domingo, 16 de março de 2014

Contos da Feiticeira de Açucena


Contos da Feiticeira de Açucena
Parte I 
O drama da família

Conta a lenda, que lá pelas bandas de Açucena, no início do século passado, nos rincões de Minas Gerais, em uma pequena e pacata propriedade rural, moravam um casal e seus dois filhos. Tinham lá umas vaquinhas, umas cabritas, galinha, pato, cachorro e gato, mas o xodó dos meninos era Lindinalva, uma jumentinha adquirida pelo pai, de um grupo de ciganos acampados pelas bandas do Aramirim.

Lindinalva passou logo a ser praticamente uma pessoa da família, a filha mais velha do casal, a faz-tudo, sempre engraçadinha. Ia na rua sozinha e esperava o padeiro colocar os pães no balaio, passava na venda, onde o quitandeiro pegava a lista e colocava as solicitações, e assim passava pela cidade e retornava para os afazeres domésticos.

Um dia, enquanto arrumava a cozinha do almoço, Dona Juracy ouviu um urro estranho, largou as vasilhas na bica, enxugou as mãos apressadamente no pano amarrado ao vestido como um avental, olhou pela janela e viu que a Lindinalva, que seu marido adquiriu com tanto sacrifício e com muito orgulho, estava caída no curral.

Dona Juracy ficou desesperada. Correu para ver o que havia ocorrido, tropeçou, caiu, batendo com a cabeça em uma das pedras que haviam no caminho e desmaiou, deixando uma poça de sangue ao redor da ferida aberta na fronte. Seu Juventino, ao ouvir os gritos da esposa, desceu em desembalada carreira do pasto onde estava, e também tropeçou, rolou ribanceira abaixo, e ficou desacordado.

Joãozinho e Juquinha correram para socorrer a mãe. A carregaram até a cama, e foram buscar o pai, que também foi colocado desacordado ao lado da esposa. Joãozinho, ao perceber que poderia perder os pais, desmaiou ali mesmo, sem forças para reagir.

E agora, pensou Juquinha, como iriam alimentar a família, quem carregaria a lenha, mandioca, etc. se até o pai, tão forte, estava doente? Enorme drama familiar....

Parte II
Os ciganos

O filho mais velho não tendo a quem recorrer, tomou uma decisão: foi até o acampamento dos ciganos para buscar ajuda. Quando lá chegou, foi bem recebido e explicou a tragédia familiar. Ouviram tudo com muita atenção, pensaram muito, conversaram em um dialeto estranho para Juquinha e um que parecia o mais velho respondeu que nada poderia fazer naquele momento, mas que ele procurasse uma mulher que morava mais acima, com poderes de cura e visão, pois ela tinha sido a dona anterior da jumentinha e saberia como resolver toda esta tragédia, pois parecia que existia uma relação entre as partes envolvidas.

Juquinha, num misto medo e necessidade, foi ao encontro dela, cujas histórias de bruxaria assombravam a todos do lugarejo. Nunca a tinha visto, mas só de saber que estava indo ao seu refúgio, o pânico o assombrava.

Por muitas noites ficou sem dormir, ao escutar as histórias que contavam sobre aquela misteriosa mulher. Uns diziam que era uma fera em corpo humano, outros que era uma bruxa com mais de trezentos anos, capaz das maiores crueldades.

Parte III
A Feiticeira de Açucena

Juquinha, aterrorizado, seguiu pelo campo, sempre à noroeste, conforme informado pelo cigano. Passou por longos trechos de mata, ouviu barulhos estranhos, sentiu estar sendo seguido, teve medo, desespero e tremores.

Depois de seis horas de caminhada, teve a impressão de ver Lindinalva no pasto logo abaixo de sua rota. Desceu a íngreme encosta, mas a medida que descia, a imagem desaparecia e se tornava uma mulher.

Ao se aproximar de um casebre antigo, sentada nua, com estranho chapéu e um imenso colar de pérolas à mão, uma mulher com olhar longínquo estava a esperá-lo, sem olhar para seu rosto.

Olá Juquinha, antecipou a feiticeira, com uma voz enebriante. Eu sei o que aconteceu com a sua família... mas se você aceitar casar comigo, eu trago todo mundo de volta.

Juquinha hesitou, ficou ali meio abobado, sentindo uma coisa estranha em si, um conflito entre a confiança e a fuga. Uma mulher estranha, antes mesmo de dizer algo, chamou-o pelo nome e revelou o motivo da sua vinda. Quem era ela? Como só podia ser ela? Pensou, sem tirar os olhos de seu belo corpo nu.

- Olha aqui rapazinho, se você casar comigo, será bom para todos. Resolva logo. 

- Casar? Como assim casar?

- Sim, casar, você topa?

