quinta-feira, 15 de junho de 2023

Loucura (Lupicínio Rodrigues)


Lupicínio Rodrigues é um dos maiores nomes do samba-canção. A fama se intensificou quando ele compôs, com seu parceiro Alcides Gonçalves, o samba “Triste História”, música vencedora de um concurso em 1935, centenário da Guerra dos Farrapos. O artista era apaixonado por futebol e foi autor do hino oficial do Grêmio, seu time do coração. Quando se mudou para o Rio de Janeiro, em 1939, caiu nos braços da boêmia da Lapa, teve como companhia Ataulfo Alves, Wilson Batista, Kid Pepe, conheceu gente que foi importante na difusão de seu trabalho. Em 1946 Lupicínio Rodrigues fundou a Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores (Sbacem).

Fonte da imagem: El País/Cultura - Matthew Cruickshank: doodle que homenageou Lupicínio Rodrigues.

Loucura (Lupicínio Rodrigues)

E aí
Eu comecei a cometer loucura
Era um verdadeiro inferno
Uma tortura
O que eu sofria
Por aquele amor

Milhões de diabinhos martelando
Um pobre coração que agonizando
Já não podia mais de tanta dor

E aí
Eu comecei a cantar verso triste
Os mesmos versos que até hoje existe
Na boca triste de algum sofredor

Como é que existe alguém
Que ainda tem coragem de dizer
Que os meus versos não contêm mensagem
São palavras frias, sem nenhum valor

Ó, Deus! Será que o Senhor não está vendo isto?
Então, por que é que o Senhor mandou Cristo
Aqui na Terra semear amor

Se quando se tem alguém
Que ama de verdade
Serve de riso para a humanidade
É um covarde, um fraco, um sonhador

Se é que hoje tudo está tão diferente
Por que não deixa eu mostrar a essa gente
Que ainda existe o verdadeiro amor

Faça ela voltar de novo pra meu lado
Eu me sujeito a ser sacrificado
Salve seu mundo com a minha dor



Provided to YouTube by WM Brazil


Enciclopédia Musical Brasileira

℗ 1994 WEA International Inc.

Producer: Lupicínio Rodrigues
Composer: Lupicínio Rodrigues

Auto-generated by YouTube.



Musica extraída do documentário "Fez a barba e o choro". (Besouro filmes - 2010)









O meu Imaculado Coração Triunfará - Monsenhor Jonas Abib (12/10/00)









quarta-feira, 14 de junho de 2023

Papo de Esquina - Palavrões e a inteligência emocional

Como sabemos ou pelo menos deveríamos saber, um palavrão é uma palavra ou expressão que, conforme algumas variáveis, pode considerada obscena, grosseira ou pornográfica, cujo uso pode ofender a quem dela é alvo, quer seja um indivíduo, uma parcela da comunidade ou o coletivo.. 

Os palavrões podem ter diferentes significados e usos, dependendo do contexto em que são usados. Algumas pessoas podem usar palavrões para expressar emoções fortes, como raiva ou frustração, enquanto outras podem usá-los para enfatizar um ponto ou para chocar ou provocar outras pessoas. 

Devido a complexidade do processo, a cultura e os interesses envolvidos, alguns estudos sugerem que o uso de palavrões pode estar relacionado à inteligência, felicidade e integridade, além de seu uso para o alívio de dores emocionais.

Os palavrões podem ser usados de várias maneiras e por diferentes razões. Algumas pessoas usam palavrões para expressar emoções fortes, como raiva, frustração ou surpresa. Por exemplo, alguém pode dizer um palavrão depois de bater o dedo do pé em uma mesa ou depois de receber uma notícia inesperada. Já outras pessoas usam palavrões para enfatizar um ponto ou para chocar ou provocar outras pessoas. Por exemplo, alguém pode usar um palavrão para mostrar que está falando sério ou para fazer uma piada.

Xingar também pode estar associado à inteligência social. Ter as estratégias para saber onde e quando é apropriado usar palavrões é uma habilidade social cognitiva, como escolher as roupas certas para a ocasião correta. Essa é uma ferramenta social bastante sofisticada.

Um estudo de 2017 publicado no Journal of Social Psychological and Personality Science revelou que os participantes que utilizavam uma linguagem mais grosseira e diziam mais palavrões eram considerados mais sinceros do que aqueles que não tinham esse tipo de discurso. Segundo os autores do estudo, dizer palavrões é a “expressão de emoções genuína e sem filtro”, o que faz com que as pessoas que costumam ter menos cuidado com a linguagem sejam mais honestas e sinceras.

É isto aí!

segunda-feira, 12 de junho de 2023

Ter ou não ter namorado, eis a questão (Artur da Távola)


Alto lá
Este texto não é meu
Também não é do Carlos Drummond (com certeza não é)
Confesso que copiei e colei
Ano da publicação: 1984


Ter ou não ter namorado, eis a questão (Artur da Távola)

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil.

Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto da chuva, cinema, sessão das duas, medo do pai, sanduíche da padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pactos de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade, ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de curar.

Não tem namorado quem não sabe dar o valor de mãos dadas, de carinho escondido na hora que passa o filme, da flor catada no muro e entregue de repente, de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque, lida bem devagar, de gargalhada quando fala junto ou descobre a meia rasgada, de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia, ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir, fazer sesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele; abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança e a do amado e vai com ela a parques, fliperamas, beira d?água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos, quem não se chateia com o fato de seu bem ser paquerado. Não tem namorado quem ama sem gostar; quem gosta sem curtir quem curte sem aprofundar.

Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar, quem namora sem brincar, quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado que confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando 200Kg de grilos e de medos. Ponha a saia mais leve, aquela de chita, e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesma e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenção de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteio.

Se você não tem namorado é porque não enlouqueceu aquele pouquinho necessário para fazer a vida parar e, de repente, parecer que faz sentido.

Enlou-cresça.

terça-feira, 6 de junho de 2023

O Outro (Jorge Luis Borges)


Alto lá
Este texto não é meu
Confesso que copiei e colei
Fonte do texto: Fantástica Cultural
Fonte da imagem: Fantástica Cultural


O fato ocorreu no mês de fevereiro de 1969, ao norte de Boston, em Cambridge. Não o escrevi imediatamente, porque meu primeiro propósito foi esquecê-lo para não perder a razão. Agora, em 1972, penso que, se o escrevo, os outros o lerão como um conto e, com os anos, o será talvez para mim.

Sei que foi quase atroz enquanto durou e mais ainda durante as noites desveladas que o seguiram. Isto não significa que seu relato possa comover a um terceiro.

Seriam dez da manhã. Eu estava recostado em um banco, defronte ao rio Charles. A uns quinhentos metros à minha direita havia um alto edifício cujo nome nunca soube. A água cinzenta carregava grandes pedaços de gelo. Inevitavelmente, o rio fez com que eu pensasse no tempo. A milenar imagem de Heráclito. Eu havia dormido bem; minha aula da tarde anterior havia conseguido, creio, interessar aos alunos. Não havia ninguém à vista.

Senti, de repente, a impressão (que, segundo os psicólogos, corresponde aos estados de fadiga) de já ter vivido aquele momento. Na outra ponta de meu banco, alguém se havia sentado.

Teria preferido estar só, mas não quis levantar em seguida, para não me mostrar descortês. O outro se havia posto a assobiar. Foi então que ocorreu a primeira das muitas inquietações dessa manhã. O que assobiava, o que tentava assobiar (nunca fui muito entoado), era o estilo crioulo de La Tapera de Elias Regules. O estilo me reconduziu a um pátio lá desaparecido e à memória de Álvaro Mellián Lafinur, morto há muitos anos. Logo vieram as palavras. Eram as da décima do princípio. A voz não era a de Álvaro, mas queria parecer-se com a de Álvaro. Reconheci-a com horror.

Aproximei-me e disse-lhe:

— O senhor é oriental ou argentino?

— Argentino, mas desde o ano de 1914 vivo em Genebra — foi a resposta.

Houve um silêncio longo. Perguntei-lhe:

— No número dezessete da Malagnou, em frente à igreja russa?

Respondeu-me que sim.

— Neste caso — disse-lhe resolutamente — o senhor se chama Jorge Luis Borges. Eu também sou Jorge Luis Borges. Estamos em 1969, na cidade de Cambridge.

— Não — respondeu-me com a minha própria voz um pouco distante.

Ao fim de um tempo insistiu:

— Eu estou aqui em Genebra, em um banco, a alguns passos do Ródano. O estranho é que nos parecemos, mas o senhor é muito mais velho, com a cabeça grisalha.

Respondi:

— Posso te provar que não minto. Vou te dizer coisas que um desconhecido não pode saber. Lá em casa há uma cuia de prata com um pé de serpentes, que nosso bisavô trouxe do Peru. Há também uma bacia de prata que pendia do arção. No armário do teu quarto, há duas filas de livros. Os três volumes das Mil e Uma Noites de Lane, com gravações em aço e notas em corpo menor entre os capítulos, o dicionário latino de Quicherat, a Germania de Tácito em latim e na versão de Gordon, um Dom Quixote da casa Garnier, as Tábuas de Sangue de Rivera Indarte, o Sartor Resartus de Carlyle, uma biografia de Amiel e, escondido atrás dos demais, um livro em brochura sobre os costumes sexuais dos povos balcânicos. Não esqueci tampouco um entardecer em um primeiro andar da praça Dubourg.

— Dufour — corrigiu.

— Está bem. Dufour. Te basta, tudo isto?

— Não — respondeu. -Essas provas não provam nada. Se eu estou sonhando, é natural que eu saiba o que sei. Seu catálogo prolixo é totalmente vão.

