domingo, 19 de abril de 2015

Dura lex passionis

O Congresso Real da Pitangueira aprovou e eu o Rei Primeiro e Único, em caráter monocrático e soberano sanciono o projeto de lei complementar modificando artigos do Código Natural das Coisas, nos termos do aditivo ao Artigo I.

I - Fica proibido se apaixonar. 

§ Único - Amar, suspirar, desejar, fornicar, gostar, etc. continuam permitidos e livres de censura.

II - Em caso do réu ser primário, receberá uma advertência verbal da Delegacia da Patrulha Passional.

III - Réus reincidentes em segundo flagrante, sofrerão advertência por escrito e prazo de trinta dias para encerrarem este processo.

IV - Réus obsessivos com várias reincidências, serão colocados em isolamento, pelo Centro de Transtornos Passionais, por noventa dias, podendo dobrar o tempo em decorrência da gravidade, para não contaminar o ambiente.

§ 1 Receberão gratuitamente e obrigatoriamente tratamento de choque com Choque Térmico, Palestras, Músicas, Psicodrama, Sonoterapia, Filmes, Taekwondo, Karatê, Muay Thai e os oito pilares do Ashtanga.

§ 2 Deverão, obrigatoriamente, participar da AAA (Associação dos Apaixonados Anônimos), e somente poderão transitar entre os comuns após liberação do Cartão Verde.

Razões para que o Reino acate esta sábia decisão:

1 - Apaixonar dói, possui baixa resolução, grande capacidade de imobilização e sentimento de dor imensurável. Além disto é um verbo pronominal, sendo necessariamente acompanhado de um pronome oblíquo (adequado à respectiva pessoa gramatical), pelo fato de denotar ações próprias do sujeito.

2 - Amar não é um verbo intransitivo, isto é coisa do Mário de Andrade e suas intrincadas e complexas percepções freudianas, que até poderiam por si só garantir o Amor como livre e as paixões como processos patológicos diante da complexidade humana; mas no mundo real Amar é Transitivo Direto, e isto define o processo pela leveza, elimina problemas, facilita o relacionamento pessoal, social e jurídico, pois quem ama, ama alguém e pronto simples assim.



É isto aí!





sexta-feira, 17 de abril de 2015

Meu segredo

- Amor, se você tivesse um grande segredo, contaria para mim?

- Carminha, se fosse apenas um segredo eu juro que só contaria para você, mas o fato é que um grande segredo seria algo maior. É mais que isto, é secreto, confidencial e pessoal. Daí que não poderia contar, mesmo estando com uma vontade danada de fazer isto, sabe, de maneira que todo mundo saiba, daí seria comum e logo, logo, deixado de lado quando uma nova onda venha e espalhe suas espumas na praia das nossas vidas.

- Então você tem um grande segredo?

- De onde saem estas idéias, Carminha? Mas, tudo bem, vamos lá, imagine você que guardar uma coisa tão íntima nos dias atuais, onde tudo e todos são expostos na mídia cibernético é algo tão inusitado, que dá até gosto não contar só para ver a cara de curiosidade e os olhos alheios em busca do que está protegido pela alma da gente. Sim, isto mesmo, pela alma, pois uma ocorrência deste porte que não contaria ao mundo seria divina e celestial.

- Amor, você ama outra, é isto? (chorando)

- Opa, pode parar. Quer saber, este papo está muito esquisito, vou nessa, e depois te ligo.

- Volta, Armandinho, vem aqui ... (aos prantos) ... nossa ... - ainda bem que ele foi embora, pois hoje eu estou coçando para contar umas coisas que ele não deveria saber nunca. Mas, espera aí - não é que o danado tem segredo também, e dos grandes, e não me conta?! Vou apertar mais, ora lá, pois pois, quem ele pensa que é?

É isto aí!







quinta-feira, 16 de abril de 2015

Formato Mínimo

Alto lá - Este Poema não é meu
Copiei e Colei
Autora - "Leoa"
http://passageirasombria.blogspot.com.br/2012/01/comecou-de-subito-festa-estava-mesmo_05.html

Formato Mínimo
Começou de súbito, 
a festa estava mesmo ótima
Ela procurava um príncipe, 
ele procurava a próxima

Ele reparou nos óculos, 
ela reparou nas vírgulas
Ele ofereceu-lhe um ácido 
e ela achou aquilo o máximo

Os lábios se tocaram ásperos, 
em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos 
e ávidos, gozaram rápido

Ele procurava álibis, 
ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico 
e ela descansava lívida

O medo redigiu-se ínfimo 
e ele percebeu a dádiva
Declarou-se dela, o súdito; 
desenhou-se a história trágica

Ele, enfim, dormiu apático 
na noite segredosa e cálida
Ela despertou-se tímida, 
feita do desejo, a vítima

Fugiu dali tão rápido, 
caminhando passos tétricos
Amor em sua mente épico, 
transformado em jogo cínico

Para ele, uma transa típica, 
o amor em seu formato mínimo
O corpo se expressando clínico, 
da triste solidão, a rubrica.

Eu te salvarei

Estava fervorosamente envolvido na minha crença neo-libertadora enquanto o Mentor Sênior coordenava minha ordenação. Naquele exato instante já determinado pelas forças cósmicas, ele falou - Eis que te entrego nesta solenidade a Credencial Peregrina, que o permitirá ser identificado pelos povos que nos salvarão e assim seremos resgatados. Ao longo da sua jornada santa, enfrentará o desconhecido e o temido, confrontará o terror e o amor, mas no fim a Verdade prevalecerá. Não se esqueça que deverá retornar, atestando e testemunhando aos fiéis a Luz que emanará deste Tempo Novo que trará consigo. 

