domingo, 11 de janeiro de 2015

Dúvida razoável

Senhores jurados, Meritíssimo, sou inocente. Tudo começou quando nasci. Morava no Paraíso, daí um Anjo abruptamente pegou-me, trazendo meu corpo miúdo e nu a esta terra desolada. Ao aqui chegar, pequeno, indefeso, estranho a tudo, passei a  ser dependente de um casal esquisito, que me chamava de filho

Ohhhhh - vaias - gritos! 
- Silêncio!!! Silêncio. Prossiga.

Como está escrito naquele livro daquele pessoal, sou imagem e semelhança do Criador. Assim, ao me ver libertado do mal da maçã, que dominou minha vida, deduzi que todos os meus crimes estavam perdoados, pois estava perdido e fui encontrado.

Ohhhhh - blasfêmia, calúnia, pecador... Silêncio!!! 
- Mais uma manifestação e esvazio a sala. Prossiga.

Bem, daí resolvi processar o mal que me habitava em vinte e cinco milhões de reais, por tudo que manifestou em mim, e também, pela omissão, processo ao Criador que me deu o livre arbítrio e não me impediu de pecar, roubar, matar, molestar, etc e tal. Também a ele peço vinte e cinco milhões de reais de indenização.

Mas o senhor está abrindo um processo contra o Estado e contra a sua igreja?

Exatamente, sim e não, e neste caso a minha solicitação é que o Estado pague pelo prejuízo causado nesta peleja do bem contra do mal, e para isto rogo pela Responsabilidade Civil Subjetiva, já que a teoria da irresponsabilidade estatal que prevalecia nos Estados absolutistas não existe em um Estado de Pleno Direito. Quanto à Igreja, não é verdade, meu processo é direto com a Diretoria Celestial.

O senhor é louco?

Não, Meritíssimo, mas como a teoria da responsabilidade civil subjetiva está ancorada em três alicerces: a culpa, o dano e o nexo causal, eu como sou vítima de um dano celestial e humano, rogo por esta indenização, pois aqui mesmo demonstrei a culpa do ofensor e o nexo causal entre a conduta daquele e o dano a mim promovido.

O senhor tem parentes próximos a quem o estado deve orientar uma tutela?

Não, Meritíssimo, sou filho único, e quando meu pai morreu, eu devia uma fortuna a ele, mediante uma dívida moral na qual acordamos em cem milhões de reais, desta forma passei a ser credor de mim mesmo, e agora quero receber pelo menos 50% deste crédito para me ajudar a ter uma vida razoável neste vale de lágrimas.

Mas neste caso a dívida é automaticamente anulada. Não se pode processar a si mesmo.

A mim mesmo não, mas existe o outro em mim, cuja tutela cabe ao Estado e a outra ao Criador. 

Processo suspenso até que o Outro e Deus venham depor.

Meritíssimo, não pode fazer isto, não pode. Eu tenho a procuração do Outro, eu protesto...

É isto aí!

2015 - Chegou a Era da Nanotecnologia

Odete não liga faz tempo. A comoção pelas ocorrências palacianas nos últimos noventa dias a deixaram meio que abalada, segundo me confidenciou sua amiga Creuzinha, prima da cunhada da vizinha da namorada do Cleudmar, um servidor público destes de corredor palaciano. 

Ainda por cima, vieram as festas de final de ano e esta ressaca de janeiro, que não acaba. Aqui na Pitangueira sabemos que o ano promete muitas mudanças, muito trabalho, muita coisa a ser feita e muitos projetos sendo colocados sobre a mesa, afinal 2015 é um ano bom, destes imperdíveis.

Teve a tragédia do avião na Indonésia, e ainda não refeitos, veio a tragédia em Paris, cuja única certeza são os mortos, tirando isto tudo são cinzas e nuvens carregadas. Tudo isto um dia terá um fim, mas hoje devemos olhar para o que está começando a despontar nas nossas vidas.

É o começo, mas o começo do quê? Começo do futuro - bem vindo ao tempo que foi sonhado por todas as gerações que nasceram e morreram neste planeta. Você, que agora lê este texto, e é um viajante do tempo, trouxe até aqui as informações do passado e agora as transformará em algo totalmente diferente - um novo céu e uma nova terra surgem na ponta da ciência.

Chegamos ao princípio da Era da Nanotecnologia, que aos poucos está invadindo todas as áreas científicas, desde a Engenharia, passando pelas Artes, Música, Diversão, Química, Física, chegando nas Ciências Biológicas onde o objetivo é atingir todos os níveis de criação, selando definitivamente a morte. 

Outro dia volto ao tema, por hoje desejo Um Feliz Ano Novo!

É isto aí!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Seu Juca no Divã da Pitangueira

Bem, Seu Juca, podemos iniciar nossa conversa pelo motivo da sua vinda à clínica. 

Olha doutor, na realidade não sei bem por que estou aqui. Foi a Carlotinha que ficou martelando na minha cabeça o tempo todo da necessidade de procurá-lo.

Hummm, entendo. E Carlotinha é a sua esposa?

Nããããõ, longe disto, ela é uma mocinha que aprecio por aí.

Aprecia... pode explicar para mim esta sua relação com a Carlotinha?

Éééé´... olha só, tenho mesmo que falar sobre isto?

Não necessariamente, poderemos voltar ao assunto depois. Mas ela veio com o senhor?

