Ao pé da Pitangueira
Diário de bordo na travessia da vida.
terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Casos da repartição
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Eu, a sina e Fulaninha
Eventualmente ouvia umas músicas estranhas, das quais nunca ouvi em vida — opa, tive um arrepio enorme agora. Será que morri? — Caramba, deve ser isto. Ou então estou sonhando, sei lá. Melhor seguir o fluxo. Cheguei a um descampado lindíssimo. Havia céu, rosas e flores de todas as cores e aspectos sobre um gramado absolutamente nivelado.
Abria os olhos e estava num ambiente hospitalar, fechava os olhos, voltava ao descampado. Aquilo estava me divertindo, já que não tinha muita coisa para fazer. De repente sinto uma forte cutucada na costela que dói muito. Fui me levantando bem devagar e sentei numa cadeira comum, nada de excepcional. Havia uma luz intensa à minha frente.
Fechei os olhos e me deparei com uma face conhecida. Era Fulaninha, o grande amor da minha vida. Chamei-a pelo nome e imediatamente dois gigantes de mais de dois metros entraram à minha frente e taparam a visão dos olhos fechados. Parece um paradoxo, mas era o que tinha. Resolvi retornar ao ambiente hospitalar - ouço vozes - "ele voltou, segura a pressão".
Alguém me chamou em voz alta e balançou meus ombros. "Se não houver resposta, ela está inconsciente", sussurrou uma mulher. Apertei levemente a mão que segurava a minha mão esquerda. "Ele está consciente!", gritou e então vieram as intermináveis compressões torácicas.
Fulaninha ficava aparecendo e desaparecendo no meu campo visual e uma voz sobrenatural, que transpassava minha existência e ecoava em várias dimensões, indagou-me sobre um silêncio total: "Houve compaixão demonstrada para com o próximo?"
Fulaninha ia e vinha, ia e vinha... meu corpo vagava num silêncio transformador. Compreendia tudo, desde o princípio até o agora e para sempre. Apertei com força a mão dela e voltei a sonhar. Estava de volta de não sei onde e agora devo cumprir minha sina.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
Cartas de Amor 115
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
A inveja é uma merda
Saiu pela porta dos fundos para não dar de cara com alguns cobradores. Isto tornou-se rotina quando, atendendo a um insistente pedido da sogra, assinou sua sentença de morte no sistema financeiro, avalizando o cunhado. Só se deu conta do rombo quando descobriu que o queridinho da família já havia levado todas as suas economias ao precipício.
Ao pressionar a sogra, obteve sempre a mesma resposta: de que não era a assinatura dela que constava nos avais. Até isto aprendeu — o plural de aval é avais, embora também se use avales e, mais raramente, avals. O importante é assinar, doando em vida todo o seu patrimônio ao estado de desgraça do próximo, agora blindado pela sua salvaguarda.
Levou dez anos para recuperar parte do que perdeu. E, depois desse tempo, pela primeira vez viajaram para uma praia badalada do Mediterrâneo, na Europa. Bebia um drink sem pressa quando viu o desaparecido cunhado passar com uma lindíssima mulher ao seu lado. Olhou para a esposa, deitada com o chapéu tampando o rosto; olhou para o irmão dela passando; olhou de novo para ela — e desabou a chorar.
A esposa se assustou com a cena, levantou-se e o abraçou sem entender nada. Foi se acalmando, até ficar quase normal. Não era raiva, não era ódio, não era nenhuma vontade de ato violento contra aquele homem. O que mais doía era a inveja que sentiu dele.
É isto aí!
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
Os estranhos fatos do outono
Chamei fulana, mas ela não respondeu e nem os fulaninhos estavam em casa. Eram quinze horas de ontem, segundo me revelou o celular. Sentei-me para entender o que se passava.
Lembro que olhei o relógio antes de adormecer num sono pesado. Enquanto lutava para não dormir, passou pela mente que poderia ser uma enorme vantagem para jogar a mega sena acumulada.
Tudo ainda rodava e foi parando bem devagar até perceber que estava numa casa centenária. Só então reparei que não conhecia a casa onde acordei. Com as vistas embaçadas, vi desfocada uma mulher, suavemente perfumada, com uma fisionomia familiar, cuja presença me dava paz, enquanto segurava minha mão. Olhou para mim e beijou levemente meus lábios. Olhou novamente e perguntou:
— Meu amor, você sabe onde estamos? O que está acontecendo?
