sexta-feira, 11 de abril de 2014

Rendas e Bordados - 2ª Parte

Um dia, e este dia sempre chega, Jefferson, que estava de habilitação recente, convidou Stevenson para visitarem uma famosa boate de strippers e pole dance no Rio de Janeiro, perto da sua cidade. Ninguém saberia de nada, pois estariam de volta antes do amanhecer..

As mães tinham viajado para Vitória e os pais no turno, risco zero. Elas embarcaram no ônibus da véspera, lotadas de encomendas; os pais estavam na escala do final de semana da linha de produção e as irmãs só queriam ver a maratona da The Big Bang Theory na TV nova de 50 polegadas 3G LED. 

A boate, enorme, tinha um palco com pole dance ao centro. E o locutor sempre fazia a chamada para a grande atração da noite - as imbatíveis mascaradas. Os rapazes estavam curtindo o ambiente, esperando para ver o famoso espetáculo. Entraram em cenas duas gostosonas, de lingerie preta sensualíssima, com máscaras temáticas, e se alisaram, se encostaram, se encoxaram, se arranharam, gruíram, dançaram, rebolaram, e a platéia aplaudia e gritava sem parar. Delírio total, notas de cem e cinquenta choviam e pediam bis. Mais dinheiro, mais tentação e pegação. Até que tiraram as máscaras e ficaram aos beijos escandalosamente deliciosos. Todos de pé, gritaria total, e mais dinheiro no palco.

Stevenson foi o primeiro a perceber uma familiaridade naqueles rostos, cutucou Jefferson, falou algo ao seu ouvido e se aproximaram do palco. Ao chegarem próximo à pista, uma mão tocou no ombro dos dois. Era Deoclécia Taoca, com quatro seguranças parrudos. Convidou-os a irem ao escritório. Sem opção a seguiram, atônitos e assustados. Foi direta ao assunto e ofereceu 5% do faturamento das mães para ficarem calados. Garantiu que aquilo não era nada demais e que só ocorria no palco e não havia amantes ou homens na história. Faziam pelo amor à família e pela necessidade de pagar seus estudos.

Falou dos carros, das Tv 3D, dos computadores, dos celulares 4G, dos notebooks, das viagens à Disney, da casa da praia e tudo o mais que ganharam nos últimos dois anos. Perderiam tudo isto só por que as mães estavam dando duro para terem conforto? Elas nem saberiam que estiveram ali, afirmou com convicção.

Jefferson, refeito do susto, pediu 15%, mas Deoclécia manteve os 5% mesmo que as irmãs passassem a integrar a equipe de venda de artesanato com as mães. Acabaram concordando com certo constrangimento, ao verem o dinheiro vivo colocado sobre a mesa, na frente deles.

Depois que saíram, já com a antecipação daquela semana no bolso, Genaro Rato, dono do negócio, chegou à porta do escritório, olhou bem para Deoclécia, deu uma boa gargalhada e perguntou - até quando irão acreditar nesta versão light? Ela olhou, com jeito de deboche, espreguiçou na cadeira e murmurou - enquanto o negócio das rendas e bordados forem atrativos, meu bem.

- É, mas falando nisto, estou aumentando em 20% o custo daquelas peças que elas trazem, e que o turco arremata para sua rede de lojas, além de babar nas duas toda noite. Sabe como é, Deoclécia, do meu bolso não sai nada para tapar boca de curioso, e como sempre, é o povo mesmo que acaba pagando a mais pela sacanagem que vem de cima...

- É isto aí! 

Bate papo - Fase II - Conquistando a confiança

Enquanto isto, em certo site de relacionamento

6º dia
Baby Solitária - Senti sua falta, sabia?
Surf&Sun - Hummm, que coisa boa! Adoro coincidências...
Baby Solitária - Puxa vida, estou sem palavras...
Surf&Sun - Então não fala nada! Me dê sua mão...
Baby Solitária - Está aqui, bem ao seu alcance.
Surf&Sun - Cheirosa, cheiro de rosas. Tem um não sei o que de exótica, um perfume...
Baby Solitária - Duvido que adivinha o perfume.
Surf&Sun - Quantas chances me dará?
Baby Solitária - Só uma - É um perfume só para mulheres decididas e ao mesmo tempo sensuais, doces, sofisticadas e que sabem expressar sua feminilidade.
Surf&Sun - Então só pode ser Crystal Noir do Versace! ... Baby, cadê vc??? Baby!!! 

7º dia
Baby Solitária - Você me fez chorar ontem, mas chorei muito mesmo.
Surf&Sun - Eu? Mas o que eu fiz? Vc é que saiu feito louca da sala de chat.
Baby Solitária - Convivi anos com uma pessoa que nunca soube nem que eu usava perfume...
Surf&Sun - e...?
Baby Solitária - E você fala exatamente do que uso, puxa vida, parece... parece...
Surf&Sun - Parece?!
Baby Solitária - Nada, não parece nada, você é especial, único e amigo.
Surf&Sun - Tudo bem... parece que sou seu amigo.

8º dia
Baby Solitária - Está com raiva ainda?.
Surf&Sun - Raiva? Eu? Do que?
Baby Solitária - Não gostou de ser chamado de amigo.
Surf&Sun - Na verdade gostei, melhor assim, sem ilusões.
Baby Solitária - Como assim, vc tinha alguma intenção além disto?
Surf&Sun - Baby, Baby, não espere de mim uma resposta sincera a esta pergunta
Baby Solitária - Nossa, você sempre me surpreende muito.
Surf&Sun - Mais que te surpreender, quero você.

9º dia
Baby Solitária - Olha, desculpa ter saído ontem, fiquei confusa.
Surf&Sun - Tudo bem. Se quiser conversar com outras pessoas, fique a vontade.
Baby Solitária - Eu quero conversar só com vc mas é que tenho medo de criar uma expectativa...
Surf&Sun - Olha só, se nada nos impede, o que custa tentar?
Baby Solitária - Custa muito, nunca nos vimos, estou em Brasília, vc no Rio, tem filhas pequenas...
Surf&Sun - Verdade, mas poderíamos viajar? Nos encontraríamos sem querer por aí?
Baby Solitária - Olha, me dá um tempo, as coisas estão fluindo muito depressa.
Surf&Sun - Não há pressa quando se encontra a pessoa certa, Baby!

