domingo, 23 de fevereiro de 2014

Vá à merda, meu amor!


Atenção - Este texto não é meu
Autor desconhecido

O noivo escreveu um poema para noiva um pouco antes do casamento:

Que feliz sou, meu amor!
Domingo estaremos casados,
O café da manhã na cama,
Um bom sumo e pães torrados

Com ovos bem mexidinhos
Antes de ir pro trabalho
Tudo pronto bem cedinho
Pra inda ires ao mercado

Depois regressas a casa
Rapidinho arrumas tudo
E corres pro teu trabalho
Para começares o teu turno

Tu sabes bem que, de noite
Gosto de jantar bem cedo
De te ver toda bonita
Com sorriso lerdo e querido

Pela noite mini-séries
Cineminhas dos baratos
E nada, nada de shoppings
Nem de restaurantes caros

E vais cozinhar pra mim
Comidinhas bem caseiras
Pois não sou dessas pessoas
Que só comem baboseiras...

Já pensaste minha querida
Que dias gloriosos?
Não te esqueças, meu amor
Quem breve seremos esposos!

Como resposta, a noiva escreveu um poema para o noivo

Que sincero meu amor!
Que linguagem bem usada!
Esperas tanto de mim
Que me sinto intimidada

Não sei de ovos mexidos
Como tua mãe adorada,
Meu pão torrado se queima
De cozinha não sei nada!

Gosto muito de dormir
Até tarde, relaxada
Ir ao shopping fazer compras
de Visa, tarjeta dourada

Sair com minhas amigas,
Comprar roupa da melhor
Sapatos só exclusivos
E as lingeries pro amor

Pensa bem... ainda há tempo
A igreja não está paga
Eu devolvo o meu vestido
E tu o fraque de gala

E domingo bem cedinho
Em vez de andar aos "PAIS",
Ponho aviso no jornal
Com letras bem garrafais:

*HOMEM JOVEM E BONITO
PROCURA ESCRAVA BEM LERDA
PORQUE A EX-FUTURA ESPOSA
DECIDIU MANDÁ-LO À MERDA!*****

O Blog, Picasa e eu



Perdi todas as imagens postadas no Blog. Nada sério, tudo bem, foram só imagens que transmitiam minha percepção do texto naquele exato instante.

Ocorre que alguma coisa, talvez um virus, um programa diferente, um processo desconhecido, etc. e tal promoveu esta coisa.

Recorrendo aos que dominam a coisa, a perda é irreversível. Acontece como merdas acontecem.

Vou, aos poucos, recuperando as imagens, e salvando no Picasa, como aprendi hoje. Tudo bem, tudo bem... não estou com pressa.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Tête Raphaëlesque éclatée [Exploding Raphaelesque Head]



Fonte da imagem: Wikipédia Tête Raphaëlesque éclatée Salvador Dali

Após a explosão atômica sobre Hiroshima em 1945, Dalí pintou uma série de cabeças e figuras fragmentadas. Algumas das formas que formam a cabeça nesta pintura são em forma sólida e fálica - inspirado por chifres de rinoceronte. A área superior do quadro, com o halo e nuvens marrons lembra fotografias de explosões atômicas. O rosto feminino, com sua expressão terna e halo fino, é reconhecível como o rosto de uma Madonna de Rafael. Dalí era um grande admirador de pinturas dos Velhos Mestres. A seção de crânio neste trabalho baseia-se no interior da cúpula do edifício Pantheon, em Roma.

Following the atomic explosion over Hiroshima in 1945, Dalí painted a number of fragmented heads and figures. Some of the shapes that form the head in this painting are solid and phallic shaped - inspired by rhinoceros horns. The upper area of the painting, with the halo and brown clouds resembles photographs of atomic explosions. The female face, with its tender expression and thin halo, is recognisable as the face of a Madonna by Raphael. Dalí was a great admirer of Old Master paintings. The skull section in this work is based upon the inside of the dome of the Pantheon building in Rome.



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Noite cheia de estrelas - Martinho da Vila





Página no Youtube: Martinho da Vila
Fonte no Youtube: Noite cheia de estrelas
Provided to YouTube by Sony Music Entertainment

Noite Cheia De Estrelas
Cantor · Martinho Da Vila
Autor:  Cândido das Neves  (Índio) (1932)

Disco Sentimentos
℗ 1981 BMG BRASIL LTDA.
Released on: 1981-09-17
Composer, Lyricist: Indio (Cândido das Neves/ 1932)
Producer: Rildo Hora
Auto-generated by YouTube.

Sobre a música:


Contrastando com o humor irreverente de Noel Rosa e Lamartine Babo, 1932 teve também o romantismo derramado de Cândido das Neves em “Noite cheia de estrelas”. Filho do palhaço, cantor e compositor Eduardo das Neves, Cândido – conhecido como “Índio”, apesar de ser negro – foi um seguidor de Catulo da Paixão Cearense, notabilizando-se como autor de canções seresteiras.

