sexta-feira, 27 de março de 2020

06 - Odete, a corona-zumba de Brasília



Saudades do tempo que meu bom e admirável Nokia fluía como um telefone fixo com asas. Por determinação do Inmetro, do DNIT, do Detran, da ANVISA, CIA, FBI, AP-Tabajara, Bill Gta, do Depto Disto e Daquilo, do Débito e mormente do saldo devedor de décadas, fui compulsoriamente convidado a obter este smartphone, o telefone inteligente que me cerceia do direito de excluir minha existência quando bem entendo.

Deu que madrugada destas zumbiu com sua desqualificada zumba de smart. Tudo bem que zumbir é de origem onomatopaica, mas quando levado à conjugação verbal, na terceira pessoa o outro zumba. Quando uma moça zumba no ritmo caribenho para fortalecer glúteos e pernas, estaria também a zumbir feito uma abelha? Nunca saberei, são dúvidas por demais complexas.
  
Se se opero pelo pretérito perfeito, na primeira pessoa, eu zumbi ...  mas "Zumbi" provém do termo quimbundo nzumbi, que significa duende ou cadáver ... que vaga à noite assombrando as pessoas, inclusive em seus sonhos. Ou seja, no passado perfeito eu zumbi vagando à noite, assombrando as pessoas. Uau! Melhor não ter nunca um passado perfeito.

Voltando ao zumbir do smartphone, do outro lado da célula era Odete. Reza a lenda que em badalada e tradicional festa regada a tudo, inclusive água, numa mansão às margens do Paranoá, Odete, usando apenas uma coroa, deu uma zumba extrapiramidal, que zumbiu por todos os poros de todos os presentes, a tal ponto das pessoas que ali trafegavam ficarem surdas como mercadores moucos para reclames da choldra tabajara até os dias de hoje.

— Odete!!!! Querida, que saudades.

— Amore, eu estou aqui, para todo o sempre, por você. Vem me ter em Brasília.

— Odete ... puxa vida ... mas conta as novidades.

— Meu bem, serei brevíssima, pois estou acompanhando uns bondosos e excitados velhinhos do sistema perdulário a manterem as contas elevadas entre parênteses tributáveis.

— Odete sendo Odete ...

— Amore, serei brevíssima. Dia destes estava com Madre Freda

— Madre Freda? Você voltou sua face ao Criador?

— Amore, sim, voltei às origens de Gaia, pois Madre Freda é a Grande Líder de um templo religioso onde encontro com todas as celebridades e celebérrimas da pátria amada, mas por força de contrato, em nome da pátria, da moral, da família e dos bons costumes, ela nunca é citada. Assim revelou-nos a fonte do saber e da luz atemporal do planalto:

Filhinhos  e filhinhas, eis que é chegado o tempo do paradoxo formulado por Zenão  que afirma que o movimento dos objetos é um fenômeno irreal e contraditório, consistindo sempre em mera ilusão dos sentidos.

— Uau, Odete ... isto quer dizer ...

— Não sei, não quero saber. Vem para Brasília me ter, amore. Deixa eu zumbar em você.

— Alô, alô ... Odete ... Odete ... droga, a zumba foi demais para o smart ...

É isto aí!

terça-feira, 24 de março de 2020

sexta-feira, 20 de março de 2020

Sobre o amor nos tempos da quarentena


Já li em algum lugar da psicanálise, que para uma história de amor acontecer é porque duas fantasias se cruzaram! Só isso, nada mais que isso! Até porque, o amor é uma grande fantasia!

Duas fantasias se cruzam em determinado momento, e aquilo, que é do sujeito, ele transfere para o Outro. Podemos dizer que isso é amor! O amor, está na capacidade que o sujeito tem de dar o DOM, que é do sujeito e nada mais que isto, porque o Outro é sempre uma invenção.

O objeto amado é criado, inventado, muitas vezes transformado por quem ama. Por isso que amar, é também muitas vezes morrer. Ir junto com quem se ama, não é ilusório ou impossível. Quantos mortos ainda estão vivos se fazendo presente em suas vidas.

