terça-feira, 17 de agosto de 2021

Quebrando a Banca



Passou na casa do compadre Nestor para ser seu parceiro numa jogatina no Clube Social, valendo tudo ou perdendo tudo. Coisa das mais arriscadas, mas as dívidas e a grave situação econômica o levou a arriscar. Bateu palmas, apertou a campainha, chamou, assobiou, gritou, bateu na porta e nada do Nestor. Quando já ia embora, aporta se abriu e era a comadre Madalena.

Entreolharam-se com os olhos do passado, e sem muito jeito perguntou pelo amigo. Madalena o convidou a entrar, levou-o até o quarto do casal onde Nestor estava acamado, febril e confuso. Está assim desde ontem, coitado. Contava com este jogo para acertarmos a vida, disse a esposa.

Sentiu um frio no estômago, puta merda, e agora? Fodeu tudo. Respirou fundo, despediu-se do amigo e de Madalena e mal chegou na porta, Nestor o chamou - compadre, espere!

Voltou devagar, sem saber o que dizer, mas Nestor reuniu forças e disse - compadre, leve a Madalena para ser sua parceira, eu vou ficar bem. 

Tentou argumentar, negar, desfazer a proposta, mas o olhar da comadre cegou suas negativas. Madalena pediu para esperar um pouco, deu uma corrida na vizinha e pediu para olhar o esposo enquanto ia buscar um remédio no centro da cidade. E assim partiram no seu Del Rey 1.6 Ouro 8V a Álcool. Foram completamente mudos.

Ganharam na primeira banca, perderam pouca coisa na segunda, ganharam muito na terceira e quarta, e quando iam embora, Manuelão, o dono da banca mandou barrar a dupla. Podem voltar, vocês entraram com merrecas de reais e acham que vãos sair assim, de boa? Podem voltar e agora é tudo ou nada.

Colocou o montante em ficha na mesa e foi perdendo aos poucos, sem nenhuma mão boa. Até que veio um Royal Flush. Apostou os últimos suspiros, outro colocou mil reais, outro dois mil reais, outro cinco mil reais. Colocou a chave da Belina na mesa.

Quanto vale a Belina? Perguntou a banca?

Quinze mil, respondeu.

Aqui vale dez. E eu coloco seus dez mais 20 mil. 

Olhou para todos, lágrimas nos olhos - e agora? 

Como é que é? Ou cobre ou sai.

Eu coloco ... eu coloco ... minha aliança, meu relógio, meu celular

Pode parar, isto aí não vale nada

Olhou para Madalena, ela sorriu e acenou levemente a cabeça, de maneira quase imperceptível. Olhou para a Banca e bradou - eu coloco a Madalena na Mesa.

Madalena fingiu tomar um susto e bateu perna na direção da porta, onde foi detida pelos seguranças. A trouxeram de volta. Manuelão olhou a mulher em todos os ângulos, se aproximou, apalpou seus braços, olhou, examinou, se afastou, se aproximou desta vez mais perto e disse - parece que vale. Está dentro de novo, mas não cubro, quero ela com a banca. Ninguém cobriu.

Voltaram para casa somente no dia seguinte, comemorando a vitória. Dividiram o prêmio ao meio e a vida seguiu com dívidas, dificuldades e carências.

É isto aí!


 

domingo, 15 de agosto de 2021

Toco sua boca - Rayuela Capítulo VII (Julio Cortázar)


Alto lá.
Este poema não é meu
Confesso que copiei e colei
Fonte Pensador

Toco a sua boca 
com um dedo toco o contorno da sua boca, 
vou desenhando essa boca 
como se estivesse saindo da minha mão, 

como se, pela primeira vez, 
a sua boca entreabrisse, 
e basta-me fechar os olhos 
para desfazer tudo e recomeçar. 

Faço nascer, de cada vez, 
a boca que desejo, 
a boca que minha mão escolheu 
e desenha no seu rosto, 

uma boca eleita entre todas, 
com soberana liberdade, 
eleita por mim para desenhá-la 
com minha mão em seu rosto,
 
e que, por um acaso, que não procuro compreender, 
coincide exatamente com a sua boca, 
que sorri debaixo daquela 
que minha mão desenha em você. 