Exemplo disso é “Noite cheia de estrelas”, um tango-canção cheio de imagens rebuscadas e palavras escolhidas no dicionário: “as estrelas tão serenas / qual dilúvio de falenas / andam tontas ao luar / todo astral ficou silente / para escutar / o teu nome entre endechas / as dolorosas queixas / ao luar…”. Gravada por Vicente Celestino, a canção é um clássico dos repertórios do cantor e do autor

Responsável por uma série de serestas antológicas, Cândido das Neves, o Índio (Rio de Janeiro, 24/7/1899-idem, 4/11/1934), “Noite cheia de estrelas” foi impressa como canção, mas o público, para decepção de Cândido, não correspondia às suas esperanças. 

Vicente Celestino então intuiu que o compositor deveria mudar o ritmo. Em sua casa, Índio foi experimentando até acertar com o andamento de tango-canção. Com isso, o êxito foi extraordinário. Saiu pela Columbia em abril de 1932, disco 22105-B, matriz 381199, curiosa e erroneamente rotulada como “valsa-canção”. Até hoje, “Noite cheia de estrelas” é uma das mais admiráveis páginas do cancioneiro nacional, com melodia e versos primorosos. O próprio Vicente Celestino regravaria a composição em outras oportunidades.

Sobre a Letra:

Noite alta, céu risonho
A quietude é quase um sonho
O luar cai sobre a mata
Qual uma chuva de prata
De raríssimo esplendor
Só tu dormes não escutas
O teu cantor
Revelando à lua airosa
A história dolorosa
Deste amor.

Lua, manda tua luz prateada
Despertar a minha amada
Quero matar meus desejos
Sufocá-la com meus beijos
Canto
E a mulher que eu amo tanto
Não me escuta está dormindo
Canto e por fim
Nem a lua tem pena de mim
Pois ao ver que quem te chama sou eu
Entre a neblina se escondeu.

Lá no alto a lua esquiva
Está no céu tão pensativa
E as estrelas tão serenas
Qual dilúvio de falenas
Andam tontas ao luar
Todo o astral ficou silente
Para escutar
O teu nome entre as endeixas
Nas dolorosas queixas
Ao luar.






Manha De Carnaval - Sungha Jung (2nd time)


Fonte da imagem: Sungha Jung Wikipédia 


É a canção mais popular de Luiz Bonfá e Antônio Maria, gravada na trilha sonora do filme Orfeu Negro, em 1959. Esta canção se tornou tradicional nos meios de jazz estadunidense e é tocada regularmente também por muitos artistas internacionais. É considerada uma das mais importantes canções no mercado do jazz brasileiro nos Estados Unidos da América, que ajudou a estabelecer o movimento da bossa nova no final da década de 1950.

Sungha Jung nasceu em 2 de setembro de 1996 na Coreia do Sul. Observando seu pai, começou a tocar aos 9 anos de idade. Costumava não ter partituras para tocar, ouvia as músicas e tirava de ouvido, atualmente toca com partituras e algumas são enviados pelos próprios autores. 

É conhecido pelo seu jeito diferente de tocar, que mesmo tendo partituras originais da música, ele faz modificações. Já fez arranjos de músicas como "Missing You", "Starseeker", "Voyages with Ulli", etc...

Sungha treina aproximadamente 2 horas por dia, e demora 2 ou 3 para aprender uma nova música às vezes até uma semana para as mais difíceis no violão. Seu antigo violão foi feito sob medida para ajustar ao tamanho de seu corpo, e foi autografado por Thomas Leeb que escreveu "Keep on grooving to my friend". 


Fonte Youtube: Manha De Carnaval - Sungha Jung (2nd time)

Adios Nonino - Astor Piazzolla

Fonte da imagem: Bandoneón / Wikipédia


Hoje é considerado o compositor de tango mais importante da segunda metade do século XX, ironicamente, quando começou a fazer inovações no tango, no ritmo, no timbre e na harmonia, foi muito criticado pelos tocadores de tango mais antigos. Ao voltar de Nova Iorque, Piazzolla já mostrava a forte influência do jazz em sua música, estabelecendo então uma nova linguagem, seguida até hoje.

Quando os mais ortodoxos, durante a década de 1960, bradaram que a música dele não era de fato tango, Piazzolla respondia-lhes que era música contemporânea de Buenos Aires. Para seus seguidores e apreciadores, essa música certamente representava melhor a imagem da metrópole argentina.

Piazzolla deixou uma vasta e prolífica discografia, tendo gravado com Gary Burton, Antônio Carlos Jobim, entre outros músicos que o acompanharam, como o também notável violinista Fernando Suarez Paz.

Entre seus mais destacados parceiros na Argentina estão a cantora Amelita Baltar e o poeta Horacio Ferrer, além do escritor Jorge Luís Borges.

Algumas de suas composições mais famosas são "Libertango" e "Adiós Nonino". "Libertango" é uma das mais conhecidas, sendo que esta e constantemente tocada por diversas orquestras de todo o mundo.

