sexta-feira, 9 de julho de 2021

A singularidade do acaso antes de partir.


Marido chega em casa pela madrugada, lua nova, céu estrelado e a mente nebulosa. Entra bem devagar, tira os sapatos e caminha para o quarto. Para na porta, decide ir para o banheiro, faz as ações esperadas, resolve tomar um banho quente e demorado. Enrola na toalha, vai à cozinha e faz um lanche reforçado. Sobre a mesa uma garrafa vazia de vinho rosè e apenas uma taça. Acha estranho, mas passível de ocorrer.

Passa pelo quarto das crianças, abre a porta a fim de dar uma conferida e não vê nenhuma delas. Devem estar com a mãe, pensou. Volta ao banheiro, escova os dentes e ainda de toalha segue para o quarto. Abre a porta devagar, não acende a luz, e apenas liga o celular para iluminar um pouco o caminho. Não vê as crianças - devem ter ido dormir na casa da avó, pensou.

Na cama, em pose sensualíssima e com lingerie erótica, descansa a esposa. Nunca havia reparado que ela era tão formosa. Jogou  a toalha no chão, desligou o celular e foi aproximando da musa da sua vida. Se entregaram a um desejo há muitos anos latente. Tudo sob a lua nova e o brilho das estrelas.

Amanheceu com um grito desesperador ao seu lado. Acordou assustado, deu um salto com extrema agilidade, ainda nu, e ao olhar para a fonte do grito, deu com a vizinha estarrecida com a situação. - Eu posso explicar, disseram ambos concomitantemente. Se entreolharam - não sei como isto aconteceu, disseram novamente em uníssono. Sorriram diante da singularidade.

Vestiram-se duas horas depois, ele seguiu para sua casa e ela seguiu com a sua vida. Mudou-se naquela mesma tarde para local incerto e não sabido. Não pelo evento, a família foi na frente e ficou apenas para despachar a mudança.

É isto aí!

quinta-feira, 8 de julho de 2021

A moça do vestido godê rodado


 
Foi acordando e telefonou logo cedo para agendar um horário com a dentista. Ninguém atendeu. Achou aquilo estranho, mas poderia ser coincidência. Era a terceira ou quarta vez que ligava e ninguém atendia. Será que ela me abandonou? Estranho, muito estranho, nos vimos semana passada, nos demos um ao outro a permissão de sentirmos nossos desejos interpessoais e agora isto.

Voltou a dormir e no sonho a encontrou num café, destes com mesas na calçada. Conversavam carícias, carinhos, contos de calor humano e tantas outras coisas que se conversa com uma dentista. Surgiu então uma moça muito bonita, num vestido godê rodado, parou à sua frente e fez a pergunta difícil - olá, você se lembra de mim?

Olhou para a moça, ficou encantado com sua beleza, mas de repente reconheceu nela uma senhora de 90 anos, depois olhou com atenção e surgiu uma mulher com cerca de 50 anos e só então retornou à moça do vestido godê rodado. Ao virar o rosto para a dentista, ela havia desaparecido. Procurou-a com os olhos e voltou à moça, que já não se encontrava mais ali. 

Colocou a mão direita na testa, fechou os olhos e tentou entender o que estava acontecendo. Ao abrir estava sentado na beira da cama, num quarto que desconhecia. O telefone, daqueles modelos antigos de mesa, toca. Atende e era a dentista confirmando o horário. Sorriu, suspirou aliviado e foi tomar um banho.

Ao abrir a porta do banheiro, deparou com a moça do vestido godê rodado, em pé, escovando os dentes. Olhou-a com ares de indagação, recuou, fechou a porta e ao dar o primeiro passo, percebeu-se nu em plena Avenida Rio Branco, na altura da Halfeld, no centro da pequena  e pacata Juiz de Fora, simpática vila do interior mineiro. Reconheceu a esquina e olhou para onde deveria existir o painel "Cavalinhos", de Portinari, e lá havia o desenho da moça de vestido godê rodado. 

