segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Maria Bethania, Dona Canô e etcs... FOGUETE

O sujeito de "Foguete", de Roque Ferreira e Jota Veloso, canta a excitação de viver o amor. O grande amor. Entre o que pode e o que não pode ser, ele enfeita a vida e a canção que entoa com elementos típicos de seu universo brejeiro, sertanejo, interiorano. (Leonardo Davino)


Foguete (Roque Ferreira / Jota Veloso)

Tantas vezes eu soltei foguete
Imaginando que você já vinha
Ficava cá no meu canto calado
Ouvindo a barulheira
Que a saudade tinha

É como diz João Cabral de Mello Neto
Um galo sozinho não tece uma manhã
Senti na pele a mão do teu afeto
Quando escutei o canto de acauã

A brisa veio feito cana mole
Doce, me roubou um beijo
Flor de querer bem
Tanta lembrança este carinho trouxe
Um beijo vale pelo que contém

Tantas vezes eu soltei foguete
Imaginando que você já vinha
Ficava cá no meu canto calado
Ouvindo a barulheira
Que a saudade tinha

Tirei a renda da naftalina
Forrei cama, cobri mesa
E fiz uma cortina
Varri a casa com vassoura fina
Armei a rede na varanda
Enfeitada com bonina

Você chegou no amiudar do dia
Eu nunca mais senti tanta alegria
Se eu soubesse soltava foguete
Acendia uma fogueira
E enchia o céu de balão
Nosso amor é tão bonito, tão sincero
Feito festa de São João

Dona Martha

Dona Martha, por favor, venha à minha sala.

Perfeitamente Dr. Almeida.

Dona Martha, a empresa está crescendo, a senhora já está comigo há mais de quinze anos e estou querendo promovê-la, mas para isto preciso contratar outra moça para o seu lugar.

Mas o que eu fiz, Dr. Almeida? (olhos enchem d'água)

Não fez nada, Dona Martha, nada mesmo. Apenas quero melhorar a sua remuneração.

Obrigado, Dr. Almeida, mas é possível permanecer tudo com está? (lágrima escorrendo devagar e mãos para trás)

Dona Martha, a senhora veio para cá com dezesseis anos; já está com trinta e precisa começar a ter as suas coisas, seu cantinho, por que o tempo, Dona Martha, o tempo voa.

Puxa vida, Dr. Almeida, snif, então eu estou velha para o senhor? (chorando)

Caramba, para com isto, não chore, venha mais perto, isto, mais perto, mais perto um pouquinho. Dona Martha, a senhora está tremendo.

Não consigo me controlar, Dr. Almeida, estou confusa, nunca imaginei que... (chora convulsivamente).

Dona Martha, o que é isto, dê cá um abraço, vamos esquecer tudo isto, certo? Isto, pode abraçar com força.

Nossa, Dr. Almeida, que braços fortes...

Dona Martha, às quinze horas virá aqui uma moça, Lorena, a senhora por favor mande-a entrar para que eu reveja a possibilidade de aproveitá-la em outra sessão.

Certo, Dr. Almeida, tudo certo... desculpe, eu não sei o que aconteceu comigo, desculpe.

Tudo bem, Dona Martha, mas não se esqueça da Lorena às quinze.

Perfeitamente, Dr. Almeida, deixa comigo. - Pois não, posso ser útil?

Olá, meu nome é Lorena e eu tenho um horário agendado com o Fernando.

Fernando? Não tem ninguém aqui com este nome não.

Como não? Conferi tudo, até confirmei com a recepção do prédio. Tem certeza?

Claro, tenho certeza.

Então está bem, desculpa então.

Tudo bem, isto acontece. 

(sozinha) É ruim, hem! Almeidinha é meu e de mais ninguém.

É isto aí!

domingo, 11 de janeiro de 2015

Em algum lugar do passado


Foi deitar achando que não estava bem. Olhou para a esposa ao lado, dormindo; despediu-se dela em silêncio, fechou os olhos e partiu rumo ao desconhecido umbral que divide os mundos. Abriu e fechou os olhos dezenas de vezes, tantas quantas foram as que olhou para o relógio.

Levantou-se em pelo menos quatro ocasiões, saiu pelo corredor até o quarto das crianças, passou pelo banheiro e voltou a deitar-se. Estava agoniado, mas o sono chegou.

Acordou com alguém batendo insistentemente na porta do quarto escuro. Tropeçou em algo, bateu a canela numa quina, o rosto foi de encontro à parede até perceber uma tênue luminosidade por entre as frestas da porta. Ao abrir, uma mulatinha de sorriso cínico e voz esganiçada mandou-o apressar-se. Olhou para o interior do quarto e percebeu que era um muquifo de chão batido.

