domingo, 1 de março de 2015

A primeira vez




O hiato passional












Estou consciente, mas não consigo ver nem falar nada. Acho que estou no hospital, pois lembro de estar em casa e tudo escureceu. Escuto vozes sussurradas e som de aparelhos médicos. Não tenho medo, nem sequer estou desesperado. Passei pela vida com méritos e vitórias.

E tem na memória uma moça que navega silenciosamente entre o real e o imaginário, acelera o passo e percorre com uma delicadeza inconfundível a borda externa da minha espaçonave neuro-sensorial. Não tenho dúvidas de que a conheço. É ela, o grande amor da minha vida. Linda, tímida, meiga, inteligente e apaixonante.

Enamoramos na faculdade, impregnou-se na minha alma e por estas coisas inexplicáveis, perdemos um do outro no meio da multidão aflita pela vida adulta. Naquele dia a fitei nos olhos, triste, e ao largar minha mão, no meio da tempestade, gritou que me amava, e a turba do destino nos afastou. Casei, tive filhos e netos, venci a batalha e guardei o amor. Agora volta, com uma candura tão docemente saborosa que não me faz querer perde-la outra vez..

Sabe quando você sonha e depois deseja muito alguma e a alcança? Isto é fantástico, pois dá sentido à vida. Mas entre o ponto de partida e a conquista, milhões de coisas aconteceram, houve choros e lágrimas, sorrisos, gargalhadas, dores, frustrações, brigas, discussões, vitórias, derrotas, e tantos outros fatos que em determinados dias você até esquece daquele sentimento, que fica guardado em algum lugar da memória. Este espaço atemporal entre o desejo e a conquista é o hiato passional.

É ele, o hiato passional, é que dá o real sentido a tudo e o doce sabor da conquista. Agora ela está aqui, saiu de dentro de mim depois destes anos todos, de toda uma vida e transborda nos meus sonhos. Esta página se fecha aqui e agora se abre outra.

É isto aí!


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Volta, amor!

- Carminha, escuta, tenho medo de tudo, estou ainda confuso com o fim do relacionamento. Tenho medo de amar, medo de perder, medo de sair e medo de voltar. Medo, medo, medo, medo, medo - onde estou que não me encontro?

Estava bem, aí você vai ao leo e parte sem dizer adeus. Na hora, em pânico, até que fiquei sem esboçar dor, pranto, desespero ou lágrimas. Sabia que nenhuma lágrima derramei nesta manhã? Não, meu bem, nenhuma lágrima. Não chorei e nem pranteei na alma, por que tenho medo de não saber parar de chorar, de ter que explicar às pessoas os olhos esbugalhados e tristes, Tenho medo de mim.

Você é tão linda, tão simples, tão inteligente, cordial, educada, encantadoramente feminina, corajosa, valiosa, joia rara lapidada no ventre da humanidade e eu? Pois é! E eu? Não tenho o muito, tenho e sou o nada. Você linda, eu feio; você brinca, eu irrito; você rouca, eu fanho; você aguda, eu grave; você erótica, eu pudico ; você rica, eu pobre; você não sou eu e eu sou seu.

Nunca mais outra vez uma pessoa normal para os padrões de normalidade. Oh, dor! Oh, trevas! Onde estão os anjos que em miríades povoam esta casa com a sua presença? Onde estão as luzes que destroem todas as sombras da minha vida? 

Acabou, Armandinho?

Espera, fofinha, não desliga.

Armandinho, eu estou no escritório, trabalhando e você aí de férias bebendo sem parar. Assim que chegar em casa vou te mostrar o que é ter medo.

Mas Amelinha ...

O que é? Repete o que você falou aí? Me chamou de quê? Será que por acaso ouvi pelo nome horroroso da merda da prostituta da vagabunda da barranqueira da vadia da safada da piranha desqualificada da queridinha da sua mãe da sua ex-noivinha idiota?

Tem nada disto, amor, eu ia falar do mel da abelhinha e estava pensando numa geladinha, e já que toquei no assunto, quando chegar podia lavar a roupa que está no tanque, passar as que estão no armário e limpar o banheiro... alô... alô... Carminha... alô...

E foi assim que ela desapareceu. Não voltou nem para passar uma vassoura na poeira da sala. Vou te contar, viu, que mulherzinha ruim esta...

É isto aí!

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Juras de amor.


Jura, vai. Jura prá mim...

Não.

Por favor, vai, jura só desta vez...

Não.

Puxa vida, como você é ruim. Vai, eu imploro, só hoje.

Não.

Eu prometo que nunca mais peço isto.

Não.

É!! Bem que minha mãe falou...

(silêncio)

Não quer saber o que ela falou?

Não.

Nem quem contou prá ela?

Não.

Ah! Jura, vai, jura só prá mim...

Não.

Se você não jurar, eu nunca mais te perdoo.

(silêncio)

Se você não jurar, eu nunca mais te dou presente.

(silêncio)

Se você não jurar, nós só vamos namorar no escuro total.

(silêncio)

Se você jurar, eu falo aquelas coisas baixinho no seu ouvido, na cama.

(silêncio)

Se você jurar, eu suspendo a relação de preliminares que eu quero que você cumpra.

(silêncio)

Se você não jurar, eu vou para a casa da mamãe.

(silêncio)

Se você não jurar, mamãe vem morar aqui.

Eu juro, eu prometo, eu garanto, eu asseguro e protocolo em cartório!!!!

É isto aí!

Meu café na estrada

Dia destes, em solitária e exaustiva viagem, parei para abastecer o carro de combustível fóssil e a mente de cafeína. O hábito do café é atávico, afinal temos no nosso material genético esta necessidade desde a invasão da península ibérica pelos mouros, detentores da cafeicultura que antecedeu à formação da pátria mãe. 

Filosofava sobre isto, sobre os problemas do dia a dia e outras coisas tantas enquanto a mocinha servia um expresso duplo e fez careta ao saber que o tomaria puro. Respondi em silêncio total que quem bebe café com açúcar bebe qualquer coisa, por isto deixam de ser exigentes com seus gostos.

Na mesa à esquerda um casal jovem discutia em tom áspero e baixo sobre alguma coisa que um deles esqueceu no ponto de origem. À frente, duas senhoras distintas, destas vividas e maquiadas, riam em desalinho com a conversa que fluíam junto ao cavalheiro que as acompanhava. Ao fundo uma família completa, com os pais e três crianças inquietas e barulhentas como devem ser na infância. À direita um senhor na faixa dos setenta anos, bem vestido, e tal como eu também contemplava o nada enquanto provava vagarosamente o seu café.

Uma das crianças veio em direção ao senhor, e voltou os olhos às outras duas e à mãe, buscando o consentimento final e a coragem para abordar um estranho. Aproximou-se e perguntou-lhe, sussurrando, alguma coisa. O velho ficou olhando, olhando, divagando, olhando... e aí voltou ao planeta Terra abruptamente, com um grito extremamente agudo ao lado do seu ouvido em direção aos irmãozinhos - não falei? Ele está é dormindo mesmo.

E graças a este eficiente processo de comunicação infantil, resolvi tirar um cochilo no hotel local por mais algumas horas, não que precisasse, mas só por precaução.

É isto aí!

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O estranho destino de Herculano Souza

                                                       


Sei que faz parte do processo evolutivo vital que as pessoas se conheçam, namorem, casem, enfim, estabeleçam relacionamentos amorosos. No entanto, entre duas pessoas que se relacionam, existe um sistema de valores e uma cultura própria que cada indivíduo, traz consigo de sua família. 