Ficou maluco? Carlotinha aqui? Nem morto. O lugar dela é onde ela está.

Entendo, mas volto a perguntar - por que ela o enviou à clínica?

São as coxas, doutor, as coxas. Eu sou tarado por coxas de mulher. Sabe aquelas coxas nuas que perambulam sob um corpo esguio por estes dias de verão? Aquelas coxas carnudas, lisas e gostosas das mulheres quando o calor aumenta e as roupas diminuem? Então, é isto. Eu sou tarado por elas. Tenho vontade de sair alisando, apalpando, agarrando, mordendo, beijando, lambendo e esfregando minhas mãos em todas elas. É um negócio que mexe comigo, sabe, uma loucura dentro de mim.

E daí, o senhor chega a abordar estas moças?

Não, isto não. Mas eu fico nervoso, minhas mãos suam, e, sabe - como vou falar... olha só, de homem para homem, aquilo me excita. Excita muito mesmo. Fico doido.

Seu Juca, o senhor é casado?

Sim, claro, 25 anos de casado e bem casado.

A sua esposa, o que ela pensa disto?

Mas o que é isto, doutor? Ficou maluco?Acha que vou contar uma coisa destas para ela? Ela já está bem velha, tem quarenta e tantos anos, não tem nem interesse nem necessidade em saber disto.

Mas e a Carlotinha?

Pois é, então, a Carlotinha eu apanhei na roça e trouxe a princípio para morar lá em casa, mas ela é uma delícia. Tem umas coxas... hummm... até babo só de falar. Aí eu comecei a sentir estas coisas, sabe, foi com ela. Aquelas roupinhas curtas, aquelas coxas, nossa, puxa vida, que par de coxas, eu não aguentava mais.

Mas o senhor...

Não, eu sou um homem sério, nunca pensei em trair minha esposa dentro de casa, mas aquilo estava mais forte que eu. Olha só, doutor, estou jovem, só com quarenta e poucos anos, sei que não pareço ter tudo isto, tenho a força plena e cultivo a minha capacidade mental em plena carga. Mas aí, deixa eu falar, mas aí... é... então, deu que eu precisava resolver aquilo, daí arranjei uma quitinete para ela morar e onde a gente podia passar uns tempos, longe dos curiosos.

E ela? Como aceitou isto?

Ela, a Carlotinha? Adorou. Sabe, eu gosto de ver suas coxas, deliro. Ela coloca saias curtas, vestidos - uau, os vestidos da Carlotinha, com as coxas à mostra e costas nuas. Puxa vida, eu fico alucinado. Entende, doutor, este é o meu estímulo visual, sem isto não tenho vontade.

Fale um pouco da sua infância e da sua mãe, Seu Juca, vamos dar um passeio na sua vida.

Minha mãe? Qual é a sua doutor? É tarado pela mãe dos outros agora, é? Bem que me falaram que o senhor era esquisitão, e eu não acreditei.

Não tem nada disto, Seu Juca. O senhor está aqui por um problema, e avançaremos no campo da análise para verificarmos se este problema é maior do que simplesmente a sua vontade apresenta.

Sim, mas o senhor colocou minha mãe, minha santa mãezinha na questão. Isto eu não admito. Eu não sou louco.

Eu não disse isto. Mas já que tocou no assunto, vamos supor uma pessoa que estivesse diante de uma loucura qualquer, um desejo alucinante ou um comportamento bizarro, então ela provavelmente teria apenas o sentido de falsificação violenta da realidade, de tentativa de tradução violenta, como uma identificação projetiva, que buscaria pôr sentido onde não há. O senhor entende?

Olha Doutor, isto não está certo. Primeiro me cobra para saber se gosto de mulher. Eu gosto, depois fica querendo saber como gosto, eu explico direitinho, direitinho, aí vem e fala da minha santa mãezinha, e depois isto - que eu sou doido.

Não tem nada disto, Seu Juca, é que em alguns casos o paciente pode ter criado uma ilha, que ele habita e preserva. Essa ilha, Seu Juca, é, talvez, a projeção, não no sentido imagético-geométrico, da relação com sua mãe.

É a merda daquela vaca que te largou no pasto, doutor. Vai pro inferno, vai se tratar desta tara pela mãe dos outros, por que eu vou atrás das minhas coxas.

Semana que vem no mesmo horário, Seu Juca?

Sim, pode manter este horário mesmo.

É isto aí!


domingo, 28 de dezembro de 2014

Metas para 2015


Metas para ..., 2012; 2013; 2014 com TAC para 2015 (Termos de ajusta de Conduta)

1 - Vou emagrecer
2 - Vou ficar rico

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Um conto de Natal

Estava na cidade onde nasci, no interior do interior de Minas Gerais. Depois que fui embora, esta é a segunda vez que retornava. A noite era longa e dolorosa; a sensação era de que o tempo estacionara numa plataforma de embarque e lá ficara. O calor úmido abafado, o ventilador lento, a água tépida na jarra e o cansaço eram as companhias mais desagradáveis e indesejáveis do mundo.

A morte é momento de dor e reflexão, pensava, enquanto a enfermeira ajeitava o meu pai no leito, já em incansável agonia de luta e desespero pelo fio da vida que ainda teimava em resistir. 

Nunca nos demos, nunca fomos amigos, nunca conversamos sobre algum assunto de interesse mútuo. Cresci sem ouvir conselhos. Meu pai era um homem simples, trabalhador, tinha a virtude de ser um homem correto, honesto e alegre, mas estas percepções eram na rua e no trabalho.