Procurou um local para a ablução matinal e aí deu conta de que estava num vestido de estopa, solto; ao levar a mão à região genital, deparou-se com o órgão feminino. Deu um grito e desmaiou. Acordou com água no rosto e tapas da mulatinha, ajoelhada sobre seu corpo, chamando-o de “putinha histérica”. Olhou para ela e, ao estender as mãos para contê-la, ela caiu sobre seu peito e sussurrou: “Eu amo você. Por favor, não faça mais isto.” Beijaram-se demoradamente, sem pudor e sem limites.

Ao levantar-se, olhou de outra forma para a moça. Só então descobriu-se totalmente no corpo de mulher.

Saíram dali com muita pressa, por algum motivo grave, e ao atravessarem a viela fétida, escorregou no esgoto que escorria pela vala central, rodou o corpo leve no ar e bateu a cabeça numa enorme pedra no canto da estreita passagem. Acordou numa enfermaria lotada de homens feridos e mutilados, com gritos pavorosos e um cheiro de putrefação nauseante. Lembrava-se apenas das ordens do líder do seu grupo quando entraram em Ásculo, sob o comando de Pirro.

Tateou o corpo e percebeu que estava sem as pernas; pelo corte, deviam ter sido amputadas por gangrena. Lembrou-se de Milena, sua amada esposa, por quem jurara amor eterno no oráculo de Zeus em Dodona — Milena… Milena… até que não mais a chamou.

Mergulhou num túnel densamente iluminado, cilíndrico e acelerado. Acordou completamente suado, sem ar, e só acalmou quando deparou-se com sua esposa ajoelhada ao seu lado, com olhar tenso, afagando-lhe o rosto e pedindo calma.

Trocaram um olhar tão apaixonado, tão repleto de amor que ele levou as mãos ao rosto dela e disse: “Milena, eu te amo…” Só viu o vulto de algo vindo em sua direção e, novamente, mergulhou num turbilhão de vozes, sons e calor. Enquanto navegava pelas palavras ditas, malditas e bem-ditas, virou-se a tempo de ainda ver seu corpo sendo velado pela família e por alguns poucos amigos. O jeito era acomodar-se e esperar para ver onde aquela condução o levaria desta vez.

É isto aí!

Dúvida razoável

Senhores jurados, Meritíssimo, sou inocente. Tudo começou quando nasci. Morava no Paraíso, daí um Anjo abruptamente pegou-me, trazendo meu corpo miúdo e nu a esta terra desolada. Ao aqui chegar, pequeno, indefeso, estranho a tudo, passei a  ser dependente de um casal esquisito, que me chamava de filho

Ohhhhh - vaias - gritos! 
- Silêncio!!! Silêncio. Prossiga.

Como está escrito naquele livro daquele pessoal, sou imagem e semelhança do Criador. Assim, ao me ver libertado do mal da maçã, que dominou minha vida, deduzi que todos os meus crimes estavam perdoados, pois estava perdido e fui encontrado.

Ohhhhh - blasfêmia, calúnia, pecador... Silêncio!!! 
- Mais uma manifestação e esvazio a sala. Prossiga.

Bem, daí resolvi processar o mal que me habitava em vinte e cinco milhões de reais, por tudo que manifestou em mim, e também, pela omissão, processo ao Criador que me deu o livre arbítrio e não me impediu de pecar, roubar, matar, molestar, etc e tal. Também a ele peço vinte e cinco milhões de reais de indenização.

Mas o senhor está abrindo um processo contra o Estado e contra a sua igreja?

Exatamente, sim e não, e neste caso a minha solicitação é que o Estado pague pelo prejuízo causado nesta peleja do bem contra do mal, e para isto rogo pela Responsabilidade Civil Subjetiva, já que a teoria da irresponsabilidade estatal que prevalecia nos Estados absolutistas não existe em um Estado de Pleno Direito. Quanto à Igreja, não é verdade, meu processo é direto com a Diretoria Celestial.

O senhor é louco?

Não, Meritíssimo, mas como a teoria da responsabilidade civil subjetiva está ancorada em três alicerces: a culpa, o dano e o nexo causal, eu como sou vítima de um dano celestial e humano, rogo por esta indenização, pois aqui mesmo demonstrei a culpa do ofensor e o nexo causal entre a conduta daquele e o dano a mim promovido.

O senhor tem parentes próximos a quem o estado deve orientar uma tutela?

Não, Meritíssimo, sou filho único, e quando meu pai morreu, eu devia uma fortuna a ele, mediante uma dívida moral na qual acordamos em cem milhões de reais, desta forma passei a ser credor de mim mesmo, e agora quero receber pelo menos 50% deste crédito para me ajudar a ter uma vida razoável neste vale de lágrimas.

