Você é doida demais — II
Carta destinada à moça mais linda da Vila Pitanguinha, que tinha 15 anos quando fui embora. Achei esta foto no fundo da mala que trouxe comigo, herança da Vó Austera. Lembra dela? Lembra quando ela deu esta mala para nós dois irmos embora? Aí você me entregou esta foto, tirada pelo Zenóbio da Luz, para nunca mais te esquecer.
Flor, novamente esqueci seu nome.
Acho que lembrei seu nome. Estou na dúvida entre Branca ou Clara, mas eu te chamo de Flor Menina.
Seu endereço ainda me lembro bem: é a terceira casa voltada para o sol poente, depois da Ponte Quebrada, subindo pelo Córrego do Pato. Na frente, tem duas mangueiras centenárias e um pé de abacate.
Prezada Flor Menina,
Depois do nosso último encontro onírico, faltou ar e sobrou suor. Que maravilha foi aquela, hein? Dentre todas as vantagens de ter você assim, agarradinha ao meu corpo, travada, abraçada, uma delas é que, quando estou nos seus braços, eu sei que é real.
Dia destes, você vai acreditar, porque sou eu quem está narrando nossa história de amor. Do anoitecer de terça para a manhã de quarta, vi que você teve várias crises de enjoo. Matutei, matutei e logo pensei, num estalar de sonhos, que estava grávida. Aquilo foi um delírio para meus olhos.
Adormeci no seu colo e espia só minha alegria atravessando dois mundos e chegando com nossa menina. Sim, eu sei quando é menina, sei sabendo, ué. Aflito para provar minha teoria de que nós dois somos um só em tempo integral, metafisicamente — acho linda esta palavra —, não sei o que significa, mas me dá até arrepio. Espia os cabelinhos esticando.
Bom, corri à farmácia do senhor Boticário Erlenmeyer, um alemão gigante, mal-humorado e barrigudo, bem na Praça da Matriz. Contei para ele, revelei nosso romance, como foi, como é, como somos um dentro do outro, de modo que queria saber do tal teste de gravidez.
Seu Boticário cerrou os olhos de bicho assustado, deu dois passos para trás, pegou um porrete na prateleira e deu um taco tão grande no balcão de peroba-rosa que senti minhas tripas desfibrilarem. No segundo golpe, abaixei rápido, e o taco passou rente ao couro cabeludo. Saí de quatro, depressa, feito cachorro zangado.
Mas que homem mais ignorante, pensei cá comigo, dentro de mim. Quando dei com a avenida, disparei em direção ao coreto para me proteger do maluco do seu Boticário. Acabei adormecendo; acordava vez ou outra com você acariciando meus cabelos. Acabei em sono profundo e acordei naquela manhã linda de outono com uma neném no meu colo. Batizei-a ali mesmo de Folha do Outono.
É isto aí!

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