Você me olha, 
de perto me olha, 
cada vez mais de perto, 
e então brincamos de ciclope, 

olhamo-nos cada vez mais de perto 
e nossos olhos se tornam maiores, 
se aproximam uns dos outros, 
sobrepõe-se, e os ciclopes se olham, 
respirando confundidos, 

as bocas encontram-se 
e lutam debilmente, 
mordendo-se com os lábios, 
apoiando ligeiramente a língua nos dentes, 

brincando nas suas cavidades, 
onde um ar pesado vai e vem, 
com um perfume antigo 
e um grande silêncio. 

Então as minhas mãos 
procuram afogar-se no seu cabelo, 
acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, 
enquanto nos beijamos 

como se estivéssemos com a boca cheia de flores 
ou de peixes, 
de movimentos vivos, 
de fragrância obscura. 

E se nos mordemos, a dor é doce; 
e se nos afogamos 
num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, 
essa instantânea morte é bela. 

E já existe uma só saliva 
e um só sabor de fruta madura, 
e eu sinto você tremular contra mim, 
como uma lua na água.

Fragmento de Rayuela, de Julio Cortázar:


Fonte vídeo Youtube mariabuenog

Toco tu boca, con un dedo todo el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano en tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.

Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más cerca y los ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos, donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio. Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura. Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella. Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mí como una luna en el agua.


Sem voz de retorno.



Encostou num canto 
e chorou lentamente
uma tristeza taciturna

Chorou pela dor nua
pela ausência diurna
pela angústia noturna

Ensaiou um canto lento
lerdo, entoando paixão, 
numa tônica de lamento

Memória batendo a caixa
Angústia fazendo o baixo,
ele ali sem voz de retorno.

É isto aí!
 




quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Ella Fitzgerald



Ella Fitzgerald nasceu em Newport News, Virgínia, filha William Fitzgerald e Temperance. Seus pais tinham um casamento conturbado, e ele abandonou sua mãe para viver com a amante quando a cantora tinha apenas três anos, não tendo mais nenhum contato com o pai.

Sua mãe, então, decidida a melhorar de vida, se mudou para Yonkers, Nova York. Lá, conheceu um imigrante português chamado Joseph da Silva e com quem se casou. Em 1923 deu a luz sua segunda filha, Frances da Silva, a meia-irmã de Ella. Apesar de ter construído uma nova família, seu segundo casamento também foi infeliz, sofrendo novamente com agressões e humilhações.

Em 1932, quando tinha quinze anos de idade e sua meia-irmã apenas nove, perderam a mãe, vítima de um infarto. O trauma provocado pela perda repentina da progenitora provocou uma queda brutal no seu desempenho escolar. Neste tempo desenvolveu depressão e abandonou a escola. Como se não bastasse este sofrimento, passou a ser responsável pelos cuidados da irmã pequena, já que seu padrasto não dava atenção à menina e sempre agredia a criança.

Com o tempo, Ella também passou a ser humilhada, espancada e estuprada pelo padrasto. Não suportando tamanho sofrimento, fugiu com a irmã para a casa de uma tia materna, Virgínia, que as abrigou. Após denunciá-lo, seu padrasto foi preso. Ocorreu que Ella e a tia passaram a se desentender e Ella passou a ser novamente humilhada e tratada como empregada. Sua tia a abandonou num colégio interno, de onde só poderia sair maior de idade. Ella sofreu muito por ter sido separada da irmã e prometeu um dia reencontrá-la. Após alguns meses conseguiu fugir e, sem ter para onde ir, tornou-se moradora de rua.

Vivendo nas ruas e pedindo esmolas, só conseguiu trabalhar como vigia de um bordel e de um cassino, atividades ilegais e filiadas à máfia. Ella era informante, caso aparecesse algum policial no local. Porém, após meses de investigações, a escolta policial conseguiu desarticular as quadrilhas do bordel e do cassino, prendendo-os por exploração da prostituição e de jogos de azar. Ella acabou presa como cúmplice e foi enviada a um reformatório para menores de idade, de onde, após alguns meses, conseguiu fugir, voltando a viver na rua. 

Sempre criativa, passou a ganhar dinheiro dançando sapateado nas ruas, improvisando apresentações em diversos estabelecimento comerciais, passando a ganhar um pouco de dinheiro, deixando de dormir nas calçadas. Nesta época, com o pouco dinheiro que ganhava, começou a fazer aula de piano com uma professora do bairro, que a apoiava na realização de seu sonho artístico. Uma noite foi encontrada por policiais e, por ser menor em situação de rua, foi internada no Asilo de Órfãos de Cor em Riverdale, no Bronx, Nova York, onde ficou por dois anos.