Mas neste caso a dívida é automaticamente anulada. Não se pode processar a si mesmo.

A mim mesmo não, mas existe o outro em mim, cuja tutela cabe ao Estado e a outra ao Criador. 

Processo suspenso até que o Outro e Deus venham depor.

Meritíssimo, não pode fazer isto, não pode. Eu tenho a procuração do Outro, eu protesto...

É isto aí!

2015 - Chegou a Era da Nanotecnologia

Odete não liga faz tempo. A comoção pelas ocorrências palacianas nos últimos noventa dias a deixaram meio que abalada, segundo me confidenciou sua amiga Creuzinha, prima da cunhada da vizinha da namorada do Cleudmar, um servidor público destes de corredor palaciano. 

Ainda por cima, vieram as festas de final de ano e esta ressaca de janeiro, que não acaba. Aqui na Pitangueira sabemos que o ano promete muitas mudanças, muito trabalho, muita coisa a ser feita e muitos projetos sendo colocados sobre a mesa, afinal 2015 é um ano bom, destes imperdíveis.

Teve a tragédia do avião na Indonésia, e ainda não refeitos, veio a tragédia em Paris, cuja única certeza são os mortos, tirando isto tudo são cinzas e nuvens carregadas. Tudo isto um dia terá um fim, mas hoje devemos olhar para o que está começando a despontar nas nossas vidas.

É o começo, mas o começo do quê? Começo do futuro - bem vindo ao tempo que foi sonhado por todas as gerações que nasceram e morreram neste planeta. Você, que agora lê este texto, e é um viajante do tempo, trouxe até aqui as informações do passado e agora as transformará em algo totalmente diferente - um novo céu e uma nova terra surgem na ponta da ciência.

Chegamos ao princípio da Era da Nanotecnologia, que aos poucos está invadindo todas as áreas científicas, desde a Engenharia, passando pelas Artes, Música, Diversão, Química, Física, chegando nas Ciências Biológicas onde o objetivo é atingir todos os níveis de criação, selando definitivamente a morte. 

Outro dia volto ao tema, por hoje desejo Um Feliz Ano Novo!

É isto aí!

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Seu Juca no Divã da Pitangueira

Bem, Seu Juca, podemos iniciar nossa conversa pelo motivo da sua vinda à clínica. 

Olha doutor, na realidade não sei bem por que estou aqui. Foi a Carlotinha que ficou martelando na minha cabeça o tempo todo da necessidade de procurá-lo.

Hummm, entendo. E Carlotinha é a sua esposa?

Nããããõ, longe disto, ela é uma mocinha que aprecio por aí.

Aprecia... pode explicar para mim esta sua relação com a Carlotinha?

Éééé´... olha só, tenho mesmo que falar sobre isto?

Não necessariamente, poderemos voltar ao assunto depois. Mas ela veio com o senhor?

Ficou maluco? Carlotinha aqui? Nem morto. O lugar dela é onde ela está.

Entendo, mas volto a perguntar - por que ela o enviou à clínica?

São as coxas, doutor, as coxas. Eu sou tarado por coxas de mulher. Sabe aquelas coxas nuas que perambulam sob um corpo esguio por estes dias de verão? Aquelas coxas carnudas, lisas e gostosas das mulheres quando o calor aumenta e as roupas diminuem? Então, é isto. Eu sou tarado por elas. Tenho vontade de sair alisando, apalpando, agarrando, mordendo, beijando, lambendo e esfregando minhas mãos em todas elas. É um negócio que mexe comigo, sabe, uma loucura dentro de mim.

E daí, o senhor chega a abordar estas moças?

Não, isto não. Mas eu fico nervoso, minhas mãos suam, e, sabe - como vou falar... olha só, de homem para homem, aquilo me excita. Excita muito mesmo. Fico doido.

Seu Juca, o senhor é casado?

Sim, claro, 25 anos de casado e bem casado.

A sua esposa, o que ela pensa disto?

Mas o que é isto, doutor? Ficou maluco?Acha que vou contar uma coisa destas para ela? Ela já está bem velha, tem quarenta e tantos anos, não tem nem interesse nem necessidade em saber disto.

Mas e a Carlotinha?

Pois é, então, a Carlotinha eu apanhei na roça e trouxe a princípio para morar lá em casa, mas ela é uma delícia. Tem umas coxas... hummm... até babo só de falar. Aí eu comecei a sentir estas coisas, sabe, foi com ela. Aquelas roupinhas curtas, aquelas coxas, nossa, puxa vida, que par de coxas, eu não aguentava mais.

Mas o senhor...

