sexta-feira, 26 de junho de 2015

Destruir para consquistar

Eu acho, e aqui é achismo mesmo, o conceito de propriedade privada que nossos antepassados colonizadores europeus trouxeram com a proposta de destruição de tudo e todos que a contradissessem volta, desta vez no novo mundo cibernético. Destruir valores para impor uma nova ordem. 

Eu não faço a mínima ideia de quem é o Cristiano Araújo, mas que descanse em paz. Com certeza existem milhares de pessoas que sabem dele, das suas músicas (sim, aprendi que cantava). Li de relance num site de notícias que as fotos do rapaz e da sua namorada pós acidente estão entre as mais buscadas na rede nestes dias. Como pode uma coisa destas? Quanta violência será necessária ainda para mudar nossa humanidade?

Na manchete de um destes noticiários online, há o desabafo do pai - será que Deus existe?

Bem, também foi assim com os "Mamonas Assassinas" - as imagens da tragédia circularam como um troféu entre os milhares de fãs, numa era de internet no nascedouro. Além dos famosos, vêem os anônimos, vitimados por tragédias de todos os tipos, de vários ângulos, à disposição dos adeptos. Enfim, é a curiosidade mórbida, exclusivamente humana, não só pela morte, mas pela tragédia que a promoveu.

No Youtube, existem milhares de vídeos de homenagem póstuma às pessoas amadas que já partiram. Algumas coisas chamam a minha atenção nestas manifestações de saudade, pela família ou amigos, que cito aqui sem critério de ordem:

1 - É um fenômeno mundial - quando você entra nestes grupos, a sensação é que vagueia por um cemitério.
2 - Sempre há os que não conhecem a pessoa, com as mesmas perguntas:
2.1 - Morreu de quê?
3 - Existem alguns com o desejo de destruição que fazem críticas ácidas:
3.1 - Mereceu morrer mesmo - era uma piranha, era veado, era puta, era safado, era isto, era aquilo.
4 - Sempre junto aos que vomitam sua acidez, surgem os moralistas ético-religiosos, contestando-os.
5 - Ao serem contestados, os injuriados têm um orgasmo e em seguida traçam seu perfil humano cruel por sobre todos.

Enfim, é um mar revolto este cemitério virtual, onde nem mesmo as boas intenções de cultuar a memória dos que partiram é respeitada. Este processo também está nas questões políticas, sociais e espirituais. Basta postar alguma coisa nas redes sociais que as pedras não demoram. As agressões acabam por delimitar, inibir, calar, enfim, elas são tão violentas quanto os covardes que se escondem por detrás delas.

Enfim, percebo nisto uma nova onda, mas com o mesmo e preciso pensamento - destruir para conquistar. Vou refletir mais sobre isto.

É isto aí!




Tatanka Yatanka

Carta do Chefe Sioux TOURO SENTADO (Tatanka Yatanka) ao presidente dos EUA em 1855 (Franklin Pierce)

"O governo norte-americano desejava adquirir o território da tribo...O Grande Chefe de Washington mandou dizer que deseja comprar nossa terra. O Grande Chefe assegurou-nos também de sua amizade e sua benevolência. Isto é gentil de sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade.

Porém, vamos pensar em tua oferta, pois sabemos que se não o fizermos o homem branco virá com armas e tomará nossa terra. O Grande Chefe em Washington pode confiar no que o chefe Seattle diz, com a mesma certeza com que os nossos irmãos brancos podem confiar na alteração das estações do ano. Minha palavra é como as estrelas. Elas não empalidecem.

Como podes comprar ou vender o céu - o calor da terra? Tal ideia nos é estranha. Nós não somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água. Como podes comprá-los de nós? Decidimos apenas sobre o nosso tempo. Toda esta terra é sagrada para o meu povo. Cada uma folha reluzente, todas as praias arenosas, cada véu de neblina nas florestas escuras, cada clareira e todos os insetos a zumbir são sagrados nas tradições e na consciência do meu povo.

Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um pedaço de terra é igual a outro. Porque ele é um estranho que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga, e depois de explorá-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo do seu pai, sem remorsos de consciência. Rouba a terra dos seus filhos. Nada respeita.

Esquece as sepulturas dos antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrecerá a terra e vai deixar atrás de si os desertos. A vista de tuas cidades é um tormento para os olhos do homem vermelho. Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende. Não se pode encontrar paz nas cidades do homem branco. Nem um lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o som das asas dos insetos.

Talvez por ser um selvagem que nada entende, o barulho das cidades é para mim uma afronta contra os ouvidos. E que espécie de vida é aquela em que o homem não pode ouvir a voz do corvo noturno ou a conversa dos sapos no lago à noite? Um indígena prefere o suave sussurro do vento sobre o espelho d'água e o próprio cheiro do vento, purificado pela chuva do meio-dia e com aroma de pinho. O ar é precioso para o homem vermelho, porque todos os seres vivos respiram o mesmo ar - animais, árvores, homens.

Não parece que o homem branco se importe com o ar que respira. Como um moribundo, ele é insensível ao mau cheiro. Se eu me decidir a aceitar, imporei uma condição. O homem branco deve tratar os animais como se fossem irmãos. Sou um selvagem e não compreendo que possa ser certo de outra forma. Vi milhares de búfalos a apodrecer nas pradarias abandonados pelo homem branco, que os abatia a tiros disparados do comboio. Sou um selvagem e não compreendo como um cavalo de ferro possa ser mais valioso do que um búfalo que nós, indígenas, matamos apenas para sustentar a nossa própria vida.

O que é o homem sem os animais? Se todos os animais acabassem, os homens morreriam de solidão espiritual, porque tudo quanto acontece aos animais pode afetar os homens. Tudo está relacionado entre si. Tudo quanto fere a terra fere também os filhos da terra. Os nossos filhos viram seus pais humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha. E depois da derrota passam o tempo em ócio, e envenenam o corpo com alimentos doces e bebidas ardentes.

Não tem grande importância onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são muitos, mas algumas horas, até mesmo uns Invernos, e nenhum dos filhos das grandes tribos que viveram nesta terra ou que tem vagueado em pequenos bandos nos bosques, sobrará para chorar sobre os túmulos. Um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança como o nosso.

De uma coisa sabemos, que o homem branco talvez venha um dia a descobrir: o nosso Deus é o mesmo Deus. Julgas, talvez, que O podes possuir da mesma maneira como desejas possuir a nossa terra. Mas não podes. Ele é Deus da humanidade inteira. E quer o bem igualmente ao homem vermelho como ao branco. A terra é amada por Ele. E causar dano à terra é demonstrar desprezo pelo seu Criador.