- Juquinha pensou, pensou, não tinha nada a perder. Sim senhora, eu topo.... mas desde que você cumpra a sua parte antes...                                       

- Que assim seja, mas antes você terá que saber meu segredo.

- Segredo? Qual segredo?

- Eu sou a Lindinalva, e fiz tudo isto acontecer para que você viesse até mim, por que você, Juquinha, é jurado a mim! Você  preencheu todo o meu imenso vazio interior!!!! Você é meu, Juquinha... entendeu??? M!!!eu

- Juquinha voltou para casa montado em Lindinalva, e viu que estavam todos bem. Pediu bençãos aos pais, despediu do irmão e partiram felizes para sempre.

É isto aí!

sábado, 15 de março de 2014

Enquanto a tristeza não vai!


Tarde Triste (Maysa Matarazzo) com Nana Caymmi

Tarde Triste (Maysa Matarazzo) com Nana Caymmi

Tarde triste me recorda
Outros tempos
Que saudade
Que saudade

Vivo só
Num turbilhão de pensamentos
De saudade
De saudade

Por onde andará quem amei
Será que também vive assim
Sofrendo como só eu sei
Pensando um pouquinho em mim

Tarde triste
Noite vem
Já esta descendo
E eu sozinha, sofrendo


Sinto minha falta


Sinto minha falta. Minhas pernas peraltas correndo sem cansar, meu sono tranquilo, meu quarto imenso, minha vida imensa, o quintal imenso, e uma imaginação infinita. Cada vez que olho para trás e vou sumindo, dizendo adeus e misteriosamente até breve, vou ficando mais só. Estamos indo um de encontro ao outro.

Sinto a falta das tardes longas e preguiçosas, o futebol na rua, o rádio com chiados em suas válvulas imensas. Os cadernos com orelhas sujas de folheados rápidos. O Hino Nacional na escola, os amigos que nunca mais vi. Sinto muita falta de mim.

O córrego, as pernas impossíveis e desejadas das moças mais velhas, as manhãs de outono, as chuvas de setembro. A professora rígida, o pão quentinho com manteiga. A rua em poeira, a bola de gude, as bolas de meia. As meias femininas nas pernas com costura posterior, em um fetiche único.

Sinto minha falta na casa da minha avó, nas conversas sem fim e sem começo. Sinta tanta falta de mim, que há um espaço enorme nesta manifestação neuro-sensorial. Onde estava neste hiato temporal? Tudo passa tão rápido, passei tão rápido, as oportunidades, os amores, as despedidas e os encontros.

Sinto a falta de sonhar, de ter coisas importantes para o futuro, de ouvir a Rádio MEC em um imenso rádio com válvulas. Estou só, só dentro de mim, eu acho - aquele menino que queria ser um tanto de coisa no mundo não está mais aqui. Faz falta, faz uma falta ou tantas quantas forem as faltas.

Sinto falta das castanheiras, das serrarias na rua descalça, nos livros do Tom Sawyer lidos em viagens alucinantes. Da Ilha do Tesouro, do deleite ao ler O Cortiço. Não faltaram aventuras, faltou tempo para vivê-las mais intensamente.

Sinto falta de coisas que nunca fiz como tocar violão, cantar afinado, dançar, nadar, mas sinto estas coisas em mim, os desafios pulsantes. Meus cadernos, meus segredos tão meus, tanto tempo guardados e esquecidos em alguma gaveta hermética da memória. De tudo sinto falta.  

É isto aí!

sexta-feira, 14 de março de 2014

Hysterical Literature: Session Two: Alicia (Official)

AVISO: O vídeo, por ser impróprio para menores de 18 anos, só poderá ser acessado direto no Youtube. 

Hysterical Literature: Session Two: Alicia (Official)

Fonte Youtube: claytoncubitt
Alicia visits the studio and reads from "Leaves of Grass" by Walt Whitman. Directed by Clayton Cubitt. Subtitles available (CC) in French and Brazilian Portuguese.

Watch other videos in the series, read essays from the participants and writers, and answers to frequently asked questions: http://hystericalliterature.com

Hysterical Literature is a video art series by NYC-based photographer and filmmaker Clayton Cubitt. It explores feminism, mind/body dualism, distraction portraiture, and the contrast between culture and sexuality. (It's also just really fun to watch.)


Hysterical Literature: Session One: Stoya (Official)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Ricardo Arjona ft Gaby Moreno Fuiste tu (en vivo).avi

)

Não confie em tudo que se vê na mídia!


É eu, tu, nós e vós na fita!


