quarta-feira, 6 de maio de 2020

Te amo (Pablo Neruda)

57 fotos vintage de casais apaixonados que foram clicadas na hora ...

Te amo
Te amo de uma maneira inexplicável
De uma forma inconfessável
De um modo contraditório
Te amo
Te amo, com meus estados de ânimo que são muitos
E mudar de humor continuadamente
Pelo que você já sabe
O tempo
A vida
A morte

Te amo
Te amo com o mundo que não entendo
Com as pessoas que não compreendem
Com a ambivalência da minha alma
Com a incoerência dos meus atos
Com a fatalidade do destino
Com a conspiração do desejo
Com a ambiguidade dos fatos
Ainda quando digo que não te amo, te amo
Ate quando te engano, não te engano
No fundo levo a cabo um plano
Para amar-te melhor

Te amo
Te amo sem refletir, inconscientemente
Irresponsavelmente, espontaneamente
Involuntariamente, por instinto
Por impulso, irracionalmente
De fato não tenho argumentos lógicos
Nem sequer improvisados
Para fundamentar esse amor que sinto por ti
Que surgiu misteriosamente do nada
Que não resolveu magicamente nada
E que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada
Melhorou o pior de mim

Te amo
Te amo com um corpo que não pensa
Com um coração que não raciocina
Com uma cabeça que não coordena

Te amo
Te amo incompreensivelmente
Sem perguntar-me porque te amo
Sem importar-se porque te amo
Sem questionar-me porque te amo

Te amo
Simplesmente porque te amo
Eu mesmo não sei porque te amo.

Glauber Rocha, o profeta do Eldorado

Terra em Transe - 1967 | Filmow

Passei o dia  tentando lembrar onde já vi este cenário real numa tela de cinema. Lembrei - foi com Glauber Rocha, o profeta do século XXI, quando fez o filme Terra em Transe, em 1967.

O texto abaixo não é meu, 
Copiei e colei
Enciclopédia Itau Cultural 

Considerada uma das principais obras do período, Terra em Transe (1967) é o filme em que Glauber Rocha (1939-1981) aprofunda o estudo da situação nacional. Põe em cena amplo leque de personagens: militantes, militares, intelectuais, políticos e empresários, todos envolvidos na disputa do poder. Cria a fictícia Eldorado, numa conjuntura pré-revolucionária com reação golpista de um movimento de direita. Refere-se ao Brasil daquele momento e a países latino-americanos que viveram o ciclo das ditaduras militares.

O protagonista é Paulo Martins [Jardel Filho (1927-1983)], poeta e intelectual ferido de morte no momento do golpe de Estado que põe fim a seus sonhos revolucionários. Ele recapitula a vida política de Eldorado e reavalia a própria trajetória. De início, liga-se a Porfírio Diaz [Paulo Autran (1922-2007)]1, um líder carismático de direita, sempre vitorioso nos jogos de poder de Eldorado. Em dado momento, junta-se ao político emergente Vieira [José Lewgoy (1920-2003)], na província de Alecrim, onde conhece Sara.

A ação e o destino do protagonista ligam-se ao líder populista em ascensão. Trata-se de uma adesão incerta, atravessada por dúvidas quanto à vocação de Vieira e a si próprio. A decepção com o líder populista reconduz Paulo Martins ao decadentismo da elite de Eldorado.

Resgatado desse processo de queda por Sara, reintegra-se ao mundo de Vieira, articulando a campanha desse líder à presidência. O clímax da campanha é uma festa-comício, no terraço do palácio de Alecrim, aberto para a mata tropical. Nele, todos se misturam num desfile carnavalesco: trabalhadores, padres, políticos e empresários. A cena representa a desordenada e frágil frente populista. No meio disso tudo, Paulo mergulha num ceticismo profético.

Julio Fuentes, o magnata que ele e seus amigos haviam convencido a apoiar o líder populista Vieira, muda de lado depois dereceber uma visita do religioso Diaz. O religioso é financiado, por sua vez, pela multinacional Explint. Essa movimentação golpista terá seu ápice no desfile triunfal de Diaz, em carro aberto, carregando um crucifixo que remete à cena inicial do filme. Diaz, à frente de figuras carnavalescas e da cruz fincada na praia, evoca o momento da primeira missa em território recém descoberto.

No final, Terra em Transe completa o flashback e retorna à agonia de Paulo Martins, numa montagem que alterna a morte do poeta e a coroação de Diaz. Neste momento, impõe-se a força de um baile de máscaras grotescas, que anuncia a manutenção dos poderes dominantes.

Sara, que permanece junto ao poeta em sua agonia, exasperada, desafia-o: “o que prova sua morte?”. Ao que Paulo responde, no tom romântico que o acompanha durante todo o filme: “o triunfo da beleza e da justiça!”. Neste momento, em delírio, ele aparece com a coroa de Diaz em suas mãos, sugerindo que, mesclado a seu romantismo, está seu desejo de poder. Encerrando a rápida alternância entre a estrada e a coroação, a imagem final do triunfo de Diaz traz o discurso dele em close: “aprenderão! Botarei estas histéricas tradições em ordem! Pela força, pelo amor da força, pela harmonia universal dos infernos, chegaremos a uma civilização!”. Uma vez enterrada a utopia, voltamos à estrada para a última performance sacrificial de Paulo. Ele, com a metralhadora na mão, compõe a coreografia da impotência.

A crueza do diagnóstico já é suficiente para uma reação tensa por parte da intelectualidade retratada, mas Terra em Transe provoca, também, na forma artística com que conduz a autocrítica. A revisão histórica apresentada no flashback é feita no tom subjetivo de Paulo Martins. Transe histórico e transe subjetivo são indistinguíveis, uma vez que o monólogo interior delirante é a base do relato. Misto de lucidez e delírio, o filme oscila entre a adesão e a crítica ao personagem e à esquerda nele representada. Sobrepostas à causalidade racional dos acontecimentos, atuam forças mágicas. Forças intuídas por um Paulo Martins transtornado e por um Diaz triunfante, com direita e esquerda figurando como duplos no jogo de forças de Eldorado.

