segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

As chaves do escritório

Dia destes ao sair para o escritório, por estas coisas inexplicáveis, não sabia onde estavam as chaves. Conferi pausadamente no chaveiro do carro. Achei que estavam lá. Dirigi-me ao serviço e lá chegando, descubro que nenhuma das quatro chaves disponíveis abriam a porta.

Voltei para casa, testei em cada fechadura e nada. Também não eram dali. Como vieram parar aqui? - pensei. Que portas permaneceram fechadas ou abertas com as chaves presas aqui, adormecidas, trafegando comigo diariamente?

Procurei nas gavetas, sem maiores alardes. Achei um molho de chaves. São estas. Estavam num chaveiro reconhecidamente meu. Quando as coloquei ali? Não me recordava deste detalhe. Enquanto circulava com os dedos e varria com os olhos a gaveta que raramente abria, vi outro chaveiro com outras tantas chaves. Crise e pânico. E agora? O que será isto?

Voltei ao escritório com aqueles dois molhos de chaves. Umas treze ou catorze no total. Nenhuma delas abriu a porta do meu escritório. Dei um passo atrás - e se não for este o meu escritório? Olhei o número, meu nome na porta, sim, com certeza - é aqui. Pensei em chamar o chaveiro, mas resolvi voltar depois. 

Tornei a abrir a gaveta mágica, que guarda um monte de coisas minhas que jamais lembraria que existiam. Achei, escondidas num canto, umas chaves perdidas das outras, mas atreladas por um aro pequeno. Levei-as ao escritório. Eis que abriram a porta da entrada e da sala interna. Estava salvo - aquelas chaves anônimas eram meu passaporte.

Mas sobraram umas vinte chaves as quais não tenho a menor ideia do que já abriram ou ainda abrem. Guardei os chaveiros com a seguinte identificação - portas desconhecidas de um passado remoto. E você? Tem chaves assim na sua vida?

É isto aí!  

domingo, 7 de dezembro de 2014

Terapia de Casal no Divã da Pitangueira

Resultado de imagem para casal psicanalítica
Bem, espero que estejam tranquilos, esta é uma terapia de casal, onde vamos procurar entender o que está se passando entre vocês.

Bem, doutor, ele não fala nada mais comigo já tem uns trinta dias, além disto, deu de me insultar. Qualquer coisa, grita - sua gorda. Eu não posso dar um suspiro, que lá vem - para com isto, sua gorda, isto é coisa de gorda. Quando eu fico suada um pouco na roupa - nossa, como uma gorda pode suar tanto. Qualquer coisa que faço, ele vem aos berros, vociferando - sua gorda.

E sempre foi assim?

Não, no princípio ele me achava linda, mandava flores, me chamava de meu amor, me beijava um beijo molhado, ardente, mordido e escandaloso, me abraçava demoradamente. Eu era sua flor.

E como as coisas foram caminhando?

Não caminhavam, nós flutuávamos. Eramos dois amantes despudorados, sem limite. Eu era dele e ele era meu.

Entendo.

Não, não entende. Nunca vi, ouvi, li, soube ou assisti uma relação assim. Mas não o culpo por não entender, não há como saber a dose da volúpia que nos envolvia. Não sei explicar.

Para você era uma relação normal?

Não, nada de normal, ele me sodomizava, me prendia, me batia, puxava um ou outro fio dos meus cabelos, lentamente, de qualquer região do corpo. Nossa, eu era uma pedra bruta a ser lapidada - ele dizia, daí vinha com todos os objetos para criar arestas passionais, como se referia aos seus caprichos.

Mas, e você?

O que tem eu?

Era obrigada? Era ameaçada?

Nada disto- eu que implorava. Eu suplicava. Eu gemia, miava, latia, babava, até ele me ter como sua. Aí ele ficava excitado e partia para a sua missão, feito um Indiana Jones a buscar tesouros no meu corpo, que dessem prazer carnal, espiritual, cósmico, universal e infinito.

Mas, como chegou neste ponto atual?

Um dia ele chegou de uma viagem de serviço, sentou na sua exclusiva poltrona, ligou a TV, como sempre fazia, tirou os sapatos, e gritou o mesmo ritual - Linda!!! Traz meu whisky.
- Silêncio
- Não vou falar de novo, traz a porra do meu whisky
- Silêncio

Levantou irado, pegou um sapato na mão e partiu pela casa me procurando. Entrou no quarto e deparou comigo e uma amiga, nuas, sem fazer nada, apenas estávamos nuas, assistindo um filme de Godard, sabe, o Jean-Luc Godard, que ela trouxe para vermos juntas.

Hummm

Então, ele quis, desejou, sei lá, fez uma leitura rápida de que estávamos ali para ele, eu acho. Só que não. Era um momento neutro. Aí desde este dia ele ficou me agredindo assim.

Ele perguntou qual era o filme?

Engraçado, agora que você falou, estou recordando que foi a sua primeira pergunta.

E posso saber qual era?

Sim, claro, era O desprezo.

O senhor, que ainda não disse nada, mas terá a sua oportunidade, pode aguardar lá fora somente um instante? Assim que terminarmos aqui o chamarei.

Para que isto? Quer ficar com ela, fala logo.

Senhor, não é nada disto, a ética predomina sobre a conduta. Só espero que aguarde, por favor.

Eu vou sair, mas fique sabendo que poderei abrir a porta a qualquer instante, por isto não a tranque, doutor.

Bem, vamos falar sobre isto agora, só nós dois - Olha só, pode ficar tranquila, isto tudo não passou de um grande mal entendido. Ele chegou de uma viagem, uma odisseia, e diante da duas cenas, vocês nuas e Brigitte em frenesi, sofreu um surto de transferência instantânea entre o real e o virtual.

Sério? 

Sim, pode ficar tranquila. Nós, analistas da Escola da Pitangueira denominamos isto de Paralelismo Momentâneo devido a uma interligação radial entre o Fator Gerador e o Receptor. Assim que ele sair deste transe sua vida volta ao normal.

Nossa, fiquei até mais tranquila agora... Mas e como ele sairá do transe?

Bem, a chave d acura está com você e a sua amiga. Você precisará de uma chave de transferência automática. Obrigado pela atenção. Bem, agora preste atenção - chame a sua amiga, retornem à cena, mas mude o filme para um do Bergman.

Não entendi. Por que Ingmar Bergman?