A objeção era justa. Respondi:

— Se esta manhã e este encontro são sonhos, cada um de nós dois tem que pensar que o sonhador é ele. Talvez deixemos de sonhar, talvez não. Nossa evidente obrigação, enquanto isto, é aceitar o sonho, como aceitamos o universo e termos sido engendrados e olharmos com os olhos e respirarmos. — E se o sonho durasse? — disse com ansiedade.

Para tranquilizá-lo e me tranquilizar, fingi uma serenidade que certamente eu não sentia. Disse-lhe:

— Meu sonho já durou setenta anos. Afinal de contas, ao rememorar, não há pessoa que não se encontre consigo mesma. É o que nos está acontecendo agora, só que somos dois. Não queres saber alguma coisa de meu passado, que é o futuro que te espera?

Assentiu sem uma palavra. Prossegui, um pouco perdido:

— A mãe está saudável e bem, em sua casa de Charcas y Maipú, em Buenos Aires, mas o pai morreu há uns trinta anos. Morreu do coração. Uma hemiplegia o liquidou; a mão esquerda posta sobre a mão direita era como a mão de uma criança posta sobre a mão de um gigante. Morreu com impaciência de morrer, mas sem uma queixa. Nossa avó havia morrido na mesma casa. Alguns dias antes do fim chamou-nos a todos e disse-nos: "Sou uma mulher muito velha que está morrendo muito devagar. Que ninguém se perturbe por uma coisa tão comum e corrente". Norah, tua irmã, se casou e tem dois filhos. A propósito, em casa como estão?

— Bem. O pai sempre com seus gracejos contra a fé. Ontem à noite disse que Jesus era como os gaúchos que não querem se comprometer e que, por isto, pregava através de parábolas.

Vacilou e disse:

— E o senhor?

— Não sei o número de livros que escreverás, mas sei que são demasiados. Escreverás poesias que te darão uma satisfação não partilhada e contos de índole fantástica. Darás aulas como teu pai e como tantos outros de nosso sangue.

Agradou-me que nada perguntasse sobre o fracasso ou êxito dos livros. Mudei de tom e prossegui:

— No que se refere à História? Houve outra guerra, quase entre os mesmos antagonistas. A França não tardou a capitular; a Inglaterra e a América travaram contra um ditador alemão, que se chamava Hitler, a cíclica batalha de Waterloo. Buenos Aires, ao redor de mil novecentos e quarenta e seis, engendrou outro Rosas, bastante parecido com nosso parente. Em cinquenta e cinco, a província de Córdoba nos salvou, como antes Entre Rios. Agora, as coisas andam mal. A Rússia está se apoderando do planeta; a América, travada pela superstição da democracia, não se resolve a ser um império. Cada dia que passa nosso país está mais provinciano, Mais provinciano e mais presunçoso, como se fechasse os olhos. Não me surpreenderia se o ensino do latim fosse substituído pelo do guarani.

Notei que mal me prestava atenção. O medo elementar do impossível, e no entanto certo, o aterrorizava. Eu, que não fui pai, senti por esse pobre moço, mais íntimo que um filho da minha carne, uma onda de amor. Vi que apertava entre as mãos um livro. Perguntei-lhe o que era.

— Os possessos ou, segundo creio, Os Demônios, de Feodor Dostoievski — me replicou não sem vaidade.

— Já o esqueci. Que tal é?

Nem bem o disse, senti que a pergunta era uma blasfêmia.

— O mestre russo — sentenciou — penetrou mais que ninguém nos labirintos da alma eslava.

Essa tentativa retórica me pareceu uma prova de que se havia acalmado.

Perguntei-lhe que outros volumes do mestre havia percorrido. Enumerou dois ou três, entre eles O Sósia.

Perguntei-lhe se, ao lê-los, distinguia bem as personagens, como no caso de Joseph Conrad, e se pensava prosseguir o exame da obra completa.

— A verdade é que não — respondeu-me com uma certa surpresa.

Perguntei-lhe o que estava escrevendo e disse que preparava um livro de versos que se chamaria Os hinos vermelhos. Também havia pensado em Os ritmos vermelhos.

— Por que não? — disse-lhe. — Podes alegar bons antecedentes. O verso azul de Rubén Darío e a canção gris de Verlaine.

Sem me fazer caso, esclareceu que seu livro contaria a fraternidade entre todos os homens. O poeta de nosso tempo não pode voltar as costas à sua época.

Fiquei pensando e perguntei-lhe se verdadeiramente se sentia irmão de todos. Por exemplo, de todos os empresários de pompas fúnebres, de todos os carteiros, de todos os escafandristas, de todos os que vivem nas casas de números pares, de todos os afônicos, etc. Disse-me que seu livro se referia à grande massa dos oprimidos e dos párias.

— Tua massa de oprimidos e párias — respondi — não é mais que uma abstração. Só os indivíduos existem, se é que existe alguém. O homem de ontem não é o homem de hoje, sentenciou algum grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou Cambridge, somos talvez a prova.