Fonte:
https://blogdapsicanalise.com.br/2015/02/07/arte-e-psicanalise-desejo-amor-e-morte/

Um vírus inteligente




A reportagem é de Elena Dusi, publicada por La Repubblica, 14-03-2020. 
A tradução é de Luisa Rabolini.
Fonte: Unisinos 

Existem vírus estúpidos e vírus inteligentes. Os primeiros, como o Ebola, matam rapidamente seus hospedeiros. Já os últimos, atingem a todos com sintomas leves. Mantêm as pessoas viajando, trabalhando e saindo de férias, apesar de alguns calafrios e o nariz entupido. Eles voltam para casa à noite com a família, não cancelam o jantar com os amigos marcado há algum tempo ou se jogam na empreitada esportiva para a qual haviam tanto treinado. Eles se espalham por todo o mundo até o nível da pandemia, declarado oficialmente pela Organização Mundial da Saúde em 11 de março. "A palavra parece sugerir que não há mais nada que possamos fazer para conter o vírus", explicou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. “Isso não é verdade. Estamos empenhados em uma luta que pode ser vencida se fizermos as coisas certas".

Rápido e esperto

O coronavírus que enfrentamos é um inimigo particularmente inteligente. 80% dos infectados apresentam sintomas leves. Parece que, nos diziam um mês atrás - mas parece que uma vida se passou - não mata certamente como os outros coronavírus da Sars e Mers. Por que se preocupar tanto, é uma gripe ou pouco mais. Enquanto isso, ele, sem ser visto pelos radares, viajava a bordo de indivíduos insuspeitos, com apenas sintomas incipientes ou completamente irrelevantes. E indo rápido, mostrava uma letalidade bastante baixa (3% contra 10% da Sars e 34% da Mers). Até triturar, com sua constância, os recordes de contágios e de vítimas dos muito mais agressivos coronavírus irmãos.

Território desconhecido

"Nós nos movemos em um território sem mapas", advertiu Ghebreyesus. Três meses após a descoberta da epidemia, não temos curas, não entendemos exatamente quem é contagioso, por que as crianças apresentam sintomas muito mais brandos que os adultos e por que as mulheres se saem melhor que os homens, nem sabemos quão bem fundamentada seja a esperança de que o vírus seja sazonal e acabe se eclipsando com a chegada da primavera. "Estamos enfrentando a ameaça número um do mundo", disse o diretor da OMS. "Um vírus pode ter efeitos mais poderosos do que qualquer ataque terrorista". Era 11 de fevereiro e parecia um exagero. Um mês depois, trancados em casa ou atrás das máscaras, prestando atenção à nossa volta e mudando de calçada caso tivesse alguém no caminho, percebemos como ele estava certo. Do outro lado, destaca Benedetta Allegranzi, diretora mundial do serviço de prevenção de epidemias da OMS, "as epidemias podem nos fazer superar o individualismo e redescobrir que somos um conjunto e temos responsabilidades coletivas". É muito improvável que o coronavírus nos prejudique diretamente. É muito mais fácil que nossas imprudências tenham efeitos que recaiam sobre os ombros dos outros: os doentes mais frágeis ou o pessoal do sistema de saúde.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Nunca se sabe

deviantart.com

Chovia torrencialmente quando resolveu sair para espairecer. Não sabia mais como lidar com a dor do abandono. Não notou a chuva, não percebeu as ruas, não deu conta do quanto caminhou. Chegou a lugar nenhum e ali encostou num canto e tal qual a chuva, desabou-se.

Não viu aproximar-se a madrugada sem nuvens, sem luar e sem ela. Voltou a perambular, quando escutou alguém chamando pelo nome. Uma voz macia, suave e rouca o fez olhar para o lado direito. Desejou que fosse a mulher dos seus sonhos. Mas era uma moça de aparência tão dolorida quanto a sua. Está com medo? - perguntou-lhe a garota. Está com medo de mim?

Estou. Estou com medo de você, estou com medo de mim, estou com medo de algo maior, algo menor, estou com medo de perder o medo e não ter mais o que ter ou ser para dar ou receber. Estou com medo de viver, medo de morrer, medo de amar, medo de me entregar, medo de ser abandonado. Tudo que eu tenho é o medo, por favor, não leve ele de mim.

