sábado, 24 de janeiro de 2026

Notas de rodapé


 — Cerimonial:

Senhoras e Senhores, com a palavra o Doutor Estafeta da Memória, nobre pró sub vice da terceira secretaria de Gestão Acadêmica deste Palácio do Saber.

— Estafeta da Memória:

Prezados discentes, docentes e convidados, hoje estamos marcando uma transição fundamental do pensamento universal ao futuro que merecemos, para o bem do ser humano. Essa ação foi impulsionada por fatores como a expansão imaterial da superficialidade, a invenção da moeda eletrônica, a inteligência emocional, dentre outros avanços, além da imbatível homework. Este processo criou um ambiente propício para o debate público. Grato e... boa sorte no caminho!

— Cerimonial:

Senhoras e Senhores, Eis aqui a nossa nova diretora, Doutora Adelaida Horvathda, de extenso e grandiloquente currículo, como consta na plataforma onde integra bases de dados da sua experiência acadêmica.

— Burburinhos

Graduada em Bacharelado das Ciências da Pós-Verdade da Natureza Humana, Inumana e Cooptantes, pela famosa Instituição de Ensino Superior de Pindorama e fez pós graduação em Metodologia do Ensino Decente, em Metodologia do Ensino Decente pelo Instituto Online de Decência na Educação Pindoramesca.

— Aumentam os burburinhos

Possui também Mestrado sob o tema - Fases Análogas de Homólogos Mútuos - onde naquela ocasião desenvolveu a ideia de que há uma realidade tangencial a ser percebida ao redor da sua realidade oblíqua. Neste Mestrado, foi condecorada com o título de Master et Orbe.

— Aumentam os burbúrios, murmúrios e gargalhadas esparsas

Doutorado cursado na magnânima Instituição da Pós Verdade Pan-Ameríndia do Hemisfério Norte, onde apresentou e defendeu a Tese sobre as Percepções Oníricas Pós-Fases Homólogas de Análogos Mútuos.

— Elevam-se os murmúrios e os burbúrios. Iniciam as vaias.

— Doutora Adelaida Horvathda tomada de ira, vai ao microfone e solta o ódio visceral sobre a plebe rude:

O problema é terem lado. Não conseguem confrontar esta revolução acadêmica, com o novo, com a neo docência predestinada a pós-revolucionar o mundo digital. Saibam que esta razão, este logos, esta filosofia estão mortos e ainda assim se recusam a enterrar o corpo das ideias.

Estão enganados. Não passam de canalhas ineptos em Moral, Costumes e Temas sociais. Ainda consideram que somente o logos pode guiar a humanidade no caminho do progresso. 

Nossa Bandeira, nossos costumes, nossas elucubrações e reflexões veementes em caráter constante, são as ferramentas contrárias aos atos de adversidade da filosofia que ainda insistem em chamar de força motriz da humanidade. Nosso Não Partido opera apenas com a única verdade do nosso Lado, sem questionamentos, sem revisões, sem nada. 

A plateia começa a avançar para o palco, aos gritos, louca, alucinada e compassada.

A Doutora fala suas últimas palavras antes de ser salva da multidão descontrolada: Fora, todos vocês que ainda se apegam ao iluminismo. Saibam que aqui e agora a educação não tem partido, tem lado sem reversibilidade e saibam, energúmenos insensíveis ao desenvolvimento do planeta amado, idolatrado, Salve Salve que nós viemos para ficar.

— Estafeta da Memória:
Senhor Meirinho, considerando que foram cumpridas todas as prerrogativas estabelecidas na ata — como quórum, pauta, registros legais e procedimentos de diálogo— a nomeação da Doutora Adelaida Horvathda torna-se formalmente válida e produz efeitos imediatos. Estão revogadas todas as disposições em contrário.

Silêncio Tático

O Auditório esvaziou rapidamente em paz, enquanto apenas um pequeno grupo aguardou para pedir autógrafo à nova diretora.

É isto aí!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Carta de Amor de Victor Hugo para sua amada, Juliette Drouet


JULIETTE DROUET


Carta de Amor de Victor Hugo para sua amada, Juliette Drouet


Victor Hugo, autor de Os Miseráveis e O Corcunda de Notre-Dame, conheceu Juliette Drouet, uma atriz, em 1833. Ela abandonou sua carreira para dedicar-se inteiramente a ele, tornando-se sua musa, secretária e companheira fiel, mesmo durante seus exílios políticos. Esta carta foi escrita em 1835, na manhã de aniversário de Juliette.

Ela é um exemplo sublime de devoção romântica e literária. Hugo escreveu milhares de cartas para Juliette ao longo de quase 50 anos de relacionamento.


Por que esta carta é tão famosa e poderosa?

Intensidade Romântica: Ela captura a essência do amor romântico do século XIX: devoção absoluta, fusão de almas e elevação do amado à condição de divindade.

Contraste com a Vida Real: Hugo, embora profundamente apaixonado por Juliette, era infiel e tinha uma família. A carta revela a complexidade do coração humano, capaz de uma paixão avassaladora e, ao mesmo tempo, de contradições.

Testemunho de Durabilidade: Apesar dos altos e baixos, o relacionamento deles durou quase cinco décadas, até a morte de Juliette em 1883. Hugo ficou devastado. Esta carta é a semente de um amor que resistiu ao tempo.


Paris, 16 de fevereiro de 1835.

Minha adorada Juliette,

Escrevo-te estas poucas linhas, que certamente não conseguirás ler hoje, sobre esta mesinha que tem estado tantas vezes sob os meus olhares e sob as minhas mãos enquanto eu escrevia.

O dia de hoje é um dos mais gloriosos e importantes da minha vida. Faz precisamente três anos, minha querida alma, que tu pertences a mim. Três anos! São três séculos de felicidade! Tu tens-me dado três anos de um amor constante, profundo, terno, devotado, encantador, delicioso.