10º dia
Baby Solitária - Sabe, pensei muito na noite passada e tive medo de te perder.
Surf&Sun - Ninguém perde o que já lhe pertence
Baby Solitária - Caramba! Faz isto não, já sofri tanto.
Surf&Sun - Desejo seu corpo nu, nós dois em uma só pessoa, juntos, únicos e apaixonados.
Baby Solitária - Ah, para.. eu não gosto de falar assim, apesar de vc não escrever nunca palavras feias.
Surf&Sun - Gostou?
Baby Solitária - Gostei, mas estou confusa
Surf&Sun - Eu também... nunca me senti assim.


Continua amanhã!

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Bate papo - Fase I - Conhecendo o terreno


Enquanto isto, em certo site de relacionamento

1º dia
Baby Solitária - Olá...alguem quer tc?
Surf&Sun - Olá, pode ser comigo?
Baby Solitária - Sim, acho que sim
Surf&Sun - Beleza, vc tc de onde?
Baby Solitária - De Brasília, e vc?
Surf&Sun - Rio de Janeiro.
Baby Solitária - Vc é casado?
Surf&Sun - Divorciado, duas filhas lindas e uma caminhada solitária. E vc?
Baby Solitária - Solteira, quer dizer, ex-casada, mas agora feliz.
Surf&Sun - Entendo...

2º dia
Baby Solitária - Ei, vc voltou, que bom
Surf&Sun - Gostei do seu papo, vc é uma menina legal
Baby Solitária - Vc também é uma pessoa de sentimentos bons
Surf&Sun - Se não quiser responder, não responda, mas como vc é?
Baby Solitária - Tudo bem, loira, olhos azuis, corpo normal, 49 Kg, 1,60m, branca. E vc?
Surf&Sun - Cabelos castanhos escuros igual aos olhos, 75  Kg, 1,80, branco, faço malhação, entende?!
Baby Solitária - Entendo. Eu faço caminhada toda manhã. Qual a sua idade?
Surf&Sun - 28 anos bem vividos, e vc? xiii, caiu.

3º dia
Baby Solitária - OOOOOiiiiii!! Que alegria, caiu ontem e te deixei sem resposta. Tenho 24 anos.
Surf&Sun - Que bacana, melhor época da vida
Baby Solitária - É verdade! Posso saber de quais filmes vc gosta?
Surf&Sun - Gosto de romances sem xaropada e ficção. E vc?
Baby Solitária - Uau, temos o mesmo gosto. Que coisa feliz. E os livros?
Surf&Sun - No momento estou lendo A Song of Ice and Fire no original.
Baby Solitária - Nossa, adoro a série. Hummmm, temos muito que conversar então.
Surf&Sun - Pois é, adoro a série também, mas prefiro os livros, sei lá, ...

4º dia
Baby Solitária - Nossa, vc falou que vinha, e está aqui, estou gostando de ver!!
Surf&Sun - Vc tem sido muito legal. Qual o seu prato favorito?
Baby Solitária - Churrasco, adoro churrasco, mas tem que rolar uma cervejinha...
Surf&Sun - Menina, vc fala o que penso. Eu vivo só de churrasco e cerveja... brincadeira, mas adoro.
Baby Solitária - Nossa, quanta coisa a gente tem em comum, e tão longe um do outro.
Surf&Sun - Verdade, mas e de viajar? Gosta?
Baby Solitária - Nossa, praia, viajar para mim é ir na praia.
Surf&Sun - Nem vou comentar nada. rs

5º dia
Baby Solitária - Gente, é muita coincidência, encontrar vc de novo
Surf&Sun - Bacana demais. Tem visto o Lollapalooza deste ano? Viu a Lorde? 
Baby Solitária - Caramba! Gravei tudo, babei, amei, delirei.
Surf&Sun - E a New Order, tudo bem que não é da minha geração, mas "Temptation"  é demais.
Baby Solitária - E quando eles cantaram  "Love Will Tear Us Apart" gritei até...rs
Surf&Sun - Gostou do Jake Bugg?
Baby Solitária - Ah, não, né! Mais prá adolescente... não faz meu estilo
Surf&Sun - Eu também nem ouço, só perguntei para zoar...rs

Continua amanhã!

Receita de Mulher - Vinicius de Moraes


As muito feias que me perdoem
mas beleza é fundamental.
É preciso que haja
qualquer coisa de flor em tudo isso.
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture em tudo isso. 
(ou então que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).

Não há meio-termo possível.
É preciso que tudo isso seja belo.
É preciso que súbito tenha-se a impressão
de ver uma garça apenas pousada
e que um rosto adquira de vez em quando essa cor 
só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, 
mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens.

É preciso, é absolutamente preciso
que seja tudo belo e inesperado.
É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard 
e que se acaricie nuns braços.
Alguma coisa além da carne: 
que se os toque como no âmbar de uma tarde.

Ah, deixai-me dizer-vos
que é preciso que a mulher que ali está
como a corola ante o pássaro, seja bela.
Ou tenha pelo menos um rosto
que lembre um templo
 e seja leve como um resto de nuvem: 
mas que seja uma nuvem
com olhos e nádegas.
Nádegas é importantíssimo.

Olhos então nem se fala,
que olhe com certa maldade inocente.
Uma boca fresca (nunca úmida!)
é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras;
que uns ossos despontem,
sobretudo a rótula
no cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
no enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
é como um rio sem pontes. 

Indispensável que haja uma hipótese de barriguinha, 
e em seguida a mulher se alteie em cálice,
e que seus seios sejam uma expressão greco-romana,
mas que gótica ou barroca
e possam iluminar o escuro
com uma capacidade mínima de cinco velas.

Sobremodo pertinaz é estarem a caveira
e a coluna vertebral levemente à mostra; 
e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes,
mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas,
lisas como a pétala,
e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.

É aconselhável na axila uma doce relva
com aroma próprio apenas sensível
(um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
de forma que a cabeça dê por vezes
a impressão de nada ter a ver com o corpo, 
e a mulher não lembre flores sem mistério.

Pés e mãos devem conter
elementos góticos discretos.
A pele deve ser fresca nas mãos,
nos braços, no dorso, e na face
mas que as concavidades e reentrâncias
tenham uma temperatura
nunca inferior a 37 graus centígrados,
podendo eventualmente provocar
queimaduras do primeiro grau. 

Os olhos, que sejam de preferencia grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra;
e que se coloquem sempre para lá
de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar.

Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa,
que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão
de que se fechar os olhos
ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas.
Que ela surja, não venha;
parta, não vá,
E que possua uma certa capacidade
de emudecer subitamente
e nos fazer beber o fel da dúvida.