A memória é curta


Algo acontece e ninguém quer se perguntar por que acontece. Por aqui, na Pátria Amada, a nobre elite branca, descendente direta dos cafusos e mamelucos, todos brancos e poliglotas, diga-se de passagem, querem um golpe militar. Há um gozo lacaniano para a entrada da dita dura em suas vidas. Não basta mais se entupirem com as drogas legais e ilegais. Querem sentir o bastião e o bastão em seus lombos macios e delicados, eles, a fina flor da alta sociedade civil.

Para a simpática elite branca, o desejo é que os filhos naturais, os adotivos, os mulatinhos, os comunistasinhos depravados e toda a choldra espúria e apátrida se explodam, que os pobres morram, que as putas retornem aos bordéis, que os pretos saiam das universidades (onde já se viu isto, formar pretos para tratar das pessoas?). Só assim, a grande nação eslava ao sul do equador poderá respirar dignidade, liberdade e democracia, dando e recebendo a dita dura entre si.

Enfim, os donos da Pátria querem e desejam uma dita dura branca, grande, tensa e eterna, para mostrar à esta gentinha que ser branco é ser e ter poder, afinal Deus é branco, Jesus é branco, os anjos são brancos, a pureza é branca, a virgindade é deleite das brancas (só a mãe brancas casam-se virgens e puras, as pretas são leiteiras) e quem achar o contrário que seja esquartejado no Paço.

Enquanto isto, na Europa, neo-nazistas que já assanhavam na Grécia, golpeiam o ar da Ucrânia. Ora, direis, ouvir estrelas, um golpe tem custos, requer financiamentos, garantias e segurança - um golpe é um negócio como qualquer outro - quem investe quer o retorno com lucro. Ninguém toma o poder público em nome do amor à pessoa amada - Robin Hood foi lenda, não se esqueça disto.

Já na Malásia, desde o dia sete/março, um Boeing com 239 pessoas está desaparecido. E não é um boeing qualquer, é um Boeing 777-200LR, que custa algo em torno de 600 milhões de reais, com comprimento em torno de 68 metros, envergadura de 63 metros, 18.5 metros de altura, e que na hora do desaparecimento estava a 13.000 metros de altura, a quase 900 Km/h.

Até enquanto escrevo, já se passaram seis dias e nada ainda se sabe, ou quem sabe, nada fala. Só para ajudar na memória, um avião idêntico sofreu um acidente, supostamente enquanto pousava no Aeroporto de San Francisco, nos Estados Unidos, em Julho de 2013. A aeronave era operada pela empresa Asiana Airlines e vinha da Coreia do Sul para os Estados Unidos.

Naquela ocasião, o avião levava 307 pessoas no total, sendo 291 passageiros e 16 tripulantes, e foi o segundo Boeing 777 a sofrer um acidente grave em cinco anos. Em janeiro de 2008, uma aeronave do mesmo tipo operada pela empresa British Airways teve um acidente no Aeroporto de Heathrow, em Londres, após um voo vindo de Pequim, na China.

Nenhum dos dois acidentes jamais foi explicado. Assim como a simpática elite branca não consegue explicar por que deseja a dita dura penetrando em seus lares. Não se lembram, não sabem, não querem saber.

Na foto abaixo, o estado no qual ficou o Boeing de San Francisco. Pense!



quarta-feira, 12 de março de 2014

Chapadão de Tom Jobim



Assisti a um documentário sobre o Tom Jobim na Tv, ontem, em um destes canais que ninguém acessa, e cujo nome nunca sei. Começa assim:

Vou Fazer a minha casa
No alto do chapadão
Vou levar o meu piano
Que ficou no Canecão.

Vou fazer a minha casa
No alto do Chapadão
Vou levar a don´aninha
Pra me dar inspiração

Vou fazer a minha casa
No alto de uma quimera
Vou criar um mundo novo
Inventar nova megera...

Esse poema é fio condutor deste documentário "A Casa do Tom - Mundo,Monde, Mondo", idealizado por sua esposa Ana Jobim. O filme mostra o lado humano e pessoal de Tom Jobim. O mesmo conta o envolvimento do cantor e compositor com a música, família e a natureza. Daí foi feito um DVD, já à venda, com um livro com histórias e músicas de Tom, além de fotos.

Durante o filme, o poema Chapadão intercala falas, fotos, filmes caseiros, filmes profissionais e uma entrevista com Tom Jobim. Tem, claro, as músicas, algumas delas com participações especiais como Dorival Caymmi, Chico Buarque, Paulo Jobim, entre outros e poemas, dois na realidade, um é o citado acima.

Uma coisa que chamou a minha atenção foi que Tom Jobim está triste. Em uma cena editada fala da impossibilidade de ser feliz neste mundo.

Cita Villa Lobos, de uma forma interessante,  e afirma o que na corte sempre se soube, que Villa Lobos era um pobretão moleque, que dizia um monte de coisas que para nós outros eram engraçadas. De Villa Lobos falarei outro dia.