Aos filhos, todas as noites, eram apenas um homem confuso, bruto e alcoolizado, que batia, brigava e atropelava quaisquer manifestações de carinho. Minha  mãe não se manifestava. Depois das surras ou broncas, entravam para o quarto e durante anos eu e as duas irmãs ficávamos imaginando o que ele fazia de tão ruim para que ela gemesse alto e ele a xingasse. Às vezes minha mãe gritava tanto que íamos dormir agarrados uns aos outros chorando.

Assim, dia após dia, semana após semana, anos a fio, a cena não mudara - pai alcoólatra, mãe submissa e filhos órfãos de carinho. Aos dezesseis anos fui embora pra o Rio de Janeiro. Voltei aos quarenta e dois no velório dela e agora aos cinquenta e três anos para acompanhar seu calvário. Minhas irmãs, que nunca mais vi, foram juntas para São Paulo dois anos depois da minha partida. Mamãe é que dava as notícias quando eu telefonava e ele ficava lá de longe, aos berros - desliga esta merda, esta desgraça nem sabe mais como estamos e fica ligando... depois que desligava, ficava imaginando os dois no quarto, ela gemendo e ele falando palavrões.

Recebi o telefonema da minha tia para que viesse rapidamente me despedir . A princípio desejei não voltar. Aquilo era demais para mim. Apanhara por tudo e por nada, nem sequer me deu uma bala chita de presente, nunca soube onde estudei, nem mesmo em que me formei. Um bêbado, ruminava, enquanto ela implorava pela minha presença.

Ainda não rompeu a alvorada, e o tempo estava meio esquisito, com chuva e apagões elétricos. Meu pai... puta que o pariu... que pai foi este? Quem é este homem moribundo na minha frente? Chamou-me com as mãos para que aproximasse. Tive medo, receio e nojo, mas fui chegando na cama. Levantou a mão direita trêmula, afagou meu rosto, olhou na minha alma e pediu perdão de uma forma que não sei explicar. Choramos muito, abracei-o - era o meu pai. Despediu-se assim, com meu perdão e com o abraço que nunca tive... naquela manhã de Natal.

É isto aí!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Amália Rodrigues - "tudo isto é fado"

Entre pontos

Alto lá - Este texto não é meu
Copiei e Colei
Autora - Marta Godoi
Fonte - https://www.facebook.com/marta.siqueiradegodoisampaio?fref=nf

Minha avó desfiava o algodão dos caroços com mãos pacientes e firmes. Com os dedos em pinça ia transformando-o em fio grosso que ia fuso para afinar. A linha rústica resultante desse processo era enrolada em carretéis de sabugo de milho e tinha várias serventias - Costuras a mão, remendos, amarras de embrulhos e até como fio para atar as incisões feitas pelos capadores de porcos.(umas das cenas mais cruéis que já vi).

A chegada das máquinas de costura a mão e de pé mudou comportamento e imagem da grande família, composta por umas vinte pessoas. Isso trouxe novidades: a "linha comprada", a "costureira formada em Belo Horizonte" (minha mãe) e a compra de "peças" de tecidos que o meu entusiasmado avô comprava em São Domingos do Prata. 

Mulheres, além da lida com a casa iam à costura. Do trec trec da tesoura a cortar tecidos em formas curvas, retas, miudinhas sobre mesa de madeira, da cantoria dos pedais velozes e das peças que surgiam, eu com os olhos na altura da mesa, tinha a mais absoluta certeza de que aquelas mulheres eram mágicas. Elas eram para mim as mulheres mais poderosas do mundo. O enfiar da linha até a agulha da máquina era um dos rituais decisivos para pertencer a esse mundo. Era a garantia do ponto perfeito. 

No final do dia as máquinas eram cuidadosamente cobertas com panos brancos alvejados em anil. Eram relíquias. Um tempo depois, era só olharmos para os varais. Camisas, vestidos, saias, calças, calçolas, lençóis, panos de prato, toalhas de mesa. Quase tudo era feito com o mesmo tecido. Um dia, eu usava um tubinho de um tecido em algodão floral bem delicadinho, e, quando olho para o velador de madeira que era usado para coar café, o coador era feito com o mesmo tecido. Mimetização total com a casa, com as coisas da casa, com as gentes da casa. De fio em fio, de ponto em ponto e de peça em peça aquela casa sempre vestiu meu corpo, minha pele. E desse vestir posso, quando quero, como agora, desnudar minha alma.

domingo, 21 de dezembro de 2014

A Justiça

Atenção - Este texto não é meu
Copiei e colei
Autor desconhecido - Circula na Internet há alguns anos sem crédito do autor. Foi extraído de um blog, cuja data, até o presente momento é a mais antiga, sendo balizada aqui como referência: 
https://montanhasrn.wordpress.com/2012/08/24/o-texto-do-dia-aula-de-direito/

Primeiro dia de aula, o professor de ‘Introdução ao Direito’ entrou na sala e a primeira coisa que fez foi perguntar o nome a um aluno que estava sentado na primeira fila:

- Qual é o seu nome?

- Chamo-me Nelson, Senhor.

- Saia de minha aula e não volte nunca mais! – gritou o desagradável professor.