Uma delicada mão feminina tocou no seu ombro e disse algo suave. Virou-se assustado e agora estava num imenso sofá, sendo acordado pela dentista. Abraçou-a e se pôs a chorar até a exaustão do choro. Levantou-se, recompôs a mente, os pensamentos, tomou um banho e saiu. Na rua deu-se conta que não sabia onde estava, tentou retornar ao prédio, mas não havia nenhum prédio. Em pânico, sentou-se no meio fio e uma mão suave tocou-lhe o ombro. Era a moça do vestido godê rodado. 

Está preparado? - perguntou a moça.

Acho que sim, respondeu.

Deram-se as mãos, tomaram uma distância da rua até encostarem numa parede, olhando-o com carinho, ela  perguntou - pronto?

Pronto.

Correram na direção da rua, saltaram do meio fio e mergulharam no infinito. 

Quando voltou a si, na cadeira do consultório, a dentista, sorrindo com os olhos, perguntou - está tudo bem?


É isto aí!


quarta-feira, 7 de julho de 2021

05 - Odete, a imortal da Academia de Letras Góticas do Paranoá


Nesta fria noite de inverno fui acordado pelo zoar do meu simpático e descartável smart oriental, o décimo segundo smart oriental pós Nokia, o imbatível analógico, guardado no cofre como garantia finlandesa de que tudo que é bom deveria ser conservado. Não reconheci o número, mas o prefixo era de Brasília. Atendi e, puxa vida, era Odete, a imortal da Academia de Letras Góticas do Paranoá, a famosa ALGP.

Reza a lenda que certa vez, numa polêmica CPI regada a muito whisky, com ambiente mais animado que a Sunset Strip em Los Angeles nos anos 1970, onde ninguém era de ninguém, Odete entrou na área vip como backing vocal de um famoso sexteto sertanejo cantando Love Street do The Doors, em ritmo guarânia. No meio do caos, vendo o fiasco do processo, sob vaias felpudas,  Odete viu a luz e teve a clareza súbita de realizar um inenarrável, inesquecível e épico strip-tease da lanterna. Naquele dia e naquela hora transformou-se na musa Imortal da Academia de Letras Góticas do Paranoá, pois nada se comparava à sua beleza natural interior, segundo confessou emocionado um dos velhinhos do senado, diretor presidente do Clube Oficial de Pubefilia de Pindorama (o famoso COPPIN).

— Odete!!! Puxa vida!! Você? Aqui?

— Sim, amore, ¡soy yo misma!

— Caramba, como estou feliz!!

— Sério? Você me abandonou, me trocou por aquela fulaninha e agora está feliz?

— Calma, Odete, eu não troquei você por nenhuma malabarista ...

— Eu sabia! Eu sabia! Finalmente confessou!

— Odete, o que a traz aqui às três horas da manhã, me fazendo feliz?

— Mudou de assunto, mas tudo bem, já vi que a concorrência é desleal. Mas amore, eu liguei por que precisava te contar algo que está entalado na minha garganta, sem carinho, sem premissas, sem o aconchego da luz neon. 

— Abra seu coração, querida!

— Uau!! Me chamando de querida! Gostei!! Como sabe, só revelo as coisas quando as fontes são fidedignas.

— Sim, claro, querida, sei disto.

— Uau, segundo querida da madrugada. Amore, vem me ter em Brasília ...

— Odete, minha flor, vamos nos ater ao assunto, depois vamos ao nosso deleite.

— Magoadinha ..., massimboralá. Dia destes estava curtindo o inverno planaltino na piscina coberta e aquecida do Telinho Golpan, famoso por ser colecionador de coisas que importam, digamos assim. Ao meu lado conversavam animadamantes (você não ouviu errado - animadamantes é para aquelas pessoas, bem, já entendeu; conversavam a Juju Traíra com uma pessoa que não estou autorizada a identificar, mas você sabe quem, aquela pessoa daquele dia que eu falei sobre aquele assunto, onde contei aquelas coisas que aquela pessoa seria e foi capaz de fazer com euzinha.

— Sei quem é, Odete. Só não sabia que ele foi capaz de fazer com você.

—  Então, amore. Fez, foi bom e foi ruim, mas foi gostoso, mas doeu, mas foi excitante, mas ...

—  Tudo bem, Odete, já entendi.