Ella sempre sonhou em ser uma cantora e dançarina de sucesso. Gostava de ouvir as gravações de jazz de Louis Armstrong, Bing Crosby e Boswell Sisters. Idolatrava a cantora Connee Boswell, dizendo mais tarde: "Minha mãe trouxe para casa um de seus discos, e me apaixonei por ela....Tentei tanto soar exatamente como ela".



Fonte Youtube: bessjazz
Ella Fitzgerald - Summertime (1968)


Ella Fitzgerald & the Tee Carson trio - Summertime (from Porgy and Bess, by George Gershwin).
The first lady of song in Berlin, 1968.
Beautiful mother singing a lullaby to her baby.

Summertime lyrics
Songwriters: George & Ira Gershwin, Du Bose & Dorothy Heyward

Summertime,
And the livin' is easy
Fish are jumpin'
And the cotton is high

Oh, Your daddy's rich
And your mamma's good lookin'
So hush little baby
Don't you cry

One of these mornings
You're going to rise up singing
Then you'll spread your wings
And you'll take to the sky

But 'til that morning
There's a'nothing can harm you
With your daddy and mammy 
Standing by
Don't you cry 



terça-feira, 10 de agosto de 2021

COVID - A variante delta (UOL)

Fonte - Canal UOL

 ''Festa no Rio e em São Paulo é tudo ficção, a variante delta está chegando", diz Gonzalo Vecina

Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista e ex-presidente da Anvisa, comentou os planos de prefeituras e estados em reabrir as atividades e realizar festas ainda este ano por causa do avanço da vacinação e queda dos números da pandemia. "Estão olhando para horizonte próximo e tanto dar notícia otimista para população, mas infelizmente, ao que tudo indica, vamos ter um repique, que já está começando (...) Teríamos que aumentar capacidade de vacinação", comentou. 



COVID A terceira onda já chegou

Fonte Youtube:  Canal Inconsciente Coletivo



Entrevista com o neurocientista e professor titular da universidade Duke, Miguel Nicolelis.

"O quadro a curto prazo está caindo, mas isso era esperado. É como uma onda, um tsunami, que "varreu a costa" e agora voltou. O tsunami da segunda onda brasileira voltou com o mar, só que ela está pegando energia e essa energia vai reproduzir aqui, de alguma maneira, a dinâmica que está acontecendo nos outros países. Então quem não está vacinado, quem é jovem, pessoas com uma dose só e não estão protegidas completamente, são suscetíveis à variante Delta".

"45% das amostras no Rio de Janeiro já são da variante Delta. Todo mundo está achando que já acabou, já marcaram Carnaval, já tem pacote de Réveillon sendo vendido. Enquanto o mundo inteiro está explodindo [de casos de variante Delta], nós só estamos na expectativa de quando vai explodir aqui no Brasil”.

Blog Inconsciente Coletivo:
APOIE o jornalismo de reflexão: catarse.me/canal_inconsciente_coletivo_a24b
Twitter: @IsaMarzolla
Insta: @morriskachani
Entrevista por Morris Kachani
Produção e Edição por Isabella Marzolla

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Sonho profético com a avó


Sonhou com sua avó falando que morreria no dia 12 de abril, às 16hs. Ao ouvir a quarta badalada das horas, comece a atravessar a avenida principal, na faixa de pedestre em frente à banca de revista, no sentido Banca/Matriz, lembre-se disto, você sairá da Banca e irá para a Matriz. Vai ser uma morte linda, você vai virar nome de rua. 

Acordou com aquela sensação de que deveria começar a despedir-se do mundo. Levantou sem pressa, colocou uma roupa de domingo, tomou café com calma e saiu observando o planeta. Naquela dia não foi trabalhar, já que dia 12 estava próximo, mais dois dias e pronto.

Passou na agência e comprou financiado, sem entrada, um carro usado, uma Kombi, que era seu sonho de infância - rodar o mundo dentro de uma Kombi. Partiu para o centro da cidade, foi ao banco e liberou um empréstimo de trinta e seis mil reais no consignado, fez seguro de vida pessoal e seguro da Kombi, já abatido no crédito liberado. 