Sugiro "Persona". Assim que ele voltar de outra odisseia, ao encontrar as duas nuas na cama, assistindo a este filme, terá um choque de conflito entre o que se passa e o que se vê, tudo na velocidade da luz. O antes e o depois no mesmo processo de alucinação. Esta será a chave de transferência automática. Vá! Seu casamento está salvo!

É isto aí!










quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

É da casa da Valéria?



Alô? É da casa da Valéria?

Não, você ligou errado.

Desculpe, eu devo ter me confundido.

Tudo bem, não se preocupe, isto acontece.

Alô, por favor, a Valéria...

Olha só, não é daqui, você tem certeza que ela se chama Valéria? Desculpe eu te perguntar, mas você já ligou umas dez vezes neste número.

Sim, claro que tenho. Espere, puxa vida, eu não sei o que está acontecendo, pois  já liguei neste número e sempre falei com a Valéria. Olha, desculpa mesmo. Não sei o que ocorreu.

Tudo bem, estas coisas acontecem. Pode ser que exista uma conexão. Como é esta Valéria?

Bem, ela é bonita, morena, 1,60 de altura, pesa uns 60 Kg, tem por volta de 37 anos, é advogada, divorciada, tem uma filhinha de três anos, mas, desculpe mais uma vez, eu não deveria estar falando estas coisas todas. Não entendo como liguei várias vezes para este número para falar com a Valéria. Eu peço mil desculpas pelo incômodo.

Flávio Renato, você é um idiota!

Espera aí, como sabe meu nome? 

Deve ser por que sou a sua mãe, em triste memória de gestação perdida para gerar um filho tão imbecil. 

Mamãe?!?! Puxa vida... mamãe, desculpa, eu não sabia, eu não deveria, eu não sei explicar esta confusão.

Não sabe uma merda. Esta Valéria deve ser mais uma destas rameiras que você paga para fingir que é homem. Em vez de casar com a Adalgiza, de quem sempre fiz gosto, vai procurar uma prostitutazinha da ralé, com filha sem pai, e ainda liga para mim achando que eu sou ela. Você é um imbecil, Flávio Renato, um idiota, um retardado, um banana, um débil mental, um fracassado...

Desculpa, mamãe, mas vou desligar, por que preciso urgentemente ligar para o meu analista.
No dia seguinte - Alô, eu queria falar com a Valéria...

Flavinho, que surpresa agradável...

Flavinho? Quem é você?

Sou eu, a Adalgiza, bem que a sua mãe falou que você queria conversar comigo, e que iria brincar de me chamar de Valéria. Alô, alô? Flavinho? Alô...

Alô, quem está falando?

É a Valéria, amor.

Você está na casa da minha mãe?

Não, amor.

Por acaso minha mãe te contratou para que você me desse um telefone onde ela também atende, e que era também  o seu, para que ela me deixasse constrangido e humilhado, além de armar para a Adalgiza falar comigo?

Eu, amor? Mas de onde você tira estas coisas?

É por que isto mexeu comigo, olha só, Valéria, precisamos conversar.

Não precisa, amor, já entendi, esta Adalgiza é a sua via preferencial. Tudo bem, eu já desconfiava que tinha outra, e não estou com raiva.

Enquanto isto - Alô! Adalgiza?

Valéria? Tudo bom, amiga?

Tudo bom, querida. Deu tudo certo, pode bater que a bola está na marca do penalty, vai que é seu.

Obrigada, amiga; minha sogra vai passar aí para acertar as despesas.

Valeu, querida, foi um prazer fazer negócio com vocês.

É isto aí!

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Eu amo / eu odeio

A conheci numa festa em casa de amigos em comum. Lembro que estava muito desarrumado, desalinhado, despenteado, enfim, no meu normal e quando dei por conta, trocamos um longo e enebriante olhar. Dali em diante tudo foi se encaixando.

Ela era linda. Na verdade era a garota mais bonita que já vi em toda a minha vida. Tinha um ar natural de elegância e postura de princesa, um corpo divino, uma voz melodiosa, além disto era muito rica, culta, fina e educadíssima. 

Por alguma boa razão celestial achei que minhas preces foram ouvidas, por que ela cedeu aos meus parcos encantos com tanta facilidade e candura, que desde então passamos a vivenciar uma ardente história de amor.

Três meses haviam passado com demorados encontros diários e juras eternas de amor, até que um dia ela desejou fazer uma brincadeira de "eu odeio/eu amo".

Ela - Amor, vamos brincar de "eu odeio/eu amo?

Eu - Como é isto?

Ela - Muito simples, abro um livro e pego uma palavra, aí dizemos odeio ou amo.

Eu - Muito inocente, aceitei. Bem, amor, começa então.

Ela - Humm.. gatos

Eu - Odeio gatos.

Ela - Detesto gatos.

Beijos, beijos, amassos, amassos...

Ela - Sol

Eu - Adoro o sol.

Ela - Eu amo o Sol.

Beijos, beijos, amassos, amassos...

Ela - Puxa, fomos feitos um para o outro. A palavra é casa.

Eu - Gosto mais de apartamento.

Ela - Também gosto mais de apartamento...

Beijos, beijos, amassos, amassos...

Ela - Mar e Montanhas

Eu - Pode falar duas coisas ao mesmo tempo?

Ela - Claro, não vejo por que não.

Eu - Adoro o mar e detesto montanhas.

Ela - Achei que você gostasse de montanhas...

Só uns beijinhos...

Ela - Crianças

Eu - Humm, pula esta...

Ela - Adoro crianças.

Sem muito clima

Ela - Noiva

Eu - É... pula esta também...

Ela olhou para um lado, olhou para o outro e por uma estranha razão que nunca descobri, saiu correndo da minha vida. Nunca mais vi. Por curiosidade, peguei o livro que estava folheando. Para minha surpresa, era apenas um caderno em branco...

É isto aí!


terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Lua Nova

A Noite estrelada - Van Gogh
A pilha do rádio acabou, e deu que esqueci de comprar outras e o do carro estava estragado há muitos meses, e éramos só nós dois em casa. Como ela dormia cedo, bastava esperar a hora para assistir a final do campeonato de futebol. 

Mas deu que naquele dia a patroa ficou rodeando, querendo uma sessão nostálgica de amor total e eu não estava muito animado em corresponder, até mesmo por que a Candinha do Adamastor já tinha partilhado das minhas vontades na tarde, quando dei uma volta rápida na rua para comprar uns troços aí, menos o raio das pilhas.

