Ao pé da Pitangueira
Diário de bordo na travessia da vida.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Notas de rodapé
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
Carta de Amor de Victor Hugo para sua amada, Juliette Drouet
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
Aquele rosto não era eu
domingo, 18 de janeiro de 2026
Cartas Avulsas XXIX
A conta não fecha.
sábado, 17 de janeiro de 2026
Cartas de Amor C
"De certa forma"
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
Cartas de Amor XCIX
Minha travessia
quinta-feira, 15 de janeiro de 2026
Tempo bom é o Hoje e o Agora
Sou do tempo que havia discos de vinil, em LP e Compacto
As Rádios eram o grande elo entre as culturas e notícias.
O leiteiro vendia o leite no litro pela rua afora
O açougueiro tinha banca na feira
Havia o aplicador de injetáveis nos domicílios
O aplicador carregava uma maleta com seringas de vidro e várias agulhas
O aplicador "esterilizava" — sqn — as seringas e agulhas na água fervente.
A professora era sempre professora e nunca tia
O vendedor de aves vivas as abatia e depenava ao gosto do freguês, ao vivo
Existiam relojoeiros, sapateiros e engraxates
Existiam os colégios só para meninas
Existiam os colégios só para meninos
Matiné (em francês) sempre após o ato religioso, com os Três Patetas
Só os ricos tinham carros de passeio
As madeireiras eram as grandes empregadoras
Era elegante falar francês e saber algo em latim.
O preconceito social e racial eram despudoradamente naturalizados.
Sou do tempo em que ser pobre era destino fadado ao fracasso.
As moças só podiam comprar absorvente com uma atendente discreta.
Data de validade era algo proibido e desconhecido.
Não havia saúde pública, nem saneamento, nem água potável
Não havia rede de esgoto, e as casas tinham fossa no quintal.
Televisão já era uma realidade quase impossível.
Enfim, minha infância tinha 19 merdas para cada coisa rara e boa a todos.
E os Millennials (Geração Y, ~1981-1996) reclamam
E a Geração Z (~1997-2012) reclama mais um pouco do que a Y.
É isto aí!
terça-feira, 13 de janeiro de 2026
Ando meio esquisito
Estava refletindo quanto a isto tudo e algumas coisas a mais, quando de repente, espera, eu disse de repente e mudei de ideia. Dei uma freada abrupta no meu possante condutor de vagas. Vagas para a plebe são ondas enormes, sabe? Daquelas que nunca surfei, nem nas melhores das minhas decisões.
Pauso para o drama Quanto tempo ainda tenho? Muitos? Poucos? Tensos? Intensos? Daqui do alto da cabeça meus olhos não vêm as horas nestes ponteiros díspares atados ao confuso e retórico pensamento.
Vocês já andaram no mato? Não aquele mato urbanizado. É uma coisa assustadora quando não se conhece o caminho. Sim, há caminhos por entre as árvores, cipós, arbustos, etc. Jurei nunca mais andar embrenhado na mata, mas ninguém tira o que estava escrito para ser. Ninguém que bate bem das válvulas do cérebro, turbinado e protegido por uma rede neural intracraniana, é normal.
Acho que os remédios acabaram. Também acho o que acho porque às vezes nem procuro. Imagine você. Também é assim, não é? Por isso sorriu, que eu vi. Acredito que depositamos essas esquisitas atividades que o cérebro nos faculta observar devido a esta inenarrável habilidade que temos de refletir e analisar situações para tomar decisões melhores, o que faz de nós, suponho, bípedes pensantes em fase crucial na vida moderna.
Desejaram tanto que fui aos exames para ver se ainda tinha lucidez. Imagine você o que seria de mim lúcido enfrentando todas estas frentes nefastas, malvadas, rudes, desumanas tanto quanto as faturas de cartão de crédito vencidas.
O doutor e as duas doutoras por onde passei não encontraram nada além da vã filosofia, que graças a Deus, quem me viu e quem me vê sabe que devo ter alguma coisa, sei lá o que, vai ver sou só esquisito mesmo.
É isto aí!
domingo, 11 de janeiro de 2026
Uma jovem mulher lendo cartas de amor
sábado, 10 de janeiro de 2026
A Decepcionista Sênior (Um ensaio revisionista das novas funções humanas)
Anteriormente já tratamos das Decepcionistas, mas, com o desenvolvimento acelerado das inteligências artificiais e a expansão de suas funções sociais, surgiu entre os gestores corporativos — ainda ancorados na administração de seres humanos — a necessidade de qualificar certas funções humanas para novos usos. Das mudanças assim emergentes, destaca-se uma função que em breve será amplamente requisitada: a Decepcionista Sênior.
