terça-feira, 12 de maio de 2020

Manipulação: os outros e nós (InformaçãoIncorrecta)

Três importantes lições sobre o caso Marielle e a manipulação ...
Alto lá
Este texto não é meu
Confesso que copiei e colei
Fonte: InformaçãoIncorrecta
 12 Maio, 2020  

"Não existe a verdade. “Verdade” é o que nós decidimos ser verdade. Somos nós que construimos a verdade. Então o que temos que fazer é só fixar as nossas prioridades e assumir as consequências das nossas escolhas. Temos que decidir quem somos, porque, caso contrário, alguém estará certamente a decidi-lo por nós."

Lembramos: a credibilidade é uma moeda que viaja sobre a emoção, não sobre a racionalidade. Importa? Sim, e muito, porque para entender o que se está a passar nestes meses, e também para tentar mudar o panorama, é necessário entender como funciona a “máquina Homem”. Isso é: nós.

Ponto um: ninguém muda de ideias por razões racionais, nunca, nem mesmo o Leitor ou eu. Estruturamos as razões racionais a posteriori, depois, quando já decidimos mudar de ideias, de modo a não nos sentirmos demasiado parvos. Mas a mudança é algo repentino, não pensado: é uma faisca que a seguir pretendemos fundamentar com a racionalidade. E se não encontrarmos suficiente racionalidade, somos nós próprios que a criamos.

Para começar uma mudança, tudo o que precisamos é um desconforto, algo que podemos chamar de “dor”. Nada de grave: uma dor leve, como uma dor de barriga. As pessoas fazem o resto sozinhas: como sabem muito bem aqueles que trabalham em processos de mudança perceptiva das massas, lutar para fornecer a informação perfeita para um ou outro grupo alvo é inútil. Aqueles que experimentam esta dor passam então à racionalidade e procuram eles próprios a informação que melhor os satisfaz, os dados que proporcionam o apoio adequado para a ideia que querem tornar deles.

É o mecanismo de “criação de motivações racionais”, o mesmo que utilizamos quando por exemplo escolhemos encerrar uma relação com uma pessoa: bastará exagerar qualquer mal-entendido para concluir que “somos demasiado diferentes” ou que “tentámos de todas as maneiras mas…”. Para outros serão necessárias razões mais marcantes ou mais profundas, tais como uma traição mais ou menos real ou problemas complicados e obscuros de compreensão e partilha das prioridades da vida.

Da mesma forma, para mudar de opinião sobre questões políticas, culturais, sociais ou de actualidade, algumas pessoas precisarão apenas de artigos cheios de pontos de exclamação e ícones coloridos. Outros vão precisar da palavra de alguém que amam até sem o conhecerem, mesmo que seja só porque ele chuta uma bola ou cozinha na televisão. Outros ainda terão de ler artigos de diários ou editoriais bem escritos e pensados. E há quem encontre estudos científicos, necessários, elogiados por Organismos Supremos, ou talvez censurados em todos os lados e escondidos pela BigPharma.

É assim que funciona boa parte da informação alternativa e dos media: trata-se duma escolha, passa-se a realidade pela peneira e retira-se apenas aquilo de que mais precisamos. É uma questão de gosto: o processo não muda, é sempre o mesmo. Todos precisamos apenas de justificar aquilo em que precisamos de acreditar, encontrando razões convincentes para acreditar.

Mas se não é fornecendo estudos, receitas, explicações e motivações lógicas que se é levado a acreditar em alguma coisa, então como se faz? Já todos viram como se faz: um Ministro da Saúde vai para a televisão e grita: “Morreram 270 crianças de Covid-19 em Londres no mês passado!”. Isso não é verdade, é uma mentira, mas o que é que isso importa? A mensagem visa estimular o medo atávico da doença, o instinto de proteger a prole, a necessidade de sentir-se seguro, o desejo perene de sentir que as “Grandes Forças” libertam do mal. Intercedem por nós, salvam-nos do apocalipse. Trata-se de uma mensagem absolutamente perfeita para a influência social. Credibilidade? Não é necessária.

Mas não é preciso ser Ministro da Saúde para desencadear o tal desconforto e catalisar uma mudança de perspectiva. Nas redes sociais, qualquer mensagem que se torne viral, por mais “verdadeira” ou “credível” que possa parecer, pode ter o mesmo efeito. Pode explorar os mesmos mecanismos, idênticos, de medo, rejeição, ternura, raiva, curiosidade, etc., para iniciar mudanças perceptivas, reelaborações da realidade e da identidade. Foi por isso que está a ser utilizada a censura: alguém sente que estamos a roubar-lhe o seu terreno de jogo.

Agora, porém, concentrem-se: não estou a falar apenas daquilo em que os outros acreditam, aqueles que lá estão, o público ingénuo, os analfabetos funcionais. Estou a falar de nós, o Leitor e eu, claro. Estou a falar de como é possível sentir-se seguro, fora da multidão porque “compreendemos” e “não nos deixamos influenciar”. Sim: sentimo-nos como superiores, mas com modéstia, reconhecemos que são eles, os que estão lá, que não entendem, não somos nós que somos mais inteligentes.

Sejamos realistas, é assim que funciona para o Leitor e para mim também. Funciona para todos porque somos animais com mecanismos que actuam segundo padrões bem conhecidos. A única verdadeira diferença é entre quem repara nisso e quem não repara. Enquanto não conseguirmos olhar para nós e admitir que somos iguais aos outros, continuaremos simplesmente a obedecer. Repito: obedecer. É este o perigo porque negar que o tal mecanismo actue também sobre nós significa considerar-se “superior” e não manipulável: é exactamente nesta altura que ficamos mais manipuláveis e vítimas do “esquema”.