Aí, muito da pirracenta, ela provocou uma severa discussão pela escolha do canal. Eu queria o futebol, ela queria um destes filmes lacrimogêneos. Na impossibilidade de partir para um ataque frontal utilizando dos argumentos físicos, dado à incerteza do que poderia acontecer enquanto dormia, saí pela área externa em busca de ar e tranquilidade.

A noite estava linda - lua nova, outono, brisa fria, e bilhões de estrelas explodindo no céu. Deitei na rede instalada  confortavelmente de frente para a colina, enchi a cuia de cachaça da boa, acendi um cigarro de palha, que eu mesmo curti, piquei o fumo do rolo de reserva especial da venda do Tinoco, acendi num isqueiro Binga Vospic, herança do meu pai e fiquei ali, olhando a grandeza do mundo e pensando em quanto já estava o jogo, no corpinho da Candinha, nas seis vacas mojadas, nas outras seis que já tinham parido, e contemplava o silêncio, refletindo estas coisas que realmente valem a pena um homem pensar.

Ainda não havia tomado a cuia toda, e no movimento das sombras suspeitei de um vulto ao longe que com o tempo foi chegando pelo lado do curral, e o caso é que à medida que aproximava, percebi que era uma mocinha, de vestidinho de algodão branquinho, solto e curto, e de longe parecia que flutuava. Ela foi se aproximando bem devagar, feito uma onça no bote. Armei meu canivete e passei a acompanhar só com os olhos, pois sou caçador experiente, e foi então que reparei naquela formosura graciosa chegando bem de mansinho.

Mas aí deu que a danada chegou tão pertinho que ficou assim com as coxinhas grossinhas na altura da rede, meio espairecida, meio desconfiada e do nada foi aconchegando aquelas perninhas de flor de seda acolchoada de encontro aos calos da palma da minha mão.

Corri os olhos prá dentro de casa, tudo já apagado, então fui apalpando aquela formosurinha toda, ela foi se retorcendo feito gata no cio e aninhou na rede. Olha, vou dizer uma coisa, aquilo foi do outro mundo. Acordei com o dia claro, sol de nove horas no meio da mata, meio que confuso. Custei a levantar, e sem outro jeito fui andando para a casa, atirada uma meia hora dali. Achei esquisito, mas vai que a patroa resolveu vingar, não é mesmo? Pelo menos não cortou nada em mim. 

Cheguei em casa, tudo fechado e um bilhete na mesa dizendo que tinha ido na casa da mãe, aproveitando uma carona da irmã que passou cedinho e que voltava na semana seguinte. Deve ter pensado que estava no roçado.Tomei um banho, almocei e dei uma cochilada, pois estava bem cansado. De noitinha não é que a moça retornou, do mesmo jeitinho?

Desta vez acordei de madrugada no mesmo lugar. Que menina mais danada esta, pensei. Aí foi que resolvi fazer um negócio diferente. Passei a deixar no lugar uma bicicletinha velha que eu tinha guardado de muitos anos, que a patroa não ia dar falta, e um despertador. Olha, nunca mais perdi a hora de voltar prá casa nas noites de lua nova...

É isto aí!


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

As Karns do Gësch

A questão, doutor, é que todo mundo acha que sou louco.

Todo mundo quem?

Todo mundo, o mundo todo, e tudo que há no mundo.

E por que acham que é louco?

Por que sou de esconder minhas perts.

Suas pertis? Não entendi.

Perts, doutor, não tem este "i" neles - pê-e-erre-tê-esse - Perts.

E que são estas perts?

São três karns que participam do meu Gësch.

Carros do seu... desculpe, não entendi.

Karns - ká-a-erre-ene-esse e Gësch - gê-ê-esse-cê-agá.

E mais alguém participa do seu Gësch?

Não, só tem a Evelyn, a Verena e a Heike.

Mais alguém?

Não, doutor, não daria conta. Elas completam o Gësch. A Heike controla tudo, determina os comandos, a Verena lida com minhas percepções existenciais e a Evelyn é que fala tudo para mim. Eu a escuto muito, sabe, ela é que fala o que devo ou não fazer para não contrariar a Heike.

Mais alguém conversa e ou escuta as Karns?

Não doutor, é só meu este Gësch. Olha só a foto que tirei com elas ontem...

Caramba... onde fica isto?

Não posso contar, doutor, mas assim que a Heike autorizar te dou mais detalhes na próxima sessão.

Dona Carminha, venha aqui na minha sala agora.

Pois não doutor?

Puta que o pariu, Dona Carminha, por que eu fico aqui só atendendo maluco e maluco fica lá fora com as Karns no Gësch? Por quê, Dona Carminha, por quê?

Nossa doutor, seus braços são tão fortes, suas mãos agitando meus ombros, me sinto uma destas gueixas aí de carro que o senhor falou... mais, doutor, mais...

É isto aí! 


Valei-me São Jorge

A Igreja católica nunca retirou São Jorge do seu calendário litúrgico. Do ponto de vista histórico-crítico, as fontes existentes são suficientes para corroborar a existência de um cristão chamado Jorge que morreu por causa da sua fé católica na Antigüidade cristã e outros testemunhos, embora reduzidos, nos dão a certeza de que ele existiu.

Em Lydda (Dióspole), perto de Tel Aviv, em Israel, venerava-se o sepulcro de São Jorge antes do séc. VI. No mesmo período, Antonino de Piacenza e Adam-nano atestam o mesmo. Os restos arqueológicos da basílica cemiterial ainda hoje visíveis são atribuídos a uma construção constantiniana, como quer que seja muito próxima da morte do mártir. Além disso, uma epígrafe grega, encontrada em Eaccaea de Batanea e datada do ano 368 por Delehaye, fala de uma “casa dos santos e triunfantes mártires Jorge e companheiros”. Não se sabe onde nasceu, mas segundo alguns teria sido na Capacódia (hoje Turquia), e teria vivido na Palestina como tribuno militar.

A respeito do ano do seu martírio, Ruinart o fixa no ano de 284, seguindo o Chronicon alexandrinum seu paschale (PG, XCVI. col. 680). Parece, porém, ser mais provável que se deu no ano de 303, durante a perseguição de Diocleciano. Logo em seguida, entre os séculos IV e V, o nome de São Jorge se difundiu rapidamente no Oriente, a ponto de ter sido usado por vários soberanos na Geórgia. Também no Ocidente o seu culto se espalhou, sendo testemunhado por volta de 527 em Roma, quando Belisário confiou à sua proteção a porta de São Sebastião. No séc. VI encontramos uma igreja dedicada a São Jorge em Jerusalém. São Gregório de Tours (+ 594), na obra Miracolorum liber recorda a transladação de suas relíquias a Limoges e a Le Mans. O Papa Zacarias (+ 752), de aprimorada formação intelectual, teria encontrado o seu crânio. Segundo alguns relatos, São Jorge teria sido decapitado após inúmeras torturas.