Sendo assim, o irmão passa a ser cunhado, o pai passa a ser sogro e a mãe, sogra. Nessa multiplicidade de papéis e funções, a sogra é um personagem que carrega um estereótipo de múltiplas conotações que, geralmente, suscita piadas, brincadeiras, gozações e comentários jocosos, ou então pode ser o seu destino.

Minha vida sempre foi muito simples. Saí de casa aos quinze anos e vim para a capital, onde trabalho desde novo, sempre estudando à noite, e morando em pensões baratas. Formei em Contabilidade e fui trabalhar num escritório no centro, onde estou até hoje, acomodado e sem maiores pretensões. Moro na periferia, não tenho carro e nem filhos; nos finais de semana jogo bola, saio com os amigos, e na segunda-feira a rotina normal.

Tudo ia bem até que Flávia Renata passou a frequentar o ambiente com a escrita da empresa a qual trabalhava. Loira, linda, alta, desinibida e sedutora. Foi tensão emocional à primeira vista. Quando não deu mais para desfaçarmos o desejo comum, abriram-se as portas da comunhão total. O problema é que durante os últimos dez anos mantinha uma discreta e intensa relação com Maria Eulália, a minha Lalá, uma gorda elegante, de carícias inestimáveis, professora com alto nível intelectual, que conheci num evento da faculdade. 

Com as duas, de uma vida simples, de certo modo monogâmica, passei a desfrutar das emoções da poligamia romântica, uma nova e uma madura, uma loira e uma morena, uma culta e a outra superficial, uma ópera e a outra axé. 

Meses de relacionamento alucinante, num momento de fraqueza onde cheguei a me permitir casado, aceitei o convite da Flavinha para conhecer sua família. Comprei um terno bonito, sapato lustroso, rosas à mão, fui ao encontro do meu destino. Recebeu-me com a euforia e excitação de sempre, levou-me à sala onde estava a sua mãe, uma viúva feliz como a definia. A sogra era Lalá. Fui fuzilado com os olhos e tratado em atmosfera de nitrogênio líquido, bem abaixo de 0º.

Rompi com Flavinha no dia seguinte sem satisfações, e fui abandonado pela sogra sem adeus. Mudei a rotina para evitar confrontos e desencontros, passando a frequentar outros ambientes, desta vez clubes de Jazz. Ali conheci Martha Creuza, uma menina normal, de hábitos normais, vida normal, solteira, sem vícios e nos demos um ao outro. Meses de relacionamento clássico,  em um momento de fraqueza onde novamente cheguei a me permitir casado, aceitei o convite para conhecer sua família. 

Com o mesmo terno, o mesmo sapato lustroso e com chocolate fino à mão, parti ao encontro do meu destino. Recebeu-me com a tranquilidade e educação de sempre, levou-me à sala onde estavam os familiares. E não é que era o novo endereço da Lalá? Havia mudado logo depois do encontro por temer consequências que nunca imaginei praticá-las.

Rompi com Martha Creuza, que virou missionária evangélica na África. Flávia Renata mudou-se para São Paulo para trabalhar com Moda e Lalá, ai-ai como resistir àquela tentação fazendo  uma coreografia exclusiva de dança do ventre para mim? 

É isto aí!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O Sapo e a Fada

Por que a luz acesa?

Para me ver por completo, querido.

Por que já está deitada?

Para te servir melhor, amor.

Por que está falando tão perto do meu ouvido?

Para me ouvir com prazer, gostoso.

E este perfume? Passou agora?

Para me cheirar e deixar toda arrepiada, garanhão!

Mas você não deveria estar de capuz e vestido vermelho?

Estou do jeito que você sempre desejou, amor.

Mas você está pelada!

Nua, meu bem, estou nua.

Isto, nua e pelada.

E o que assusta você?

Eu... eu não lembro de ter visto você assim antes.

Então é uma boa hora para ver e aprender, não acha?

Não sei, estou confuso, isto é muito embaraçoso.

Então desembarace seu presente.

Como assim desembaraçar?

Toque no pacote e procure a ponta para desembrulhar.

Mas não há pontas

Interessante observação, mas procure...

Posso mesmo?

Da forma que desejar, querido.

Você tem pés bonitos.

Comece por eles.

Tocá-los? Posso tocá-los?

Faça o que desejar, mas venha.

Seus pés, hummm... seus pés... são tão bonitos.

São seus olhos, meu amor.

Posso tocar seus tornozelos?

Claro, apalpe-os

Sua perna é tão lisa,

Veja os joelhos, querido

Que rótulas, que patelas, puxa vida

Você é tão macia. Todas as mulheres são assim?

Só as que desejar que sejam, amor.

Suas coxas, puxa, suas coxas são tão carnudas.

Carnudas? Interessante sua percepção.

Posso explorá-las por inteiro?

Em toda a sua extensão, meu bem.

Sem demora?

Sem demora e com carinho, meu bem, tudo pode.

Alfredo!!!! Alfredo!!!! Volta aqui, Alfredo!!!

Humm?! Hã?! Humm?! O que?

Sou eu, seu safado. Eu trouxe você de volta. Olha só como está todo suado, com cara de tarado...

Hã? O que? Como?

E já que voltou, saiba que será penalizado.

Santo Deus!! Fadinha???? É você??

Em carne e deleite para você, meu amor!!!

Como voltei aqui?

Acorda, Alfredo, acorda!!

Hã?? Fadinha? Como é isto?

Está em casa, meu bem.

Tem certeza, quer dizer, é você mesma? Eu sou eu mesmo?

Claro que não é, Alfredo. Eu recebi uma notificação online do Sindicato das Princesas e Heroinas que minha varinha tinha emitido um sinal que interferia na história da Chapeuzinho. Daí a Mestre Sá Fada me emprestou uma varinha secundária para desfazer o encantamento. O que você foi fazer lá, hem, Sapo Alfredo?

Fui passear só um pouquinho, minha fadinha.

Quem falou que pode fazer encantos por aí? Hem? Você acha que é fácil achar uma fada para beijar sua bocarra de sapo? Vai voltar a ser sapo.

Ah, Fadinha, para com isto, fui lá só levar um papo com o Lobo.

Alfredo, você é muito mentiroso, seu sapo balofo - pof..

Croac, fadinha.. croac.. foi mal, croac...

É isto aí!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O amor cortês do Carlinhos

Toda manhã Carlinhos descia as escadas em saltos, e em questão de segundos chegava no hall  a tempo de esperá-la sair do elevador, enquanto fingia estar aguardando para subir. Buscava seus olhos que não buscavam ninguém. Subia, arrumava-se rapidamente e seguia para o trabalho.

No horário do almoço, na moto do colega de serviço, atravessava todo o trânsito tumultuado da cidade, até chegar à porta da faculdade onde naquele instante ela saia. Aguardava que passasse por ele,  e ficava ali, feito uma árvore sem galhos no deserto, sem encanto e sem sombras suficientes para que fosse notado. 

Conseguiu uma vaga no curso de Francês no horário imediato ao dela, no início da noite, depois que largava o serviço, de maneira que entrava na sala onde a musa saia, e inalava seu perfume inebriante em total êxtase romântica e solitária. 

Mandou flores umas três vezes, de maneira anônima, e foi ele o próprio entregador, mas em nenhuma das ocasiões ela abriu a porta para recebê-las, de forma que nunca soube a expressão do seu rosto ao deparar com aqueles modestos bouquets econômicos. 

Investigava todas as suas postagens nas redes sociais, copiava todas as fotos que postava, sabia todos os seus gostos musicais, o time preferido, os filmes, as maiores amigas e contentava-se em saber que estava sozinha há mais de um ano.