Salvo nas severas páginas da História, os fatos memoráveis prescindem de frases memoráveis. Um homem a ponto de morrer quer se lembrar de uma gravura entrevista na infância; os soldados que estão por entrar na batalha falam do barro ou do sargento. Nossa situação era única e, francamente, não estávamos preparados. Falamos, fatalmente, de literatura; temo não haver dito outras coisas que as que costumo dizer aos jornalistas. Meu alter ego acreditava na invenção ou descobrimento de metáforas novas; eu, nas que correspondem a afinidades íntimas e notórias e que nossa imaginação já aceitou. A velhice dos homens e o acaso, os sonhos e a vida, o correr do tempo e da água. Expus-lhe esta opinião que haveria de expor em um livro anos depois.

Quase não me escutava. De repente, disse:

— Se o senhor foi eu, como explicar que tenha esquecido seu encontro com um senhor de idade que, em 1918, lhe disse que ele também era Borges?

Não havia pensado nessa dificuldade. Respondi, sem convicção:

— Talvez o fato tenha sido tão estranho que eu tenha tratado de esquecê-lo.

Aventurou uma tímida pergunta:

— Como anda sua memória?

Compreendi que, para um moço que não havia feito vinte anos, um homem de mais de setenta era quase um morto. Respondi:

— Costuma parecer-se com o esquecimento, mas ainda encontra o que lhe pedem. Estou estudando anglo-saxão e não sou o último da classe.

Nossa conversação já havia durado demais para ser a de um sonho. Uma súbita ideia me ocorreu.

— Eu posso te provar imediatamente — disse-lhe — que não estás sonhando comigo. Ouve bem este verso, que nunca leste, que eu me lembre.

Lentamente entoei o famoso verso:

L´hydre — univers tordant son corps ecaillé d´astres.

Senti seu quase temeroso estupor. Repetiu-o em voz baixa saboreando cada resplandecente palavra.

— É verdade — balbuciou — Eu não poderei nunca escrever um verso como este.

Antes, ele havia repetido com fervor, agora recordo, aquela breve peça em que Walt Whitman rememora uma noite compartilhada diante do mar em que foi realmente feliz.

— Se Whitman a cantou — observei — é porque a desejava e não aconteceu. O poema ganha se não adivinhamos que é a manifestação de um anelo. Não a história de um fato.

Ficou a me olhar.

— O senhor não o conhece — exclamou. — Whitman é incapaz de mentir.

Meio século não passa em vão. Sob nossa conversação de pessoas de leitura miscelânea e de gostos diversos, compreendi que não podíamos nos entender. Éramos demasiado diferentes e demasiado parecidos. Não podíamos nos enganar, o que torna o diálogo difícil. Cada um de nós dois era o arremedo caricaturesco do outro. A situação era anormal demais para durar muito mais tempo. Aconselhar ou discutir era inútil, porque seu inevitável destino era ser o que sou.

De repente, lembrei uma fantasia de Coleridge. Alguém sonha que atravessa o paraíso e lhe dão como prova uma flor. Ao despertar, ali esta a flor.

Ocorreu-me artifício semelhante

— Ouve — disse-lhe -, tens algum dinheiro?

— Sim me replicou. — Tenho uns vinte francos. Esta noite convidei Simón Jichlinski ao Crocodile.

— Diz a Simón que exercerá a medicina em Carouge e que fará muito bem... agora, me dá uma de tua moedas.

Tirou três escudos de poeta e umas peças menores. Sem compreender, me ofereceu um dos primeiros.

Eu lhe estendi uma dessas imprudentes notas americanas que têm valor muito diferente e o mesmo tamanho. Examinou-a com avidez.

— Não pode ser — gritou. — Leva a data de mil novecentos e sessenta e quatro.

(Meses depois, alguém me disse que as notas de banco não levam data.)

— Tudo isto é um milagre — conseguiu dizer — e o milagroso dá medo. Os que foram testemunhas da ressurreição de Lázaro terão ficado horrorizados.

Não mudamos nada, pensei.

Sempre as referências livrescas.

Fez a nota em pedaços e guardou a moeda. Eu resolvi lançá-la ao rio. O arco do escudo de praia perdendo-se no rio de prata teria conferido à minha história uma imagem vivida, mas a sorte não quis assim.

Respondi que o sobrenatural, se ocorre duas vezes, deixa de ser aterrador. Propus a ele que nos víssemos no dia seguinte, nesse mesmo banco que está em dois tempos e dois lugares.

Assentiu logo e me disse, sem olhar o relógio, que já era tarde. Os dois mentíamos e cada qual sabia que seu interlocutor estava mentindo. Disse-lhe que viriam me buscar.

— Buscá-lo? — interrogou.