O homem branco também vai desaparecer, talvez mais depressa do que as outras raças. Continua a poluir a tua própria cama e hás de morrer uma noite, sufocado nos teus próprios dejetos! Depois de abatido o último búfalo e domados todos os cavalos silvestres, quando as matas misteriosas federem à gente - onde ficarão então as florestas? Terão acabado. E as águias? Terão ido embora. Restará dizer adeus à andorinhas da torre, à caça do fim da vida e o começo da luta para sobreviver...

Talvez compreenderíamos se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos quais esperanças transmite a seus filhos nas longas noites de Inverno, quais visões do futuro oferece às suas mentes para que possam formar os desejos para o dia de amanhã. Mas nós somos selvagens. Os sonhos do homem branco são ocultos para nós. E por serem ocultos, temos de escolher o nosso próprio caminho.

Se consentirmos, é para garantir as reservas que nos prometeste. Lá talvez possamos viver os nossos últimos dias conforme desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar acima das pradarias, a alma do meu povo continuará a viver nestas florestas e praias, porque nós as amamos como um recém-nascido ama o bater do coração de sua mãe. Se te vendermos a nossa terra, ama-a como nós a amávamos. Protege-a como nós a protegíamos.

Nunca esqueças como era a terra quando dela tomaste posse. E com toda a tua força, o teu poder, e todo o teu coração conserva-a para teus filhos, e ama-a como Deus nos ama a todos. Uma coisa sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus. Esta terra é querida por ele. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum. ""Quando a última árvore for cortada, quando o último rio for poluído, quando o último peixe for pescado, aí sim eles verão que dinheiro não se come."



terça-feira, 23 de junho de 2015

Bartolomeu Lindolfo

Bartolomeu Lindolfo era destes homens sérios, calados e ignorantes. Criou os filhos mantendo-os à distância, sem carinho e sem afeto. Nunca beijou ou abraçou sua esposa em público e sequer ousou vê-la nua. Sua vida sexual sempre fora reta e metódica. Tinha relações sexuais somente às segundas-feiras, desde que ela não estivesse em período menstrual. Para isto tinham um código, quando dos disas do fluxo, ela usava alguma peça da vestimenta em tom vermelho, como um lenço, um cinto, uma blusa ou até mesmo um par de meias.

Saia às cinco e meia da manhã e voltava pontualmente às dezoito e quarenta e sete, fato este que provocava apostas tensas entre os filhos e amigos da família. Ao chegar, colocava o chapéu no mesmo cabide, entrava no quarto, tomava banho frio, qualquer que fosse o tempo, colocava um pijama de algodão comprido, sandálias franciscas e dirigia-se à mesa da copa, aguardando o jantar, que deveria ter a presença de todos, em total silêncio.

Aos sábados saia às sete horas e quinze minutos, levando o carrinho de feira e só retornava entre dezoito e dezenove horas, sério, com o carrinho abarrotado de verduras e frutas. Jamais falou onde ia. Aos domingos a missa na matriz com toda a família, o sono à tarde e o rádio para ouvir qualquer jogo, deitado na rede, até adormecer. Acordava sempre assustado e seguia para o quarto. Na segunda-feira tudo recomeçava como um moto-contínuo.

Nunca chamou um filho pelo nome, não sabia onde estudavam nem o que faziam, mas adorava dar sermões de moral e bons costumes quando os reclames conflitavam no lar. Achava-se puro, correto e honesto. Nunca cantou no banheiro, nunca disse um palavrão nem olhou para alguma moça linda com olhos compridos. Sempre usou meias pretas, lenços brancos e suspensórios azuis, que combinavam com gravatas sistematicamente em tons creme com riscos azuis.

Engasgou à mesa, no jantar, sem que nenhum dos presentes, a esposa, filhos, filhas, noras e genros, percebessem sua aflição, e quando começou a apresentar uma estranha cor roxa nos lábios, Aderaldina, secretária do lar, veio feito ma faísca da cozinha, levantou-o segurando sob seus braços, colocou-o em pé, e aplicou-lhe a manobra Heimlich, que havia aprendido numa novela ou num filme, não se lembrava.

Bartolomeu Lindolfo cuspiu longe o osso que quase promoveu seu óbito. Beijou de jeito sôfrego os lábios carnudos de Aderaldina, apertando-lhe despudoradamente a saliente bunda e foi para o quarto em total silêncio, aguardando algum comentário que nunca veio. Nos jantares seguintes, ao tê-la passando ao seu lado, servindo os pratos, levantava-lhe a blusa, tocava-lhe os seios, apalpava suas coxas e ninguém dizia algo. Na realidade nem sequer olharam na sua direção.

Foi então que Bartolomeu Lindolfo percebeu que a família já o dava por morto. Naquela noite, levantou-se, passou na cozinha, pegou Aderaldina, colocou-a no carro e partiram para o mundo. A esposa deu por falta da empregada nos três dias seguintes, depois arrumou outra para o serviço e seguiu a vida.

É isto aí!

domingo, 21 de junho de 2015

As palavras vadias


Eu poetando "As palavras vadias"

As letras miúdas
das palavras vadias
amam-se ardentes
em delituosa extasia 

Flertam hiatos
beijam as tônicas 
seduzem átonos
em espasmos clônicos

Ocultam formas
desnudam a pele
rompem as normas
penetram no cerne 

Se esfregam dementes
em múltiplas glosas
nos orgasmos clementes
da amada gozosa.

É isto aí! 


sábado, 20 de junho de 2015

Pode não ser tão simples assim

Fredo, vem aqui fora só um pouquinho... Fredo!!! - gritou Dorinha sentada na cadeira de balanço, na varanda do sobrado azul, que dava para a rua.

- O que foi, Dorinha? - berrou Godofredo Martins do banheiro enquanto ainda lia a página de esportes do jornal.

Vem cá, Fredo, é que pensei um negócio aqui.
- Pronto Dorinha, ainda enxugando as mãos numa toalha de banho verde estampada de motivos florais em laranja e vermelho.

Estava aqui meditando uma coisa sobre os tupynambás da pátria amada, vizinha aqui da Pitangueira...

- Dorinha... para com isto. Você sabe que até a televisão agora é reveladora de pensamentos para a matriz da matrix.

Ah! Fredo, só estas modernosas é que gravam a conversa dos ricos e riquinhos, e depois mandam para um lugar aí que não se sabe onde. A nossa ainda é das caixonas, Fredo, aí não tem perigo não.

- Ah, bom... Achei que você ia falar das coisas estranhas que andam acontecendo na vizinha pátria amada, disse sussurrando.