E foi assim. num encontro esotérico com Akenathon,  que promovi a maior revolução religiosa e salvífica da história da nossa galáxia.

Quando retornei fui ao Púlpito e dei o Testemunho da Verdade:

Irmãos, obrigado pela presença. Ao Mestre Sênior, Honra e Paz. Pois bem, hoje falarei do Novo Tempo que toma posse deste Templo, oriundo destas jornadas aqui já comentadas pelo Mestre, quando cheguei ao interior da Pirâmide de Jafra, no Cairo. E foi lá que experimentei a visão, quando um ser de beleza não humana determinou que rumasse para Tell-El-Amarna, onde receberia minha nova incumbência e traçaria meu destino e o do Planeta, junto aos Deuses.  Desacordei, recobrando a consciência uma semana depois, num acampamento de beduínos à margem oriental do Nilo, ainda com a visão turva e a cabeça confusa.

E assim, bebendo do saber etéreo, ao seguir a rota do meu destino e da humanidade, trago o Henoteísmo Inter-Galáctico ao nosso Ciclo da Luz, como a linha da salvação deste planeta. Nesta nova visão holística e glorificante, nosso Templo passará a ter sete núcleos de Elevado Louvor, a saber:

1 - Núcleo das Apóstolas Ascendentes.
2 - Núcleo das Profetizas do Terceiro Grau
3 - Ministério do Elemento do Sagrado e Divino
4 - Congregação dos Diáconos das Colunas Místicas.
5 - Conselho das Virgens
6 - Conselho das Beatas
7 - Conselho dos Homens de Bem

1 - Núcleo das Apóstolas Ascendentes.
Composto por doze mulheres entre 30 e quarenta anos, dedicadas ao Tempo e aos estudos salvíficos. Ficarão responsáveis pela divulgação das nossas manifestações de fé ao mundo.

2 - Núcleo das Profetizas do Terceiro Grau
Círculo do Primeiro Grau compreenderá seis Profetizas neófitas.
Círculo do Segundo Grau compreenderá quatro profetizas que ascenderam na Luz do Saber.
Círculo do Terceiro Grau compreenderá três profetizas ascendidas totalmente à Luz.

3 - Ministério do Elemento do Sagrado e Divino.

Ministro do Primeiro Elemento Terra Zelador do Patrimônio
Ministro do Segundo Elemento Fogo Zelador das Condutas
Ministro do Terceiro Elemento Ar Zelador das Conversas
Ministro do Quarto Elemento Água  Zelador da Escola Dominical
Ministro do Quinto Elemento Eter Zelador dos Sonhos

4 - Congregação dos Diáconos das Colunas Místicas.
Coluna da Palestina - Três membros da Administração das Coisas Espirituais 
Coluna de Antioquia - Três membros da Administração das Coisas Materiais 
Coluna de Roma - Três membros da Administração das Finanças 

5 - Conselho das Virgens*
Comitê das Virgens Jovens - 24 membros solteiras 15 aos 18 anos
Comitê das Virgens Castas - 24 membros solteiras acima dos 18 anos
Comitê das Virgens Santas - 12 membros casadas, no primeiro ano do casamento.

As Virgens Jovens e as Virgens Castas terão prioridade no casamento com os Homens de Bem, que poderá acumular até duas esposas, incluindo a esposa fiel, se casado for, renovando o Comitê sempre que necessário. Para tal deverá fazer módica contribuição ao Templo, em valor  a ser acordado com o Mestre.

As Virgens Santas são as mulheres casadas que optaram pela castidade diante do marido, que deverá aceitar. Caso a promessa seja quebrada, o Mestre determinará o valor  a ser doado ao Templo.

Conselho dos Homens de Bem 
Doze homens casados, maiores de 40 anos e menores de 60 anos, indicados pela Tríade (quatro de cada Tríade), que passarão pelo crivo do Mestre, que poderá aceita-los ou não.
O Mestre, a qualquer tempo e hora, poderá eliminar um membro, e um novo processo se inicia, com a vaga ofertada através de um simbólico valor a ser determinado pelo Templo.
Os Homens de Bem que mais contribuem com a nossa missão, poderão, se assim desejarem, atenderem aos reclames sociais, carnais e psico-pedagógicos de todas as componentes do Comitê das Virgens, sem que isto descaracterize aquele grupo.

Conselho das Beatas
Doze mulheres, esposas dos Homens de Bem.

E foi assim que o Templo de Akenathon retomou seu caminho neste Planeta, salvando o mundo da extinção do saber universal. Venha você também - com uma modesta quantia de insignificante valor espiritual, eu te salvarei.

É isto aí!  



domingo, 12 de abril de 2015

A Igreja dos Pelados - a Origem

Irmão e irmãs, hoje nosso Templo Místico transformará a vida de cada um em uma glória salvífica. Quero que cada membro desta comunidade coloque agora cem reais nas nossas Arcas do Poder. Isto irmão, cem reais. Você aí, é você mesmo de camisa verde, pode voltar e pegar o excedente, é só cem reais. Isto mesmo... aleluia irmãos... aleluia... nosso Coral Celestial canta como os Anjos do Senhor, que está neste Templo, irmãos e irmãs.. aleluia...

