabe todos os seus medos? (Paulo Abreu)




Sabe aquele medo da infância
de um monstro sob a cama?
Sabe aquele medo da infância
de ter que assumir um erro?

Sabe aquele medo da adolescência
de que amar dói e beijo é o delírio?
Sabe aquele medo da adolescência
de que um dia seremos adultos?

Sabe aquele medo da juventude
de perder um grande amor?
Sabe aquele medo da juventude
de que a maturidade está na esquina?

Sabe todos os seus medos?
Não são nada perto do que vem
Não são nem exercício prévio
Não são nada em comparação a isto

De verdade, perdemos o senso 
de verdade perdemos a humanidade
de verdade perdemos a espiritualidade
por um vírus, sem bomba H nem mais nada.




sábado, 27 de março de 2021

O fato é que estou com nojo disto tudo (Paulo Abreu)




Diante de tanta comiseração humana
advém o desgosto, o enjoo e a repulsão
anexadas pela adversidade cruel e má
Semente do tédio, abalos e aflições

As agruras pelo abandono da paz plena em si
o amargor pela cumplicidade fratricida
a amargura de mortes banalizadas ao leo
serão a colheita de uma geração adormecida

Colheremos aqui e ali angústias e atribulações
choque de consciência perdida e enlouquecida
Degustaremos a futilidade da vida estúpida
embrenhada na dor até a comoção da alma 

Tardiamente à logística dos contratempos
depois do desagrado geral e pontual
o cínico consolo será hostil, perverso e feérico
como cabem às lendas da falsa consternação

Experimentaremos o desprazer magno
O dissabor do fel da amarga vitória
a dor da existência vazia de sentimentos
em completa desolação interior

insatisfação, mágoa, mal-estar
padecimento, pena, pesar
ressentimento, sofrimento, tribulação
tristeza, ânsia e asco

Eis que valerão as versões invertidas
no fastio desta luta imoral, insidiosa,
Experimentaremos náuseas pela podridão exalada
na agonia plena da repugnância pela abominação

antipatia, desamor, desprezo
estranhamento, execração, horror
ódio, ojeriza, pavor
raiva, rancor e rejeição

Não encontraremos a palavra certa
pela recusa, repúdio e enfado, já  arrependidos
pelo nosso lado ciente, prostrados em pranto
despediremos uns dos outros com lágrimas e dor.

É isto aí!

 




Ausência - Vinicius de Moraes

 


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz

Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho desta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado 

Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado

Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada


Fonte do Vídeo: Dani Carvalho

Fonte do poema: Poema Ausência - Vinicius de Moraes

O que há em mim é sobretudo cansaço — (Fernando Pessoa)

 


O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço...


Poesia e poema de autor português. Fernando António Nogueira Pessoa (1888 — 1935) foi um poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português. Um dos maiores génios poéticos de toda a nossa Literatura e um dos poucos escritores portugueses mundialmente conhecidos. A sua poesia acabou por ser decisiva na evolução de toda a produção poética portuguesa do século XX. Se nele é ainda notória a herança simbolista, Pessoa foi mais longe, não só quanto à criação (e invenção) de novas tentativas artísticas e literárias, mas também no que respeita ao esforço de teorização e de crítica literária. É um poeta universal, na medida em que nos foi dando, mesmo com contradições, uma visão simultaneamente múltipla e unitária da Vida. É precisamente nesta tentativa de olhar o mundo duma forma múltipla (com um forte substrato de filosofia racionalista e mesmo de influência oriental) que reside uma explicação plausível para ter criado os célebres heterónimos - Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, sem contarmos ainda com o semi-heterónimo Bernardo Soares.

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quinta-feira, 25 de março de 2021

Esta mulher me enlouquece




E se ela ligou e não estava?
E se dormi na hora errada?
E se ela enviou alguma mensagem
nas redes sociais e não li... acontece.

Esta mulher me enlouquece

E se ela sofreu um acidente?
E se perdeu um dente? 
E se adoeceu um parente
E se surtou de repente?

Esta mulher me alucina

E se ficou presa no trânsito,
Ou foi atropelada por um maluco?
Ou foi internada com escorbuto?
Ou desmaiou de soluço?

Esta mulher me ensandece

E se caiu na esquina?
E se travou no tráfego?
Ou se perdeu seu fulcro?
Ou se feriu na calçada?

Esta mulher me fascina.


É isto aí!