—  Então, depois daquele dia, encontrei com Margô, que disse ter escutado do Escovinha, que por sua vez soube através da Gagal, que por sua vez ouviu de sua amante Cacá, que é íntima confidente do Tiaguinho, namorado ficante da Juju Traíra, que esta confidenciou ao Tiaguinho, que é como um irmão para mim, que ouviu daquele que não posso falar, que ele autorizou à Betinha, uma prima distante, dar seguimento à operação oceânica.

—  Muita gente, hem!!

—  Amore, toda história secreta tem enredo de validação. 

—  Mas o que vem a ser esta operação oceânica?

—  Então, amore. Fiz a mesma pergunta à Margô. Dias depois, Margô me convidou para um exercício tântrico de libertação total, com Teófillus, que teria a resposta a esta pergunta, segundo levantou Margô com Afonsinho, seu personal sex trainer. 

—  Personal sex trainer? Existe isto?

—  Cala a boca e me escuta, amore. Teo é o mago tântrico do Paranoá. Como todo mundo aqui em Brasília, ele também trabalha para o grande sistema, na quinta secretaria do sexto departamento da terceira diretoria vinculada ao quarto escalão do segundo ministério. Após o ápice do ser/estar do exercício tântrico, naquele momento de intimidade e ternuras, Teo comentou que na véspera estava no banheiro do departamento fazendo um dossiê ultrassecreto, quando ouviu no banheiro ao lado dois distintos cavalheiros, um conhecidíssimo e o outro, que é o sombra daquele que não estou autorizada a identificar. 

—  Estou atento

—  E aí o Sombra dava instruções claras ao distinto cavalheiro de como aprovar a lei que coloca Pindorama anexa ao que verdadeiramente interessa de fato. Apresentariam dois geólogos da percepção esférica e dois da percepção plana, os quatro de fama internacional, afirmando que uma extensão de terra submarina que vai daqui ao outro plano é a prova concreta que valida a conexão e a adesão de fato e de direito ao dono desta gigante e selvagem gleba austral.

— Querida, nem sei o que dizer, é muita informação ...

— Amore, esquenta com isto não, vem me ter em Brasília, vem. E para de desligar o wi-fi para dormir, assim poderei ligar e mostrar minhas qualidades de manejo dos cinco sentidos. Vem, amore, vem logo me ter em Brasília, larga daquela fulaninha ...

— Sim, espere, vou ligar o ... tum tum tum ... droga, odeio estes digitais.

É isto aí!!

terça-feira, 6 de julho de 2021

O que vou escrever aqui não é da sua conta.



É engraçado sair pelas ruas e avenidas da rede e ver pessoas até há poucos dias arrogantes, estarem com aquele olhar de indiferença, como se não fossem eles os cúmplices de tudo isto que está aí. Destilaram ódio por anos a fio sem pestanejar, agrediram pessoas, processos, ideologias, e se não fosse isto o suficiente, transgrediram leis, mentiram, distorceram a realidade só para se adequar ao seu mesquinho  interesse de gozo do poder pelo poder.

Não sei como desvencilhará o que está cada dia mais soçobrando pelo conjunto da obra atual, pode ser que aconteça ou não algo mais extremo, mas de qualquer forma perdemos todos. Sinto muito pela geração que nasceu neste século e que colherá apenas um fragmento do que outrora foi um projeto de futuro.   

Não vejo o ex-presidente como uma solução, nem sequer como viável para resgatar o progresso. Teve sua oportunidade. Há uma cultura política no país de castração de novas lideranças, e desde a década de 1980, sem exceção, todas as lideranças castraram as novas potenciais lideranças, de tal forma que até hoje quando precisamos avançar, a única coisa que fazemos é olharmos para trás.

O que temos de concreto é que o medo do novo é atávico na cultura política do país

Fomos capazes de fazer o inacreditável e agora não vejo saídas a curto prazo. Neste momento nenhuma opção colocada na mesa expõe suas ideias, seus projetos, as modelações e remodelações, bem como atos revogatórios de ações que destruíram a capacidade deste país ter um futuro do presente real e tangível. Isto que está hoje nas ruas, avenidas e palanques virtuais apenas permite que nada avance novamente e que apenas continue como está.

Imagem: Independência ou Morte, 1888, óleo sobre tela, 415 cm x 760 cm, Pedro Américo, Museu Paulista da USP, São Paulo.