Muito bem, agora, os que não tiveram a graça da misericórdia de ter cem reais para a Obra, por favor, peçam aos irmãos que possam emprestar - vejam bem, é para emprestar, não é doação de irmão para irmão. Que beleza... cante mais forte, Coral, que os anjos venham ao Púlpito louvar nosso Templo. Amém irmãos.. aleluia... aleluia...

Agora, aqueles que não conseguiram os cem reais emprestados venham à frente, por favor. Não se envergonhem irmãos, não se entristeçam, irmãs. É pela Obra. Venham, podem vir. Isto, que lindo. Veja, Igreja, estes irmãos e estas irmãs não tiveram a graça do Senhor de disponibilizar cem reais para a Obra. São ungidos, Igreja, são sangue do nosso sangue. Deus deu a eles uma nova oportunidade, a de conseguir um empréstimo para quitar seu débito com a Igreja, mas também não tiveram mais esta graça alcançada.

Que as mulheres deste grupo saiam pela porta penitencial da esquerda e os homens saiam pela porta penitencial da direita. Lá serão despidos e colocarão uma veste solta de algodão cru, e assim feito voltarão para a frente da Igreja. Lembrem-se - deverão estar puros, somente com o tecido sobre a pele. Agora vão, meus caros, que a purificação será a chave da libertação de vocês.

Agora subam no altar. Descalços por que este é um piso sagrado. Venham, podem subir. Olhem para o povo que clama por justiça. Veja, Igreja, estes irmãos não tiveram cem reais para a Obra, mas nossa Legião de Tribulação Telúrica, ao elevar as preces ao Alto para a purificação, viu cair, como que por encanto - pasmem, exatamente cem reais para cada um dos que não puderam contribuir. Como penitência, ficará toda a Igreja de costas e eles deverão retirar suas túnicas e ficarem nus.

Eu posso olhar, por que meus olhos são santos. Não virem ainda, Igreja, estão sendo purificados. Cada um está recebendo a sua nota de cem reais. Agora voltem ao aposento e vistam suas roupas. Agora, irmãos e irmãs, semana que vem faremos a Obra de duzentos reais.

Na semana seguinte ninguém levou dinheiro... 

É isto aí!

quinta-feira, 9 de abril de 2015

O beijo fatal

Marcinha Carolina tinha dois mil trezentos e quarenta motivos para ser feliz. Anotava cuidadosamente num diário manual, destes com cadeado de segredo, os minutos que desfrutava da presença de Epaminondas Flausino. O moço era seu pretendente secreto, de tal forma que mal se comunicavam, salvo por leves acenos e palavras básicas de saudação trivial. Mas anotava - hoje falei "olá Epaminondas Flausino. Como tem passado? Está calor hoje, não acha?"

Usava destes expedientes decorados de longas falas cronometradas para que chegasse à pelo menos um minuto de contato. Por que pelo rapaz, a resposta era sempre rápida e objetiva, com tempo médio de dois segundos, segundo constava do diário. Sonhava em casar de véu, grinalda, vestido longo e fechado em gola, com detalhes arabescos e um lindo arranjo de flores perfumadas. 

O tempo passou, milhares de minutos se esvaíram sem sentido e até a virgindade de Marcinha já cogitava uma manifestação pública quando os hormônios a derretiam pelas calçadas e vias públicas da pacata cidade da sua vida. Há muito Epaminondas se casara com Dorinha Virtudes, uma levianazinha vulgar da periferia. Aquilo feriu de morte os desejos da moça. Imagina só, casou com uma "furada", cortesã dos rapazes da cidade, uma qualquer sem eira ou beira. 

Um dia acordou revoltada com tudo. Cansou de ser o imenso vazio dentro de um corpo divino onde se manifestavam as maiores obras da natureza humana. Passou seu perfume clássico, vestiu uma roupa branca, com a saia só um pouco abaixo do joelho, o que por si só já era uma aberração, não prendeu o cabelo, experimentou um batom claro, e de salto baixo, para não perder de vez a compostura, jurou ir à caça. Estava louca, dizia a si mesma, para dar para alguém e este alguém haveria de ser seu amado Epaminondas.

Atravessou a cidade, chegou à residência do seu objeto de desejo, e ao soar a campainha, veio a esposa, educada e tranquila. Cumprimentou-a com desprezo, afastou-a com leve toque da sombrinha londrina, e adentrou em frenesi, buscando o que viera caçar. Dorinha ficou do portão, estática, procurando entender o momento, enquanto Marcinha adentrava sem nenhum pudor, num silêncio latejante e passos firmes.

Não o encontrando, voltou-se aos gritos para a dona da casa, pedindo uma explicação pela ausência do amado. Estava transtornada, histérica, excitada e descontrolada. Dorinha foi se aproximando devagar, fez o clássico sinal de pedido de calma com as mãos, abraçou-a e em prantos sussurrou 

- Marcinha, ele me deixou, abandonou a casa e fugiu com uma pessoa. (abraçou mais forte)
- Como assim, Dorinha? Uma pessoa, quem? 
- O Carlão do Táxi. (deu um aperto com os dedos nas costas)
- O Carlão? Mas como foi isto, o Carlão deu fuga para ele?
- Não, Marcinha, o Carlão foi a fuga dele. (alisou as costas da Marcinha)
- Dorinha, não entendi ainda.
- Ele é gay, Marcinha, gay, veado, bixa, boiola. (apertou mais ainda o abraço)

Ao tentar sair do abraço, Marcinha não conseguiu evitar a boca de Dorinha colar à sua, com a língua em franca invasão entre seus lábios. Empurrou-a com rispidez e saiu em desembalada carreira, aos prantos e confusa. Chegou em casa, falou que resolvera aceitar o convite da sua tia para umas férias na capital, fez as malas e sumiu.