A canção "Adiós Nonino", outra das mais conhecidas composições, foi feita em homenagem ao seu pai, quando este estava no leito de morte, Vicente "Nonino" Piazzolla em 1959.



Eladia Blázquez (Gerli, Província de Buenos Aires, Argentina, 24 de fevereiro de 1931 - Buenos Aires, 31 de agosto de 2005) foi uma cantora e compositora argentina de tango. Considerada a poetisa do gênero, soube conquistar o carinho das pessoas com sua arte e sua coerência.


Poema de Eladia Blázquez

Desde una estrella al titilar...
Me hará señales de acudir,
por una luz de eternidad
cuando me llame, voy a ir.
A preguntarle, por ese niño
que con su muerte, lo
perdíiacute;,
que con "Nonino" se
me fue...
Cuando me diga, ven aquí...
Renacereacute;... Porque...

Soy...! la raíz, del país
que amasó con su arcilla.
Soy...! Sangre y piel, del
"tano" aquel,
que me dio su semilla.
Adiós "Nonino"..
que largo sin vos,
será el camino.
Dolor, tristeza, la mesa y el
pan...!
Y mi adiós.. Ay! Mi adiós,
a tu amor, tu tabaco, tu
vino.
Quién..? Sin piedad, me robó
la mitad,
al llevarte
"Nonino"...
Tal vez un día, yo también
mirando atrás...
Como vos, diga adiós No va
más..!

Y hoy mi viejo
"Nonino" es una planta.
Es la luz, es el viento y es
el río...
Este torrente mío lo
suplanta,
prolongando en mi ser, su
desafío.
Me sucedo en su sangre, lo
adivino.
Y presiento en mi voz, su
propio eco.
Esta voz que una vez, me sonó
a hueco
cuando le dije adiós Adiós
"Nonino".

Soy...! La raíz, del país
que amasó con su arcilla...
Soy...! Sangre y piel,
del "tano" aquel,
que me dio su semilla.
Adiós "Nonino"...
Dejaste tu sol,
en mi destino.
Tu ardor sin miedo, tu credo
de amor.
Y ese afán...Ay...! Tu afán
por sembrar de esperanza el
camino.
Soy tu panal y esta gota de
sal,
que hoy te llora
"Nonino".
Tal vez el día que se corte
mi piolín,
te veré y sabré... Que no hay
fin.

Paulinho Pedra Azul - Custe o que custar




Paulinho Pedra Azul, nome artístico de Paulo Hugo Morais Sobrinho (Pedra Azul, Minas Gerais Gerais, 3 de agosto de 1954) é um cantor, escritor, poeta, artista plástico e compositor brasileiro.

Nasceu na cidade de Pedra Azul, no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Além de músico, com 27 discos gravados, também é autor de 200 telas a óleo e acrílico e de 17 livros.

Sua carreira artística teve início por volta dos 13 anos de idade, na segunda metade da década de 1960, inicialmente com as artes plásticas. Enveredando pela música participou de um conjunto chamado “The Giants”, em que trabalhou com Rogério Braga, Mauro Mendes, Marivaldo Chaves, Salvador, Edmar Moreira e André, interpretando canções dos Beatles, The Fevers, Os Incríveis, Erasmo e Roberto Carlos, dentre outros.

Iniciou a carreira artística como guitarrista e violonista fazendo apresentações em boates, festas e reuniões empresariais. Passou também a acompanhar diferentes artistas em programas de televisão. Por volta de 1961, fez uma excursão de 65 dias com o cantor Cauby Peixoto e, ao retornar, teve sua primeira música gravada, a balada “Meu amor minha maldade”. Foi um dos precursores do rock brasileiro apresentando com seu grupo The Blue Jeans Rock nos programas apresentados por Jair de Taumaturgo, na Rádio Mayrink Veiga e na TV Rio. 

Em 1961, compôs com Renato Corte Real a canção "Só você", a primeira de várias a serem gravadas por Roberto Carlos. Em 1965, conheceu seu maior sucesso com a balada "Aquele beijo que eu te dei", lançada no LP "Roberto Carlos canta para a juventude". Em 1966, teve gravada a música "Não precisa chorar", que foi bastante tocada nas Rádios. Em 1967, novo sucesso, desta vez com "Você deixou alguém a esperar" lançada no LP "Roberto Carlos em ritmo de aventura".

Em 1968, Roberto Carlos lançou o LP "O inimitável" que teve como um de seus principais sucessos a balada "Ninguém vai tirar você de mim", parceria com Hélio Justo. No ano seguinte, foi gravada pelo Rei da Juventude a música "Não adianta".

Em 1970, fez em parceria com Helena dos Santos "O astronauta", também sucesso na voz de Roberto Carlos. Teve ainda gravadas por Roberto Carlos as músicas "Agora eu sei", com Helena dos Santos em 1972, "Custe o que custar", com Hélio Justo, em 1976; "Recordação", com Helena dos Santos em 1982 e "Custe o que custar", com Hélio Justo, regravada em 1994.