Ela abriu os braços, deu um sorriso - venha aqui. Foi sem perceber como, fechou os olhos e abraçou-a. Não soube dizer quanto tempo ficaram ali, por que o tempo deixou de existir. Quando abriu os olhos, ganhou a rua e partiu no mundo, ou não, nada estava no lugar. Nunca se sabe quando se abraça a morte, refletiu. Mas era seu dia de sorte, aquele anjo, conhecida por Tanatos  não o queria para si, desejava apenas confortá-lo.

Alvorecia quando chegou em casa. Abriu a porta, era a a sua casa, mas tudo que estava ali não lhe pertencia. Olhou espantado para a mudança que experimentava. Não sabia como denominar o que para uns seria loucura, para outros demência, resolveu então chamar o fenômeno de um nome que veio à mente - galenskap. Assim que nomeou a loucura, a nova vida e novo sentido que experimentava, permitiram ser adsorvido pela sua existência renascida. Ainda se sentia abandonado, pois amor é para sempre, mas agora sabia que poderia contar com sua galenskap até que a morte os separe.

É isto aí!

Apocalipse 7:1-8

Da tribo de Judá, havia doze mil selados; 
da tribo de Rúbem, doze mil selados; 
da tribo de Gade, doze mil selados;
Da tribo de Aser, doze mil selados; 
da tribo de Naftali, doze mil selados; 
da tribo de Manassés, doze mil selados;
Da tribo de Simeão, doze mil selados; 
da tribo de Levi, doze mil selados; 
da tribo de Issacar, doze mil selados;
Da tribo de Zebulom, doze mil selados; 
da tribo de José, doze mil selados; 
da tribo de Benjamim, doze mil selados.

A etimologia de cada um dos filhos de Israel:

Judá - "agradeço a Deus" ou reconheço a Deus .
Rúbem - “O Senhor atendeu minha aflição.”
Gade - "sorte", "fortuna" 
Aser - "Feliz por mim; agora todos me chamarão de feliz" 
Naftali - "Minha luta"
Manassés - "esquecimento" “aquele que está entregue ao esquecimento (perdão)”
Simeão - “ele ouviu”
Levi - "união"
Issacar - Prêmio, Recompensa para coabitar 
Zebulom - Deus me concedeu, dádiva
José - "Deus apagou minha afronta"
Benjamim - "filho prospero".

Eu louvo e agradeço a Deus!
O Senhor atendeu à minha aflição,
e me concedeu boa sorte;
Agora todos me chamarão de feliz.
O Senhor viu a minha luta
Entregou meus erros ao esquecimento.
Deus ouviu minhas súplicas
E permitiu que me unisse a Ele,
e como recompensa recebi uma das suas moradas
Deus concedeu-me Graças
Apagou todos os meus pecados
E tornei-se um filho próspero.





quinta-feira, 12 de março de 2020

A falta que você me faz (Paulo Abreu)

Bringing up baby - 1938


No domingo a amava 
delirantemente.
Na segunda desamamos
estupidamente.
Na terça o vazio
integralmente.
Na quarta a falta
abducente
Na quinta a ausência
adredemente
Na sexta a angústia
açambarcada
Agora, sábado
a tristeza e mais nada.


É isto aí!

terça-feira, 10 de março de 2020

Pindorama é piada pronta!


Como sabem, no Reino Monocrático da Pitangueira temos um dos mais potentes putoscópios voltados para Pindorama, ex-reino vizinho, agora colônia agrícola literalmente deitada, e eterna mente. A furiosa Neo-Cologne finalmente assumiu seu lado antropológico e em breve tornar-se-á a mais nova república guarani das bandas de cá com cassinos, praias fechadas, ruas descalças e índias nas vitrines

Em relação aos índios, a mentalidade colonial continuará a mesma. Existe, com enorme esforço, apenas o desejo de integrá-lo numa "sociedade dos homens de bem" como força de trabalho não produtiva, mas continuando aos prazeres voyeuristas ofertados pela matricial orwelliana do bem.

Os inocentes guaranis sempre acreditaram no mito dos "heróis civilizadores" que voltariam um dia  e se deixaram confundir com essa crença global, digamos assim, talvez por isto não abriram mão dos direito da poligamia, da antropofagia, do carnaval e de outras cositas más.