Sim e não, Fredo. Tem alguma coisa acontecendo lá que estão muito esquisitas - muito ódio, muita raiva, muita injustiça, muitas prisões estranhas e ameaças dali e daqui. Mas daquilo que a gente não vê, pode imaginar, não é mesmo?

- É verdade, daquilo que  não se vê, pode-se imaginar. Então, Dorinha, o que você está pensando? 

Ontem eu liguei para a minha prima Odete, lá de Brasília...ah! Fredo - ela falou que o que se vê é a noite e o que está acontecendo é o dia. Se você vê a dona coisa coisando com aquele gordo pode não ser exatamente o que se vê, mas pode ser o contrário do avesso.

- Nossa, Dorinha, esta sua prima Odete manja do negócio mesmo, viu?

Olha, Fredo, a prima Odete dá só um prazinho, que assim que os interesses baterem tudo volta ao que será.

- Profundo, Dorinha... muito profundo.

É isto aí!

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A Viagem

A Viagem
João Cabral de Melo Neto


Quem é alguém que caminha

toda a manhã com tristeza

dentro de minhas roupas, perdido

além do sonho e da rua?


Das roupas que vão crescendo

como se levassem nos bolsos

doces geografias, pensamentos

de além do sonho e da rua?


Alguém a cada momento

vem morrer no longe horizonte

de meu quarto, onde esse alguém

é vento, barco, continente.


Alguém me diz toda a noite

coisas em voz que não ouço.

Falemos na viagem, eu lembro.

Alguém me fala na viagem.


O que não estamos vendo?


Acho que estamos vendo uma coisa enquanto está acontecendo outra, falou Dorinha sentada na cadeira de balanço, na varanda do sobrado azul, que dava para a rua.

- O que foi, Dorinha? O que você falou que não entendi? - berrou Godofredo Martins da cozinha enquanto colocava seu café na xícara de porcelana francesa, que ganhara da avó.

Falei nada não, Fredo, só pensei em voz alta.

- Ah, bom... Achei que você estava falando das coisas estranhas que andam acontecendo na vizinha pátria amada, disse já chegando na porta.

Sim e não, Fredo. Tem alguma coisa acontecendo lá que não está clara - muito ódio, muita raiva, muita injustiça, muitas prisões estranhas e solturas esquisitas. Mas daqui a gente não vê tudo, não é? Não vê tudo!

- É verdade, daqui não se vê tudo.


quinta-feira, 18 de junho de 2015

O segredo do marido, da esposa e da amante


Quando amanheceu, ainda caminhava por todo o apartamento, bastante contrariada. Não sorria aqueles dentes alvos, não passara o perfume preferido e nem saíra nas duas tardes quentes, anteriores, para tomar guaraná com açaí. O fato se deu desde que turva ficou quando soube por mensagem anônima que Olavinho tinha um caso. Logo ele, puxa vida... logo o Olavinho, o herói, o amor, a paixão, o companheiro, o amante, o melhor amigo.

Chorou convulsivamente por dois dias seguidos, obtendo bolsas enormes sob os olhos e um nariz irritantemente irritado. Ao deparar com sua imagem no espelho, sentiu o golpe da deterioração humana. Estava acabada por aquele amor. Nunca mais outra vez, refletiu. Olavinho agora era um pote de ódio a ser vedado para sempre. Nenhum homem merece tanto sofrimento - olhos nos olhos do seu reflexo jurou, pela alma de todas as mulheres do mundo que jamais outra vez seu coração se daria a tão grande apego.

Reclusa e incomunicável, recebeu a visita da melhor amiga, duplamente desesperada. Teve receio e dificuldades para abrir a porta, mas acabou cedendo pela possibilidade de repartir a dor. Era Soninha no interfone.

A moça entrou já em prantos, buscou o ombro da melhor das melhores amigas. Entre lágrimas e soluços não conseguia falar. Acolheram-se entre seus braços e mantiverem-se solidariamente em prantos únicos e direcionados à mesma dor. Convenceu-a a sentar e trouxe-lhe um copo de suco de maracujá. Soninha tomou trêmula, sem sentidos, olhos parados, em total ritmo de implosão sentimental.

Já refeita, ao menos em condições de expor seus pensamentos em conflito, dirigiu-se à melhor amiga:

- Amiga, estou arrasada

- Puxa vida, Soninha, não fica assim não. O que aconteceu?

- Eu estava tão nervosa, até te mandei uma mensagem... mas acho que não mandei, sei lá, estava desesperada.

- Mensagem? Que mensagem?

- O O... o O... (lágrimas) o Ola... (lágrimas e lábios trêmulos) o Olavinho tem uma amante (chora convulsivamente, tronco inclinado, cabeça sobre as coxas e mãos segurando a face).

- Sério? O seu marido tem amante? De onde você tirou isto, Soninha? O Olavinho é um exemplo de marido, pai, empresário, enfim, é o modelo de homem para a sociedade.

- É que eu vi um anel de brilhantes no cofre tem uns quinze dias, e meu aniversário já foi há três dias, e ele não me deu nada, e aí olhei no cofre e estava vazio, então só pode ser de alguma vadia.

- Que isto Soninha, é só isto? Tem nada disto, amiga, ele queria te fazer uma surpresa, te dando o anel junto com o carro novo, ele mesmo me contou, mas o carro ainda não chegou, pode ficar tranquila, está tudo bem.

- Puxa vida, amiga, você é a melhor amiga do mundo, mas e agora? Eu desconfiei dele e por causa disto a surpresa acabou.

- Fica tranquila e faz bastante festa, por que segundo ele me pediu para verificar o carro chegará na semana que vem, está bem, amiga?

- Nossa, fiquei tão feliz agora, que alívio, amiga...

Já em casa Soninha reflete, socando levemente a palma da mão esquerda com a direita, com aquele olhar semi-cerrado e lábios espremidos - coitada da minha amiga, vê se eu ia querer só um anelzinho de aniversário...


É isto aí!