Naquela noite, ao chegar cansado do serviço, Epaminondas Flausino encontrou Dorinha Virtudes em euforia plena. Amaram-se como um casal insaciável e ela ria de dar gargalhadas, sem explicação nenhuma, apenas ria despudoradamente. 

É isto aí!


sábado, 4 de abril de 2015

Histórias banais de amor

Ana Cristina deixou de co-existir ao meu lado. O fato é que ela partiu, desta vez para sempre. Levou consigo muito mais do que a mudança física. Na mudança carregou minha esperança. a alegria e a paixão que nutríamos até então. Puxa vida, levou tudo mesmo. Mas desta vez achava que estava preparado, pois escondi a saudade de uma forma tão inviolável, que nem sequer percebeu que não levou tudo, pois o melhor das nossas memórias ficou comigo.

Eu não acreditava no fim. Quando amigos perguntavam por ela, dizia que estava viajando, pois realmente tinha a certeza de que a qualquer momento retornaria. Então era isto, apenas viajara para tratar de assuntos pendentes na sua família e logo estaríamos juntos. 

Como nunca voltava, a raiva de tudo e de todos foi uma consequência natural. Vivi uma fase intragável, onde muitos se afastaram e outros eu mesmo evitei, pois alguém seria o culpado por minha solidão. Que ódio, que fase. Cheguei mesmo a detestar casais felizes.

Quando me dei por conta, já havia enviado dezenas de e-mails para ela, flores, presentes, recados no seu celular, etc. Seu silêncio era assustador e ao mesmo tempo alimentava meus delírios. Prometi tudo, desde mudar meu jeito de ser até aceitar que fizesse uma lista de exigências que poderiam ser as mais terríveis e dolorosas, mas mesmo assim meu amor as superaria.

É claro que não aceitou nenhuma das flores, nem os presentes, nem meus convites, enfim, desprezo total. Custei a entender que estava doente. Conheci a depressão pela forma mais virulenta de manifestação. Psiquiatra, psicólogo, terapeuta ocupacional e muitos medicamentos consumidos não foram capazes de me retornar ao padrão "Eu" de excelência, do qual tinha maior orgulho.

Foi nesta fase, humilhado, destruído e pulverizado, que conheci Martinha, uma encantadora paciente das clínicas pelas quais passei. Sua presença foi mística e redentora em minha vida. Apaixonamos de uma forma emocionante. Estava curado.

Uma noite, quando esta estávamos no teatro,  uma irreconhecível, desarrumada e descabelada mulher partiu em nossa direção com gritos, socos, tapas e pontapés. Com muito custo o tumulto foi contido e só aí percebi naquele vulto a Ana Cristina.

Depois deste episódio, passou a me enviar dezenas de mensagens e e-mails, presentes, convites para sairmos, etc. Quer saber? Eu queria manda-la à merda, cheguei até mesmo desejar a sua morte, mas para minha decepção, nem todos os elos foram rompidos - eu a amava.

Por que a vida é assim? Não sei, e acho que ninguém sabe. Voltei para Ana, e Martinha aceitou ser minha amante. Tudo ia bem em total sintonia, até que num rompante de sábado chuvoso, depois de tomar algumas doses no mercado, atravessei a avenida e acenei para o primeiro ônibus que passou. Desci no Rio de Janeiro. Nunca mais voltei para saber no que deu aquilo tudo. Casei com uma linda carioca, arrumei um excelente emprego e e fui infeliz para sempre.

É isto aí!

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terça-feira, 31 de março de 2015

O aeroplano e o saci


Um aeroplano destes bem grandes desapareceu do planeta há um ano. Nada mais se disse sobre isto. Teorias oficiais declararam que o motorista da condução tinha um sistema de treinamento na sua casa, semelhante aos milhões de jogos idênticos espalhados pelo mundo.

Outro aeroplano , da mesma viação, caiu em terras eslavas, daí que foi uma coisa mais estressante, com testemunhas, mídia e zona de guerra. Como as explicações não tiveram consistência, as consistências detonaram com as explicações.

Agora um outro aeroplano, também no velho continente, vai de encontro aos Alpes. O crime foi premeditado por um alucinado romântico e assassino, e logo nas primeiras horas o denunciado e culpado era o co-motorista. Segundo as autoridades, ele era gay, paranoide, depressivo, com menos de 70% de acuidade visual, e por fim descobriu que a noiva estava grávida de um filho seu (não ria, a consistência oficial é esta). 

Então o cidadão co-motorista esperou pacientemente o motorista-em-chefe ir ao banheiro, trancou a porta e rumou ao infinito e além. Enquanto assim procedia o seu superior, sem ter como ver coisa alguma, batia à porta com violência, mandando-o abri-la. E, claro não o fez.

Você acredita nestas histórias? Sei... entendo... tudo bem... olha só, fica tranquilo. Foi o Saci que contou.