Mas o incrível mesmo é que um dos ídolos de Pindorama foi apreendido recentemente em flagrante delito na ex-república guarani (a original) por portar documentos falsos da atual, que é uma cópia muito chinfrim. Caciques bufaram, bateram o tambor, vamos chamar o caxias ... Pindorama é piada pronta!

É isto aí!


quarta-feira, 4 de março de 2020

Para todo o sempre (Paulo Abreu)


"Para todo o sempre" é um poema que fiz para falar das histórias que carregamos de forma temporal mensurável e atemporal genômica. Nossas vidas são muitas vidas que carregamos dentro de nós.  

Trazer à superfície
versos finos e delicados, 
tão explícitos sobre você
é mergulhar dentro do ego.

Quanta saudade, quantas vidas
deram-se ou magoaram
ou formaram feridas mortais
para estarmos aqui?

Escrever este poema
descrever este tema
falar de amor sem rimas
é como penetrar na sua retina

No labirinto do sagrado
da intocável alma
abraçar você para sempre
e dizer - agora estamos aqui

Para sempre
para todo o sempre


É isto aí!


segunda-feira, 2 de março de 2020

A hierarquia celestial


Acenou da curva, num gesto de adeus. Desceu a ladeira descalça de meninos pelados em festa de futebol com bola de meia, atravessou a praça onde tantas vezes sonhou em ser pipoqueiro, engraxate ou fotógrafo, entrou no ônibus e nunca mais voltou.

É estranho partir assim, sem dizer alguma coisa, refletiu. Desistiu de passar pela Matriz, para a última oração. Teria pela frente duas horas de estrada de terra até chegar na cidade onde embarcaria para o Rio de Janeiro. Cleidinha foi quem recebeu e percebeu o aceno. As pernas tremeram, as lágrimas fluíram. Correu na Matriz, ajoelhou-se e pôs a rezar tudo que sabia. 

Dia seguinte, amanhecendo com preguiça, chuvisco com ventania, ele desce na padaria, vindo de carona do caminhão de leite. Desceu cabisbaixo, triste e sem graça consigo mesmo. A Ponte Velha quebrou com a chuva e ninguém passava. Tinha prazo para chegar. Agora o rio matou o Rio.

Cruzou com Cleidinha, a moça abriu os braços,  gritou, correu e pulou nos seus braços, com as pernas roliças entrelaçadas e beijo esfomeado. Eu sabia que você vinha, eu sabia que você vinha. Eu sabia!!!!! Eu sabia!!!

E como você tinha tanta certeza, Cleidinha? - perguntou o enamorado.

Uai, eu pensei assim, disse sorrindo seus dentes alvos - Rio de Janeiro é cidade de São Sebastião, aqui é de São Pedro, fui na Matriz e falei com São Pedro - Olha só, eu sou dele e ele é meu. Vim pedir o que é meu - o senhor manda ou não manda? Aí esperei o veredito.

É isto aí!

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Prezados habitantes do Planeta Sedna


Planeta Terra, 29 de Fevereiro de 2020
Prezados habitantes do Planeta Sedna

A vida não está fácil por aqui, sei que vocês têm uma órbita extremamente excêntrica, bailam longe do nosso habitáculo, mas como se diz, estamos juntos nesta, brother, afinal o Sol é para todos.

Aqui na Terra joga-se futebol enquanto se discute coisas fúteis e inúteis, que não cabem aqui para não melindrar leitores e leitoras de Júpiter e Saturno. Como sabem, quem nasce em Júpiter tem mania de grandeza e os saturninos vivem às voltas com seus anéis.

A maior celeuma telúrica na atualidade é sabermos se o plano esférico é plano ou o plano reto é esférico por cima e chato por baixo, feito pé de pato. Ambos têm grandes teorias, enquanto isto as gaivotas voam, as antas assobiam, as andorinhas e corujas chilreiam, a araponga estridula, a avestruz grasna, a codorna pia, a cigarra chia, o cisne arensa, o corvo crocita, a galinha cacareja, a gralha, o pato, o pelicano e o ganso grasnam, o pombo arrulha e o peru gruguleja.