Nelson estava desconcertado. Quando voltou a si, levantou-se rapidamente, recolheu suas coisas e saiu da sala. Todos estavam assustados e indignados, porém ninguém falou nada.
- Agora sim! – vamos começar .

- Para que servem as leis? Perguntou o professor – Seguiam assustados ainda os alunos, porém pouco a pouco começaram a responder à sua pergunta:

- Para que haja uma ordem em nossa sociedade.

- Não! – respondia o professor.

- Para cumpri-las.

- Não!

- Para que as pessoas erradas paguem por seus atos.

- Não!

- Será que ninguém sabe responder a esta pergunta?!

- Para que haja justiça – falou timidamente uma garota.

- Até que enfim! É isso, para que haja justiça.

E agora, para que serve a justiça?

Todos começaram a ficar incomodados pela atitude tão grosseira, porém, seguiam respondendo: - Para salvaguardar os direitos humanos…

- Bem, que mais? – perguntava o professor .

- Para diferençar o certo do errado, para premiar a quem faz o bem…

- Ok, não está mal porém respondam a esta pergunta:

“Agi corretamente ao expulsar Nelson da sala de aula?”

Todos ficaram calados, ninguém respondia.

- Quero uma resposta decidida e unânime!

- Não! – responderam todos a uma só voz.

- Poderia dizer-se que cometi uma injustiça?

- Sim!

- E por que ninguém fez nada a respeito? Para que queremos leis e regras se não dispomos da vontade necessária para praticá-las?

Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar quando presenciar uma injustiça. Todos. Não voltem a ficar calados, nunca mais!

Vá buscar o Nelson – Disse. Afinal, ele é o professor, eu sou aluno de outro período. Aprenda: Quando não defendemos nossos direitos, perdemos a dignidade e a dignidade não se negocia.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Quero ser amada

Eu te amo, Carminha.

Não, não me ama, Armandinho.

Claro que sim, sinto que posso morrer por este amor.

A morte, Armandinho, faz parte da vida, mas o modus operandi, o processo de  morrer é individual, e independe das escolhas que fazemos.

Não, Carminha, nunca fale assim comigo. Eu morro de amor por você!

O que deseja que eu fale? Que te amo? Não, não te amo.

Mas estamos juntos...

Sim, estamos juntos, mas isto não faz de mim uma mulher obrigada a amá-lo.

Lembra quando nos vimos pela primeira vez?

Sim, claro.

Então, Carminha? Aquilo não foi a fagulha do amor?

Vocês homens misturam tudo - desejo, tesão, paixão e amor para vocês são as mesmas coisas.

Mas estão juntas e misturadas.

E nem por isto são homólogas. São transportes diferentes, cada um destes sentimentos nos levam a uma experiência distinta, sempre saindo da mesma plataforma, mas nos entregando em destinos muito distantes uns dos outros.

Eu não entendo isto, Carminha, não entendo você.

Não estou aqui para ser decifrada, Armandinho, quero ser amada, possuída e desejada, uma coisa de cada vez, cada qual de um jeito, e todas elas, seja quais forem, sedutoras.

Nossa. Eu procuro fazer tudo certo para não te irritar...

Irritar? Você quer saber o que me irrita, Armandinho? Você é todo certinho. Nunca deixa pelos da barba na pia;  não surfa entre canais de TV quando estou na sala; sempre troca o rolo de papel higiênico, o sabonete e o shampoo quando acabam; sempre abaixa a tampa do vaso; apaga as luzes acesas desnecessariamente; não espalha xícaras, latinhas , farelos e sujeiras no tapete, no sofá ou na cama; nunca deixou toalhas molhadas no chão ou jogadas pela casa; não acumula roupas sujas no guarda-roupa e mantém o carro limpo e abastecido. 

Mas, Carminha, faço isto por amor... sincero e verdadeiro

Por que você não faz alguma coisa que me irrite, Armandinho? Que eu odeie?

Não, Carminha, jamais faria isto. Carminha, de onde tirou isto?

Eu quero que você reclame quando eu demoro excessiva e propositadamente ao me arrumar para sairmos; quando deixo absorvente usado jogado no cantinho do banheiro; quando deixo as luzes acesas só para você apagar; quando deixo a cozinha imunda e falo que estou com dor de cabeça; quando estou excitadíssima e digo que não quero.

Mas eu adoro saber que está se arrumando para mim, Carminha. E tudo o que faz é parte de sua personalidade. Não posso desejar que seja exatamente como desejo que seja. Puxa vida, não sei mais o que faço para ter você...

Ai, Armandinho, sabia que adoro este seu olhar perdido, esta sua busca pela perfeição de fazer tudo bem feito só para mim? Eu quero continuar assim, sendo procurada, perdida e devassa. Agora vem querido, que a noite é curta, e preciso de você  para viver os meus sonhos desta noite, por que os de amanhã ainda não aconteceram...


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As esquinas da vida

Chegou na empresa pontualmente às nove horas da manhã. Estava lacrada pela Justiça. Foi abordado por um oficial, identificou-se e foi levado à delegacia para prestar esclarecimentos. Não entendeu nada. Ficou tão desorientado pela situação ridícula que teve um ataque de risos. Pediu um advogado, e foi surpreendido pela pronta assistência.

Uma advogada que passava por ali imediatamente apresentou-se, entregou-lhe um cartão e disse que tudo ia ficar bem. Em seguida desapareceu. O delegado olhou para ele com desdém e disse - pediu um advogado e já foi atendido. Vai querer um chá gelado também? Agora fala tudo, conta aí o que eu quero ouvir e a gente acaba logo com este teatro. Vai, solta a garganta, doutor... conta tudo.