Então: um banho de humildade? Mais do que isso, a chave é definir a nossa existência, a nossa identidade. Somos o que somos, nem melhores nem piores do que os outros. E, tal como os outros, estamos sempre expostos aos perigos da manipulação, nunca estamos imunes.

Dúvida: mas se todos podemos ser manipulados em qualquer altura, como é possível definir a nossa identidade? Onde fica a verdade não manipulada?

Surpresa: não existe a verdade. “Verdade” é o que nós decidimos ser verdade. Somos nós que construimos a verdade. Então o que temos que fazer é só fixar as nossas prioridades e assumir as consequências das nossas escolhas. Temos que decidir quem somos, porque, caso contrário, alguém estará certamente a decidi-lo por nós.

Ipse dixit.

segunda-feira, 11 de maio de 2020

domingo, 10 de maio de 2020

Cartas à Mãe - O Augusto, a Descarga e o Inferno de Dante


Querida mãe, feliz seja a senhora todos os dias

Sabe, mãe, dia destes lembrei do conceito de Augusto nas artes cênicas, que em dialeto berlinense da idade média significa uma pessoa que se encontra em situação ridícula. Sim, primeiro vou colocar as peças, depois explico como se encaixam. Por hora vamos nos ater ao Augusto berlinense:

 - Era um personagem do picadeiro dos circos extravagante, absurdo, pícaro, mentiroso, surpreendente, provocador. Representava a anarquia. Era desajeitado e desastrado, tornando sua atuação desajeitada e deselegante. Era também inoportuno em sua tentativa de socializar-se. 

Por outro lado, falando em artes cênicas, logo percebemos que somos expectadores, dentre tantas mazelas, da esfera de Antenora, neste continuum de live infinda produzida pelo que há de mais dantesco em Bananaland, a terra onde jorra leite, mel, propinas e cartões corporativos, mas antes de explicar isto confesso que ainda não coloquei o lixo para a fora, nem enxuguei o banheiro, nem arrumei a cama. Como estou  a confessar meus erros, rogo seu perdão para subir aos céus quando chamado.

Neste momento do espetáculo bizarro, a realidade indica que ainda não acordei de um abissal pesadelo. Lembro de estar na aula de Filosofia onde aprendi que o Aristóteles teve seus momentos proféticos quando afirmou na sua principal obra Ética a Nicômaco  : - "Deve ser observado que há três aspectos das coisas que devem ser evitados nos modos: - A malícia, a incontinência e a bestialidade." 

Daí, mãe, na barca de Aristóteles naveguei em águas da Divina Comédia até o portal do Inferno onde está escrito  "Deixai toda a esperança, vós que entrais!", pois a Justiça do Inferno de Dante bate com estas ideias do Aristóteles - coisa mais doida não há, mas estão fadados a viver um explicitando o outro.
Mas, mãe, quero ir logo ao Nono Círculo do Inferno, mas precisamente à esfera de Antenora, no lago Cocite, onde Dante fala quem são as almas dos pecadores que habitam este inóspito e congelante inferno  para os traidores:

"Ali são punidos os traidores de sua pátria ou partido político. As almas ficam submersas no nível do pescoço, com apenas suas cabeças fora do gelo. O nome foi tirado de Antenor, o príncipe troiano que traiu o seu país ao manter uma correspondência secreta com os gregos. Antenora e Ptolómeia."

Eis aí, mãe, o que ando sonhando. Por enquanto não posso pedir para parar tudo e dar descarga porque o tratamento de esgoto só existe na conta da água, logo esta água servirá para matar a sede de inocentes à jusante. A questão é que à montante merdas e mais merdas continuam a cair.

Sua benção!

É isto aí!


sexta-feira, 8 de maio de 2020

Corsário (Aldir Blanc / João Bosco)



Música: Corsário
Compositores: Aldir Blanc / João Bosco


Meu coração tropical tá coberto de neve, mas
Ferve em seu cofre gelado, a voz vibra e a mão escreve mar
Bendita lâmina grave que fere a parede e traz
As febres loucas e breves que mancham o silêncio e o cais

Roseirais, Nova Granada de Espanha
Por você, eu, teu corsário preso, vou partir
A geleira azul da solidão e buscar a mão do mar
Me arrastar até o mar, procurar o mar

Mesmo que eu mande em garrafas mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Como as garrafas de náufragos e as rosas partindo o ar
Nova Granada de Espanha e as rosas partindo o ar

Roseirais, Nova Granada de Espanha
Por você, eu, teu corsário preso, vou partir
A geleira azul da solidão e buscar a mão do mar
Me arrastar até o mar, procurar o mar

Mesmo que eu mande em garrafas mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá
Como as garrafas de náufragos e as rosas partindo o ar
Nova Granada de Espanha e as rosas partindo o ar

Mesmo que eu mande em garrafas mensagens por todo o mar
Meu coração tropical partirá esse gelo e irá



CORSÁRIO - Uma análise da letra:

Autor da Análise: José Maria Cavalcanti
Fonte da Análise: Blog do Bollog

Meu coração tropical está coberto de neve, mas ferve em seu cofre gelado…

Corsário – todos sabem que os corsários eram piratas, exímios na arte de navegar, que saqueavam navios antes que eles chegassem a seus destinos finais, no intuito de roubar suas mercadorias ou outros objetos de valor: ouro e prata.