Foi na loja de roupas e escolheu o terno do enterro, pagou no cartão de crédito o traje  completo. Cortou o cabelo, fez a barba, passou na casa da comadre, conversa ali, conversa lá, resolveu investir seu charme, que foi rechaçado no ato. Depois eu morro e você arrependerá, falou com a mulher estarrecida, aborrecida e magoada com a cena.

Saiu dali, passou no supermercado e fez compra para noventa dias - não quero que falte nada. Ligou para a família, conversou com os dois irmãos e a irmã, cunhadas e cunhado. Perguntou pelos sobrinhos, deu notícias dos seus. Passou na prefeitura, regularizou a dívida ativa do IPTU, passou na farmácia, acertou o saldo devedor, entrou na loja e comprou geladeira, fogão, jogo de copa, jogo de sofá, televisão com tela gigante e mandou entregar.

Voltou para casa de tardinha, e pensou - agora é só esperar dia doze. Chegado o dia fatídico, acordou com uma diarreia clássica, com muita cólica e indisposição. Mal conseguia ficar em pé. O dia passou com sua presença constante no banheiro. Foi sendo abatido pelas medicamentos antiespasmódicos e pela desidratação.  Acabou adormecendo pela fraqueza. Sonhou com sua avó olhando séria para ele, apoiando-se numa bengala e olhar duro - mas você, hem!!! Sempre foi um cagão.

É isto aí!

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

O velório, o neanderthal e a viúva


Pensei em algo para dizer naquele momento. Merda, para que vim parar neste velório? Logo eu que detesto velório. E sequer conheço o sujeito, sei que é irmão do patrão, mas me mandaram representar a empresa. Eu e minha boca. Para que eu fui falar que estava solidário com o chefe? Já decretei e registrei no Cartório de Registros e Notas da Minha Existência, o famoso CRENOME, que estou proibido de morrer, por que detesto velório - ah! Já disse isto, é que estou nervoso - velórios ...

Entrei de súbito e de estúpido no salão onde estava o esquife, guardando na sua parte interior o corpo sob milhares de rosas, flores, palmas, ramos, etc. No tumulto, fui sendo conduzido para próximo da urna mortuária, até que senti minha mão tocar a mão do ..., aiaiai meu deusinho dos mortos problemáticos, só pode ser a mão do falecido, gelada feito um cubo de gelo no inverno.

Senti a mão cadavérica se mexendo, gritei assustadoramente, e quanto mais gritava, mais a mão me prendia a ela, e uma voz feminina suave falava - Arnaldo, calma, Arnaldo, e eu ali, confuso, de olhos fechados, aquela multidão inútil ao meu redor e a voz falou novamente, Dodô, para com isto. Parei por um milésimo de segundo e pensei - esta voz - só uma pessoa me chama de Dodô assim. Abri os olhos, vi seus imensos olhos castanhos e a beijei efusivamente.  

Para, Dodô, para, foi empurrando meu corpo contra o caixão - para, Dodô, para ...

Aí ouvi uma segunda voz - mamãe, o que está acontecendo aqui?

Mamãe? Pensei rápido diante do silêncio total. Quem é mamãe? Afastei-me um pouco, encostei no caixão de costas para o cadáver, e vi seus lindos olhos expressando espanto, raiva, ódio, tesão e surpresa. Ao seu lado um jovem de 3 metros de altura e 2 metros de largura. Senti um golpe no queixo, cai sobre o falecido e rolamos no chão, ficando presos sob a urna pesada, nós dois ali no chão escuro, eu, o morto e as rosas e flores e a merda toda.

Assim que levantaram o caixão, saltei para a direção da porta, assustando dezenas de pessoas que acreditaram se tratar do defunto ressuscitado. Teve de tudo - desmaios, gritos, histeria, etc. Entrei num táxi e fugi para o Bar do Juca, do outro lado da cidade. Esperei o táxi ir embora, atravessei a rua, peguei um ônibus, saltei na rodoviária e fugi para Teresina, no Piauí.

Três meses depois do comportamento neanderthal, voltei, acreditando que tivessem esquecido do episódio. Chegando em casa, peguei no chão uns vinte bilhetes da viúva, perfumados e com corações apaixonados - "Dodô - volta para mim!".

É isto aí!

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Tarde Triste (Maysa Matarazzo)


Tarde Triste (Maysa Matarazzo)

Tarde triste  
me recorda 
outros tempos

Que saudade! Que saudade!

Vivo só 
num turbilhão 
de pensamentos

De saudades. De saudades.