Como se vê, cada um faz o barulho que pode. Tem também ideologias diversas e cada uma mais ideológica que a outra, tem clubes e esportes diversos, tem religiões, credos e crenças para tudo e para todos os gostos. Enfim, está bem de argumentos o planeta azul.

Mas gostaria mesmo de saber se tem moradores em Sedna interessados em serem representantes comerciais de uns produtos que estou pensando em exportar. Dispenso curiosos. Temos poluição sonora, visual e auditiva, desmatamentos, genocídios, infanticídios, besticídios e politicídas e outras coisas que precisam ser exportadas imediatamente. 

Temos também Fake news novas e requentadas, temos mentiras deslavadas, descaradas e sem-vergonha. Temos enfim, muita coisa para todos os gostos. Favor entrar em contato para o endereço espacial abaixo:

Comercial de Exportação Interplanetária da Pitangueira 
A primeira do mundo a exportar com qualidade galáctica!

É isto aí!

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A criança dentro de mim


Quando era criança, achava que a velhice era algo tão distante, que jamais me aproximaria dela. Ser criança é o maior presente que recebemos em vida, com toda a desenvoltura e com um imensurável mundo de descobertas a serem feitas. Ser criança não exige muita coisa, mas tudo que acontece ali marcará para sempre a nossa rota de jornada da vida.

Todas as experiências, observações, visões e evidências estarão para sempre na mente, espalhados pelos 60 a 70 bilhões de neurônios, aguardando todo dia uma reação às ameaças e prazeres do mundo. Tudo isto distribuído em cinco caracteres que compõem a nossa personalidade. Nosso DNA influencia muito pouco quem somos de verdade, algo entre 20 e 30% apenas. A grande parte é a somatória da nossa história, principalmente até os sete anos.

Todas as perguntas que evitamos, têm respostas na infância, bloqueadas por fatores de auto-segurança. Não sabemos que estão lá, mas estão. Convido você a refletir e escrever estas respostas numa página secreta. Medite sobre elas. Voltaremos ao assunto amanhã.

Por que nada dá certo para mim?

Por que sou infeliz? 

O que eu acredito sobre mim?

O que acredito sobre o mundo?

O que eu acredito ser capaz?

O que está impedindo minhas realizações?

Por que não acreditam em mim?

Tem mais perguntas para sua criança interior? Coloque tudo para fora, digo, na página secreta.

É isto aí!

Tem perguntas? mande pra mim, aqui embaixo - não aparecerá na postagem.  


domingo, 23 de fevereiro de 2020

Amores achados e paixões perdidas II


- Olá, eu queria prestar queixa de um desaparecimento

Desaparecimento de quem?

- Da minha mulher.

Perfeito, preencha este formulário específico.

- Mas está em branco. Eu só queria  ...

Vocês homens são todos iguais mesmo, hem! Nunca são bons em detalhes, daí ser necessário usarmos de artifícios pedagógicos que promovam uma ampliação da sua memória, trazendo à tona apenas o que importa de tudo que se lembra, sem indução do questionários ou de terceiros. 

- Mas .. mas ... o que devo escrever?

Escreva como ela é; descreva sua aparência a partir do que está gravado na sua mente - seu cheiro, sua cor, seus cabelos, etc; fale da sua voz, do seu andar, dos seus carinhos, que quando assustar poderemos fazer um retrato falado dela a partir das suas percepções.

- Ela... ela... ela... olha só, eu não sei fazer isto.

Então troquemos de formulário. Pegue este, sente-se ali e responda sim ou não, ok?

- Sim ou não? Zero ou Um? Yin ou Yang? Tipo assim?

Responda apenas sim ou não.

- Mas aqui está perguntando se a amo.

Apenas marque sim ou não.

- Olha só, pensando bem ela não desapareceu. É que bateu dúvida, sabe? Acho que fomos nos desmaterializando aos poucos e quando nos demos conta não existíamos mais um para o outro. 

Bem, esta delegacia é especializada apenas em amores despedaçados e paixões perdidas. No seu caso, nós ainda não temos uma solução melhor, mas mesmo assim, se quiser registrar algo que justifique a sua vinda e a sua dor, fique a vontade.