Como diz o crítico Ismail Xavier (1947), Terra em Transe é “polêmico até onde um filme pode ser”2. No lançamento, catalisa posições e torna-se um ponto de virada para toda a produção artística brasileira. Segundo os que viveram o momento, como conta, por exemplo, Caetano Veloso (1942), as posições se acirravam em todas as conversas e mesas de bar. A esquerda hegemonizada pelo Partido Comunistra Brasileiro (PCB) acusa Terra em Transe de “irracionalista”, e muitos condenam o que lhes parece uma incitação à luta armada (sem atentar para o sentido, tipicamente moderno, de uma narrativa que, ao mesmo tempo, incorpora, expõe e critica as contradições do protagonista). Ironicamente, cabe ao conservador Nelson Rodrigues (1912-1980), a compreensão da crítica ao populismo e ao acerto do tom de delírio subjetivo na representação de Eldorado (ou seja, do Brasil)3. Terra em Transe chega a ser proibido durante algumas semanas. Os artigos multiplicam-se na imprensa, ecoando um lendário debate sobre o filme no Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro.

O grande efeito de Terra em transe, inclui a influência sobre os artistas do tropicalismo. Em Verdade Tropical, Caetano Veloso relata o impacto sofrido por ele. O critico Roberto Schwarz (1938), por sua vez,  insere a virada tropicalista dentro de um amplo painel interpretativo em “Cultura e Política, 1964-1969”.

No âmbito cinematográfico, a interpretação de Terra em Transe e seu contexto está exposta em Alegorias do Subdesenvolvimento, no qual Ismail Xavier analisa a obra e ressalta o estilo barroco de Glauber em sua plena potente articulação entre política e estética.  

Internacionalmente, o filme confirmou Glauber Rocha como um dos principais diretores do cinema moderno. No Festival de Cannes de 1967, Terra em Transe recebeu o prêmio da federação da crítica internacional (Fipresci). No ano seguinte, a revista L'Avant-Scène Cinema, dedicada à decupagem de obras de grande destaque, examina o filme com farta ilustração. Início da atenção internacional voltada para a análise e a interpretação da obra.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

A felicidade quando chega (Marjorie Dawe)


A felicidade quando chega 
em forma de realização pessoal 
pode muitas vezes 
estar vinculada 
à satisfação momentânea 
de duração restrita!!... 

Felicidade verdadeira
é saber que se faz a Vontade de Deus 
independente da realização pessoal!!... 
Felicidade vai bem além de alegrias!!... 
Engloba muitas e muitas alegrias 
e a falta delas também!...

Felicidade nem sempre é alegre!... 
Felicidade nem sempre é concreta 
ou visível!! 
Felicidade vem da alma 
e não do que o mundo possa trazer!... 

Felicidade é ser de Deus!!.. 
É estar em Deus!!... 
Ser parte desse Deus Infinito!!...
. Felicidade é permanecer fiel 
mesmo nas contrariedades e provações!

Marjorie Dawe

domingo, 3 de maio de 2020

Classificados online da Quarentena


As redes sociais nunca alcançaram índices tão elevados de busca de coisas para passar o tempo do cárcere privado como nesta quarentena.

Estamos em 2020, o mês é maio. Hoje vamos selecionar postagens de um determinado e famoso site especializado em relações e contatos entre seres vivos e inanimados, pessoas físicas e jurídicas, reais e virtuais, desde que paguem para que um sistema cibernético encontre a sua paz.

Setor de Pessoa a Pessoa

1  - Beto Petrolina, pelamordedeus, larga da Nanda e faz uma live só prá mim - sua gatinha manhosa de Campina Grande, Amaralina.

2 - Geralda MS, 46 anos, divorciada Rio de Janeiro - Não sou uma mulher perfeita, mas em minhas imperfeições sou única. Quero ser seu amor, Roberto Alberto! Vem me ter na minha página.

3 - Cristina JR, 38 anos, viúva, Cuiabá - Se quero algo sério e posso me expor, então por que você também não pode, Arnaldo Conceição? Larga aquela maluca e vem ficar doido comigo. Quero um homem que seja fiel, honesto e carinhoso e eu sei que você é isto tudo e eu sou muita coisa.

4 - Camila MD, solteira, 38 anos, Brasília - Quero grudar no seu corpo...e ser sua para todo o sempre, Joãozinho de Goiânia. É você mesmo. Eu vou trazer você de volta em três dias - sim, usei seu cartão, mas foi por uma causa justa, amor.

5 - Ana Carolina, 50 anos, Belo Horizonte - Quero ser feliz! Quero alguém para completar minha vida e juntos navegarmos pelo amor. Sou pobre, decente e aposentada, mas sei fazer pudim de coco e pão de queijo.

6 - Isabela, 40 anos, divorciada, São Paulo - Uma mulher especial!! Fiel e apaixonante! Você vai ficar muito feliz ao meu lado, Claudionor Vodkaski. Aproveita a quarentena e tranca comigo aqui em casa.

7 - Maria Ap MB, viúva, 52 anos, Rio de Janeiro - experiência de vida e muito amor para dar. Estou aberta a todas as possibilidades, desde que seja rico, bonito, carinhoso e gostoso.

8 - Jajá Macho Alfa, 36 anos, solteiro, Rio de Janeiro - Hoje você está bem na fita? Venha ser minha metflix!!

9 - Carlinhos Le-Fante, 45 anos, casado, Niterói - Vivi, sua linda, vem aqui para o seu tigrão!!!!

10 - Renatão do Pagode, 38 anos, divorciado, Belo Horizonte - Pode confiar, eu sou foda!

11 - Garfo Limpo, 27 anos, solteiro, São Paulo - O que você está esperando? Sigilo e discrição.

12 - Geraldinho, 52 anos, casado, Campinas - Venha fazer parte da minha coleção!!!

13 - Negão Artilheiro, 42 anos, casado, Goiânia - Jovelina, larga de ser boba e libera geral.


Setor de Empresas/Lojas/Prestação de Serviço

1 - Vendo a Loja toda.

2 - Vendo a empresa no estado em que se encontra

3 - Passo loja em excelente estado de conservação

4 - Fechei a loja, devolvi o imóvel, empacotei tudo e agora faço qualquer coisa à distância, qualquer coisa mesmo. Tenho tabela para serviços gerais. Parcelo em até três vezes.

5 - Ex-empresário, conto piada de salão, piadas pesadas e piadas fakenews. Preço camarada.

6 - Ex-lojista, canto qualquer coisa. Pode fazer sua lista que faço  a live.

7 - Vendo loja no estado, com todos os funcionários dentro, menos a Dalvinha.

8 - Vendo empresa com dívidas ativas e créditos inativos em estado de latência maravilhosa.

