quarta-feira, 21 de julho de 2021

Cinco anos de solidão


Em agosto, Pindorama fará e ou comemorará e ou regozijará cinco anos de solidão. Haverá espaço para mais gozo pelos arrependidos dentre aqueles voluntariosos ingênuos da pátria que abraçaram a causa?

Para os romanos. ‘gaudium, ii’ significava alegria, satisfação, regozijo. Terencio dizia ‘lacrimare gaudio’ para expressar ‘chorar de alegria’, e Cícero, ‘gaudiis exultare’, com o sentido de estar transbordante de alegria.. Já na Política, o Gozo precede o mal estar.

¹"Freud escreve o Mal-estar na civilização para dizer-nos que tudo o que passa do gozo à interdição vai no sentido de um reforço sempre crescente de interdição. Todo aquele que se aplica em submeter-se à lei moral sempre vê reforçarem-se as exigências, sempre mais minuciosas, mais cruéis de seu supereu. Por que será que não ocorre o mesmo no sentido contrário? Não é absolutamente o caso, é um fato, e todo aquele que avança na via do gozo sem freios, em nome de qualquer forma que seja de rejeição da moral, encontra obstáculos cuja vivacidade sob inúmeras formas nossa experiência nos mostra todos os dias, e que, talvez, não deixam de supor algo único na raiz " (Lacan, 1959-1960/1988: 216-217).

²O paradoxo se entende, pois, pelo fato de que uma total submissão do sujeito à Lei e a moral não produz uma extinção do mal-estar; pelo contrário, como nos diz Freud, "são precisamente as pessoas que levaram mais longe a santidade as que se censuram da pior pecaminosidade" (Freud, 1930/1974: 149).

²Ou seja, quanto mais submisso à lei moral, mais cruel se apresenta o supereu para o sujeito. Podemos concluir que a ignorância imperativa da moral desconhece que, em sua tentativa de gerir o gozo, de aniquilá-lo, ela o produz na forma da submissão superegoica. O sujeito fica aí numa condição de apatia, subsumido à vontade de gozo do Outro.

Fonte² : O Gozo e o Poder 

É isto aí!

terça-feira, 20 de julho de 2021

Vista lateral na fila dos diálogos difíceis

- O próximo
- Sou eu.
- Você?
- Puxa vida, mal a reconheci.
- Você esqueceu mesmo de mim, hem!
- Nunca esqueci você, mas a da lembrança era diferente.
- O que você quis dizer com isto?
- Nada.
- Sempre o mesmo covarde.
- Eu tenho culpa de você estar mais bonita?
- Então me abandonou por que eu era feia?
- Não abandonei você.
- Não? Tem certeza? Covarde e mentiroso.
- Tenho certeza. Você mora dentro de mim.
- Sabe o que eu passei sem você?
- (silêncio)
- Tive abraços e beijos que nunca desejei.
- (silêncio)
- Tive momentos de completa solidão.
- (silêncio)
- Experimentei a dor da ausência, da sua ausência.
- (silêncio)
- Não vai falar nada?
- Não tenho argumentos que vençam sua mágoa. Adeus!
- Ei, volta aqui, eu ainda não acabei ...


Fonte da Imagem:
 The Shop Around the Corner (cena do filme USA 1940)
Obs.: Apenas utilizei a imagem - Não há este diálogo no filme. O filme The Shop Around the Corner, com Jimmy Stewart e Margaret Sullivan, que no Brasil ficou conhecido como A Loja da Esquina , trata-se de uma excepcional comédia romântica, clássica de Hollywood, sobre uma pequena loja em Budapeste e as pessoas que lá trabalham.

É isto aí!

segunda-feira, 19 de julho de 2021

Silenciosa Nostalgia (Milan Kundera)

Não quero dizer com isso
que havia deixado de amá-la,
que a esquecera,
que sua imagem desbotara;

ao contrário; 

ela morava em mim dia e noite, 
como uma silenciosa nostalgia; 

eu a desejava como se desejam 
as coisas perdidas para sempre


Fonte da imagem: 123RF

Sobre o autor:  Milan Kundera (1929) é um escritor e poeta tcheco, naturalizado francês. Autor de importantes obras, como - A Brincadeira, O Livro do Riso e do Esquecimento e A Insustentável Leveza do Ser - que o levaram a se tornar um dos mais consagrados escritores do século XX.