Oh, sobretudo que ela não perca nunca,
não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias,
a sua infinita volubilidade de pássaro;
e que acariciada no fundo de si mesma
transforme-se em fera sem perder sua graça de ave;
e que exale sempre o impossível perfume;
e destile sempre o embriagante mel;
e cante sempre o inaudível canto
da sua combustão;

e não deixe de ser nunca
a eterna dançarina do efêmero;
e em sua incalculável imperfeição
constitua a coisa mais bela e mais perfeita
de toda a criação imunerável.



Rendas e Bordados - 1ª Parte

Capítulo I - Iniciando um negócio
Continua amanhã!

Cleverlaine Thompson Silva era a melhor amiga de Ritalina Denver Souza. Nasceram e cresceram na mesma rua, estudaram na mesma escola, namoraram dois rapazes semelhantes fisicamente e casaram no vas, ao dezesseis anos, no mesmo dia, na mesma igreja.

Foram morar em um bairro de classe operária, na periferia da cidade, como vizinhas, e os maridos trabalhavam duro em uma grande indústria da região. 

Tiveram logo um casal de filhos na mesma época, com diferença de poucos meses. Cleverlaine teve Jefferson e Taniamara. Ritalina ganhou Stevenson e Rubiamara.

Cleverlaine era uma morena escultural, dona de um corpo de fazer inveja em qualquer academia, e Ritalina também não ficava atrás. Eram um fenômeno ocular para a comunidade local. No ano que os dois meninos estavam para entrar na faculdade de Engenharia, que era particular, as contas iriam apertar, mas as duas amigas tiveram a ideia de fazer um curso de Rendas e Bordados artesanais, oferecida pela igreja do bairro. Depois de um ano estavam aptas para o mercado. Mas as coisas não foram fáceis. As vizinhas todas fizeram o mesmo curso e disputavam o mesmo consumidor.

Uma prima de Cleverlaine, Deoclécia Taoca, residente em Vitória-ES, em visita à família, viu o trabalho, se encantou com a qualidade do material e ofereceu para intermediar a venda em uma famosa rede de artesanatos da sua região. Os maridos torceram o nariz, mas acabaram concordando com o projeto, e juntos, foram todos conhecer o mercado e as perspectivas. Ficaram admirados. As duas venderam tudo naquele final de semana. 

Os maridos as acompanharam mais umas três vezes e enjoaram daquilo. Com a demanda aumentando, passaram a comprar das vizinhas e vender para a Rede, assim iam toda semana. Depois passaram a viajar nas sexta-feiras à tarde, o que antecipava a produção. O pequeno negócio virou uma coisa rentável. E não faltava mais nada em casa.

Final da 1ª Parte

É isto aí 
   

Discurso sobre a servidão voluntária


Palavras iniciais sobre Etienne de La Boétie
  
Etienne de La Boétie morreu aos 33 anos de idade, em 1563. Deixou sonetos, traduções de Xenofonte e Plutarco e o Discurso Sobre a Servidão Voluntária, o primeiro e um dos mais vibrantes hinos à liberdade dentre os que já se escreveram.

         Toda a sua obra ficou como legado ao filósofo Montaigne (1533 – 1592), seu amigo pessoal que, diante de uma primeira publicação – pirata – do Discurso em 1571, viu-se obrigado a se pronunciar a respeito da Obra, que procura minimizar em seus efeitos apodando-lhe o epíteto de “obra de infância” e “mero exercício intelectual”. Montaigne, com todo o seu inegável brilho intelectual, era um Homem do Estado e disso não escapava.

         Entre muitos pontos importantes e relevantes do Discurso em si, ressalta-se:

_ O poder que um só homem exerce sobre os outros é ilegítimo.

_ A preferência pela república em detrimento da monarquia.

_ As crenças religiosas são frequentemente usadas pelas monarquias para manter o povo sob sujeição e jugo.

_ Etienne de La Boétie afirma no Discurso que a liberdade e a igualdade de todos os homens está na dimensão política.

_ Evidencia, pela primeira vez na história, a força da opinião pública.

_ Repele todas as formas de demagogia.

_ Incursionando pioneiramente pelo que mais tarde ficará conhecido como psicologia de massas, informa da irracionalidade da servidão, desde o título provocativo da Obra, indicada como uma espécie de vício, de doença coletiva.

         O Discurso, que no século XVI Montaigne considerava difícil prefaciar, hoje em dia é ainda tristemente atual.

         O ser humano encontra-se em amarras auto-infligidas por toda a parte. Como dizia Manuel J. Gomes, importante tradutor de La Boétie para o português:

         “Se em 1600 era tarefa difícil escrever um prefácio a La Boétie, hoje não é mais fácil. Hoje como nos tempos de La Boétie e Montaigne, a alienação é demasiado doce (como um refrigerante) e a liberdade demasiado amarga, porque está demasiado próxima da solidão. E da loucura.”

Discurso sobre a servidão voluntária:

É incrível como o povo, logo após ter sido subjugado, cai rapidamente num esquecimento da liberdade tão profundo que nem é possível que acorde para obtê-la de volta, mas serve de forma tão sincera e de tão boa vontade que, ao vê-lo, parece não ter perdido a liberdade mas ganho a servidão. [ ...]

É verdade que, num primeiro momento, serve-se porque forçados e vencidos pela força, mas aqueles que virem depois servem sem arrependimentos e fazem de bom grado o que os seus antecessores haviam feito com a força.

É assim que os homens nascidos sob o jugo e, em seguida, criados e educados na servidão, sem já olhar para a frente, contentam-se em viver como nasceram e não pensam em ter outro bem nem outro direito exceto aquele que receberam, e assumem como natural a condição do nascimento deles. [ ...]

Assim, apesar da natureza humana ser livre, o hábito tem sobre os indivíduos efeitos maiores do que não a natureza dele, e por isso aceitam a servidão pois sempre foram educados como escravos: "A natureza do homem é o direito de ser livre e querê-lo ser, mas a sua atitude é tal que naturalmente preserva a inclinação que lhe dá a educação".

Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, os gladiadores , as feras exóticas, as medalhas e outras distrações semelhantes pouco sérias eram para os povos antigos a isca da servidão, o preço da sua liberdade, os instrumentos da tirania.

Estes eram os métodos, as práticas que usavam os tiranos antigos para adormecer os seus súditos sob o jugo.

Assim, os povos, estupidificados, achando bonitos aqueles passatempos, apreciando um prazer vão que passava na frente dos seus olhos, adaptavam-se a servir mais normalmente das crianças que, observando as imagens brilhantes dos livros ilustrados, aprendem a ler. [...]