  






sábado, 13 de junho de 2015

Então está bem, tem amor mais não

Então foi isto
assim do nada
Um tipo esquisito
e uma fulana errada

Impávida perfídia 
na deselegante volúpia
Entre estalos e carícias,
trama a conduta

Ela, cabelos soltos
ele, encaracolados
Ela, doida normal
ele, doido danado

Disse adeus brincando
acenou-lhe sorrindo
                                                        Ele experimentou o pranto
                                                        da vida a fórceps parindo
  
                                                        Dois amores etéreos
                                                        dividiram lustres na sala
                                                        Ela ficou com as fotos
                                                        ele levou ama-la


É isto aí!




segunda-feira, 8 de junho de 2015

Lendas do Coração - Sangue e Arena


Teodoro Borges era um funcionário público exemplar, destes metódicos e fiéis ao serviço. Em vinte e oito anos de carreira jamais atrasara, faltara ou mesmo reclamara de quaisquer coisas que o aborrecesse. Andava sempre num indefectível terno de linho azul marinho com suspensórios sobre uma camisa de algodão egípcio em tom azul claro e uma gravata borboleta para cada dia da semana. Os sapatos ao lustro máximo, as meias esticadas no limite e eventualmente, nos dias mais frios, um cachecol de casimira japonesa.

Numa tarde modorrenta de verão, adentrou à repartição pública um toureiro, destes matadores, com o cabelo todo preso para trás, e uma roupa somente vista em fotos e obras de arte. Maria Garcia levantou seu óculos piciné à altura dos seus olhos de peixe morto e aos gritos pouco peculiares, agudos e estridentes gritou - gente, é o Dr. Teodoro Borges. Todos correram para ver a cena. Estava transfigurado e olhando em pânico para aquela estranha platéia em choque.

Teo, como era conhecido, estava com um traje de luces,  vestindo uma pequena jaqueta vermelha com arabescos dourados, com ombreiras largas e grandes aberturas nos braços, chamadas de Chaquetilla sobre uma camisa de seda em amarelo suave, e no pescoço o Corbatin, que é uma gravata quase de uso exclusivo dos toureiros.

A Taleguilla, ou seja, a calça, extremamente justa e apertada, começava acima da linha da cintura terminando no joelho, era do mesmo tecido da Chaquetilla, e tinha presa à ela um elegante e largo suspensório magenta. As meias eram em dois pares, sendo as de baixo brancas de algodão presas à Taleguilla e as de cima, de seda, em tom rosa. 

As Zapatillas, ou sapatos, eram pretos com um laço de couro bem pronunciado sobre o dorso do pé. À mão tinha uma Capote de paseo, que é aquela capa de seda usada no início das touradas para a apresentação ao público, também em seda fina, lilás com arabescos em ouro.  

Na cabeça um Montera preto, com dois relevos na laterais, bem encaixado, de maneira que acompanhava os movimentos da cabeça. No bolso um lenço de seda com a estampa de Nuestra Señora de Guadalupe.

Dr. Parreira, o chefe da seção foi chegando e abrindo caminho. Olhou bem, cutucou-o com o indicador e disse.
- Mas o que é isto, Teo?

No comprendo lo que usted dice, señor. No lo sé y tampoco de este Teo a quién se refiere.

- Para de brincadeira, Teo. Sou eu, o Parreira. Maria, chama lá a Margareth, fala que é urgente.

Dra. Margô, o Dr. Parreira solicita sua presença com urgência na seção.

Dra. Margô, a chefe do Departamento veio às pressas. Chegou esbaforida e ao ver a cena fez uma expressão a princípio de espanto. Foi se aproximando, chegando bem devagarinho e  dirigiu a palavra ao toureiro.

Hola! ¿Qué tal?,

Estoy bien. ¿Y tu, Marguerita?¿ Como estás?

¿Entonces? ¿Eso es verdad?

Sí y no. Como se puede ver con sus propios ojos, yo no sé si es correcto, pero yo te quiero más que a nada.

Teodoro avançou em passos de toureiro na direção de Margô, tocou-lhe delicadamente a face, rodopiou seu Capote de Paseo magistralmente sobre os dois e deixou-o cobri-los por inteiro e para surpresa e desespero geral, desapareceram sob ele, por encanto. Todos se voltaram quase que imediatamente para Seu Clebinho do RH, marido de Margô, que na frente de dezenas de olhares cínicos, ao grito ritmado de "pula, pula", transformou-se num imenso e selvagem touro, avançou bufando e urrando rumo à janela e saltou do 1° andar para o vazio existencial, desaparecendo no infinito da rua descalça. 

É isto aí!





sábado, 6 de junho de 2015

Mercinha da Lanterna Azul


Olá gente, meu nome é Clover, e eu gosto de ser chamado assim mesmo Clô-vér. Ok? Muito bem, todos na marcação. Gente, presta atenção. Este é o primeiro ensaio da dramaturgia que têm em mãos. E vê lá, hem. Todos já leram o roteiro? Alguma pergunta? 

Pois não, Robertinho? Gente, para quem não conhece, este é o Robertinho, cujo pai é o chefe do serviço de de ..., como dizer, bem, isto, distribuição e controle de tráfego, digamos assim, aqui na nossa comunidade e é o patrocinador desta peça.

(todos batem palmas para o Robertinho)

Seu Clover, veja bem, só uma dúvida, aqui. O senhor mencionou algo sobre ler o roteiro. Roteiro não é aquele sujeito que a gente paga para mostrar as atrações turísticas quando a gente viaja? Eu não vejo nenhum aqui.

(todos têm risos discretos e olhar de espanto)

Robertinho, aquele denomina-se "Guia Turístico". Roteiro é a peça propriamente dita escrita pelo dramaturgo, e nós estamos aqui reunidos em nome do seu pai, nosso grande benfeitor (palmas de todos) para transformarmos este roteiro numa peça teatral.

(todos olham em direção ao Robertinho, que não olha para ninguém.)

Gente, façam igual ao Robertinho, se tiverem dúvidas, parem o ensaio e perguntem. É assim que se faz. Parabéns Robertinho (palmas para o Robertinho). Então vamos lá, atenção na ordem de fala e não se preocupem com a cenografia, pois ela ainda está em fase de implantação. 

Seu Clover, desculpe, mas eu não estou entendendo uma coisa aí que o senhor falou e eu acho, por favor, não me leve a mal, eu acho e só acho mesmo que estas palavras aí que o senhor falou são de baixo calão.

Quem perguntou?

Eu, aqui atrás, meu nome é Regina Gulla, com dois eles, viu gente? Dois eles, não vão confundir, hem... risos só dela.

Regina Gulla, gente, o pai da Regina Gulla é o dono agência de segurança, digamos assim, aqui da nossa comunidade e foi ele quem levantou, digamos assim, todas as roupas e figurinos que vão ser utilizados na peça (todos aplaudem a Regina). Então, Regina, quais são as palavras que você sentiu ou percebeu serem de baixo calão?

Seu Clover, é minha formação, sabe, sou muito educada e minha família é muito religiosa. Uma é esta aí, gente nem sei se vou conseguir falar... dra...dra...dramaturgo e a outra é, ai meu Deus, deve ser até pecado repetir o nome... mas é esta tal de cenografia.