O Paradoxo de Moravec


As pessoas têm dificuldade em resolver problemas que exigem alto nível de raciocínio. Por outro lado, as funções motoras básicas e sensoriais, como caminhar, não são problemas.

Nos computadores, no entanto, os papéis são invertidos. É muito fácil para os computadores processarem problemas lógicos e complexos, como a elaboração de estratégias de xadrez por exemplo, mas é preciso muito mais trabalho para programar um computador para interpretar discursos, caminhar, sentir cheiros ou tomar decisões baseadas em aspectos subjetivos, o que o ser humano faz com facilidade.

Esta diferença entre a inteligência natural e artificial é conhecida como paradoxo de Moravec. Hans Moravec, um cientista de pesquisa no Instituto de Robótica da Universidade Carnegie Mellon, explica esta observação através da ideia de engenharia reversa nos nossos próprios cérebros.

A engenharia reversa é mais difícil para tarefas que os seres humanos fazem inconscientemente, como funções motoras. Porque o pensamento abstrato tem feito parte do comportamento humano há menos de 100 mil anos, a nossa capacidade de resolver problemas abstratos é consciente.

Portanto, é muito mais fácil para nós criarmos tecnologia que emula esse tipo de comportamento. Por outro lado, ações como falar e mover-se não são aquelas que temos de considerar ativamente, por isso é mais difícil de colocar estas funções em agentes de inteligência artificial.



O paradoxo de Moravec brinca com as nossas intuições de fácil e difícil. Ele literalmente transforma o fácil em difícil e o difícil em fácil. Ele diz o seguinte: é mais fácil fazer uma inteligência artificial realizar tarefas intelectualmente complexas, tipo ganhar do campeão do mundo de xadrez, do que realizar tarefas consideradas fáceis, que geralmente crianças conseguiriam fazer. Você consegue resolver esse paradoxo?



*Fonte do Texto: Paradigmas e Paradoxos:



domingo, 18 de julho de 2021

Discutindo a relação


Mentira, 
disse com o dedo em riste. 
Mentira! 
Exclamou com garbo e indiferença.

Ela olhou dentro dos seus olhos, 
com olhar amendoado e meigo, 
sem o desejo de triscar.

Não vai falar nada? 
O silêncio é a sua resposta?
Então é assim que funciona?

Ela adentrou seus olhos, 
com um ar doce e passional, 
sem vontade de falar.

Vai demorar este teatrinho? 
Vai ficar muda? 
É só o que sabe fazer?

Ela penetrou sua consciência, 
com o encanto peculiar, 
sem querer se pronunciar.

Vai ficar só me olhando
neste teste de mudez repentina? 
Que coisinha chata.

Ela resgatou suas memórias afetivas, 
com a expertise feminina, 
sem piscar, sem falar, sem pressa.

Aí ele começou a chorar ...


É isto aí!


sábado, 17 de julho de 2021

Haikai de Helena Kolody


tão longa a jornada!

e a gente cai, de repente,

no abismo do nada

Helena Kolody (1912-2004), primeira mulher a escrever e publicar haikais no Brasil, este gênero de poesia de três linhas, foi uma poetisa brasileira, considerada uma das maiores representantes literárias do Estado do Paraná.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

Encontros




Encontrei comigo
dia destes por aí
tentei ser educado
mal me contive

Parti logo aflito
para a área de conflito
qual é a sua de você
não ser meu amigo?

Tentei explicar o fato
inexplicável da dor
na vida que sigo.

Enfim dei-me a mão
abracei-me com força
nunca mais me abandono
 
É isto aí!




terça-feira, 13 de julho de 2021

Bateu saudade!