Desde esse dia bendito em que te possuí, todo o meu ser gravita em torno do teu. A minha vida tem o teu coração como centro, o teu amor como único horizonte.

Antes de ti, não tinha vivido. És tu que fazes a minha grandeza, a minha força, a minha coragem, o meu gênio. Por ti, sou bom e sou grande. Tu és a minha vida e a minha alegria.

Como é belo, sublime e terno este longo compromisso das nossas duas almas! Amar, ser amado, é a felicidade suprema. Tu tens-me tornado o mais feliz dos homens desde o dia em que te disse: "És a minha" e tu me respondeste: "Sou tua".

Nestes três anos, a tua fidelidade tem sido inabalável, a tua dedicação sem limites, a tua ternura sem mácula. Tu és a minha fortuna, a minha esperança, a minha consolação.

Que Deus te abençoe, minha Juliette! Que Ele te conceda os anos que me conceder a mim! Que possamos viver e morrer juntos! Que a morte, quando vier, não seja para nós senão um novo e mais íntimo abraço no céu!

Enquanto isso, amo-te, adoro-te, bendigo-te. Coloco-te acima de tudo. Os meus beijos cobrem os teus lindos pés que tanto têm caminhado para mim, as tuas mãos abençoadas que tanto têm trabalhado para mim, os teus olhos divinos que tantas lágrimas têm derramado por mim, a tua testa sublime, os teus lábios que tantas vezes têm sorrido para mim, a tua alma que não vive senão para mim.

Amo-te! Nunca deixes de amar-me, minha muito amada. Sê sempre a minha Juliette.

Teu, para sempre,

Victor.


terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Aquele rosto não era eu



Acordei escutando em algum lugar dentro de mim uma música que sabiamente minha alma cantava em italiano. Gostava de lembrar minha infância, na casa dos meus avós, quando da vitrola saiam saudades, historias e lágrimas de um passado desafiante e dolorido. Toda aquela passionalidade era tônica da harmonia de estarmos todos ali. Eu era feliz!

Ainda meio acordado e sonolento, comecei a perceber que não estava bem. Engraçado isto, porque até pouco tempo atrás era um sujeito normal. Senti uma sensação de tristeza, uma dor profunda no peito, vindo das memórias, das conquistas e da vida desregrada. 

Cheguei no banheiro com uma vertigem infortuita. Deu que ao me postar frente ao espelho, com espanto e um misto de náusea com medo e taquicardia, eu vi, revi, vi de novo que aquele reflexo não era o meu. A sensação era real, e minha percepção lógica gritava lá do fundo da minha existência que aquilo não significava que eu não fosse aquele que via. poderia ser uma ilusão, uma pareidolia. Confuso e assustado procurei me tranquilizar. 

Se for um problema físico, raciocinei, existem tratamentos que poderão ajudar a resgatar o reconhecimento. No fundo, bem lá no fundo havia uma dor difusa. Sabia que aquilo era rota de fuga que operavam minhas centelhas de sentimentalidades. Fugir das paixões e evitar entender o que todas com as quais relacionei sentiam sobre mim, minha vida interior e romântica era impossível. Há muito tempo já estava blindado destas aventuras da adolescência.  

Mas havia algo ali e minha nova aparência poderia ser pode ser um mais do que um sintoma de problemas existenciais. Nunca acreditei nesta balela de amar e ser amado, e sempre trouxe comigo que não existe amor na minha realidade e predomina no meu peito uma ausência completa e consciente de contato com os reclames supostamente pertencentes ao relacionamento.

Voltei os olhos ao rosto que me olhava com muitas emoções. Vi meu pai nos olhos do espelho. Sabe aquele olhar que o pai dava na adolescência ensinando sem precisar falar. Rolou uma lágrima na minha face. Vi seus cabelos sempre penteados, sua sobrancelha direita arqueada perguntando como eu iria tratar deste problema que não era só meu. Neste momento gritei com todas as minhas forças que não podia ser verdade, meus sentimentos são exclusividade da minha vida e ninguém mais pertence o que sinto ou desabito dentro do meu existência.

Você é ainda luta para ser jovem e livre isto faz de você uma pessoa limitada, disse o velho. Seu lábio inferior estava mordido e oculto demonstrando não raiva, mas ansiedade do que eu iria enfrentar. Meu pai estava ali passando o bastão da maturidade para mim e eu não sabia nada sobre amar e ser amado. Tampei a face com as duas mãos e chorei até exaurir a saudade dele, dos tempos sem riscos, das múltiplas possibilidades e agora? Eu estava entrando num mundo completamente desconhecido.  

Guardei em prantos o silêncio, por longos e infinitos minutos, mirando minha face refletida no espelho que não me repreendia, mas mostrava que algo estava errado comigo.  Andei pensativo pela casa e nem a pouco amistosa lhasa apso, do alto dos seus 3Kg reclamou da minha nova aparência.

Saí dali ofegante, pensando que o episódio era cisma ou, numa remota hipótese, fosse uma brincadeira hostil dos meus nervos ópticos, cuja hostilidade passou a ser um tanto gratuita desde que reclamei que estavam reprimindo meu olhar quando ela passava por mim. Ela tem nome e carteira de identidade, tem CPF e cartão de crédito, tem indo e vindo aos meus sonhos e eu nunca a havia percebido assim. 

Deu que meus nervos olfatórios tomaram minhas dores e com um exército composto por aproximadamente 10 milhões de neurônios sensoriais olfatórios que de longe captavam o seu cheiro natural em forma de perfume, aguçou a inveja e a animosidade fez chegar aqui, onde não estou me reconhecendo.

Tive que recorrer ao coração, já que é o único órgão autônomo e independente que gera seu próprio impulso elétrico para bater nos dois, e manter-me vivo e apaixonadamente encantado por ela.