Queria só ser capaz de entender porque tantos homens, tantas vilas e cidades, por vezes tantas nações, têm um tirano que não tem nenhuma força exceto aquela que lhe for dada, não tem poder para prejudicar a não ser que ele seja tolerado. Onde ele foi capaz de encontrar tantos olhos que espiam se não foram vocês que lhe forneceram? Como pode ele ter tantas mãos para apanhar-vos se não foi de vocês  que as recebeu? Portanto, sejam determinados a não servir mais e estarão livres.


Discours sur la servitude volontaire
("Discurso sobre a servidão voluntária")
Étienne de La Boétie

Ano 1549 d.C.

Marilyn me ama?

Como acontece isto? Eu levei um bom tempo para saber que ela estava ali. Depois de um estudo profundo de iluminação e movimentos, admirando a coreografia, acabei descobrindo uma tatuagem no braço esquerdo da moça. E para minha surpresa era da Marilyn Monroe, minha deusa loira. Mas repare na Marilyn Monroe - parece que ela pisca e manda beijo. Será que é só para mim?



quarta-feira, 9 de abril de 2014

Cleidimara de peito aberto



Cleidimara Tamoios era uma moça de beleza quase infinda. Cabelos castanhos encaracolados, voz sensual, corpo escultural e talentosa em tudo que se propunha a fazer. Casou-se, depois de seis meses de relacionamento,  com Amâncio Vagaroso, um português loucamente apaixonado, que sucedeu um tumultuado e tórrido romance de cinco anos com Julinho da Relva, um caso perdido da época universitária. 

Julinho sumiu de repente e ela não quis perder a oportunidade de se dar bem. Foi morar em um luxuoso condomínio e a vida seguiu. Deu que passou a sentir que estava sendo vigiada. Aquilo dava-lhe nos nervos. Teve um dia que o pressentimento de ter sido aguçadamente desejada na rua e foi irritante. Sentiu-se nua na multidão.

Chegou em casa nervosa, falou para Amâncio, que não deu a mínima para o assunto, ou fingiu não ligar. Falou que deveria ser stress e que em dezembro viajariam e tudo voltaria ao normal. Como trabalhava com processos de auditoria em casa e o marido viajava muito, voltou para a academia de Muay Thai, que frequentou por muito tempo e Defesa Pessoal, cujos golpes assimilou rapidamente. 

Num dia de muita chuva, vai atender à porta e era Julinho, sorrindo e abrindo os braços. Beijaram-se, abraçaram-se e experienciaram o fim da saudade. Explicou que teve que abandoná-la de súbito em função de um convite de trabalho que envolvia livre trânsito entre Europa e Ásia e não poderia levar família, além de ser obrigatoriamente solteiro, dado aos fusos horários e os deslocamentos constantes. Findo o contrato, foi promovido para a filial, em São Paulo e passou a residir no mesmo condomínio, e quando a viu esperou a coragem de reatarem . 

Amâncio tinha ciúmes totais da esposa, e passou a ficar cismado que o traia, pois vez ou outra passou a fazer carinhos diferentes dos habituais. Notava certas mudanças com ares de pecado. Contratou um detetive a persegui-la, que depois de semanas não conseguiu provas - na verdade Julinho estava viajando - foi então que bolaram um plano mirabolante. Dariam um susto nela e no desespero revelaria o nome de alguém para socorre-la.

Amâncio colocou uma máscara ninja, entrou pela cozinha e agarrou-a pelo cabelo anunciando um assalto, enquanto batia um bife com martelo na carne, para o almoço. Firmou o martelo pelo cabo e atingiu violentamente na sobrancelha direita do agressor. Ao sentir o impacto, as pernas dobraram e relaxou. Deu-lhe uma cotovelada no fígado, rodou ligeiramente o corpo para a esquerda, e com o cabo do martelo, bateu violentamente no estômago - o sujeito com o rosto sangrando muito, bambeou. Foi quando deu um joelhaço pernas acima. Arqueou e ficou confuso. Deu-lhe uma rasteira rápida, e enquanto caia levou um murro com anel de diamante na face esquerda.

Caído, levou três violentos chutes nas costelas. Cleidimara tirou sua touca ninja e viu que era Amâncio. Com ódio, acordou-o com um balde d'água gelada, ajudou-o a se levantar, e pegando pelo colarinho perguntou aos gritos - Que palhaçada é esta, Amâncio? Eu podia ter matado você! Na confusão o detetive, que estava no armário, se mandou.

- Sussurrando pela dor, explicou que queria dar-lhe um susto e ameaça-la a confessar que tinha um amante.

- Deu-lhe um tapa estalado, com a palma da mão aberta, que doeu na alma. Chamou um táxi e mandou-o ao hospital, onde foi atendido e afirmou à polícia que fora vítima de um atropelamento de moto sem identificação. A polícia acreditou, e o caso nem foi prá frente.

Mandou doze ramalhetes de flores vermelhas pedindo perdão e dizendo que a amava muito. Mandou entregar o carro importado zero que ela sonhava, e voltou para casa com um anel de diamante, ainda maior, na mão.

Chorando e de joelhos, proclamou a sua derrota - Perdoa, meu amor, por ter julgado você mal - nenhum outro homem jamais chegaria perto de você e agora estou consciente disto. Eu errei e mereci o castigo que você quiser. Eu faço qualquer coisa para que me perdoe.

- Tudo bem, mas não me encosta a mão durante um ano, seu idiota! E carregou um tapa sonoro na face do esposo, que com nariz e lábio sangrando, ouviu a sentença: Eu não tenho amante, seu imbecil, e deu outro tapa espalmado, mais forte ainda; mas vou arrumar um, e se quiser ficar, fica; se não quiser, sai e concluiu com o derradeiro bofetão desmoralizante.

Foi assim que Julio voltou a ser Julinho da Relva, que era o apelido da Cleidimara na universidade, e a vida seguiu sem crises entre Amâncio e sua amada esposa.

É isto aí!




Um dia de muita sorte


Rachel, meu Anjo da Guarda


Leonel Aguiar Lima era um rapaz sério, honesto, trabalhador e católico, muito fervorosamente católico, que sonhava em ser padre. Todo dia acordava às cinco horas, apressava as atividades, saia em desabalada carreira em sua bicicleta até chegar à Capela do Rosário, onde era coroinha da missa das seis.

Ao término da celebração, limpava tudo, varria, guardava o cálice, as hóstias consagradas, o vinho, os paramentos, etc. e seguia para a aula. Ao meio dia coordenava o Angelus no pequeno Salão Paroquial para uma meia dúzia de beatas. 