Pensou
numa
palavra
inédita
intrépida
a fim de
aquiescer
um rumo.
Aí bateu
desânimo.
Plano
fugaz
insólito.
Se se ama
só se ama
uma vez.
Saudade
quando 
invade 
não tem
sinônimo.

É isto aí!

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Por um lindésimo de segundo (Paulo Leminski)

 

tudo em mim
anda a mil
tudo assim
tudo por um fio
tudo estivesse no cio
tudo pisando macio
tudo psiu

tudo em minha volta
anda às tontas
como se todas as coisas
fossem todas
afinal das contas

Paulo Leminski

183 LEMINSKI, Toda poesia, 2013, p. 182.


No rastro da sua biografia



Rogo que crave em cada pecado
que na vida foi aperfeiçoando
e que deixará como legado
no rastro da sua biografia
junto à a alcunha de ladrão
autointitulada pela astúcia
não só apenas um ladrão,
mas tudo que envolve a trama

Daí virão os adjetivos
uns clássicos, outros cultos
uns elegantes, outros malditos
você não é apenas um ladrão,
mas também levará consigo
o que a sua existência construiu.

Larápio, trapaceiro, capoeiro
furtador, gato, gatuno
ladro, manata, pilha
pivete, punga, punguista
rato, ratoneiro, roubador

trombadinha, argamandel
bilontra, burlador, burlão
caloteiro, cambalacheiro
desonesto, escroque, esperto
falcatrueiro, intrujão, ludibriador

pandilha, patife, pilantra
safado, solerte, trambiqueiro
trapaçador, trapaceador
trapacento, tratante, velhaco
vigarista, enganador, espertalhão.


É isto aí!


Meu coração fugiu


Doutora, 
meu coração fugiu
não está mais aqui

Fugiu como?
Para onde,
se o ausculto bem? 

Não sei deste aí.
Meu coração pulsava,
urdia, ardia e surdia.

Frequência ótima
pulsação normal,
nada aqui ou ali.

Esquece, doutora,
meu coração fugiu
para longe de mim.

É isto aí!

domingo, 11 de julho de 2021

O Analista da Pitangueira - Sobre perdas e lugares.


- Boa tarde, eu queria registrar uma perda.

- A senhora veio ao lugar certo.

- E existe lugar errado?

- Não que eu saiba. Qual a razão da dúvida?

- Vai que perdi num lugar errado, aí não seria aqui.

- Fique tranquila. Só há um lugar e é aqui.

- Bem, fico mais aliviada em saber.

- A senhora perdeu o quê, exatamente?

- Então!!!!! Perdi tanta coisa, só não perdi ainda a Senhorita.

- Ah, sim! Entendi. Podemos listar tudo, se a senhorita preferir.
   
- Olha, melhor deixar. Muito obrigada pela sua atenção.

- Tem certeza? Estou aqui para atender no que for preciso para encontrar o que perdeu.

- É que eu não sei o que perdi, apenas sinto faltas, ausências, vazios.

- A senhorita poderia explicar com mais detalhes?
 
- Acho que sou uma pessoa que tem tudo que necessita e, entretanto, sinto um profundo vazio em meu interior. Minha sensação é que a existência não tem sentido, mesmo quando o meu ambiente demonstra exatamente o contrário. Sofro de um permanente estado vital paralisante.

- Entendo, senhorita.

- Você está sendo apenas empático ou realmente entende?

- Estou sendo sincero. 

- E eu sendo grossa e desagradável.

- Não, nada disto, é apenas a sua dor que está falando. Sei que aí dentro mora uma pessoa maravilhosa.

- Sabe? Como sabe?

- Não sei ainda, mas pretendo saber junto com a senhorita.

- Meu santo anjo da guarda, o senhor saberá todo o meu ser existencial, emocional, racional, sexual, comportamental, moral etecetera e tal?

- Não senhorita, com certeza. Mas daremos ênfase à partes dolorosas, digamos assim, ao se permitir aprofundar na sua existência e levar luz onde tem a escuridão. 

- Por que você se interessou por mim?

- Senhorita, eu busco as coisas perdidas e não sossego até encontrá-las. É minha missão.