Não, eu sou um homem sério, nunca pensei em trair minha esposa dentro de casa, mas aquilo estava mais forte que eu. Olha só, doutor, estou jovem, só com quarenta e poucos anos, sei que não pareço ter tudo isto, tenho a força plena e cultivo a minha capacidade mental em plena carga. Mas aí, deixa eu falar, mas aí... é... então, deu que eu precisava resolver aquilo, daí arranjei uma quitinete para ela morar e onde a gente podia passar uns tempos, longe dos curiosos.

E ela? Como aceitou isto?

Ela, a Carlotinha? Adorou. Sabe, eu gosto de ver suas coxas, deliro. Ela coloca saias curtas, vestidos - uau, os vestidos da Carlotinha, com as coxas à mostra e costas nuas. Puxa vida, eu fico alucinado. Entende, doutor, este é o meu estímulo visual, sem isto não tenho vontade.

Fale um pouco da sua infância e da sua mãe, Seu Juca, vamos dar um passeio na sua vida.

Minha mãe? Qual é a sua doutor? É tarado pela mãe dos outros agora, é? Bem que me falaram que o senhor era esquisitão, e eu não acreditei.

Não tem nada disto, Seu Juca. O senhor está aqui por um problema, e avançaremos no campo da análise para verificarmos se este problema é maior do que simplesmente a sua vontade apresenta.

Sim, mas o senhor colocou minha mãe, minha santa mãezinha na questão. Isto eu não admito. Eu não sou louco.

Eu não disse isto. Mas já que tocou no assunto, vamos supor uma pessoa que estivesse diante de uma loucura qualquer, um desejo alucinante ou um comportamento bizarro, então ela provavelmente teria apenas o sentido de falsificação violenta da realidade, de tentativa de tradução violenta, como uma identificação projetiva, que buscaria pôr sentido onde não há. O senhor entende?

Olha Doutor, isto não está certo. Primeiro me cobra para saber se gosto de mulher. Eu gosto, depois fica querendo saber como gosto, eu explico direitinho, direitinho, aí vem e fala da minha santa mãezinha, e depois isto - que eu sou doido.

Não tem nada disto, Seu Juca, é que em alguns casos o paciente pode ter criado uma ilha, que ele habita e preserva. Essa ilha, Seu Juca, é, talvez, a projeção, não no sentido imagético-geométrico, da relação com sua mãe.

É a merda daquela vaca que te largou no pasto, doutor. Vai pro inferno, vai se tratar desta tara pela mãe dos outros, por que eu vou atrás das minhas coxas.

Semana que vem no mesmo horário, Seu Juca?

Sim, pode manter este horário mesmo.

É isto aí!


domingo, 28 de dezembro de 2014

Metas para 2015


Metas para ..., 2012; 2013; 2014 com TAC para 2015 (Termos de ajusta de Conduta)

1 - Vou emagrecer
2 - Vou ficar rico

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Um conto de Natal

Estava na cidade onde nasci, no interior do interior de Minas Gerais. Depois que fui embora, esta é a segunda vez que retornava. A noite era longa e dolorosa; a sensação era de que o tempo estacionara numa plataforma de embarque e lá ficara. O calor úmido abafado, o ventilador lento, a água tépida na jarra e o cansaço eram as companhias mais desagradáveis e indesejáveis do mundo.

A morte é momento de dor e reflexão, pensava, enquanto a enfermeira ajeitava o meu pai no leito, já em incansável agonia de luta e desespero pelo fio da vida que ainda teimava em resistir. 

Nunca nos demos, nunca fomos amigos, nunca conversamos sobre algum assunto de interesse mútuo. Cresci sem ouvir conselhos. Meu pai era um homem simples, trabalhador, tinha a virtude de ser um homem correto, honesto e alegre, mas estas percepções eram na rua e no trabalho.

Aos filhos, todas as noites, eram apenas um homem confuso, bruto e alcoolizado, que batia, brigava e atropelava quaisquer manifestações de carinho. Minha  mãe não se manifestava. Depois das surras ou broncas, entravam para o quarto e durante anos eu e as duas irmãs ficávamos imaginando o que ele fazia de tão ruim para que ela gemesse alto e ele a xingasse. Às vezes minha mãe gritava tanto que íamos dormir agarrados uns aos outros chorando.

Assim, dia após dia, semana após semana, anos a fio, a cena não mudara - pai alcoólatra, mãe submissa e filhos órfãos de carinho. Aos dezesseis anos fui embora pra o Rio de Janeiro. Voltei aos quarenta e dois no velório dela e agora aos cinquenta e três anos para acompanhar seu calvário. Minhas irmãs, que nunca mais vi, foram juntas para São Paulo dois anos depois da minha partida. Mamãe é que dava as notícias quando eu telefonava e ele ficava lá de longe, aos berros - desliga esta merda, esta desgraça nem sabe mais como estamos e fica ligando... depois que desligava, ficava imaginando os dois no quarto, ela gemendo e ele falando palavrões.