Os calendários litúrgicos orientais indicam a comemoração de São Jorge no dia 23 de abril. Na mesma data o celebra o Calendário marmóreo de Nápoles, Itália, do séc. IX, de influência bizantina, o que em geral foi seguido pelas igrejas no Ocidente. O Sacramentario Leoniano do séc. V contém os textos da Missa em honra a São Jorge mártir usadas na igreja de São Jorge in Velabro, Roma.

A prova de que São Jorge foi um personagem importante na história do Cristianismo se deve ao fato de que muitos quiseram, a seu modo, escrever-lhe uma pequena biografia, chamada de passio, onde história e lenda se misturam. Dentre as mais famosas está uma escrita em latim que serviu de base para o panegírico redigido por Santo André de Creta (séc. VIII) em homenagem a São Jorge. O já citado São Gregório de Tours e Venâncio Fortunato (+ ca. 600) também exaltaram a sua pessoa. Na Liturgia bizantina São Jorge é celebrado também a 3 de novembro, reconhecido junto com outros santos como “megalomártir” (grande mártir).

Um destes relatos medievais merece ser citado, mesmo que a crítica histórica hodierna o coloque em xeque. Com efeito, vendo os sofrimentos de São Jorge, a imperatriz Alexandra, mulher de Daciano (Diocleciano), se converteu ao cristianismo e por isso também foi condenada à morte. Ela não havia ainda recebido o Batismo, e se perturbou com isso; São Jorge, porém, a teria consolado com estas palavras: “O teu sangue derramado será para ti batismo e coroa”.

Curiosamente, na tradição islâmica São Jorge recebe o título de “profeta”, e o relato dos seus gestos, a partir de Wahb ibn Munabbih (+ ca. 728-33), reproduz quase literalmente a versão siríaca da redação mais antiga de uma de suas lendas, acrescentando-lhe, porém, a devoção à luta contra o dragão em Lydda ou Beryto.

A propósito, a iconografia do santo o representa, a partir do século X no oriente cristão, como um jovem sem barba e sem algum atributo especial, acompanhado geralmente de São Demétrio. Com o passar do tempo, torna-se cada vez mais frequente sua representação com uma couraça e com marcada caracterização heróica. É no ocidente europeu, a partir do século XII, que vem apresentado a cavalo, no ato de matar um dragão. Tal modelo é seguido particularmente pela arte gótica tardia na França e Alemanha, bem como pelo Renascimento italiano. Exceções houve, como é o caso da belíssima estátua de São Jorge sobre a fachada de Orsammichele em Florença, Itália, obra do artista italiano Donatello (1415-1417).

Em uma das mais furiosas batalhas na Terra Santa, no ano de 1089, os combatentes cristãos (os cruzados, unidos aos ingleses e genoveses) teriam sido ajudados por São Jorge, acompanhado por esplêndidas criaturas celestes que traziam numerosas bandeiras nas quais tremulava a cruz vermelha sob fundo branco, símbolo já conhecido dos genoveses.

São Jorge, além de ter dado o seu nome a cidades e a países, foi proclamado Padroeiro de cidades como Gênova, Moscou, de inteiras regiões espanholas, de Portugal, da Catalunha, da Geórgia, da Lituânia, da Hungria, da antiga Checoslováquia e da Inglaterra, sendo esta última com a solene confirmação do Papa Bento XIV. Em 1415, o arcebispo inglês Chichele introduziu a festa de São Jorge entre aquelas mais solenes do ano. Entre os seus mais famosos devotos, está o Rei Ricardo “Coração de Leão”, que chegou a “nomear” São Jorge o comandante de uma expedição cruzada!

Mais de 20 cidades na Itália recebem o seu nome. Em Ferrara se encontra a Catedral de São Jorge, consagrada em 1135. No Egito há mais de 40 igrejas a ele dedicadas.

Na hagiografia recente existe um curioso relato. Rafqa Pietra Choboq Ar-Rayès (1832-1914) teve uma visão de São Jorge, São Simão o Estilita e Santo Antônio Abade em um momento de crise vocacional. Por causa desta visão ela ingressa na Ordem das Monjas Libanesas Maronitas no mesmo ano (1871). Foi beatificada por João Paulo II a 17/11/1985 e no Jubileu do ano 2000 foi indicada como modelo de amor à Eucaristia.
Concluindo, é bom citar o Martirológio Romano, onde se lê: “Memória de São Jorge, mártir, cuja gloriosa batalha, celebrada em Diáspole (Lidda) na Palestina, é celebrada desde a antigüidade por todas as Igrejas, do Oriente ao Ocidente”. Pouco sabemos de São Jorge, mas o que sabemos é suficiente: existiu de fato, acolheu Jesus, morreu na graça divina! Que os cristãos, portanto, invoquem com confiança a sua intercessão na luta contra as forças do mal!                                                                                                                                                           

S. Jorge, Mártir de Cristo: rogai por nós!

APOLITIKION (4º TOM)

Vitorioso Jorge, ilustre entre os mártires,
libertador dos cativos, protetor dos pobres,
médico dos doentes e defensor dos governantes;
intercede a Cristo Deus pela salvação de nossas almas!

OUTRO APOLITIKION

Pela fé, combateste o bom combate,
ó lutador pela causa de Cristo,
e por ela desprezaste a impiedade dos perseguidores.
Oferecido a Deus como oblação agradável,
ganhaste a coroa da vitória.
Por tuas orações, ó São Jorge,
alcancemos todos o perdão das nossas culpas.

KONDAKION

Cultivado por Deus
te tornaste um excelente cultor da piedade
e colheste para ti as espigas das virtudes;
semeando com lágrimas, colheste com alegria;
e lutando até o sangue, ganhaste Cristo.
Por tuas orações, ó São Jorge,
que possamos alcançar o perdão de nossas culpas.

PROKIMENON

Alegra-se o justo no Senhor e n'Ele confia.
Ouve, ó Deus, a minha voz quando te rogo!