- Puxa vida! Como faço para dar prosseguimento? Aqui é o que exatamente?

- Basta agendar, vou atende-la uma vez por semana, sempre neste horário. 

- Mas o que é aqui exatamente?

- Este é o lugar onde a senhorita encontrará o que procura. Tenha uma boa tarde. 

- Puxa!! Até semana que vem!! 

É isto aí!

sexta-feira, 9 de julho de 2021

A singularidade do acaso antes de partir.


Marido chega em casa pela madrugada, lua nova, céu estrelado e a mente nebulosa. Entra bem devagar, tira os sapatos e caminha para o quarto. Para na porta, decide ir para o banheiro, faz as ações esperadas, resolve tomar um banho quente e demorado. Enrola na toalha, vai à cozinha e faz um lanche reforçado. Sobre a mesa uma garrafa vazia de vinho rosè e apenas uma taça. Acha estranho, mas passível de ocorrer.

Passa pelo quarto das crianças, abre a porta a fim de dar uma conferida e não vê nenhuma delas. Devem estar com a mãe, pensou. Volta ao banheiro, escova os dentes e ainda de toalha segue para o quarto. Abre a porta devagar, não acende a luz, e apenas liga o celular para iluminar um pouco o caminho. Não vê as crianças - devem ter ido dormir na casa da avó, pensou.

Na cama, em pose sensualíssima e com lingerie erótica, descansa a esposa. Nunca havia reparado que ela era tão formosa. Jogou  a toalha no chão, desligou o celular e foi aproximando da musa da sua vida. Se entregaram a um desejo há muitos anos latente. Tudo sob a lua nova e o brilho das estrelas.

Amanheceu com um grito desesperador ao seu lado. Acordou assustado, deu um salto com extrema agilidade, ainda nu, e ao olhar para a fonte do grito, deu com a vizinha estarrecida com a situação. - Eu posso explicar, disseram ambos concomitantemente. Se entreolharam - não sei como isto aconteceu, disseram novamente em uníssono. Sorriram diante da singularidade.

Vestiram-se duas horas depois, ele seguiu para sua casa e ela seguiu com a sua vida. Mudou-se naquela mesma tarde para local incerto e não sabido. Não pelo evento, a família foi na frente e ficou apenas para despachar a mudança.

É isto aí!

quinta-feira, 8 de julho de 2021

A moça do vestido godê rodado


 
Foi acordando e telefonou logo cedo para agendar um horário com a dentista. Ninguém atendeu. Achou aquilo estranho, mas poderia ser coincidência. Era a terceira ou quarta vez que ligava e ninguém atendia. Será que ela me abandonou? Estranho, muito estranho, nos vimos semana passada, nos demos um ao outro a permissão de sentirmos nossos desejos interpessoais e agora isto.

Voltou a dormir e no sonho a encontrou num café, destes com mesas na calçada. Conversavam carícias, carinhos, contos de calor humano e tantas outras coisas que se conversa com uma dentista. Surgiu então uma moça muito bonita, num vestido godê rodado, parou à sua frente e fez a pergunta difícil - olá, você se lembra de mim?

Olhou para a moça, ficou encantado com sua beleza, mas de repente reconheceu nela uma senhora de 90 anos, depois olhou com atenção e surgiu uma mulher com cerca de 50 anos e só então retornou à moça do vestido godê rodado. Ao virar o rosto para a dentista, ela havia desaparecido. Procurou-a com os olhos e voltou à moça, que já não se encontrava mais ali. 

Colocou a mão direita na testa, fechou os olhos e tentou entender o que estava acontecendo. Ao abrir estava sentado na beira da cama, num quarto que desconhecia. O telefone, daqueles modelos antigos de mesa, toca. Atende e era a dentista confirmando o horário. Sorriu, suspirou aliviado e foi tomar um banho.