Dezoito horas já estava à frente do altar da Capela rezando o Ofício Parvo de Nossa Senhora. Além disto tinha o Terço da Misericórdia às quinze horas e a Confissão Individual com o pároco às quarta-feiras, e o Terço de Libertação e Cura dos Homens nas quintas, pontualmente às dezenove horas. Nas sexta-feiras secretariava, dentro da Ordem Franciscana Secular, a animada turma da Juventude Franciscana.

Certa vez, enquanto em genuflexão rezava a Oração da Noite, de agradecimento e fé, uma luz intensa invadiu seu pequeno quarto. Sentiu uma leve brisa e uma paz indescritíveis. Era uma luz que nunca havia notado. Continuou rezando, sem olhar para trás. O ar ficou perfumado com uma fragrância levíssima, adocicada, inebriante. Aquilo passou a acontecer toda noite.

Com medo de que fosse algo do "inimigo", confessou ao padre, que não viu nada que pudesse ser perigoso. Aconselhou-o a olhar para a fonte da luz e ver o que de fato ocorria ali, para que juntos discutissem a questão. Mas Leonel nunca mais voltou a tocar no assunto.

Naquela mesma noite, experimentou o pânico, trêmulo e só. Ajoelhado, de frente para a cama, percebeu a luz. Primeiro trouxe a íris ao limite lateral do globo ocular, depois lentamente virou a cabeça ao limite do ombro, enfim fez a rotação do tronco, lentamente, e deparou com uma figura celestial lindíssima, sorridente, fitando seus olhos. Uma moça de semblante angelical, cabelos ruivos, esbelta, de uma beleza ímpar, e um corpo estonteante. Leonel não sabia o que falar. Nunca viu uma ruiva, nunca esteve sozinho com uma moça e se encantava ao olhar sua silhueta sob a túnica, fitava seus expressivos olhos azuis e admirava toda a beleza envolvente. Estava confuso. Começou a chorar.

Olá Leonel, não tenha medo, sou eu, seu anjo da guarda, Rachel. Olhou-a novamente. Sentou em uma velha cadeira e convidou-a a fazê-lo também. Conversaram sobre tudo. Falaram sobre o céu, os anjos, a Santíssima Trindade, a vida dos anjos, etc. Não lembra de ter dormido, mas acordou leve às cinco horas e seguiu sua rotina.

Nas noites que se seguiram conversavam mais e mais. Rachel mostrava as passagens bíblicas, explicava cada detalhe, cada momento, de uma forma emocionante e elucidativa. Leonel então a convidava para rezarem juntos, e o quarto se transformava em um santuário de luz e paz celestial.

Semanas haviam se passado e já bem mais animado, aguardava-a com ansiedade. Naquela noite chegou de uma forma mais resplandescente. Havia um diferente e intenso brilho nos seus olhos e seus lábios aparentemente estavam sensuais. Falaram de tudo o que ele queria perguntar, pediu para ela cantar na língua dos anjos, cantou desafinado uns hinos em Latim, riram muito.

Leonel então, pela primeira vez, tocou-lhe no braço e ali algo ocorreu. Um flash de energia fluiu em mão dupla, ambos foram unidos por uma estranha sensação de êxtase. Houve prazer e pânico, uma mistura complexa de paixão e susto. Desejou tocá-la mais, desejou abraçá-la, desejou beijá-la, mas estranhamente adormeceu.

Rachel nunca mais foi vista.  Mas seu perfume ficou permanentemente na sua vida. Porém o tempo não para. Afastou-se de tudo e de todos. Viveu todos os anos em completa solidão, afastado do mundo e das coisas do mundo. Um dia, e este dia sempre chega, adoeceu, já em avançada idade. Na cama de uma enfermaria, sem forças, a viu chegar, sorrindo como sempre sorriu. Não teve medo, nem desespero, nem sofreu nem se alarmou - atravessaram a porta que separa os dois mundos, Rachel o acompanhou com um olhar encantador e apaixonado. Estava linda, muito mais linda que antes. Amaram-se ali mesmo, como se amam os anjos nos campos do Senhor.

É isto aí!


terça-feira, 8 de abril de 2014

Evanir Garcia

A elegante moça da foto é uma escritora. Falar que uma pessoa é escritora é algo no mínimo encantador. Em um mundo cada vez mais globalizado e distante da leitura, ela perpetua as palavras, e isto é mágico.

Seu livro publicado, A Viagem, nos traz uma história verídica, na qual os nomes dos personagens foram trocados para preservar as suas identidades e através desta história, a autora permite que possamos ver como é possível mergulhar dentro do próprio 'eu' e quebrar as barreiras que impedem de alcançar os mais profundos voos em busca da felicidade. Um livro que procura mostrar que sonhos foram feitos para serem realizados, mesmo que a realização deles demore uma vida toda.

Já na sinopse, tomo a liberdade de evocar o místico Kairós!

Kairós, em grego, significa o momento certo e refere-se a uma experiência temporal na qual percebemos o momento oportuno em relação à determinado objeto, processo ou contexto. Ele revela o momento certo para a coisa certa. Kairós simboliza o instante singular que guarda a melhor oportunidade, ele é o momento crítico para agir, a ocasião certa, a estação apropriada.

Enfim, Evanir está agora abrilhantando o Reino da Pitangueira, que está em festa! Bem vinda, Evanir!
Acesse seu Blog A Viagem e descubra mais sobre a moça. Eu estou feliz! 


O projeto Melissa


Melissa era uma menina que não acreditava em sonhos e desejos. Estranhava as pessoas que sonhavam. Achava-as vazias e vulgares. Tinha a convicção de que seu destino estava traçado diante sua dedicação ao futuro.

A família havia sido a mais rica de toda a cidade, mas o pai perdeu tudo em jogatina e mulheres. A mãe e a tia ensinaram todos os valores necessários para ser feliz: nunca ler nenhum livro (romance nem pensar), aprender ballet clássico, tocar piano, aulas de gastronomia fina, regras de etiqueta, moda clássica, corte e costura, fonoaudiologia, e postura corporal.

Aos dezoito anos, preparada para a sociedade, foi apresentada ao sr. Jethro Kowalski Paglia, um conhecido usurário da região, cujos títulos da família estavam já em valores exorbitantes nas suas mãos.

O sr. Paglia tinha 60 anos, solteiro e respeitado ou temido por todos da cidade. Duas semanas após conhecer Melissa a pediu em casamento e um mês depois estavam no altar, jurando amor eterno.

Melissa foi detalhadamente preparada para aquele momento. Se ele fizesse isto, faria aquilo, se ele quisesse assim faria deste jeito, se tocasse depressa, trataria de acalmá-lo, se estivesse muito devagar trataria de excitá-lo. Nada de deitar de meias, toucas, pulseiras e anéis. O cabelo não poderia estar molhado, e deveria estar preso para soltá-lo em um gesto sensual à frente do marido. Uma camisola com muitos botões era o suficiente, sendo comprida e fechada até o pescoço.