Recebi o telefonema da minha tia para que viesse rapidamente me despedir . A princípio desejei não voltar. Aquilo era demais para mim. Apanhara por tudo e por nada, nem sequer me deu uma bala chita de presente, nunca soube onde estudei, nem mesmo em que me formei. Um bêbado, ruminava, enquanto ela implorava pela minha presença.

Ainda não rompeu a alvorada, e o tempo estava meio esquisito, com chuva e apagões elétricos. Meu pai... puta que o pariu... que pai foi este? Quem é este homem moribundo na minha frente? Chamou-me com as mãos para que aproximasse. Tive medo, receio e nojo, mas fui chegando na cama. Levantou a mão direita trêmula, afagou meu rosto, olhou na minha alma e pediu perdão de uma forma que não sei explicar. Choramos muito, abracei-o - era o meu pai. Despediu-se assim, com meu perdão e com o abraço que nunca tive... naquela manhã de Natal.

É isto aí!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Amália Rodrigues - "tudo isto é fado"

Entre pontos

Alto lá - Este texto não é meu
Copiei e Colei
Autora - Marta Godoi
Fonte - https://www.facebook.com/marta.siqueiradegodoisampaio?fref=nf

Minha avó desfiava o algodão dos caroços com mãos pacientes e firmes. Com os dedos em pinça ia transformando-o em fio grosso que ia fuso para afinar. A linha rústica resultante desse processo era enrolada em carretéis de sabugo de milho e tinha várias serventias - Costuras a mão, remendos, amarras de embrulhos e até como fio para atar as incisões feitas pelos capadores de porcos.(umas das cenas mais cruéis que já vi).

A chegada das máquinas de costura a mão e de pé mudou comportamento e imagem da grande família, composta por umas vinte pessoas. Isso trouxe novidades: a "linha comprada", a "costureira formada em Belo Horizonte" (minha mãe) e a compra de "peças" de tecidos que o meu entusiasmado avô comprava em São Domingos do Prata. 

Mulheres, além da lida com a casa iam à costura. Do trec trec da tesoura a cortar tecidos em formas curvas, retas, miudinhas sobre mesa de madeira, da cantoria dos pedais velozes e das peças que surgiam, eu com os olhos na altura da mesa, tinha a mais absoluta certeza de que aquelas mulheres eram mágicas. Elas eram para mim as mulheres mais poderosas do mundo. O enfiar da linha até a agulha da máquina era um dos rituais decisivos para pertencer a esse mundo. Era a garantia do ponto perfeito. 

No final do dia as máquinas eram cuidadosamente cobertas com panos brancos alvejados em anil. Eram relíquias. Um tempo depois, era só olharmos para os varais. Camisas, vestidos, saias, calças, calçolas, lençóis, panos de prato, toalhas de mesa. Quase tudo era feito com o mesmo tecido. Um dia, eu usava um tubinho de um tecido em algodão floral bem delicadinho, e, quando olho para o velador de madeira que era usado para coar café, o coador era feito com o mesmo tecido. Mimetização total com a casa, com as coisas da casa, com as gentes da casa. De fio em fio, de ponto em ponto e de peça em peça aquela casa sempre vestiu meu corpo, minha pele. E desse vestir posso, quando quero, como agora, desnudar minha alma.

domingo, 21 de dezembro de 2014

A Justiça

Atenção - Este texto não é meu
Copiei e colei
Autor desconhecido - Circula na Internet há alguns anos sem crédito do autor. Foi extraído de um blog, cuja data, até o presente momento é a mais antiga, sendo balizada aqui como referência: 
https://montanhasrn.wordpress.com/2012/08/24/o-texto-do-dia-aula-de-direito/

Primeiro dia de aula, o professor de ‘Introdução ao Direito’ entrou na sala e a primeira coisa que fez foi perguntar o nome a um aluno que estava sentado na primeira fila:

- Qual é o seu nome?

- Chamo-me Nelson, Senhor.

- Saia de minha aula e não volte nunca mais! – gritou o desagradável professor.

Nelson estava desconcertado. Quando voltou a si, levantou-se rapidamente, recolheu suas coisas e saiu da sala. Todos estavam assustados e indignados, porém ninguém falou nada.
- Agora sim! – vamos começar .

- Para que servem as leis? Perguntou o professor – Seguiam assustados ainda os alunos, porém pouco a pouco começaram a responder à sua pergunta:

- Para que haja uma ordem em nossa sociedade.

- Não! – respondia o professor.

- Para cumpri-las.

- Não!

- Para que as pessoas erradas paguem por seus atos.

- Não!

- Será que ninguém sabe responder a esta pergunta?!

- Para que haja justiça – falou timidamente uma garota.