Ao abrir a porta do banheiro, deparou com a moça do vestido godê rodado, em pé, escovando os dentes. Olhou-a com ares de indagação, recuou, fechou a porta e ao dar o primeiro passo, percebeu-se nu em plena Avenida Rio Branco, na altura da Halfeld, no centro da pequena  e pacata Juiz de Fora, simpática vila do interior mineiro. Reconheceu a esquina e olhou para onde deveria existir o painel "Cavalinhos", de Portinari, e lá havia o desenho da moça de vestido godê rodado. 

Uma delicada mão feminina tocou no seu ombro e disse algo suave. Virou-se assustado e agora estava num imenso sofá, sendo acordado pela dentista. Abraçou-a e se pôs a chorar até a exaustão do choro. Levantou-se, recompôs a mente, os pensamentos, tomou um banho e saiu. Na rua deu-se conta que não sabia onde estava, tentou retornar ao prédio, mas não havia nenhum prédio. Em pânico, sentou-se no meio fio e uma mão suave tocou-lhe o ombro. Era a moça do vestido godê rodado. 

Está preparado? - perguntou a moça.

Acho que sim, respondeu.

Deram-se as mãos, tomaram uma distância da rua até encostarem numa parede, olhando-o com carinho, ela  perguntou - pronto?

Pronto.

Correram na direção da rua, saltaram do meio fio e mergulharam no infinito. 

Quando voltou a si, na cadeira do consultório, a dentista, sorrindo com os olhos, perguntou - está tudo bem?


É isto aí!


quarta-feira, 7 de julho de 2021

05 - Odete, a imortal da Academia de Letras Góticas do Paranoá


Nesta fria noite de inverno fui acordado pelo zoar do meu simpático e descartável smart oriental, o décimo segundo smart oriental pós Nokia, o imbatível analógico, guardado no cofre como garantia finlandesa de que tudo que é bom deveria ser conservado. Não reconheci o número, mas o prefixo era de Brasília. Atendi e, puxa vida, era Odete, a imortal da Academia de Letras Góticas do Paranoá, a famosa ALGP.

Reza a lenda que certa vez, numa polêmica CPI regada a muito whisky, com ambiente mais animado que a Sunset Strip em Los Angeles nos anos 1970, onde ninguém era de ninguém, Odete entrou na área vip como backing vocal de um famoso sexteto sertanejo cantando Love Street do The Doors, em ritmo guarânia. No meio do caos, vendo o fiasco do processo, sob vaias felpudas,  Odete viu a luz e teve a clareza súbita de realizar um inenarrável, inesquecível e épico strip-tease da lanterna. Naquele dia e naquela hora transformou-se na musa Imortal da Academia de Letras Góticas do Paranoá, pois nada se comparava à sua beleza natural interior, segundo confessou emocionado um dos velhinhos do senado, diretor presidente do Clube Oficial de Pubefilia de Pindorama (o famoso COPPIN).

— Odete!!! Puxa vida!! Você? Aqui?

— Sim, amore, ¡soy yo misma!

— Caramba, como estou feliz!!

— Sério? Você me abandonou, me trocou por aquela fulaninha e agora está feliz?

— Calma, Odete, eu não troquei você por nenhuma malabarista ...

— Eu sabia! Eu sabia! Finalmente confessou!

— Odete, o que a traz aqui às três horas da manhã, me fazendo feliz?

— Mudou de assunto, mas tudo bem, já vi que a concorrência é desleal. Mas amore, eu liguei por que precisava te contar algo que está entalado na minha garganta, sem carinho, sem premissas, sem o aconchego da luz neon. 

— Abra seu coração, querida!

— Uau!! Me chamando de querida! Gostei!! Como sabe, só revelo as coisas quando as fontes são fidedignas.

— Sim, claro, querida, sei disto.

— Uau, segundo querida da madrugada. Amore, vem me ter em Brasília ...

— Odete, minha flor, vamos nos ater ao assunto, depois vamos ao nosso deleite.