Agora sabia quem era, e respondi: Não sei o que está acontecendo, mas você é o amor da minha vida. Deve ser que ganhamos algum presente do céu. Eu também te amo!
Olhei no fundo da existência dela, tocando sua pele sedosa, e disse — ter você aqui, ao meu lado, é uma coisa tão linda, que desejo ser eterna. Nunca mais vamos ... girou tudo à minha volta e acordei confuso, onde não tenho a menor ideia do que seja — parecia um hotel no alto de uma serra — Voltei a dormir, e aí o despertador tocou às cinco e cinquenta. Estava em casa.
Fui tomar banho para ficar um pouco sozinho. Ao vestir a calça, tinha um cartão dela no bolso — volte logo, você também é o amor da minha vida!
É isto aí!
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
Chapeuzinho Vermelho ao pé da Pitangueira
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
A Moça da Pitangueira
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
O Mago da Pitangueira
Naquele dia éramos uns vinte jovens subindo a íngreme colina até a morada do Mago da Pitangueira. Subíamos para beber um pouco do seu profundo conhecimento sobre a vida.
— Mestre, pode-se prometer ser feliz para sempre ao lado de alguém?
— Bem, vou contar-lhes uma história e vocês mesmos analisarão a resposta:
— Ela indagou ao amado: Você promete ser feliz por toda a vida ao meu lado?
— Ele respondeu: Não!
— E foram felizes para sempre.
Como assim, felizes?
—A franqueza antecede à verdade
Como assim, Mestre?
—Saibam, jovens, que a coragem de ser direto, honesto e transparente é um passo necessário ou anterior à revelação ou aceitação da verdade em si.
É isto aí!
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Cartas de desamor
Cartas de Desamor é um desafio que venho adiando. Escrever Cartas de Amor já não é fácil, mas difícil mesmo é a indiferença do desamor. E Desamor não necessariamente é o ex-amor. Os atos mais comuns de desamor em casais muitas vezes estão ligados à negligência emocional, à rotina desgastada e à falta de comunicação. Eles podem ser sutis e/ou cumulativos.
Os atos mais comuns de desamor em casais muitas vezes estão ligados à
— negligência emocional,
— rotina desgastada
— à falta de comunicação.
— Intimidade física e emocional reduzida
— Não perguntar como o outro está se sentindo.
— Minimizar problemas ou sentimentos do parceiro.
— Falta de empatia em momentos de estresse (saúde, crises profissionais, luto).
— Deixar de conversar sobre sentimentos, sonhos ou medos.
Apenas alguns exemplos (prometo voltar ao tema):
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"Estou cansada deste seu olhar desligado. Olhe para mim e fale o que represento para você? O que verdadeiramente você deseja? Fico confusa perante seu silêncio. Você nunca me escuta, nunca conversa comigo, nunca me elogia, nunca me toca e posa de bondoso da porta para fora. Recebe um abraço de pouco caso e ainda escuta — não é por falta de abraço, querida.— Estou cansada demais para brigar com você, querido. ._______________________________________________________________
"Havia cheiro de alho —detesto alho. Não satisfeita, volta à sala novamente interrompendo meu silencio e atrapalhando o jogo na hora do gol. não nos olhamos, apenas negativei a oferta de tira-gosto. voltou para a cozinha e saí para lavar o carro."
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"Ela observava fotos do passado quando ele entrou e disse: "Vou ao futebol", ignorando sua presença. Comentou sobre o convite da filha para jantarem juntos. "Não posso", respondeu, virando-se para a porta. Ela questionou sua ausência constante; ele resmungou algo. "Você não me abraça há anos, e eu parei de insistir", disse, em voz baixa. Ele saiu com um murmúrio sobre deixar um prato coberto. A porta fechou. Viu-se só e, mais uma vez, foi ao refúgio das redes sociais."
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É isto aí!
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026
Cartas de Amor 114
Querida, o amor não acaba por decreto.
O amor não se acaba às três horas da manhã, num ato repentino de agressividade impulsiva, desproporcional à situação. Até o presente momento não sei quem seria a mulher. A única certeza que tenho é que não parecia você.