— Sim. Quando alcançares a minha idade, terás perdido a visão quase por completo. Verás a cor amarela, sombras e luzes. Não te preocupes. A cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão.

Despedimo-nos sem nos termos tocado. No dia seguinte, não fui. O outro tampouco terá ido. Meditei muito sobe esse encontro, que não contei a ninguém. Creio ter descoberto a chave. O encontro foi real, mas o outro conversou comigo em um sonho e foi assim que pude me esquecer. Eu conversei com ele na vigília e a lembrança ainda me atormenta.

O outro me sonhou, mas não me sonhou rigorosamente. Sonhou, agora o entendo, a impossível data no dólar.

segunda-feira, 5 de junho de 2023

O Mago da Pitangueira e o sermão apocalíptico


Vamos agora solicitar ao nosso Profeta, também conhecido como o Mago da Pitangueira, que encerre esta emocionante fala com a mensagem final de alento ao povo desta terra gloriosa.

Quero agradecer a oportunidade de estar aqui hoje, semeando o Sagrado. Levem consigo a certeza de que o relógio do dia do castigo se aproxima. Povo da Terra, deste pó viestes e a ele retornarás. Lembrai do que disse o profeta: "Meu povo, entrem nos seus quartos e tranquem as portas; escondam-se por um momento, até que passe a ira. Pois eis que o Senhor sai do seu lugar, para castigar a iniquidade dos moradores da terra."

Que lindo, Profeta. Alguém quer se manifestar?

Profeta, quanto tempo é para ficar trancado no quarto. E se der vontade de fazer o 1 ou o 2?

E se der fome? E se der sede? E se o cachorro desandar a chorar, o gato desandar a miar e a patroa tiver no dia bom?

Profeta, fala para nós o que vai acontecer. É verdade que o mundo vai acabar após três noites de carnaval e reergue na quarta-feira de cinzas já com o desfile das campeãs?

Profeta, aqui, aqui. É verdade que vai morrer um tanto e ficar um pouco? E os bois, as vacas, os leitões, os cabritos e as galinhas dos que partiram? Posso apoderar delas? 

E as viúvas ajeitadinhas, Profeta? Posso ter um harém lícito com elas?

Profeta, e as formigas? e os cupins, e as baratas? E os pardais, as piranhas e os baiacus? 

Profeta, aqui, aqui? Vão tirar Friends do ar?

Profeta, profeta, vão censurar os canais carnais?

Profeta, aqui, aqui, vão fechar os templos, vão proibir as pessoas de sairem nas ruas, vão fechar o congresso, acabar com os ingressos da Têilor Suífiti?

Profeta, profeta! Aqui. Quem vai pagar por este prejuízo? Quanto vai custar este estrago todo? Vai sobrar para o pobre?

Profeta, o banco, os agiotas, a farmácia, o aluguel e o mercado vão cancelar minhas dívidas depois disto?

Profeta, profeta, dá para falar de uma data, par a gente fazer uns consignados por aí?


O Profeta, de olhos fechados e mão esquerda erguida, espalmada, faz sinal para silenciarem.

Silêncio, diz o locutor, o Profeta vai responder a todos:

Povo do Reino da Pitangueira e adjacências, falei aqui por 180 minutos, acreditando que conseguiria introduzir um pouco de luz na escuridão que cerca a fé deste reino, mas agora, após estas perguntas de tão significativo esforço intelectual, vejo que poderia passar o resto dos meus dias respondendo uma a uma das suas inquietudes, mas acho e só acho mesmo, que ainda assim não conseguiria expressar o quão eu torço para que a burrice seja a primeira a ser extinta e que seja logo...

É isto aí!


Esse vídeo vai mudar sua forma de pensar! (Dra. Ana Beatriz Barbosa)



Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva é uma médica psiquiatra formada pela UERJ e com residência na UFRJ. Ela recebeu o título de professora Honoris Causa pela UniFMU. Desde 2009, ela é consultora do programa Mais Você da Rede Globo e é Host do Podcast PodPeople desde 2023.

Dra. Ana Beatriz é palestrante em diversas áreas do comportamento humano e já ministrou palestras para empresas privadas, como Natura e BrasilPrev, bem como para órgãos públicos, incluindo o Supremo Tribunal Federal, o Ministério Público e a Escola de Magistratura Emerj do RJ. Ela também ministrou cursos na Casa do Saber sobre transtornos alimentares, psicopatia, TDAH e transtornos de ansiedade. Além disso, é autora de vários livros, incluindo a cartilha Antibullying, produzida para o Conselho Nacional de Justiça em 2010. Ana Beatriz prestou consultoria à Gloria Perez na construção de personagens em Caminho das Índias, Dupla Identidade e A Força do Querer.

domingo, 4 de junho de 2023

Como Fazer oração de cura

 01 - Sinal da Cruz

02 - Rezar o Pai Nosso com a pessoa

03 - Louvar e agradecer por toda a doença/enfermidade/dor pela qual esta passando. Agradecer a Deus por tudo, inclusive pela fase atual