— Magoadinha ..., massimboralá. Dia destes estava curtindo o inverno planaltino na piscina coberta e aquecida do Telinho Golpan, famoso por ser colecionador de coisas que importam, digamos assim. Ao meu lado conversavam animadamantes (você não ouviu errado - animadamantes é para aquelas pessoas, bem, já entendeu; conversavam a Juju Traíra com uma pessoa que não estou autorizada a identificar, mas você sabe quem, aquela pessoa daquele dia que eu falei sobre aquele assunto, onde contei aquelas coisas que aquela pessoa seria e foi capaz de fazer com euzinha.

— Sei quem é, Odete. Só não sabia que ele foi capaz de fazer com você.

—  Então, amore. Fez, foi bom e foi ruim, mas foi gostoso, mas doeu, mas foi excitante, mas ...

—  Tudo bem, Odete, já entendi.

—  Então, depois daquele dia, encontrei com Margô, que disse ter escutado do Escovinha, que por sua vez soube através da Gagal, que por sua vez ouviu de sua amante Cacá, que é íntima confidente do Tiaguinho, namorado ficante da Juju Traíra, que esta confidenciou ao Tiaguinho, que é como um irmão para mim, que ouviu daquele que não posso falar, que ele autorizou à Betinha, uma prima distante, dar seguimento à operação oceânica.

—  Muita gente, hem!!

—  Amore, toda história secreta tem enredo de validação. 

—  Mas o que vem a ser esta operação oceânica?

—  Então, amore. Fiz a mesma pergunta à Margô. Dias depois, Margô me convidou para um exercício tântrico de libertação total, com Teófillus, que teria a resposta a esta pergunta, segundo levantou Margô com Afonsinho, seu personal sex trainer. 

—  Personal sex trainer? Existe isto?

—  Cala a boca e me escuta, amore. Teo é o mago tântrico do Paranoá. Como todo mundo aqui em Brasília, ele também trabalha para o grande sistema, na quinta secretaria do sexto departamento da terceira diretoria vinculada ao quarto escalão do segundo ministério. Após o ápice do ser/estar do exercício tântrico, naquele momento de intimidade e ternuras, Teo comentou que na véspera estava no banheiro do departamento fazendo um dossiê ultrassecreto, quando ouviu no banheiro ao lado dois distintos cavalheiros, um conhecidíssimo e o outro, que é o sombra daquele que não estou autorizada a identificar. 

—  Estou atento

—  E aí o Sombra dava instruções claras ao distinto cavalheiro de como aprovar a lei que coloca Pindorama anexa ao que verdadeiramente interessa de fato. Apresentariam dois geólogos da percepção esférica e dois da percepção plana, os quatro de fama internacional, afirmando que uma extensão de terra submarina que vai daqui ao outro plano é a prova concreta que valida a conexão e a adesão de fato e de direito ao dono desta gigante e selvagem gleba austral.

— Querida, nem sei o que dizer, é muita informação ...

— Amore, esquenta com isto não, vem me ter em Brasília, vem. E para de desligar o wi-fi para dormir, assim poderei ligar e mostrar minhas qualidades de manejo dos cinco sentidos. Vem, amore, vem logo me ter em Brasília, larga daquela fulaninha ...

— Sim, espere, vou ligar o ... tum tum tum ... droga, odeio estes digitais.

É isto aí!!

terça-feira, 6 de julho de 2021

O que vou escrever aqui não é da sua conta.



É engraçado sair pelas ruas e avenidas da rede e ver pessoas até há poucos dias arrogantes, estarem com aquele olhar de indiferença, como se não fossem eles os cúmplices de tudo isto que está aí. Destilaram ódio por anos a fio sem pestanejar, agrediram pessoas, processos, ideologias, e se não fosse isto o suficiente, transgrediram leis, mentiram, distorceram a realidade só para se adequar ao seu mesquinho  interesse de gozo do poder pelo poder.

Não sei como desvencilhará o que está cada dia mais soçobrando pelo conjunto da obra atual, pode ser que aconteça ou não algo mais extremo, mas de qualquer forma perdemos todos. Sinto muito pela geração que nasceu neste século e que colherá apenas um fragmento do que outrora foi um projeto de futuro.   