Então queres ser um escritor? (Charles Bukowski)

Poema - Então queres ser um escritor
Autor - Charles Bukowski
Tradução - Manuel A. Domingos*

Poeta, contista e romancista, Henry Charles Bukowski Jr. é considerado o último escritor maldito da literatura norte-americana. Dotado de um humor ferino é comparado a Henry Miller e Ernest Hemingway.




 se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.

a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.

se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.

se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.

se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.

se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.

se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato
nem aborrecido e pedante,
não te consumas com auto-devoção.

as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.
 não há outra alternativa.
 e nunca houve.

* O tradutor é o escritor, poeta e professor universitário português Manuel A. Domingos, nascido em 1977 em Manteigas (região centro de Portugal). Tem colaboração dispersa em várias revistas: Praça Velha (Guarda), Palavra em Mutação (Porto), Sulscrito (Faro), Big Ode (Lisboa), Sítio (Torres Vedras), Piolho (Porto) e A Sul de Nenhum Norte (Coimbra). Foi colaborador do suplemento literário Correio das Artes (João Pessoa, Brasil). Publicou, até hoje, três livros de poesia: Entre o Silêncio e o Fogo (AQUILO Teatro, 2002), Mapa (Livrododia, 2008), Teorias (Edição do Autor, 2011).


domingo, 30 de novembro de 2014

The Beatles - And I Love Her


"And I Love Her" é uma canção gravada originalmente pela banda britânica The Beatles para o álbum A Hard Day's Night, lançado em 1964 como trilha sonora do filme A Hard Day's Night (intitulado no Brasil como Os Reis do Iê Iê Iê). Composta pelo cantor e baixista Paul McCartney para sua então namorada Jane Asher, foi um dos maiores sucessos dos Beatles, bem como de McCartney, que relembra a canção até os dias atuais em suas performances.

A música foi regravada por vários artistas ao longo dos anos, como Bob Marley, Sarah Vaughan, Julio Iglesias e Diana Krall. Em 1970, a cantora brasileira Rita Lee gravou uma versão psicodélica da música para o seu primeiro disco solo Build Up


Clique aqui para assistir no Youtube: And I Love Hair


I give her all my love
That's all I do
And if you saw my love
You'd love her too
I love her

She gives me everything
And tenderly
The kiss my lover brings
She brings to me
And I love her

A love like ours
Could never die
As long as I
Have you near me

Bright are the stars that shine
Dark is the sky
I know this love of mine
Will never die
And I love her

Bright are the stars that shine
Dark is the sky
I know this love of mine
Will never die
And I love her


Composição: John Lennon / Paul McCartney


sábado, 29 de novembro de 2014

Vende-se um ano velho

Enquanto isto, na seção de Classificados do único jornal da cidade:

Vende-se pela melhor oferta um Ano semi-novo, em bom estado de conservação. Aos interessados favor contactar no email fulanodetal@tal.com

- Prezado Sr. Fulano, li seu anúncio na seção de classificados. Gostei. Vem com acessórios? Doméstica de Luxo.

- Prezada Sra. Doméstica de Luxo, ele tem alguns pequenos reparos, lágrimas aqui, sorrisos ali, mágoas acolá, alegrias intensas e saudades eternas poderão ser removidas.

- Prezado Sr. Fulano, não comentou sobre amores perdidos, TPM, enxaquecas, idas ao ginecologista. Estes itens já vêem de série?

- Minha cara Doméstica de Luxo, como pode ter notado, sou do sexo masculino.

- Fulano, eu sei, mas queria saber se neste ano que você está comercializando tem estes itens.

- Querida Doméstica de Luxo, não tem. Os acessórios são apenas aqueles que já citei.

- Senhor Fulano, entendi, mas queria fazer só mais uma pergunta, se não se importa, mas é de ordem estritamente pessoal sobre o ano que está vendendo. Tem algum motivo particular?

- Simpática Doméstica - sim, foi um ano difícil, muito doloroso, de maneira que quero me desfazer dele bem depressa.

- Prezado Fulano, você ainda não disse o motivo, que seria de grande ajuda na nossa negociação, e poderá aumentar o preço final de acordo com a sua resposta.

- Dona Doméstica, a verdade é que no meio deste ano minha esposa partiu com uma pessoa, numa jornada de aventuras a dois, sem volta. Assim quero excluir este período da minha vida e quem comprar levará minha dor.

- Fulano, eu tenho uma proposta melhor - você teve uns seis meses de felicidade, eu tive outros seis meses até que meu marido faleceu. Que tal ficarmos dividindo estas nossas boas experiências com saldo de boas lembranças?

- Sério?

- Sim, sério?

E viveram felizes para...não sei, não sabem, até que o outro ano vença.

É isto aí!

Lua de mel

Acordei estranho naquele dia. Cabeça doendo, corpo todo dolorido, um gosto horrível na boca. Tive a impressão de que a cama estava diferente e ao tentar espreguiçar, deparei com um corpo feminino ao meu lado. Fui levantando quase escorregando, e já de pé puxei devagar a coberta. Uma moça abriu seus olhos e mirou nos meus. 

Ficamos assim alguns longos e irritantes segundos, um olhando nos olhos do outro, buscando entender o que estava acontecendo. Só então percebi que estava nu, e ao olhar em volta não vi minha roupa.

Voltei os olhos à moça procurando uma resposta e de repente minha memória denuncia que não estou no meu quarto. Comecei a ficar preocupado, pois não lembrava de ter saído de casa.

A porta abriu de súbito e uma mulher gorda elegante entrou em silêncio com uma bandeja cheia de frutas, pães, chá e café. Da forma que entrou, saiu, e quando voltei os olhos à cama, não havia mais ninguém lá. Procurei nos cantos, no chão, abri o guarda-roupa e nada. Enrolei no lençol e ao tocar a maçaneta descubro que a porta está trancada.

Com uma sonolência inexplicável, deito na espera de tudo ser parte de um sonho. Acordo com a mulher gorda elegante, nua, abraçada em mim. Tento levantar mas ela impede e experimentamos uma longa performance sexual. Ao fim, exausta, adormece e aí levantei rápido, fui direto à porta - estava aberta. Saí num corredor escuro, dando numa sala iluminada, exalando um fantástico cheiro de comida.

Com fome, aproximei e vi uma mesa repleta de uma saborosa ceia, e ao sentar um mordomo com vestes britânicas vitorianas, longilíneo, surgiu de algum lugar inesperado, e começou a servir-me em silêncio. Ao colocar o guardanapo sobre a perna, percebi que ainda estava nu, mas a fome foi maior que este detalhe. 