Competências e atribuições
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Promover decepções éticas e altruístas em telefonemas, dispositivos portáteis, hotéis, pousadas, passeios e parques, bem como em hospitais, pronto-socorros, consultórios odontológicos e de psicanálise.
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Evitar decepções em bancos, aeroportos e centros comerciais por razões de segurança, respondendo pela conformidade legal de suas decepções públicas.
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Comparecer a velórios, churrascos de fim de semana, festas insossas, reencontros universitários e longas filas nos serviços públicos municipais (vedado o exercício da função em órgãos federais).
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Gerenciar o agendamento de gafes, equívocos, mal-entendidos e desencontros, desorientando chegadas e partidas de pessoas próximas, distantes, apaixonantes ou alvos de conquista.
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Atender e filtrar comunicações amorosas, comerciais e virtuais; anotar recados inusitados e agendar visitas inoportunas.
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Gerir devoluções de materiais vencidos ou defeituosos, petições públicas, direcionamento de ligações conflitantes e controle de mensagens por aplicativos.
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Prestar apoio tático em situações embaraçosas; monitorar ou desestabilizar o equilíbrio emocional dos envolvidos; fomentar desorganização, caos e finais infelizes.
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Eliminar documentos importantes, arquivar segredos pessoais, apagar certezas e distribuir incertezas, abstendo-se de responder diretamente sobre suas funções.
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Direcionar perguntas a partes desqualificadas para responder, organizando-as para repasse de decepções em níveis de prioridade até o destinatário final.
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Controlar chaves, senhas e registros de informações potencialmente comprometedores.
Encerramento
Revogam-se, por este ato, todas as disposições em contrário.
É isto aí!
segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
Manifesto do Reino ao Pé da Pitangueira (16 anos de fundação)
Aqui não há algoritmos que recompensem o ruído, nem aplausos fáceis que confundam movimento com sentido. Aqui, a cumplicidade é silenciosa. Só permanece quem aceita caminhar sem pressa.
domingo, 4 de janeiro de 2026
Odete e o Jogo do Espelho
Vesti qualquer coisa correndo pela escada até a garagem e arfando cheguei ao fundo do edifício. Atravessei a avenida por um ponto cego e já de uma distância segura, sob a proteção da penumbra de uma castanheira, observei aqueles automóveis imensos, pretos, de vidro fechado. Contei três homens entrando no prédio. Continuei em marcha normal até ser abordado por dois senhores pletóricos e de poucas palavras.
Escute bem, porque não iremos repetir — disse o mais forte com voz cavernosa, cutucando fortemente meu ombro com a ponta do dedo — Não estamos com aqueles patetas estacionados ali, nem do lado da mitômana. Você tem 12 horas para fazer chegar este cartão à ela. Voltaremos para checar. E, puta que o pariu, SOS é coisa de menino.
Saí assustado, mas centrado enquanto caminhava até o ponto do ônibus. No ônibus troquei cuidadosamente o chip de uma operadora pelo de outra. Em menos de 2 minutos o brutamontes da abordagem anterior, o da voz cavernosa, ligou e cuspiu a palavra: Amador!
Reconheci a área, desci numa rua deserta até uma oficina mecânica com misto de ferro-velho. Entrei num carro antigo e discreto, joguei o celular no lixo e peguei outro no porta-luvas. Assim que liguei o carro, o celular atirado ao lixo tocou e a conhecida e rouca voz falou: seu merdinha, ficando espertinho, hem! Segui para Pirenópolis (GO) e aguardei algum contato numa casa erma, com uma porta verde sem tranca. Só queria que tudo acabasse logo.
Apareceu uma mulher, 60 anos, pele enrugada e discreta. Pediu o cartão, que entreguei prontamente. Não a procure, disse. Ela, quando puder te encontrará. Até lá, cuide-se! Voltei para casa. Quando deitei para concatenar tudo, bateram na porta. Era a dupla de brutamontes. O falante de voz cavernosa, dedo em riste, olhou bem sério e disse - olhe, merdinha, desta vez passa, mas o sistema nunca esquece.
É isto aí!
terça-feira, 30 de dezembro de 2025
Classificados do Amor
Classificados do Diário da Pitangueira
Dia 03 de maio
Procura-se
Procura-se uma mulher séria, de alma pura, que saiba ser feliz e deseje contrair matrimônio comigo. Sou bacharel em Direito, empresário do setor de logística comercial, expert em e-commerce e influenciador em áreas nobres das redes sociais e da inteligência artificial.