Lógico que fala da Bossa Nova, que denomina como o grande esforço da música nacional. Segundo Tom, eles foram mandados ao USA pelo Itamaraty. Nunca havia saído do Brasil, e foi contra a vontade. "NY não tinha nada a não ser batata para comer; ninguém comia arroz".

Fala dos urubus, da ciência dos urubus, e em determinado momento tira do bolso um amarrotado papel, onde havia a muito escrito um pequeno poema para a ave. Não posso deixar de comentar que seu disco CD "Urubu" é uma das obras primas da natureza humana.

Segundo Tom, certamente Deus tem muitas planetas, com muitos brasis, e a destruição do mundo comprovará a nossa enorme incompetência.

Entre prosas e músicas, confessa sua admiração pela obra de Guimarães Rosa e Carlos Drummond de Andrade.

E dentre tantas palavras ditas, libera um aforismo que merece ser guardado:

"Intelectual não vai à praia, intelectual bebe."

Encerro esta postagem com outra frase dita por Tom, do poeta Drummond, que é para encerrar com classe:

"Os senhores me desculpem,mas devido ao adiantar das horas, sou anterior às fronteiras"

Abaixo, para registro, publico o Poema Chapadão na íntegra, que levou oito anos para ser concluído.

Chapadão - Tom Jobim

Vou fazer a minha casa
No alto do chapadão
Vou levar o meu piano
Que ficou no Canecão

Vou fazer a minha casa
No alto do Chapadão
Vou levar don'Aninha
Prá me dar inspiração

Vou fazer a minha casa
No alto de uma quimera
Vou criar um mundo novo
Inventar nova megera

Vou fazer a minha casa
Com largura e comprimento
E peço ao Paulo uma sala
Pra botar Aninha dentro

Vou botar minha biruta
No taquaruçu de espinho
Vou fazer cama macia
Pra te amar devagarinho

Seremos dois belezudos
Neste mundo de feiosos
As noites serão tranquilas
E os dias tão radiosos

Quero minha casa feita
Com régua prumo e esmero
Quero tudo bem traçado
Quero tudo como eu quero

Quero tudo bem medido
De largura em comprimento
Não quero que minha casa
Me traga aborrecimento

Vou fazer a minha casa
Do alto de uma canção
E agradecer a Deus Pai
A sobrante inspiração

Sob a axila do Christo
Neste sovaco christão
Vou fazer a minha casa
No alto do Chapadão

E vou dar festa bonita
Com bebida e com garçon
E ao Lufa que foi amigo
Dou champagne com bombom

Vou fazer a minha casa
No centro do ribeirão
Quero muita água limpa
Pra lavar meu coração

Minha casa não terá
Nem sábado nem domingo
Todo dia é dia santo
Todo dia é dia lindo

Todo dia é sexta-feira
Sexta-feira da paixão
Vou convidar o Alberico
Para o peixe com pirão

E dentro da minha casa
Nunca vai juntar poeira
Pelo meio dela passa
Uma enorme cachoeira

Quero água com fartura
Quero todo o riachão
Quero que no meu banheiro
Passe inteiro o ribeirão

Quero a casa em lugar alto
Ventilado e soalheiro
Quero da minha varanda
Contemplar o mundo inteiro

Vou fazer o meu retiro
Na grota do chororão
A minha casa será
Uma casa de oração

Vou me esquecer do pecado
Entrar em meditação
E não saio mais de casa
Só saio de rabecão

Vou entrar pra Academia
Vou comer muito feijão
E acordar à meia-noite
Pra vestir o meu fardão

Mas na minha Academia
Sem chazinho e sem garçom
Só entra Mário Quintana
Só entra Carlos Drummond

Que já chega de besteira
Já basta de decoreba
Que a cultura verdadeira
Tá na asa do jereba

Porque tem urubu-rei
E tem urubu-ministro
Dois de cabeça amarela
E um preto que registro

Registro neste debuxo
Os dois condores também
Embora urubus de luxo
Têm direito no além

Sob a axila christã
Neste sovaco christão
Vou fazer de telha-vã
A casa do Chapadão

Vou dormir meu sono velho
Neste sovaco do Christo
Vou comprar muito sossego
Vou regar o meu hibisco

Vou viver na minha casa
Vou viver com a minha gente
Vou viver vida comprida
Prá não morrer de repente

Vou contemplar grandes pedras
Vazio de compreensão
Vou esquecer o meu nome
No alto do Chapadão

Vou plantar um roseiral
Vou cheirar manjericão
Vou ser de novo menino
Vou comprar o meu caixão

E vou dormir dentro dele
Bem relax tranqüilão
Dormir de banho tomado
Já pronto para a extrema-unção