É isto aí!

segunda-feira, 5 de julho de 2021

Vamos falar das políticas públicas em prol do bem comum



- Alô, eu gostaria de falar com Vossa Excelência sobre as políticas públicas em prol do bem comum

Ok! Entendi! Vamos falar das políticas públicas em prol do bem comum

Vamos falar das políticas públicas em prol do bem

Vamos falar das políticas públicas em prol

Vamos falar das políticas públicas

Vamos falar das políticas 

Vamos falar

Vamos 

- Tem como me transferir para um humano?

Ok! Entendi! Aguarde

Aguarde, sua ligação

Aguarde, sua ligação é muito

Aguarde, sua ligação é muito importante

Aguarde, sua ligação é muito importante para nós.

Aguarde, sua ligação é muito importante para

Aguarde, sua ligação é muito importante ...

- Vai demorar?

Ok! Entendi! No momento todos os nossos atendentes estão ocupados, por favor aguarde em breve você será atendido

No momento todos os nossos atendentes estão ocupados, por favor aguarde em breve você será atendido

No momento todos os nossos atendentes estão ocupados, por favor aguarde em breve

No momento todos os nossos atendentes estão ocupados

No momento todos os nossos atendentes estão

Aguarde! Vamos transferir sua ligação.

Aguarde! Vamos transferir 

Aguarde

Atenção, Isto é uma gravação. Após o sinal, desligue. Seu número já está registrado no sistema, nos sistemas, no sistema, num sistema, noutro sistema ...

No momento nossas Políticas são exclusivamente Privadas. Políticas Públicas não é mais neste numero.

Senhor X, para sua segurança comunicamos que o senhor já foi identificado pelos nossos sistemas.

Temos todas as informações ao seu respeito e seu questionamento está gravado no nosso sistema. 

Agradecemos o seu contato e a sua preocupação em prol do bem comum.

Nós somos o bem comum! Passar bem!

tum tum tum tum ... 

silênciiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiioo


É isto aí!



domingo, 4 de julho de 2021

quinta-feira, 1 de julho de 2021

O paradoxo do seu olhar



Vou partir

e buscar o não 

o impossível

o imponderável

o indivisível

o imaginário

e quando chegar

não volto mais

ao paradoxo

do seu olhar

lendo Maiakovski:

"Afora

o teu olhar

nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.

Amanhã esquecerás

que eu te pus num pedestal,

que incendiei de amor uma alma livre,

e os dias vãos — rodopiante carnaval —

dispersarão as folhas dos meus livros...

Acaso as folhas secas destes versos

far-te-ão parar,

respiração opressa?"


É isto aí!


Trecho do Poema incidental  Lílitchka! (Em lugar de uma carta), escrito em 1916 pelo poeta russo  Vladimir Maiakovski, com tradução do poeta Augusto de Campos.

Imagem: Nude gold doodle on black background



Sobre nós


Humanos,

centenas

de milhares,

covardemente

silenciados.

Judas

vendeu-se

por

trinta 

moedas

de prata.

Hoje

o custo

é apenas

um George.

 

É isto aí!


Fonte da imagem: Mistérios da Numismática - Moeda de Prata do século I 



terça-feira, 29 de junho de 2021

As sem-razões do amor (Carlos Drummond de Andrade)


As Sem-Razões do Amor, poema publicado na obra "Corpo" (1984), foi escrito na fase final da vida do poeta Carlos Drummond, que veio a falecer em 1987. Aparentemente simples, a composição carrega mensagens complexas sobre um dos sentimentos mais inexplicáveis que existem (Fonte: Cultura Genial).

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.

Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.