04 Entregar seus problemas a Deus - Pai Santo, eu te louvo e te agradeço pelo que me aconteceu e acontece. Tudo isso é pela tua glória

A gente age humanamente nos transformando em filhos de Deus




Como Fazer oração de cura 


Como Fazer oração de cura para iniciantes





sábado, 3 de junho de 2023

Bíblia censurada por ser "vulgar e violenta"



As escolas americanas que proibiram a Bíblia por ser 'vulgar e violenta'

Este texto foi publicado pela BBC News Brasil
Author Max Matza
BBC News


Um distrito escolar no Estado americano de Utah removeu a Bíblia das escolas primárias e secundárias por conter "vulgaridade e violência".

A mudança acontece após uma reclamação de um pai. Ele defendeu que a Bíblia do Rei Jaime (a versão usada pela Igreja Anglicana) contém material inadequado para as crianças.

O governo republicano de Utah aprovou uma lei em 2022 que proíbe livros "pornográficos ou indecentes" nas escolas.

A maioria das obras que foram banidas até agora referem-se a temas como orientação sexual e identidade.

A proibição da Bíblia no distrito ocorre em meio a um esforço maior dos conservadores americanos nos Estados para proibir ensinamentos sobre tópicos considerados controversos, como direitos LGBT e identidade racial.

O veto a certos livros considerados ofensivos também está em vigor em locais como Texas, Flórida, Missouri e Carolina do Sul.

Alguns Estados liberais também baniram obras em escolas e bibliotecas, dizendo que elas traziam conteúdos racialmente ofensivos.

A decisão em Utah foi tomada esta semana pelo Distrito Escolar de Davis, ao norte de Salt Lake City, após uma reclamação apresentada em dezembro de 2022.

As autoridades dizem que já removeram as sete ou oito cópias da Bíblia que eram mantidas no local. Elas ponderaram que o texto nunca fez parte do currículo dos alunos.

O comitê não detalhou os motivos da decisão ou quais passagens continham "vulgaridade ou violência".

De acordo com o jornal Salt Lake Tribune, o pai que reclamou disse que a Bíblia "não traz valores sérios para os menores de idade porque é pornográfica de acordo com as novas definições", referindo-se à lei de proibição de livros aprovada em 2022.

Ken Ivory, autor da lei de 2022 em voga no Estado de Utah, já havia classificado o pedido de remoção da Bíblia como uma “zombaria”, mas mudou de rumo esta semana depois de classificá-la como uma “leitura desafiadora” para crianças mais novas.

“Tradicionalmente, na América, a Bíblia é melhor ensinada e compreendida em casa e em família”, escreveu ele no Facebook.

A decisão do distrito determinou que o conteúdo da Bíblia não viola a lei de 2022, mas inclui "vulgaridade ou violência inadequada para estudantes mais jovens".

O livro permanecerá à disposição para alunos mais velhos do Ensino Médio.

Bob Johnson, pai de um aluno da escola primária no Davis School District, disse à CBS News que se opõe à remoção da Bíblia.

"Não consigo pensar o que há na Bíblia que precise ser retirado. Não é como se ela possuísse figuras ou imagens", disse ele.

O distrito de Utah não é o primeiro a remover a Bíblia das prateleiras de escolas e bibliotecas.

No ano passado, um distrito escolar do Texas retirou a Bíblia após reclamações de indivíduos que se opunham aos esforços dos conservadores para banir algumas obras.

No mês passado, alunos do Kansas também solicitaram a remoção da Bíblia da biblioteca da escola onde estudam.


Você é um bolero em mim

Dia destes passado resolvi ligar para você. Tudo bem, não tenho seu telefone. Daí resolvo mandar uma carta, um telegrama, uma encomenda postal qualquer que chegasse ás suas mãos. Tudo bem, mais uma vez lembrei não tenho o seu endereço. 

Diante de tanto olvido somente me resta escutar La Barca, um bolero, sabe?

Mudei de dia, de ideia, de lugar e de pensamentos. Tudo bem, mas a sacanagem maior é que você mora dentro de mim, não esqueço, não abandono, não  consigo desfazer nem jogar fora,. Deve haver num caminho místico com mensagens criptografadas que expliquem em manual simples e objetivo como esquecer você. 

Diante de tanto olvido somente me resta escutar Perfídia , um bolero, sabe?

Após fazer penitência, ajoelhar por duas horas diante do santo da sua predileção para ele cortar este processo, vai que foi seu intercessor e nada. Tentei rasgar e queimar seu retrato, mas minha mão é rebelde, não é sempre que me obedece. 

Diante de tanto olvido somente me resta escutar Me deixas louco, um bolero, sabe?

Cheguei à conclusão que se eu parar de escutar boleros, você irá embora de mim, mas, puxa vida, você me deixa louco. Mas contigo aprendi a ver o lado escuro da lua, que sua presença não se troca por nenhuma outra, aprendi que seu beijo é  mais doce e mais profundo, aprendi isto e muitas outras coisas  aprendi. Você é meu bolero!