Por umas duas ou três vezes tentei isolar os dois sentidos em cada canto dos meus neurônios, apenas por medo de que o conflito crescesse. Havia desejos e tensões silenciosas, pequenas guerras internas que fingia não perceber.

Foi então que compreendi que a música que sempre tocou dentro de mim apaziguava tudo — e, pela primeira vez, aceitei isso sem resistência.

Talvez fosse apenas o despertar de um sentimento que até hoje eu desconhecia. Gostar de alguém não me transformará em outro homem: apenas me revelará um rosto que eu ainda não sabia reconhecer.
        
É isto aí!



domingo, 18 de janeiro de 2026

Cartas Avulsas XXIX


Reino da Pitangueira,
18 de Janeiro de 2026
18.º dia do ano no calendário gregoriano.
Faltam 348 dias para acabar o ano.

Dia Internacional do Riso.
Por do Sol às 18h35 min
Lua Nova às 16h51
Estação Verão

A última vez que escrevi uma carta avulsa foi na terça-feira, 27 de maio de 2025 — pouco mais de um ano se passou, e envelhecemos nesse ínterim. O fato é que me invadiu a saudade — saudade profunda, multiplicada. Um trecho de um poema de Gonçalves Dias passou pela minha memória, insistente e vívido. Ainda não sei se posso publicá-lo aqui… sabe como é, talvez haja crianças lendo.

Despertei com uma música diferente na cabeça, fixa e persistente por mais de treze horas. Lembrei-me de tantas coisas. Tenho certeza de que, por sua curiosidade — tão aguçada quanto gentil — você não repousará enquanto não falarmos de música. Creia: você adoraria as escolhas que me vieram à mente. Assim como você gosta de Giuseppe Verdi e Giacomo Puccini, eu ouvi no pensamento o virtuosismo barroco de Antonio Vivaldi, Arcangelo Corelli e Domenico Scarlatti, e a sensibilidade dos renascentistas Giovanni Pierluigi da Palestrina e Claudio Monteverdi.

Antecipando o maestro e simplificando a partitura de minhas memórias, digo o seguinte: enquanto Vivaldi, com ousadia e maestria, elevava aos céus As Quatro Estações, o mensageiro da lembrança me alcançou — sempre viajando em turnê clássica — e trouxe-me a última estrofe de “Se se morre de amor”. Não demorei nada… Era você o tempo todo:

Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

Seja esta — em sua intensidade e revelação — a definição que meu coração encontrou para nomear o que sinto.
É isto aí!

A conta não fecha.



Esqueci as palavras na ordem corrente. Mas sabe quando a gente era pequeno e não sabia fazer barco de papel para brincar no barro e se encantava com a terra tocando nossa alma? Aí as folhas da castanheira se tornavam navios, as formigas seus marinheiros e os sonhos flutuavam de uma maneira tão elegante, tão amiga e a gente não era mais feliz pela ignorância benta de não saber o que era não ser feliz.

Na infância, navegávamos sem entender os números que viriam depois — como se fosse possível, depois, simplificar o mundo em contas que fecham.

Quantas vezes são setenta vezes sete? Esse número mágico — maior que a velocidade da luz — parece simbolizar a extensão do amor e do perdão que buscamos, mesmo quando não conseguimos alcançá-lo plenamente. Perdoar é isto, um gesto de amor na velocidade da luz. Quanto bem faz perdoar e ser perdoado? E as folhas da castanheira desciam o oceano  revolto das chuvas de verão como devem sair de nós estas dores por toda a vida.

“Perdoar-se é um dos desafios mais duros que enfrentamos: falamos isso sem rodeios porque negar a dureza não nos aproxima da cura. é uma luta desigual, nossos erros são fortes, altos, pletóricos e nossa alto-estima é uma bosta quando estamos no campo do perdão. Os olhos marejados, os lábios contraídos, o ar preso, e a dor ... a dor violentamente cruel a nos lembrar de que nunca vamos aprender a lição de que é o único caminho.

Não existe uma fórmula mágica até que um dia você emagrece, rejuvenesce e transcende tudo de repente ao mesmo tempo e seu corpo dolorido vai em direção a uma experimentação única, que trás consigo a resposta de quanto dá setenta vezes sete.

Se cuida. Ué? Acabou? Quanto dá esta conta se tentarmos eleva-la ao quadrado, multiplicá-la pela gravidade de Júpiter, elevar tudo a X! (X fatorial…), ainda assim nunca terá um resultado claro — porque a conta é sua. É por isto que você não entendeu nada. 

Você é o X e é por isto a conta não fecha. Você é a única pessoa que segura peido, medo e lágrimas tudo junto e misturado só para sorrir e os outros acharem que está bem. Por isto a conta não fecha. 

É isto aí!

sábado, 17 de janeiro de 2026

Cartas de Amor C


Cartas de Amor C
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, esta é a nossa centésima carta de Amor

Tudo bem se amanhã é sexta, eu até entendo isto. Tudo melhor ainda se meu bem estiver comigo. E ainda tem gente que reclama cantando aquela música que acho ridícula, mas prefiro não abusar da sorte. Vai que hoje não é meu dia e o santo que me protege entrou de licença celestial? Para minha surpresa suprema, amanhã é domingo.

Você já chorou neste 2026? Já rolaram lágrimas inexplicáveis nesta sua face doce e combatente? Pensou em fugir enquanto ia ao banheiro na noite do réveillon? Pensou em chutar o pau da barraca? Experimentou um transe neuro psicodélico transitando entre o mar e as montanhas? Em algum momento deste 2026 sentiu-se segura?

