3º do Sistema Solar,
Via Láctea, Zona Sul
Cartas de Amor 124
Epistulae Amoris CXXIV
Querida, sou poeta sem sê-lo, sou escritor sem sabê-lo
Diário de bordo na travessia da vida.
Meu pai me ensinou a crença de que o homem só tem três lágrimas, uma quando nasce, outra quando é batizado e a terceira é quando perde a mãe.
Ficou a repetir o pensamento, unhas provocando dor nos cantos das falanges distais. Quando do fechamento da urna, sentindo o mundo ruir ao seu redor pela perda da amada, sussurrou segurando as lágrimas: Eu não vou chorar, sua vadia.
O cortejo adentrou ao cemitério, cachorros latindo, mulheres cantando hinos religiosos, homens saindo do ambiente rumo ao bar do Zé do Bar.
Crianças corriam em volta da capelinha, atrás de uma bola que apareceu do nada no meio deles. As meninas reparavam nas roupas das outras meninas e vice-versa.
Quando chegaram ao túmulo, ele gritou para esperar. Queria dar a última olhada. Abriram o caixão, aproximou-se e sentiu que ela o segurou pela lapela do paletó, e sussurrou: Vadia é a puta que o pariu!
Levantou-se lentamente e chorou por dias até ser encontrado morto sobre a sepultura da companheira.
É isto aí!
Chegará logo o dia de rever você, quando tudo será melhor, mais bonito, mais doce, mais delicado, mais envolvente, mais feliz. É isto então — tudo indo e vindo em todos os vértices da felicidade, feito ondas apaixonadamente lindas.
Serão como sempre foram — românticas e reluzentes, em todas as formas concêntricas e excêntricas de amar você. Tudo incidirá no ponto de encontro entre nós dois, ora em ondas retas, ora em linhas; dezenas, centenas, milhares delas, em curvas que aqui denomino você: a razão da existência do amor.
Daquele dia, daquela hora que virá, o impacto das nossas vidas. Gritarei como um guerreiro defendendo nossa integralidade, batendo com a mão fechada sobre o coração, gritando impropérios contra o... puxa vida, isto é tão estranho, pois nos meus sonhos funcionavam muito bem estas ações e estes eventos primevos.
De repente, ainda bradando, mas abaixando o tom e deixando cair o tacape, não vejo mais você. Não que não esteja aqui, pois está em todos os lugares e dentro de mim, feito a mais perfeita pérola. Percebo estar, verdadeiramente, numa outra dimensão que não tangencia meu querer. Tudo é tão lindo quanto exótico ou inefável, e todas as coisas acontecendo ao mesmo tempo.
Pássaros ou algo do tipo, em plena cantoria, sobrevoam para um ponto infinito. Sinto um frio glacial. E seres indescritíveis, como se estivessem dobrando o universo, seguem no mesmo rumo das aves, como se todos soubessem para onde ir, menos eu. Há medo, e agora lágrimas que aparecem do nada preenchem um imenso vazio em mim. Acho que morri.
Este silêncio, os olhares alhures de pessoas que não são exatamente pessoas. Mas minha consciência ainda me banca; ainda posso ver minhas mãos. Não, espera, não posso ver minhas mãos, mas posso senti-las. Então é aqui a Eternidade. Vou caminhar para ver onde dará esta estrada.
É isto aí!
Querida, bom outono
Seria indelicado perguntar como você está, pois bem sei por intermediários entre nós e o oceano que comentaram sobre a despedida ao seu pai. Não é fácil o luto, uma vez que o processo é individual e oscilante, servindo para organizar as emoções rumo à adaptação. à nova realidade.
Ocorreu-me citar o Carlos Drummond de Andrade, em trecho do seu poema "Ausência", publicado originalmente em 1945, no livro A Rosa do Povo. Se não leu, ainda há tempo de ler. Leitura imperdível.
Agora, com justas lagrimas, este poema revela que a memória afetiva pode sobreviver ao tempo, à distância e ao desaparecimento material. E as coisas da nossa humanidade trazem à tona dores e rearranjos de manutenção desta ausência.