As interessadas deverão enviar carta de próprio punho, em papel pautado tamanho A4. A escrita deverá ser feita com caneta esferográfica azul ou preta, discorrendo sobre suas características pessoais. Em folha separada, também tamanho A4, pede-se que desenhem à mão livre, utilizando apenas lápis HB, uma casa e uma árvore.
Dia 10 de maio
Cartas dos leitores ao Diário da Pitangueira
4 — Carta aberta ao senhor Ávido por Missiva
Atendo ao seu inusitado pedido movida por intensa curiosidade. Traduza-me, por obséquio, o que o senhor deseja de uma mulher ao afirmar que ela deva “saber ser feliz”. Favor responder pelo setor de cartas do Diário da Pitangueira.
Dia 17 de maio
Carta aberta do senhor Ávido por Missiva à senhorita Graça Grafite
(publicada no Diário da Pitangueira)
Senhorita Graça Grafite,
Comoveu-me sua escrita, de grafia tão esmerada. Por que o espanto diante de minha indagação? Exponha seus sentimentos, seus desejos ocultos, suas vocações, seus sonhos; bem como as virtudes que deseja demonstrar e os defeitos que espera ver respeitados. Mostre-me sua mais íntima concepção de ser feliz — o quanto baste e o quanto falte para sê-lo.
Dia 24 de maio
Carta aberta da senhorita Graça Grafite ao senhor Ávido por Missiva
(publicada no Diário da Pitangueira)
Causam-me espécie suas investidas no mais íntimo do meu ser. Ao mesmo tempo em que aquecem o coração, refreiam a sã consciência. Como responder ao que há de oculto em mim a alguém que não conheço?
Dia 31 de maio
A pequena cidade achava-se em alvoroço. Naquele domingo, clubes, igrejas, botequins e associações converteram-se em vastos cenários de debate em torno das cartas publicadas no Diário da Pitangueira.
Carta aberta do senhor Ávido por Missiva à senhorita Graça Grafite
(publicada no Diário da Pitangueira)
Prezada senhorita Graça Grafite,
Meu apreço e minha admiração multiplicaram-se nestes dias. Sou homem de bem, possuidor de razoável patrimônio rural e urbano, com renda suficiente para uma vida tranquila e sem sobressaltos, ao lado de uma mulher que partilhe semelhante percepção da felicidade. A senhorita, confesso, tem provocado progressos consideráveis em minha inquietude.
Dia 07 de junho
Nota da Redação: o Diário da Pitangueira não circulou nesta data em virtude do tumulto formado à porta do jornal para a entrega de correspondências. A edição foi adiada para o dia 14 de junho.
Dia 14 de junho
Nota de Esclarecimento do Editor-Chefe do Diário da Pitangueira
Prezados leitores e leitoras,
Informamos que, nesta edição, o Diário da Pitangueira triplicou sua tiragem e, ainda assim, não logrará atender à demanda da população — notadamente a feminina. Tendo recebido cerca de duas mil e trezentas cartas aceitando o pedido de casamento do senhor Ávido por Missiva, não será possível publicá-las em sua totalidade, por manifesta falta de espaço.
Tomamos, contudo, a liberdade de transcrever as mensagens das leitoras que já haviam se manifestado anteriormente:
1 — Eu te amo-lo ocê e sou feliz só ar seu lado!
Anônima do Sindicato.
2 — Quero ser sua 2HB de A4 e ser feliz para sempre ao seu lado!
Lindinha da Murta.
3 — Seu perfel é meu pérfel! Vem ser meu!
Virgem da Lapa.
4 — Senhor Ávido, estou ávida por ti!
Graça Grafite.
E foi assim que, naquela fria manhã de junho, mais de trezentas mulheres invadiram a sede do Diário da Pitangueira, quebrando portas, vitrines e convicções, na esperança de descobrir o endereço e o nome completo de seu amado pretendente.
O senhor Ávido por Missiva jamais foi localizado.
Há quem sustente que nunca existiu. Outros afirmam que partiu às pressas, levando consigo apenas uma mala, uma caneta esferográfica e um maço de cartas jamais respondidas.
Quanto à senhorita Graça Grafite, sabe-se apenas que deixou de escrever ao jornal. Não se casou, não protestou, não explicou.
Seguiu sendo feliz — o que, afinal, era a única coisa que ninguém soube dizer exatamente o que era.




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