Teu sonho não acabou (Taiguara)



Provided to YouTube by Universal Music Group
Bis - Taiguara
℗ 1972 EMI Music Brasil Ltda
Released on: 2000-01-01
Composer: Taiguara Chalar Da Silva
Auto-generated by YouTube.
Letra de Teu Sonho Não Acabou © Sony/ATV Music Publishing LLC

Teu sonho não acabou (Taiguara)

Hoje a minha pele já não tem cor
Vivo a minha vida seja onde for
Hoje entrei na dança e não vou sair
Vem que eu sou criança e não sei fingir

Eu preciso, eu, preciso de você
Ah! eu preciso, eu preciso, eu
Preciso muito de você

Lá onde eu estive o sonho acabou
Cá onde te encontro, só começou
Lá colhi uma estrela pra te trazer
Pegue o brilho dela até entender

Eu preciso, eu, preciso de você
Ah! eu preciso, eu preciso, eu
Preciso muito de você

Só fecha o seu livro quem já aprendeu
Só peça outro amor, quem já deu o seu
Quem não soube a sombra, não sabe a luz
Vem, não perde o amor de quem te conduz

Eu preciso, eu, preciso de você
Ah! eu preciso, eu preciso, eu
Preciso muito de você

Nós precisamos sim
Você de mim e eu de você

A felicidade é um átimo de luz



Tudo tende sempre
ao equilíbrio vital
tudo menos aquela
chamada felicidade
realidade e entropia 
torcem o nariz fino
para esta aberrante 
coisa estranha nua 
desejada e amada
pela anormalidade
por algo sem razão
totalmente inócuo 

Felicidade deve ser
átimo da vida plena
sei lá, hóspita talvez
duma fração luzidia 
passageira efêmera,
num cômpito ímpar 
da travessa cinética
enquanto decrépito
num estado natural

Esqueçamos destas  
dietas de satisfação
buscar a felicidade
a bem-aventurança
da desejada ventura
recalcitra esperança.
Marca para sempre
a dor de nunca mais
tê-la guardada em si.

É isto aí!

Fonte da imagem: basamaci



segunda-feira, 28 de junho de 2021

Tem certos dias



Tem certos dias
que toda falta é 
penálti marcado

Tem certos dias
que o sorriso é
falta de decoro

Tem certos dias
que mandar à merda
precisa sim ser dito

Tem certos dias
que a saudade é
um acessório de dor

Tem certos dias
que são tão errados
que são prescritos

É isto aí!

Fonte da imagem: Favim.com



domingo, 27 de junho de 2021

Diálogos da senilidade




- Guatemala, lembrei!! Guatemala!!

- Arnaldo, você está cada dia pior

- Você é que é uma louca

- Arnaldo, eu pedi delicadamente

- Ihh!! Lá vem com o esfregão

- Arnaldo, espera, você está ...

- Nu, vem logo, aproveita a black-friday

- Arnaldo, para com isto, Arnaldôôô

- Peladão, peladão, peladão

- Arnaldo, desce da cama, agora.

- Mas o que que tem? Chaaaata!!!

- Um homem ficar pulando na cama, Arnaldo?

- É aquecimento, vem, vem ...

- Está bem, eu vou subir na cama

- E olha só, a louca surtou completamente peladinha ...

- Pronto, Arnaldo, estou nua, e agora?

- Agora? Guatemala, lembrei!! Guatemala!! Guatemala!!!

- Bom, pelo menos alguém se diverte nesta casa ...

É isto aí!


*Imagem de Domínio Pùblico: O fagote com acompanhamento da trompa francesa - 
Autor: Thomas Rowlandson (1756-1827)

sábado, 26 de junho de 2021

A privatização dos sonhos

Fonte imagem: Basamaci

A pré-história:

Naquele tempo, num planeta distante, em outra galáxia, com o fim de todo o estado público, exceto o poder, em função da privatização desde da água até o ar puro, o governo moderninho, sempre preocupado com a qualidade de vida de seus cidadãos, criou o Ministério da Meritocraxia. Sim, com X mesmo. Era o charme do negócio. A Meritocraxia consistia numa unidade fabril de esperança, como dizia o grande líder. Ou isto ou f*da-se disse-o certa vez.

O início:

- Olá, bom dia, o senhor pode me  informar, por favor, se esta é a fila do Programa de Meritocraxia para mudar de vida?

- Sim. Pegue esta fila da linha branca para pegar a senha para a fila objeto da mudança. 

- Muitíssimo obrigado.

Oito horas depois.

- Boa tarde, eu quero mudar de vida.

- Para qual mudança o senhor pleiteia ir?

- Pode me informar alguns dos seus processos de mudança?

- Olha, esta fila é para quem já tem a determinação. Aconselhamento e análise é no guichê 32.  O senhor pegou a ficha e a fila errada. Mas aguarde um instante, que vou providenciar a senha para o Guichê 32. 