O poeta se utiliza de muitas figuras, nos versos poéticos, para viver o drama provocado pelo afastamento que se dá entre ele e sua mulher amada. Estando distante, seu coração tropical, quente, é açoitado por ventos gelados em seu cárcere (prisão), que tentam em vão apagar a chama que arde em seu peito, o qual é comparado a um “cofre gelado”.

E a voz vibra e a mão escreve: Mar

Mesmo sofrendo e passando aperto, ele ainda encontra forças para falar e escrever a palavra mais significativa: MAR – sua vida, que representa sua carência e a imensidão física que o separa do seu amor.

Bendita a lâmina grave Que fere a parede e traz As febres loucas e breves Que mancham o silêncio e o cais

Este vento ruidoso e cortante é como lâmina que fere, provocando sangramento que mancha seu lugar seguro: o cais, onde ele está atado. O corpo, tal qual paredes que envolvem o cofre, tem fragilidades e adoece com febres loucas.

Roseirais! Nova Granada de Espanha! Por você, eu, teu corsário preso

Na América do Sul, a Espanha fincou bandeira e fundou Nova Granada, que tem “Rosales” (roseirais) como um de seus rincões. O local hoje é Bogotá – capital da Colômbia.

No local havia uma antiga prisão da coroa Espanhola, que servia para desterrar e aprisionar perseguidos políticos, mantendo-os longe da Europa.

Assim como Portugal, a Espanha também usava extrair muitas riquezas de suas colônias, assim como aconteceu com o Brasil e outros tantos países, enquanto durou este julgo colonial.

O corsário era um sinônimo de liberdade. O poeta diz que, pela amada, ele é “um corsário preso”, isto é, por ela, ele abriu mão do mar: local do seu viver livre.

Vou partir a geleira azul da solidão E buscar a mão do mar, Me arrastar até o mar, Procurar o mar

A solidão é qual um geleira gigantesca e indestrutível a isolar as pessoas que se amam.

Como um navio quebra gelo rompe as grossas camadas geladas que impedem a aproximação, ele quer “procurar o mar”, “se arrastar até o mar” e “buscar a mão do mar”. Dessa forma, ele estará de novo em contato com seu querido ambiente náutico, único meio de atingir o objetivo de se juntar novamente a seu amor.

Mesmo que eu mande em garrafas Mensagens por todo o mar

São famosas as garrafas lançadas ao mar, quase todas têm o intuito de levar mensagens de amor ou de socorro aos lugares distantes.

Partirá esse gelo e irá Como as garrafas de náufragos e as rosas Partindo o ar

Somente a via marítima possibilitará o “partir o gelo” (solidão) e, como as garrafas de náufragos (correio eletrônico ou outras mídias sociais) no seu flutuar sobre as ondas, ele buscará na imensidão das águas o caminho de volta que o levará a sua rosa, a qual exala fragrância no ar. Estes aromáticos ventos também são a força motriz que move as velas da embarcação (as asas da imaginação).

Nova Granada de Espanha E as rosas partindo o ar!

O cheiro das rosas de Nova Granada é como uma inspiração para fazer o corsário navegar uma vez mais.



Granito (Antônio Cícero/João Bosco)







Escute aqui no Youtube: Granito

Há entre as pedras
e as almas
afinidades
tão raras
como vou dizer?
Elas têm cheiro
de gente
queira ou não queira
se sente:
têm esse poder
Pedra e homem
comovem
sobem e descem
e somem
e ninguém sabe bem
O homem desce do
dos céus
e a pedra nasce
de Deus
que tudo contém
Mas o templo eu faria assim
puro de uma pedra bruta
de uma fruta bem calada
diminuta furta-cor
de granito assim a cintilar
no seu olhar.


Fonte do vídeo no Youtube: Velly Cardoso




quinta-feira, 7 de maio de 2020

Vá à merda tem crase. (Paulo Abreu)

Fotos, imagens, vetores e vídeos isentos de royalties com o tema ...
Vá à merda
tem crase
enfática

Não soa
ridículo
e é prático

Ausente de classe
é o aqui agora
neste momento

Claro e objetivo
possui poderes
impudicamente

Vá à merda
é humanístico
e transcendente

O objeto alvo
carrega na testa
sua significância

Vá à merda
define fases
resolutivas de crises

Vá à merda
porta vacância
para néscios.

Na dúvida
mande à merda
com ou sem nexo.

É isto aí!

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Te amo (Pablo Neruda)

57 fotos vintage de casais apaixonados que foram clicadas na hora ...

Te amo
Te amo de uma maneira inexplicável
De uma forma inconfessável
De um modo contraditório
Te amo
Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos
E mudar de humor continuadamente
Pelo que você já sabe
O tempo
A vida
A morte

Te amo
Te amo com o mundo que não entendo
Com as pessoas que não compreendem
Com a ambivalência da minha alma
Com a incoerência dos meus atos
Com a fatalidade do destino
Com a conspiração do desejo
Com a ambiguidade dos fatos
Ainda quando digo que não te amo, te amo
Ate quando te engano, não te engano
No fundo levo a cabo um plano
Para amar-te melhor

Te amo
Te amo sem refletir, inconscientemente
Irresponsavelmente, espontaneamente
Involuntariamente, por instinto
Por impulso, irracionalmente
De fato não tenho argumentos lógicos
Nem sequer improvisados
Para fundamentar esse amor que sinto por ti
Que surgiu misteriosamente do nada
Que não resolveu magicamente nada
E que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada
Melhorou o pior de mim

Te amo
Te amo com um corpo que não pensa
Com um coração que não raciocina
Com uma cabeça que não coordena

Te amo
Te amo incompreensivelmente
Sem perguntar-me porque te amo
Sem importar-se porque te amo
Sem questionar-me porque te amo

Te amo
Simplesmente porque te amo
Eu mesmo não sei porque te amo.

