sábado, 3 de abril de 2021
Diário das memórias de cada um
sexta-feira, 2 de abril de 2021
O Mago da Pitangueira 2021 - 1
Nesta semana pascal subi o Monte da Sabedoria em busca de conhecimentos que possam facilitar minha compreensão diante desta realidade líquida do novo mundo ou da nova ordem deste planeta. Fui de encontro ao Grande Mago da Pitangueira, o sábio da natureza humana.
Mestre, eis-me aqui para aprender com sua imensa sabedoria.
- Eis que muito aprendo com você também, meu filho. Diga-me, a subida foi fácil ou difícil?
Difícil, Mestre, muito difícil.
- Então pergunte algo que valha a pena saber.
Mestre, quero saber sobre esta pandemia, onde está e para onde vai a nossa humanidade. O que é tudo isto?
- Veja, meu filho, somente a espiritualidade ajudará na compreensão dos sofrimentos e na construção de significados e propósito à vida.
Mas, Mestre, e o kit-pré-apocalíptico que evita o mal? E as máscaras? E o infesto quixotesco do planalto? E o álcool gel? E o fique-em-casa?
- Vejo que tem as mesmas dúvidas espalhadas em múltiplas perguntas. Vou procurar respondê-las em dois tempos. Primeiro aprenda com David, o grande rei, pai de Salomão, que ensinou - "Livra-me, ó Senhor, do homem mau; guarda-me do homem violento, que pensa o mal no coração; continuamente se ajunta para a guerra." Esta é a chave que abre as comportas da Paz, meu filho.
Puxa, vida, mestre, mas onde está este homem mal?
Em toda a parte, meu filho, uns são fáceis de serem notados, como o que citou, mas 99,9% estão nas sombras, operam silenciosamente, tramam de uma maneira de tamanha engenhosidade maligna, que a culpa recairá sempre sobre um inocente útil.
E o segundo tempo da sua grande resposta, Mestre?
Meu filho, deverão as suas habilidades espirituais serem reconhecidas pela sua consciência racional como essenciais, afinal você é um ser feito à imagem e semelhança, com sua dupla natureza, uma em carne e a outra em espírito. Desta forma a ciência é importante e deve ser respeitada e o cuidado espiritual é indispensável no enfrentamento desta pandemia. Agora vá, e não acredite em quem não acredita que você é um vetor da paz. Se todos os vetores das paz, que são bilhões, se unissem, o mal não teria espaço para avançar.
O Mestre acabou de responder e recolheu-se ao silêncio do seu eremitério. Pela primeira vez desci em lágrimas.
É isto aí!
quarta-feira, 31 de março de 2021
Você sabe que tem algo errado (Paulo Abreu)
sabe
que
tem
algo
errado.
Você sabe
algo em você
algo deturpado
fez tudo errado
sabe, o abraço
equivocado ruim
domingo, 28 de março de 2021
Cartas à Neguinha em tempos de Covid 2
Neguinha, eu amo você! Sim, sei, é uma frase fácil de dizer, mas cá entre nós, tem que ter uma coragem danada para assumir isto e confirmar e reconhecer com firmeza e cravar o testemunho e provar o que está falando e cantar aquela música daquele cara que canta daquele jeito que você adora e rebola magistralmente de uma maneira íntima, pessoal e solitária.
Neguinha, estou com saudade de muita coisa. Saudade da minha infância numa rua descalça e a vida eterna e vadia. Saudade dos seus olhos; saudade das suas mãos delicadas; saudades dos seus beijos; saudades das suas covinhas. Claro que tudo isto uma hora passa, mas tenho a inútil saudade de vinho quente barato com queijo frescal gelado e azeitona com caroço. Mas subo o tom com as saudades de beijar seu pescoço, sua nuca, sua boca.
Neguinha, dia destes, estacionado numa vaga de supermercado, uma mulher se aproximou de mim para pedir algo. Alta, elegante, mas simples no estar e existir. Ao chegar próxima da janela do carona, abri o vidro - entreolhamos, esbocei um sorriso, ela antecipou uma dúvida e perguntei - pois não, senhora? - Puxa vida, ela começou a chorar, ninguém mais me chamou de senhora desde que fui arrastada para as ruas.
Neguinha, queria você ali para me ajudar a entender o mundo dentro daquela dor plural. A dor do mundo estava naquela mulher. Dei um dinheiro a ela, que recusou. Ela se sentiu humana depois de tempos, foi reconhecida como uma senhora. Choramos na nossa impotência - ela em pé no vidro do carona e eu sentado ao volante. Naquele dia e naquela hora queria você ali para me ajudar.
Neguinha, duas semanas depois, passo por uma esquina e vejo aquela senhora desacordada pelas drogas, no chão, sem alguém para elevar seu estado de espírito. Senti uma dor terrível. Não sabia o que fazer, as pessoas passavam para lá e para cá, não tinham pedras nas mãos, mas as carregavam no desdém e no desprezo nítido. Quantas vezes nossa humanidade apenas deseja ser reconhecida como tal? Fiquei ali, parado e abalado, até que uma pessoa se aproximou a levou.