Por onde andará quem amei
Será que também vive assim
Sofrendo como só eu sei
Pensando um pouquinho em mim

Tarde triste Noite vem
Já esta descendo
E eu sozinho, sofrendo

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

O risco das decisões

Como decidir que a decisão é a melhor decisão dentre todas as outras que deveria fazer?

Entenda o contexto. Na maioria das vezes, a dificuldade em optar por um determinado caminho reside em não compreender exatamente o que está em jogo. ...

1 - Ajuste seu foco. 

2 - Lembre do que ensinou o passado.

3 - Siga seu instinto.

4 - Organize seus pensamentos.

5 - Corra riscos.

6 - Simule o resultado. 

7 - Hora da escolha, mas antes:

7.1 – Identificação do problema

Sempre que você se encontrar em uma encruzilhada e precisar decidir por um dos caminhos, o primeiro passo é identificar e compreender o problema. Analise quais áreas da sua vida serão impactadas por essa decisão, defina quais são as suas prioridades e qual é o real alcance dessa escolha a ser feita.

Quem não faz essa análise detalhada, tende a sentir, no futuro, que não tomou a melhor decisão.

7.2 – Controle da impulsividade

Sua decisão não pode ser guiada somente pela emoção ou impulso. Se você se sentir pressionado ou agir sob a influência dos outros, as chances de arrependimento são enormes. Assim, fuja a todo o custo do imediatismo gerado pela impulsividade!

É claro que há muitas decisões que devem ser tomadas rapidamente, mas é importante que você compreenda que não deve decidir com base nas emoções e nas outras pessoas. Decida com base nos fatos e nas suas necessidades.

7.3 – Filtre as opiniões dos outros

Isso nos leva a próxima etapa: filtrar aquilo que os outros lhe dizem e recomendam. Na hora da tomada de decisão, nada mais comum do que recorrer a amigos e parentes para conversar e trocar ideias sobre a escolha que deve ser feita.

Entretanto, tenha cuidado! Nem sempre os fatores que pesam para as outras pessoas são relevantes para você, assim como os demais não vão pensar nas variantes que só você é capaz de assimilar. Afinal de contas, quem irá lidar com as consequências da decisão é você, não é mesmo?!

7.4 – Tenha os pés no chão

Seja realista e encare os fatos no momento da tomada de decisão. Isso lhe deixará mais otimista, reduzirá as chances de frustração no futuro e evitará a criação de expectativas destrutivas. Isso não significa que você não deve levar nenhuma emoção e intuição em conta no momento da escolha, mas ter os pés no chão dá mais segurança e reduz as chances de decepção no futuro.

7.5 – Procure alternativas

Atente-se aos detalhes antes da tomada de decisão. Não feche seu pensamento apenas para aqueles caminhos tradicionais e, teoricamente, seguros. Analise outras alternativas que você não havia considerado antes, pois nem sempre há somente dois caminhos.

7.6 – Pense das consequências da sua decisão

É muito comum no processo de tomada de decisão que as pessoas pensem apenas no efeito imediato. No entanto, o mais correto é pensar nas consequências no curto, médio e longo prazo.

7.7 – Não procrastine

A procrastinação é um dos grandes defeitos dos indivíduos na atualidade, e isso também é aplicável à tomada de decisão. Sempre que tiver uma decisão a ser tomada, não adie essa ação. Reúna todas as informações sobre a questão, pense sobre as consequências, avalie alternativas e quando tiver tudo em mãos, simplesmente decida. Prolongar o sofrimento da indecisão pode criar ainda mais ansiedade e deixar a rotina angustiante.

Fontes de pesquisa: 

Fonte 1 - Isabela D'Ercolle

Fonte 2 - Febracis

sábado, 31 de julho de 2021

Mas o que é, afinal, felicidade? (Moacyr Scliar)


Alto lá, este texto não é meu
Confesso que copiei e colei
É um texto/crônica do Moacyr Scliar (1937/2011)
Fonte: ABL  (Academia Brasileira de Letras)

Mas o que é, afinal, felicidade?