Ao término, aquela mocinha entrou na sala, vestida de um provocante tubinho preto, e com um sorriso enigmático sinalizou com o dedo indicador uma porta, à qual abri. Entrei e era um quarto onde estavam minhas roupas. Ela entrou atrás, passou por mim e abriu outra  porta, mostrando um banheiro. Daí, voltou-se, beijou-me em frenesi e mergulhamos numa inesquecível aventura carnal. Entrei para o banho e quando já estava pronto, a gorda elegante abriu a porta, e com o aceno chamou-me para sair. Levou-me até a saída daquela casa.

Ao perceber que estava na rua, fiz sinal para um táxi, para outro, para outro e já cansado daquilo, segui a pé até chegar em algum lugar que me desse referência de onde estava.Não havia ninguém na rua. Enquanto caminhava, um cadillac preto, de vidros escuros parou ao meu lado e a porta de trás abriu. Aceitei a carona, mas não consegui ver o motorista. Acho que cochilei, não sei, demorou muito até chegar na porta do meu prédio.

Desci e o carro arrancou depressa. Estava tudo normal, a rua, a portaria, as pessoas da área e até o seu Joaquim era real e entregou as correspondências normais. Em casa sempre é mais seguro, pensei, enquanto subia os doze andares pelo lento elevador. Vou dormir e amanhã penso nisto tudo.

Ao entrar no apartamento, a moça desconhecida estava sentada na minha poltrona preferida, ao lado do meu trompete, enrolada em uma toalha azul e outra nos cabelos, com um olhar perdido e uma garrafa de vinho vazia no parapeito da janela. Ao seu lado uma bolsa de viagem com indicativo que veio para ficar.

É isto aí!


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Homem não chora


Estávamos passeando na casa da vovó nas férias, as primeiras sem o vovô. Meu pai saiu cedo para comprar algumas coisas para a ceia de natal. Ao regressar, encontrou-me encolhido e triste, acabrunhado e solitário, escondido num canto da garagem.

Ainda do carro, trocamos um sentimento mútuo de tristeza. Ele entendia meus olhares. Desceu em silêncio e foi aproximando bem devagar. Eu já não olhava mais para ele. 

Afagou levemente meus cabelos e perguntou:
- O que aconteceu? Estava tão alegre quando saí.
- Pai, é verdade que homem não chora?
- Antes de responder posso saber o motivo da sua pergunta?
- É que eu senti uma saudade tão grande do vovô quando fui brincar com algumas coisas que ele me ensinou, que comecei a chorar, aí a vovó chegou perto de mim e do nada falou - mas o que é isto? Sabia que homem não chora?

Papai não disse nada - me pegou no colo em abraço e choramos sozinhos até passar a vontade de chorar.

É isto aí!

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Eu já estive do lado de lá

Pietà - Käthe Kollwitz - Berlin, 
Unter den Linden, Neue Wache 
Alto lá - este texto não é meu
Copiei e colei 
Autora - Luciana Duarte

Luciana Duarte conta aqui uma história real - a sua história. Eu a conheço há muitos anos e sempre que leio este texto, no contexto em que se deu a dor, cresço. Este episódio foi há algum tempo. Depois ela teve uma filha lindíssima, igual a ela mesma, que curte, abraça, beija, e ama como devem ser amadas as crianças. É um registro anterior a esta nova vida. É uma aula. É uma lição de força e fé. Vou parar de escrever para que você possa ler também:

Já fiz parte do grande número de famílias que moram na outra margem deste rio, belo e misterioso, que é o trilho que percorremos neste mundo. São pais, mães e filhos, que tem a felicidade de poderem se abraçar todos os dias, de partilharem suas emoções e sonhos. Naquele tempo, eu vivia com a tranqüilidade de uma pessoa adulta, pouco dada ao pessimismo e possuidora da maturidade própria para enfrentar e ultrapassar os obstáculos que apareciam pelo caminho.

Quando ouvia falar de pais a quem a morte havia roubado um filho, eu sentia um grande pesar, ficava tristemente impressionada e tornava-me solidária com a sua dor. Ao meu jeito, tentava lhes levar algum conforto. Era sensível à sua mágoa, era amiga, enfim, acreditava que compreendia e conseguia consolar. Mas, depois de algum tempo, voltava à normalidade dos meus dias, às solicitações que a minha vida me impunha e, mesmo sem perceber, ia aos poucos ficando alheia da tragédia desses pais. 

Talvez pensando que respeitava o silêncio da sua dor ou achando que o tempo, ao passar, poderia fazer mais por eles do que eu. Pressentia até que não queriam ser perturbados e que impunham, mesmo, um afastamento.   Mas chegou o dia em que a minha vida mudou.

 O MEU filho morreu.

Passei, então, para este Lado. Para a margem do Rio onde vive uma multidão de pais e mães, feridos, destroçados, com corações pra sempre mutilados. Casas onde há um lugar vazio, onde se chora a partida, sem retorno, de um filho querido.   Inconsolável, achava que nada mais poderia me aliviar. Sentia que muitas pessoas se afastavam, fartas das minhas lágrimas e do meu sofrimento. As palavras que me eram dirigidas me feriam ainda mais, não tinham qualquer sentido e não conseguiam me consolar.

Cansada de sofrer, comecei por construir barreiras protetoras que me defendessem. Não queria mais sofrimento, não queria mais ser magoada e sabia que era difícil que alguém entendesse a luta que se travava no meu íntimo, no meu coração e na minha alma.

A morte do meu filho projetou-me para um poço escuro e tornei-me distante, inacessível, fechada para o mundo. Achava que amigos, conhecidos, colegas e até alguns familiares, se distanciavam de mim. Não falavam do meu filho, e percebia que havia um certo embaraço quando nos encontrávamos. A cruz era minha e eu via os dias a amanhecer, uns atrás dos outros, sem que o meu tormento se atenuasse. Dias, semanas, meses passavam e ninguém me compreendia.

 Mas algo foi se operando em mim e se ajeitando aos poucos em meu coração. Comecei a aceitar a minha perda e assim dar espaço a mim mesma para chorar e me libertar da culpa, da revolta e da angústia que me sufocava. Repensei a minha vida e percebi que a análise que passei a fazer da morte - sobretudo da morte de um filho - era bem diferente daquela que eu teria feito quando vivia na Outra Margem do Rio, quando desconhecia totalmente a profundidade e dimensão desta dor. Compreendi que só quando uma parte de nós morre, é que nos sentimos almas gêmeas de outros pais a quem aconteceu o mesmo. 