O esposo não  a procurou na noite de núpcias, nem na seguinte, nem na semana seguinte, nem naquele mês, nem ao menos a viu nua um único dia sequer. Mas explorava todos os seus dons, como uma elegante doméstica de luxo, sendo rude e violento quando não atendido. Durante três anos viveu enclausurada em uma enorme e mofada residência, sem amigos e sem relação com o mundo exterior.

Um dia o Sr. Paglia não voltou para casa. Um infarto ceifou-lhe a vida e Melissa se viu viúva e... rica, sem saber nada, nem o que tinha nem o que podia ter. Melissa tinha 20 anos, estava linda, rica e só. A mãe, em tempo hábil apresentou-lhe Martiniano Guarulhos Hamster, um gerente de banco local, conhecedor de todos os segredos e artimanhas para cuidar da fortuna da moça.

Com seis meses de viuvez,  o sr. Hamster casou-se com ela, após um namoro de olhares e troca de gestos na imensa sala de visitas do casarão. O marido não  a procurou na noite de núpcias, nem na seguinte, nem na semana seguinte, nem naquele mês, nem ao menos a viu nua um único dia sequer. Mas explorava todos os seus dons, como uma elegante doméstica de luxo, sendo rude e violento quando não atendido. Durante três anos viveu enclausurada em uma enorme e mofada residência, sem amigos e sem relação com o mundo exterior.

Um dia, o Sr. Hamster, que triplicara a fortuna da moça, morreu atropelado ao atravessar a rua em frente ao banco, Melissa tinha 23 anos, estava linda, rica e só. A mãe, em tempo hábil apresentou-lhe Cornélio Virtudes Wolfgang, um comerciante local, muito rico, viúvo sem filhos ou herdeiros, conhecedor de todos os segredos e artimanhas para cuidar da fortuna da moça.

Com três meses de viúva, Melissa casou-se com o sr. Wolfgang, de 72 anos, que faleceu na noite de núpcias. Melissa teve sua fortuna dobrada da noite para o dia. A mãe, em tempo hábil apresentou-lhe Joãozinho Boiadeiro, um pequeno pecuarista local, com fama de garanhão, de trinta anos, conhecedor de todos os segredos e artimanhas para cuidar da moça. Viveram ricos para sempre...

É isto aí!

A Imperatriz das Sedas*



Ano eleitoral cai na mesmice do Vale Tudo. Ferrenhos adversários vão prometer tudo, acusar, tocar em feridas abertas ou inexistentes. Governo e oposição fazem um jogo de amor e ódio entre os pares e os inimigos. A população ficará dividida, amizades serão desfeitas, famílias terão sua harmonia atingida e ganhará aquele que conseguir ficar em pé.

Alie-se a isto o terror de grupos para-militares mascarados e os cada vez mais violentos grupos de desordem social. O que temos? Um população com medo e dependência.

Na modesta opinião deste limitado blogueiro, supostamente existe um grupo todo junto e misturado e quem mais vier a ser adsorvido por ele, que são tudo uma coisa só, que administram crises para se manterem no poder, indiferente de quem está em cima.

Em política e sociologia, dividir o povo para governar consiste em ganhar o controle de um lugar através da fragmentação das maiores concentrações de poder, impedindo que se mantenham individualmente. O conceito refere-se a uma estratégia cujo objetivo é romper as estruturas de poder existentes e não deixar que grupos menores se juntem.

O uso desta técnica refere-se ao controle que um grupo (homogêneo ou não, mas com os mesmos objetivos) possui sobre populações ou facções de diferentes interesses, que juntas poderiam ser capazes de se opor aos seus conceitos. Sendo assim, os que detém de fato o poder precisam evitar que os reais opositores se percebam e se entendam como possíveis aliados, pois uma união destas poderia causar uma situação de queda ou perda do controle governamental. 

Maquiavel cita uma estratégia militar parecida com a do livro IV de A Arte da Guerra (Sun Tzu), dizendo que um capitão deve se esforçar ao máximo para dividir as forças do inimigo, seja fazendo-o desconfiar dos homens que confiava antes ou dando-lhe motivos para separar suas forças, enfraquecendo-as.

Basicamente, os elementos dessa técnica envolvem:

01 Criar ou estimular divisões entre os indivíduos com o objetivo de evitar alianças que poderiam desafiar o poder.
02 Auxiliar, promover e dar poder político para aqueles que estão dispostos a cooperar com o poder.
03 Fomentar a inimizade e desconfiança entre os governantes locais
04 Incentivar gastos sem sentido que reduzem a capacidade de gastos políticos e militares

Obs.: Este parágrafo em negrito está sendo acrescentado em 19/09/2017: O título do texto deve-se à co-relação entre aos recursos utilizados na política e aos recursos utilizados no Telecatch, cujo principal patrocinador foi a Loja Imperatriz das Sedas, de valorosa memória comercial e cultural para o país. Abaixo nos comentários, emocionado, recebi uma mensagem da filha do sr. Cesar Morani.

Telecatch foi um programa de televisão criado na extinta TV Excelsior do Rio Canal 2, dedicado à exibição de combates de luta-livre que combinavam encenação teatral, combate e circo. Com a extinção do Palácio de Alumínio (um grande ringue de alumínio dedicado à exibição de combates corpo a corpo), um dos proprietários da rede de lojas Imperatriz das Sedas (cuja sede era vizinha ao palácio montado no terreno do extinto tesouro nacional - doado aos comerciários) e um dos sócios da empresa, "Sr Rafick", resolveu promover um programa de lutas livres (via televisão) e cuja modalidade era o Tele-catch. Durante os anos 60 alcançou o auge do sucesso, criando vários heróis, como Ted Boy Marino.

Inicialmente chamado Telecatch Vulcan devido a uma ligação com a Casa da Borracha dos Cassini (Esportes Náuticos) e Imperatriz das Sedas (dos sócios Cesar Morani e Rafick), a TV Excelsior televisou dos anos de 1965 a 1966. Devido a outro patrocinador, posteriormente passou a ser denominado Telecatch Montilla (TV Globo - 1967 a 1969) e finalmente como Os Reis do Ringue (TV Record) nos anos 70.

Por razões de economia a rede de lojas Imperatriz das Sedas (a principal patrocinadora) e empresas associadas resolveram não mais financiar o Telecatch.