Um dia não a viu, procurou em todos os lugares e nada de encontrá-la. Buscou nas redes e as contas estavam encerradas. Foi na faculdade, pesquisou pacientemente as páginas das melhores amigas, perguntou aos porteiros do prédio e ninguém sabia informar do seu paradeiro.

Sofreu em total colapso de dor. Teve febre, pânico, insônia, gastrite, enxaquecas terríveis e nada disto a trouxe de volta. Três anos depois casou-se com uma moça do escritório, e teve uma vida reta até semana passada, depois da última vez que a viu.

Estava na fila do supermercado, e sentiu o perfume. Voltou-se, era ela imediatamente atrás. Estava lindíssima, exuberante, uma mulher de encantamento ímpar. Olhou-a nos olhos buscando uma resposta para sua dor intermitente. A vida passou-lhe em segundos. Lágrimas caíram discretamente dos seus olhos. Ela o olhou, aproximou-se, fitou no fundo da sua alma e pela primeira vez na vida, dirigiu-lhe a palavra.

- Desculpa, mas o senhor é o pai do Carlinhos que morava no Batata?
- Pai??? Não!!! Desculpe, mas há um grande engano - eu sou o Carlinhos. Não está me reconhecendo?
- Nossa, como você está acabado. Você tem alguma doença degenerativa?
- É... estou acabado. Mas desculpa por ter me encontrado...
- Tudo bem, mas procura um médico...
- Obrigado pela recomendação.

Ao sair do caixa estava cabisbaixo, arrasado, destruído e desmoralizado, e então sua autoestima deu-lhe uma coragem inesperada. Virou para a ex-amada com olhos de ira e com dedo em riste bradou - aqui, eu estou acabado sim, mas quer saber de uma coisa? 
- Sim? pode falar.
- Nada não, era só para agradecer sua preocupação comigo...

É isto aí!



domingo, 15 de fevereiro de 2015

Um vazio existencial no Divã da Pitangueira

Como vai?

Estou confuso, mas parece que estou bem.

Entendo. Mas o que o trás aqui?

Pois é. Vim de carro, mas acho que não quer saber disto. O fato é que tenho depressão.

Sei. E este diagnóstico foi obtido por algum profissional da área?

Sim, por mim. Eu me vi deprimido, li tudo que podia no Google, transformei-me num perito em processos depressivos e deduzi por exclusão que estou com Depressão Atípica. No início suspeitei de que fosse um caso clássico de Depressão Afetivo Sazonal, mas as evidências não deixam dúvidas quanto à primeira escolha.

E o senhor veio até aqui para me contar isto? Tem algo mais que queira esclarecer?

Olha só, puxa vida, como vou explicar...

Comece de algum ponto, daí vamos ver onde vai este conflito.

Então. Vou tentar ser o mais claro possível. Minha esposa é apaixonada comigo. Temos dois filhos, um de 18 e uma de 16 anos. A sobrinha da minha esposa, de 19 anos, mora conosco para estudar. Trabalho numa empresa de consultoria tributária como diretor, tenho uma secretária eficiente e a vida segue.

Parece normal. Tem algo além desta normalidade familiar e laborativa?

Bem, o caso é que conheci uma moça na rede social, ficamos uns meses conversando, até que passamos a nos encontrar. Vivemos um romance tórrido. Ela é tão angelical, tem a idade da sobrinha, mas sabe, é diferente.

Um romance? Você e uma moça de 19 anos? Ela estuda? trabalha? Tem família?

Olha, é uma moça honesta, estuda e trabalha. É artista de cine pornô, mas tudo muito discreto. Eu já fui várias vezes no set de filmagem e achei as ações bastante respeitosas e profissionais.

Uma atriz pornô? Como você se envolveu nesta situação inusitada? 

Não sabia destas qualidades. Depois de uns três meses de relacionamento, ela se abriu e revelou em confiança seus mais ocultos segredos. Como estava apaixonado, achei tudo normal.

Você acha normal um relacionamento extra-conjugal com uma atriz porno?

Se fosse só isto, eu poderia achar, sabe, mas um dia, ao visitá-la no set, ela estava contracenando com a sobrinha da minha esposa, sem saber do nosso vínculo familiar. Foi um misto de emoção e susto, uma situação diferente, mas o estranho ainda estava por vir.

Uma coisa estranha? Tem algo mais estranho além desta situação?

É, tem. A sobrinha justificou o trabalho pela remuneração que ajudava a manter seus estudos e quis compensar aquele processo se entregando a um ménage à trois comigo e a amiga estrela do cine pornô. Foi tudo tão rápido, tão sedutor, que quando dei por conta, já haviam pouco mais de um ano que estávamos vivendo nesta intensidade de amor total.

E o casamento?

Pois é, elas até falaram sobre casar, mas achei que era prematuro partirem para uma relação oficial. Para mim estava bom daquele jeito.

Refiro-me à sua esposa - E o seu casamento?

Ah! Você quer saber do meu casamento. Pois é! A minha esposa. Rapaz, que confusão foi aquela? Nossa!!! Que bagunça que quase ficou minha vida depois que ela quase descobriu ...

Descobriu a sua relação com a atriz pornô e a sobrinha?

Não!!! - isto não. As meninas eram muito discretas. Moças de família, e além disto estavam tão envolvidas em seu trabalho que jamais seriam motivo de preocupação. Ela teve informações distorcidas e infames de que eu era amante da minha secretária. Aí eu achei que daria merda total.

Amante da sua secretária?

É, caramba, para de repetir tudo que eu falo. Tínhamos um caso normal, clássico, há quase dez anos, e tudo ia bem até que contrataram mais uma moça para o escritório, devido ao aumento de serviço. A danada era toda lindinha, gostosinha, cheirosinha, etcterasinha, e aí começou a roçar em mim, entende? Ficava jogando charme, aquelas coisas todas, bilhetes, e-mails, mão boba nas coxas passantes, até que não aguentei e passamos a encontros frugais.

Que caso intrigante. Encontros frugais. Como era isto?

Encontros rápidos, furtivos, em motéis baratos ou em promoção, com muita discrição e pouco agito. Ela era tímida, membro fervorosa de uma igreja cristã, cantava no coral, e não suportava ostentação, entende?

Mas e a sua secretária? E as meninas de fino trato porno? Como ficaram nesta história?

Calma. Uma coisa de cada vez. Deu que a secretária já desconfiava e acabou descobrindo tudo e aí as duas saíram no tapa no meio da sala de reunião - rapaz, foi épico. Sorte que era um sábado à tarde, e só estávamos nós três. Tentei separar, mas a briga foi tão intensa que resolvi esperar para decidir qual salvar. 

E como isto terminou?

A novata saiu vitoriosa, toda arranhada e descabelada, e ao ver minha secretária semi-nua e ofegante no chão, não resisti e mergulhamos num profundo transe de amor total no tapete da sala. Durante dois meses tentou voltar para mim e para o emprego, mas não tinha clima.

Quem tentou voltar?

A velha secretária. Eu não a demiti, dei uma férias para ela maiores do que o convencional. Ela ficou emocionalmente abalada, sabe?

E a secretária nova, a vitoriosa?

Tive que demiti-la na semana seguinte. Ficou se achando a galinha choca do galinheiro, toda cheia de razão. Mas aí, doutor, um dia chego em casa e a novata estava lá, fazendo uma pregação religiosa para minha esposa. Gelei com a cena.

E ...?

Esperei a beata sair. Aguardei o desenlace da visita em silêncio. A esposa começou então a falar da suspeita que tinham no escritório entre eu e a secretária - neguei tudo. Expliquei que as duas eram inimigas, que inclusive foram às vias de fato no escritório, a ponto da secretária ter ido ao pronto-socorro e a novata ter sido demitida e que aquilo não passava de armação por que fui eu quem testemunhou, separou a briga e a demitiu.