- Sabe, já que você foi tão gentil comigo, vou deixar registrado que perdi um grande amor e agora há um vazio que me prende a algum lugar no espaço entre minha vida e a dela. É só isto. Muito obrigado.

De nada. Se precisar do nosso serviço, já sabe, estamos 24 horas de plantão. E, olha, é ... eu também estou sozinha, se achar ... bem ..., tudo bem, só se achar que poderia, quer dizer, eu, humm ... volte sempre!

É isto aí!

PS - Esta crônica foi publicada pela primeira vez neste Blog numa quinta-feira, 24 de novembro de 2016
        às 17:59. Pela primeira vez estou revisando e relançando um texto que gosto muito.  

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Pergunto-me, e não respondo porque sou educado:


No alto da idade que agora desce a ladeira, pergunto-me, e não respondo porque sou educado, alguns temas que na infância aprendi que quando chegasse onde agora estou, seria inteligente o suficiente para sabê-los. Bem vamos lá ao questionamento de hoje deste programa de maior audiência na história do Reino da Pitangueira:

Pergunto-me, e não respondo porque sou educado:

01 - O que valeu realmente a pena?
02 - Quais livros não li e deveria ter lido?
03 - Chorar resolve?
04 - No filme da minha vida, quem seria a protagonista?
05 - Ainda no filme, o roteiro segue uma sequência temporal ou estará tudo ligado?
06 - Ainda sobre o filme, será baseado em fatos reais?
07 - Seria o filme baseado num livro?
08 - Quantas pessoas leriam este livro?
09 - Quem não estaria no livro?
10 - Em que fase fica a famosa felicidade?
11 - Amar dói?
12 - Qual o percentual de acerto toda vez que tomei uma decisão sob forte tensão emocional?
13 - O que nunca tentei fazer?
14 - O que arrependi de não ter feito?
15 - Quem sou eu, de verdade?
16 - Para onde irei?
17 - Onde estou?

Abaixo, já nos alertava Fernando Pessoa, com mais dúvidas existenciais:

Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo.
Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)...
Sinto crenças que não tenho.
Enlevam-me ânsias que repudio.
A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta
traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha,
nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos
que torcem para reflexões falsas
uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor,
eu sinto-me vários seres.
Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente,
como se o meu ser participasse de todos os homens,
incompletamente de cada (?),
por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço.

Fernando Pessoa

É isto aí!


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Orégano com azeite


Passava da meia-noite quando chegou em casa. Ao buscar as chaves, encontrou no bolso um bilhete escrito num verso de nota de balcão, em lápis delineador - eu sei que vou te amar, e um cinematográfico beijo com batom vermelho. Olhou, olhou, olhou. Não sabia se retornava ao local de origem ou jogava no lixo. Optou por rasgar e deixar que a chuva resolvesse o processo.

Não tinha a menor ideia de como aquilo acontecera. Pensou em várias mulheres e em várias possibilidades. Lembrou da Carminha, da Lucinha, da Maria, da Penha, da Lucinha, da Margarida, mas não cabiam no contexto. Já sem o bilhete, entrou e havia pelo menos doze pessoas no escuro, o aguardando, e ao acender a luz - surpresa!!!! 

Olhou para aquelas pessoas, uma a uma, e não reconhecia ninguém. Continuavam gritando vivas e cantando  Zum Geburtstag viel Glück!, que é o clássico parabéns para você em alemão. Espantado, deu dois passos para trás até alcançar a porta, abriu e fugiu rapidamente. Não reconheceu a rua, nem a casa e foi andando na chuva.

Andou três quarteirões, e parou em frente a uma pizzaria. Entrou, e ao buscar, por hábito, a carteira, encontrou novamente o tal bilhete, da mesma forma, do mesmo jeito. Sentou-se e então deu conta de que estava de carro, mas onde estava o carro? Levantou-se, procurou em todos os bolsos - nada de chaves. Lembrou que abriu a porta da casa e na confusão, talvez a chave tenha ficado, mas eram chaveiros diferentes.