A pergunta que desde a antigüidade clássica, nunca deixou de ser formulada, constitui-se em um desafio

A historinha é antiga, bem conhecida, e foi recontada por ninguém menos que o grande Italo Calvino. Havia um rei poderoso que de súbito foi acometido de profunda melancolia. Os médicos que o atendiam chegaram à conclusão de que, para melhorar, o soberano deveria vestir a camisa de um homem feliz. Emissários foram, portanto, despachados em busca do homem feliz, mas não conseguiam encontrá-lo: ninguém, no reino, se declarava feliz. Finalmente encontraram um jovem lavrador que, de torso nu, arava a terra e que deu uma resposta afirmativa à indagação: sim, ele se considerava feliz. Pediram, então, uma camisa dele. E aí a surpresa que encerra a historinha: o homem feliz não tinha camisa.

Não se sabe se, na ausência da terapêutica peça de vestuário, os médicos receitaram Prozac para o rei, mas a história faz pensar. O que é, exatamente, ser feliz? A pergunta que, desde a antigüidade clássica, nunca deixou de ser formulada (por filósofos, teólogos, educadores, políticos), constitui-se em realidade num desafio, sobretudo agora em que outros fatores entram em jogo, gerando polêmicas do tipo: são os homens mais felizes do que as mulheres, como sugerem algumas pesquisas? Se são, qual a causa desta diferença?

Vamos voltar, por um momento, à história do homem feliz. Vamos supor que ele tivesse sido convidado para conhecer o rei ou mesmo para morar na corte. Inevitavelmente teria de se vestir de acordo, o que exigiria, claro, uma camisa. Aí ele precisaria comprar uma camisa. E uma gravata. E um terno. E sapatos novos. E teria de mudar de profissão porque um homem de terno e gravata, um homem que foi recebido pelo rei, não pode mais ser um simples lavrador. Teria de conseguir uma coisa melhor, um novo emprego, quem sabe um cargo no governo. E pronto, eis o nosso homem possuído pela ansiedade de subir na vida. Será que a essa altura ele ainda se consideraria um cara feliz?

A felicidade é, antes de mais nada, um sentimento. Nas enquetes feitas a respeito, os investigadores limitam-se a perguntar se a pessoa se considera feliz, muito feliz ou infeliz. Não há um critério objetivo para a felicidade, que não se traduz em indicadores numéricos, como é o caso da obesidade. Mas uma coisa é certa: a carência extrema, o sofrimento extremo, são absolutamente incompatíveis com a ideia de felicidade. Não tem nenhum sentido perguntar a uma pessoa que está morrendo de câncer se ela se sente infeliz. O conceito aí é absurdo. 

A busca da felicidade, "pursuit of happiness" de que fala a Declaração de Independência dos Estados Unidos, colocava a felicidade em terceiro lugar na lista dos direitos inalienáveis, depois de "vida" e "liberdade". Mais do que isto, na Carta dos Direitos americana "pursuit of happiness" foi substituída por "property", propriedade. Claro: propriedade estava mais de acordo com o liberalismo econômico e é, diferente da felicidade, algo concreto que pode até ser registrado em cartório.

As pessoas começam a falar de felicidade quando têm suas necessidades básicas satisfeitas, em termos de alimentação, de moradia, de trabalho. Essas coisas são o pão; a felicidade é a manteiga, ou a geléia dietética, se vocês quiserem, ou até o caviar. Mas as pessoas não se contentam mais com pão seco. Querem mais, e nesta luta as mulheres têm se destacado. 

Mulher hoje tem emprego, tem seu lugar assegurado na sociedade e está até ganhando mais. Mas mulher continua sendo mãe e dona de casa. Daí a ansiedade, daí a tensão, daí o estresse. Daí a sensação de infelicidade. 

Freud dizia que a felicidade não está ao alcance dos seres humanos. O máximo que podemos almejar, na opinião dele, é uma "tranqüila infelicidade". Notem que, para o pai da psicanálise, a tranqüilidade neutraliza a infelicidade. E é mais fácil de alcançar, bastando para isto que adequemos nossos objetivos às nossas reais possibilidades. 

Se temos de usar camisa, que seja uma camisa cômoda, com colarinho folgado. E se tivermos de emprestá-la a um doente (rei ou não) que o façamos com satisfação e sem rancor.


quinta-feira, 29 de julho de 2021

A dor do adeus sem sentido


Tomou um café frio que estava no bule sobre a mesa, engoliu um pedaço de pão seco e sem gosto, limpou a boca com a mão direita, olhou mais uma vez para o relógio digital na parede e suspirou fundo. Saiu sob uma chuva intensa, guarda-chuva imenso mas pouco resolutivo perante a ventania que espalhava as águas. Desceu a ladeira escorregadia até chegar na praça da prefeitura, dali em diante o coração iria ter que aguentar.