Neguinha, eu amo você! Sim, já disse isto, já escrevi isto, já falei sobre isto, já me olhei pelo avesso procurando a possibilidade de ser um engano, um erro cósmico, um desvio do universo, mas não encontro nada. Eu amo você, suas covinhas e sua existência. Nunca mais outra vez um agora tão difícil como este tempo de vírus letal e ao mesmo tempo instrumento de tortura física, mental, financeira e psicológica. Mas isto fica para outro dia.
É isto aí!
Sabe todos os seus medos? (Paulo Abreu)
Sabe aquele medo da infânciade um monstro sob a cama?Sabe aquele medo da infânciade ter que assumir um erro?Sabe aquele medo da adolescênciade que amar dói e beijo é o delírio?Sabe aquele medo da adolescênciade que um dia seremos adultos?Sabe aquele medo da juventudede perder um grande amor?Sabe aquele medo da juventudede que a maturidade está na esquina?Sabe todos os seus medos?Não são nada perto do que vemNão são nem exercício prévioNão são nada em comparação a istoDe verdade, perdemos o sensode verdade perdemos a humanidadede verdade perdemos a espiritualidadepor um vírus, sem bomba H nem mais nada.
sábado, 27 de março de 2021
O fato é que estou com nojo disto tudo (Paulo Abreu)
Diante de tanta comiseração humana
advém o desgosto, o enjoo e a repulsão
anexadas pela adversidade cruel e má
Semente do tédio, abalos e aflições
As agruras pelo abandono da paz plena em si
o amargor pela cumplicidade fratricida
a amargura de mortes banalizadas ao leo
serão a colheita de uma geração adormecida
Colheremos aqui e ali angústias e atribulações
choque de consciência perdida e enlouquecida
Degustaremos a futilidade da vida estúpida
embrenhada na dor até a comoção da alma
Tardiamente à logística dos contratempos
depois do desagrado geral e pontual
o cínico consolo será hostil, perverso e feérico
como cabem às lendas da falsa consternação
Experimentaremos o desprazer magno
O dissabor do fel da amarga vitória
a dor da existência vazia de sentimentos
em completa desolação interior
insatisfação, mágoa, mal-estar
padecimento, pena, pesar
ressentimento, sofrimento, tribulação
tristeza, ânsia e asco
Eis que valerão as versões invertidas
no fastio desta luta imoral, insidiosa,
Experimentaremos náuseas pela podridão exalada
na agonia plena da repugnância pela abominação
antipatia, desamor, desprezo
estranhamento, execração, horror
ódio, ojeriza, pavor
raiva, rancor e rejeição
Não encontraremos a palavra certa
pela recusa, repúdio e enfado, já arrependidos
pelo nosso lado ciente, prostrados em pranto
É isto aí!
Ausência - Vinicius de Moraes
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho desta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada
Fonte do Vídeo: Dani Carvalho
Fonte do poema: Poema Ausência - Vinicius de Moraes
O que há em mim é sobretudo cansaço — (Fernando Pessoa)
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimo, íssimo, íssimo,
sexta-feira, 26 de março de 2021
quinta-feira, 25 de março de 2021
Esta mulher me enlouquece
terça-feira, 23 de março de 2021
segunda-feira, 22 de março de 2021
Reserve o “Sinto muito” para quando você realmente cometer um erro.
domingo, 21 de março de 2021
Simboraláserfeliz!
sábado, 20 de março de 2021
domingo , 21 de março Dia Mundial da Poesia 2021
sexta-feira, 19 de março de 2021
Sorriso audível das folhas (Fernando Pessoa)
A dança e as crenças do tempo
A Natureza das Coisas (Accioly Neto) Cristina Amaral
quinta-feira, 18 de março de 2021
Espumas ao Vento ( Accioly Neto )
segunda-feira, 15 de março de 2021
Amará e não será amada! (Amanda Machado)
Louvor do Revolucionário (Bertold Brecht)
Alto lá
Quando a opressão aumenta
Muitos se desencorajam
Mas a coragem dele cresce.
Ele organiza a luta
Pelo tostão do salário, pela água do chá
E pelo poder no Estado.
Pergunta à propriedade:
Donde vens tu?
Pergunta às opiniões:
A quem aproveitais?
Onde quer que todos calem
Ali falará ele
E onde reina a opressão e se fala do Destino
Ele nomeará os nomes.
Onde se senta à mesa
Senta-se a insatisfação à mesa
A comida estraga-se
E reconhece-se que o quarto é acanhado.
Pra onde quer que o expulsem, para lá
Vai a revolta, e donde é escorraçado
Fica ainda lá o desassossego.
Bertold Brecht, in 'Lendas, Parábolas, Crónicas, Sátiras e outros Poemas'
Tradução de Paulo Quintela