9 - Gente, eu fali, pelo amor de Deus, alguém me adota aí.

É isto aí!





sábado, 2 de maio de 2020

Cartas à mãe nas quarentenas da vida


Oi mãe,

Ainda estou bem. Sim, mãe, estou bem. Não tomo gelado, não ando descalço, não converso com estranhos, não dou informações pelo telefone e não deito tarde. Tudo junto, com adaptações, sei, a senhora vai achar que fiquei relaxado, mas os tempos exigem, mamãe.

Vivo num país profetizado pelo Lulu Santos - "Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia tudo passa ...", mas mãe, desculpa, nunca ousei falar de uma palavra de tamanha impudicícia, mas desta vez está demorando demais esta merda toda.

Assim que falei do profeta Lulu Santos, ocorreu-me um desejo muito atual do Cartola, que a senhora gosta tanto, lembra? Foi a senhora que me apresentou às músicas dele. É dele o desejo que bate cá dentro, mãe: "Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, rir pra não chorar. Quero assistir ao sol nascer, ver as águas dos rios correr, ouvir os pássaros cantar, eu quero nascer, quero viver, deixe-me ir ...".

Ah, mãe! Saudade de tudo, saudade de atravessar a rua, de errar o caminho, de reconhecer as pessoas pelo sorriso já lá de longe. Saudade de ver as margaridas levantado poeira, falando coisas incompreensíveis entre si, de ver crianças fazendo pirraça nas calçadas e as memórias chicobuarqueanas cruzam a todo momento -  "Eu tô só vendo, sabendo, sentindo, escutando e não posso falar ...".

Saudade de ver o mar lá na Península de Maraú, prá cima de Ilhéus. Mãe, tem nada mais lindo não. Saudade de andar no calçadão da Halfeld em Juiz de Fora, na Ilha São Francisco em Santa Catarina. Acho que tem trem demais nestas memórias da quarentena se acumulando, o que exige viver o dobro para cumprir as promessas de estar na Vesperata de Diamantina e na Festa dos Santos do Rio São Francisco, lá em Januária, tem nada igual.

Mãe estou encerrando a carta, mas a luta continua. E nesta loucura que está  a pátria amada, estou fechado com Nietzsche - "E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música".

Sua benção!

sexta-feira, 1 de maio de 2020

A vida é sonho (Calderón de La Barca)



Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.

É certo; então reprimamos
esta fera condição,
esta fúria, esta ambição,
pois pode ser que sonhemos;
e o faremos, pois estamos
em mundo tão singular
que o viver é só sonhar
e a vida ao fim nos imponha
que o homem que vive, sonha
o que é, até despertar.

Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano mandando,
resolvendo e governando.
E os aplausos que recebe,
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte talha de um corte.

E há quem queira reinar
vendo que há de despertar
no negro sonho da morte?
Sonha o rico sua riqueza
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;

sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.

Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.

Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção;
o maior bem é tristonho,
porque toda a vida é sonho
e os sonhos, sonhos são.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Quando a verdade for flama - Thiago de Mello


As colunas da injustiça
sei que só vão desabar
quando o meu povo, sabendo
que existe, souber achar
dentro da vida o caminho
que leva à libertação.
Vai tardar, mas saberá
que esse caminho começa
na dor que acende uma estrela
no centro da servidão.
De quem já sabe, o dever
(luz repartida) é dizer.
Quando a verdade for flama
nos olhos da multidão,
o que em nós hoje é palavra
no povo vai ser ação.

Quadro de Tarsila do Amaral:
"Operários" de 1933 – Óleo sobre tela (150 x 205 cm) . Acervo dos Palácios do Governo do Estado de São Paulo (Palácio Boa Vista –  Campos do Jordão –  São Paulo –  Brasil)

Poema de Thiago de Melo:
Escritor e tradutor amazonense, com obras traduzidas para mais de trinta idiomas, é conhecido também como o poeta da floresta. Sua escrita é comprometida com as causas sociais e ambientais, especialmente, a conservação da Amazônia.
Perseguido durante o regime militar no Brasil, exilou-se no Chile por dez anos, porém não abandonou a escrita. Dentre suas obras mais conhecidas estão: Faz escuro mas eu canto (1965), A canção do amor armado (1966), Poesia comprometida com a minha e a tua vida (1975), Os estatutos do homem (1977) e Mormaço da floresta (1984). Em 1975, o livro Poesia comprometida com a minha e a tua vida foi premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Essa premiação possibilitou que o escritor fosse reconhecido internacionalmente como um intelectual engajado na luta pelos direitos humanos.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Carminha e Armandinho - As juras de Amor


Armandinho, precisamos discutir nossa relação a sério e de hoje você não escapa.

Mas, Carminha, é quarentena, meu amor ...

Amor o cacete, e é bom que seja quarentena, pois não tem como fugir.

Tudo bem, Carminha, manda ver.

Armandinho, você jurou que nunca mais voltaria naquela vadia e voltou.

Carminha, eu não voltei, eu passei perto...

Sei ... Jurou que nunca mais beberia e bebeu.

Fermentados, Carminha, fermentados ...

Está me dando nos nervos. Jurou que nunca mais cometeria o mesmo erro e cometeu.

Carminha, isto prova que sou um homem conservador e reto.

Você é um cretino. Jurou que nunca mais falaria sobre aquele assunto e falou.

Carminha, vem cá, era um assunto pendente ...

Vou te dar uma vassourada, sem vergonha. Jurou que nunca mais fumaria e fumou.

Verdade, fumei mas não traguei. Cumpri em parte a jura.

Mas é muito cara de pau. Jurou que nunca mais endividaria e endividou.

Querida, em não endividei, levantei recursos para um investimento com retorno seguro.

E carteado é investimento, Armandinho? Que ódio!! Jurou que nunca mais amaldiçoaria e amaldiçoou.

Meu bem, era sua mãe, e ela mereceu a maldição.

Olha bem, Armandinho, olha bem, sabe qual é o seu problema?

Sei, Carminha, eu sei qual é o meu problema.

Então diga, hem seu sem vergonha, ordinário, safado e despudorado.

Meu problema, Carminha, são as juras, tenho vício em jurar ...