Glauber Rocha, o profeta do Eldorado

Terra em Transe - 1967 | Filmow

Passei o dia  tentando lembrar onde já vi este cenário real numa tela de cinema. Lembrei - foi com Glauber Rocha, o profeta do século XXI, quando fez o filme Terra em Transe, em 1967.

O texto abaixo não é meu, 
Copiei e colei
Enciclopédia Itau Cultural 

Considerada uma das principais obras do período, Terra em Transe (1967) é o filme em que Glauber Rocha (1939-1981) aprofunda o estudo da situação nacional. Põe em cena amplo leque de personagens: militantes, militares, intelectuais, políticos e empresários, todos envolvidos na disputa do poder. Cria a fictícia Eldorado, numa conjuntura pré-revolucionária com reação golpista de um movimento de direita. Refere-se ao Brasil daquele momento e a países latino-americanos que viveram o ciclo das ditaduras militares.

O protagonista é Paulo Martins [Jardel Filho (1927-1983)], poeta e intelectual ferido de morte no momento do golpe de Estado que põe fim a seus sonhos revolucionários. Ele recapitula a vida política de Eldorado e reavalia a própria trajetória. De início, liga-se a Porfírio Diaz [Paulo Autran (1922-2007)]1, um líder carismático de direita, sempre vitorioso nos jogos de poder de Eldorado. Em dado momento, junta-se ao político emergente Vieira [José Lewgoy (1920-2003)], na província de Alecrim, onde conhece Sara.

A ação e o destino do protagonista ligam-se ao líder populista em ascensão. Trata-se de uma adesão incerta, atravessada por dúvidas quanto à vocação de Vieira e a si próprio. A decepção com o líder populista reconduz Paulo Martins ao decadentismo da elite de Eldorado.

Resgatado desse processo de queda por Sara, reintegra-se ao mundo de Vieira, articulando a campanha desse líder à presidência. O clímax da campanha é uma festa-comício, no terraço do palácio de Alecrim, aberto para a mata tropical. Nele, todos se misturam num desfile carnavalesco: trabalhadores, padres, políticos e empresários. A cena representa a desordenada e frágil frente populista. No meio disso tudo, Paulo mergulha num ceticismo profético.

Julio Fuentes, o magnata que ele e seus amigos haviam convencido a apoiar o líder populista Vieira, muda de lado depois dereceber uma visita do religioso Diaz. O religioso é financiado, por sua vez, pela multinacional Explint. Essa movimentação golpista terá seu ápice no desfile triunfal de Diaz, em carro aberto, carregando um crucifixo que remete à cena inicial do filme. Diaz, à frente de figuras carnavalescas e da cruz fincada na praia, evoca o momento da primeira missa em território recém descoberto.

No final, Terra em Transe completa o flashback e retorna à agonia de Paulo Martins, numa montagem que alterna a morte do poeta e a coroação de Diaz. Neste momento, impõe-se a força de um baile de máscaras grotescas, que anuncia a manutenção dos poderes dominantes.

Sara, que permanece junto ao poeta em sua agonia, exasperada, desafia-o: “o que prova sua morte?”. Ao que Paulo responde, no tom romântico que o acompanha durante todo o filme: “o triunfo da beleza e da justiça!”. Neste momento, em delírio, ele aparece com a coroa de Diaz em suas mãos, sugerindo que, mesclado a seu romantismo, está seu desejo de poder. Encerrando a rápida alternância entre a estrada e a coroação, a imagem final do triunfo de Diaz traz o discurso dele em close: “aprenderão! Botarei estas histéricas tradições em ordem! Pela força, pelo amor da força, pela harmonia universal dos infernos, chegaremos a uma civilização!”. Uma vez enterrada a utopia, voltamos à estrada para a última performance sacrificial de Paulo. Ele, com a metralhadora na mão, compõe a coreografia da impotência.

A crueza do diagnóstico já é suficiente para uma reação tensa por parte da intelectualidade retratada, mas Terra em Transe provoca, também, na forma artística com que conduz a autocrítica. A revisão histórica apresentada no flashback é feita no tom subjetivo de Paulo Martins. Transe histórico e transe subjetivo são indistinguíveis, uma vez que o monólogo interior delirante é a base do relato. Misto de lucidez e delírio, o filme oscila entre a adesão e a crítica ao personagem e à esquerda nele representada. Sobrepostas à causalidade racional dos acontecimentos, atuam forças mágicas. Forças intuídas por um Paulo Martins transtornado e por um Diaz triunfante, com direita e esquerda figurando como duplos no jogo de forças de Eldorado.