É isto aí! 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Casamentos e casamentes

Estou sentado num imenso sofá, num local completamente desconhecido, limpo e harmonioso. Ao meu lado uma das mulheres mais lindas e sensuais que já vi em toda a minha vida. A vista, privilegiada, contempla uma cadeia de montanhas e o oceano ao fundo, num contraste elegante. Ela me olha de uma forma desconcertante que não sei retribuir.

A questão aqui envolvida é que não sei nada sobre mim, nada sobre este lugar e nada sobre a moça. Lembro de coisas incríveis como o Louvre, onde acho que estive mergulhado num profundo ensaio conceitual, e também vagam passagens rápidas aqui e ali. Mas não sei de nada.

A escultura humana ao meu lado dirige a palavra numa língua que desconheço. Sequer entendo o sotaque porque se estou pensando apenas desta forma, devo ser monoglota. Não estou bêbado, nem drogado, nem com reflexos alterados. Minha cabeça não dói, meu corpo não reclama de nada, mas não sei de mim.

Ela continua num tom romântico falando coisas ao meu ouvido. Levanta-se e aí posso notar o quanto é maravilhosa, uma formosura esculpida por mãos divinas. E só então, ao tentar levantar percebo que estou nu, pelado, sem roupa sem nada. O curioso é que ela está também sem a roupa de baile e a poucos metros daqui há uma festa, com orquestra e muita gente dançando e cantando, na mesma estranha língua da moça.

Sem ter como evitar, levanto e caminho pelo salão, e todos me cumprimentam, tapinhas nas costas, uns beijinhos rápidos das mulheres, alguns na boca, outros na bochecha e outros soltos no ar. Continuamos o trajeto até o que parece ser um parlatório. Sou levado a ele. Daqui de cima vejo todos me observando, aguardando uma fala.

Olho para meu corpo nu, olho para as pessoas em requinte de gala, cruzo o olhar com a estonteante companheira, e caramba - não estou entendendo nada. Levanto as mão e falo pausadamente na minha língua que aquilo tudo era muito embaraçante, estranho e surreal. Recebo uma chuva de palmas, as pessoas vão ao delírio, grita,m assoviam, aplaudem, agitam os braços com alegria.

A moça sobre em largos sorrisos os degraus que nos separavam, e beija-me em frenesi. Meu Deus do céu... que beijo maravilhoso e aí ela começa a me morder e falar ... Beto... Beto... Beto. Engraçado, eu consigo entender esta parte. Beto deve ser meu nome. Sorrio para ela. Beto... Beto... aí que me dei conta, era o casamento de alguém... e a moça - Beto... Beto...

Vagamente começo a entender tudo o que falam. O salão não era bem um salão, era um templo religioso. A banda era um conjunto de arcos e cordas. Então pude concluir que eu estava no altar . E aí ela falou ... Beto, você tem que dizer SIM. Aí falei sim e infelizmente voltei ao normal, no conceito das pessoas sérias. Francamente, na minha viagem pós-despedida clássica completa aquilo estava muito mais legal.

É isto aí! 

terça-feira, 24 de março de 2015

Nunca deseje seu ex-amor

Tem uns dois anos, estava à toa, procurando alguma coisa na Internet, e isto é um perigo tão grande, que tal aventura deveria ser protocolada, registrada, carimbada e monitorada por uma agência federal. Era cedo ainda, as crianças já haviam deitado, a sogra roncava no sofá de frente para uma novela desconhecida, e eu esperando a hora do jogo, que seria o ponto culminante da noite.

Foi aí que a porca torceu o rabo e o diabo cutucou com a saudade, quando bateu a besteira de procurar o nome dela na rede. "Ela" foi simplesmente o grande e intempestivo amor, daqueles que só quem amou apaixonadamente irá entender. Quinze anos se passaram desde a maldita despedida, onde meu orgulho, idiota, não entendeu a gravidade da separação e o que esta dor ocasionaria na minha vida.

Como sabe, a fila anda, e acho que foi então que apareceu a Geraldinha, que assumiu o controle da situação, e hoje moramos numa casa pobre, mas é nossa, está paga e é decente. Os filhos na escola pública, eu na prefeitura e ela uma doce, dedicada e romântica rainha do lar. Mas naquela noite eu cometi a imprudência de procurar por "ela". Puxa vida, quanto mais passava o tempo, mais torturas e sofrimentos fluíam pela memória.

Achei-a na rede, acessei sua página, e meu Deus do céu, estava linda, com fotos deslumbrantes em lugares fantásticos, cercada de amigos, amigas, com a cara da riqueza e a sina da beleza. Era ela, a minha musa, que venceu, brilhou, ascendeu, enfim, conquistou seu lugar ao sol merecidamente. Levantei da cadeira ensandecido. Entrei no quarto e vi aquela tripinha seca deitada na cama de colchão de espuma D28, cobrindo com lençol remendado ainda do casamento, duas muchibinhas de travesseiro sob um cortinado encardido, ventilador histérico, piso de cimento queimado e aí chorei copiosamente.

Entrei dezenas de dezenas de vezes naquela página, imprimi sua foto, caramba - estava tudo acontecendo novamente. A tentação de surgir na sua vida era imensa, mas me contive. Deu que um dia fui acompanhar o despejo de uma invasão de área pública, e não é que ela estava lá? Era uma das invasoras, menos bela que na Rede. Fui me aproximando devagar, bem devagar, tremendo até não aguentar mais. 