O amor não acaba quando os vizinhos chamam, com razão, a polícia. Eu ainda não tinha a menor ideia de quem seria a mulher, se é que existe uma explicação lógica sob seu frágil corpo. Nunca vi algo sequer parecido. É inenarrável.
O amor não acaba com eletrônicos destruídos, cortinas e moveis cortados e vidros pelo chão. Passou uma tempestade violenta por dentro do apartamento, atormentando todo o prédio.
O amor não acaba quando, num ataque de fúria com força desproporcional ao seu tamanho e peso, de posse de um objeto na mão avançou contra os representantes da segurança pública. O amor não tem como intervir num lance de segundos, para protegê-la e mostrar quanto você é frágil.
O amor não acaba na delegacia, pagando fiança de perturbação do silêncio. Não acaba ali. É apenas parte do processo. Neste momento, frente à autoridade, você lançou dois olhares para mim emblemáticos, um olhar de pedido de socorro e a mulher que desconheço, cortou-me os pensamentos com um olhar de ódio.
O amor não acaba no hospital para tratar dos seus ferimentos e sedar sua fúria. Nem na conversa com o psiquiatra e a psicóloga. Não acaba quando seus pais foram ao hospital, me abraçaram e pediram, com abraço forte e lágrimas nos olhos para eu continuar a minha vida.
O amor não acaba com você me expulsando da sua existência. Isto não faz sentido. Tentei conversar e negociar a paz entre nós, mas vez em quando a mulher olha para mim. Confesso que bate uma sensação ruim.
Eu amo você. Esta carta é para dizer que sinto uma profunda e perturbadora dor. Hoje eu não estou perdido, estou juntando os cacos para seguir adiante.
É isto aí!
Cartas de Amor 113
Cartas de Amor 112
Cartas de Amor 112
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul
Querida, não sou poeta, somos o que somos!
Foi com esta frase que amanheci o dia. Não sei ser o tradutor deste sentimento que tanto nos envolve. Há no meu entorno carnal e sobretudo no etéreo esta certeza do nosso entrelaçamento sem amarras. Não somos postos de vigília um do outro; somos o que somos, dois corpos numa só personalidade, num só pertencimento e na mesma candura.
Tantas forem as palavras que se aproximam deste evento, quer seja nas nossas experiências diretas de união com o divino, quer seja nos processos de contemplação profunda, sempre fortalecerão as graças de um pelo outro, com carinho e dedicação natural ao nosso legado.
Querida, hoje atravessamos o deserto com muita resiliência. Já passamos os períodos mais áridos da vida — embora dolorosos — que foram necessários para nos conduzir a este novo lugar, interno ou externo. Sinto sua falta, sinto muito, sinto tudo, queria que esta carta chegasse a você com coisas alegres e belas, pois saiba que em determinado momento, sobre determinada duna, avistaremos um ao outro e retornaremos nosso caminho natural
A sua ausência evoca tanto sofrimento quanto esperança, lembrando que, no silêncio e na aridez, muitas vezes escutei sua voz, profunda e terna a dar sentido aos nossos caminhos.
Afinal, de onde vem tanto amor?
Não sei, sinceramente não sei
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
Cartas de Amor 111
Cartas de Amor 110
Reino da Pitangueira,Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul
Cartas de Amor 110
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul
Querida, este é a nosso pacto com a Eternidade
domingo, 1 de fevereiro de 2026
Carta sobre o dia que eu queria me devolver para você.
Tem dia que sinto a sua falta. Tem dia que sinto muito a sua falta. Hoje mesmo quis pular umas etapas da memória e ir direto ao seu encontro. Dói, não é? Dói prá caramba. Não tenho mais seu telefone, perdi o contato com seus olhos. Sabe, ainda sei a data do seu aniversário, isto mesmo, eu sei o dia que comemoro sozinho o seu nascimento.
Tem dia que sinto ausência. É uma ausência tão dolorida, tão ruim, toda ausência é criminosa. Nestes dias eu choro. Não é a sua falta, a saudade, é você não estar preenchendo este imenso vazio que habita minha vida. Deveriam existir regras claras para ausências. Se eu olho e você não está, não está e pronto, mas fica muito ruim ... muito ruim.