E amanhã é domingo, deveria ser minha infância agora. Alguém aí na frente fala para o timoneiro desta grande nau, aquele que um dia me aportará em solo fértil, para que eu possa descer em algum lugar do passado. Se o futuro ainda não existe e o presente é apenas uma grande represa de sonhos, vou-me embora para o passado.

Acho que não estou bem. Vi seu nome hoje num documento confidencial que estava protegendo dados sensíveis. Pensa bem, sua maluca, somos dois errantes com confidências restritas um para com outro. 2026, já disse isto, não existe e posso provar, pois no momento em que o definimos, ele já se tornou um longínquo passado, sendo um ponto vesgo e sem duração na linha do tempo, ou uma construção do cérebro para organizar a experiência, não um instante objetivo com volume zero.

Mudamos tanto, mudamos muito, mudamos porque nos amamos. Queria mudar ao seu lado, mas mudamos para dentro. Eu nunca saberia mudar sem você, absoluta, na minha jornada até o dia que os mundos se separem. 

Gonçalves Dias perpetuou a nossa história e nossa verdade neste trecho do poema "Se se morre de amor não se morre":

Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compreender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!

É isto aí!


"De certa forma"


Nunca estou disponível para mim, e isso me irrita — de certa forma. A questão aqui é analisar, ou ao menos fingir que se analisa com neutralidade, essa expressão que se infiltra no meu cotidiano como uma desculpa educada: a famosa, onipresente e covarde “de certa forma”.

Desde priscas eras sei — ou deveria saber — que a negação de uma proposição não é um detalhe estilístico. Proposição, meus amigos e minhas amigas, é aquilo que se afirma e se submete a exame: algo que pode ser verdadeiro ou falso. Simples assim, embora doa.

Entendeu? Anota aí se precisar: dedução, indução, abdução. Isso cai na prova da vida todos os dias, mas você prefere passar cola sem ler o enunciado.

Na lógica, a negação é uma operação precisa: se a afirmação é verdadeira, sua negação é falsa — e vice-versa. Não há “mais ou menos”, não há penumbra confortável.

Já na linguagem ordinária, essa mesma operação reaparece travestida de gentileza. “De certa forma” não confronta, não nega frontalmente, não assume o risco do não. Ela sorri, concorda com a cabeça e, ao mesmo tempo, esvazia o conteúdo do que acabou de aceitar.

Em termos práticos, prezado leitor, graciosa leitora, “de certa forma” é a negação que não se assume: uma sabotagem elegante da proposição inicial. Concorda-se para não concordar. Afirma-se para não afirmar. Vive-se — de certa forma.

É isto aí!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Cartas de Amor XCIX


Cartas de Amor XCIX
Reino da Pitangueira,
Planeta Terra&Lua,
3° do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul

Querida, vamos fazer o que havemos de fazer!

Calma meu bem, respire profundamente, encha seus pulmõezinhos plena e pacientemente. Nós, meu amor, eu e você, somos a pergunta das respostas que experenciamos no amparo da saudade e do pertencimento. Não chore, querida, ainda temos um ao outro e isto por si só nos basta.

 Somos nós que testamos, executamos ou vivemos vivificando este algo maior, sendo passageiros da jornada desta vida passando por inúmeras situações com o único sentido de termos experiências que glorifiquem nossa jornada.

Estes nós, querida, atados a cada fração de segundos, delimitam nossa existência aqui, mas não a nossa vida, posto que é eterna. Um dia, minha Flor, nossos caminhos não nos devolverão mais ao mundo material e então assumiremos o nosso destino de seres de puro amor. 

Meu bem, quando estivermos lá com as duas mãos unidas, repartiremos nossa felicidade como quem que nunca a teve. Não cobremos um do outro mais do que podemos entregar. O amor não se mede apenas pela entrega. Sigamos, meu bem, regozijando este sentimento tão único, imaterial e verdadeiro.

Não vamos fugir, nem sequer ousaremos caminhos sedutores e aventureiros. Venha, sem medo, sem as mágoas, sem culpados, sem aflições ou conflitos. Vamos fazer o que havemos de fazer! Querida, eu não sei não amar você! Um cafuné no cabelo, um afago na face, um abraço apertado e um beijo apaixonado.

É isto aí!





Minha travessia


Depois de muitos anos, parti para as tão sonhadas férias. Eu precisava de um intervalo — um tempo suspenso para ouvir o que em mim pedia silêncio — e escolhi um resort no interior do estado, remoto, quase fora do mapa. Os dias acomodaram-se na calma até a terceira noite, quando o extraordinário irrompeu.

Estava eu a percorrer distraído o YouTube — política, esportes, trivialidades — quando tive a sensação de ser tragado pela tela. Não foi um puxão brusco; antes, uma aspiração suave, progressiva, como se a própria luz me convidasse a atravessar o vidro. Soltei o fone, fixei o brilho. O mundo conhecido rarefez.

Num instante, eu já estava do outro lado: um pequeno solarium, claro e silencioso. Olhei para trás. A sala apagava-se como fotografia antiga — móveis, sombras, tudo se dissolvendo até restar apenas o vazio.

Sentei-me numa poltrona confortável, diante de um jardim vasto, à espera de alguém que não chegava. O tempo passava — eu sabia —, mas perdera a medida de sua marcha. Então surgiu um homem de passos curtos, sandálias arrastando o chão, uma penca de chaves a tilintar no bolso da túnica.

Vestia linho azul-celeste, do ombro ao tornozelo, preso por um cinto. Quando ergueu a chave, seus olhos atravessaram os meus. Não foi um olhar: foi um mergulho. Senti escoarem, como poeira antiga, pesos, dores, angústias, mágoas, erros, mentiras. Um esvaziamento tão pleno que beirou o pânico — e, logo depois, um sossego profundo.

Despertei numa sala de conforto espartano. Ali estavam meus pais, dois irmãos e amigos muito próximos que já haviam partido. Abraçamo-nos em roda. Não houve palavras: seus pensamentos chegavam a mim como maré serena. Eu era luz — pura energia — navegando num mar de afetos. Chorei, sem pudor.