É isto aí!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Corpo de Mulher - Pablo Neruda


http://alex-blyg.deviantart.com/
Corpo de mulher, alvas colinas, coxas brancas,
ao mundo te assemelhas em teu ato de entrega.
O meu corpo selvagem de camponês te escrava
e faz saltar o filho das entranhas da terra.

Fui um túnel vazio. De mim fugiam pássaros
e a noite me infiltrava sua invasão resoluta.
Para sobreviver forjei-te qual uma arma,
uma flecha em meu arco e pedra em minha funda.

Tomba porém a hora da vingança e eu te amo.
Corpo de pele e musgo, de leite ávido e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah tua voz lenta e triste!

Corpo de mulher minha, persisto em tua graça.
Minha ânsia sem limites, meu caminho indeciso!
Sulcos escuros onde a sede corre,
onde a fadiga corre, e a dor, este infinito.


Cuerpo de mujer, blancas colinas, muslos blancos,
Te pareces al mundo en tu actitud de entrega.
Mi cuerpo de labriego salvaje te socava
Y hace saltar el hijo del fondo de la tierra.

Fuí solo como un túnel. De mí huían los pájaros
Y en mí la noche entraba su invasión poderosa.
Para sobrevivirme te forjé como un arma,
  Como una flecha en mi arco, como una piedra en mi honda.

Pero cae la hora de la venganza, y te amo.
Cuerpo de piel, de musgo, de leche ávida y firme.
Ah los vasos del pecho! Ah los ojos de ausencia!
Ah las rosas del pubis! Ah tu voz lenta y triste

Cuerpo de mujer mía, persistiré en tu gracia.
Mi sed, mi ansia sin límite, mi camino indeciso!
Obscuros cauces donde la sed eterna sigue,
Y la fatiga sigue, y el dolor infinito.

domingo, 6 de abril de 2014

L'amour est un piseau rebelle



Na ópera Carmen, de Bizet, a protagonista canta e encanta com a Habanera:

L'amour est un piseau rebelle (O amor é um pássaro rebelde)
Que nul ne peut apprivoiser (Que ninguém pode domar)
Et c'est bien en vain qu'on l'appelle (E é em vão que nós o chamamos)
C'est lui qu'on vient de nous refuser (É ele que acaba de nos ser recusado)

É claro que o desejo de uma paixão ardente move o roteiro da peça, e entre traições, ciúmes e desentendimentos, Carmen, uma mulher valente, guerreira e sedutora é morta em nome do amor. Desejou a morte? A perseguiu? Foi consciente ao seu encontro? Afinal, o que queria Carmen (parafraseando Freud)? Seduzir? Seduziu a todos! Ser amada? Ninguém a amava! Desejada? Foi desejada por todos! ou compreendida? Ninguém a compreendia!

Estamos em 2014, o mês é abril. Em um site especializado em formação de pares apaixonados, onde as pessoas pagam para que um sistema supostamente científico encontre a sua alma gêmea, separei estas buscas abaixo. Haverá uma destemida Carmen oculta em cada uma destas mulheres ou só querem ser amadas e compreendidas? 

O que elas querem:
1 - Susaninha, 46 anos, divorciada Rio de Janeiro - Não sou uma mulher perfeita, mas em minhas imperfeições sou única. Quero ser seu amor!
2 - Mell, 38 anos, viúva, Cuiabá - Se quero algo sério e posso me expor ... então pq vc tbém não pode ??? Quero um homem que seja fiel.
3 - Tatuadasex, solteira, 38 anos, Brasília - Quero grudar no seu corpo...e ser sua para sempre!
4 - Quitthy, 50anos, Belo Horizonte - Quero ser feliz! Quero alguém para completá-la!
5 - Liz, 40 anos, divorciada - Uma mulher especial!! Fiel e apaixonante!

O que eles dizem:
1 - Jajá, 36 anos, solteiro, Rio de Janeiro - Hoje você está bem na fita? Venha ser meu telecine!!
2 - Carlinhos, 45 anos, casado, Niterói - Vem aqui para o seu tigrão!!!!
3 - Renato3465, 38 anos, divorciado, Belo Horizonte - Pode confiar, eu sou foda!
4 - Gatinho345A, 27 anos, solteiro, São Paulo - O que vc está esperando? Sigilo e discrição.
5 - Geraldinho, 52 anos, divorciado, Campinas - Venha fazer parte da minha coleção!!!

Então?!? Você acredita que esta combinação é explosiva ou isto é o que a mídia globalizante chama de amor? 





É isto aí!

sábado, 5 de abril de 2014

A Estrela da Manhã - Manuel Bandeira


A Estrela da Manhã (Manuel Bandeira)

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã

Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã

Estrela Cadente - Florbela Espanca


Estrela Cadente
Florbela Espanca - 29/07/1916

Traço de luz… lá vai! Lá vai! Morreu.
Do nosso amor me lembra a suavidade…
Da estrela não ficou nada no céu
Do nosso sonho em ti nem a saudade!

Pra onde iria a ’strela? Flor fugida
Ao ramalhete atado no infinito…
Que ilusão seguiria entontecida
A linda estrela de fulgir bendito?…
Aonde iria, aonde iria a flor?
(Talvez, quem sabe?… ai quem soubesse, amor!)
Se tu o vires minha bendita estrela

Alguma noite… Deves conhecê-lo!
Falo-te tanto nele!… Pois ao vê-lo
Dize-lhe assim: “Por que não pensas nela?”



Sinval Santos da Silveira


E o reino da Pitangueira está se achando! Recebe agora em seus domínios o poeta Sinval Santos da Silveira. Indico aos meus amigos uma visita compulsória ao seu Blog Coração Tagarela.

Tem a rara habilidade de traduzir a vida em poesia - coisa para poucos. Abaixo, tomei a liberdade de copiar e colar do seu Blog, o poema "Que pena!":

Escrevi tudo o que pensei,
Falei o que senti e
não agradei.
Falei da tua beleza,
do teu andar e
do teu lindo olhar.
Falei do céu, da terra e do mar.
Prometi o mundo e minha vida,
mas restou, apenas, a despedida.
Hoje sei, não sou o que mereces,
e, assim, continuo só,
abraçado as minhas preces.
Solitário no amor ferido,
vou seguindo, desiludido.
Creia, sinto-me perdido.
Não sou o que deveria ser,
mas sou aquele que te ama,

e que nada pede, nem reclama.

A vida não é um conto de fadas, meu bem!