Pronto, senhor, esteja aqui às sete horas em ponto com esta senha e pegue a fila da linha amarela, que o levará ao guichê 32. Enviaremos uma mensagem no seu celular, bem como um e-mail e um lembrete em forma de  correspondência confirmando a data do agendamento.

- Olha, muitíssimo obrigado. A senhora é muito gentil.

Dois anos depois.

- Bom, chegarei cedo, uns trinta minutos antecipados e logo logo serei atendido.

Nove horas depois

- Pois não?

- Eu quero mudar de vida.

- Sim? Em que posso ajudar?

- Eu não sei bem o que eu quero. Gostaria de ter acesso às opções.

- Entendo. Qual o estado civil do senhor?

- Casado.

- Ótimo. Aqui está a senha para o senhor ser atendido com a nossa especialista em casados que querem mudar de vida. Passar bem, muito obrigado pela sua visita. Enviaremos uma mensagem no seu celular, bem como um e-mail e uma correspondência confirmando a data do agendamento. Venha às sete horas e entre na fila azul marinho. O próximo...

Três anos e meio depois

Chego meia hora mais cedo e ... caramba, vou sair daqui amanhã. Tudo bem, já decidi, sei o que estou fazendo. Eu só quero mudar de vida.

Seis horas depois

Boa tarde. Está aqui a senha. Obrigado por me atender.

- Sente-se, por favor. Deixe-me ver. Humm, o senhor é casado. Muito bem. Qual a sua área de formação universitária, se tiver? Se não tiver qual a sua principal atividade laboral? 

- Ufa, achei que iria perguntar outra coisa - rs - Sou da área de humanas.

- Certo. Muito bem. Excelente. O senhor é da área da docência, administração, economia ...?

- Docência

- Docência ... muito bem. Está aqui a senha, o senhor venha amanhã bem cedo, que será atendido. Chegue às sete horas e siga a linha vermelha.

- Amanhã? A senhora tem certeza? É amanhã mesmo que saberei finalmente o que fazer para mudar de vida?

- De certa forma sim, senhor. Passar bem, e sucessos na sua caminhada.

No dia seguinte:

- Puxa vida, é hoje. Nem dormiu de tão ansioso. Chegou cedo, a linha vermelha estava vazia. estranhou um pouco, mas quem sabe agora as coisas começariam a mudar - é bom já ir me acostumando, balbuciou sorrindo. 

Entregou a senha ao segurança, recebeu as instruções devidas de nãos sair da linha vermelha em nenhuma circunstância, e entrou por um labirinto limpo, claro, bem ventilado. Passou por todas as outras linhas cruzando a vermelha. às vezes pensava em seguir por uma delas, mas não sabia onde daria. Na dúvida, durante duas horas caminhou por aquela estranha estrutura de alvenaria.

Duas horas depois

- Chegou a um salão limpo, mas discreto, bem ventilado e uma atendente linda à mesa do fundo, com um sorriso contagiante. Aproximou-se, disse a que veio, ela abriu uma tela, conferiu nome e processo, perguntou pela folha timbrada e pelo lápis. Tirou a folha molhada de suor do bolso. Ela entregou-lhe outra e finalmente deu o próximo passo.

- O senhor escreverá todos os seus sonhos, desejos, missão de vida, propósitos, vontades, etc, pode ser da coisa mais íntima e pessoal até uma altruísta de grandes proporções. Sente-se ali e escreva tudo. Não tenha pressa. Ao fundo tem banheiro, água, frutas, café, fique à vontade.

- A senhora tem mais folhas?

- Claro, tome aqui mais dez folhas, três lápis e apontador. Ninguém irá incomodá-lo.

- Três horas e vinte e seis folhas depois, voltou à atendente e disse que estava pronto. 

- Ela sorriu, pegou as folhas, carimbou uma a uma com três carimbos e um Selo Holográfico Personalizado, onde colocou sua rubrica. Lacrou as folhas enumeradas num envelope amarelo de tamanho ofício, fechou com uma fita de segurança e a devolveu.

- E agora?

- O senhor está vendo aquela porta? Abra-a, e siga em frente mais 15 minutos.