Dois homens altos entraram e, um de cada lado, conduziram-me a um grande salão. Havia centenas de recém-chegados como eu. No ponto mais alto, um palco; ao redor, um silêncio tão denso que parecia audível. Sentei-me. A poltrona moveu-se lentamente. Diante de mim, desenrolou-se o filme da minha vida. Tudo estava ali, sem cortes nem disfarces.

Então o chão faltou. Caí no vácuo, a velocidade crescendo até que os sentidos se apagaram. Acordei na manhã seguinte, na cama do hotel. Permaneci alguns instantes imóvel, como quem retorna de um lugar sem nome. 

O quarto era o mesmo, o mundo também — mas algo em mim se havia tornado mais leve, quase transparente. Não procurei explicações. Havia viagens que não pedem destino nem relato; apenas permanecem, silenciosas, como um sopro que nos acompanha pelo resto do dia.

É isto aí!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Tempo bom é o Hoje e o Agora


Sou do tempo que havia discos de vinil, em LP e Compacto

As Rádios eram o grande elo entre as culturas e notícias.

O leiteiro vendia o leite no litro pela rua afora

O açougueiro tinha banca na feira

Havia o aplicador de injetáveis nos domicílios

O aplicador carregava uma maleta com seringas de vidro e várias agulhas

O aplicador "esterilizava" — sqn — as seringas e agulhas na água fervente.

A professora era sempre professora e nunca tia

O vendedor de aves vivas as abatia e depenava ao gosto do freguês, ao vivo

Existiam relojoeiros, sapateiros e engraxates 

Existiam os colégios só para meninas

Existiam os colégios só para meninos

Matiné (em francês) sempre após o ato religioso, com os Três Patetas

Só os ricos tinham carros de passeio

As madeireiras eram as grandes empregadoras

Era elegante falar francês e saber algo em latim.

O preconceito social e racial eram despudoradamente naturalizados.

Sou do tempo em que ser pobre era destino fadado ao fracasso.

As moças só podiam comprar absorvente com uma atendente discreta.

Data de validade era algo proibido e desconhecido.

Não havia saúde pública, nem saneamento, nem água potável

Não havia rede de esgoto, e as casas tinham fossa no quintal.

Televisão já era uma realidade quase impossível.

Enfim, minha infância tinha 19 merdas para cada coisa rara e boa a todos.

E os Millennials (Geração Y, ~1981-1996) reclamam

E a Geração Z (~1997-2012) reclama mais um pouco do que a Y.

É isto aí!

 


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Ando meio esquisito




Fiz uma força enorme para levantar minha coragem frente ao desafio de navegar oceano afora num barco de ideias, pensamentos, memórias, tudo movido às sinapses naturais e às estrelas. 

Se você nunca viu noite alta e lua nova com estrelas não sabe o que é sonhar com as coisas impossíveis que navegam no nosso caminho pela praia. Sempre tive o cuidado de manter o pé na areia na parte plana do litoral, deve ser coisa minha mesmo este negócio de manter o equilíbrio.

Estava refletindo quanto a isto tudo e algumas coisas a mais, quando de repente, espera, eu disse de repente e mudei de ideia. Dei uma freada abrupta no meu possante condutor de vagas. Vagas para a plebe são ondas enormes, sabe? Daquelas que nunca surfei, nem nas melhores das minhas decisões. 

Pauso para o drama  Quanto tempo ainda tenho? Muitos? Poucos? Tensos? Intensos? Daqui do alto da cabeça meus olhos não vêm as horas nestes ponteiros díspares atados ao confuso e retórico pensamento. 

Vocês já andaram no mato? Não aquele mato urbanizado. É uma coisa assustadora quando não se conhece o caminho. Sim, há caminhos por entre as árvores, cipós, arbustos, etc. Jurei nunca mais andar embrenhado na mata, mas ninguém tira o que estava escrito para ser. Ninguém que bate bem das válvulas do cérebro, turbinado e protegido por uma rede neural intracraniana, é normal.

Acho que os remédios acabaram. Também acho o que acho porque às vezes nem procuro. Imagine você. Também é assim, não é? Por isso sorriu, que eu vi. Acredito que depositamos essas esquisitas atividades que o cérebro nos faculta observar devido a esta inenarrável habilidade que temos de refletir e analisar situações para tomar decisões melhores, o que faz de nós, suponho, bípedes pensantes em fase crucial na vida moderna.

Desejaram tanto que fui aos exames para ver se ainda tinha lucidez. Imagine você o que seria de mim lúcido enfrentando todas estas frentes nefastas, malvadas, rudes, desumanas tanto quanto as faturas de cartão de crédito vencidas. 

O doutor e as duas doutoras por onde passei não encontraram nada além da vã filosofia, que graças a Deus, quem me viu e quem me vê sabe que devo ter alguma coisa, sei lá o que, vai ver sou só esquisito mesmo.

É isto aí!     


domingo, 11 de janeiro de 2026

Uma jovem mulher lendo cartas de amor


   

Sobre a Cena: Interior de um café parisiense do século XVIII, estilo rococó, iluminação suave e difusa de uma janela.

Sobre a Figura Central: Uma jovem mulher, elegante e serena, sentada em uma cadeira Luís XV com estofado de damasco creme. Ela está descalça, com os pés apoiados em um tapete persa. 

Sobre as Vestes: um vestido de verão azul-pó (estilo "chemise à la reine"), sem mangas, com decote arredondado. O tecido é leve (musselina ou seda). 

Sobre os Adereços: Ela usa um colar fino de pérolas com uma Cruz de Caravaca e brincos de safira. Possui no dedo anelar esquerdo um anel com pedra safira azul . 