Bem, Regininha, posso te chamar assim? Obrigado. Bem, Regininha, o que você entende quando falo Dramaturgia e Cenografia?

(Vermelha, tremendo, gaguejando e com olhos mareados) Bem, seu Clover, é para responder mesmo? Todo mundo já sabe. 

Pode falar, Regininha, você está só entre amigos.

Ah, seu Clover, está bem. Dramaturgia não é aquele negócio onde todo mundo come todo mundo e Cenografia não é quando filmam isto e vendem o filme?

(Ohhhhh! Uns seguram o riso, outros ficam estupefatos)

Regininha, alguém te ensinou errado, minha filha. Olha só, vou escrever aqui no quadro a palavra Cenografia, que vem do grego "skenográphos". Viu? Ela ser refere ao cenário desde a montagem até a realização do evento e Dramaturgia, do grego "Dramatourgia" e ela, a dramaturgia, não está relacionada somente ao texto teatral, ela está presente em toda obra escrita para as artes cênicas. Entendeu?

Agora entendi, Seu Clover, muito obrigada.

E aproveitando, agradeça ao seu pai pelas roupas e, claro, pela segurança do espetáculo (palmas de todos para o pai da Regininha).

Bem, já que tiramos todas as dúvidas importantes...

Seu Clover, seu Clover...

Quem chamou?

Aqui, Zequinha do Gás.

Pois não?

Seu Clover, o que significa esta coisa de "Artes cênicas"?

Escuta aqui, Zequinha, você é quem?

Sou filho da Mercinha da Lanterna Azul ...

Ah! A Mercinha da Boite?

Isto mesmo, seu Clover, o senhor conhece a minha mãe?

O suficiente para saber que você é um tremendo de um filho de uma puta desinformado, agora cala a boca, volte-se para a sua insignificância na pirâmide social, que vamos começar logo o ensaio, por que a sua mãe, Zequinha, não quis dar nada de graça para mim, ouviu, Zequinha? Ela não quis dar nada de graça para... ajudar na peça, digamos assim.


É isto aí!


sexta-feira, 5 de junho de 2015

Um dia de cada vez



Acordou exausto, ao lado uma mulher nua, das mais lindas mulheres que já ousou pensar. Ligou o celular e viu umas quarenta chamadas, umas do escritório, outras da esposa, outras dezoito de um número estranho e desconhecido. Olhou as horas - vinte e trinta, pensou e falou alto e bem assustado - caramba, oito e meia da noite.

Entrou rápido no banho, e enquanto a cabeça esfriava começou a se indagar onde estava, com quem estava e como chegou ali. Puxa vida, será que tive uma amnésia. deixa eu ver - meu nome é João, meu pai Juca, minha mãe Marinalva, moro da rua da Angústia, 117. Não... não perdi a memória. Mas como vim parar aqui? Será que esta mulher me drogou? Mas como fez isto? refez mentalmente umas dúzias de vezes o percurso rotineiro e nada de lembrar de algo. Saiu do banheiro com mais perguntas do que quando entrou.

Ao parar de esfregar a toalha no cabelo, percebeu que a desconhecida não estava mais na cama, mas haviam dois homens, destes com sobretudo marrom e chapéu panamá, sentados aguardando perceptivelmente a sua disponibilidade. Olhou desconfiado e cumprimentou com uma saudação simples, sem nenhuma resposta. Um terceiro com jeito de chefe entrou, olhou para a dupla, fez sinal discreto com a cabeça, levantaram, o algemaram sem violência e o conduziram ao lado externo.

Era uma casa de madeira, muito bonita, de dois andares, no meio de uma floresta densa, com um jardim deslumbrante em toda a sua volta. Só havia um carro, onde o colocaram e seguiram em total silêncio os quatro passando por uma vila em estilo germânico, com placas e cartazes supostamente em alemão ou polonês. Mas o que significa isto? Perguntou. O suposto agente ao se lado falou alguma coisa parecida com alemão em tom tão áspero que entendeu ser um cala a boca.

Numa estrada vicinal, de súbito, dois furgões fecharam a passagem, saltaram três pessoas de cada, com armas potentes, atirando contra o automóvel, que imediatamente parou. Algemaram os homens em torno de um tronco de árvore, pelas mãos e pelos pés, e atearam fogo ao veículo. Foi jogado com violência no carro. Aí não viu mais nada, quando uma injeção foi aplicada sem nenhum cuidado na sua coxa esquerda. Abriu os olhos bem confuso e não sabia quanto tempo havia passado Ao lado, a mesma mulher nua, das mais lindas mulheres que já ousou pensar. Estava sem o celular.

Olhou nos olhos dela, sorriram e beijou-a sem medo do amanhã. Desligou de todos os problemas e refletiu - quer saber? Um dia de cada vez!


É isto aí!

quinta-feira, 4 de junho de 2015

O Casamento na roça e a flor de maracujá


Querido Ambrósio
Ispero quiesta carltinha te encontre em paz. Aqui na roça tudo bão. A Margarida deu vinte e dois litros de leite otro dia e o capadin que tava na engorda pro natal já tá com pouco mais de cem quilo. Sabe a Lambretinha? A danada pariu no meio do pasto, precisa ver a lindeza do cabritinho. Maracujá este ano não está dando muito nem prá carmar a gente qui nem eu, que tô aí, né Ambrósio, nesta seca danada. Beijos da sua amada, Chiquinha.


Querida Chiquinha

Sua carltinha se me incontrô, muito gradecido. Ocê querdita que naqui na cidade as coisa são quase iguá que na roça? Óia a Margarida, tem um tanto dela aqui donde moro, cada peitão que dá medo até de pensar em ordenhar, mais de vez em quando ando pertando uns só pru mode de mantê as prática. Aqui tamém precisa ver a quantidade de capado, Chiquinha, é trem de louco. E tem umas maracujá lá onde eu trabaio que dão o ano inteiro, cada frô mais linda que a outra, e sabe como é, na precisão eu acabo comendo uma e outra prá carmar os ânimo. E Lambretinha? Ocê já é titia, hem Chiquinha, deve de ser a a cara dos sesu irmão. E aqui tem chovido muito, não tem seca não.


Querido Ambrósio

Ispero que esta carltinha te encontre vivo. Aqui na roça tudo em paz. Óia bem o qui vô ti dizer - eu tenhu cara de boba e é só isso, Ambrósio. Aconhesso bem dessas vacas da cidade, óia Ambrósio, cuirdado que elas pode inté ficá mansa por causo do capim qui ocê pranta, mas prestatenção, dos capados daí é engraçado mesmo, achu que ocê vai tê o mermo destino quando batê os óios nieu, Ambrósio. Agora titia de cabrito é as rameiras das suas irmã, e tem mais, destas frô de maracujá que ocê tá comeno aí, pode continuar por causo de que a seca aqui já já acaba puruquê os pepinos cresceram tudo nim vorta daqui de casa.