Hoje eu fiquei feliz, queria te contar como fiquei feliz, queria ver seus olhos sorrindo, em festa, olhando meus olhos felizes e eu sei que seria assim. Eu sei, a merda toda é esta. Eu sei! Mas você, claro, não estava, eu errei, você errou, eu errei de novo e pronto, perdi você e ganhei o prêmio de ser e estar triste em presídio de segurança máxima..
Amanhã eu vou ficar triste, já sei disto. Depois de amanhã vou ficar triste também. Tudo por que hoje tive este lúmen de felicidade, mas não era felicidade, não era você, não era pra te contar isto. Não era. Não era. Não, não era. Na verdade, e seja lá o que for a verdade, que mundo maluco é este? Como pude ser tão capaz de chegar até aqui?
Como sabe, eu amo sua boca falando palavras proparoxítonas, articulando músculos, ligamentos, movendo os lábios, seus lábios, tão bonitos são seus lábios. Como sabe, eu amo seus olhos, o sorriso deles, a alegria reluzente deles. Um dia eu queria te encontrar, já sei que você vai brigar comigo, não ligo, um dia eu queria me devolver para você.
Desculpe, não sei escrever cartas, não sei falar sem ter você no conteúdo. Não sei, não sei, não sei mesmo. Ontem quase que, gente, que doideira, ontem eu arquitetei um plano de fuga para te ver. Sabe, ainda tenho aquele retrato do seu rosto triste sob uma arco de flores, seu olhar está triste, vago, despido de alegria. Seu olhar não estava naquela órbita terrestre. Então é isto.
É isto aí!
sábado, 31 de janeiro de 2026
Manual doméstico de ressurreição
Assim que clareou o dia, senti uma dor imensa tomando o lado direito do corpo. Aquilo não era normal. Tentei me levantar, mas o corpo não obedeceu. Apesar da dor unilateral, todo o meu ser parecia conspirar contra mim. Pensei em muitas coisas que se pode fazer numa situação dessas — e nenhuma tinha o aval do corpo para ser executada.
Estou sozinho, pensei. Não alcanço o celular — carregando ou já carregado — sobre a estante, do lado adverso da cama. A moça da limpeza não virá hoje. Quem daria falta da minha existência nesta manhã? Tentei voltar a dormir, mas a ansiedade, o medo e a tensão superavam qualquer desejo de repouso.
Vejamos coisas para se fazer… casar, talvez, evitaria esta situação. “Não, não, melhor que não — isto aqui passa e casamento tem essa tese pétrea de que é para sempre, enquanto dure.”. E então o despertador do celular faz o que sabe fazer de melhor: tocar. Tocar. Tocar.
Preciso me lembrar de parar com essa mania de desligar o alarme dormindo e, algum tempo depois, acordar assustado e atrasado, seja lá qual for o destino da manhã. Da cozinha, escuto o som da torradeira liberando duas fatias de pão integral e, logo em seguida, a cafeteira fazendo o que sempre faz — indiferente à minha possível morte, fazem a sua parte.
Pensei na Candinha, na Fernanda e numa especial que não posso citar, por recomendação do meu analista, e que eu daria tudo agora para ter dormido comigo esta noite. Acho que morri — ou estou próximo disso. Engraçado: não sinto o coração, não sinto a respiração. Agora está ficando tudo escuro. Maldito vinho.
De repente — não mais que de repente — recebo uma chinelada na perna esquerda, seguida de outra, ainda mais forte.
— Júnior, levanta, seu preguiçoso. Aqui não é hotel. Passa logo para o banho e se vira. E para com essa mania de se atrasar todo dia. Sai. Vaza daqui e corre atrás do seu serviço.
Levantei sem entender como. O corpo, antes falido, obedecia agora com a disciplina de quem teme uma nova chinelada. Tomei banho, me vesti e saí. O mundo seguia funcionando, apesar de mim.
Odeio as segundas-feiras...
É isto aí!
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
Manual de Queda Livre
Não sei guardar segredos, foi o que sempre disse para mim mesmo e isto, de certa forma, auxiliou no processo de só abrir a boca em raríssimas ocasiões. Na infância o médico que me examinou para ver se eu tinha algum problema, deu o diagnóstico mais preciso de toda a minha vida — este moleque não tem nada além de preguiça seletiva.