- Até que enfim! É isso, para que haja justiça.

E agora, para que serve a justiça?

Todos começaram a ficar incomodados pela atitude tão grosseira, porém, seguiam respondendo: - Para salvaguardar os direitos humanos…

- Bem, que mais? – perguntava o professor .

- Para diferençar o certo do errado, para premiar a quem faz o bem…

- Ok, não está mal porém respondam a esta pergunta:

“Agi corretamente ao expulsar Nelson da sala de aula?”

Todos ficaram calados, ninguém respondia.

- Quero uma resposta decidida e unânime!

- Não! – responderam todos a uma só voz.

- Poderia dizer-se que cometi uma injustiça?

- Sim!

- E por que ninguém fez nada a respeito? Para que queremos leis e regras se não dispomos da vontade necessária para praticá-las?

Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar quando presenciar uma injustiça. Todos. Não voltem a ficar calados, nunca mais!

Vá buscar o Nelson – Disse. Afinal, ele é o professor, eu sou aluno de outro período. Aprenda: Quando não defendemos nossos direitos, perdemos a dignidade e a dignidade não se negocia.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Quero ser amada

Eu te amo, Carminha.

Não, não me ama, Armandinho.

Claro que sim, sinto que posso morrer por este amor.

A morte, Armandinho, faz parte da vida, mas o modus operandi, o processo de  morrer é individual, e independe das escolhas que fazemos.

Não, Carminha, nunca fale assim comigo. Eu morro de amor por você!

O que deseja que eu fale? Que te amo? Não, não te amo.

Mas estamos juntos...

Sim, estamos juntos, mas isto não faz de mim uma mulher obrigada a amá-lo.

Lembra quando nos vimos pela primeira vez?

Sim, claro.

Então, Carminha? Aquilo não foi a fagulha do amor?

Vocês homens misturam tudo - desejo, tesão, paixão e amor para vocês são as mesmas coisas.

Mas estão juntas e misturadas.

E nem por isto são homólogas. São transportes diferentes, cada um destes sentimentos nos levam a uma experiência distinta, sempre saindo da mesma plataforma, mas nos entregando em destinos muito distantes uns dos outros.

Eu não entendo isto, Carminha, não entendo você.

Não estou aqui para ser decifrada, Armandinho, quero ser amada, possuída e desejada, uma coisa de cada vez, cada qual de um jeito, e todas elas, seja quais forem, sedutoras.

Nossa. Eu procuro fazer tudo certo para não te irritar...

Irritar? Você quer saber o que me irrita, Armandinho? Você é todo certinho. Nunca deixa pelos da barba na pia;  não surfa entre canais de TV quando estou na sala; sempre troca o rolo de papel higiênico, o sabonete e o shampoo quando acabam; sempre abaixa a tampa do vaso; apaga as luzes acesas desnecessariamente; não espalha xícaras, latinhas , farelos e sujeiras no tapete, no sofá ou na cama; nunca deixou toalhas molhadas no chão ou jogadas pela casa; não acumula roupas sujas no guarda-roupa e mantém o carro limpo e abastecido. 

Mas, Carminha, faço isto por amor... sincero e verdadeiro

Por que você não faz alguma coisa que me irrite, Armandinho? Que eu odeie?

Não, Carminha, jamais faria isto. Carminha, de onde tirou isto?

Eu quero que você reclame quando eu demoro excessiva e propositadamente ao me arrumar para sairmos; quando deixo absorvente usado jogado no cantinho do banheiro; quando deixo as luzes acesas só para você apagar; quando deixo a cozinha imunda e falo que estou com dor de cabeça; quando estou excitadíssima e digo que não quero.

Mas eu adoro saber que está se arrumando para mim, Carminha. E tudo o que faz é parte de sua personalidade. Não posso desejar que seja exatamente como desejo que seja. Puxa vida, não sei mais o que faço para ter você...

Ai, Armandinho, sabia que adoro este seu olhar perdido, esta sua busca pela perfeição de fazer tudo bem feito só para mim? Eu quero continuar assim, sendo procurada, perdida e devassa. Agora vem querido, que a noite é curta, e preciso de você  para viver os meus sonhos desta noite, por que os de amanhã ainda não aconteceram...


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As esquinas da vida

Chegou na empresa pontualmente às nove horas da manhã. Estava lacrada pela Justiça. Foi abordado por um oficial, identificou-se e foi levado à delegacia para prestar esclarecimentos. Não entendeu nada. Ficou tão desorientado pela situação ridícula que teve um ataque de risos. Pediu um advogado, e foi surpreendido pela pronta assistência.