Atravessou a praça, dobrou à esquerda no rumo da Matriz onde, ao passar, ignorou pela primeira vez o costumaz sinal da sua fé. Abaixou a cabeça e travou os pensamentos para que os céus não escutassem o que queria dizer. Não que rompera com a divindade universal, mas achou no direito de sentir-se traído pelas preces não atendidas.

A rua dali em diante ficava triste, com pessoas tristes nas janelas, calçada e paralelepípedos estupidamente tristes. Detestava aquele caminho, apesar de saber que um dia o faria como exatamente agora, num ritual dolorido, no qual portava seu corpo esquálido como féretro da sua consciência.

Chegou ao destino sem palavras, e de súbito vieram as lágrimas. Sentiu a culpa de não ter feito tudo que podia. Cumpriu todas as orientações das autoridades, comprou medicamentos totalmente ineficazes, acreditou que tudo aquilo passaria de forma lépida, sem maiores percalços a açoitar a vida. 

Naquela manhã despediu-se de três pessoas lacradas dentro de urnas, uma a uma sendo depositada sobre a outra num movimento fúnebre, horroroso e pavoroso. Ninguém, mas ninguém no mundo suportaria toda a sua dor. Viu baixarem de forma impessoal corpos ocultos sob aquelas caixas lacradas que ali demarcam o real momento de despedida.

Tudo que acreditava estava sendo enterrado, sentiu que desabaram todas as crenças que foram sendo construídas. Desejou nunca ter acreditado em pessoas tão más, porém agora, mesmo sabendo o quão indiferentes e cruéis são estas personalidades, tinha a certeza de que entrara um novo mundo, com duas crianças pequenas e uma solidão amarga.

É isto aí! 

Minha e Tua (Martinho da Vila)


Fonte da música: YouTube
Martinho Da Vila (letra/música)

Fonte da imagem: Les Candaces
Mon histoire, notre histoire mais aussi la vôtre
(Minha história, nossa história, mas também a sua)


Deus abençoa porque
Somos o sol e a lua
E quando há um eclipse
Minha vida é minha e tua

Num simples toque de olhar
Faz se sentir toda nua
E pra escandalizar
É só minha linda e pura

Vida minha

Minha
Tua
Minha
Tua vida é minha e tua

Vida minha

Minha
Tua
Minha
Tua vida é minha e tua

Ela é a terra virgem
Eu semente de paixão
Nossas lágrimas são chuva
Nossos corpos plantação

É uma afrodisia
A me fazer germinar
Desbravando o seu corpo
Sinto o tato das carícias
Que só eu posso provar

Vida minha

Minha
Tua
Minha
Tua vida é minha e tua

Vida minha

Minha
Tua
Minha
Tua vida é minha e tua


Fonte: Canal no Youtube de Martinho da Vila 
Music video by Martinho Da Vila performing Minha E Tua. (C) 1997 Sony Music Entertainment (Brasil) I.C.L
Música: Minha E Tua
Artista: Martinho da Vila
Compositor: Martinho da Vila
Álbum: Coisas De Deus
Licenciado para o YouTube por
SME (em nome de Columbia); Peermusic, Polaris Hub AB, UMPG Publishing, UMPI, BMI - Broadcast Music Inc., LatinAutor - UMPG, LatinAutorPerf e 8 associações de direitos musicais



quarta-feira, 28 de julho de 2021

Soneto da ausência


Faltou aquela música
com aquela letra lenta
e a melodia passional
explorando as lágrimas

E excedeu esta saudade
feito uma fenda no peito
em dizer coisas mágicas
para seu lado irracional

eu amo a sua impaciência
Tive os sonhos com você
louca, maluca, nós tesos

Não estou muito normal
vinho, vazios, dez desejos
beijando esta sua ausência.

É isto aí!  

Cartas de Amor de Martin Heidegger para Hannah Arendt


Martin Heidegger (1889-1976) filósofo, escritor, professor universitário e reitor alemão

Hannah Arendt (1906-1975) uma das filósofas mais influentes do século XX


Queridíssima! Obrigado por sua carta. Se eu somente pudesse dizer-te como sou feliz contigo, acompanhando-te enquanto tua vida e mundo se abrem de novo. Posso ver como entendeste e como tudo é providencial. Ninguém jamais aprecia a experimentação consigo mesmo. Por essa circunstância, todos os compromissos, técnicas, moralização, fuga e retração podem inibir e distorcer a providência de ser. 