Tudo ia bem até encontra-la numa destas esquinas da web, aí em vez de me escudar no diagnóstico clínico preciso, deixei o coração falar em alto e explícito som, e claro, deu merda. Ali senti a possibilidade do paraquedas não abrir e talvez fosse melhor assim. Viver deve ser mais do que isto, só que não sei bem onde abre a porta para achar este caminho certo.
Garçom, desce mais uma! Hoje estou a fim de desassistir minhas preces. Viver é não ser normal em tempo integral e permitir a loucura eventualmente. Ou isso, ou a rigidez das normas e condutas. Viva a autarquia, a monarquia, as dinastias, a plutocracia. Garçom, outra — e saiba que não estou nada bem e não sei o que é esse sofrimento.
Antes de sair, o garçom fechou a conta e o diagnóstico: o senhor sofre de angústia existencial cotidiana.
É isto aí!
O Mago da Pitangueira e as Sextas-Feiras
— Nunca abandone seu amor nas sextas-feiras, disse o Mago aos jovens que subiram a colina para aprender com sua sabedoria.
— Por que, Mestre, perguntou J.T.
— Jovem, a sexta-feira é sagrada. Romper um relacionamento neste dia requer gestão de crise e empatia para não contaminar o seu meio de convivência.
— Mas se for inevitável, Mestre?
— É verdade que não existe hora perfeita e terminar sempre será doloroso. A ideia não é encontrar um dia fácil, mas sim evitar o agravamento desnecessário do sofrimento.
— Então há riscos, Mestre?
— Viver é arriscar cada segundo durante 24 horas por dia. Terminar numa sexta-feira pode amplificar o sofrimento de risco e criar um "fim de semana de crise" ativando desnecessariamente o seu mecanismo de feedback negativo.
— Mago, seria a crise da ruptura na sexta-feira uma ausência não metabolizada?
— Sim, a sexta-feira vira símbolo do tempo insuficiente para digestão emocional.
— Mestre, aqui, aqui! — É possível romper-se na sexta-feira e chegar na segunda sem o vazio da ausência?
— Olha, mocinha, quando há um forte vínculo emocional pelo lado mais frágil da relação, ao sofrer o rompimento na sexta-feira, experimentará uma eternidade de dor até que a vida retorne na segunda-feira pela manhã e recomece o ciclo da rotina.
Já o outro lado, o sujeito da ruptura, cria menos espaço para sedimentar-se nele a ausência, já que é o elo mais impessoal. Assim, dificultará o retorno e aumentará a agonia da falta que aquela pessoa faz.
— Por hoje já basta. Agora podem ir! Bom final de semana!
É isto aí!
quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
A mulher do 301
Acordou cedo, como de costume. Sentou-se para ler o jornal no notebook e só então percebeu o silêncio estranho da mesa: o notebook não estava ali.
Levantou-se devagar, percorreu a estante, a mesa da sala de estar — que nunca fora usada —, abriu a porta da frente, espiou o corredor vazio, voltou. Pegou o interfone e ligou para a portaria.
— Ninguém desceu do seu apartamento esta manhã, doutor — informou a voz paciente.
Desligou com raiva.
Só podia ser aquela do 301… aquela mulher.
Voltou à mesa para iniciar o desjejum e, ao sentar-se, viu o notebook fechado ao lado da garrafa térmica, ainda morna, com café arábica sem açúcar, como mandava a tradição.
Tentou ler. As letras embaralhavam-se. Um suor frio lhe percorreu a testa.
— AVC… é isso… estou tendo um AVC…
O mundo girou lento, depois rápido, depois lento outra vez, até notar a ausência decisiva: faltavam os óculos.
Levantou-se tomado de fúria.
Só podia ser aquela maldita do 301.
Ligou novamente para a portaria.
— Aqui é o Dr. Almeida. Quero saber se alguém esteve no meu apartamento. O notebook mudou de lugar e o café está servido. Chame a polícia. É caso grave.
— Doutor, aqui é o Toninho… quem subiu hoje cedo foi a Dona Irene, como faz todos os dias. Deu uma arrumada enquanto o senhor descansava.