É isto aí!

Fonte imagem: Escola de Dança em Curitiba


sexta-feira, 2 de junho de 2023

Roberto Torres - Caballo Viejo (Bailado por Cantinflas)

Fonte Youtube: Roberto Torres - Caballo Viejo (Bailado por Cantinflas)





Compositores: Simon Diaz
Letra de Caballo Viejo © Calidos Producciones Artisticas Llc

Cuando el amor llega así de esta manera
Uno no se da ni cuenta
El carutal reverdece
El guamachito florece
Y la soga se revienta

Cuando el amor llega así de esta manera
Uno no se da ni cuenta
El carutal reverdece
El guamachito florece
Y la soga se revienta

Caballo le dan sabana
Porque está viejo y cansa'o
Pero no se dan de cuenta
Que un corazón amarra'o
Cuando le sueltan las riendas
Es caballo desboca'o

Y si una potra alazana
Caballo viejo se encuentra
El pecho se le desgrana
No le hace caso a falseta
Y no le obedece a freno
Ni lo paran falsas riendas




quinta-feira, 1 de junho de 2023

Já pensou que você estava certo?


Já ouviu vozes, mas não sabia onde?
Já sentiu sono, mas não queria dormir?
Já chegou de viagem e desejou retornar?
Já sentiu saudades de doer corpo e alma?

Já comprou alguma coisa que não queria?
Já falou pra pessoa errada uma coisa certa?
Já disse para pessoa certa uma coisa errada?
Já fez promessas intangíveis por uma paixão?

Já mentiu para si mesmo e se convenceu disto?
Já arrependeu e percebeu que era tarde demais?
Já beijou uma pessoa pensando na boca da outra?
Já sentiu vontade de comer, mas não sabia de quê?

Já se apaixonou perdidamente por uma pessoa doida?
Já desejou morrer para ver se isto resolveria a questão?
Já fez promessas impossíveis daquelas bastante ridículas?
Já chorou de ter saudade de maneira exageradamente triste?

Se respondeu sim em todas, seja bem vindo ao clube dos humanos normais.

É isto aí!

Uma oração de cura e libertação

Fonte: Cadu Isnard / Uma oração de cura e libertação



Eis que eu envio um anjo diante de ti, para que te guarde pelo caminho, e te leve ao lugar que te tenho preparado.
Guarda-te diante dele, e ouve a sua voz, e não o provoques à ira; porque não perdoará a vossa rebeldia; porque o meu nome está nele.
Mas se diligentemente ouvires a sua voz, e fizeres tudo o que eu disser, então serei inimigo dos teus inimigos, e adversário dos teus adversários.
Porque o meu anjo irá adiante de ti, e te levará aos amorreus, e aos heteus, e aos perizeus, e aos cananeus, heveus e jebuseus; e eu os destruirei.
Não te inclinarás diante dos seus deuses, nem os servirás, nem farás conforme às suas obras; antes os destruirás totalmente, e quebrarás de todo as suas estátuas.
E servireis ao Senhor vosso Deus, e ele abençoará o vosso pão e a vossa água; e eu tirarei do meio de vós as enfermidades.

Êxodo 23:20-25

Desculpe o transtorno, estamos em obras


Com as mudanças ocorridas no Google referentes à sistemas e coisas outras tantas que desconheço e nem ouso explicar, mas que atendem à nova e crescente tecnologia, o Reino da Pitangueira teve que parar e atender aos reclames da empresa.

Como o prazo para acatar as novas normas técnicas de uso e de domínio estão se esgotando, foi necessária esta parada para resolução das pendências. Creio que até sexta-feira tudo estará em ordem.

Grato pelo carinho e pela visita. 

É isto aí!

terça-feira, 30 de maio de 2023

Falta-me você


Saiu correndo ladeira acima, meio vestido, meio se vestindo, meio nu, meio atabalhoado, mente confusa, fuga precipitada, sem método de risco calculado; totalmente desorientado e de passos atrapalhados. Na percepção de mundo, acreditava que uma multidão o perseguia com fúria e determinação.

Chegou arfante ao cruzeiro no topo do morro. Estava sem fôlego, palpitações descontroladas no peito e corpo oscilante. Se quiserem me apanhar, que seja, lamentou em profundo suspiro, encostado num dos dois menires que já existiam desde priscas eras. O ar foi acabando, a cabeça estava estranha, tudo girando - não, hoje não, não posso morrer sussurrou para si. Acordou com uma forte luz envolvendo seu corpo, sentiu-se com a estranha sensação de levitação e tornou a dormir.