Sobre seus Cabelos: estão empoados, com alguns cachos, penteados no estilo Belle Époque.

Sobre a Ação: Ela está totalmente absorta na leitura de suas cartas de amor. Sua expressão é suave, introspectiva, com um leve sorriso nos lábios.

Sobre o Elemento Crítico: Na parede atrás dela, um espelho oval em moldura dourada e esculpida reflete seu perfil e as cartas em suas mãos, mostrando sua expressão focada.

Sobre o Ambiente: Atmosfera íntima e privada. Na mesa ao lado, uma xícara de porcelana fina e um pires. Tons de azul, creme, dourado e rosa-pálido dominam a paleta.

Sobre o Estilo de Pintura: Realista, semelhante a obras de Jean-Honoré Fragonard ou Jean-Baptiste Greuze.

Sobre a Luz: Há  um leve, discreto e tênue feixe de luz neste espaço sobre a mulher, com micro partículas em suspensão.

É isto aí!

sábado, 10 de janeiro de 2026

A Decepcionista Sênior (Um ensaio revisionista das novas funções humanas)


A Decepcionista Sênior
(Um ensaio revisionista das novas funções humanas)

Anteriormente já tratamos das Decepcionistas, mas, com o desenvolvimento acelerado das inteligências artificiais e a expansão de suas funções sociais, surgiu entre os gestores corporativos — ainda ancorados na administração de seres humanos — a necessidade de qualificar certas funções humanas para novos usos. Das mudanças assim emergentes, destaca-se uma função que em breve será amplamente requisitada: a Decepcionista Sênior.

Definição
A Decepcionista Sênior é a profissional responsável por atuar no atendimento ao público em geral e a pessoas específicas em particular — amigas, inimigas, pretendentes ou desconhecidas — em um amplo espectro de situações cotidianas.

Competências e atribuições

  1. Promover decepções éticas e altruístas em telefonemas, dispositivos portáteis, hotéis, pousadas, passeios e parques, bem como em hospitais, pronto-socorros, consultórios odontológicos e de psicanálise.

  2. Evitar decepções em bancos, aeroportos e centros comerciais por razões de segurança, respondendo pela conformidade legal de suas decepções públicas.

  3. Comparecer a velórios, churrascos de fim de semana, festas insossas, reencontros universitários e longas filas nos serviços públicos municipais (vedado o exercício da função em órgãos federais).

  4. Gerenciar o agendamento de gafes, equívocos, mal-entendidos e desencontros, desorientando chegadas e partidas de pessoas próximas, distantes, apaixonantes ou alvos de conquista.

  5. Atender e filtrar comunicações amorosas, comerciais e virtuais; anotar recados inusitados e agendar visitas inoportunas.

  6. Gerir devoluções de materiais vencidos ou defeituosos, petições públicas, direcionamento de ligações conflitantes e controle de mensagens por aplicativos.

  7. Prestar apoio tático em situações embaraçosas; monitorar ou desestabilizar o equilíbrio emocional dos envolvidos; fomentar desorganização, caos e finais infelizes.

  8. Eliminar documentos importantes, arquivar segredos pessoais, apagar certezas e distribuir incertezas, abstendo-se de responder diretamente sobre suas funções.

  9. Direcionar perguntas a partes desqualificadas para responder, organizando-as para repasse de decepções em níveis de prioridade até o destinatário final.

  10. Controlar chaves, senhas e registros de informações potencialmente comprometedores.

Qualificação
Recomenda-se formação superior em Decepções por uma das instituições politécnicas emergentes, criadas para qualificar funções humanas à luz das novas demandas sociais.

Encerramento

Revogam-se, por este ato, todas as disposições em contrário.

É isto aí!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Manifesto do Reino ao Pé da Pitangueira (16 anos de fundação)


Este Blog — aopedapitangueira.com —  é meu Diário de Bordo na travessia da vida.

Este espaço existe para você.

Mas só chega até aqui quem deseja chegar.

O Reino ao Pé da Pitangueira nasceu de uma interrupção.
Quando a vida me impôs silêncio, recolhimento e demora, percebi que não se tratava de pausa, mas de travessia. O que começou como um período sabático transformou-se em território. E o território, em reino.

Houve entradas e saídas. Houve desistências.
Antes de encontrar sua voz, este lugar precisou se perder várias vezes. Arquivei textos, apaguei rastros, fechei portas — não por negação, mas por espera. Nada nasce pronto quando é verdadeiro.

Este reino não é vitrine.
Não é rede.
Não é palco.

Aqui não há algoritmos que recompensem o ruído, nem aplausos fáceis que confundam movimento com sentido. Aqui, a cumplicidade é silenciosa. Só permanece quem aceita caminhar sem pressa.

Neste espaço, falo do que me atravessa:
o amor e suas ruínas,
as paixões que inflamam e as que cansam,
o riso inútil, o besteirol necessário,
as dores que não pedem licença,
as sombras que insistem em ficar.

Falo de política como quem observa um teatro trágico.
Falo de cultura como quem recolhe fragmentos.
Falo de musas, delírios e obsessões sem pedir desculpas.
Aqui posso malhar sem emagrecer.
Aqui posso errar sem ser punido pela pressa.

Este reino é diário, mas não é confissão.
É memória em movimento.
É tentativa de dar forma ao que insiste em permanecer estacionado dentro de mim.

Escrevo para não endurecer.
Escrevo para não esquecer.
Escrevo porque a vida, quando não escrita, se dispersa.

O Reino ao Pé da Pitangueira não promete coerência absoluta.
Promete honestidade de percurso.
Não oferece respostas — oferece perguntas que aprenderam a ficar.

Se você chegou até aqui, saiba:
não foi acaso, nem convite.
Foi afinidade silenciosa.

Este reino não cresce para fora.
Aprofunda-se.