Vou fazer a minha casa
No alto do cemitério
Vou vestir a beca negra
E exercer o magistério

Vou vestir a roupa lenta
Que leva ao desconhecido
E eis que chego aos sessenta
Como um homem sem partido

Nesta passagem de vento
Nesta eterna viração
Vou fazer a minha casa
Com as pedras do ribeirão

Vou fazer a minha toca
No bico d'urubutinga
No pico da marambaia
Lá na ponta da restinga

Será no rastro das antas
Na trilha da sapateira
Que é pra onça do telhado
Cair dentro da fogueira

Que eu gosto de onça assada
Mas na brasa da lareira
Conversando ao pé do fogo
A conversa rotineira

Das queixadas dos macucos
Conversa pra noite inteira
Da memória das caçadas
Na floresta brasileira

Deste planalto central
Este projeto christão
A ninguém faltará teto
A ninguém faltará pão

Desta prancheta ideal
Na luminosa manhã
Dr. Lúcio faz o risco
Do projeto telha-vã

Nesta oficina serena
Carpintaria christã
Dr. Lúcio mais Oscar
No projeto telha-vã

Neste canteiro de obras
Onde manda mestre Adão
Os milhares de operários
Colocar as telhas vão

Neste desvão principal
Nesta branca e azul manhã
Vou erguer a minha casa
De vermelha telha-vã

Vou fazer a minha casa
No meio da confusão
Que o jereba se alevanta
No olho do furacão

Vou fazer a minha casa
Na asa d'urubu peba
Que casa só é segura
Feita em asa de jereba

Vai ser na vertente seca
Na virada da chapada
Onde o peba se suspende
Na fumaça da queimada

Não quero mais ter galinha
Vendo toda a capoeira
Vou mandar cortar o mato
E vender toda a madeira

Mas quem pôs fogo no mato ?
E espontânea a combustão ?
Esse fogo vem de longe
Esse fogo é de balão

Inda que mal lhe pergunte
Esse fósforo aí grandão
O compadre me desculpe
E só de acender balão ?

Vou botar fogo no mato
Comandar rebelião
Incendiar a floresta
Tacar fogo no sertão

E o urubu de queimada
Vai surgir na ocasião
Pra comer todas as cobras
Sapos ratos pois então !

Caracóis e lagartixas
e todos bichos do chão
Urubu santo lixeiro
Tu és da Comlurb então ?

Trabalhando o ano inteiro
Tem décimo terceiro não ?

Camiranga meu amigo
Obrigado meu irmão
Que limpa toda sujeira
Desse povo porcalhão

Q'inda por cima te xinga
De feioso e azarão
«Doação ilimitada
A uma eterna ingratidão»

E vou viver no deserto
Quero o ar puro do sertão
Não quero ninguém por perto
E nem que passe avião

Não pode ter venda perto
Nem estrada de caminhão
Não quero plantas nem bichos
Nem quero mulher mais não

Quero vestir meu pijama
Smith e Wesson na mão
Quero ler na minha cama
Papo-amarelo no chão

As histórias do corisco
Vividas nesse sertão
Que Sérgio Ricardo e Glauber
Cantavam ao violão

«Eu não sou passarinho
Prá viver lá na prisão
Não me entrego ao tenente
Nem me entrego ao capitão
Eu só me entrego na morte
De parabelum na mão»

Minha casa é por aí
E no mundo monde mondo
Que eu só durmo no sereno
Quem faz casa é marimbondo

Vou cerzir a minha asa
Na casa do Sylvio então
Pra voar que nem jereba
Bem longe do Chapadão

Vou vender o meu pandeiro
Vou levar meu violão
Favor mandar meu piano
De volta pro Canecão

Vou-me embora vou-me embora
Aqui não fico mais não
Adeus minha bela morena
Vou pegar meu avião

Adeus minha roxa morena
Minha índia tupiniquim
O meu amor por você
É eterno até o fim

Não quero partir chorando
Já tá tudo tão ruim
Não chore meu bem não chore
Não me deixes triste assim
Adeus minha moreninha
Não vá se esquecer de mim

Mas não vou ficar solteiro
Você pára de chorar
Que com a sobra do dinheiro
Mando logo te buscar

Avião papa jereba
Passa mal e cai no chão
Avião foge do peba
Peba derruba avião

Por favor seu urubu
Me deixe passar então
Não entre em minha turbina
Não derrube o avião

Eu já tô tão tristezinho
E tantos outros já estão
Não derrame meu uisquinho
Não abata o meu jatão

Vou-me embora desta terra
Meu desgosto não escondo
O afeto aqui se encerra
Quem faz casa é marimbondo

Vou-me embora vou-me embora
Você não me leve a mal
Se Deus quiser fevereiro
Venho ver o carnaval

E não quero mais ter casa
Precisa de casa não
Quem tem casa é marimbondo
Minha casa é o avião

Telefonei pro aeroporto
Não tinha avião mais não
Vou fazer minha viagem
Na asa do peba então

(Acho asa de jereba mais segura que avião)


O amor na poesia

Terceiro Amor

Francis Hime

O primeiro amor já passou
O segundo amor já passou
Como passam os afluentes
Como passam as correntes

Que desencontram do mar
Como qualquer atitude
Também passa a juventude
Que nem findou de chegar.