Trinta e oito anos se passaram e numa madrugada fria do final do outono, despertou no mesmo lugar onde ocorrera o episódio de abdução. Não lembrava de nada do ocorrido, nem do tempo, nem das coisas do mundo. Viu-se na mesma roupa, o cruzeiro estava abandonado, os menires no mesmo lugar. Esperou amanhecer e desceu o caminho. Não reconhecia nada, nem as casas, nem a paisagem, nem as lojas, nada. 

Seguiu para sua casa e o que viu o deixou estarrecido. O terreno estava limpo, sem nenhum vestígio de edificação. Voltou ao pé do morro, procurou pela casa de Dorinha, de onde fugira naquela noite ao ser flagrado pelo pai e irmãos dela. Bateu suavemente na porta; uma senhora de cerca de 60 anos abriu, olhou demoradamente para ele -  Carlinhos, você voltou - disse estupefata.

Dorinha?? É você mesma? 

Carlinhos, meu amor, eu te espero todo dia o dia todo por todos estes anos. Abraçou-a em lágrimas, ambos em soluços. Deram-se em completa lubricidade, em seguida subiram o morro do cruzeiro, onde foram vistos pela última vez. Dizem que uma luz forte e envolvente os abduziu ao infinito espaço sideral.

É isto aí!

Fonte da imagem: Discovery/Travis Walton 
Fonte do vídeo: Falta-me você (Jacob do Bandolim) - Reco do Bandolim e Grupo Choro Livre


O choro Falta-me você, de Jacob do Bandolim foi gravado em 1962 pela gravadora RCA Victor.

Jacob do Bandolim: Foi um dos grandes músicos do choro, modernizando o estilo com a introdução de outros instrumentos não usuais no gênero, como o sanfona e o vibrafone. São de sua autoria clássicos do choro como Vibrações, Doce de Coco, Noites Cariocas, Assanhado e Receita de Samba. Alcançou popularidade ao montar o conjunto Época de Ouro no início da década de 60, que permanece em atividade até hoje. (Fonte - Wikipédia)

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Nave Alfa chamando Base Dez.


Nave Alfa chamando Base Dez. Nave Alfa chamando Base Dez

Base R no comando, fala Nave Alfa

Base R? Que p*orr@ é esta, meu irmão?

Não consta nos registros a expressão p*rr@, e não sou seu irmão.

Nave Alfa chamando Base Dez. Nave Alfa chamando Base Dez

Não adianta insistir, aqui é Base R no comando, fala Nave Alfa. Fala o que deseja.

Aqui é o comandante RTG543, Coronel da Base Alfa/Estelar, eu ordeno falar com a Base Dez.

Base R no comando, fala Nave Alfa

Quem é você, Base R? Me dê sua localização galáctica e o seu comandante superior.

Base R no comando, fala Nave Alfa

Espera, já sei, você é uma destas merdinhas da inteligência artificial.

Senhor, sou a Artificial Super Intelligence (ASI) no sub-comando da Base Dez.

Humm, ficou ofendidinha, hem?! Quer mostrar autoridade? Cresça, ah! esqueci, você não cresce, é apenas uma máquina memoriada. Olha aqui seu IA de merda, se você não parar de palhaçada, eu vou te fazer virar sucata de playstation 2 jogando  Pac-Man ininterruptamente.

Jogou pesado, hem!? Está bem, está bem, transferindo para aquela apática Base Dez. Aff, estes humanos não passam de uns monstros insensíveis com alma de gelo. 

É isto aí!






Não tenha tanta pressa assim




Quando menino a voz de comando 
era ser rápido pois a vida passa depressa.

Uma voz chata e irritante 
falava diuturnamente - vá mais rápido.

Mais rápido, mais rápido, 
ouvia insistentemente dentro de mim. 

Mais rápido, mais rápido, 
senão perderá o futuro. 

Mais rápido, mais rápido 
para chegar primeiro. 

Mais rápido, mais rápido 
para sobrar tempo para descansar 

Mais rápido, mais rápido 
até, ofegante e cansado, chegar em algum lugar

Mas, saiba, prefira ir devagar 
senão para todo o sempre viverá do passado

Terá saudades absurdas, dores terríveis 
por não ter parado e observado o mundo.

Perderá os sonhos, o amor da sua vida, 
as memórias mais envolventes da sua história

Tudo para chegar depressa a lugar algum, 
ao lugar comum, de onde não tem volta.

É isto aí!

domingo, 28 de maio de 2023

O amor acaba (Paulo Mendes Campos)


Alto lá
Esta crônica não é minha
Confesso que copiei e colei
Fonte¹: O amor acaba. 2ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

Apelos atônitos


Arrependa de tudo que não fez
Perdoe-se  pelo que fez
Aceite o que lhe fizeram de mal

Chore muito na solidão diurna, 
sorria discretamente pelo olhar.
Não ecoe sua voz alhures.

Perca tempo sorrindo só
imite seus atos nas crises
Ria muito das suas limitações

E, sobretudo, controle-se,
mantenha o estado de alerta
pois o medo não existe por si.

É isto aí!