Custe o que custar
Helio Justo, Edson Ribeiro

Já não sei dizer se sou feliz ou não
Já nem sei a quem eu dou meu coração
Preciso acreditar que gosto de alguém
E essa tristeza

Vai ter que acabar, e custe o que custar
As vezes sinto até vontade de chorar
Preciso ter alguém que possa compreender
Minha desilusão

Até pensar que nunca mais vou ter alguém pra mim
Eu já pensei assim, até sofri demais
Será meu Deus enfim
Que eu não tenho paz






Gisele Goes


Não é fácil dizer adeus a uma pessoa que partiu sem dizer adeus. Em sua página na rede social está a citação deste salmo. Faz sentido, mas é um sentido que não desejamos nos aprofundar nele. 

Às margens dos rios de Babilônia,
nos assentávamos chorando,
lembrando-nos de Sião.

Nos salgueiros daquela terra,
pendurávamos, então, as nossas harpas,
porque aqueles que nos tinham deportado pediam-nos um cântico.

Nossos opressores exigiam de nós um hino de alegria:
Cantai-nos um dos cânticos de Sião.
Como poderíamos nós cantar um cântico do Senhor em terra estranha?

Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém,
que minha mão direita se paralise!
Que minha língua se me apegue ao paladar,
se eu não me lembrar de ti,
se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias.

Contra os filhos de Edom,
 lembrai-vos, Senhor, do dia da queda de Jerusalém,
quando eles gritavam:
Arrasai-a, arrasai-a até os seus alicerces!

Ó filha de Babilônia, a devastadora,
 feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste!
Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos,
para os esmagar contra o rochedo!

Tem dia que é duro


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Poema em linha reta (Fernando Pessoa)

"Poema em linha reta" é uma obra de Fernando Pessoa, assinada pelo seu heterônimo Álvaro de Campos, escrita entre 1914 e 1935. O poema fala de maneira irônica sobre a hipocrisia da sociedade, sobre pessoas que escondem seus defeitos e fraquezas, mostrando-se como seres perfeitos.

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, Mártires, 13 de junho de 1888 – Lisboa, Santa Catarina, 30 de novembro de 1935) foi poeta, filósofo, dramaturgo, ensaísta, tradutor, publicitário, astrólogo, inventor, empresário, correspondente comercial, crítico literário e comentarista político português e é considerado como o mais universal poeta português.

Poema em linha reta:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Aline Hrasko e Thiago perovano - Novos Baianos - acabou chorare


Fonte da imagem: Esteja presente em um GIF  
Autor da imagem: François Beaurain é um artista francês multitalentoso e viajante mundial que documenta suas andanças com fotografias, pinturas e alguns gifs muito fofos estrelando as pessoas que conhece pelo caminho. Confira seu site e blog para ver o que ele tem feito ultimamente.


"Acabou Chorare" é a faixa-título do álbum homônimo de 1972 dos Novos Baianos. A canção, que deu origem ao título do disco, foi escrita por Luiz Galvão e musicada por Moraes Moreira. Luiz estava estranhando a quantidade de abelhas que haviam entrado pelo apartamento e pousavam em sua mão. Segundo ele próprio conta:

"Telefonei para João Gilberto contando que estava fazendo uma letra sobre essa relação com a abelhinha. João me disse: 'Fenomenal! Eu estava falando com o poeta Capinan, e ele lembrava que a abelha beija a flor e faz o mel, e eu gostei e completei: E ainda faz zun-zun.' Perguntei a João: 'Posso usar isso?' E ele aprovou dizendo: 'Deve'. Não parou por aí, João contou-me que Bebel, sua filha, quando eles moraram no México, levara uma pancada [...] e ele, preocupado, acudiu com a aflição de pai nessas horas, mas Bebel reagira corajosamente e, na sua inocência de criança, falava uma língua em formação, acalmando-o: Não, acabou chorare."

"Acabou Chorare", que foi gravada inicialmente e cantada por Moreira e possui apenas um acompanhamento de seu violão e, depois, da craviola de Pepeu Gomes, é explicitamente influenciada em João Gilberto, quase uma imitação de sua estética e voz, e tem um grande traço de bossa nova. A canção terminou norteando toda a proposta do disco homônimo, de trazer à tona um país alegre e jocoso, em contraste com aqueles anos tristes que assolavam o Brasil.