Olhamos um nos olhos do outro. Tomei-a pela mão e não soltei mais. Ela sonhava com coisas que eu renunciara, e agora poderíamos sonhar juntos. Tudo ia bem até que resolvi acessar a página da Geraldinha. Gente, mas o que era aquilo, parecia uma Miss Universo desfilando na passarela da felicidade. Minha boca encheu d'água... a Geraldinha... puta que o pariu, e eu aqui sustentando esta gorda porca e preguiçosa que fica o dia inteiro na internet. Fiz menção de voltar, mas sabe como é, ninguém volta ao que acabou - outro já dominava a área.

É isto aí!






segunda-feira, 23 de março de 2015

Um beijo em si.

Senta logo, que preciso te falar um negócio.

Não.

Não o quê? Sentar ou ouvir o que tenho a dizer?

Não quero sentar.

Mas poderá ouvir?

Não quero ouvir o que sabe e não sei.

Mas aí não saberá o que tenho a dizer.

Então não diga e não saberei.

Mas é uma coisa sua.

Se é minha, já a tenho.

Não quer mesmo saber?

O fato é que não estou preparado para descobrir em mim algo que não sei se sei.

Não contarei então.

Isto, não conte e me beije.

Beijo molhado, lambuzado e ardente?

Um beijo, não destes assim, mas um beijo de quem tem algo meu em si.

É isto aí!

quarta-feira, 18 de março de 2015

Roy Orbison - A Love So Beautiful




A Love So Beautiful

The summer sun looked down
On our love long ago
But in my heat I feel
The same old afterglow
A love so beautiful
In every way
A love so beautiful
We let it slip away

We were too young to understand
To ever know
That lovers drift apart
And that's the way love goes
A love so beautiful
A love so sweet
A love so beautiful
A love for you and me

And I when I think of you
I fall in love again
A love so beautiful
In every way
A love so beautiful
We let it slip away
A love so beautiful
In every way
A love so beautiful
We let it slip away


Um Amor Tão Bonito

O sol do verão se pôs há muito tempo
sobre o nosso amor,
Mas em meu coração eu ainda sinto
aquele velho pôr-do-sol...
Um amor tão bonito
De todas as maneiras
Um amor tão bonito
Deixamos que acabasse

Éramos muito jovens para entender
Para ao menos saber
Que amantes se separam
E que o amor é assim mesmo
Um amor tão bonito
Um amor tão doce
Um amor tão bonito
Um amor para nós dois

E quando penso em você
Me apaixono de novo
Um amor tão bonito
De todas as maneiras
Um amor tão bonito
Deixamos que acabasse
Um amor tão bonito
De todas as maneiras
Um amor tão bonito
Deixamos escapar.....

domingo, 15 de março de 2015

Os anjos e a caxeta do Libório

Ryszard Krasowski
Dia destes estive num hospital visitando um amigo que se acidentou em casa correndo para atender o telefone, enquanto tomava banho. Estava sozinho e achou que não teria problema sair nu, escorregou no porcelanato e não viu mais nada, sendo descoberto na manhã seguinte pela empregada.

Na saída do apartamento do paciente, passei por um homem que achei conhecer. Alto, idoso, ereto e com um olhar muito penetrante. Continuei andando pelo corredor quando lembrei daquela pessoa. Ao voltar para reencontrá-lo, já havia desaparecido.

Será que é ele mesmo? Pensei e refleti - mas é impossível - já se passaram uns trinta anos. Bem, vou explicar: quando era criança, ia sempre nas férias, na roça, onde moravam meus avós. Nada melhor do que o campo para uma criança se sentir no paraíso. Nas sextas-feiras, na varanda do sobrado, meu avô recebia os  amigos de sempre para beber cachaça, comer torresmo e jogar caxeta ou caixeta como dizem mais ao sul. Entre seus amigos, tinha o Libório, divertidíssimo, padrinho do meu pai. Sua esposa já havia falecido, os filhos tinham ganhado a estrada e ele tocava seu sítio dentro das suas limitações pela idade.

Numa destas férias, em janeiro, com muita chuva, o Libório faleceu e fomos lá para a casa dele, do outro lado da encosta. Era uma sexta-feira, e aí os amigos, para homenageá-lo, ficaram jogando caxeta a noite toda, esperando o dia amanhecer para enterrar o falecido no cemitério da vila. A casa dele era pequena, e tinha apenas uma puxada de telhado na frente, em piso batido, com umas pedras próximo à porta. Devia ser de madrugada, e eu ali, aceso, pois nunca tinha visto um homem morto, nem sequer um velório, e muito menos uma chuva torrencial como aquela.

Ficava andando prá e prá cá e ao chegar na porta da cozinha, deparei com um homem encostado na bica, calado, olhando para mim sem estar me vendo. Achei que podia ser um dos vizinhos, apesar de nunca tê-lo visto. Não tive medo nem nada, mas fiquei com muito sono. Nunca mais esqueci seu rosto e na manhã seguinte não o vi no enterro.

Voltei rapidamente ao apartamento e meu amigo tinha acabado de falecer, saí dali e novamente cruzamos o olhar. Desta vez não olhei para trás.

É isto aí!

quarta-feira, 11 de março de 2015

O cafajeste em mim.

Desde menino sempre sonhei em ser cafajeste. Não pela forma, mas pelo nome, sempre achei o máximo esta expressão. Ficava imaginando uma cena onde uma pessoa se aproximava e em tom de desespero, perguntava - o senhor é o Dr. Cafajeste? Sim, sou eu. Pelo amor de alguma coisa, me socorra... Aquilo era uma terapia para minhas expectativas de futuro.