É isto aí!

terça-feira, 28 de abril de 2020

Coisas para fazer imediatamente após a quarentena


Praia (Bahia)
Andar na rua de qualquer cidade
Vesperata em Diamantina
Abraçar minha mãe
Não ler nada do que foi deste tempo
Entrar numa igreja, ajoelhar e ficar ali, contemplando
Cortar o cabelo
Chorar escondido por toda a dor que vi e ouvi.
Perdoar a todos que me tenham ofendido
Continuar sem entrar no cheque especial
Pedir perdão a quem de direito
Amar ao próximo
Amar muito mais a mim mesmo
Andar na chuva
Desligar as redes sociais por três dias e três noites.
Manter as metas do sonho
Manter os propósitos das metas
De tudo ao meu amor serei atento antes.

Por enquanto está boa, mas longe de estar completa

É isto aí!




Só de ser de Juiz de Fora, já explica o talento!!


Reproduzo acima a capa do ultimo livro publicado e abaixo e respondo aqui como crônica de uma alegria anunciada, o comentário da escritora, poetisa e professora da apaixonante Juiz de Fora, Amanda Machado, que você poderá ver in loco aqui:

Minas Gerais, mês quarto de 2020

Caro Paulo,
sigo por aqui, nessa inesperada, assustadora e, talvez, transformadora quarentena (com inevitáveis afastamentos e novas aproximações, de outras ordens) lendo-o e dialogando com os seus textos.
Há muitas teimosias admiráveis, muitas mesmo! O auto desafio é uma das que mais admiro. Que bom que a sua resolução íntima nos dá regalos maravilhosos...

Quanto à pergunta, sim...tem dias que conversar ou escrever é um peso, mas aprendemos tanto sobre superação quando nos propomos a avançar mesmo pesados, não é?

Parabéns pelo desafio e pela quase conclusão. Abraços de uma amiga quase silenciosa, mas sempre presente.
Amanda

Vamos à devolutiva:

Minas Gerais, 28 de abril de 2020

Prezada escritora, poetisa e professora
Amanda Machado ( https://parecolouca.blogspot.com/ )
Só de ser de Juiz de Fora, já explica o talento!!

Recebi nesta manhã sua carta, elegante como sempre, postada acima. Logo me ocorreram dois pensamentos, que adiante busco explicar:

- Essa moça ...  Só de ser de Juiz de Fora, já explica o talento!!
- Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor. (Fernando Pessoa - Mar Português)

Na juventude, experienciei Juiz de Fora com uma alegria que nunca mais reconheci em mim. O vento mudou, as velas içaram e a nau que leva minha vida seguiu além do bojador. 

Cada vez que recebo um comentário seu torno a colocar os dois pés no calçadão da Halfeld, subir o Morro da Glória até as imediações do Colégio Santa Catarina, para tomar café na casa do meu tio-avô, que era tradicionalista, com todo um cerimonial para o evento - minha visita era um evento para eles. Fazer a rota inversa, subindo pelo Alto dos Passos, comer um pastel no Mexicano, tomar uma tantas no Bar do Bigode, sair na primeira e na segunda versão da banda Bandida, ir ao Museu Mariano Procópio, subir a pé até o Mirante do Imperador, assistir um filme no Cine Central e passar na Grandeza Real para ouvir samba de primeira qualidade. Saudade do São Matheus, saudade de ter saudade da saudade de um tempo tão bom. 

Sou integralmente gratidão por suas palavras, Amanda, que sempre me transportam para este lugar tão aconchegante do meu passado. Lembro quando estava buscando na rede poemas da Wislawa Szymboska e a busca me levou ao seu blog, sete ou oito anos atrás. Wislawa deve sorrir no seu jeito polaco. Acho que vou santificar Wislawa na Pitangueira.

É isto aí!

Um abraço, Amanda!!!




segunda-feira, 27 de abril de 2020

O Analista da Pitangueira - Sonhar é quase um privilégio, ter sonhos é obrigação.


Entre, sente-se onde desejar e vamos conversar.

Posso falar sobre tudo?

Sim, mas vamos começar sobre o que o trouxe aqui.

Então doutor, sabe, eu passei os últimos vinte anos de uma maneira muito difícil, impossível, longe da minha realidade desejada. Lembro que na infância sonhava com coisas as mais impossíveis, além de desejar ser motorista de caminhão. Talvez tenha sido a profissão que mais desejei até a vida começar a emitir suas faturas. 

Por que motorista de caminhão?

Ah! Viajar, conhecer lugares, levar e trazer as coisas.

Interessante. E hoje?

A solidão que habita em mim é terrível. A vontade de sair pelo mundo deve ter sido semeada nos sonhos daquela época, mas quando penso num caminhão, logo vem a tristeza, não consigo visualizar alguém que divida esta jornada comigo e que me faça feliz. Sou solitário. Não tenho mais sonhos, nem ilusão, e não acredito na felicidade.

Vamos por partes. Sonhar todas as noites e recordar o que sonhou é quase um privilégio, mas ter sonho como meta é obrigação. Sonho pode ser muitas coisas, inclusive nada, pode ser revelador, pode ser simbólico, mas ter um só um sonho, destes que se vive acordado, é o que move a sua vida, tira você da cama, faz você sair na sua busca.

Será? Ter sonho é obrigação?

Se você não tiver um sonho, uma meta e os propósitos que perpassarão esta meta, você ficará andando em círculos, como um caminhão com a direção travada, tudo funciona, mas só em movimento circular. Então, sim, viver neste mundo nos obriga a sonhar.

Mas me falta a felicidade. Nunca fui feliz desde ...

Antes de completar sua argumentação, saiba que a Felicidade é um processo de ausência de sofrimento, enfim, a felicidade passa por não sofrer e ser infeliz é possuir a sensação de não ter algo que se deseja. Reveja seus sentimentos e fale em qual destas duas realidades você se reconhece mais.

(silêncio)

Pode refletir, feche os olhos e se pergunte - Não conheço a Felicidade ou sou Infeliz?

Sou infeliz - não tenho com quem viajar no meu caminhão da infância, mesmo que fosse para dar círculos. (lágrimas)

Semana que vem, está certo? Semana que vem retornaremos esta viagem.

É isto aí!

domingo, 26 de abril de 2020

É uma postagem propositiva


Caramba, hoje já é vinte e seis de abril de 2020. No dia 31 de março eu fiz uma aposta estúpida comigo de que seria capaz de publicar um texto por dia durante o Abril, enquanto durasse a quarentena. Gente, não é fácil. Todo dia sentar diante da tela, e permitir-se escrever.