Querida Chiquinha

Si aprepare e arrume se toda e tudo, por causo de que nestes porquin dias de cabá o meis, já vorto pru nosso casamento.  


Querido Ambrósio

Nossenhoraparecidoperpetusocorro, vai sê bão dimais da conta. Ocê divinhou meus pensamento, amor.


É isto aí!






  

terça-feira, 2 de junho de 2015

O tempo e a rosa



Sabia muita coisa 
e também poucas coisas. 
Promovia a distinção entre o gerúndio, o particípio, 
o infinitivo pessoal e o infinitivo impessoal 
dos verbos que circulavam 
pelos egos presentes e ausentes. 
E hoje penso que a palavra 
sempre foi exatamente esta 
- ela promovia a distinção das formas, 
dos conteúdos e dos pensamentos.

Morreu de forma estranha, 
como estranhas são todas as mortes. 
Partiu sem dizer adeus, 
e como todos que se vão, 
fica a ausência, 
aquela enorme agonia 
que ocupa corações e mentes 
diuturnamente, 
como uma cadeira marcada 
esperando pelo dono do lugar. 
Eis aí um grande mistério da vida, 
este de desaparecer o corpo 
e permanecer os ensinamentos 
e o pensamento vivo 
como uma vela em chamas.

Já que citei a vela 
lembrei que um dia, 
em algum lugar do passado, indagou-me: 
Diga, como uma vida vem andando no espaço 
e tal qual uma vela acesa, 
atinge o fim do pavio 
se não somos uma tocha humana? 
Então como se dá o fim 
se não temos princípio pirotécnico?

Isto é devido ao tempo, bati de pronto. 
Ela riu muito 
- rapaz, escute o segredo da vida: 
O tempo não existe, 
ele é uma criação humana, não dos deuses. 
Ele, o tempo, é apenas uma ilusão. 
Somos todos passageiros 
deste espaço que agora ocupamos 
e assim seremos em outro espaço, 
em outro espaço e outro e outro ...
até chegarmos ao fim da viagem 
que nunca tem fim. 
Seja bom sempre, 
faça o bem sempre, 
e siga reto, 
pois assim sua vida terá mais obstáculos do que as outras, 
mas terá a sabedoria de desobstruir a estrada.

Partiu e ficaram as rosas que plantou, 
e ficaram e ficaram e ficaram...


É isto aí!

domingo, 31 de maio de 2015

Coisa mais linda


Composição: Vinícius de Moraes e Carlos Lyra
Quem canta - Roberta Sá

Coisa mais linda  é uma uma canção composta por Carlos Lyra , gravada em 1961 por João Gilberto (Coisa mais linda). Como em muitas das canções da bossa nova, a letra, escrita em 1959 pelo aclamado poeta Vinícius de Moraes, exalta a beleza de uma mulher, de estar apaixonado e do próprio amor. A bossa nova reagiu ao tema tradicional do “Ninguém me ama, ninguém me quer”, falando de praia, mar e amor. A música extrai seu som singular de uma batida de samba renovada, uma melodia harmoniosa e letras alegres, positivas, emitidas quase num sussurro.

Coisa mais linda - Poema de Vinícius musicado por Carlos Lyra:

Coisa mais bonita é você, Assim,
Justinho você, eu juro, 
eu não sei porque você.
Você é mais bonita que a flor,
Quem dera a primavera da flor
Tivesse todo esse aroma de beleza 
que é o amor
Perfumando a natureza numa forma de mulher

Porque tão linda assim 
Não existe a flor
Nem mesmo a cor não existe
E o amor
Nem mesmo o amor existe

E eu fico um pouco triste
um pouco sem saber
se é tão lindo o amor
que eu tenho por você


Roberta Sá, Roberta Varella de Sá (Natal, 19 de dezembro de 1980) é uma cantora brasileira de MPB, samba e bossa nova. Sua discografia conta com seis álbuns de estúdio, e dois CD/DVD ao vivo. Em 2007, Roberta Sá foi indicada ao Grammy Latino na categoria de "Artista Revelação", juntamente com o sambista Diogo Nogueira.


Histórias do Coração - Julinha feliz para sempre!

Frederico estava numa entendiante festa de natal da turma do escritório da namorada, uma escultura de mulher que fazia olhos e corpos se virarem para sua sempre perfumada existência. Enquanto circulava pedrinhas de gelo com o dedo indicador no copo, ouviu a conversa entre a companheira e duas amigas tão estonteantes quanto.

Não falei para vocês? Julinha é anti-social. Não veio e jamais virá, ela se sente superior, sei lá, não se mistura. As três riram muito da ausência da moça.

A amiga disse - Julinha é uma boba, tem uma vidinha normalzinha, sem saltos, sobressaltos, espasmos ou orgasmos que a fizessem perceber que há vida lá fora. Vinte e oito anos, graduada, pós-graduada, psicanalisada, viajada, bilíngue, eficiente, moderninha, sempre com aquele sorriso enigmático estampado na alva face brejeira. As três deram gargalhadas pela vidinha da moça.

A outra acrescentou - Que eu saiba, aquela paranoica não tem amigas, nem namorado, nem instantes, momentos ou spots de prazer. Não tem referências bibliográficas para citar, filmes cult, peças de teatro inolvidáveis, músicas prediletas e nem religião confessa. Nunca se soube de que tivesse um bar preferido, uma bebida única, um restaurante predileto ou mesmo um prato que a identificasse. As três se curvaram de tanto rir pelas paranoias da moça.

Volta para a namorada - Minha tia falou que ela nunca praticou delitos de quaisquer intensidades, nem colou nas provas, nem desejou o namorado das outras meninas, nem chorou em público, nem reclamou uma cutícula inflamada ou uma unha quebrada. Se tinha cólicas, sofria em silêncio, assim como quaisquer outras enfermidades. As três destilaram uma fina ironia e escárnio pela honestidade da moça.

A amiga intensificou os dados - Ela é ridiculamente certinha. Não possui roupas da moda, nem sapatos de princesa, nem lingeries caras, nem jóias de metais preciosos, muito menos diamantes ou rubis... Frederico pediu licença e  saiu dali mareado, procurou e encontrou Julinha e foram felizes para sempre.  