Clementina saiu cedo de casa naquela manhã nublada. Estava ansiosa para encontrar com Olga, a vidente russa que tinha o poder de transformar a vida das pessoas. Conseguira este endereço de uma moça desconhecida que encontrou no ônibus, que se dizia colega de uma colega do telemarketing onde Clementina trabalhava. A moça, transparecendo confiança, ofereceu excelentes credenciais da mulher que revelaria seus sonhos e seu futuro.

Guardou o cartão por muitos dias com o anúncio dos serviços prestados. Resolveu ligar para o número do telefone e agendou o encontro que deveria mudar sua vida. Queria casar, ter filhos e um marido apaixonado e dedicado.

Era terça-feira e naquele mesmo horário quando deveria estar sentada em sua cadeira de trabalho, caminhava para saber do seu futuro, ao trocar o turno com a melhor amiga, Aninha Silva, abrindo mão da sua folga semanal, numa pequena negociação de rotina.

Chegou ao endereço com certa facilidade. Chamou no interfone, identificou-se e um elegante mordomo ao melhor estilo imperial abriu  a porta lentamente, convidando-a para entrar. Na pequena sala pediu que tirasse os sapatos, celular, relógio, cordão, pulseiras, anéis - guardou-os em uma caixa de veludo vinho e deu-lhe um pesado casaco. Após isto, abriu a porta da próxima sala, onde acomodou-a em um único e enorme sofá azul turquesa intenso. Agradeceu a acolhida. Ficou só e viajando em seus pensamentos e desejos naquele exótico ambiente.

O local era intrigante. No teto existiam tubos neon, com alta intensidade de iluminação em tons magenta, azul e laranja; as paredes eram revestidas de espelho liso perfeito, caprichosamente limpo até o teto. O piso, de porcelanato polido sem textura, completava  a impressão de um vazio espacial irritantemente silencioso. Além disto, o ar congelante promovia uma sensação térmica glacial que penetrava ao mais íntimo interior.

Não sabe quanto tempo ficou ali. Uma porta espelhada abriu lentamente, e uma voz feminina de origem desconhecida convidou-a a entrar. Na próxima sala, maior que a anterior, o mordomo reapareceu, solicitou o casaco, pediu que trocasse a roupa, num closet lateral e vestisse uma túnica indiana de seda, toda negra, de mangas compridas e comprimento até a metade de suas graciosas pernas, com uma barra bege de renda persa. Entregou-lhe uma pantufa de coelhinhos marrons. Achou graça naquilo. Abriu a porta que dava a um corredor com quatro portas, duas de cada lado.  Indicou-lhe  a segunda porta à esquerda.

Entrou em uma sala aconchegante, de temperatura agradável, iluminação fraca, janelas até o chão, dando para um jardim florido, com duas poltronas imensas, uma preta e a outra amarela e no assoalho um enorme e macio tapete de lã, em tom pastel. No canto, uma mesa com água, biscoitos e chá. Nas duas paredes laterais à porta de entrada, um quadro tridimensional ocupando toda a área, com uma mulher nua em pose sensual, em cada uma delas. Na porta oposta, semi-aberta, um banheiro, para onde se dirigiu imediatamente. 

Voltou do banheiro deslumbrada com tudo que viu lá dentro, bebeu água, sentou, levantou, bebeu chá, sentou, levantou foi ao banheiro, sentou, levantou, bebeu água, comeu os biscoitos, andou em volta da sala, abriu a porta para o corredor vazio, voltou, sentou, foi ao banheiro, voltou ao corredor, entrou de novo, sentou e dormiu. Teve experiência oníricas as mais variadas, a maioria agradável aos seus sentimentos.

Em destes sonhos um rapaz aparece completamente nu à sua frente, mas ela não se assusta. Se entrega à volúpia e ao prazer que aquele instante proporciona. Duas, três, quatro vezes em um tempo inimaginável, experimentam todo o clímax da libido, permitida aos mortais. Demora a sair daquele ambiente romântico, não quer acordar mais, porém a inevitável situação do despertar ocorre e percebe que está sentada na grande poltrona amarela e à sua frente, na poltrona negra, uma esbelta senhora, na faixa dos quarenta anos, a olhá-la com intensa curiosidade. 

- Olá Clementina, como está?

Não consegue falar. Entre assustada e anestesiada pela experiência, custa a entender se aquilo é real ou ainda é um sonho. Fecha os olhos novamente, e acorda desesperada com o despertador do celular. Estava em casa. Olhou para o relógio - marcava seis horas. Levantou, espreguiçou, tomou banho, saiu, tomou seu café e no caminho para o serviço resolveu olhar para o celular. Era quarta-feira. Vinte e quatro horas haviam se passado desde a ida à vidente.

Havia uma mensagem. Abriu e lá estava escrito: A vida não é um conto de fadas, meu bem! Intrigada, voltou ao endereço. Para surpresa e desolação, não existia aquele número, ninguém sabia sobre Olga, chegou ao serviço, perguntou à colega que foi citada pela moça do ônibus como referência - nunca ouvira falar sobre aquilo.

Clementina resolveu esquecer aquela experiência. Enamorou-se por meses de Teodoro Virgulino, um paraibano da portaria do prédio da empresa. Noivaram outros meses e marcaram o casamento. No dia tão esperado, ao chegar à igreja é informada que Teodoro fugiu para João Pessoa, com Aninha Silva, sua melhor amiga. Arrasada, volta para casa em seu alugado vestido de noiva. Dentro do metrô, uma moça se aproxima e entrega-lhe um cartão...

Clementina sumiu, nunca mais foi vista. Dizem que foi viver seu sonho dentro de um conto de fadas...

É isto aí!    





Verinha Portella


Saibam todos que este Reino da Pitangueira está em festa. Recebe entre seus novos cidadãos a poeta Verinha Portella, abaixo descrita em próprio punho como o fazem os que detêm este dom.

Convido a vocês todos para visitarem seu Blog Meu Céu da Felicidade . Bem vinda, Verinha!!

Verinha se apresenta:

Mulher que olha a vida com olhar penetrante
contempla os detalhes suavemente
Vive com alegria, contente, cada nuance e matiz
Sabe que a pessoa mais inteligente não passa de um aprendiz.
Percebe que no silencio cabe todas as palavras.
Arrisca dar conselho, mas trança laços fortes
Para demonstrar confiança e amor.
Mulher...as vezes esquece de si mesma
E enaltece o bem amado.
Respira filosofia, faz da ética a sua verdade
Sem precisar de faculdade, quando tropeça
Não se assusta, ninguém a faz insegura
Pois sabe que quem ama o presente
Não precisa temer o futuro.
Na sua sapiência olha com os olhos do ver
E faz da natureza e o amor
Complementos do que chamamos poesia....


É isto aí!