Hoje a postagem é de gratidão a você que sempre está aqui, não se preocupe, o anonimato é a regra do blog, a não ser que você se pronuncie nos comentários. Esta é a vantagem, diferente das redes sociais, aqui é um local único, de relação direta entre quem escreve e quem lê.

Vamos avançar em outros temas, quero antes terminar esta aposta comigo mesmo de que seria capaz de uma coisa desta natureza. Tem dia, como hoje, que conversar ou escrever é de um peso sobrenatural. Com você é assim também? 

Então é isto. É uma postagem propositiva para manter a ordem natural das teimosias. Nunca aposte contra você mesmo, a não ser que o prêmio seja objeto de desejo,mas isto fica para outra postagem. 

Um abraço

É isto aí!


sábado, 25 de abril de 2020

Eu gosto de você!


Eu gosto de você, 
e quando estou triste 
imagino ler ao seu lado
poemas aleatórios da 
Emily Dickinson, 
pausadamente abraçados,
e terá que escolher 
apenas um e dizer o por quê 
dela tocar seu coração. 

Eu gosto de você
Gosto da sua voz 
e nela delicio
ouvirmos Edith Piaf 
Non, je ne regrette rien
fazendo biquinho
com seus lábios macios

Olha, gosto muito
de sonhar e ler 
numa rede ali colados 
um poema lindo
do Neruda, 
de forma que sei
que é dele, apaixonado,
mas agora é seu. 
Eu gosto de você assim 
como o Neruda decretou para mim:

Quero apenas cinco coisas...
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera 
para que continues me olhando.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Nem tudo tem sentido


Joãozinho era o bebê mais lindo da rua, era o menino mais esperto da região, era o garoto mais inteligente da escola, era o rapaz mais estudioso do ensino médio, era o aluno mais aplicado da faculdade até que Joãozinho foi abduzido e desapareceu com Dolores Orquídea, para desespero da sua namorada desde os onze, Claudinha Torque.

Claudinha Torque abandonou a faculdade, abriu uma barraca de salgados e churrascos na feira, conheceu Claudionor Junqueira, vizinho de função, criaram um restaurante, outro e depois uma franquia. Claudinha Torque aos trinta anos estava rica e infeliz.

Claudionor Junqueira cansou-se das lamúrias e apurrinhações de Claudinha e fugiu com Dezinha Lisboa, uma mulata encantadora, auxiliar da cozinha do restaurante que administrava. Dezinha triplicou a fortuna de Claudionor e foram felizes para sempre.

Claudinha Torque seguiu a vida triste e lamentando em tempo integral sua infelicidade, até que conheceu Salvador Varejo, um pequeno distribuidor de alimentos. Em apenas quatro anos quadruplicaram seus negócios e separaram-se quando descobriu que Salvador Varejo era ex de Dolores Orquídea, a malvada que destruiu seu coração.

Um dia, e este dia sempre chega, entra no restaurante internacional da tristonha, seu grande amor - Joãozinho. Estava só. Empolgadíssima, apressou-se a vir recepcioná-lo dispensando todo o ritual da empresa. Levou-o até a área vip, pediu o melhor vinho e enquanto esperavam, olhou nos olhos de Joãozinho que não olhava nos olhos de ninguém.

- Joãozinho, olha bem nos meus olhos, quem sou eu para você?
- Você sabe meu nome?
- Joãozinho, você está brincando, olha bem para mim, quem sou eu?
- A garçonete do restaurante?
- Joãozinho, estou falando sério.

Joãozinho levantou-se e partiu sem olhar para trás.
Claudinha Torque ficou milionária, linda, solitária e estranhamente feliz.

É isto aí!

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Profissionais da Terceirização - O flufferista da Corte


- Boa tarde!
- Não precisa sentar.
- Mas eu ...
- Próximooooo!!!

- Boa tarde!
- Não precisa sentar.
- Eu não ia sentar.
- Não foi o que me pareceu.
- Estava arrumando a cadeira que estava fora do esquadro da mesa.
- Engenheiro, não é? 
- Sim, com muito orgulho.
- Sinto muito, mas engenharia não é aqui, é na terceira porta à direita.
- Eu já estive lá. Está lotada a sala, e tem senha para pegar a senha.
- Se já esteve lá, sinto muito. Próximoooo!!!

- (silêncio)
- Pode se aproximar e feche a porta.
- (silêncio)
- O senhor é mudo?
- Não, senhor.
- Experiência profissional?
- Várias, e em todas fui bem sucedido.
- Interessante. Quantas experiências o senhor tem acumuladas?
- Dez.
- Dez? Veja só, sente-se, por favor e me fale das três que mais gostou.
- Humm, vejamos, fui auxiliar de reprodução de elefantes, testador de sexo de granja e fluffer.
- Como é que é? Fluffer?
- Isto mesmo, e era muito disputado. Fluffer é o responsável por manter atores e atrizes pornôs excitados entre as tomadas de um filme. 
- Uau, você tem o perfil que precisamos.
- Posso saber o serviço?
- Sim, claro. O senhor vai ser terceirizado como chefe supremo do Desserviço de Segurança Colonial.
- Desserviço? como assim?
- Bem, pessoas com seu perfil são raras de se encontrar pois o senhor entende do babado e faz tudo para a canoa não virar e além disto sabe fazer uma sacanagem intermediária para que depois de editada apareça como final feliz.
- Interessante seu ponto de vista
- Então, com a sua rica experiência irá atuar para que algumas pessoas do interesse do Departamento não se protejam com todas as informações supostamente disponíveis; vai selecionar confidencialidade; vai expor a integridade de alguns membros da sociedade ao escárnio midiático; intervirá na indisponibilidade de processos diversos em todos os labirintos, corredores e porões; poderá questionar a autenticidade de laudos e documentos e por fim vai sempre estar ao lado da nossa legalidade, tudo para mantermos a tradição da liberdade, aja o que houver.
- Quando começo?
- Já está atrasado.

- Dona Amélia, ligue urgente para o Grande Líder.
- Sim, doutor Peixoto.

- Dona Kátia, o Doutor Peixoto precisa falar urgente com o Grande Líder.

- Doutor Peixoto, sua ligação, senhor.