- Sorriu, nem estava acreditando. Tudo iria mudar dali a quinze minutos. Abriu a porta, passou, ela fechou e travou automaticamente. Seguiu confiante. 

Chegou num balcão onde estavam dois seguranças. Um pediu o envelope e o outro verificou seus documentos, que foram prontamente devolvidos. Deram-lhe um copo plástico com água corrente, um boné e um chaveiro do grande líder. Guardaram o envelope, o encaminharam até a saída.

Na saída, uma moça linda e elegantemente trajada entregou-lhe uma carta do grande líder dizendo que ele pessoalmente enviaria uma mensagem no seu celular, bem como um e-mail e uma correspondência confirmando a data do agendamento, que aconteceria muito em breve, em local a ser determinado. 

Esperou dez anos e partiu desta vida acreditando que alguma coisa fez de errado, afinal o grande líder prometera e se não aconteceu, seria sua culpa daí não merecer a mudança ...

A pós-história

Morreu pobre, muito doente e endividado, sem aposentadoria e sem moradia, perdida nos conflitos neo-ultra-liberais com penas capitais. Foi enterrado na Vala dos Comuns junto com o envelope, entregue no ato por um agente público,  na cova rasa 32 da quadra 7 do Depósito dos Heróis Adormecidos.


É isto aí!

A tragédia que se anuncia para quem tem mais de 50 anos

Fonte Youtube - Eduardo Moreira

O Brasil será em breve um modelo de seres humanos descartáveis

Reforma da Previdência, que é de fato do fim da Previdência e da Assistência Social.
Reforma da Aposentadoria, que é de fato o fim da aposentadoria.
Reforma privatista - mercado só quer lucro alto, mão de obra barata e alta rotatividade.


sexta-feira, 25 de junho de 2021

Sobre Singular e Plural



Estamos vencendo- sic - um semestre marcado pelo aumento significativo de feminicídios e casos pavorosos de pedofilia. Sabe o que há de pior nisto tudo? São atos humanos. Dão nojo, dão dor, dão tristeza e, caramba, são atitudes humanas de uma crueldade inominável e inenarrável.

Enquanto isto pombos voam e emas passeiam nos jardins do distante planeta da distante galáxia muito muito longe daqui. Lá reina Sua Alteza Imperial - Vossa Excelência.

Um dia, quem sabe, Vossa Excelência descobrirá que quinhentas mil pessoas são muitas e Vossa Excelência é apenas uma pessoa singular. Apenas isto.

Vossa Excelência talvez não domine o conteúdo de que os pronomes de tratamento ou de segunda pessoa indireta apresentam certas peculiaridades quanto à concordância verbal, nominal e pronominal. Embora se refiram à segunda pessoa gramatical à pessoa com quem se fala, ou a quem se dirige a comunicação, levam a concordância para a terceira pessoa.

Isto acontece porque o verbo concorda com o substantivo que integra a locução como seu núcleo sintático. Mas, com certeza, Vossa Excelência desconhece o assunto.

Vossa Excelência é apenas uma pessoa singular, só isto, nunca esqueço disto.

É isto aí!






Paulinho Moska e Antônio Carlos e Jocafi - Zoombido - Você abusou


Música; Você abusou
Compositores: Jose Carlos Figueiredo (Jocafi) / Antonio Carlos Marques Pinto
Letra de Você Abusou © Universal Music Publishing Group

Postada por: Paulinho Moska
Direção: Pablo Casacuberta
Gravação e mixagem de audio: Nilo Romero

Os áudios da série foram extraídos das gravações de “Zoombido", programa que foi apresentado por Paulinho Moska no Canal Brasil. 

Parceria da MP ENTRETENIMENTO com o Canal Brasil e distribuição digital da ONErpm.