Tudo o que? O que vocês querem? Como assim? O que estou fazendo aqui? O que aconteceu com minha empresa? O telefone toca. O delegado atende e olha para ele com um olhar de raiva. Desliga e apontando a saída - saia daqui agora. Sai. Sai agora.

Mas, mas, espera, me explica alguma coisa. Dois agentes o carregam até a porta e o jogam na calçada. Ligou para os dois sócios, nada. Ligou para o deputado- mandou dizer que não estava. Ligou para o seu advogado - estava em reunião. Parou um táxi e seguiu para casa. A porta estava destrancada. Entrou e eis que depara com um bilhete preso em alfinete no sofá, escrito em letras garrafais de pincel atômico - Adeus. Nunca mais eu volto. A frase "Chega de escândalos" estava em batom no espelho do quarto.

Pensou, pensou, até começar a perceber que tinha algo ali o empurrando para um destino que até então se esquivara. Ligou para Leilinha, sua eficiente secretária, convidou-a para jantar e foram felizes para sempre.

É isto aí!






quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A construção do ódio

Só refletindo, por isto é um texto sem graça:

Quando leio nas redes sociais alguns jovens pedindo a volta da ditadura, preciso refletir para não perder meu tempo. Estão com ódio, e com ódio não há diálogo. 

Quando ouço negros apoiarem as políticas que mantiveram sob cativeiro social todos os seus antepassados até a sua geração incluída, preciso refletir para não melindrar as amizades. Estão sendo enganados, e aos que se deixam levar pela mentira, não há diálogo.

Quando vejo mulheres apoiarem estupradores e políticos misóginos, preciso refletir para não passar por agressor. Estão sendo submissas, e aos submissos ativos não temos como levar a esperança a curto prazo.

Empresários sonegadores, desde os micro até os mega, gostam de bater num governo trabalhista pela lógica na qual suas fraudes e desvios são desmascarados. Destes é possível a compreensão do por que odeiam tanto a democracia plena. São bandidos que gostam, apreciam e se deliciam com caviar nas mesas mal frequentadas de Miami, mas detestam pobres e sobretudo empregados com direitos trabalhistas.

Mas ver jovens, mulheres e negros com Síndrome de Estocolmo, sinceramente, dá uma sensação de que uma enorme operação de indução à subserviência foi muito bem realizada. São pessoas boas, honestas, trabalhadoras, religiosas ou não, que aceitam a ideia de que bastam denúncias plantadas aqui e ali, sem base, sem provas, sem fundamento, para que seus senhores feudais estejam corretos. Lamentável.

É isto aí!



Tareco e Mariola

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Irmandade da Luz Áurea

                                                  

Naquela noite, mais de duzentos irmãos da confraria reuniram-se para ouvir o Dr. Juquinha, que iria revelar sobre a vida e a rotina de um viajante das estrelas, dentro das astronaves que circulam entre os mundos. Ao iniciar a palestra:

Dr. Juquinha, Dr. Juquinha...

- Sim, quem?

- Aqui atrás, eu.

- Pois não, jovem, pode falar.

- Dr. Juquinha, será que o senhor não poderia permitir que a gente faça umas perguntas, dentro das nossas expectativas e o senhor vai respondendo e explicando dentro do seu conceito científico?

- Boa ideia. Acho louvável. Comecemos por você, então, faça a sua pergunta.

- Bem, estas naves que o senhor viajou são seguras?

- Pois é, veja que pergunta curiosa. No princípio fiquei assustado, pois as poltronas não têm cinto de segurança e não existe air-bag, nem janelas, nem pedais. 

- Ohhhhhh.... aplausos.

- Aqui, Dr. eu... e como vocês se seguravam nas curvas, nas acelerações, nas freadas?

- Então, excelente pergunta. Trabalhamos aqui na Terra com a gravidade, que é uma força universal, um princípio cósmico que ainda não dominamos. A força gravitacional é uma consequência da curvatura espaço-tempo que regula o movimento de objetos inertes. Se você controla um destes fatores, controla a energia que desprende em gravidade. 

- Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhh... muitos aplausos

-Dr. Juquinha, tem banheiro nas espaçonaves?
- Muito boa sua pergunta. o vaso sanitário, ao contrário das poltronas, possui travas e cintos de segurança. Esses acessórios são usados para possibilitar que a pessoa permaneça em contato com o assento e não flutue durante um momento inoportuno. Como não é possível usar água para se livrar dos dejetos, o toalete dos astronautas conta com a ajuda do ar e do vácuo para manter tudo limpo.

- Ohhhh... alguns aplausos

- Dr. Juquinha, aqui, aqui..

- Pois não, jovem...

- Dr. Juquinha, e sexo? Como a gente pode fazer sexo na nave?

- Não tem como. O ser humano não tem um corpo preparado para copular sem gravidade. Ossos seriam quebrados, dezenas de hematomas e todos os fluidos orgânicos ficariam soltos no ambiente.

- Sério? Quer saber, Dr. Juquinha, não gostei destes ufonautas aí não. Coisa mais sem graça. Levantou-se e saiu, seguido imediatamente por  todos, que também se levantaram e saíram, deixando Dr. Juquinha, a maior autoridade ufológica do mundo, sozinho, sem entender o que se passava.