Nas reuniões de família, perguntavam o que eu seria quando crescer só para ouvir a resposta e a gargalhada era geral. Tia Julinha se urinava de tanto rir; tia Telinha rolava no chão e o meu pai gritava lá do fundo do quintal - "este é o meu garoto! Que maravilha, uma coisa assim era melhor do que ser aviador, médico ou advogado".

Uns amigos do meu pai tinham umas duas ou três mulheres, estavam sempre alegres, e bem com a vida. Minha mãe não gostava deles. Falava com raiva do Carlinhos do Pneu. É um homem frio, calculista e trapaceiro. Roubou até da sogra, a dona Esmeralda, coitada, que morreu sem nada que o padrinho deixou para ela. Depois que sugou tudo da boba da Dadinha, arrumou uma putinha barranqueira -. esta era a parte que eu adorava ouvir - arrumou uma novinha, e agora fica aí andando de carro bonito e se acha o tal.. Uau; aquilo ecoava como música aos meus ouvidos (uma novinha) e seguia sorrindo para todo mundo.

Tinha o Gegê do Gás, que minha avó tremia só de ver ele lá em casa. Eu não entendia, por que ele era muito divertido, carinhoso com a esposa, mas aí vovó falava - é um cafajeste mentiroso, e a boba acredita em tudo que fala, mesmo com ele namorando com as meninas todas do bairro. Nossa! Gegê era meu ídolo - Meu sonho!!!

E o Bira da Feira? Sempre com uma camiseta apertada, mostrando os músculos. Ele ia fazer entrega das compras e tia Julinha saia pelos fundos - não suporto este machista grosseiro e insensível, dizia entre os dentes. O fato é que ele deu uns amassos nela e parece que uns tapas também, mas deve ter tido seus motivos, mas mulher não faltava na sua vida. Sempre com uma mais gostosa que a outra. E aquele cordão de ouro? Sempre quis ter um igual. 

Agora, tinha um amigo do meu pai, o Lelinho da Barra, que era meu ídolo. Tia Telinha tinha ódio dele. Ela falava assim - Lelinho? Um mau caráter, vagabundo e ambicioso e só quer mulher para sustentar suas ambições. Graças a Deus eu tive livramento daquele peste. 

Quando cheguei na adolescência, percebia que as meninas mais gostosas se sentiam atraídas pelos cafajestes, choravam e sofriam por eles, e se envolviam mesmo sabendo que as chances de o relacionamento dar certo eram mínimas. Eles eram fortes, pareciam seguros e poderosos, saiam para beber, jogar e fumar com os amigos, eram muito namoradores e tinham mulher nova todo dia, e as meninas ficavam histéricas disputando a atenção deles. Nunca entendia bem esta parte, a de que eu perdia para quem eu queria ser..

Bem, para minha grande decepção, na vida adulta não consegui ser cafajeste. O tempo passou, apaixonei pela Quitéria, uma menina tímida, até meio feinha, que morava duas casas abaixo da minha. Casei cedo, fui trabalhar no balcão de uma loja e enfim, tive três filhas e não consegui nem sequer um genro cafajeste. Agora esperar pelos netos..., quem sabe??. 

É isto aí!

Eu quero tudo!

Nunca tinha namorado e nem visto uma mulher nua e já estava com quase dezoito anos. Bom filho, exemplo na comunidade, muito religioso, excelente aluno do primeiro ano da faculdade de engenharia, honesto, dedicado e muito correto. Trazia consigo um amor proibido por uma mulher mais velha, casada com um vizinho residente no mesmo andar. 

Como a olhava demasiadamente apaixonado pelos cantos do condomínio, ela percebeu seu encantamento e tirava proveito da situação. Assim, explorava-o, mas fazia-se no âmbito social uma mulher sempre distante, admirável e um compêndio de perfeições físicas e morais. 

Ele aceitava e prontamente acatava suas ordens pela total submissão ocasionada por uma transposição do amor às relações sociais. Fazia mandados, ia no super-mercado, ao banco, e até eventualmente a acompanhava em lojas, desfiles e compras, quando ela propositalmente passava próximo à faculdade logo após as suas aulas. 

Quando estavam a sós, conversavam sobre tudo, e aí sempre provocava-o com roupas decotadas e curtas, batons carmim e perguntas cabulosas. O estado amoroso do rapaz era uma espécie de estado de graça que o transformara num nobre vassalo e ela era a intangível esposa do rei. Tratava-se, na sua concepção, de um amor puro, não adúltero. Sempre que alguém perguntava se tinha namorada, ruborizava e ocultava o objeto de seu desejo substituindo o nome dela pelo de uma mocinha qualquer.

Um dia o apanhou na porta da faculdade e dirigiram-se para um motel afastado, de alto luxo e enorme discrição. Ao chegarem, ficou mudo, em pânico, não sabia o que fazer nem o que falar. Custou a descer do carro, enquanto ela já adentrou no apartamento, ficando imediatamente nua, e deitada na enorme cama circular, pôs-se a esperá-lo. Entrou e deparou com aquela escultura natural, em pele de seda e sede de amor.

Estava ali, parado, encostado na parede, sem saber onde colocar os olhos, até que, num rompante de coragem, perguntou-lhe - o que você quer de mim? Com um malicioso sorriso em sua face alva e santa, ainda deitada, flexionou as pernas, abrindo-as em ângulo reto perfeito, estendeu-lhe os braços e sussurrou - eu quero tudo!