Como diz o crítico Ismail Xavier (1947), Terra em Transe é “polêmico até onde um filme pode ser”2. No lançamento, catalisa posições e torna-se um ponto de virada para toda a produção artística brasileira. Segundo os que viveram o momento, como conta, por exemplo, Caetano Veloso (1942), as posições se acirravam em todas as conversas e mesas de bar. A esquerda hegemonizada pelo Partido Comunistra Brasileiro (PCB) acusa Terra em Transe de “irracionalista”, e muitos condenam o que lhes parece uma incitação à luta armada (sem atentar para o sentido, tipicamente moderno, de uma narrativa que, ao mesmo tempo, incorpora, expõe e critica as contradições do protagonista). Ironicamente, cabe ao conservador Nelson Rodrigues (1912-1980), a compreensão da crítica ao populismo e ao acerto do tom de delírio subjetivo na representação de Eldorado (ou seja, do Brasil)3. Terra em Transe chega a ser proibido durante algumas semanas. Os artigos multiplicam-se na imprensa, ecoando um lendário debate sobre o filme no Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro.

O grande efeito de Terra em transe, inclui a influência sobre os artistas do tropicalismo. Em Verdade Tropical, Caetano Veloso relata o impacto sofrido por ele. O critico Roberto Schwarz (1938), por sua vez,  insere a virada tropicalista dentro de um amplo painel interpretativo em “Cultura e Política, 1964-1969”.

No âmbito cinematográfico, a interpretação de Terra em Transe e seu contexto está exposta em Alegorias do Subdesenvolvimento, no qual Ismail Xavier analisa a obra e ressalta o estilo barroco de Glauber em sua plena potente articulação entre política e estética.  

Internacionalmente, o filme confirmou Glauber Rocha como um dos principais diretores do cinema moderno. No Festival de Cannes de 1967, Terra em Transe recebeu o prêmio da federação da crítica internacional (Fipresci). No ano seguinte, a revista L'Avant-Scène Cinema, dedicada à decupagem de obras de grande destaque, examina o filme com farta ilustração. Início da atenção internacional voltada para a análise e a interpretação da obra.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A felicidade quando chega (Marjorie Dawe)


A felicidade quando chega 
em forma de realização pessoal 
pode muitas vezes 
estar vinculada 
à satisfação momentânea 
de duração restrita!!... 

Felicidade verdadeira
é saber que se faz a Vontade de Deus 
independente da realização pessoal!!... 
Felicidade vai bem além de alegrias!!... 
Engloba muitas e muitas alegrias 
e a falta delas também!...

Felicidade nem sempre é alegre!... 
Felicidade nem sempre é concreta 
ou visível!! 
Felicidade vem da alma 
e não do que o mundo possa trazer!... 

Felicidade é ser de Deus!!.. 
É estar em Deus!!... 
Ser parte desse Deus Infinito!!...
. Felicidade é permanecer fiel 
mesmo nas contrariedades e provações!

Marjorie Dawe

domingo, 3 de maio de 2020

Classificados online da Quarentena


As redes sociais nunca alcançaram índices tão elevados de busca de coisas para passar o tempo do cárcere privado como nesta quarentena.

Estamos em 2020, o mês é maio. Hoje vamos selecionar postagens de um determinado e famoso site especializado em relações e contatos entre seres vivos e inanimados, pessoas físicas e jurídicas, reais e virtuais, desde que paguem para que um sistema cibernético encontre a sua paz.

Setor de Pessoa a Pessoa

1  - Beto Petrolina, pelamordedeus, larga da Nanda e faz uma live só prá mim - sua gatinha manhosa de Campina Grande, Amaralina.

2 - Geralda MS, 46 anos, divorciada Rio de Janeiro - Não sou uma mulher perfeita, mas em minhas imperfeições sou única. Quero ser seu amor, Roberto Alberto! Vem me ter na minha página.

3 - Cristina JR, 38 anos, viúva, Cuiabá - Se quero algo sério e posso me expor, então por que você também não pode, Arnaldo Conceição? Larga aquela maluca e vem ficar doido comigo. Quero um homem que seja fiel, honesto e carinhoso e eu sei que você é isto tudo e eu sou muita coisa.

4 - Camila MD, solteira, 38 anos, Brasília - Quero grudar no seu corpo...e ser sua para todo o sempre, Joãozinho de Goiânia. É você mesmo. Eu vou trazer você de volta em três dias - sim, usei seu cartão, mas foi por uma causa justa, amor.

5 - Ana Carolina, 50 anos, Belo Horizonte - Quero ser feliz! Quero alguém para completar minha vida e juntos navegarmos pelo amor. Sou pobre, decente e aposentada, mas sei fazer pudim de coco e pão de queijo.

6 - Isabela, 40 anos, divorciada, São Paulo - Uma mulher especial!! Fiel e apaixonante! Você vai ficar muito feliz ao meu lado, Claudionor Vodkaski. Aproveita a quarentena e tranca comigo aqui em casa.

7 - Maria Ap MB, viúva, 52 anos, Rio de Janeiro - experiência de vida e muito amor para dar. Estou aberta a todas as possibilidades, desde que seja rico, bonito, carinhoso e gostoso.

8 - Jajá Macho Alfa, 36 anos, solteiro, Rio de Janeiro - Hoje você está bem na fita? Venha ser minha metflix!!

9 - Carlinhos Le-Fante, 45 anos, casado, Niterói - Vivi, sua linda, vem aqui para o seu tigrão!!!!

10 - Renatão do Pagode, 38 anos, divorciado, Belo Horizonte - Pode confiar, eu sou foda!

11 - Garfo Limpo, 27 anos, solteiro, São Paulo - O que você está esperando? Sigilo e discrição.

12 - Geraldinho, 52 anos, casado, Campinas - Venha fazer parte da minha coleção!!!