É isto aí!

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A moça de azul

Estava passando pela região a serviço. E havia ali na praça um corre-corre de organização para a festa municipal. Não era uma festa qualquer, e sim "A Festa", esperada por todos no decorrer do ano. A rua da Matriz era toda enfeitada, as casas com toalhas bordadas nas janelas, todos com suas melhores roupas, e à noite a bandinha tocava uns hinos salvíficos e depois era carnaval até amanhecer o domingo.

Foi então que a conheci, quando por acaso passava pela barraca de doces. Estava linda, tinha um vestido com detalhes em azul, estilo meio antigo, rostinho de anjo, fala mansa, e descalça - uau. Foi um encantamento à primeira vista. Amanhecemos conversando sobre diversos assuntos, no banco da praça, comportados, enamorados e apaixonados. Despediu-se com um sorriso e desapareceu na neblina da alvorada.

Resolvi ficar na cidade mais uns dois dias para reencontrá-la. Acabei passando a semana ali. Ninguém sabia da moça, nem no hotel, nem no único restaurante, nem na igreja. Andei pelas poucas e estreitas ruas, perguntei aqui e ali e nada. Tinha que partir e prometi retornar em breve para, quem sabe, entender o que havia se passado. Enquanto arrumava a mala, conferi no bolso do paletó se havia alguma coisa e encontrei um perfumado lenço de linho branco, bordado, elegante, contendo duas iniciais em letra gótica - S e M.

Seis anos se passaram, e eis que retorno àquela cidadezinha. Confesso que já não lembrava mais do episódio. Neste tempo casei, tinha uma filha, e já havia sido promovido na empresa a gerente de área, e estava visitando os clientes preferenciais. Como as viagens eram de uma rotina massante, e os negócios eram feitos sob enorme pressão da empresa, não dava mesmo para ligar processos pessoais com as cidades.

Era uma terça-feira. No café da manhã sentou-se à minha frente, dividindo a mesa, uma moça linda, mas muito linda mesmo. Ali ficamos conversando, conversando e quando dei por conta, estávamos na praça, sentados no banco, e já era noite. Não vi o tempo passar. Começou uma forte tempestade, despediu-se com um sorriso e desapareceu rapidamente. 

Ao chegar na recepção do hotel, completamente molhado, o gerente olhou meio preocupado para mim e segui-se o estranho diálogo:

- O senhor melhorou?
- Melhorei do que?
- Hoje cedo o senhor esteve aqui na recepção e falou com o encarregado que não estava se sentindo bem, e que iria ficar deitado, e se alguém o procurasse era para deixar o recado que o senhor entraria em contato. Como não saiu do quarto até o presente momento, nem a camareira entrou para arrumá-lo a fim de não perturbar o seu descanso. E agora o senhor aparece aqui todo molhado, como se tivesse entrado debaixo do chuveiro. Está suando? O senhor veio de onde? Quer que eu o leve ao médico?
- Suor? Não, isto é da chuva. Eu estava bem aqui em frente, no banco da praça quando começou a tempestade.
- Chuva? Não cai uma gota aqui já fazem uns sessenta dias, e daqui vejo toda a praça e com certeza o senhor não esteve nela hoje. 
- Levei a mão no bolso de forma involuntária e deparei com o lenço, tal e qual seis anos atrás, aí não lembro de mais nada. Acordei no hospital, com minha família ao meu redor, uns três dias depois. 

Já se passaram trinta anos. Os lenços ainda exalam perfume, as iniciais ainda são uma incógnita. Nunca mais voltei lá na cidadezinha, nunca mais a vi sequer em sonhos. Mas hoje estava sentado na varanda depois da janta, pensando, contemplando o nada, o entardecer lento e foi aí que ela passou e sentou no balanço lá do quintal. Estava a mesma coisa, não mudou nada. Acenou para mim, eu acenei para ela e acho que foi um adeus com sabor de até breve.

É isto aí!

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

As chaves do escritório

Dia destes ao sair para o escritório, por estas coisas inexplicáveis, não sabia onde estavam as chaves. Conferi pausadamente no chaveiro do carro. Achei que estavam lá. Dirigi-me ao serviço e lá chegando, descubro que nenhuma das quatro chaves disponíveis abriam a porta.

Voltei para casa, testei em cada fechadura e nada. Também não eram dali. Como vieram parar aqui? - pensei. Que portas permaneceram fechadas ou abertas com as chaves presas aqui, adormecidas, trafegando comigo diariamente?

Procurei nas gavetas, sem maiores alardes. Achei um molho de chaves. São estas. Estavam num chaveiro reconhecidamente meu. Quando as coloquei ali? Não me recordava deste detalhe. Enquanto circulava com os dedos e varria com os olhos a gaveta que raramente abria, vi outro chaveiro com outras tantas chaves. Crise e pânico. E agora? O que será isto?

Voltei ao escritório com aqueles dois molhos de chaves. Umas treze ou catorze no total. Nenhuma delas abriu a porta do meu escritório. Dei um passo atrás - e se não for este o meu escritório? Olhei o número, meu nome na porta, sim, com certeza - é aqui. Pensei em chamar o chaveiro, mas resolvi voltar depois. 