As três fizeram juras eternas de ódio da moça.

É isto aí!

quinta-feira, 28 de maio de 2015

O realismo fantástico da política tupynambá (incorporando o personagem)

2º Ato, Cena 1

Marreta, você só tem que entrar pelo lado direito, aí vem andando furtivamente em diagonal até o centro, onde está marcado, volte-se para a platéia, abaixe a cabeça, faça uma expressão de dor, leve a mão esquerda ao peito e a direita à testa, e caminhe com dificuldade até o segundo ponto marcado, em linha reta, e pare, solte os braços, e ainda de cabeça baixa, olhe para o público com um sorriso sarcástico.

E você, Manezinho, vem andando descontraidamente da esquerda em diagonal até o centro, onde está marcado, volte-se para a platéia, abaixe a cabeça, faça uma expressão de fome, leve a mão direita sobre o estômago e a esquerda à boca, e caminhe desconfiado até o segundo ponto marcado, em linha reta, e pare, solte os braços, e ainda de cabeça baixa, olhe para o público com um sorriso simplório.

Neste momento a sonoplastia emitirá um som de peido, alto e facilmente identificado. Então um olhará desconfiado apontando o dedo para o outro e voltam ao ponto de entrada do cenário, pelo mesmo trajeto, em passos rápidos. Entenderam? Agora façam.

Mas o que é isto? É para um entrar pela direita, e outro pela esquerda. Qual o problema de vocês? É uma crítica de valores. Venham separados, um pela direita e outro pela esquerda. Tem nada disto de se cumprimentarem no centro e caminharem juntos. 

Corta - Mas que merda é esta? Tudo bem, você entrou pela direita, mas não é para fazer movimentos em círculo. Faça a diagonal para o centro. É uma metáfora, entendeu? Me-tá-fo-ra. O que não está entendendo? E você? De onde tirou esta ideia de que pode vir de costas da esquerda até o centro? Acha que assim ninguém percebe? Tem que fazer parecer que o caminho está livre, que é parte natural do processo que está ligando os dois pontos, entendeu?

Parem tudo, voltem e recomecem. Pombas, Manezinho, não é para ficar no centro com olhar ameaçador à direita. Nem mesmo mandei você, Marreta, voltar de onde veio depois da cara feia do Mané. Simples assim, cumpram o script. 

Mas que palhaçada é esta agora? Tira já estes óculos escuros de mafioso. Onde já se viu isto? E este colarinho imenso? Venha da direita para o centro sem máscara, sem esconder o rosto, apenas venha. E você, Mané? Tira esta merda desta camiseta regata com bolsa pochete. Voltem lá e se arrumem.

Puta que os pariu, de onde tiraram este rebolado para fazer a diagonal? E este boá no pescoço dos dois? Parecem duas vedetes da chanchada. E você, anda normal, caralho, nor-mal. E você, o que é este pó branco no nariz? Eu falei que isto não vai dar certo nunca, mas os patrocinadores... Bem, recomecem.

Incorporem o personagem, sintam o poder na mão dos dois, se odeiam e se completam. Penetrem fundo na história. Vocês agora são a personificação do texto. Tirem do fundo da alma todos os seus sentimentos. Isto, muito bem, Excelente. Que sarcasmo realista. Isto, mostrem que incorporaram os personagens. Agora o olhar e ... puta merda.. que cheiro é este? Vocês se borraram simultaneamente quando chegaram na frente do povo? Caramba - isto é realismo fantástico...

É isto aí!




terça-feira, 26 de maio de 2015

Histórias do coração - Eu te amo para sempre!

Era apaixonado, destes que esperavam um simples olhar para sentir-se contemplado. Ela era a mais linda, a mais rica e a mais charmosa menina da escola. Eu carregava seus livros, fazia seus trabalhos, assinava seu nome na lista de presença e ficava ali, suspirando a espera de que alguma coisa espetacular acontecesse entre nós naquela pequena e pacata cidadezinha do interior.

Concluímos o segundo grau e ela sumiu, de forma que nunca mais a vi, bem como sua família, pois mudaram todos para a capital, segundo Tia Geninha, que sabia tudo o tempo todo. No baile ela me beijou de forma inesperada. Foi meu primeiro beijo na boca, de uma maneira singular, sem saber onde fazer o que com os braços ou com a língua. Ficamos abraçados uma eternidade e aí disse adeus.

Trinta e dois anos depois estava viajando a negócios e pernoitei no interior de São Paulo, rumo ao Paraná, quando tive uma imensurável e terrível dor de dente. A cidadezinha é uma estância climática, muito bonita, mas pequenina, sem muitos recursos de atendimento à saúde. Liguei para a recepção do hotel  e pedi ajuda, pois a sensação de sofrimento era insuportável.

Passados longos dez minutos, um táxi surgiu e encaminhou-me a uma casa muito bonita, imensa, nos arredores da cidade. O motorista disse que o hotel já havia contactado a dentista, e que logo iria me atender, e que ela já tinha este hábito de receber turistas em caso de emergência. Fui andando meio desconfiado, mas aí as luzes foram acesas e uma idosa surgiu na porta, perguntou se eu era a pessoa indicada pelo hotel, respondi que sim, mandou-me entrar e esperar pois a doutora já iria me atender.

Enquanto esperava, vi seu nome  nos quadros da parede, além de fotos da minha cidade natal, rostos conhecidos, velhos amigos, etc. Aquilo me anestesiou. Iria vê-la e de repente tudo era ansiedade. Era ela, minha musa, meu amor, minha metade, a razão dos meus dias na Terra. Fechei os olhos e senti seu perfume, seus cabelos longos, castanhos e cacheados, seus braços de princesa, suas pernas perfeitas, sua boca de carmim, tudo isto agora deveria se transformar no instante mágico do encontro com minha alma gêmea.

Ouço passos, são dela, sei que são pois são passos de uma deusa. Começo a suar e tremer todo o corpo. Lágrimas caem, acho que vou beijá-la assim que... espera aí. Você é a dentista?

- Sim, disse uma mulher horrorosa, rosto desfigurado por plásticas, seios turbinados com silicone, cabelo escorrido, meio vermelho, meio abóbora, com raízes brancas aparentes, dentes amarelados por nicotina, cheiro de perfume barato, jaleco imundo e ensebado, colocado por sobre uma camisola transparente que denunciava uma desproporção entre altura e largura, onde a calcinha tinha um furo sobre a primeira dobra da coxa esquerda. Pernas com varizes geográficas e uma sandália rasteirinha com pom-pom lilás compunham o conjunto. 