- Fala, Peixoto, mas seja breve. Essas merdas da comunicação ainda não editaram um escândalo novo.
- Grande Líder, seus problemas acabaram. Estou enviando para o Departamento um flufferista profissional.
- au.au.au, Peixoto, estou salvo. Se não fosse minha macheza alfa suprema eu te daria um aceno de longe, Peixoto. Manda manda manda.

É isto aí!

terça-feira, 21 de abril de 2020

Além da fronteira


Há uma imensa manifestação em avançado estado de conflito na sempre promessa de futuro conhecida como Geolândia, uma ilha virgem como os lábios de mel, no meio do oceano agitado de vespas, marimbondos e capivaras. Só a piranha não dá no mar, salvo autorizada por salvo-conduto da suprema goma, como diria o especialista de mar quando não está para peixes. Dr Armando Golpe.

Segundo a especialista e famosa filologista Lavouta Limpo, novas palavras entraram no dicionário daquela ilha amada nos últimos vinte anos, alguns neologismos e algumas novas interpretações para velhas conhecidas. Isto tudo é balela, afirmou a formosa donzela.

Segundo o especialista e analista neanderthal, o famoso observador Jota Silva, daqui a alguns anos o que é adjetivo ofensivo ou glorioso estará enterrado na cova rasa da hipocrisia, ou num jazigo abandonado da história.

Segundo o especialista de formação de aglomerados, Caminha Dentro, o fato é que ao cruzar a fronteira entre a razão e as emoções que pululam, a choldra está só, e os atores continuam nus, mas não se importam. Eles são todos os que acreditam que juntos e misturados são capazes de ficar mil anos contracenando, como num imenso palco, onde cada um exerce seu papel - você da esquerda fique ali, o da direita mais para o centro, os extremistas revesam fundo e frente intermitentemente. 

Novos tempos estão cada vez mais exigentes em especialistas e cada vez menos exigentes em humanidades, suspirou o seu Joãozinho, pipoqueiro da porta da Paróquia.

É isto aí!




segunda-feira, 20 de abril de 2020

Uma pequena viagem ao interior.


Dia destes acordei estranho, e não era manhã, era noite ainda, ou melhor, já era noite de um dia zero, onde começou o que sempre achei ser lenda urbana, conto para despertar sorrisos. Acordei numa noite totalmente silenciosa. Tateei meu corpo, certifiquei que estava ali fisicamente, recorri a pensamentos lógicos como nome, idade, coisas que só eu sei, cálculos matemáticos simples, e verifiquei que eu era eu mesmo, e era noite.

Só então percebi que estava no campo aberto, o céu era o céu, mas as estrelas estavam numa posição diferenciada, não reconheci aquele céu. Duas luas clareavam o ambiente, uma prateada e a outra azulada. Havia um silêncio absoluto, você já experimentou um silêncio absoluto? Experimente entrar numa câmara anecoica, ou seja, uma cabine totalmente à prova de sons. Após alguns segundos ouvirá dois sons: um agudo, produzido por seu sistema nervoso, e outro grave, gerado pela circulação do sangue nas veias.

Pude ouvir também meus próprios batimentos cardíacos, os pulmões em atividade respiratória e até mesmo pequenos ruídos emitidos pelo estômago, e depois e algum tempo comecei a experimentar alucinações bizarras, outras prazerosas e outras assustadoras. E todas estas alucinações estavam lucidamente dentro da minha mente, não vinham do exterior. Algumas vezes gritei, outras chorei, outras fiquei aterrorizado.

Na medida que as alucinações avançavam, fui ficando calmo, percebi uma necessidade, o termo que encontro, de levitar. Levitei até a altura da copa de uma árvore que desconheço. Ali estabeleci contato com cinco seres interiores, sendo o primeiro o Medo, depois a Tristeza, depois a Alegria, depois veio a Raiva e por fim o Afeto. Cada um revelou-se dentro de mim, mostrou suas dores e suas conquistas.

Foi quando me dei conta que eram minhas emoções, e elas existem tanto quanto eu. Não se separam, não brigam entre si, não prejudicam umas às outras. Era minha vida que as fazia estabelecer parâmetros, uns bons, outros não tão bons. Foi uma noite intensa, longa, num céu que desconhecia, que habita dentro de mim, meu mundo particular, onde nunca estive. 

Voltei para refletir sobre estas coisas. Quantas vezes me feri por desrespeitar minhas emoções, quantas vezes errei por contrariar minha natureza humana? Nunca mais fui o mesmo.

É isto aí!


domingo, 19 de abril de 2020

Olha, é o meu amor!


Dia destes sonhei algo estranho, não sei bem explicar a forma das coisas, estava tudo estranho, mas qual sonho não é estranho, não é mesmo? Na verdade sonhei com você, não era exatamente você, mas era você. Era, humm, simbolicamente você, entende? E eu estava ali também. Engraçado, sonhei duas vezes com você nestes dias.

Bem, no sonho eu cheguei a uma cidade linda, sem edifícios altos, parecia uma cidade medieval, com casas coloridas, fachadas floridas, pessoas andando sem pressa. Não havia automóveis, nem postes, nem fios, nem celulares. Vi lojas de todas as variedades de comércio, lanchonetes, padarias, restaurantes, vi também crianças correndo prá lá e prá cá.

O sol, engraçado, não vi o sol, mas tudo era tão claro, o céu parecia azul, mas às vezes rosado, e a rua de calçamento de pedras, como conheci na infância, reluzia o céu, e hora era dourada, outra prateada ou rosada. Um senhor do outro lado da rua veio ao meu encontro, pois eu estava ali parado e não sabia como cheguei e para onde ir. Aproximou-se com um sorriso largo, me abraçou e me chamou pelo nome. 

Logo fez sinal para outras pessoas, idosos, mulheres, moças, rapazes e foram se aproximando e todos me abraçavam ao mesmo tempo. Então comecei a chorar, chorei muito, meus olhos ficaram muito embaçados. Foram me levando pela rua dourada, e ao cruzar uma esquina, a outra rua era mais linda, também com tons dourados, sem fusco, não havia aquela ostentação de luz, porém ao mesmo tempo tudo era luz, com um brilho inexplicável.

Nesta esquina, de frente para uma casa com sacada, que vi você. Senti uma aflição, uma vontade louca de gritar - Olha, é o meu amor! - mas não conseguia falar. Você estava linda, num vestido azul, sem sapatos, engraçado, você estava descalça, e quando  olhei para meus pés, também estava descalço. As pessoas foram se despedindo e ficamos ali, nos olhando. Entre nós jorrava um fonte de água, de um esplendor  inigualável. 