 Cantora / Compositora / Professora de canto / Produtora em Vila Velha-ES

domingo, 5 de janeiro de 2014

Apenas uma volta


Autor - Luiz Fernando Veríssimo

— Onde você vai?
— Vou sair um pouco. 
— Vai de carro?
— Sim. 
— Tem gasolina? 
— Sim. coloquei. 
— Vai demorar?
— Não. Coisa de uma hora.
— Vai a algum lugar específico? 
— Não. Só rodar por aí. 
— Não prefere ir a pé?
— Não. Vou de carro. 
— Traz um sorvete pra mim!
— Trago. Que sabor? 
— Manga.
— Ok. Na volta eu passo e compro.
— Na volta? — Sim. Senão derrete. 
— Passa lá, compra e deixa aqui... 
— Não. Melhor não! Na volta. É rápido! 
— Ahhhhh! 
— Quando eu voltar eu tomo com você! 
— Mas você não gosta de manga! 
— Eu compro outro. De outro sabor. 
— Aí fica caro. Traz de cupuaçu! 
— Eu não gosto também. 
— Traz de chocolate. Nós dois gostamos.
— Ok! Beijo. Volto logo... 
— Ei! 
— O quê? 
— Chocolate não. Flocos.
— Não gosto de flocos! 
— Então traz de manga prá mim e o que quiser prá você. 
— Foi o que sugeri desde o começo! 
— Você está sendo irônico?
— Não tô! Vou indo. 
— Vem aqui me dar um beijo de despedida! 
— Querida! Eu volto logo. depois. 
— Depois não. Quero agora! 
— Tá bom! (Beijo) 
— Vai com o seu ou com o meu carro? 
— Com o meu. 
— Vai com o meu. Tem cd player. O seu não! 
— Não vou ouvir música. Vou espairecer. 
— Tá precisando? 
— Não sei. Vou ver quando sair! 
— Demora não!
— É rápido. (Abre a porta de casa) 
— Ei! 
— Que foi agora? 
— Nossa! Que grosso! Vai embora! 
— Calma. estou tentando sair e não consigo! 
— Porque quer ir sozinho? Vai encontrar alguém? 
— O que quer dizer? 
— Nada. Nada não! 
— Vem cá. Acha que estou te traindo? 
— Não. Claro que não. Mas sabe como é? 
— Como é o quê? 
— Homens! 
— Generalizando ou falando de mim? 
— Generalizando. 
— Então não é meu caso. Sabe que eu não faria isso! 
— Tá bom. Então vai. 
— Vou. 
— Ei! 
— Que foi, cacete? 
— Leva o celular, estúpido! 
— Prá quê? Prá você ficar me ligando? 
— Não. Caso aconteça algo, estará com celular.
— Não. Pode deixar. 
— Olha. Desculpa pela desconfiança, estou com saudade, só isso! 
— Ok, meu amor. Desculpe-me se fui grosso. Tá... eu te amo! 
— Eu também! Posso futricar no seu celular? 
— Prá quê? 
— Sei lá! Joguinho! 
— Você quer meu celular prá jogar? 
— É.
— Tem certeza?
— Sim. 
— Liga o computador. Lá tem um monte de joguinhos! 
— Não sei mexer naquela lata velha! 
— Lata velha? Comprei pra a gente mês passado! 
— Tá... Ok. Então leva o celular senão eu vou futricar.
 — Pode mexer então. Não tem nada lá mesmo. 
— É? 
— É. 
— Então onde está? 
— O quê? 
— O que deveria estar no celular mas não está. 
— Como? 
— Nada! Esquece! 
— Tá nervosa? 
— Não. Tô não. 
— Então vou! 
— Ei! 
— O que ééééééé, caralho? 
— Não quero mais sorvete não!
— Ah é? 
— É! 
— Então eu também não vou sair mais não! 
— Ah é? 
— É. 
— Oba! Vai ficar comigo? 
— Não vou não. Cansei. Vou dormir! 
— Prefere dormir do que ficar comigo? 
— Não. Vou dormir, só isso! 
— Está nervoso? 
— Claro, porra! 
— Por que você não vai dar uma volta para espairecer? 

sábado, 4 de janeiro de 2014

Família moderninha


Atenção - Este texto não é meu - Copiei e colei - mas desconheço o autor.

Mãe, vou casar!
Jura, meu filho ?! Estou tão feliz ! Quem é a moça ?

Não é moça. Vou casar com um moço.. O nome dele é Cacau.
Você falou Cacau... Ou foi meu cérebro que sofreu um pequeno surto psicótico?

Eu falei Cacau. Por que, mãe? Tá acontecendo alguma coisa?
Nada, não... Só minha visão que está um pouco turva. E meu coração, que talvez dê uma parada. No mais, tá tudo ótimo.

Se você tiver algum problema em relação a isto, melhor falar logo...
Problema ? Problema nenhum. Só pensei que algum dia ia ter uma nora... Ou isso.

Você vai ter uma nora. Só que uma nora... Meio macho.
Ou um genro meio fêmea. Resumindo: uma nora quase macho, tendendo a um genro quase fêmea... E quando eu vou conhecer o meu. A minha... O Cacau ?

Pode chamar ele de Biscoito. É o apelido.
Tá ! Biscoito... Já gostei dele.. Alguém com esse apelido só pode ser uma pessoa bacana. Quando o Biscoito vem aqui ?

Por quê ?
Por nada. Só pra eu poder desacordar seu pai com antecedência.

Você acha que o Papai não vai aceitar ?
Claro que vai aceitar! Lógico que vai. Só não sei se ele vai sobreviver.. . Mas isso também é uma bobagem. Ele morre sabendo que você achou sua cara-metade. E olha que espetáculo: as duas metades com bigode.