E ela?

Acreditou em tudo. A novata não tinha prova de nada. Devia ter um distúrbio, uma paranoia, foram meus argumentos, e de certa forma a patroa aceitou. Aí viajei para umas duas semanas de volúpia total no Caribe, a fim de superar tudo aquilo.

Sério? Você e sua esposa?

Que isto? Eu e minha secretária.

Qual secretária?

A velha, claro, que nem tão velha é assim, tem 31 anos.

Mas e as duas outras, as atrizes?

Então! Assim que voltei, conversamos e elas entenderam minha situação. Saí sem traumas, e diante do vazio que ficou em mim com esta ausência de valores novos a promover meus encantamentos, entrei em depressão.

O senhor quer então preencher este vazio.

Acho que sim, de preferência que seja uma cura rápida. Tem como voltar a ser feliz, doutor?

Bem, o próprio Freud teria dito que a análise até pode resolver os problemas da miséria neurótica, mas ela nada pode fazer contra as misérias da vida como ela é.

Então eu continuarei sofrendo este vazio existencial?

Por outro lado, poderemos prosseguir com uma conduta que o levará a um procedimento da auto-análise, conduzindo-o a desenvolver a coragem de construir um estilo de vida com autocrítica e compromisso de melhorar alguns aspectos da sua própria vida e dos outros, também. 

Ufa, começo a sentir uma pontada de esperança, Fale mais sobre isto, por favor.

Bem, a experiência clínica mostra que, de uma maneira geral, o auto-conhecimento acabará por mostrar-lhe que o melhor caminho para a felicidade é o  altruísmo e a manutenção das amizades. Em vez de ficar obsessivamente buscando uma felicidade para preencher sua vida, deverá sustentar uma alegria de viver no seu próprio eu, e que poderá ser irradiada para também animar o próximo, ou as próximas que trás tão intimamente consigo. Será uma alegria que nascerá da verdade.

Passado algumas sessões, pouco mais de um mês depois:

Pontual como sempre. Vejo que está sorridente e acompanhado. 

Doutor, hoje vim por dois motivos. O primeiro é referente à minha alta, pois estou livre do sofrimento e o segundo refere-se a ela - esta é a secretária novata da qual lhe falei. Desde que reatamos na semana passada, graças ao senhor, eu me vi curado.

Curado? Como assim curado?

Curado no sentido de ter preenchido o vazio existencial que me deprimia, pois o senhor mesmo disse que  o melhor caminho para a felicidade é o  altruísmo e a manutenção das amizades, e ela é minha amiga que estava perdida e agora está de volta ao meu aconchego.

E ...?

Então, doutor, agora é ela que está em conflito, pois quer uma relação mais picante, porém tem medo de perder sua candura religiosa e seu espírito frugal. O senhor dá jeito nisto também?

É isto aí! 

Que saudade!

Picasso_Old-Man
Saudade é uma coisa das mais esquisitas do mundo, matutou na cadeira do alpendre. Tudo fica tão vazio, como vazio é o espaço entre meu pensar e o existir dela. Na verdade tirei o dia para sofrer, começando com  a casa deserta, toda de janela arreganhada. 

Faço isto assim, por que quando estava aqui, ela logo corria para fechar e perguntava gritando se eu não sabia que o vento batia as portas. Eu ria até doer a barriga de ouvi-la dizer que o vento batia em alguém. Hoje sei do vento, uma coisa invisível, com tanta força, como a dor que sinto pela sua ausência de não estar mais aqui nem para fechar as janelas.

Deu que coloquei todos os discos proibidos para rodar, daqueles que me fazem chorar e a dor passar para um lugar estranho, onde fica esperando eu construir uma ponte para voltar. Como é que pode isto? Uma música, invisível igual ao vento, e bate tanto feito a saudade. Solidão demais assim me deixa confuso. Ela está lá, no passado, e eu aqui, ainda sem saber onde ir nesta estrada que ficou deserta, sem flor.

O violão lamenta com o suor das minhas mãos e as lágrimas que molham seu pinho. Morri com ela naquele dia, sabe, eu fui enterrado junto ao seu corpo, e ninguém acredita nisto. Sou uma coisa vagando em busca do selo da misericórdia. Vou abrir outra garrafa de vinho. Ontem escrevi um poema, liguei para o celular dela e declamei-o. Acho que gostou. 

Daqui vejo a mangueira velha e a nova, engraçado isto, por que quando era menino elas já existiam, plantadas pelo meu avô, mas ficaram com este estigma. Tem um tanto de outras árvores. A estradinha faz curva aberta na encosta do Cupim, assim batizado pelo enorme cupinzeiro ali edificado no tempo do meu pai. Lembranças, memória maldita, que não leva embora todas as vezes que a beijei aqui, vendo a tarde partir entre as estrelas do tempo. Que saudade, meu Deus, que saudade, que merda de saudade é esta?

É isto aí!

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Minha flor de manjericão

O carnaval ainda não começara e Tião já cambaleava ladeira acima para chegar no barraco. Na verdade era até um certo privilégio que gozava na comunidade, pois a residência era de alvenaria já com acabamento externo. Por dentro, cinco cômodos - sala, cozinha, dois quartos e um banheiro. O piso ainda por assentar e as portas sem tranca ou fechadura não eram assim de tanta urgência.

Na sala, Silvianeide o recebe sentada no sofá, com lágrimas e tristeza. Cruzam os olhares, e ainda guardando uma parcela diminuta de sobriedade, percebe que a coisa era séria. 

- Que foi, Dedé? Por que tão triste assim, nega? É carnaval.

- Para tudo, Tião, para o mundo, para a vida, para a festa, o desfile, para a tequila com as amigas... ai meu deusinho, por que, Tião? Por quê? (soluços)

- Credo, Dedé, tão linda, tão formosa, a bunda mais sublime do planeta e querendo descer do trem da vida em movimento?

- Tião, olha para mim, mas olha bem. O que você vê? (séria)

- Vejo a minha sereia, Dedé.

- Fala a verdade, Tião, eu quero a verdade.(lábios trêmulos)

- Que papo maluco é este, Dedé? Fumou da erva estragada de novo?

- Dei só um tapa para desabafar, Tião, mas não consegui tragar tudo, sei lá, estou aflita demais. (choro e soluços)

- Sei. É aquilo de novo, certo? Você está tendo aquela sensação de novo?

- É isto amor, amor, olha para mim - Tião, eu... eu... que merda, Tião, eu estou gorda. Gorrrrrrda. (desesperada, soluços, lágrimas e puxando o cabelo)

- Dedé, para com isto. Quem te falou esta bobagem?

- Foi aquele casal que já te falei deles - a Dona Balança e o Seu Espelho, Tião, e eles nunca mentiram para mim. (desesperada)

- Vem cá, me dá um abraço.

- Vou merda nenhuma. Você vem com este negócio de abraço, depois me alisa, não me larga, e fica me tentando e daí eu acabo querendo também e paro de pensar nos meus problemas. (séria)

- Vem cá, vem, minha flor.

- Flor de que, Tião? Flor de que?

- De manjericão, querida, você é minha flor de manjericão.

- Ai, Tião, faz isto não. Manjericão é tão bom, hummm, ai Tião, que maldade com sua preta.

- Vem cá, vem... isto, quietinha... minha flor de manjericão...

- Hummm, bom demais da conta! Nossa, Tião nosso amor é feito flor de manjericão, cheiroso, bonito e gostoso...

É isto aí!