“A canção- Você Abusou- da dupla baiana de compositores e cantores Antonio Carlos e Jocafi é uma das trilhas sonoras oficiais da minha primeira infância, entre o Rio de Janeiro e a Bahia. Quando Stewie Wonder veio ao Brasil e a cantou ao vivo confessando sua paixão por ela, foi como uma epifania musical pra mim. O timbre de voz e a malemolência do afro-samba desenvolvido pelos dois parceiros nessa canção sintetiza toda sua maravilhosa obra, que inclui grandes sucessos como “Catendê”, “Desacato” e “Toró de Lágrimas”. Graças aos festivais da década de 70 eles puderam se conhecer e nos brindar com suas pérolas que reluziram também fora do Brasil. No nosso dueto pude realizar esse sonho que sempre me pareceu impossível: cantar “Você Abusou” com os próprios autores, num momento íntimo que só o Zoombido poderia me proporcionar. Agradeço. Tenho muitos mestres.“ (Paulinho Moska)

Letras
Você abusou, tirou partido de mim, abusou
Tirou partido de mim, abusou
Tirou partido de mim

Você abusou, tirou partido de mim, abusou
Tirou, tirou partido de mim, abusou
Tirou partido de mim, abusou

Mas não faz mal, é tão normal ter desamor
É tão cafona e sofredor
Que eu já nem sei se é meninice ou cafonice o meu amor

Se o quadradismo dos meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam o coração com expressão

Você abusou, (abusou) tirou partido de mim, abusou
(Tirou, tirou) tirou partido de mim, abusou
Tirou partido de mim, abusou

Que me perdoem se eu insisto neste tema
Mas não sei fazer poema ou canção
Que fale de outra coisa que não seja o amor

Se o quadradismo dos meus versos
Vai de encontro aos intelectos
Que não usam o coração com expressão

Você abusou, (você abusou) tirou partido de mim, abusou
(Tirou, tirou) tirou partido de mim, abusou
Tirou partido de mim, abusou

Você abusou, tirou partido de mim, abusou
(Tirou, tirou) tirou partido de mim, abusou
Tirou partido de mim, abusou

Fonte da letra: LyricFind
Compositores: Jose Carlos Figueiredo / Antonio Carlos Marques Pinto
Letra de Você Abusou © Universal Music Publishing Group

quarta-feira, 23 de junho de 2021

Nós Deveríamos Todos Ser Feministas (Chimamanda Ngozi Adichie)


Fonte do Vídeo no Youtube - Cortesia TEDxEuston:


Chimamanda Ngozi Adichie (Enugu, 15 de setembro de 1977) é uma feminista e escritora nigeriana. Ela é reconhecida como uma das mais importantes jovens autoras anglófonas de sucesso, atraindo uma nova geração de leitores de literatura africana.


Leia esta reportagem completa em El País:

 Chimamanda Ngozi Adichie é a referência mais pujante da luta contra a discriminação sexual. Seu lema "Todos devemos ser feministas" inspirou celebridades como Beyoncé e acabou estampado em camisetas da Dior. Dividindo-se entre a Nigéria e os EUA, a autora de livros tão aclamados como Meio Sol Amarelo e Americanah não se interessa pelas teorias, diz, e sim pela "tessitura da vida


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segunda-feira, 21 de junho de 2021

Só para mim




Eu queria
que você fosse feia
Nascida feia

Magra feia, gorda feia
Esbelta feia
Tanajura histérica

Lagarta míope
Zebra manca
Vaca louca

Gata desbotada
Pata depenada
barata albina

Aranha com torcicolo
Cachorra com carrapato
Cabrita com sarna

Mesmo assim
Queria a sua feiura
Só para mim.


É isto aí!

Para os que Virão (Thiago de Mello)



Alto lá
Este poema não é meu
Confesso que copiei e colei
Fonte: Pensador

"Os que virão, serão povo, 
e saber serão, lutando."

Para os que Virão

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.


Thiago de Mello (1926) é um poeta e tradutor brasileiro, reconhecido como um ícone da literatura regional. Sua poesia está vinculada ao Terceiro Tempo Modernista.

Thiago de Mello, nome literário de Amadeu Thiago de Mello, nasceu em Porantim do Bom Socorro, município de Barreirinha, no Estado do Amazonas, no dia 30 de março de 1926. Em 1931, ainda criança, mudou-se com a família para Manaus, onde iniciou seus estudos no Grupo Escolar Barão do Rio Branco e depois, no Ginásio Pedro II. Mais tarde mudou-se para o Rio de Janeiro, onde em 1946 ingressou na Faculdade Nacional de Medicina, mas não chegou a concluir o curso para seguir a carreira literária.