Foi quando senti um puxão nas pernas, sabe? Como se estivesse numa piscina, tentei me agarrar a alguma coisa, mas só consegui piorar os movimentos, até acordar na cama, ainda tentando retornar à superfície.

É isto aí!




sexta-feira, 17 de abril de 2020

Sincericídios de quarentena


Amor!!

Sim, querida Carminha?

Vá à merda!

Uau, para uma mulher elegante, você gastou sua cota de berço.

O que você quis dizer com isto, Armandinho?

Nada, meu bem, apenas lembrando quem era antes e depois de mim.

Olha aqui, Armandinho, olha aqui, vá para a triputa que o pariu.

Humm ... nada como um banho de cultura mariodeandradeana, que custou meu dinheiro nas suas aulas particulares de Modernismo, que você achou que era um curso para aprender a morder..

Armandinho, eu sei que vim de uma família humilde, mas sei também a origem da sua família.

E???

Nada, Armandinho, nada.

Olha aqui Carminha, quem tirou seu irmão da cadeia? Quem pagou as fraudes fiscais do seu pai?

Mas eu nunca te pedi nada. E nunca estive a venda. Seu bosta, seu merdinha.

Olha só!! Nunca pediu nada? Tem certeza?

Ah! Não! Eu sabia que um dia você iria jogar isto na minha cara. Você é sujo demais.

Nunca pediu nada, Carminha? Tem certeza?

Eunãosabiaqueowaltdisneytinhamorridoepediparavocemelevarondeelemoravacomabrancadenevenocastelodacinderela.

Viu? Não adianta falar embolado. Você tem déficit cognitivo, Carminha.

Eu sei que eu tenho déficit na conta e no cartão, Armandinho, mas quem não tem?

Déficit na conta e no cartão? Carminha, que papo é este? Eu pago todas as suas contas.

Ai, amor, sabe o que que é??

Não sei, não quero saber e está sem mesada. Que fechem a sua conta e bloqueiem seu cartão.

Mas, amor ...

Amor, o caralho, Carminha. Mas fala, fala aí, sua megera, o que você fez?

Fiz nada, amor, ainda não fiz nada, quer dizer, fiz uma promessa e agora estou com déficit na conta do nosso programa de quarentena, quando garanti a mim mesma  uma posição diferente de Kama Sutra por dia para ir anotando num cartão. até acabar esta coisa.

uau, Carminha!!! Vem cá amor ...

Não sei, você me magoou muito ...

Humm, Carminha, se você não vier eu vou, hem ...

Vai o que, Armandinho?

Vou jogar vídeo-game.

Canalha, canalha, canalha ...

É isto aí!








quinta-feira, 16 de abril de 2020

As emoções negativas e as dores na Coluna Vertebral (http://www.biodiana.com/)


A coluna vertebral é repleta de todo o tipo de mensagens e, cada divisão anatômica, assinala um conflito emocional muito específico.

A coluna vertebral em si é o reflexo da forma como vivo os meus fundamentos / valores internos. Podemos olhar para a coluna vertebral como um pilar que nos mantém firmes. Os nossos fundamentos e valores (os nossos pilares) caso não sejam respeitados, entramos em conflito emocional e biológico, podendo afetar a coluna em determinados locais e com patologias específicas.

Assim, as patologias que afetam a coluna têm relação com: a minha vida, com o que penso, como o faço, como me relaciono e com a comunicação que tenho com os outros… São os FUNDAMENTOS BASE da nossa vida quotidiana.

A PALAVRA-CHAVE PARA TODO O SISTEMA OSTEOARTICULAR É DESVALORIZAÇÃO. NESTE CASO, EXISTE UMA DESVALORIZAÇÃO EM RELAÇÃO A VALORES CENTRAIS, ESTRUTURAIS, IMPORTANTES PARA MIM, NOS QUAIS NÃO ESTOU A CONSEGUIR RESPEITAR.

Ao nível da arquitetura anatômica, a coluna é a fundação de uma casa e a sua base, toda uma estrutura sólida que suporta tudo o resto, num eixo central onde tudo é sustentado e construído. É a referência na sensação de “movimento do fluir” do nosso dia-a-dia.

Na coluna encontramos cinco grande zonas simbolicamente distintas: CERVICAL, DORSAL, LOMBAR, SACRO e CÓCCIX. Em cada uma delas existem conflitos relacionados, mais precisamente em cada uma das 33 vértebras, variando em função da sua posição e dos órgãos nas quais se encontram relacionadas.

CERVICAIS

O pescoço é o prolongamento da cabeça e ajuda a aumentar o perímetro de recepção da informação que nos chega através dos 5 sentidos. Por outro lado, leva a informação da cabeça para a parte inferior do corpo. É um local de CONEXÃO entre cabeça-corpo, um lugar onde passam muitos condutos: os nervos, veias, artérias, traqueia, laringe, esófago, onde flui sangue, alimentos e informação. É a conexão entre o que ocorre na minha na cabeça e o com o meu corpo, ou entre o que ocorre no meu corpo e chega á cabeça. Assim, todas as patologias cervicais implicam um desacordo entre o que penso e o que faço. Há uma divergência entre os meus pensamentos e as minhas ações, levando a uma dor moral que se pode traduzir numa dor física na zona cervical. “Será que digo / faço o que eu penso?”

A palavra-chave das vértebras cervicais é a COMUNICAÇÃO. Nas cervicais também se encontram a nossa VOZ, isto é: o que dizemos, o que não dizemos, os segredos, a expressão do que somos em coerência com o que comunicamos, em conjugação com a cabeça, emoções e palavras. Por exemplo, um torcicolo é um sintoma que fala por si mesmo. Qual é a utilidade de um torcicolo? Impede o movimento lateral da cabeça, justamente afetando os músculos que nos permitem dizer “NÃO”. Momentos antes de um torcicolo, normalmente no dia anterior, relembrar qual foi o momento em que querias dizer “não” mas disseste “sim”. Vais encontrar uma resposta. Em torcicolos, por norma, podem encontrar-se pessoas que dizem “sim” quando querem dizer “não”, não existindo coerência entre o que pensam, sentem e falam /fazem.