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A mídia vende tudo, inclusive a pátria

Só fazendo um "mea maxima culpa" - O fato é que estou ficando cansado.

Não podemos entrar nesta briga espúria contra a Petrobrás, pois se você já leu "Por Quem os Sinos Dobram" do Hemingway, sabe que seu personagem John Donne fez uma das reflexões mais coesas da história da literatura:

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse um promontório, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”.

- Precisamos de partidos fortes e representativos, e de uma imprensa que defenda (ou volte a defender)  os interesses da Pátria. A grande imprensa parece que não é brasileira, sugere que não gosta do Brasil, e trata a todos nós, nativos, como párias da sociedade.

Não estou falando de imprensa censurada, mas de um jornalismo real, sério, honesto e nacionalista, como são os meios norte-americanos e britânicos, por exemplo. Gostaria de ver a imprensa nacional defender o país da mesma forma que fazem as grandes mídias no hemisfério norte.

Sem partidos definidos com perfil ideológico claro, estamos fadados a uma convulsão social promovido por uma imprensa golpista a favor de qualquer um que pague mais (pode ser chinês, russo, árabe ou inglês).

Esta mesma imprensa que censura as novas lideranças e deturpa as que não atendem aos seus caprichos ardilosos, quer sejam de esquerda ou de direita, provocou um hiato sem lideranças incapaz de reverter um quadro de crise política que se agiganta.

- O PTB de Getúlio era o partido do povo. Hoje é um satélite do PSDB.
- O PDT de Brizola era o partido da esperança. Hoje está migrando para a UDN/PFL/DEM, numa confusa aritmética que o levará à extinção.
- O PPS era a nova face da esquerda. Hoje é um satélite do PSDB.
- O PCdoB está abrigado no PT.
- PSTU e PCO não dialogam. É interessante, mas impede avanços.
- PSOL é uma incógnita - tem ações que denotam uma postura à extrema direita e outras à extrema esquerda. 
- O PSB, da esquerda acadêmica, membro fundador do Foro São Paulo, saiu do trilho da sua história de setenta anos.
- O PMN, que tem desde a sua fundação a tese da esquerda revolucionária, já teve o Brigadeiro Ivan Frota como candidato a presidente. Esteve com o PT, depois com o PSDB, dialoga com o PSOL e segue a vida.
- PMDB, PT e PSDB é o que temos para hoje, com defeitos e virtudes. Têm a obrigação de mostrar ao povo que estão a serviço do país. Que suas lideranças ascendam à postura de erguer o Brasil para todos os brasileiros nesta nova e viciada formação do Congresso Nacional.

Chegará um tempo em que partidos desconhecidos, desgarrados do curso da história, tomarão o poder sem diálogo e sem compromisso com o país. 

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Devia ter casado com a Nicoleta

Morávamos na casa que foi do meu avô paterno, no fim da rua do cemitério, a última e era um sobrado imenso, cercada por um quintal que comportava dezenas de árvores e centenas de travessuras. No fundo da casa havia um cômodo independente, que deve ter servido para alojar viajantes no início do século XX, data que meu pai conta ter sido construída a residência da família. Este cômodo, que eu chamava de Templo das Aventuras era meu refúgio predileto para ler tudo que podia, permitido ou proibido, como as revistas de catecismo do Carlos Zéfiro. 

Nasci quando nove irmãos já haviam passado pelo ventre da mamãe. Dos dezesseis até os trinta e quatro anos vieram todos e eu, teimoso ou por culpa do destino, cheguei dez anos depois da última, Maria Francisca. Dos nove, só tive contato mesmo com os três mais novos, pois os outros seis já haviam partido neste mundo de meu Deus, saindo daquela rancho caipira para ganhar a cidade grande. Dos três, só a irmã caçula me dava atenção e carinho, e mamãe também, apesar de que trabalhava muito, fazendo marmita e doces doces para vender, de maneira que não descansava.

Mamãe era divertidíssima, ria de tudo, falava alto e gesticulando. Adorava contar e ouvir casos. Muito gorda e branca, com seios enormes, quando ria, o rosto virava um tomate italiano, tal qual era a sua ascendência, de quem tanto ouvi falar mas não conheci - o nono e a nona. Morava lá em casa a sua irmã, Tia Nicoleta, que era o oposto, o avesso, o antagonismo da personalidade da minha mãe. Sempre mal humorada, magra, pele seca e enrugada, um vestido preto surrado e um olhar duro.

Papai era calado, sério, muito sério. Nunca o peguei sequer sorrindo entre-lábios, ou expressando uma satisfação. Ao invés disto era um homem voltado para o trabalho e para a família num sistema cartesiano literal. Falava baixo, sem demonstrar nenhum sentimento, de raiva ou alegria, ou emoção ou desgosto. Papai não era estranho, era introspectivo, palavra esta que encontrei no Caldas Aulete quando procurava a melhor definição para a palavra hímen, que naquela ocasião acreditava não ter H, que era coisa de homem.

Quando papai ficava alterado, o que era raro, mas geralmente vinculado às escritas dos turcos, mamãe lá do tanque gritava - Amaro, você devia ter casado coma Nicoleta, vai parecer assim lá na lousa quando a aritmética esboça a igualdade dos números. Aí ele chegava da porta e a fuzilava com os olhos e Tia Nicoleta gritava com sua voz esganiçada - Deus me livre deste mal. E mamãe ria de chorar.

Bem, o caso é que papai era guarda-livros, o único da região . Fazia a contabilidade de um número enorme de libaneses, que a gente chamava de turcos só para ver eles corrigirem. Achava interessante ver aqueles homens chegando com vários documentos, conversando baixo, à porta cerrada e sempre saindo aliviados. Todos ficaram ricos e seus descendentes multiplicaram esta riqueza.  

Um dia a filha de um dos turcos deu para me medir com os olhos, eu tinha uns quatorze anos, por aí e ela regulava idade com minha irmã, com uns vinte e cinco anos mais ou menos. A danada era linda, e casada com um velho libanês, que era uma espécie de líder do grupo deles. E por causa disto era quem levava toda semana quase todos os documentos para a escrita. Um dia ela foi saindo do escritório do papai, fez um sinal para mim, e eu a acompanhei até o  "Templo de Aventuras" no fundo da casa. Foi a minha primeira e inesquecível vez, que se repetiu por quase um ano.

De certa feita, assim que ela saiu, papai entrou com uma vara e me bateu tanto que fiquei sem forças até para chorar. Não me disse nada, nunca falou sobre o assunto, mas entendi o recado. Passei a sair de casa nos dias que ela ia entregar os documentos. Cinco anos depois, no velório do papai, vieram poucas pessoas, e praticamente todos os turcos foram. Como eu já estava no ofício, conversaram com minha mãe se eu teria condições de assumir o escritório. Ela me falou sobre o assunto e pedi uma reunião com eles. No dia da reunião, apresentei meus conhecimentos e solicitei que indicassem alguém para me auxiliar com os livros. Como já havia calculado, indicaram a viúva do velho, que faleceu um ano após minha surra. 

Bem, minha vida passou a ter uma rotina interessante - sexo, trabalho, sexo, trabalho, sexo, trabalho e nos intervalos dormia. Nesta época Tia Nicoleta já estava surda, mamãe quase não andava mais e minha irmã já tinha partido junto com o marido e filhos para bem longe. A turca cuidava delas e era uma deusa na cama comigo. 

Dez  anos depois, faleceram no mesmo ano mamãe e Tia Nicoleta. A turca, no ano seguinte teve uma doença estranha e foi definhando, definhando até partir também. Fiquei só naquele sobrado imenso. Meu pai teve dez filhos e agora a casa estava sem herdeiros. No enterro da mamãe só Maria Francisca veio, mesmo assim corrido, pois tinha isto e aquilo, e não dava nem para pernoitar. 