Não há uma ordem para este reajuste de rota, mas aparecem a raiva, a negação, a barganha — geralmente e não necessariamente é com Deus — a depressão em suas formas mais íntimas e por fim, este sim, é sempre o ultimo a aparecer, que é a aceitação.
Sinto pela sua dor, pela enorme ausência que preencherá a sua existência. Eu estou aí dentro, tudo junto e separado. Assim o amor segue seu destino, sem saber se é dia ou noite, se há tristeza ou alegria.
Um abraço apertado até passar a dor. Eu não sei não amar você.
A Senhora "A" e a Senhora "B" conversaram sobre tudo e eu ali, invisível entre as duas. Num determinado momento, a Senhora "A" perguntou — escute, e a Julinha, já marcou a data do casamento com aquele rapaz adorável e simpático? — A Senhora "B" pôs-se a chorar. — silêncio sepulcral e todo o supermercado voltou a atenção para o processo.
Aquele rapaz adorável e simpático é casado e pai de três meninas. Traiu a esposa, traiu a inocência da Julinha e mentiu até para o Padre.
A Senhora "B", ignorando minha presença, transpassou meu corpo e abraçou a chorar com a Senhora "A" e o mundo ao redor buscou o que fazer dispersando em murmúrios. .
No fundo, no fundo, todo mundo mente. Uns mais, outros menos.
É isto aí!
Nós, o povo do Reino da Pitangueira, declaramos greve, promovendo a suspensão coletiva, pacífica, total, de prestação pessoal de serviços ao nobre eleitor.
Reivindicações:
Faremos uma assembleia para definirmos o cronograma e a pauta da assembleia geral que será o movimento legal para levantarmos as reivindicações.
Durante a greve serão constituídos por voto os membros da comissão de negociação, mediante acordo com o staff patronal da Nobreza Imperial do Reino ou diretamente com quem for delegado por Vossa Alteza Imperial.
A classe operária unida garante à Vossa Majestade que manterá em atividade equipes mínimas de empregados comissionados, servidores, prestadores de serviço e celetistas com o propósito de assegurar os serviços priorizados, cuja paralisação resulta em prejuízo irreparável, pela deterioração irreversível de bens, máquinas e equipamentos, bem como a manutenção daqueles essenciais à retomada das atividades da empresa quando da cessação do movimento.
É isto aí!
Há dores que não pedimos para levar. E há delas que, com o tempo, deixam de ser visitantes para se tornarem moradoras. Este texto fala de uma dessas dores – ou seria de uma pessoa? Ou seria da própria memória? O narrador busca na lembrança algo que toque a alma e, de súbito, a memória muda de canal. Vem a infância, vem o ontem, vem um professor de maiêutica, vem uma gargalhada que não lhe pertencia. E, no fim, uma estranha felicidade. Um dia. Um choro.
“O espinho na carne” não é um texto sobre superação. É sobre convivência. Sobre descobrir que aquilo que fere pode, um dia, caber dentro de uma felicidade que não se explica.
Buscou na memória algo dela, que tocasse sua alma. Quase que imediatamente lembrou seu olhar, seu andar, seu perfume e seu sorriso. De súbito a memória mudou de canal e o levou à infância. Solitário e tímido, teve um longo corredor de dores, mágoas, tristezas e decepções.
Num salto chegou ao dia de ontem, quando num momento de inútil sensatez, percebeu-se exclusivamente triste. Desde a manhã do dia anterior vinha sentindo-se acabrunhado, com a face abatida, olhos tristes, corpo prostrado, com aquela angústia dos seres humilhados ou dos calejados oprimidos.
Recordou de súbito o professor de maiêutica que com muita maestria utilizava o método socrático para conduzi-lo a "dar à luz" as próprias ideias e conhecimentos. Riu discretamente e logo deu uma gargalhada que não lhe pertencia em tempos comuns.
Após a hilária passagem, ela retornou ao seu lugar de excelência. Deixou que invadisse seu dia, e aquilo permitiu a compreensão que ela era parte da sua persona. Desistiu de lutar, e seguiu triste, mas conformado, seja lá o que isto significa.
Um dia, por obra do acaso e da manifestação dos segredos da existência, experimentou uma estranha felicidade.
Naquele dia chorou.
É isto aí!