Como passam as gaivotas
Como passam as derrotas
Ilusões de pedra e cal
Como passam os perigos
E tantos muitos amigos
Sem deixar nenhum sinal.

Como passam os conselhos
Como passam os espelhos
Fantasias carnavais
Inocências perdidas
Como passam avenidas
Corredores, temporais
A correnteza dos rios
Como passam os navios
E a gente acena do cais.
Consolo na Praia

Carlos Drummond de Andrade

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento…
Dorme, meu filho.

quarta-feira, 5 de março de 2014

Alguma coisa está fora da órbita

Li ontem, na rede social, uma piada que relata o diálogo entre um filho adolescente e sua mãe. Ele pede dinheiro através de um bilhete e lembra de um macabro episódio onde a filha e o namorado assassinaram os pais dela, em um dos muitos episódios tristes da crônica policial, que ficou famoso pelas peculiaridades e pelo status social dos envolvidos. A mãe, por sua vez, responde com um bilhete onde recorda um triste assassinato de uma criança, pelo pai e madrasta, também em São Paulo, para negar-lhe o dinheiro solicitado.

Num primeiro momento, ao ler a "piada", tive ânsia de vômito. Senti aquela estranha sensação de que ser humano é de uma complexidade dolorida, que dependendo da óptica, será também inexorável. Como pode uma pessoa brincar com o sofrimento e a tragédia dos outros? Com qual direito se julga capaz de fazer do sofrimento de familiares e amigos das vítimas um caso para risos?

O lamentável disto tudo é que pessoas outras curtiram, postaram estímulo à piada macabra, e acharam que aquilo era o máximo. Claro que teve pessoas que bateram no aspecto ético, religioso, sensato, mas foram vilipendiados. É esta a juventude que chegará ao poder?

Poderia ser pior? Sim, alguém conseguiu que fosse pior, ao lançar, por coincidência, um "game online" onde você pode ser um dos personagens do trágico evento parricida da jovem contra seus pais, em outubro de 2002, em São Paulo.

Segundo o autor, o game  tenta mostrar e entender a motivação por trás do crime, tendo entre suas pérolas, 
uma das cenas mais chocantes, onde você joga como uma das vítimas e tem que se defender de um dos assassinos.

O jogo, classificado como "adventure game" pode ser terminado em poucas horas (é recomendado jogar tudo de uma vez só, inclusive) e tenta expor e entender as motivações de todos os envolvidos na história. Há diálogos e minigames ao longo do caminho que leva até a prisão dos culpados.

É isto aí!

terça-feira, 4 de março de 2014

Nelson sabia das coisas


A vida como ela é, bonitinha, mas ordinária.

Na República Tupynambá vizinha do Reino da Pitangueira, há uma mulher bonitinha, mas ordinária, na faixa dos quarenta anos, que não conheço, que se apresenta diariamente, diante das câmeras de um tele-jornal soltando um ódio visceral contra os pobres, os pretos e as putas. Bate impiedosamente. Seu olhar tem a marca da maldade, seu sorriso é draconiano e sua voz é luciferina.

Não bastasse expelir toda a sua fúria, merecedora de uma análise psicanalítica mais afinada, passou agora a querer ser objeto de desejo total, convocando o povo para segui-la em uma marcha triunfal pelas cinzas ruas de São Paulo.

Sempre que a vejo, recordo do Nelson Rodrigues - aquela mulher pudica, com roupas comportadas e pregação sobre a moralidade e com um civismo exacerbado que excita a massa, pois "o pudor é a mais afrodisíaca das virtudes".

"Toda mulher bonita leva em si, como uma lesão da alma, o ressentimento. É ressentida contra si mesma", e deve ser esta a razão dela ter tanta mágoa,

E ela fala com tanta veemência, que Nelson deve te-la conhecido em uma visão futurística: "Desconfio muito dos veementes. Via de regra, o sujeito que esbraveja está a um milímetro do erro e da obtusidade."

E a sua pose de honesta, determinada e convicta está explicada também por ele: "A prostituta só enlouquece excepcionalmente. A mulher honesta, sim, é que, devorada pelos próprios escrúpulos, está sempre no limite, na implacável fronteira."