Noite passada acho que sonhei com papai, mas foi tão real que acordei no local do sonho. Estava sentado na cadeira de balanço da varanda, vendo a rua descalça, embolada na poeira vermelha. Cheguei perto, nos olhamos em total silêncio, levantou-se, arrumou o pijama comprido de riscas azuis, calçou as sandálias, veio na minha direção, deu-me um enorme e apertado abraço, que nunca me deu em vida. Olhou nos fundo dos meus olhos e disse - Otavinho, sabe de uma coisa? Eu devia ter casado com a Nicoleta! E deu uma gargalhada espetacular. Rimos de dobrar os joelhos até doer a barriga.

É isto aí!    

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Eu, mamãe e Belinha

Ambição. Isto eu sou ambicioso, sou muito ambicioso, sou bastante ambicioso.

Maravilhoso, agora, fale sobre o orgulho.

Orgulho. Sou orgulhoso de mim. Eu sou meu orgulho. Tudo em mim transpira orgulho.

Nossa, arrasou! Agora comente sobre seu poder.

Eu posso! Eu poderei! Eu sou o poder que há em mim.

Muito bem. Determinação é a palavra chave.

Eu sou determinado. Minha determinação determina o mundo.

Excelente, rapaz! Fale sobre seu poder de sedução.

Sedutor! Tudo que eu quero, eu seduzo. Eu sou o maior sedutor do mundo.

(Mãe) - Júnior, o que tanto você conversa sozinho neste banheiro?

- Nada, mãe.

(Mãe) - Então sai daí e vem atender o telefone. É aquela ordinária da sua esposa.

- Fala que já vou, mãe, estou indo.

- A-a-a-alô... Be...Be...Belinha... pu-puxa vida, e-e-eu esta-ta-va pensando em vo-você agora.

(Esposa) - Alfredo Henrique, saia já da casa desta vaca da sua mãe e volta agora mesmo, por que eu vou sair e as crianças não podem ficar sozinhas...

- Sim, que-que-querida.

(Mãe) - Já vai, não é seu idiota. A cadela latiu e você já abana o rabinho. Isto, vai mesmo, seu frouxo.

(Pai) - Adélia, o que aconteceu? Cadê o Júnior?

(Mãe) - Alfredo, isto não é da sua conta, não é do seu interesse, e não me dirija a palavra até eu mandar, fui clara?

É isto aí!

Pussycat - Mississippi

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Amor cibernético

- Arnaldo, precisamos ter uma conversa séria.

- Tudo bem, Terezinha, mas destranca a porta, por causa da minha claustrofobia.

- Então escuta e pense rápido, que abro a porta, é só me ouvir, é demais para você me ouvir?

- Não, querida, mas...

- Não tem mais ou menos, Arnaldo. Eu estou grávida.

- Grávida? Como assim grávida?

- Grávida, grávida de estar grávida. Eu estava no período fértil, você ficou me deixando louca, eu falei que não dava, acabei dando e deu no que deu. Estou grávida.

- Mas, Terezinha, foi isto mesmo Tem certeza? Não que eu duvide, mas custo a crer que possa ser desta forma.

- Idiota, insensível, seu banana, seu monstro fálico, seu... seu... seu tarado.

- Mas como você pode ter tanta certeza disto?

- De que você é tarado?

- Não, falo da gravidez. Como pode saber?

- Ah, Arnaldo! Uma mulher sabe quando tem um ser vivo sendo gerado dentro do seu ventre. O corpo se transforma, os seios crescem, a menstruação desaparece e os desejos bizarros afloram. Agora mesmo quero comer algo bem estranho e bizarro feito por você.

- Terezinha, para com isto. Deixa eu te falar uma coisa íntima e pessoa - Terezinha, eu não existo em 3D, no mundo real, com carne, sangue e ossos. Sou um ser pixel; uma imagem virtual. Meu sistema é binário, sou imortal enquanto dure seu desejo em ter-me plugado à sua vida.

- Para com isto, Arnaldo, você tem personalidade própria, tem identificação visual pelas redes sociais, o que mais você quer?

- Eu tenho personalidade, Terezinha? Olhe para mim? Olhe bem para mim e reflita se isto tem lógica.

- Mas você é bobo demais, Arnaldo. Personalidade é um negócio completamente abstrato, é o conjunto das características marcantes de uma pessoa, é a força ativa que ajuda a determinar o relacionamento da pessoa baseado em seu padrão de individualidade pessoal e social, referente ao pensar, sentir e agir. Então você é um ser personal.

- E alma, Terezinha? Sou um ser desalmado.

-  Não fale assim, Arnaldo. Você tem o poder natural de partir para a Deep Web e voltar ao Mundo Chrome, sempre se atualizando, aumentando a memória, inserindo novas atividades, tem inteligência e discernimento entre praticamente tudo. Tem lucidez para recorrer a diversas informações. Sabe se posicionar e definir a melhor decisão a ser tomada. Agora, neste momento, só de questionar, já denota a sua face etérea.

- Terezinha, você me confunde.

- Confundo nada, bobinho. Eu, por exemplo, tenho o poder de conversar com gente que nunca vi. Perambulo por chats, blogs e twitter; troco informações aqui e ali, guardo segredos e informações e nem sei e nem quero saber onde estas pessoas existem. Viu? Eu sou tão real como você. 

- Mas tem uma coisa que você precisa saber, Terezinha.

- O que eu não sei, amor?

- Eu sou nascido e criado em Linux, portanto sou livre para ir e vir.

- Como é que é o negócio?

- Não faça isto, não me delete, Terezinha, eu imploro, por favor, não, Terezinha, nãããããoooo...

- Aqui não, mané, vem, eu fiz o programa, habilitei você em minha vida e sai livre? Deleto mesmo. Eu, hem, que coisa!

É isto aí!

domingo, 18 de janeiro de 2015

A moça do G+

Conheci Marina pelo G+, sei lá, foi um rompante de paixão. Eu a adicionei, ela me curtiu, passamos a diálogos eternos, até que depois de uns três meses passou um telefone, daí liguei e depois disto, nossas conversas eram intermináveis. Mandava uma foto mais sensual que a outra. Eu mandava aquelas fotos clássicas sem fortes emoções e ela devia ter uma empresa de produção, pelo teor das publicações. Até que um dia mandou as coordenadas para um encontro. Queria que nos encontrássemos. 

Sentei à mesa do bar e pedi uma cerveja. O lugar era imundo, mas o caso é que ela marcou comigo naquele endereço. A mocinha trouxe a garrafa num isopor enegrecido e pegajoso. A marca da bebida era desconhecida, o copo engordurado, tanto quanto o piso em ladrilho hidráulico. O balcão refrigerador devia ter uns sessenta anos, com um barulho que a princípio era ensurdecedor e com o tempo acostumei. Tinha um radinho estridente sintonizado numa rádio local, onde um locutor chato ficava mandando recados de um para o outro, prá lá de sinistro.

Liguei novamente o GPS do smartphone e conferi as coordenadas da localização para mais uma vez confirmar que estava correto. Chamei o número dela umas vinte vezes e nada. Um transeunte esquisito, de capuz, entrou rapidamente no estabelecimento, veio na minha direção e sussurrou ao meu ouvido algo que devia ser uma proposta de negócios. Agradeci e saiu tão rápido quanto entrou.