13 - Negão Artilheiro, 42 anos, casado, Goiânia - Jovelina, larga de ser boba e libera geral.


Setor de Empresas/Lojas/Prestação de Serviço

1 - Vendo a Loja toda.

2 - Vendo a empresa no estado em que se encontra

3 - Passo loja em excelente estado de conservação

4 - Fechei a loja, devolvi o imóvel, empacotei tudo e agora faço qualquer coisa à distância, qualquer coisa mesmo. Tenho tabela para serviços gerais. Parcelo em até três vezes.

5 - Ex-empresário, conto piada de salão, piadas pesadas e piadas fakenews. Preço camarada.

6 - Ex-lojista, canto qualquer coisa. Pode fazer sua lista que faço  a live.

7 - Vendo loja no estado, com todos os funcionários dentro, menos a Dalvinha.

8 - Vendo empresa com dívidas ativas e créditos inativos em estado de latência maravilhosa.

9 - Gente, eu fali, pelo amor de Deus, alguém me adota aí.

É isto aí!





sábado, 2 de maio de 2020

Cartas à mãe nas quarentenas da vida


Oi mãe,

Ainda estou bem. Sim, mãe, estou bem. Não tomo gelado, não ando descalço, não converso com estranhos, não dou informações pelo telefone e não deito tarde. Tudo junto, com adaptações, sei, a senhora vai achar que fiquei relaxado, mas os tempos exigem, mamãe.

Vivo num país profetizado pelo Lulu Santos - "Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia tudo passa ...", mas mãe, desculpa, nunca ousei falar de uma palavra de tamanha impudicícia, mas desta vez está demorando demais esta merda toda.

Assim que falei do profeta Lulu Santos, ocorreu-me um desejo muito atual do Cartola, que a senhora gosta tanto, lembra? Foi a senhora que me apresentou às músicas dele. É dele o desejo que bate cá dentro, mãe: "Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar. Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar, eu quero nascer, quero viver, deixe-me ir ...".

Ah, mãe! Saudade de tudo, saudade de atravessar a rua, de errar o caminho, de reconhecer as pessoas pelo sorriso já lá de longe. Saudade de ver as margaridas levantado poeira, falando coisas incompreensíveis entre si, de ver crianças fazendo pirraça nas calçadas e as memórias chicobuarqueanas cruzam a todo momento -  "Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar ...".

Saudade de ver o mar lá na Península de Maraú, prá cima de Ilhéus. Mãe, tem nada mais lindo não. Saudade de andar no calçadão da Halfeld em Juiz de Fora, na Ilha São Francisco em Santa Catarina. Acho que tem trem demais nestas memórias da quarentena se acumulando, o que exige viver o dobro para cumprir as promessas de estar na Vesperata de Diamantina e na Festa dos Santos do Rio São Francisco, lá em Januária, tem nada igual.

Mãe estou encerrando a carta, mas a luta continua. E nesta loucura que está  a pátria amada, estou fechado com Nietzsche - "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música".

Sua benção!

sexta-feira, 1 de maio de 2020

A vida é sonho (Calderón de La Barca)



Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.

Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.

E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;

sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.

Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.

Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Quando a verdade for flama - Thiago de Mello


As colunas da injustiça
sei que só vão desabar
quando o meu povo, sabendo
que existe, souber achar
dentro da vida o caminho
que leva à libertação.
Vai tardar, mas saberá
que esse caminho começa
na dor que acende uma estrela
no centro da servidão.
De quem já sabe, o dever
(luz repartida) é dizer.
Quando a verdade for flama
nos olhos da multidão,
o que em nós hoje é palavra
no povo vai ser ação.

Quadro de Tarsila do Amaral:
"Operários" de 1933 – Óleo sobre tela (150 x 205 cm) . Acervo dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo (Palácio Boa Vista –  Campos do Jordão –  São Paulo –  Brasil)

Poema de Thiago de Melo:
Escritor e tradutor amazonense, com obras traduzidas para mais de trinta idiomas, é conhecido também como o poeta da floresta. Sua escrita é comprometida com as causas sociais e ambientais, especialmente, a conservação da Amazônia.
Perseguido durante o regime militar no Brasil, exilou-se no Chile por dez anos, porém não abandonou a escrita. Dentre suas obras mais conhecidas estão: Faz escuro mas eu canto (1965), A canção do amor armado (1966), Poesia comprometida com a minha e a tua vida (1975), Os estatutos do homem (1977) e Mormaço da floresta (1984). Em 1975, o livro Poesia comprometida com a minha e a tua vida foi premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Essa premiação possibilitou que o escritor fosse reconhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos direitos humanos.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Carminha e Armandinho - As juras de Amor


Armandinho, precisamos discutir nossa relação a sério e de hoje você não escapa.

Mas, Carminha, é quarentena, meu amor ...

Amor o cacete, e é bom que seja quarentena, pois não tem como fugir.

Tudo bem, Carminha, manda ver.

Armandinho, você jurou que nunca mais voltaria naquela vadia e voltou.

Carminha, eu não voltei, eu passei perto...

Sei ... Jurou que nunca mais beberia e bebeu.

Fermentados, Carminha, fermentados ...

Está me dando nos nervos. Jurou que nunca mais cometeria o mesmo erro e cometeu.

Carminha, isto prova que sou um homem conservador e reto.

Você é um cretino. Jurou que nunca mais falaria sobre aquele assunto e falou.

Carminha, vem cá, era um assunto pendente ...

Vou te dar uma vassourada, sem vergonha. Jurou que nunca mais fumaria e fumou.