E enquanto houver tempo, memória e palavra,
estarei aqui —
ao pé da pitangueira —
contando e recontando
casos, causos
e causalidades.

É isto aí!

domingo, 4 de janeiro de 2026

Odete e o Jogo do Espelho


Madrugada destas tocou meu Samsung conservado, seminovo e digno de medalha heroica pelas muitas aventuras que passamos juntos. Um longo silêncio — uns cinco segundos — seguido por nove batidas secas, num padrão fácil de reconhecer (curto-curto-curto, longo-longo-longo, curto-curto-curto). Era SOS de alguém que muitas vezes rezei para não acontecer. 

Vesti qualquer coisa correndo pela escada até a garagem e arfando cheguei ao fundo do edifício. Atravessei a avenida por um ponto cego e já de uma distância segura, sob a proteção da penumbra de uma castanheira, observei aqueles automóveis imensos, pretos, de vidro fechado. Contei três homens entrando no prédio. Continuei em marcha normal até ser abordado por dois senhores pletóricos e de poucas palavras.

Escute bem, porque não iremos repetir —  disse o mais forte com voz cavernosa,  cutucando fortemente meu ombro com a ponta do dedo — Não estamos com aqueles patetas estacionados ali, nem do lado da mitômana. Você tem 12 horas para fazer chegar este cartão à ela. Voltaremos para checar. E, puta que o pariu, SOS é coisa de menino.

Saí assustado, mas centrado enquanto caminhava até o ponto do ônibus. No ônibus troquei cuidadosamente o chip de uma operadora pelo de outra. Em menos de 2 minutos o brutamontes da abordagem anterior, o da voz cavernosa, ligou e cuspiu a palavra: Amador!

Reconheci a área, desci numa rua deserta até uma oficina mecânica com misto de ferro-velho. Entrei num carro antigo e discreto, joguei o celular no lixo e peguei outro no porta-luvas. Assim que liguei o carro, o celular atirado ao lixo tocou e a conhecida e rouca voz falou: seu merdinha, ficando espertinho, hem! Segui para Pirenópolis (GO) e aguardei algum contato numa casa erma, com uma porta verde sem tranca. Só queria que tudo acabasse logo.

Apareceu uma mulher, 60 anos, pele enrugada e discreta. Pediu o cartão, que entreguei prontamente. Não a procure, disse. Ela, quando puder te encontrará. Até lá, cuide-se! Voltei para casa. Quando deitei para concatenar tudo, bateram na porta. Era a dupla de brutamontes. O falante de voz cavernosa, dedo em riste, olhou bem sério e disse - olhe, merdinha, desta vez passa, mas o sistema nunca esquece.


É isto aí!

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Classificados do Amor

 


Classificados do Diário da Pitangueira

Dia 03 de maio

Procura-se

Procura-se uma mulher séria, de alma pura, que saiba ser feliz e deseje contrair matrimônio comigo. Sou bacharel em Direito, empresário do setor de logística comercial, expert em e-commerce e influenciador em áreas nobres das redes sociais e da inteligência artificial.

As interessadas deverão enviar carta de próprio punho, em papel pautado tamanho A4. A escrita deverá ser feita com caneta esferográfica azul ou preta, discorrendo sobre suas características pessoais. Em folha separada, também tamanho A4, pede-se que desenhem à mão livre, utilizando apenas lápis HB, uma casa e uma árvore.

As correspondências deverão ser postadas à redação do Diário da Pitangueira — Caixa Postal 156, CEP 76A32 — aos cuidados do
Dr. Ávido por Missiva.


Dia 10 de maio

Cartas dos leitores ao Diário da Pitangueira

1 — Venho protestar contra este cavagesto desse tal de Ávido, que anda atazanando as mulheres da nossa pequena e pacata Pitangueirinha, querendo coisas imorais com o punho. Seu redator, polícia nele.
Anônima da Associação das Moças de Bons Modos.

2 — O que significa carta de próprio punho? Uau… parece uma coisa assim máscula, sei lá. Ai, eu quero!!!!!
Lindinha da Murta.

3 — Olha só, até que euzinha encaixo bem nesse perfel aí, mas tirando-se a palavra carta num intendi mais nada.
Virgem da Lapa — Associação das Mocinhas de Boa Família.

4Carta aberta ao senhor Ávido por Missiva

Atendo ao seu inusitado pedido movida por intensa curiosidade. Traduza-me, por obséquio, o que o senhor deseja de uma mulher ao afirmar que ela deva “saber ser feliz”. Favor responder pelo setor de cartas do Diário da Pitangueira.

Atenciosamente,
Srta. Graça Grafite


Dia 17 de maio

Carta aberta do senhor Ávido por Missiva à senhorita Graça Grafite

(publicada no Diário da Pitangueira)

Senhorita Graça Grafite,

Comoveu-me sua escrita, de grafia tão esmerada. Por que o espanto diante de minha indagação? Exponha seus sentimentos, seus desejos ocultos, suas vocações, seus sonhos; bem como as virtudes que deseja demonstrar e os defeitos que espera ver respeitados. Mostre-me sua mais íntima concepção de ser feliz — o quanto baste e o quanto falte para sê-lo.


Dia 24 de maio

Carta aberta da senhorita Graça Grafite ao senhor Ávido por Missiva

(publicada no Diário da Pitangueira)

Causam-me espécie suas investidas no mais íntimo do meu ser. Ao mesmo tempo em que aquecem o coração, refreiam a sã consciência. Como responder ao que há de oculto em mim a alguém que não conheço?


Dia 31 de maio

A pequena cidade achava-se em alvoroço. Naquele domingo, clubes, igrejas, botequins e associações converteram-se em vastos cenários de debate em torno das cartas publicadas no Diário da Pitangueira.