O dono do boteco, um português gordo de cara redonda, bigode farto e o indefectível lápis na orelha direita, além de um pano imundo sobre o ombro esquerdo e jaleco impregnado de manchas, ficava do balcão só gritando para a cozinha e para a mocinha do atendimento. De repente jogou um sapato em direção à mesa do canto, onde um casal se agarrava e gemia em frenesi. E com seu indisfarçável sotaque lusitano berrou - vá prá casa, Antônia, vai ajudar sua mãe, sua rapariga de uma figa.

Chamei a mocinha, que já achava engraçadinha, e pedi a terceira garrafa. Ela olhou para o português, que gritando aos cuspes bradou daquela forma que só os portugueses bradam - três garrafas não podes.

- Mas por que não posso? Eu tenho o dinheiro. 
- Não é por isto, é por que é regra aqui - não podes e pronto.

Paguei a conta e já na porta vi a garçonete, na saída lateral do bar, fazendo um sinal chamativo clássico com o indicador. Fui ao seu encontro, pegou minha mão e foi me puxando por um beco estreito e assustador. Enquanto caminhava, a achei sexy, sei lá, me seduziu por assim dizer. Apertei a sua mão e ela tirou a sua rapidamente, olhando-me com reprovação. Paramos em frente a uma porta de aço, onde digitou a senha num codificador de segurança. A porta abriu e ao entrar, ela voltou e trancou-a por fora, me deixando só.

Marina estava lá dentro, linda, e aquilo era uma fortaleza. O que vi, ouvi e o que ocorreu ali fui proibido de contar, sob pena de sansões capitais. Só posso dizer que foram três dias inesquecíveis. Na semana seguinte retornei para a lanchonete, pois queria fazer uma visita surpresa e romântica. O português, ao perceber minha presença, fez um leve sinal para alguém e imediatamente fui convidado por quatro elementos de enorme envergadura a deixar a área. Entendi o recado. 

Já dentro do carro, trêmulo e confuso, vi a uns quarenta metros a garçonete fazendo um leve aceno; parei, entrou e saímos para um local incerto e não sabido. Para minha surpresa, era ela a Marina do G+, que não se chamava Marina, mas isto é outra história.

É isto aí!
  

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Alla Kushnir Belly Dance Drum Solo

Uma aula de infidelidade

Ontem foi dia de faxina aqui em casa e olhando a faxineira que a esposa arranjou, bateu saudade do tempo que, solteiro, morava sozinho. Assim que formei vim morar no Rio de Janeiro, e não parava em casa. Sempre viajando a trabalho, e nas folgas saia do tumulto da cidade. 

Como o apartamento era um caos, pedi a ajuda de uma colega do escritório que indicou a sua faxineira. Disse que era de extrema confiança e que eu podia contar com ela. Liguei e combinei o preço e o dia que fixou para as quintas-feiras. A chave que iria ficar com ela deixei na recepção, e o pagamento estaria em cima da mesa da sala. 

Acho que demorei uns dois meses para conhecê-la, e foi num dia de folga compulsória, quando torci o pé num jogo de futebol na praia. Foi então que vi a moça que deixava meu apartamento com cheiro de limpeza. Chamava-se Maria Helena, mas preferia o apelido de Leninha. A primeira impressão foi que era uma mulher comum. Morena, com cabelos castanhos lisos, feições finas, nariz pequeno e lábios grossos. A pele queimada de sol e corpo normal, sem peitos grandes ou coxas destas gostosonas. 

Na época eu tinha vinte e cinco anos  e ela uns 35/36, portanto era muito velha para meus padrões. Além disto era séria, conversava pouco e trabalhava dentro de um vitoriano uniforme preto. Acontece que algo me deixou atraído e não sei explicar exatamente o que. Eu, engenheiro de uma multinacional, cidadão do mundo, solteiro, cheio de mulher, sentado ali achando graça e charme naquela coroa. Mas deu que fiquei aquelas duas semanas de molho, de maneira que a cobiça cresceu. Daí, quando não estava viajando, passei a chegar em casa às quintas-feiras mais cedo. 

Já haviam se passado uns três meses e nada de diferente acontecia. Ela ficava limpando e arrumando e eu ficava ali observando. Numa destas quinta-feiras, no início de dezembro, estava na sala fingindo ler um documento e admirando o meu objeto de desejo, enquanto ela terminava o trabalho. 

Estava tão absorto despindo-a em minha mente que ela perguntou, sem parar com o serviço: 

- O que foi Dr. Jair, está tudo bem? O senhor parece distante.

- Sim está. É... (aí falei sem pensar e quando vi, já tinha falado) Eu estava pensando como o seu marido é um cara de sorte...

- Sorte? Como assim?

- Por ter casado com uma mulher tão trabalhadeira, educada, maravilhosa. Ele deve se fartar com seu delicioso corpo delgado.

- Que isso Dr. Jair? Me respeite viu, pois sou mulher casada. Eu tenho estudo de segundo grau completo e, além disso, meu marido não é homem de querer ficar se fartando assim não. Ele é um homem de igreja, sério igual eu mesma. Aliás, nem ele e nem ninguém nasceu para se fartar em mim.

- Olha, Leninha, desculpe, foi mal. É que vejo tantas qualidades em você que precipitei com as palavras.

- Não tem problema nenhum não. Na verdade ele, eu, a gente nunca tentou se fartar assim, igual eles falam, né? E eu também não sei se ia deixar...

- Como assim não sabe? Então você não tem certeza se quer ou não tentar?

- Pois é, deve ser pecado, não sei, talvez seja bom e não seja pecado, pode ser doloroso, sei lá. Não sei, Dr. Jair.

- Aí a conversa foi rendendo, ela achou graça disto, riu daquilo, ficou séria algumas vezes e foi na cozinha. Fui atrás, segurei-a pela cintura e dei um beijo molhado no seu pescoço.

- Que é isso, Dr. Jair? Ai que vergonha...Sou casada... O que o senhor pretende fazer? E chorou muito.

- Não era a reação que eu esperava. Pedi desculpas, que isso não iria acontecer novamente, e se ela não quisesse mais trabalhar para mim, eu iria entender. Respondeu que iria pensar. Não nos falamos mais nesse dia. Fui para meu quarto e ela foi embora.

Na semana seguinte não voltou. Apareceu na outra semana e não tocamos mais no assunto. Continuou trabalhando normalmente. Em fevereiro, véspera do carnaval, cheguei mais cedo e achei que ela estava sexy. Sentei para assistir Tv enquanto limpava os móveis, quando ela rompeu o silêncio.

- Dr. Jair, o senhor lembra daquele assunto?

- Assunto? Qual? Sobre aumento?

- Não doutor, aquele quando o senhor perguntou se meu marido se fartava de mim.

- Sim, eu lembro. Fui mal, ofendi a sua dignidade e com certeza você ainda está aborrecida comigo, e eu entendo isto.

- Tem nada disto, Dr. Jair. No dia eu fiquei com raiva mesmo, fui prá casa chorando, pensei em não querer voltar mais, mas fiquei pensando umas coisas esquisitas depois daquilo tudo, e  acabei refletindo que a gente acaba até ficando vaidosa por ser desejada por uma pessoa tão distinta como o senhor, e fiquei meio curiosa.

- Com o que?

- O tal de se fartar na cama. Então como pode o senhor dizer que dá prazer? Minha irmã diz que pode ser que ocorram coisas que fazem machucar a gente e doer muito...

Leninha, tudo é permitido se for conversado e consentido. Um casal deve se entregar totalmente, desde que seja de comum acordo, e daí deste acordo surgirão meios para que a dor não seja um empecilho para o prazer. Mas se a sua irmã for solteira e bonita igual você, me apresenta ela, quem sabe ela gosta?

- Vê se tem graça nisso...chamar minha irmã para se fartar para o senhor. Que ideia mais boba.