Antes, eu também não tinha capacidade para compreender e ficar ao lado, infinitamente, daqueles a quem a morte tinha mutilado. Hoje, já vejo com clareza que o abandono que senti por parte de pessoas que se movimentavam no meu mundo, só teve como causa o mistério que a morte encerra e o quanto é doloroso falar dela. E, quando se trata de um filho, apenas quem está muito chegado a nós ou alguém que já entrou na mesma estrada de luto, pode nos compreender verdadeiramente. Isto é humano. Hoje entendo... hoje compreendo que não era insensibilidade das pessoas...

Eu, que vivo hoje deste Lado, não posso me esquecer que já estive antes na Outra Margem. E como agi naquele tempo com os Outros a quem tinha morrido um filho? Talvez da mesma forma que hoje agem comigo. Agora eu sei qual o modo como poderia ter sido ajudada. Quais as palavras que não queria ter ouvido e como desejava que me deixassem falar desse meu ser amado, que a morte tão cedo ceifou. Queria, desesperadamente, que me escutassem. Por isso, hoje, eu sei como chegar aos que vivem tranquilamente na Outra Margem.

Assim, não me sinto magoada ainda mais... Se eles não sabem como se dirigir a mim, se não sabem as palavras certas, se não entendem meu comportamento... lembro-me que eu, um dia, também já estive do Lado de Lá... e também desconhecia a magnitude desta dor.

É isto aí!

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A secretária do Analista da Pitangueira


Estávamos só nós dois na recepção do consultório havia uma meia hora. Já  tinha visto aquela mulher umas duas ou três vezes ali, mas só de passagem, um chegando e o outro saindo. Nossos horários deviam bater em algumas sessões.

Desta vez ficamos sentados frente a frente. Examinei-a em todas as curvas. Olhei bem para seu corpo, pernas grossas interessantes, cabelo de um loiro intenso, maquiada para uma noite de festa de gala, decote generoso ofertando seios fartos, um sorriso enigmático e havia aquele olhar entre sedutor e fatal literalmente na minha direção.

A secretária gostosinha chegou à sala, olhou para mim que olhei para sua boca deliciosa e ao mesmo tempo na sainha justa que salientava seu corpinho de miss, deu o recado:
- Desculpe o atraso, isto não é comum. O analista nunca atrasa. Vou ligar para ele.

A mulher nem sequer olhou para ela. Me devorava com os olhos, a danada. Quinze minutos de silêncio intenso foram quebrados com uma pergunta dirigida à minha pessoa:

- Você já reparou que todas as pessoas que conhecemos morrem?

- Olhei para ela, inevitavelmente baixei os olhos para seus peitos e coxas, olhei de novo nos seus olhos e levantei a sobrancelha direita, abrindo as duas mãos em palmas indagando silenciosamente onde iria dar aquilo.

-  É sério. Os gatinhos, os cachorrinhos, os passarinhos, parentes, amiguinhos, amiguinhas, o desejo, todos morrem. Uns morrem de partida, outros morrem de chegada, uns morrem de vez, outros de desaparecimento.

- Aí percebi que era sério. Ela não estava brincando. Então resolvi entrar no diálogo mórbido - e como você encara estas situações de morte?

- Não sei, pode ser que eu esteja divagando ou pode ser que não. Um dia estarei morta? O que valeu a pena nesta vida? Por exemplo, até as paixões. Você pode apaixonar repentinamente por alguém e nunca falar nada, então é você quem morreu. Também pode acontecer de que um dia a gente amanhece e descobre que beijar uma pessoa para esquecer outra é bobagem. Você não só não esquece a outra pessoa como pensa muito mais nela. Então esta pessoa não morre, e se alguém me amar muito, eu também não morro; mas e aqueles beijos abrasivos em bocas soltas? Morreram todas aquelas bocas?

- Interessante esta sua teoria. Como você se chama?

- Eu me chamo de sua, se quiser...

- Entendo... 

- Bobinho, com certeza você já percebeu que nós mulheres temos um instinto caçador selvagem e fatal, que faz qualquer homem sofrer e sentir prazer nisto...

- É... muito interessante isto daí...

- Eu sei disto, como sei e você sabe que se apaixonar é inevitável; que as melhores provas de amor são as mais simples; que o comum não atrai pessoas como eu e você...

- Nossa, você fala de um jeito...

- Eu quero mais que falar deste jeito com você, e sei que de bonzinho você não tem nada. Estamos aqui, neste turbilhão de pensamentos e barreiras, desconhecidos e carentes. Olha como você me olha. Olha como eu te olho. O que há de desconhecimento nisto?

- É... lembrei daquela frase famosa -  "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas..."

- Nossa, esta frase é ridícula - serve bem para cachorros, gatos, vacas, mas você não pode se tornar responsável pela devassidão de um amor louco, apaixonante. Não há responsáveis pelos danos e prazeres de uma colisão de desejos. Um novo amor não preenche a lacuna do anterior, apenas faz com que você se despeça dos seus mais terríveis pesadelos. Se um dia perceber como um grande amor te faz falta, lembre-se querido, que a falta de um grande amor é um buraco sem fundo, que deve ser deixada prá lá até ser coberta pela poeira do tempo.

Nisto, a secretária abre a porta e anuncia:
- O senhor pode entrar.

Mas e ela? Já estava aqui quando cheguei.

Ela? Quem é ela? Está aqui nesta sala?

Foi quando percebi que não havia ninguém lá... Olhei para o vazio, para a secretária, para o vazio, para a secretária... levantei e dei um beijo escandalosamente apetitoso na sua boca que eu desejava desde o primeiro dia. No primeiro momento ficou tensa, depois foi relaxando, relaxando, relaxando e quando pensei que estava gostando, deu-me um joelhaço em sentido ascendente, na velocidade da luz, com força de alguns megatons. Expressei um gemido abafado e ao dobrar os joelhos em dor profunda, ela, de mãos espalmadas, aplicou-me uma impactante compressão nos dois ouvidos, que acelerou minha queda e provocou vômito.