Tornei a abrir a gaveta mágica, que guarda um monte de coisas minhas que jamais lembraria que existiam. Achei, escondidas num canto, umas chaves perdidas das outras, mas atreladas por um aro pequeno. Levei-as ao escritório. Eis que abriram a porta da entrada e da sala interna. Estava salvo - aquelas chaves anônimas eram meu passaporte.

Mas sobraram umas vinte chaves as quais não tenho a menor ideia do que já abriram ou ainda abrem. Guardei os chaveiros com a seguinte identificação - portas desconhecidas de um passado remoto. E você? Tem chaves assim na sua vida?

É isto aí!  

domingo, 7 de dezembro de 2014

Terapia de Casal no Divã da Pitangueira

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Bem, espero que estejam tranquilos, esta é uma terapia de casal, onde vamos procurar entender o que está se passando entre vocês.

Bem, doutor, ele não fala nada mais comigo já tem uns trinta dias, além disto, deu de me insultar. Qualquer coisa, grita - sua gorda. Eu não posso dar um suspiro, que lá vem - para com isto, sua gorda, isto é coisa de gorda. Quando eu fico suada um pouco na roupa - nossa, como uma gorda pode suar tanto. Qualquer coisa que faço, ele vem aos berros, vociferando - sua gorda.

E sempre foi assim?

Não, no princípio ele me achava linda, mandava flores, me chamava de meu amor, me beijava um beijo molhado, ardente, mordido e escandaloso, me abraçava demoradamente. Eu era sua flor.

E como as coisas foram caminhando?

Não caminhavam, nós flutuávamos. Eramos dois amantes despudorados, sem limite. Eu era dele e ele era meu.

Entendo.

Não, não entende. Nunca vi, ouvi, li, soube ou assisti uma relação assim. Mas não o culpo por não entender, não há como saber a dose da volúpia que nos envolvia. Não sei explicar.

Para você era uma relação normal?

Não, nada de normal, ele me sodomizava, me prendia, me batia, puxava um ou outro fio dos meus cabelos, lentamente, de qualquer região do corpo. Nossa, eu era uma pedra bruta a ser lapidada - ele dizia, daí vinha com todos os objetos para criar arestas passionais, como se referia aos seus caprichos.

Mas, e você?

O que tem eu?

Era obrigada? Era ameaçada?

Nada disto- eu que implorava. Eu suplicava. Eu gemia, miava, latia, babava, até ele me ter como sua. Aí ele ficava excitado e partia para a sua missão, feito um Indiana Jones a buscar tesouros no meu corpo, que dessem prazer carnal, espiritual, cósmico, universal e infinito.

Mas, como chegou neste ponto atual?

Um dia ele chegou de uma viagem de serviço, sentou na sua exclusiva poltrona, ligou a TV, como sempre fazia, tirou os sapatos, e gritou o mesmo ritual - Linda!!! Traz meu whisky.
- Silêncio
- Não vou falar de novo, traz a porra do meu whisky
- Silêncio

Levantou irado, pegou um sapato na mão e partiu pela casa me procurando. Entrou no quarto e deparou comigo e uma amiga, nuas, sem fazer nada, apenas estávamos nuas, assistindo um filme de Godard, sabe, o Jean-Luc Godard, que ela trouxe para vermos juntas.

Hummm

Então, ele quis, desejou, sei lá, fez uma leitura rápida de que estávamos ali para ele, eu acho. Só que não. Era um momento neutro. Aí desde este dia ele ficou me agredindo assim.

Ele perguntou qual era o filme?

Engraçado, agora que você falou, estou recordando que foi a sua primeira pergunta.

E posso saber qual era?

Sim, claro, era O desprezo.

O senhor, que ainda não disse nada, mas terá a sua oportunidade, pode aguardar lá fora somente um instante? Assim que terminarmos aqui o chamarei.

Para que isto? Quer ficar com ela, fala logo.

Senhor, não é nada disto, a ética predomina sobre a conduta. Só espero que aguarde, por favor.

Eu vou sair, mas fique sabendo que poderei abrir a porta a qualquer instante, por isto não a tranque, doutor.

Bem, vamos falar sobre isto agora, só nós dois - Olha só, pode ficar tranquila, isto tudo não passou de um grande mal entendido. Ele chegou de uma viagem, uma odisseia, e diante da duas cenas, vocês nuas e Brigitte em frenesi, sofreu um surto de transferência instantânea entre o real e o virtual.

Sério? 

Sim, pode ficar tranquila. Nós, analistas da Escola da Pitangueira denominamos isto de Paralelismo Momentâneo devido a uma interligação radial entre o Fator Gerador e o Receptor. Assim que ele sair deste transe sua vida volta ao normal.

Nossa, fiquei até mais tranquila agora... Mas e como ele sairá do transe?

Bem, a chave d acura está com você e a sua amiga. Você precisará de uma chave de transferência automática. Obrigado pela atenção. Bem, agora preste atenção - chame a sua amiga, retornem à cena, mas mude o filme para um do Bergman.

Não entendi. Por que Ingmar Bergman?

Sugiro "Persona". Assim que ele voltar de outra odisseia, ao encontrar as duas nuas na cama, assistindo a este filme, terá um choque de conflito entre o que se passa e o que se vê, tudo na velocidade da luz. O antes e o depois no mesmo processo de alucinação. Esta será a chave de transferência automática. Vá! Seu casamento está salvo!

É isto aí!










quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

É da casa da Valéria?



Alô? É da casa da Valéria?

Não, você ligou errado.

Desculpe, eu devo ter me confundido.