O garçom trouxe uma pizza vegana com muito orégano e azeite. Olhou aquilo meio que assustado, não aceitou, e saiu mais assustado do que quando entrou. Começou a sentir calafrios, percebeu uma enorme pressão no peito, um clarão e  num piscar de olhos estava num local maravilhoso, indescritível.

Deu-se conta que era o Paraíso. Viu passar um destes santos mais famosos, sinalizou com a mão, o santo foi se aproximando, e ele ali, ansioso.

- Pois não, meu irmão, sei que tem muitas perguntas, estou aqui para ajudá-lo.
- Só uma, na realidade duas - de quem era o bilhete e por que me deram pizza vegana?   

É isto aí!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

O Corpo explica o principal motivo do seu relacionamento não estar indo bem (1ª Parte)


Alto lá!
Este texto não é meu
Copiei e colei aqui: ocorpoexplica.com.br
Todos os direitos estão reservados a O Corpo Explica® 

O principal motivo do seu relacionamento não estar indo bem é um só:

Você está tentando juntar duas peças que você não conhece direito. Não estou falando que são duas peças que não se encaixam, estou falando que são duas peças que você não conhece bem.

E quando eu digo “não conhece bem”, vamos substituir isso por: peças que você não sabe direito como funcionam. Sempre que alguém está com dificuldade no relacionamento, a primeira coisa que se deve fazer é mostrar o quanto as pessoas não se conhecem. E não estou falando de conhecerem umas às outras, estou falando de não se conhecerem, não saberem como a sua mente e as suas emoções funcionam.

Se você não sabe como você funciona, como você pode se atrever a querer que o outro mude, ou pior, como você pode esperar que o outro te atenda?

Eu posso te garantir uma coisa, metade dos problemas e conflitos do seu relacionamento não precisavam existir e no momento em que você souber quais das 5 sensações básicas do seu sistema nervoso são mais sensíveis, você vai parar de exigir muito do seu parceiro e da sua parceira, e melhor, depois disso você vai poder acessar o outro respeitando as Cinco sensações básicas no sistema nervoso dele.

Antes de mostrar como é possível identificar essas sensações básicas do sistema nervoso de uma pessoa para entender os pontos fortes e os pontos fracos da mente e das emoções dela, eu quero que você anote essas sensações e já tente identificar com quais delas (pode ser mais de uma) você mais se identifica. Por enquanto pense só em você, não tente avaliar o seu parceiro ou a sua parceira, pense apenas em você. 

As cinco sensações básicas registradas no nosso sistema que a nossa mente cria formas de evitar são:

1. Rejeição,
2. Abandono,
3. Manipulação,
4. Humilhação,
5. Traição.

Fim da Primeira Parte. Postaremos a sequência. nos proximos dias.


domingo, 16 de fevereiro de 2020

Um conto de fadinhas neocons


Era uma vez numa linda floresta, uma menina que vivia sob os cuidados da avó.

- Alto lá! Ela tinha licença ambiental para viver nesta floresta? 
- Ela tinha a guarda definitiva da criança? 
- Elas teriam relação de parentesco?

Não sei. Mas elas viviam na floresta.

- Alto lá! E elas tinham veículo de condução para a cidade mais próxima?
- Tinham luz, gás e internet? Água tratada?
- A avó tinha ficha limpa? A casa era segura?

Não sei. A vovó amava sua netinha. E fazia doces e guloseimas deliciosas para ela.

- Alto lá! Tinha controle nutricional nesta dieta?
- A criança tinha sobre-peso?
- A avó cozinhava resguardando a higiene?

Não sei! Num belo dia, a vovó pediu a netinha para buscar morangos silvestres na floresta.

- Alto lá! Era período letivo?
- Qual  a idade da criança?
- Não seria este um trabalho escravo de exploração infantil?

Não sei! Era num domingo, logo cedinho, não tinha escola aos domingos.

- Alto lá! E a Igreja?
- Esta criança era privada de conhecer a fé, a esperança e a alegria de servir ao Senhor?
- Seria a avó uma ateia comunista que não contribuía com o dízimo? 

Não sei! Então, era domingo, a avó pediu à neta para buscar morangos e quando ela abriu a porta, uma fada malvada, insensível e invejosa, lançou um raio que matou as duas. Assim termina a história.