Uma advogada que passava por ali imediatamente apresentou-se, entregou-lhe um cartão e disse que tudo ia ficar bem. Em seguida desapareceu. O delegado olhou para ele com desdém e disse - pediu um advogado e já foi atendido. Vai querer um chá gelado também? Agora fala tudo, conta aí o que eu quero ouvir e a gente acaba logo com este teatro. Vai, solta a garganta, doutor... conta tudo.

Tudo o que? O que vocês querem? Como assim? O que estou fazendo aqui? O que aconteceu com minha empresa? O telefone toca. O delegado atende e olha para ele com um olhar de raiva. Desliga e apontando a saída - saia daqui agora. Sai. Sai agora.

Mas, mas, espera, me explica alguma coisa. Dois agentes o carregam até a porta e o jogam na calçada. Ligou para os dois sócios, nada. Ligou para o deputado- mandou dizer que não estava. Ligou para o seu advogado - estava em reunião. Parou um táxi e seguiu para casa. A porta estava destrancada. Entrou e eis que depara com um bilhete preso em alfinete no sofá, escrito em letras garrafais de pincel atômico - Adeus. Nunca mais eu volto. A frase "Chega de escândalos" estava em batom no espelho do quarto.

Pensou, pensou, até começar a perceber que tinha algo ali o empurrando para um destino que até então se esquivara. Ligou para Leilinha, sua eficiente secretária, convidou-a para jantar e foram felizes para sempre.

É isto aí!






quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A construção do ódio

Só refletindo, por isto é um texto sem graça:

Quando leio nas redes sociais alguns jovens pedindo a volta da ditadura, preciso refletir para não perder meu tempo. Estão com ódio, e com ódio não há diálogo. 

Quando ouço negros apoiarem as políticas que mantiveram sob cativeiro social todos os seus antepassados até a sua geração incluída, preciso refletir para não melindrar as amizades. Estão sendo enganados, e aos que se deixam levar pela mentira, não há diálogo.

Quando vejo mulheres apoiarem estupradores e políticos misóginos, preciso refletir para não passar por agressor. Estão sendo submissas, e aos submissos ativos não temos como levar a esperança a curto prazo.

Empresários sonegadores, desde os micro até os mega, gostam de bater num governo trabalhista pela lógica na qual suas fraudes e desvios são desmascarados. Destes é possível a compreensão do por que odeiam tanto a democracia plena. São bandidos que gostam, apreciam e se deliciam com caviar nas mesas mal frequentadas de Miami, mas detestam pobres e sobretudo empregados com direitos trabalhistas.

Mas ver jovens, mulheres e negros com Síndrome de Estocolmo, sinceramente, dá uma sensação de que uma enorme operação de indução à subserviência foi muito bem realizada. São pessoas boas, honestas, trabalhadoras, religiosas ou não, que aceitam a ideia de que bastam denúncias plantadas aqui e ali, sem base, sem provas, sem fundamento, para que seus senhores feudais estejam corretos. Lamentável.

É isto aí!



Tareco e Mariola

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Irmandade da Luz Áurea

                                                  

Naquela noite, mais de duzentos irmãos da confraria reuniram-se para ouvir o Dr. Juquinha, que iria revelar sobre a vida e a rotina de um viajante das estrelas, dentro das astronaves que circulam entre os mundos. Ao iniciar a palestra:

Dr. Juquinha, Dr. Juquinha...

- Sim, quem?

- Aqui atrás, eu.

- Pois não, jovem, pode falar.

- Dr. Juquinha, será que o senhor não poderia permitir que a gente faça umas perguntas, dentro das nossas expectativas e o senhor vai respondendo e explicando dentro do seu conceito científico?

- Boa ideia. Acho louvável. Comecemos por você, então, faça a sua pergunta.

- Bem, estas naves que o senhor viajou são seguras?

- Pois é, veja que pergunta curiosa. No princípio fiquei assustado, pois as poltronas não têm cinto de segurança e não existe air-bag, nem janelas, nem pedais. 

- Ohhhhhh.... aplausos.

- Aqui, Dr. eu... e como vocês se seguravam nas curvas, nas acelerações, nas freadas?

- Então, excelente pergunta. Trabalhamos aqui na Terra com a gravidade, que é uma força universal, um princípio cósmico que ainda não dominamos. A força gravitacional é uma consequência da curvatura espaço-tempo que regula o movimento de objetos inertes. Se você controla um destes fatores, controla a energia que desprende em gravidade. 

- Ohhhhhhhhhhhhhhhhhhh... muitos aplausos

-Dr. Juquinha, tem banheiro nas espaçonaves?
- Muito boa sua pergunta. o vaso sanitário, ao contrário das poltronas, possui travas e cintos de segurança. Esses acessórios são usados para possibilitar que a pessoa permaneça em contato com o assento e não flutue durante um momento inoportuno. Como não é possível usar água para se livrar dos dejetos, o toalete dos astronautas conta com a ajuda do ar e do vácuo para manter tudo limpo.