Carta aberta do senhor Ávido por Missiva à senhorita Graça Grafite

(publicada no Diário da Pitangueira)

Prezada senhorita Graça Grafite,

Meu apreço e minha admiração multiplicaram-se nestes dias. Sou homem de bem, possuidor de razoável patrimônio rural e urbano, com renda suficiente para uma vida tranquila e sem sobressaltos, ao lado de uma mulher que partilhe semelhante percepção da felicidade. A senhorita, confesso, tem provocado progressos consideráveis em minha inquietude.


Dia 07 de junho

Nota da Redação: o Diário da Pitangueira não circulou nesta data em virtude do tumulto formado à porta do jornal para a entrega de correspondências. A edição foi adiada para o dia 14 de junho.


Dia 14 de junho

Nota de Esclarecimento do Editor-Chefe do Diário da Pitangueira

Prezados leitores e leitoras,

Informamos que, nesta edição, o Diário da Pitangueira triplicou sua tiragem e, ainda assim, não logrará atender à demanda da população — notadamente a feminina. Tendo recebido cerca de duas mil e trezentas cartas aceitando o pedido de casamento do senhor Ávido por Missiva, não será possível publicá-las em sua totalidade, por manifesta falta de espaço.

Tomamos, contudo, a liberdade de transcrever as mensagens das leitoras que já haviam se manifestado anteriormente:

1 — Eu te amo-lo ocê e sou feliz só ar seu lado!
Anônima do Sindicato.

2 — Quero ser sua 2HB de A4 e ser feliz para sempre ao seu lado!
Lindinha da Murta.

3 — Seu perfel é meu pérfel! Vem ser meu!
Virgem da Lapa.

4 — Senhor Ávido, estou ávida por ti!
Graça Grafite.


E foi assim que, naquela fria manhã de junho, mais de trezentas mulheres invadiram a sede do Diário da Pitangueira, quebrando portas, vitrines e convicções, na esperança de descobrir o endereço e o nome completo de seu amado pretendente.

O senhor Ávido por Missiva jamais foi localizado.

Há quem sustente que nunca existiu. Outros afirmam que partiu às pressas, levando consigo apenas uma mala, uma caneta esferográfica e um maço de cartas jamais respondidas.

Quanto à senhorita Graça Grafite, sabe-se apenas que deixou de escrever ao jornal. Não se casou, não protestou, não explicou.

Seguiu sendo feliz — o que, afinal, era a única coisa que ninguém soube dizer exatamente o que era.


É isto aí!

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Drao Kintos




Olá, meu nome é Lorde Guardião. Sou viajante interespacial e estou aqui para responder a apenas cinco perguntas, já que minha nave retornará em poucos minutos à Rodovia Celestial, aproveitando a sincronia e a interação entre a gravidade da Terra e Júpiter, formando arcos que se estendem ao longo dos coletores espaciais.

— Você entende a nossa língua?

Falo razoavelmente a sua língua, que aprendi em um telecurso de 3º grau, ainda na Kistre, algo como uma escola profissionalizante vinculada ao sistema do Poder Supremo, que rege e governa todas as coisas.

— Você parece um humano. Você é extraterrestre mesmo?

Na verdade, na verdade — assim, bem verdadeiramente verdade —, segundo consta nos anais do Livro Sagrado da História do Povo de Drao Kintos, sou da 13ª Dinastia OB76, vinculada ao Terceiro Templo Jirtraz, sob o pleno poder plenipotenciário da venerável e icônica Rainha Brenda, minha mãe e de todos nós, outros bilhões de Drao-Kintosenses.

— E como é a vida em Drao Kintos?

Você não vai acreditar, mas nascer em Drao Kintos — um dos trezentos milhões de planetas habitáveis da Via Láctea — é algo assim… como direi… hummm… como definir… vejamos… é o ó do borogodó da graça universal.

— E as mulheres de lá? Como são?

São mulheres.

— Quando você volta?

Não sei, mas parto agora. Até logo.

E, puff, sumiu na luz.

É isto aí!




domingo, 28 de dezembro de 2025

Onde guardar as memórias?


Esqueci a letra daquela música que começava assim: la la lalaiê, laiê lará. Eu ia cantar para ela, aí misturou com outra música — do como é que chama?

Aquela sobre o mar azul, tantas vezes chorei… ai, ai, ai, ai, ai… nem doutor nem pajé.

Para minha sorte, trouxe comigo o… o… caramba, esqueci o nome. Aquele negócio que faz as coisas se moverem de lá para cá e vice-versa. Não é telefone, nem fax, nem radinho para ouvir os jogos.

Esqueci já tanta coisa com este coração cigano que agora eu choro. Engraçado: acho que isso é parte de uma música Esqueci de uma coisa que não posso dizer que esqueci, porque daria problemas para… para… esqueci onde isso vai dar.

As Bachianas vão até o nº 5, de Villa-Lobos, e tem o Trenzinho do Caipira. Peça famosa, parte das Bachianas Brasileiras nº 2, que imita o som de uma Maria-Fumaça e que depois ganhou letra de Ferreira Gullar, inspirada em memórias de infância.

Puta que pariu. Até o Ferreira Gullar guarda memórias agora eternas e eu… eu… seria onomatopeico com outros morfemas nominais?

Esqueci as chaves de casa, mas encontrei os óculos no banheiro. Fui à cozinha e lá estavam as chaves do carro. Quando decidi sair, ao passar a porta, fechei-a devagar, e para minha surpresa, deparei com uma chave na fechadura externa da porta, curiosamente, já trancada.

Olha só. Quem seria o doido, nestes tempos loucos, de deixar uma chave guardada na porta, do lado de fora? Girei-a e ao abrir a porta dei numa sala desconhecida.

Aí tocou aquela música — la la lalaiê, laiê lará. Não sei você, mas eu chorei para caramba.

É isto aí!