Verdade, fumei mas não traguei. Cumpri em parte a jura.

Mas é muito cara de pau. Jurou que nunca mais endividaria e endividou.

Querida, em não endividei, levantei recursos para um investimento com retorno seguro.

E carteado é investimento, Armandinho? Que ódio!! Jurou que nunca mais amaldiçoaria e amaldiçoou.

Meu bem, era sua mãe, e ela mereceu a maldição.

Olha bem, Armandinho, olha bem, sabe qual é o seu problema?

Sei, Carminha, eu sei qual é o meu problema.

Então diga, hem seu sem vergonha, ordinário, safado e despudorado.

Meu problema, Carminha, são as juras, tenho vício em jurar ...

É isto aí!

terça-feira, 28 de abril de 2020

Coisas para fazer imediatamente após a quarentena


Praia (Bahia)
Andar na rua de qualquer cidade
Vesperata em Diamantina
Abraçar minha mãe
Não ler nada do que foi deste tempo
Entrar numa igreja, ajoelhar e ficar ali, contemplando
Cortar o cabelo
Chorar escondido por toda a dor que vi e ouvi.
Perdoar a todos que me tenham ofendido
Continuar sem entrar no cheque especial
Pedir perdão a quem de direito
Amar ao próximo
Amar muito mais a mim mesmo
Andar na chuva
Desligar as redes sociais por três dias e três noites.
Manter as metas do sonho
Manter os propósitos das metas
De tudo ao meu amor serei atento antes.

Por enquanto está boa, mas longe de estar completa

É isto aí!




Só de ser de Juiz de Fora, já explica o talento!!


Reproduzo acima a capa do ultimo livro publicado e abaixo e respondo aqui como crônica de uma alegria anunciada, o comentário da escritora, poetisa e professora da apaixonante Juiz de Fora, Amanda Machado, que você poderá ver in loco aqui:

Minas Gerais, mês quarto de 2020

Caro Paulo,
sigo por aqui, nessa inesperada, assustadora e, talvez, transformadora quarentena (com inevitáveis afastamentos e novas aproximações, de outras ordens) lendo-o e dialogando com os seus textos.
Há muitas teimosias admiráveis, muitas mesmo! O auto desafio é uma das que mais admiro. Que bom que a sua resolução íntima nos dá regalos maravilhosos...

Quanto à pergunta, sim...tem dias que conversar ou escrever é um peso, mas aprendemos tanto sobre superação quando nos propomos a avançar mesmo pesados, não é?

Parabéns pelo desafio e pela quase conclusão. Abraços de uma amiga quase silenciosa, mas sempre presente.
Amanda

Vamos à devolutiva:

Minas Gerais, 28 de abril de 2020

Prezada escritora, poetisa e professora
Amanda Machado ( https://parecolouca.blogspot.com/ )
Só de ser de Juiz de Fora, já explica o talento!!

Recebi nesta manhã sua carta, elegante como sempre, postada acima. Logo me ocorreram dois pensamentos, que adiante busco explicar:

- Essa moça ...  Só de ser de Juiz de Fora, já explica o talento!!
- Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. (Fernando Pessoa - Mar Português)

Na juventude, experienciei Juiz de Fora com uma alegria que nunca mais reconheci em mim. O vento mudou, as velas içaram e a nau que leva minha vida seguiu além do bojador. 

Cada vez que recebo um comentário seu torno a colocar os dois pés no calçadão da Halfeld, subir o Morro da Glória até as imediações do Colégio Santa Catarina, para tomar café na casa do meu tio-avô, que era tradicionalista, com todo um cerimonial para o evento - minha visita era um evento para eles. Fazer a rota inversa, subindo pelo Alto dos Passos, comer um pastel no Mexicano, tomar uma tantas no Bar do Bigode, sair na primeira e na segunda versão da banda Bandida, ir ao Museu Mariano Procópio, subir a pé até o Mirante do Imperador, assistir um filme no Cine Central e passar na Grandeza Real para ouvir samba de primeira qualidade. Saudade do São Matheus, saudade de ter saudade da saudade de um tempo tão bom. 

Sou integralmente gratidão por suas palavras, Amanda, que sempre me transportam para este lugar tão aconchegante do meu passado. Lembro quando estava buscando na rede poemas da Wislawa Szymboska e a busca me levou ao seu blog, sete ou oito anos atrás. Wislawa deve sorrir no seu jeito polaco. Acho que vou santificar Wislawa na Pitangueira.

É isto aí!

Um abraço, Amanda!!!




segunda-feira, 27 de abril de 2020

O Analista da Pitangueira - Sonhar é quase um privilégio, ter sonhos é obrigação.


Entre, sente-se onde desejar e vamos conversar.

Posso falar sobre tudo?

Sim, mas vamos começar sobre o que o trouxe aqui.

Então doutor, sabe, eu passei os últimos vinte anos de uma maneira muito difícil, impossível, longe da minha realidade desejada. Lembro que na infância sonhava com coisas as mais impossíveis, além de desejar ser motorista de caminhão. Talvez tenha sido a profissão que mais desejei até a vida começar a emitir suas faturas. 

Por que motorista de caminhão?

Ah! Viajar, conhecer lugares, levar e trazer as coisas.

Interessante. E hoje?

A solidão que habita em mim é terrível. A vontade de sair pelo mundo deve ter sido semeada nos sonhos daquela época, mas quando penso num caminhão, logo vem a tristeza, não consigo visualizar alguém que divida esta jornada comigo e que me faça feliz. Sou solitário. Não tenho mais sonhos, nem ilusão, e não acredito na felicidade.