— Irene? Nunca ouvi falar nessa mulher. Deve ser sua cúmplice nesses furtos descarados.
Desligou bufando.
Foi ao banheiro para uma ducha fria. Ao entrar no box, percebeu que já estava nu. Parou, atônito.
— Mas… quando foi que tirei a roupa?
Viu as peças dobradas sobre a pia, ao lado da toalha ainda úmida. Passou a mão pelo queixo, desconfiado. Vestiu-se e, ao fechar os botões da camisa, sentiu o peso familiar no bolso: os óculos.
Saiu dali com os dentes cerrados.
Praga daquela desgraçada do 301.
Pegou novamente o interfone.
— Portaria.
— Toninho, tem alguém interceptando minha linha. Um sujeito se passa por você. Quero falar agora com o apartamento 301.
— Doutor… no 301 mora o senador. E ele está viajando.
— O senador… claro… mais um bandido metido nisso tudo… — murmurou, desligando sem se despedir.
Sentou-se na espreguiçadeira da varanda. Abriu com cuidado a caixa de charutos, serviu-se de um gole generoso de conhaque francês e acendeu o tabaco com solenidade.
Olhou o prédio da frente.
Pegou os binóculos.
E ali ficou, imóvel, acompanhando em silencioso deleite os gestos domésticos da mulher do 301 do edifício vizinho, que cruzava a sala, estendia roupas, ajeitava o cabelo diante do espelho.
Um sorriso lento, quase terno, desenhou-se em seu rosto.
Murmurou satisfeito:
— Minha vadia do 301…
Nota do autor: A mulher do 301 trabalha a angústia da solidão na velhice. Foi publicado aqui, pela primeira vez, numa sexta-feira, 20 de maio de 2016. Eu gosto muito desta crônica, e resolvi fazer uma revisão de atualização. Acredito que tenha ficado bom, com detalhes mais focados na história de um homem revoltado com a solidão na sua velhice. Assim, refiz a crônica mais enxuta sem perder a proposta inicial. Espero que gostem!
É isto aí!
terça-feira, 27 de janeiro de 2026
Casos do acaso
Estava desesperançado quando arrumou a namorada num site especializado. Vinha de uma experiência ruim, dolorida e desagradável. Apaixonou-se logo por um perfil falso. Um dia ela convidou-o para conhecer sua família num lugarejo próximo a Salvador, mais de mil quilômetros de onde residia. Convite aceito, foi encontrar seu grande amor numa cidade a qual nunca ouvira falar e num endereço falso, colocado ali por pura maldade ou por um estranho sentimento de divertir-se com a dor do outro.
Saiu do hotel todo arrumado, perfumado, elegante e de face glabra. Passou na padaria, tomou um café expresso duplo, atravessou a rua, entrou na loja de trecos & coisas e comprou uma lembrança vintage em alumínio, cafona, mas ainda resistente ao tempo. Dali, olhando compulsivamente para o relógio, chamou a florista da rua, que lhe vendeu um buquê de rosas vermelhas de tal intensidade que chamavam a atenção dos transeuntes.
Entrou no táxi e entregou o cartão com o destino, num local distante e totalmente desconhecido de sua vida. O motorista olhou para ele, olhou para o papel, tornou a olhar e indagou se tinha certeza de que aquele era o lugar onde queria chegar. Acenou que sim com a cabeça, combinaram o preço e, quarenta minutos depois, estava diante da casa.
A rua era uma ladeira estreita, com calçamento de pedra imperial; as casas, tristes, assobradadas e encostadas umas nas outras; as janelas de madeira em estilo guilhotina, com venezianas abrindo para a rua; e as imensas portas duplas davam um ar de século XIX à arquitetura local. Bateu solenemente na argola sobre uma chapa de aço, afixada no largo batente, e aguardou ser atendido.
A moça veio mansamente, abriu a porta sem nenhuma pressa, olhou para ele, olhou para a rua, olhou de novo para ele, olhou para as rosas, para o presente; sorriram mutuamente e alguém perguntou lá de dentro:
— Quem é, Maristela?
— Quem é, não sei ainda não, mãe. Mas bem que Dindinha falou — o danado é lindo!
E foram felizes para sempre
É isto aí!

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