Fiquei algum tempo desacordado, que não sei precisar. Ao abrir os olhos a secretária não estava mais na sala. Deparei com a loira e seu sorriso fúnebre a lançar-me profundo olhar de lamento pela situação embaraçosa. Fui embora me sentindo o pior dos piores, o malvado, o tarado do consultório. Um potencial estuprador de secretárias. Fiquei desesperado, com medo dela gritar, chamar a polícia, sei lá...

Na sessão seguinte não fui, nem na outra, nem na outra e estava decidido a nunca mais voltar, mas diante da insistência do analista, acabei aceitando a ideia do retorno, então levei flores e chocolate para pedir desculpas. A recepção estava vazia. Aguardei sentado na poltrona por tensos e intermináveis minutos o aparecimento da moça.

Ela então abriu a porta de acesso à área de serviço, viu as flores, olhou para os chocolates finos, aproximou-se, encaixou sua coxa direita entre minhas pernas, acariciou meu rosto e com olhar de fúria, perguntou - Por quê você foi embora e não quis mais voltar?

Olhei para o lado e vi a loira de seios fartos acenando um lacônico adeus...

É isto aí!   


domingo, 16 de novembro de 2014

Mestre Joãozinho, os astros e Carlinhos


Mestre Joãozinho, eu vim pedir sua proteção e reza para que eu case com o Carlinhos.

Qual o seu nome, minha filha?

Cleuza, mas todo mundo me chama de Zazá.

Muito bem, Zazá. E este Carlinhos, quem é?

É o rapaz mais bonito da vila, o mais inteligente, o mais forte. É simpático, calmo, compreensivo e é o grande amor da minha vida.

E este moço é da cidade, Zazá?

Olha Mestre, nascido e criado aqui, às vezes o senhor até conhece. Ele é filho do seu Carlos da padaria.

Eu vou tomar minhas providências e consultar os astros, viu minha filha? Quarta-feira você volta que a gente termina esta prosa. Vai com Deus,viu minha filha, vai com Deus.

Mestre Joãozinho, eu quero o Carlinhos no altar comigo.

Como você chama, minha filha?

Elize, mas todo mundo me chama de Lili.

Então, Lili, fale um pouco deste Carlinhos.

Maravilhoso, bonito, trabalhador, honesto, decente, educado, respeitador e o pai dele é o dono da padaria.

Eu vou tomar minhas providências e consultar os astros, viu minha filha? Quarta-feira você volta que a gente termina esta prosa. Vai com Deus,viu minha filha, vai com Deus.

Mestre Joãozinho, eu preciso que o senhor me ajude a casar com o Carlinhos.

Qual o seu nome, mocinha?

Maria das Graças, mas pode me chamar de Gal.

Pois é, Gal, o que você tem para dizer deste Carlinhos.

Nossa, Mestre Joãozinho. Educado, elegante, inteligente, honesto, bonito, e o pai dele é dono da padaria.

Eu vou tomar minhas providências e consultar os astros, viu minha filha? Quarta-feira você volta que a gente termina esta prosa. Vai com Deus,viu minha filha, vai com Deus.

Mestre Joãozinho levanta, bate palma e fala para todos os presentes: por hoje acabou, peço a compreensão de vocês, mas tenho um assunto urgente com o futuro. Os astros pedem uma reflexão e preciso fazê-la.

Todo mundo toma a benção e parte para seu mundo.

Sozinho, Mestre Joãozinho pega o celular e liga para a esposa:
- Zefa, como é mesmo o nome daquele menino que está rodeando a nossa filha, a Carminha, e que não se aproximou ainda com medo?

- Já te falei Joãozinho, é o Carlinhos da padaria.

- Pois pode mandar ela convidar urgente o moço para almoçar lá em casa, por que é menino bom, de referencia prá casar. E pode amarrar ele com aquela simpatia do palito de dente na vela,  por que este não é partido que se jogue fora, ouviu Zefa - não podemos perder não.

Quem te disse isto, Joãozinho?

Como assim, Zefa? Foram os astros, mulher... foram os astros...

É isto aí!

sábado, 15 de novembro de 2014

Dicas poéticas e culinárias.

Atenção - este texto não é meu
Copiei e colei
Autora: Marta Godoi
Fonte: https://www.facebook.com/marta.siqueiradegodoisampaio/posts/567693300042944?fref=nf&pnref=story


Dicas poéticas e culinárias.
*Dê um susto na cenoura ralada no azeite quente com cebola picada, sal e alho. Ficará levemente adocicada e tenra.
*Acorde o orégano esfregando-o nas mãos para antes de salpicá-lo sobre a pizza. O perfume tomará conta da cozinha e da casa.
*Deixe a carne de porco ou frango descansar no tempero preferido. Com alecrim repousam como guerreiros.
*Prepare, tempere e deixe o frango inteiro dormir por uma noite. Depois, só assar. Durante o sono todos os pecados se vão.
*Quando os ovos estiverem dançando na vasilha escolhida (nas transparentes dão um show) por uns dez minutos estarão cozidos. Jogue-os com força na pia. O barulhinho é puro som! Faça cachoeira com água fria sobre eles. Não vingarão dos dedos ao descascar.
*Para o arroz ficar branquinho e saboroso, jamais frite o alho. Assim, a sua essência sairá durante o cozimento. Arroz filosófico. Assim o batizei.
*Se todo o milho de pipoca estiver vestido de noiva é só servir quente com guaraná gelado. Faltarão noivos para tantas noivas. Uvas passas combinarão?
*A temperatura exata para tomar cerveja é quando a garrafa estiver mais ruça do que canela de pedreiro. (ouvi isso de um cara politicamente incorreto mas poeticamente feliz )
*Para que a sobra arroz tenha cara nova, jamais sirva-o fazendo buraco no meio da panela. Os rejeitados se unirão encrespando a cara de raiva.
*Para comer feijão com arroz como se fosse príncipe/princesa cozinhe o feijão de véspera e arroz deve ser de vesperinha, mesmo!
*Quadradinhos de alcatra ou contra filé temperados apenas com sal grosso moído com pimenta do reino (em moedor de gourmet igual àqueles que aparecem em programas chiques na tv) e grelhados os dois lados em frigideira com um fio de óleo bem quente, ficam perfeitos e não precisa nem usar faca para saborear.
*Para comer maçã de peito sem culpa, cozinhe-a em peças médias com sal grosso mergulhadas na água. Depois jogue esse líquido malvado para bem longe de suas artérias e asse-as em forno quente com o seu preferido molho de tomate com manjericão (de preferência de sua hortinha aromática). Bora, cozinhar? Poetizar?