Mãe, que besteira ... Hoje em dia ... Praticamente todos os meus amigos são gays.
Só espero que tenha sobrado algum que não seja... Pra poder apresentar pra tua irmã.

A Bel já tá namorando.
A Bel? Namorando ?! Ela não me falou nada... Quem é?

Uma tal de Veruska.
Como ?

Veruska...
Ah !, bom! Que susto! Pensei que você tivesse falado Veruska.

Mãe !!!...
Tá.., tá..., tudo bem...Se vocês são felizes. Só fico triste porque não vou ter um neto ..

Por que não ? Eu e o Biscoito queremos dois filhos. Eu vou doar os espermatozódes. E a ex-namorada do Biscoito vai doar os óvulos.
Ex-namorada? O Biscoito tem ex-namorada?

Quando ele era hétero... A Veruska.
Que Veruska ?

Namorada da Bel...
"Peraí". A ex-namorada do teu atual namorado... E a atual namorada da tua irmã . Que é minha filha também... Que se chama Bel. É isso? Porque eu me perdi um pouco...

É isso. Pois é... A Veruska doou os óvulos. E nós vamos alugar um útero...
De quem ?

Da Bel.
Mas . Logo da Bel ?! Quer dizer então... Que a Bel vai gerar um filho teu e do Biscoito. Com o teu espermatozóide e com o óvulo da namorada dela, que é a Veruska.

Isso.
Essa criança, de uma certa forma, vai ser tua filha, filha do Biscoito, filha da Veruska e filha da Bel.

Em termos...
A criança vai ter duas mães : você e o Biscoito. E dois pais: a Veruska e a Bel.

Por aí...
Por outro lado, a Bel....,além de mãe, é tia... Ou tio... Porque é tua irmã.

Exato. E ano que vem vamos ter um segundo filho. Aí o Biscoito é que entra com o espermatozóide. Que dessa vez vai ser gerado no ventre da Veruska... Com o óvulo da Bel. A gente só vai  trocar...
Só trocar, né ? Agora o óvulo vai ser da Bel. E o ventre da Veruska.

Exato!
Agora eu entendi ! Agora eu realmente entendi...

Entendeu o quê?
Entendi que é uma espécie de swing dos tempos modernos!

Que swing, mãe ?!!....
É swing, sim ! Uma troca de casais... Com os óvulos e os espermatozóides, uma hora no útero de uma, outra hora no útero de outra.....

Mas...
Mas uns tomates! Isso é um bacanal de última geração! E pior... Com incesto no meio..

A Bel e a Veruska só vão ajudar na concepção do nosso filho, só isso...
Sei !!! ... E quando elas quiserem ter filhos...

Nós ajudamos.
Quer saber ? No final das contas não entendi mais nada. Não entendi quem vai ser mãe de quem, quem vai ser pai de quem, de quem vai ser o útero,o espermatozóide. .. A única coisa que eu entendi é que...

Que.... ?

Fazer árvore genealógica daqui pra frente... vai ser impossível.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Penas do Tiê




Penas Do Tiê
De: Domínio Público

Vocês já viram lá na mata a cantoria
Da passarada quando vai anoitecer
E já ouviram o canto triste da araponga
Anunciando que na terra vai chover

Já experimentaram guabiroba bem madura
Já viram as tardes quando vai anoitecer
E já sentiram das planícies orvalhadas
O cheiro doce da frutinha muçambê

Pois meu amor tem um pouquinho disso tudo
E tem na boca a cor das penas do tié

Quando ele canta os passarinhos ficam mudos

Sabe quem é o meu amor, ele é você




quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Se todos fossem iguais a você




Se Todos Fossem Iguais a Você
Vinicius de Moraes

Vai tua vida,
Teu caminho é de paz e amor
Vai tua vida é uma linda canção de amor
Abre os teus braços
E canta a última esperança
A esperança divina de amar em paz

Se todos fossem iguais a você
Que maravilha viver
Uma canção pelo ar,
Uma mulher a cantar
Uma cidade a cantar,
A sorrir, a cantar, a pedir
A beleza de amar
Como o sol,
Como a flor,
Como a luz
Amar sem mentir,
Nem sofrer

Existiria verdade,
Verdade que ninguém vê

Se todos fossem no mundo iguais a você


Fonte Youtube: Raíssa Amaral



Ausência



Ausência
Vinicius de Moraes


Eu deixarei que morra em mim
o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar
senão a mágoa de me veres eternamente exausto
No entanto a tua presença
é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto
existe o teu gesto e em minha voz a tua voz
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim
como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar
uma gota de orvalho
nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como nódoa do passado
Eu deixarei...
tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos
e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu,
porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite
e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa
suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só
como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém
porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente,
a tua voz ausente,
a tua voz serenizada.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Bicarbonato da Vó Nena.