Além disto, passa a mensagem de que ela é uma pessoa histérica, fria e histérica, como uma neurótica idealista e obsessiva - "Nem todas mulheres gostam de apanhar, só as normais, as neuróticas reagem."

É isto aí!



domingo, 2 de março de 2014

O Dossiê de Brentwood



O agente secreto Ronald, John Ronald, foi chamado às tres horas e quinze minutos de uma fria madrugada londrina a um sinistro endereço, já conhecido de outras reuniões com os contatos internacionais da Central de Inteligência Européia. Entrou pelo portão lateral após minuciosa revista, identificação e confirmação da presença, e foi levado à uma pequena sala sem janelas, fracamente iluminada e com uma vitoriana mesa com quatro cadeiras.

Entraram três senhores, sobretudo e luvas de lã negra, chapéu coco e óculos grossos, e sem nenhum comentário, entregaram-lhe um dossiê. Despediram e partiram. Acostumado a estes rituais, aguardou um telefonema. O celular tocou e uma voz grave cavernosa determinou que fosse para um Bentley Mulsanne cinza-chumbo, estacionado no pátio interno do casarão. Ao entrar no veículo, deparou com uma mulher de rara e estonteante beleza, séria, enigmática e vestida com conjunto vermelho, sendo a saia no formato de tulipa, valorizando todas as suas curvas, deixando sua graciosas coxas em aparente sedução.

Enquanto o motorista manobrava para sair, deu-se o diálogo, quebrando o silêncio da noite.

- Agente Ronald, prefere continuar olhando minhas coxas ou vamos começar a trabalhar?
- Desculpe, mas ainda não fomos apresentados.
- Sou a Major Heigl, Marie Heigl, da Royal M18.
- Royal M18? Santo Deus, isto é sério, então!
- Agente Ronald, por favor, não temos tempo. O Dossiê que está em suas mãos não contém cópia, não está salvo em nenhum computador e possui todas as informações pessoais, profissionais, econômicas e governamentais de altas personalidades do sistema bancário mundial. A princípio todos suicidaram, e sua missão será entregá-lo ao Agente Red Sun, que o encaminhará para a Agência Matrix obter informações que possam chegar a um senso comum:

01 - No dia 10 de Junho de 2013 o Sr. Daniel suicidou em Berna, na Suiça.
02 - No dia 23 de Dezembro de 2013 o Sr. Robert  suicidou em New York.
03 - No dia 23 de Julho de 2013, o Sr, Carsten suicidou por enforcamento, na Suiça.
04 - No dia 26 de Agosto de 2013 o Sr.Pierre enforca-se em casa, em Zurique, também na Suiça.
05 - No dia 19 de Janeiro de 2014 o Sr. Tim teve uma morte súbita por causa desconhecida, em Londres.
06 - No dia 26 de Janeiro de 2014, o Sr. William suicidou por enforcamento em Londres.
07 - No dia 27 de Janeiro de 2014, o Sr. Gabriel suicidou em um salto mortal de mais de 30 andares da sede da empresa onde trabalhava, em Londres.
08 - No dia 29 de Janeiro de 2014, o Sr. Mike suicidou em um penhasco no estado de Washington - USA.
09 - No dia 06 de Fevereiro de 2014, o Sr. Richard suicidou com um pistola de pregos, no Colorado-USA.
10 - No dia 12 de Fevereiro de 2014, O Sr. Morgan teve uma morte súbita por causa desconhecida, em New York-USA.
11 - No dia 18 de Fevereiro de 2014, O Sr. Li J. suicidou com um salto da pequena janela do 30º andar em Hong-Kong.

O carro parou, e deu uma última olhada nas coxas da Major antes de descer. Estava em frente a uma cabine telefônica. Atendeu ao terceiro toque - outra voz, com um forte sotaque escocês determinou que entrasse no táxi. Desligou e ao olhar para a rua, o automóvel já estacionava. Entrou e o silêncio permaneceu por cerca de meia hora até o final da corrida, tempo mais que suficiente para colocar um envelope dentro do forro da porta esquerda do passageiro. E seguiram para Notting Hill, no mercado de Portobello Road.

Uma moça de etnia oriental, de batom dourado e roupa de couro justa ao corpo, debaixo de um grosso casaco, abriu a porta. Enquanto saia, ela entrou rapidamente, promovendo um rápido encontro. Foi andando devagar, com o Dossiê dentro do sobretudo marrom, observando  aquelas filas de casas geminadas, algumas coloridas, que são a cara de Notting Hill. Pela primeira vez sentiu-se observado. Não gostou de saber da possibilidade.