DORSAIS

Em torno da parte central da coluna vertebral encontramos os órgãos básicos para a sobrevivência: coração, pulmões, fígado, estômago. Os conflitos emocionais que mais afetam esta zona e vértebras estão relacionados com pessoas que se sentem como sendo os PILARES DA FAMÍLIA, pessoas que são elementos centrais dentro do clã familiar, que se responsabilizam por carregar / solucionar os problemas de todos e de chegar a todo o lado. Com os “pilares da família” todo o mundo pode contar com eles e, ocupar esse lugar, implica transportar uma carga muito pesada. Sentem que trazem consigo o peso dos demais e necessitam de ser os mais fortes para suportar todos.

Para ilustrar este conceito de pilar de família, nada melhor que expor um caso de uma mulher que trabalha como enfermeira num hospital. Pela primeira vez na vida, entra em baixa médica porque desde há dois meses que não se consegue levantar. Os médicos diagnosticaram uma Espondilite Anquilosante, (patologia que leva à fusão das vértebras) sendo neste caso dorsais, provocando uma rigidez e impedindo movimentos livres. O que acontece é que ela trabalha para todo o mundo. Ela é o “Pilar” central de qualquer coisa, desde ao nível familiar, profissional e social, e nunca diz “não” quando alguém lhe pede algo, dizendo automaticamente “sim”, transportando consigo todos os temas “pesados” da família. A senhora cuidava dos seus irmãos quando estavam doentes, ajudava-os economicamente, judicialmente, nos quais se encarregava de ajudar quase todos eles. Com isso, consciencializou-se que precisa de uma coluna muito forte para suportar isso tudo. Podemo-nos perguntar: “porque esta mulher ocupa este papel na família?” Indo pela sua história pessoal, no momento do seu Projeto Sentido Gestacional descobriu-se que os seus pais queriam um rapaz em vez de uma menina e que ela teve que assumir inconscientemente, desde sempre, um papel masculino e forte, onde tinha que suportar tudo e todos, num misto de serviço com sacrifício (ver também o caso ELEFANTE DE CARGA).

Nesta zona também encontramos as costelas que conformam a caixa torácica, que por sua vez protegem os órgãos internos mais delicados. Quando há sintomas de dor ou fractura nas costelas trata-se de conflitos inoculados relacionados com as relações hierárquicas reais e simbólicas. Neste caso, as 4 primeiras costelas existe DESVALORIZAÇÃO em relação aos ASCENDENTES (pais, avós, tios, chefes, padrinhos…), as 4 médias com COLATERAIS (irmãos, namorados, colegas, amigos, primos…) e as 4 inferiores com os DESCENDENTES (filhos, sobrinhos, alunos…). As costelas são como se fossem uma árvore genealógica incorporada na zona dorsal e lateral do corpo.

LOMBARES

Esta parte baixa da coluna partilha um espaço com os órgãos sexuais, parte do sistema digestivo inferior, os rins e bexiga, e representa a base de apoio da nossa estrutura, o que nos mantém erguidos ou nos faz subjugar. De uma forma geral, as lombares estão relacionadas com o tema da “relação com o outro”, que é a frase-chave desta região vertebral.

A tônica emocional que compõe esta zona encontra-se sobretudo ligada com as RELAÇÕES e a SEXUALIDADE. Em muitas mulheres, encontram-se lombalgias frequentes por sentirem um sentimento de culpa de fazerem “algo” que não deviam, depois de terem relações sexuais com os seus companheiros ou maridos. Por vezes, nas suas relações vivem uma relação de submissão feminina (“o dever da mulher é agradar o homem”), causando um desrespeito com um valor central na sua vida, em relação a si mesma ou na forma como vive o seu casamento. No caso de homens, pode existir uma relação de subjugação às suas namoradas ou esposas, no sentido de ter que acatar exigências emocionais excessivas.

SACRO

Tal como o nome que define esta zona, “sacro”, encontra-se relacionada com valores SAGRADOS que regem a nossa vida e se encontram desrespeitados ou desvalorizados, sendo estes: religiosos, políticos, humanos, familiares, de relação, etc.

COCCIX

Esta é a zona afetada quando nos sentamos numa cadeira ou num lugar qualquer. Quando há conflitos com o cóccix, pode remeter a problemas de identidade ao nível estrutural, com o lugar onde ocupo na minha família, como se existisse a sensação de “não tenho lugar na minha família”, “que me sinto excluído / aparte da minha família”, levando a questões como “Onde me sento na mesa da minha família?”, O que sou para eles?”

Sempre que nos referimos a dores nos ossos e músculos, baseamos no terreno emocional dos conflitos de DESVALORIZAÇÃO com uma sensação de: sinto-me rebaixado(a), inferiorizado(a), desrespeitado(a), menosprezado(a), incompetente, incapaz de…, etc, onde existe um conflito entre os meus VALORES / FUNDAMENTOS e os RESULTADOS das minhas ações. 

Assim, em qualquer temática osteoarticular, a solução passa por VALORIZAR-ME A MIM MESMO, ATENDENDO AOS MEUS FUNDAMENTOS. É vital criar um sistema de valores nos quais me sinto bem, vivê-los em coerência com a minha vida, destacando-os em relação aos outros e no lugar do mundo onde ocupo.

Em todas as patologias da coluna, existe um bio-choque que gera uma emoção que não se expressa e logo aparece o sintoma, neste caso sintomas osteoarticulares. Ao longo do tempo vai aumentando a tensão emocional, levando ao chamado “efeito jarro psicossomático”, que consiste em acumular pequenas coisas de pequena importância que se vão repetindo ao longo do tempo, sobrecarregando o tecido muscular, articulatório, com desgaste do mineral ósseo. Ao fim de algum tempo, aparece o sintoma vertebral através de situação na vida aparentemente insignificante (um conflito com alguém, uma mudança de trabalho, um projeto novo, etc…), sendo essa a gota que faz transbordar o jarro psicossomático. Na maioria das vezes, baseia-se num conflito de baixa intensidade que se repete durante muito tempo.

Copiado e colado de:
 Fonte: https://www.verdadesdocorpo.com/2016/06/20/coluna-vertebral-e-a-relacao-com-as-emocoes/

Fontes original: biodiana.com
Traduzido por: Marco Sousa
Texto adaptado para: Verdadesdocorpo.com
Informação bibliográfica:
Sellam, Dr.º Salomon, Los huesos – generalidades (vol. 7), Bérangel Editorial, 2011
Sellam, Dr.º Salomon, Los huesos – La espalda (vol. 8), Bérangel Editorial, 2011