Dona Nena mergulhou na xícara de chá de uma maneira súbita. Bateu no fundo, ganhou impulso e chegou à margem de uma paradisíaca enseada. Ouviu gritos estranhos. Ao levantar os olhos, deparou com pigmeus com face pouco amistosa, que corriam nus em sua direção, com armas em punho.

Buscou uma saída rápida, correu para um túnel à sua esquerda, ganhou impulso, deu um salto por sobre uma pedra, e aterrissou em uma salada de frutas com chantilly,  repleta de frutas vermelhas. Mantendo um pífio equilíbrio por entre as cerejas e morangos, chegou à beira da taça e desceu pela colher, como se fosse um imenso tobogã de prata.

Ganhando uma velocidade estonteante, ao se aproximar do final em curva, percebeu que foi arremessada a uma velocidade supersônica, plainando em harmoniosos e lentos movimentos, até ser amortecida em queda por uma densa nuvem de algodão, que devido ao impacto do peso, desceu suavemente até o chão, permitindo sua saída de forma segura e tranquila.

Estando outra vez em solo, lembrou-se dos pigmeus nus, mas não teve tempo para amedrontar, pois ratazanas gigantes sentiram seu cheiro e galopavam alucinantemente em sua direção, sendo salva por uma sereia voadora, que como um anjo, a sequestrou em súbito e permitiu que fosse parar em segurança, presa ao cordão do saquinho de chá.

Subiu pelo cordão, chegou ao topo e percebeu que estava em casa, e sabia que ali era terreno conhecido e seguro. Pulou em cima do açucareiro, e desceu suavemente pela colher, como lembrou de já ter ocorrido. Adormeceu ali mesmo, por horas a fio, por sobre a toalha xadrez da mesa da cozinha.

Foi acordada por seu neto, tocando-a com delicadeza:

- Vó, acorda vó...vó...acorda...

- Hã...hum...ah! é você João Carlos...e o abraçou com um profundo suspiro.

- Não é João Carlos mais, vó, já te falei um tantão de vezes, é White Pepper, vó, agora sou White Pepper.

- Para mim é João Carlos.

- Vó, a senhora viu um envelopinho que deixei debaixo do forno de microondas?

- Um pacotinho de bicarbonato? Vi, João Carlos, estava com uma gastura imensa na barriga, tomei e sarei...

- Vó, já falei para a senhora não mexer naqueles envelopinhos. O bicarbonato está no armário do banheiro.

- Ah, João Carlos, eu conheço um envelope de bicarbonato a cem metros de distância. Além disto bicarbonato é remédio prá tudo desde quando eu era criança, e não me faz mal nenhum...

- Hã-hã, sei vó, sei...


É isto aí!

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A tristeza de Olivia


Olívia era uma moça triste. Vivia suspirando pelos cantos, pelas frestas dos cantos, atrás das portas, dos portais e dos umbrais. Olhos amendoados, semi-abertos, olhar longínquo. Pálida, olhos azuis, cabelos negros, mãos finas e triste, sempre triste.

O que lhe falta Olivia? - perguntavam os amigos. Nada, não me falta nada. Sou triste.
O que você tem Olivia? - Nada, não tenho nada. Sou triste.
O que aconteceu Olivia? Nada, não aconteceu nada. Sou triste.

Olivia não trazia consigo uma entediante melancolia profunda e incessante; nada impedia a execução das atividades normais do dia a dia. Nunca perdeu o interesse em atividades sociais; não tinha nenhuma dificuldade de raciocínio e concentração.

Não tinha irritabilidade ou ansiedade, nem apresentava fadiga constante, muito menos alterações nos hábitos de sono, como excesso de sonolência ou insônia. Nunca passou pela sua cabeça pensamentos mórbidos sobre morte e suicídio. Seu apetite era normal e não tinha tendência ao isolamento.

Não tinha dor de cabeça, nem cólica menstrual, nem era chata ou deselegante com as pessoas. Olivia era triste. E isto incomodava muito aos outros, mas não a ela. Perguntava sempre: por que as pessoas têm a obrigação de serem felizes? 

Olivia refletia sobre este fato: a obrigação de ser feliz o tempo todo está virando uma obsessão a ponto de causar angústia nas pessoas verem alguém triste. Ora bolas, a felicidade é efêmera por definição, por isso, as pessoas que só pensam nela sofrem muito mais e se distanciam das pequenas alegrias da vida.

A tirania da felicidade, segundo Olivia, faz com que as pessoas, hoje em dia, sofram também por não querer sofrer, do mesmo modo que se pode adoecer de tanto procurar a saúde perfeita. Não é à toa que os antidepressivos são um sucesso arrebatador nas farmácias, e os bares ficam cheios de pessoas sorrindo alcoolizadas.

Afinal, o que é a felicidade? Haverá tema mais infeliz? A mídia, o poder público e o comércio transformaram a felicidade em direito e, coisa pior, em dever. 