Imediatamente pegou o cardápio e começou a pedir à telefonista todas as comidas e bebidas que constavam nele. Pacientemente levantou-se enrolada no lençol, tomou o telefone das suas mãos suadas, pediu desculpas à mocinha, e segurando-o, conduziu-o delicadamente à poltrona, sentou-se, colocou-o no colo e foi acariciando-o e explicando a função de cada elemento do seu corpo. Ao final da explicação, ainda afagando os seus cabelos, foi que percebeu que ele havia dormido como uma criança protegida nos braços da mãe.

É isto aí!

* Gravura: God Speed — uma pintura de Edmund Blair Leighton de 1900: uma visão vitoriana tardia de uma senhora prestando um ato cortês a um cavaleiro prestes partir para batalha.

terça-feira, 10 de março de 2015

Como se desfazer das conexões cósmicas

Aline, eu te amo.

Adolfo, para com isto, eu não te amo.

Então você me odeia?

Não, Adolfo, claro que não. Eu apenas não te amo.

Mas e o nosso passado? Não significou nada?

Olha Adolfo, eu não tenho vergonha do nosso passado, mas não tenho interesse que isto seja base para o meu futuro.

Mas Aline, existe uma conexão cósmica divina e mística entre meu amor e sua vida.

Adolfo, sou psicanalisada, realizada, estudada, formada e pós-graduada em teses baratas.

Então você aceita ponderações, desde que sejam com personalidade, independente de serem verdadeiras..

Não foi isto que eu disse.

Como não disse? Subjugou meu sentimento e destruiu minhas expectativas. Olha só, Aline, o destino nos uniu. Não há outra explicação para tanto amor. Eu tenho você em cada existencia física e espiritual que há em mim.

Adolfo, você não me ama, você tem obsessão. E isto não tem nada a ver com destino.

Mas, Aline, não existem coincidências no universo. O acaso nos uniu por um motivo.

Só se foi para me ver sofrer por ter você me incomodando, Adolfo.

Nossa, como você é má.

Eu não sou má, mas o fato é que não te amo. Qual é a sua dúvida?

Só uma. Se eu pudesse voltar ao passado, o que eu teria que fazer para que você ficasse feliz?

Fácil - era só não ter ido àquele maldito baile.

Eu te odeio, Aline!

É isto aí!

segunda-feira, 9 de março de 2015

Férias no front

Este blogueiro que escreve esteve ausente por motivos de força maior. Mas voltarei, aliás, voltei, aliás, nunca sai, apenas ausentei, aliás, caramba - que sujeito chato - para de se desculpar e manda ver. Só mais um pouco e meus queridos e fiéis leitores (sim, existem) poderão passear pelas novidades da Pitangueira.

Enquanto isto a turma do Frying Pan com Caviar excitou-se em movimento frenético contra a nossa presidenta, enquanto por outro lado (outro lado da Frying Pan, onde as coisas esquentam por debaixo do pano), os outros dois presidentes da casa baixa e da casa alta da do poder legislativo são poupados. Como a Pitangueira é um reino monocrático e imperialista em causa própria, estes exemplos são recebidos aqui com certo desdém. Enfim, não basta ser da nobreza Tupy Frying Pan, tem que bater a sobra do caviar nas janelas da Vieira Souto.

Vou ligar para Odete e me atualizar. Valeu!

É isto aí!

domingo, 1 de março de 2015

A primeira vez




O hiato passional












Estou consciente, mas não consigo ver nem falar nada. Acho que estou no hospital, pois lembro de estar em casa e tudo escureceu. Escuto vozes sussurradas e som de aparelhos médicos. Não tenho medo, nem sequer estou desesperado. Passei pela vida com méritos e vitórias.

E tem na memória uma moça que navega silenciosamente entre o real e o imaginário, acelera o passo e percorre com uma delicadeza inconfundível a borda externa da minha espaçonave neuro-sensorial. Não tenho dúvidas de que a conheço. É ela, o grande amor da minha vida. Linda, tímida, meiga, inteligente e apaixonante.

Enamoramos na faculdade, impregnou-se na minha alma e por estas coisas inexplicáveis, perdemos um do outro no meio da multidão aflita pela vida adulta. Naquele dia a fitei nos olhos, triste, e ao largar minha mão, no meio da tempestade, gritou que me amava, e a turba do destino nos afastou. Casei, tive filhos e netos, venci a batalha e guardei o amor. Agora volta, com uma candura tão docemente saborosa que não me faz querer perde-la outra vez..

Sabe quando você sonha e depois deseja muito alguma e a alcança? Isto é fantástico, pois dá sentido à vida. Mas entre o ponto de partida e a conquista, milhões de coisas aconteceram, houve choros e lágrimas, sorrisos, gargalhadas, dores, frustrações, brigas, discussões, vitórias, derrotas, e tantos outros fatos que em determinados dias você até esquece daquele sentimento, que fica guardado em algum lugar da memória. Este espaço atemporal entre o desejo e a conquista é o hiato passional.

É ele, o hiato passional, é que dá o real sentido a tudo e o doce sabor da conquista. Agora ela está aqui, saiu de dentro de mim depois destes anos todos, de toda uma vida e transborda nos meus sonhos. Esta página se fecha aqui e agora se abre outra.

É isto aí!