Vamos por partes. Sonhar todas as noites e recordar o que sonhou é quase um privilégio, mas ter sonho como meta é obrigação. Sonho pode ser muitas coisas, inclusive nada, pode ser revelador, pode ser simbólico, mas ter um só um sonho, destes que se vive acordado, é o que move a sua vida, tira você da cama, faz você sair na sua busca.

Será? Ter sonho é obrigação?

Se você não tiver um sonho, uma meta e os propósitos que perpassarão esta meta, você ficará andando em círculos, como um caminhão com a direção travada, tudo funciona, mas só em movimento circular. Então, sim, viver neste mundo nos obriga a sonhar.

Mas me falta a felicidade. Nunca fui feliz desde ...

Antes de completar sua argumentação, saiba que a Felicidade é um processo de ausência de sofrimento, enfim, a felicidade passa por não sofrer e ser infeliz é possuir a sensação de não ter algo que se deseja. Reveja seus sentimentos e fale em qual destas duas realidades você se reconhece mais.

(silêncio)

Pode refletir, feche os olhos e se pergunte - Não conheço a Felicidade ou sou Infeliz?

Sou infeliz - não tenho com quem viajar no meu caminhão da infância, mesmo que fosse para dar círculos. (lágrimas)

Semana que vem, está certo? Semana que vem retornaremos esta viagem.

É isto aí!

domingo, 26 de abril de 2020

É uma postagem propositiva


Caramba, hoje já é vinte e seis de abril de 2020. No dia 31 de março eu fiz uma aposta estúpida comigo de que seria capaz de publicar um texto por dia durante o Abril, enquanto durasse a quarentena. Gente, não é fácil. Todo dia sentar diante da tela, e permitir-se escrever.

Hoje a postagem é de gratidão a você que sempre está aqui, não se preocupe, o anonimato é a regra do blog, a não ser que você se pronuncie nos comentários. Esta é a vantagem, diferente das redes sociais, aqui é um local único, de relação direta entre quem escreve e quem lê.

Vamos avançar em outros temas, quero antes terminar esta aposta comigo mesmo de que seria capaz de uma coisa desta natureza. Tem dia, como hoje, que conversar ou escrever é de um peso sobrenatural. Com você é assim também? 

Então é isto. É uma postagem propositiva para manter a ordem natural das teimosias. Nunca aposte contra você mesmo, a não ser que o prêmio seja objeto de desejo,mas isto fica para outra postagem. 

Um abraço

É isto aí!


sábado, 25 de abril de 2020

Eu gosto de você!


Eu gosto de você, 
e quando estou triste 
imagino ler ao seu lado
poemas aleatórios da 
Emily Dickinson, 
pausadamente abraçados,
e terá que escolher 
apenas um e dizer o por quê 
dela tocar seu coração. 

Eu gosto de você
Gosto da sua voz 
e nela delicio
ouvirmos Edith Piaf 
Non, je ne regrette rien
fazendo biquinho
com seus lábios macios

Olha, gosto muito
de sonhar e ler 
numa rede ali colados 
um poema lindo
do Neruda, 
de forma que sei
que é dele, apaixonado,
mas agora é seu. 
Eu gosto de você assim 
como o Neruda decretou para mim:

Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera 
para que continues me olhando.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Nem tudo tem sentido


Joãozinho era o bebê mais lindo da rua, era o menino mais esperto da região, era o garoto mais inteligente da escola, era o rapaz mais estudioso do ensino médio, era o aluno mais aplicado da faculdade até que Joãozinho foi abduzido e desapareceu com Dolores Orquídea, para desespero da sua namorada desde os onze, Claudinha Torque.

Claudinha Torque abandonou a faculdade, abriu uma barraca de salgados e churrascos na feira, conheceu Claudionor Junqueira, vizinho de função, criaram um restaurante, outro e depois uma franquia. Claudinha Torque aos trinta anos estava rica e infeliz.

Claudionor Junqueira cansou-se das lamúrias e apurrinhações de Claudinha e fugiu com Dezinha Lisboa, uma mulata encantadora, auxiliar da cozinha do restaurante que administrava. Dezinha triplicou a fortuna de Claudionor e foram felizes para sempre.

Claudinha Torque seguiu a vida triste e lamentando em tempo integral sua infelicidade, até que conheceu Salvador Varejo, um pequeno distribuidor de alimentos. Em apenas quatro anos quadruplicaram seus negócios e separaram-se quando descobriu que Salvador Varejo era ex de Dolores Orquídea, a malvada que destruiu seu coração.

Um dia, e este dia sempre chega, entra no restaurante internacional da tristonha, seu grande amor - Joãozinho. Estava só. Empolgadíssima, apressou-se a vir recepcioná-lo dispensando todo o ritual da empresa. Levou-o até a área vip, pediu o melhor vinho e enquanto esperavam, olhou nos olhos de Joãozinho que não olhava nos olhos de ninguém.

- Joãozinho, olha bem nos meus olhos, quem sou eu para você?
- Você sabe meu nome?
- Joãozinho, você está brincando, olha bem para mim, quem sou eu?
- A garçonete do restaurante?
- Joãozinho, estou falando sério.

Joãozinho levantou-se e partiu sem olhar para trás.
Claudinha Torque ficou milionária, linda, solitária e estranhamente feliz.

É isto aí!