- Coitadas!!! Será que eram batizadas, pelo menos?
- Ela tinha escritura da casa?
- Tinha seguro? Conta no banco? Herdeiros conhecidos??

É isto aí!




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Outono


A ideia era escrever um poema, mas poemas custam muito a nascer. Você escreve uns versos, vez ou outra dá uma olhada, muda uma coisa, outra, e quando assusta, ainda não está maduro. As palavras são muito exigentes num poema. Têm que deslizar sem atrito, plainar na noosfera a ponto de traduzir leveza no diálogo.

Lembrei de um poema que escrevi há alguns anos, e acho que já publiquei em algum ponto do Blog. Mas são mais de duas mil publicações, e não sei o nome com o qual o batizei. Engraçado isto, por que quando se dá o nome, quando se nomeia, o poema fica estático, preso àquela função. 

Nomeia-se para facilitar a leitura, a busca, a organização de praxe. Se fosse renomeá-lo hoje, não saberia exatamente o título. Fiquei entre "Eu te amo!" e "Outono." Gostei mais de Outono, caiu bem. Então vamos lá

Outono.

Ainda não sei,
confesso que não sei mesmo,
se dizer que te amo
é de alguma utilidade

Fica comigo
da forma que puder
fica visível, invisível
partícula onda ou luz

fica do meu lado
fica pertinho
fica longe
mas fica aqui

eu te amo
com medo
desesperadamente assustado
feito uma criança perdida

eu te clamo
entrelace nosso destino
e no outono da vida
o amor ascenderá em nós

É isto aí!

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Rubel, ANAVITÓRIA - Partilhar [Clipe Oficial]



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(Rubel)

Se for preciso, eu pego um barco e remo
Por seis meses, como peixe pra te ver
Tão pra inventar um mar grande o bastante
Que me assuste, e que eu desista de você

Se for preciso, eu crio alguma máquina
Mais rápida que a dúvida, mais súbita que a lágrima
Viajo a toda força, e num instante de saudade e dor
Eu chego pra dizer que eu vim te ver

Eu quero partilhar
A vida boa com você

Que amor tão grande tem que ser vivido a todo instante
E a cada hora que eu tô longe é um desperdício
Eu só tenho 80 anos pela frente
Por favor, me dá uma chance de viver

Eu quero partilhar
A vida boa com você

Se for preciso, eu giro a Terra inteira
Até que o tempo se esqueça de ir pra frente e volte atrás
Milhões de anos, quando todos continentes se encontravam
Pra que eu possa caminhar até você

Eu sei, mulher, não se vive só de peixe, nem se volta no passado
As minhas palavras valem pouco e as juras não te dizem nada
Mas se existe alguém que pode resgatar sua fé no mundo, existe nós

Também perdi meu rumo, até meu canto ficou mudo
E eu desconfio que esse mundo já não seja tudo aquilo
Mas não importa, a gente inventa a nossa vida
E a vida é boa, mas é muito melhor com você

Eu quero partilhar
A vida boa com você

Não tem, pra trás, nada
Tudo que ficou tá aqui

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

As Boas Coisas da Vida (Rubem Braga)

serge-marshennikov femme allongée sur un canapé

Uma revista mais ou menos frívola pediu a várias pessoas para dizer as “dez coisas que fazem a vida valer a pena”. Sem pensar demasiado, fiz esta pequena lista:

- Esbarrar às vezes com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda.

- Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem.

- Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para o seu lado e, de repente, dar um chute perfeito – e ser aplaudido pelos servente de pedreiro.

- Ler pela primeira vez um poema realmente bom. Ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler.

- Aquele momento em que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade – ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor.

- Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne – a mulher que não te deu e não te dá, essa amaldiçoada.

- Viajar, partir…

- Voltar.

- Quando se vive na Europa, voltar para Paris, quando se vive no Brasil, voltar para o Rio.

- Pensar que, por pior que estejam as coisas, há sempre uma solução, a morte – o assim chamado descanso eterno.

*Rubem Braga, (1913-1990) foi um escritor e jornalista brasileiro. Popularizou a crônica no país nos anos 60, reunindo-as em livros que se tornaram best-sellers.