É isto aí!

domingo, 22 de dezembro de 2013

O outro



Alfredo acordou diferente naquela manhã. Sentiu-se outro. Virou para o lado, viu uma mulher desconhecida, sensualíssima, formosa, seminua, ao alcance do seu mais profundo desejo. Avançou sobre aquele monumento humano e a possuiu como um deus no Monte Olimpo. Fizeram de tudo, de todas as formas, de todas as maneiras, de todos os jeitos e de todos os ângulos possíveis permitidos pela física.

Deixou-a em êxtase no aconchegante ninho de amor e se dirigiu ao banheiro. Tomou um demorado banho, cantou as mais românticas músicas francesas que denominava com fluência nativa. Terminado, voltou ao quarto. Ela estava encantada e tão sedutora que Alfredo não resistiu. Se amaram como não houvesse o amanhã.

Saiu apressadamente para o trabalho, pegou sua pasta sem verificar a agenda, correu para o ponto, tomou o ônibus, desceu sem notar que estava sem relógio, sem tempo e sem sapatos. Entrou apressadamente no edifício onde tinha um grande escritório de consultoria financeira. Ninguém notou sua falta de tempo e sua falta de sapatos, pois estas coisas são íntimas e pessoais.

Ao entrar solitário no elevador, virou-se para o grande espelho do fundo. Alfredo teve um colapso - aquele não era ele. Desmaiou e quando acordou estava em um hospital já a tres dias, inconsciente.

Carlos olhou para os lados, viu sua esposa dormindo no pequeno sofá...sussurrou para ela...Stella...Stella...
Ela abriu os olhos e um sorriso maravilhoso. Diga-me Stella, foi ele de novo?

- Sim, Carlos, foi ele de novo.
- Meu Deus, Stella, este outro em mim me apavora.
- Não, Carlos, seu outro é de uma candura indescritível.
- Caramba, Stella, você gosta de mim ou do outro?
- Claro que é de você, seu bobinho...e deram um selinho básico.

Naquela noite Carlos teve uma ruminante relação matrimonial com Stella. Na manhã seguinte Alfredo acorda e a volúpia estonteante promove o alcance do Nirvana entre os dois. Stella se abraça a Alfredo, como uma adúltera obcecada e obsessiva e pede tudo o que possa ser mais. Alfredo penetra em todos os seus poros, parte seu desejo em centenas de desejos, explodem em prazer e parte sem dizer adeus.

Assim Stella passa a ter um amante invejável, dentro de casa, sem promover nenhuma ruptura em sua vida social. Carlos sabe deste transtorno dissociativo de identidade, mas prefere ignorar o outro que habita em si. E o outro, ah! o outro, é um animal possuindo a fêmea no cio...

É isto aí!

Eu te amo, eu te odeio, sei lá!



- Eu te amo, falou Marcinho, enquanto franzia a testa, cerrava os olhos e unia os lábios em posição de ataque.

- Ah, está bem, comentou Emilinha, marcando distância com a mão esquerda sobre o ombro direito de Marcinho, com o braço ligeiramente esticado.

- Como assim "está bem"? Eu te amo Emilinha, o que mais espera de mim?

- Ainda pressionando com o braço o corpo teso e inclinado de Marcinho: Nada, não posso esperar mais nada.

- Emilinha, casais que se amam se entregam ao encontro do amor. Onde está sua afetividade?

- Acho que deixei na sorveteria...aquele sorvete de casquinha com cobertura de chocolate...hummm...

- Você não está levando meus sentimentos a sério...

- Marcinho, olha que coisa ridícula nós dois!

- Emilinha, um tal de Fernando Pessoa falou que todas as cartas de amor são ridículas.

- Como você é ridículo, Marcinho.

- Meu amor por você, Emilinha, é o caminho a ser percorrido na busca pela felicidade, pois, é uma única experiência na qual posso obter a mais intensa experiência referente a uma transbordante sensação de prazer.

- Caramba, para de confundir as coisas, Marcinho, que papo é este de prazer comigo?

- Emilinha, desejo que saiba que escolhi a via do amor sexual com e por você como tentativa de encontrar a felicidade.

- Marcinho, isto o fará se tornar dependente de parte do mundo externo de uma maneira bastante perigosa, pois, a dependência do objeto amoroso escolhido, pode causar-lhe um sofrimento extremo caso perca seu objeto.

- Emilinha, saiba que a busca pelo objeto de amor, que é você, representa uma tentativa de recuperar meu narcisismo infantil perdido, a fim de retornar à sensação ilusória de onipotência e completude vivenciada em minha relação primitiva com minha genitora.

- Acabou, Marcinho...

- Emilinha, não, por favor não...

- Marcinho, por favor, acabou...

- Emilinha, eu te suplico...por favor...

- Márcio Antônio Fragoso Fontes, faça o favor de sair desta sala agora. Estou mandando! Seu tempo acabou.

- Detesto quando me chama pelo nome completo...Eu odeio você quando manda em mim e faz isto só para parecer com minha mãe...Emilinha, eu te odeio...tudo bem, tudo bem...eu vou embora...

- Semana que vem, no mesmo horário, Marcinho, não se atrase...

É isto aí!