Não vejo o ex-presidente como uma solução, nem sequer como viável para resgatar o progresso. Teve sua oportunidade. Há uma cultura política no país de castração de novas lideranças, e desde a década de 1980, sem exceção, todas as lideranças castraram as novas potenciais lideranças, de tal forma que até hoje quando precisamos avançar, a única coisa que fazemos é olharmos para trás.

O que temos de concreto é que o medo do novo é atávico na cultura política do país

Fomos capazes de fazer o inacreditável e agora não vejo saídas a curto prazo. Neste momento nenhuma opção colocada na mesa expõe suas ideias, seus projetos, as modelações e remodelações, bem como atos revogatórios de ações que destruíram a capacidade deste país ter um futuro do presente real e tangível. Isto que está hoje nas ruas, avenidas e palanques virtuais apenas permite que nada avance novamente e que apenas continue como está.

Imagem: Independência ou Morte, 1888, óleo sobre tela, 415 cm x 760 cm, Pedro Américo, Museu Paulista da USP, São Paulo.

É isto aí!

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Vamos falar das políticas públicas em prol do bem comum



- Alô, eu gostaria de falar com Vossa Excelência sobre as políticas públicas em prol do bem comum

Ok! Entendi! Vamos falar das políticas públicas em prol do bem comum

Vamos falar das políticas públicas em prol do bem

Vamos falar das políticas públicas em prol

Vamos falar das políticas públicas

Vamos falar das políticas 

Vamos falar

Vamos 

- Tem como me transferir para um humano?

Ok! Entendi! Aguarde

Aguarde, sua ligação

Aguarde, sua ligação é muito

Aguarde, sua ligação é muito importante

Aguarde, sua ligação é muito importante para nós.

Aguarde, sua ligação é muito importante para

Aguarde, sua ligação é muito importante ...

- Vai demorar?

Ok! Entendi! No momento todos os nossos atendentes estão ocupados, por favor aguarde em breve você será atendido

No momento todos os nossos atendentes estão ocupados, por favor aguarde em breve você será atendido

No momento todos os nossos atendentes estão ocupados, por favor aguarde em breve

No momento todos os nossos atendentes estão ocupados

No momento todos os nossos atendentes estão

Aguarde! Vamos transferir sua ligação.

Aguarde! Vamos transferir 

Aguarde

Atenção, Isto é uma gravação. Após o sinal, desligue. Seu número já está registrado no sistema, nos sistemas, no sistema, num sistema, noutro sistema ...

No momento nossas Políticas são exclusivamente Privadas. Políticas Públicas não é mais neste numero.

Senhor X, para sua segurança comunicamos que o senhor já foi identificado pelos nossos sistemas.

Temos todas as informações ao seu respeito e seu questionamento está gravado no nosso sistema. 

Agradecemos o seu contato e a sua preocupação em prol do bem comum.

Nós somos o bem comum! Passar bem!

tum tum tum tum ... 

silênciiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiioo


É isto aí!



domingo, 4 de julho de 2021

quinta-feira, 1 de julho de 2021

O paradoxo do seu olhar



Vou partir

e buscar o não 

o impossível

o imponderável

o indivisível

o imaginário

e quando chegar

não volto mais

ao paradoxo

do seu olhar

lendo Maiakovski:

"Afora

o teu olhar

nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.

Amanhã esquecerás

que eu te pus num pedestal,

que incendiei de amor uma alma livre,

e os dias vãos — rodopiante carnaval —

dispersarão as folhas dos meus livros...

Acaso as folhas secas destes versos

far-te-ão parar,

respiração opressa?"


É isto aí!


Trecho do Poema incidental  Lílitchka! (Em lugar de uma carta), escrito em 1916 pelo poeta russo  Vladimir Maiakovski, com tradução do poeta Augusto de Campos.

Imagem: Nude gold doodle on black background



Sobre nós


Humanos,

centenas

de milhares,

covardemente

silenciados.

Judas

vendeu-se

por

trinta 

moedas

de prata.

Hoje

o custo

é apenas

um George.

 

É isto aí!


Fonte da imagem: Mistérios da Numismática - Moeda de Prata do século I