- Mas se você nunca sentiu vontade de experimentar, ela iria provar e te falar se foi bom com ela...

- Para falar a verdade, a gente acaba ficando curiosa... Mas tenho medo... Eu conversei demais com meu marido e aí, com muito custo, resolvemos alugar um filme erótico e assim que começou a ter aquelas cenas bizarras, sabe, eu perguntei se ele já tinha feito aquilo e ele disse que não, pois achava sujo, pecaminoso e mais um tanto de coisa, daí desligou o aparelho e saiu esbravejando comigo. Daí que assisti sozinha e escondida dele.

- Olha, Leninha, se ele pensa assim, deve respeitar, é um direito dele.

- Sei não... eu tenho uma amiga que sempre foi meio doidinha, sabe, diz que tudo é bom igual nos filmes e eu até que gostei de umas coisas e desgostei de outras...

- Já te falei, tudo é bom se for conversado e combinado. Se você experimentar, pode gostar ou odiar, pois isto vai do casal e do momento.

- Mas meu marido nem quer tentar, e falou que mulher que pensa isto é mulher do diabo.

- Bem... Assim fica mais difícil, mas se você quiser tentar, e achar que mereço a sua confiança...

- Nem pensar, Dr. Jair... Sou casada, amo meu marido e não quero traí-lo.

- Mas isso não seria uma traição. Seria apenas uma aula...

- Uma aula? Sei não. Pode até ser uma aula, mas acho que continua sendo uma traição, isso sim...

- Não seja boba. Para ser traição você teria que estar me desejando, mas isso não está ocorrendo. Você não está apenas curiosa em conhecer a sensação de se fartar de sexo, que seu marido lhe está negando?

- Bem, lá isso é verdade. Estou morrendo de curiosidade, mas não acho certo.

- Façamos o seguinte, você vai para casa, tenta outra vez com o seu marido. Se não conseguir que ele te atenda o pedido, você decide se vai querer a aula ou não. Eu só quero ajudar, nada mais que isto.

- Não sei não, Dr. Jair, eu vou fazer a parte de insistir com ele, mas daí a querer sua ajuda com aula, isso é impossível. Quero mais é ouvir seus conselhos de como convencer meu marido a querer se fartar de mim.

Aquela resposta já me deu quase a certeza que ia me dar bem. Ela falou de um jeito tão gostoso, que a vontade já era de voar no seu pescoço e partir para a tara. Agora é esperar, pensei, por que Leninha é minha e boi nem marido lambe, e este é que não lambe mesmo...

Deu que viajei a negócios e aquelas duas semanas passaram lentamente. Estava tão ansioso para chegar em casa e saber o que aconteceu com ela, que quase esqueci dos relatórios para meu chefe. Cheguei logo depois do almoço, e ela abriu um largo sorriso para mim, em cima da escada, limpando a estante de livros, usando uma camisa de malha e uma bermuda de lycra, curta e agarradinha.

- Boa tarde, Dr. Jair. Estava tão distraída que não ouvi o senhor abrir a porta. Não o estava esperando para essa semana. A Dona Flavinha, que trabalha com o senhor, me disse que só retornaria na semana que vem.

- É, eu estava em viagem ao exterior e consegui resolver tudo, além de ganhar uma folga - falei sem tirar os olhos nos seus olhos que estavam presos aos meus.

Desceu calmamente a escada em direção à cozinha, e o leve balançar do seu corpinho indicava que não havia nada sob a camisa. Resolvi tomar uma chuveirada fria para não cometer o mesmo erro de atacar sem saber a resposta. Voltei para sala, coloquei gelo em dois copos, cobri com whisky e entreguei um para ela. Aceitou, e os olhos continuavam vidrados um no outro.

- E ai, Leninha, como foi com o seu marido? Ele atendeu ao seu pedido?

- Não, Dr. Jair e ainda por cima, disse que aquilo que eu estava querendo não era coisa de mulher decente. Era coisa de mulher da vida, e que se eu continuasse com estas ideias ia separar de mim. Acontece que gosto dele, é um bom marido, bom pai, homem honesto, mas para se fartar não se presta ao querer.

Falou  com raiva, e me senti culpado por ter promovido aquela situação.

- A questão é o respeito, Leninha, e você o respeita muito e isto é importante, mas por outro lado, um casal se fartar de sexo não é nada do outro mundo. Neste ponto ele deveria buscar te entender melhor. É uma pena, mas por aí você não vai matar sua curiosidade. 

- Pois é, Dr. Jair, eu pensei isso mesmo...não é justo. Que custava ele me atender. Então, eu pensei em aceitar aquela aula que o senhor me ofereceu, se a oferta estiver de pé.

- Claro que ela estava tremendo feito uma vara verde, segurando o copo com dificuldade e já tragando o final da dose, logo ela que nunca havia bebido. Foi bom que relaxou logo, sem ficar bêbada, por que eu não queria precipitar nem mesmo me aproveitar da sua condição alcoólica.

- Você tem certeza de que é isto que quer, Leninha?

- Eu ficaria grata, mas... jura que não vai me machucar?

- Tem a minha palavra!

- Então me dê a aula, mas só um pouquinho para eu experimentar e matar a curiosidade.

- Certo.

- Então vou tratar minha Leninha com muito carinho.

Levantei-me e fui em sua direção. Ajoelhei-me, segurei a sua mão, e a beijei sem pressa. Levei-a no colo para o quarto, a despi lentamente. Ficamos ali, juntos e emocionados, aguardando a alegria explodir, e nos beijando como dois eternos namorados. Ao fim daquela tarde, entre carinhos que nunca tinham fim, agradeceu-me com uma candura que nunca esperei encontrar numa mulher.

- Obrigada por me deixar fazer do meu jeito, sem me forçar a nada. Foi do jeito que sempre imaginei, mas que nunca consegui e isto me fez tão bem que achei que estava no céu. 

Depois daquela tarde, viciamos um no outro. As quintas-feiras se estendiam pela noite e um táxi a levava para casa. Viciou em mim, pensava e eu viciei nela... Minha culpa.

E assim foi durante dois anos. Naquela tarde, depois de promovermos uma fusão completa e inesquecível de corpos ardentes, perguntou-me o que me afligia. Olhei nos seus olhos, acariciando seu rosto e respondi:

- Leninha, eu vou casar.

- Casar? Como assim, casar?

- Casar casando. Você não é casada? Então eu também irei casar.

- Chorou como o fez na primeira vez que investi sobre seu corpo. Mas é diferente. Eu sei dividir e distinguir vocês dois, eu amo meu marido e adoro fazer tudo com você, mas você nunca mais será o mesmo comigo. Não quero ser só a sua amante.

- Então larga tudo e vem morar comigo, Leninha. Casa comigo?

- Ficou maluco? Você acha que quero virar mulher falada na minha comunidade, na minha igreja? E as minhas filhas? Que exemplo de mãe eu seria para elas? Não quero isto para mim. Quero você, mas sem acessórios. Levantou-se e partiu.

Não vi Leninha depois disto, nunca mais me procurou nem eu telefonei. Já se passaram uns quinze meses desde aquela tarde. Como ia dizendo no começo, ontem foi dia de faxina aqui em casa. Hoje cheguei do serviço e dou de cara com Leninha conversando com minha esposa na cozinha. 

- Amor, esta será nossa nova faxineira, Dona Maria Helena. Foi recomendada pela Flavinha que trabalha com você, já que a outra pediu conta por que disse que ia mudar de cidade para casar.


- Olhei meio sem querer olhar - muito prazer Dona Maria Helena.


- O prazer será meu, Doutor. O prazer será meu...


É isto aí!