Tudo bem, não se preocupe, isto acontece.

Alô, por favor, a Valéria...

Olha só, não é daqui, você tem certeza que ela se chama Valéria? Desculpe eu te perguntar, mas você já ligou umas dez vezes neste número.

Sim, claro que tenho. Espere, puxa vida, eu não sei o que está acontecendo, pois  já liguei neste número e sempre falei com a Valéria. Olha, desculpa mesmo. Não sei o que ocorreu.

Tudo bem, estas coisas acontecem. Pode ser que exista uma conexão. Como é esta Valéria?

Bem, ela é bonita, morena, 1,60 de altura, pesa uns 60 Kg, tem por volta de 37 anos, é advogada, divorciada, tem uma filhinha de três anos, mas, desculpe mais uma vez, eu não deveria estar falando estas coisas todas. Não entendo como liguei várias vezes para este número para falar com a Valéria. Eu peço mil desculpas pelo incômodo.

Flávio Renato, você é um idiota!

Espera aí, como sabe meu nome? 

Deve ser por que sou a sua mãe, em triste memória de gestação perdida para gerar um filho tão imbecil. 

Mamãe?!?! Puxa vida... mamãe, desculpa, eu não sabia, eu não deveria, eu não sei explicar esta confusão.

Não sabe uma merda. Esta Valéria deve ser mais uma destas rameiras que você paga para fingir que é homem. Em vez de casar com a Adalgiza, de quem sempre fiz gosto, vai procurar uma prostitutazinha da ralé, com filha sem pai, e ainda liga para mim achando que eu sou ela. Você é um imbecil, Flávio Renato, um idiota, um retardado, um banana, um débil mental, um fracassado...

Desculpa, mamãe, mas vou desligar, por que preciso urgentemente ligar para o meu analista.
No dia seguinte - Alô, eu queria falar com a Valéria...

Flavinho, que surpresa agradável...

Flavinho? Quem é você?

Sou eu, a Adalgiza, bem que a sua mãe falou que você queria conversar comigo, e que iria brincar de me chamar de Valéria. Alô, alô? Flavinho? Alô...

Alô, quem está falando?

É a Valéria, amor.

Você está na casa da minha mãe?

Não, amor.

Por acaso minha mãe te contratou para que você me desse um telefone onde ela também atende, e que era também  o seu, para que ela me deixasse constrangido e humilhado, além de armar para a Adalgiza falar comigo?

Eu, amor? Mas de onde você tira estas coisas?

É por que isto mexeu comigo, olha só, Valéria, precisamos conversar.

Não precisa, amor, já entendi, esta Adalgiza é a sua via preferencial. Tudo bem, eu já desconfiava que tinha outra, e não estou com raiva.

Enquanto isto - Alô! Adalgiza?

Valéria? Tudo bom, amiga?

Tudo bom, querida. Deu tudo certo, pode bater que a bola está na marca do penalty, vai que é seu.

Obrigada, amiga; minha sogra vai passar aí para acertar as despesas.

Valeu, querida, foi um prazer fazer negócio com vocês.

É isto aí!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Eu amo / eu odeio

A conheci numa festa em casa de amigos em comum. Lembro que estava muito desarrumado, desalinhado, despenteado, enfim, no meu normal e quando dei por conta, trocamos um longo e enebriante olhar. Dali em diante tudo foi se encaixando.

Ela era linda. Na verdade era a garota mais bonita que já vi em toda a minha vida. Tinha um ar natural de elegância e postura de princesa, um corpo divino, uma voz melodiosa, além disto era muito rica, culta, fina e educadíssima. 

Por alguma boa razão celestial achei que minhas preces foram ouvidas, por que ela cedeu aos meus parcos encantos com tanta facilidade e candura, que desde então passamos a vivenciar uma ardente história de amor.

Três meses haviam passado com demorados encontros diários e juras eternas de amor, até que um dia ela desejou fazer uma brincadeira de "eu odeio/eu amo".

Ela - Amor, vamos brincar de "eu odeio/eu amo?

Eu - Como é isto?

Ela - Muito simples, abro um livro e pego uma palavra, aí dizemos odeio ou amo.

Eu - Muito inocente, aceitei. Bem, amor, começa então.

Ela - Humm.. gatos

Eu - Odeio gatos.

Ela - Detesto gatos.

Beijos, beijos, amassos, amassos...

Ela - Sol

Eu - Adoro o sol.

Ela - Eu amo o Sol.

Beijos, beijos, amassos, amassos...

Ela - Puxa, fomos feitos um para o outro. A palavra é casa.

Eu - Gosto mais de apartamento.

Ela - Também gosto mais de apartamento...

Beijos, beijos, amassos, amassos...

Ela - Mar e Montanhas

Eu - Pode falar duas coisas ao mesmo tempo?

Ela - Claro, não vejo por que não.

Eu - Adoro o mar e detesto montanhas.

Ela - Achei que você gostasse de montanhas...

Só uns beijinhos...

Ela - Crianças

Eu - Humm, pula esta...

Ela - Adoro crianças.

Sem muito clima

Ela - Noiva

Eu - É... pula esta também...

Ela olhou para um lado, olhou para o outro e por uma estranha razão que nunca descobri, saiu correndo da minha vida. Nunca mais vi. Por curiosidade, peguei o livro que estava folheando. Para minha surpresa, era apenas um caderno em branco...

É isto aí!