A dor voltou para meu desespero. Levou-me ao consultório, que na penumbra e pela dor, julguei ser uma pocilga sem nenhuma capacidade de suportar uma mínima visita de agentes sanitários, e talvez pela falta de um raio-x, foi martelando dente por dente até atingir a fonte do problema. Urrei aos céus. Explicou-me que se tratava de um possível processo infeccioso, e que apenas iria abrir para diminuir a pressão do abcesso, de maneira que pudesse prosseguir viagem até um centro maior e cuidar da causa. O problema era que não teria como anestesiar pois a área estava muito inflamada.

Perguntei o preço, e determinei que fizesse o que deveria ser feito. Logo ao iniciar a incisão, senti um jato de pus saindo seguido de outro e outro e não sei mais quantos. O cheiro na sala ficou insuportável. Ela foi alvo da trajetória na roupa, no cabelo, no rosto e eu, devido ao odor e dor, tive uma forte ânsia seguida de vômito aos seus pés, desmaiando em seguida.

Acordei de manhã numa confortável cama de um estranho quarto grande e  limpo. Ela entrou, perguntou se estava bem, se ainda doía. Examinou a área com espéculo, apalpou a região e ficou ali me olhando com aqueles olhos estrábicos rasos. Disse que ligou para o hotel pedindo umas roupas minhas e o rapaz que as trouxe ajudou-a a me trocar e me deitar. Foi muito atenciosa, verificou tudo, e me mostrou um banheiro, onde pude lavar o rosto e me recompor. Na saída, estava sentada à mesa, onde um café da manhã farto e variado nos aguardava. Foi então que muito educadamente falou:

- Eu tive a impressão de que conhecia você desde a hora que chegou.

- É, pode ser, viajo muito, talvez a gente tenha se visto por aí, mas tenho um rosto comum.

-  Não. Seus olhos. Eu conheço você, mas não consigo ainda ligar os fatos. Nós já nos vimos, tenho certeza. De onde você é?

-  Eu? Moro no Rio de Janeiro.

- Não foi isto que perguntei, mas sim onde nasceu?

- Ah, quer saber isto (esta velha está me cercando). Bem, nasci no Dobrado do Onça, no interior de Minas.

- Olha só, eu morei lá. Tenho até umas fotos na entrada do consultório. Meu pai era médico naquela região e quando terminei o segundo grau ele resolveu mudar para São Paulo. Agora me lembrei de você.

- Sério? Lembrou de mim?

- Sim, mas você não mudou muito, ficou mais velho ainda, mas sem dúvidas, pela sua idade aparente só poderia ser meu professor de Português, não é isto? Engraçado, ficou muito mais velho do que eu poderia imaginar...rs

- Mais velho é a... é a... não deu prazo para terminar. Ela levantou de sobressalto e me deu o segundo beijo das nossas vidas, aquele que esperei por décadas e eu... hummm... gostei.

- Seu bobo, você acha que eu não te reconheci? Sempre soube que voltaríamos a nos encontrar...

E foi assim que aquela pequena cidade do interior paulista virou minha rota de trajeto pelo menos uma vez por mês, por uns dois anos, até que resolvi ficar por lá para sempre.

É isto aí!


sábado, 23 de maio de 2015

Albertinho em "Minha mãe não me entende!"


Eu preciso pedir um favor a você.

Pode pedir o que quiser.

Então vá embora.

Das coisas absurdas da vida, este é um dos exemplos a ser dado à humanidade. Eu te deixar...

Por favor, vá embora.

É bem verdade que nunca te amei, mas isto só não basta e não pode ser o motivo

Não, não é isto.

Então o que o faz pensar que pode me mandar embora?

Não sei, é uma coisa em mim, um sentimento, uma voz...

Ah! Então você confirma minha tese de que tem outra.

Não, nada disto, nada de outra.

Se eu for embora, você terá que ir comigo. Já pensou nisto?

Penso zilhões de coisas quando te ouço, mas...

Precisa fazer pentazilhões de coisas comigo.

- Albertinho... toc toc toc... Albertinho... sai deste banheiro e para de ficar falando sozinho, com perguntas e respostas ridículas. Ficou doido?

- Caramba mãe, não estou falando sozinho... você nunca me entende.

- Sei. Sai logo e vai caçar o que fazer.

É isto aí!


Dia Branco Geraldo Azevedo




Dia Branco
Compositores: Geraldo Azevedo / Renato Rocha. 
Cantor: Vander Lee
Fonte da imagem: Musicare Oficial
Fonte do texto: DUBAS


Em meados da década de 1970, a carreira solo de Geraldo Azevedo começava a todo vapor. Seus primeiros discos revelavam canções capazes de unir estéticas variadas, do rock’n’roll aos gêneros tradicionais nordestinos. Na safra daquela época, surgiu uma melodia inspirada no disco triplo All Things Must Pass (1970) – o primeiro de George Harrison após a separação dos Beatles -, que Geraldo ouvia com frequência (Clique aqui para ouvir Geraldo Azevedo falando). 

Ao conhecer a composição, Renato Rocha, também um jovem músico em ascensão no cenário cultural do Rio de Janeiro, encaixou os primeiros versos da letra no ato. Tudo indicava então que surgiria rapidamente uma das primeiras parcerias entre eles. Mas a empolgação inicial deu lugar ao trabalho duro: faltava compor a segunda parte. Durante mais de dois anos, a dupla passou dias e noites em claro até chegar ao resultado desejado. Em 1979, nasceu “Dia Branco”, que foi lançada originalmente no disco “Frevo Mulher”, por Amelinha, então esposa de Zé Ramalho. 

Se você vier pro que der e vier comigo
Eu lhe prometo o sol... se hoje o sol sair
Ou a chuva... se a chuva cair
Se você vier até onde a gente chegar

Numa praça na beira do mar
Um pedaço de qualquer lugar
E neste dia branco se branco ele for

Esse tan...to, esse canto de amor
Se você quiser e vier pro que der e vier comigo
Se branco ele for
Esse tanto, esse canto, esse tão grande amor, grande amor

Se você vier pro que der e vier comigo
Eu lhe prometo o sol... se hoje o sol sair
Ou a chuva... se a chuva cair
Se você vier até onde a gente chegar

Numa praça na beira do mar
Um pedaço de qualquer lugar
E neste dia branco se branco ele for

Esse canto, esse tão grande amor, grande amor
Se você quiser e vier pro que der e vier comigo, comigo, comigo



Vander Lee , que nos deixou precocemente em 2016, canta de uma maneira única e fantástica este clássico de Geraldo Azevedo/Renato Rocha, registrado nesse show realizado no Palácio das Artes (BH), 2007.