- Ohhhh... alguns aplausos

- Dr. Juquinha, aqui, aqui..

- Pois não, jovem...

- Dr. Juquinha, e sexo? Como a gente pode fazer sexo na nave?

- Não tem como. O ser humano não tem um corpo preparado para copular sem gravidade. Ossos seriam quebrados, dezenas de hematomas e todos os fluidos orgânicos ficariam soltos no ambiente.

- Sério? Quer saber, Dr. Juquinha, não gostei destes ufonautas aí não. Coisa mais sem graça. Levantou-se e saiu, seguido imediatamente por  todos, que também se levantaram e saíram, deixando Dr. Juquinha, a maior autoridade ufológica do mundo, sozinho, sem entender o que se passava.

É isto aí!

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A moça de azul

Estava passando pela região a serviço. E havia ali na praça um corre-corre de organização para a festa municipal. Não era uma festa qualquer, e sim "A Festa", esperada por todos no decorrer do ano. A rua da Matriz era toda enfeitada, as casas com toalhas bordadas nas janelas, todos com suas melhores roupas, e à noite a bandinha tocava uns hinos salvíficos e depois era carnaval até amanhecer o domingo.

Foi então que a conheci, quando por acaso passava pela barraca de doces. Estava linda, tinha um vestido com detalhes em azul, estilo meio antigo, rostinho de anjo, fala mansa, e descalça - uau. Foi um encantamento à primeira vista. Amanhecemos conversando sobre diversos assuntos, no banco da praça, comportados, enamorados e apaixonados. Despediu-se com um sorriso e desapareceu na neblina da alvorada.

Resolvi ficar na cidade mais uns dois dias para reencontrá-la. Acabei passando a semana ali. Ninguém sabia da moça, nem no hotel, nem no único restaurante, nem na igreja. Andei pelas poucas e estreitas ruas, perguntei aqui e ali e nada. Tinha que partir e prometi retornar em breve para, quem sabe, entender o que havia se passado. Enquanto arrumava a mala, conferi no bolso do paletó se havia alguma coisa e encontrei um perfumado lenço de linho branco, bordado, elegante, contendo duas iniciais em letra gótica - S e M.

Seis anos se passaram, e eis que retorno àquela cidadezinha. Confesso que já não lembrava mais do episódio. Neste tempo casei, tinha uma filha, e já havia sido promovido na empresa a gerente de área, e estava visitando os clientes preferenciais. Como as viagens eram de uma rotina massante, e os negócios eram feitos sob enorme pressão da empresa, não dava mesmo para ligar processos pessoais com as cidades.

Era uma terça-feira. No café da manhã sentou-se à minha frente, dividindo a mesa, uma moça linda, mas muito linda mesmo. Ali ficamos conversando, conversando e quando dei por conta, estávamos na praça, sentados no banco, e já era noite. Não vi o tempo passar. Começou uma forte tempestade, despediu-se com um sorriso e desapareceu rapidamente. 

Ao chegar na recepção do hotel, completamente molhado, o gerente olhou meio preocupado para mim e segui-se o estranho diálogo:

- O senhor melhorou?
- Melhorei do que?
- Hoje cedo o senhor esteve aqui na recepção e falou com o encarregado que não estava se sentindo bem, e que iria ficar deitado, e se alguém o procurasse era para deixar o recado que o senhor entraria em contato. Como não saiu do quarto até o presente momento, nem a camareira entrou para arrumá-lo a fim de não perturbar o seu descanso. E agora o senhor aparece aqui todo molhado, como se tivesse entrado debaixo do chuveiro. Está suando? O senhor veio de onde? Quer que eu o leve ao médico?
- Suor? Não, isto é da chuva. Eu estava bem aqui em frente, no banco da praça quando começou a tempestade.
- Chuva? Não cai uma gota aqui já fazem uns sessenta dias, e daqui vejo toda a praça e com certeza o senhor não esteve nela hoje. 
- Levei a mão no bolso de forma involuntária e deparei com o lenço, tal e qual seis anos atrás, aí não lembro de mais nada. Acordei no hospital, com minha família ao meu redor, uns três dias depois. 

Já se passaram trinta anos. Os lenços ainda exalam perfume, as iniciais ainda são uma incógnita. Nunca mais voltei lá na cidadezinha, nunca mais a vi sequer em sonhos. Mas hoje estava sentado na varanda depois da janta, pensando, contemplando o nada, o entardecer lento e foi aí que ela passou e sentou no balanço lá do quintal. Estava a mesma coisa, não mudou nada. Acenou para mim, eu acenei para ela e acho que foi um adeus com sabor de até breve.

É isto aí!