Ao chegar no cruzamento com a Chepstow Villas, onde começa a feira de antiguidades, viu um homem em uma barraquinha cheia de bules e xícaras de chá fazer-lhe um sinal secreto imperceptível, que consistia em coçar a testa levemente com o dedo mínimo da mão esquerda. Não era um sinal qualquer, era um alerta de que algo deu errado. Seu contato não estava mais ali. Agora estava sozinho correndo contra o tempo.

Continuou a descer a rua, agora passando pelas barracas de alimentos, já lotadas pelo avanço da hora daquele sábado frio. Outra vez a sensação de ser observado e desta vez seguido. Já quase debaixo do viaduto Westway, uma moça que escolhia peças em uma estranha barraca, entre bugigangas em geral perguntou-lhe as horas. Agora sabia que a situação era de risco iminente de morte. Questão de horas. Andou devagar e mais poucos passos chegou ao final da feira.

Chegar até o final do mercado foi tenso. Caminhou lentamente para pegar o metrô na estação Ladbroke Grove, sem olhar para trás e nem para os lados. Ao entrar no metrô sentiu uma fisgada abaixo da costela esquerda, e acordou em um ambiente estranho, sujo, em algum lugar desconhecido. Usava uma roupa surrada de mendigo, com botas sem meias. A cabeça doía e latejava, o corpo estava como hematomas em várias partes. Além disto estava visivelmente com as roupas urinadas.

Percebeu que sangrava na boca, e tinha dois ou três marcas de arranhado nos braços. Tentou se levantar e caiu novamente. Desacordou. Acordou com frio e fraqueza. Havia um beagle lambendo seu rosto. Trêmulo, olhou para os sapatos de um homem, que o manteve deitado, com a sola por sobre sua cabeça. Outra pessoa colocou ao seu lado pão, café, leite, água e dois jornais londrinos. Saíram. Desacordou até a tarde. Percebeu que não tivera um sonho, os alimentos e os jornais estavam lá.

Comeu devagar, e aos poucos foi sentindo-se melhor. Levantou segurando em uma cadeira, e deu-se conta que estava em um apartamento abandonado. Chegou à janela e identificou a região com sendo Brixton, ao sul de Londres.

Tomou banho, sentou-se, comeu o resto do pão, bebeu o último gole do café, e só aí lembrou dos jornais. Pegou o primeiro e viu sua foto estampada  em meia página. Assustou-se. Em letras garrafais o enunciado:
"Serviço Secreto identifica e elimina o homem suspeito de matar 11 pessoas do sistema bancário internacional."

Pegou o outro jornal, a mesma foto e o mesmo enunciado. O texto dizia que fora surpreendido ao tentar assassinar mais uma vítima, do alto escalão do maior banco britânico. E conta detalhes da sua vida, etc. e tal.  

Tinha que sair dali, mas para onde? Lembrou de uma ex-namorada caribenha que morava em um porão da Benedict, uns dois ou três quarteirões adiante. Como chegar lá? Com certeza estava sendo monitorado. Procurou e achou micro-localizadores na roupa que usava. Por que não o mataram? Por que foi poupado? Muitas perguntas, mas o tempo e a fome apertavam.

Ao sair, dois agentes da Policia Metropolitana o detiveram por assalto a mão armada na padaria da esquina. Levado sem esboçar reação, foi identificado como o homem que realizou o delito a cerca de uma hora. Levado à  delegacia, ficou detido até a manhã seguinte, quando um advogado o liberou com ordem judicial.

Entraram em um discreto minicab, que seguiu até Brentwood, deixando-os em uma estrada vicinal cerca de três quilômetros antes da cidade. Ali andaram mais uns vinte minutos, e o advogado o conduziu para um automóvel estacionado no canto da estrada. Seguiram por mais uma hora até chegarem em uma típica casa de campo britânica.

Ronald desceu e o misterioso personagem partiu para o caminho de onde vieram. Caminhou com certa dificuldade, com dores e frio, até entrar na casa. Com a fraqueza, sua  capacidade de percepção comprometida e cansado, seguiu para o segundo andar, onde encontrou um belo quarto arrumado, roupas limpas sobre a cama e um banheiro com água quente.

Desceu, acendeu as luzes e dirigiu-se à cozinha, quando a sensação de ter alguém vigiando-o alarmou seu instinto de defesa. Mas a fome era maior. Havia uma farta mesa, com carnes, massas e vinho. Sentou-se e quando começou a comer, levantou os olhos e deparou com a Major Heigl, sentada confortavelmente na poltrona, em um delirante vestido verde.

- Parabéns, sr. Ronald! Tudo está onde deveria. Adeus!
- Adeus, Major Heigl! Mas, espere...
- Sim?
- Fica para o jantar...
- Achei que nunca iria convidar, Agente Ronald.
- Ronald, só Ronald.

É isto aí!