Esta distorção gira em torno de como, apesar de todos nossos substitutos para a “fé”, não temos nenhuma fé genuína na existência em si mesma, e não entendemos como sustentar coisa como essa por nós mesmos. Esta fé na providência não perdoa nada, e não é uma fuga que me permitirá terminar comigo de uma maneira fácil. 

Somente essa fé — que como fé no outro é amor — pode realmente aceitar o “outro” totalmente. Quanto vi que minha alegria em ti é grande e em crescimento, isso significou que também tenho fé em tudo o que seja tua história. Não estou criando um ideal, menos ainda estaria tentando educar-te, ou qualquer coisa que se assemelhe a isso. Por sorte, a ti, como és e seguirás sendo, com tua história, assim é como te amo. 

Somente assim é o amor forte para o futuro, e não só o prazer efêmero de um momento. Somente então é o potencial do “outro” também movido e consolidado pela crise as lutas que sempre se apresentam. Mas tal fé também se encarrega de empregar mal a confiança do “outro” no amor. 

O efeito da mulher e seu ser é muito mais próximo das origens para nós homens, menos transparentes. Portanto, é providencial, mas mais fundamental. Temos um efeito somente enquanto somos capazes de dar. Se o “presente” é aceito sempre imediatamente ou em sua totalidade, é uma questão de pouca importância, E nós, quando muito, só temos o direito de existir se somos capazes de nos importarmos. 

Nós podemos dar somente o que pedimos de nós mesmos. E é a profundidade com a qual eu mesmo posso buscar meu próprio ser que determina a natureza de meu ser para com os outros. E esse amor é a herança gratificante da existência, que pode ser. E assim é que a nova paz se desprende de seu rosto, o reflexo não de uma felicidade que flutua livremente, mas sim da resolução e a bondade nas quais nas quais tu é inteiramente tu. 

Teu Martin.

E na cronostase não vai nada?


Como sabemos, Julho é o sétimo mês do ano no Calendário gregoriano, tendo a duração de 31 dias e deve o seu nome ao Cônsul / imperador romano Júlio César (100-44 a.C), que nasceu neste mês, quando ainda nem existia nem o Julho, nem o César e nem doze meses no calendário. Quando Julio César nasceu, o mês era conhecido como Quintilis em latim, dado que era o quinto mês do Calendário Romano, que começava em março.

E cá para nós, que mês longo foi este? Confesso que vivi a Síndrome da Cronostase. Sabe aquela coisa básica de que o tempo não é fluído nem na nossa percepção. Já notou que quando você faz uma viagem de carro pela primeira vez ela parece muito mais longa do que na segunda? Então!! São estas alterações de percepção temporal com origem fisiológica que são denominadas de Cronostase.

Ah! É isto! Puxa vida, achou que teria que tomar vacina, hem???

A Cronostase permite uma sensação de que o tempo parou ou está especialmente lento, e isto pode durar até meio segundo. A culpa desse efeito? Um negócio chamado Movimento Sacádico, que é involuntário e acontece o tempo todo, e que ajuda a termos uma noção detalhada do ambiente, mesmo quando nos concentramos em alguma coisa.

Espera, eu estava falando de Julho. Inverno, frio, vinho e pandemia. Domingo será mês que vem, depois vem dezembro e depois nem sei se virá mais alguma coisa, pois até lá já levaram tudo (como assim?? pense...).

A verdade é que tenho saudade de mim em tempo integral, do tempo que surfava em medalha de ouro na pressa da juventude.


É isto aí!

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Carminha e Armandinho - Sonhos e Boleros



Vê aquela mulher de azul no fundo do salão sorrindo para este alguém que sou eu? Repare que neste momento colocou a mão na boca como quisesse esconder um sorriso discreto? Tenho por ela um apreço inestimável. Ela está olhando para mim, disfarce, disfarce, olhe para a lateral, deixe que os olhos dela me encontrem. A orquestra está tocando La Barca e ela, lindíssima, está vindo, ela está vindo ...

Armandinho, acorda! Armandinho ... acorda, Armandinho ...

Ahn!! Hum!! Hein!! Ah, é você, Carminha.

Não, é sua mãe. E com quem você estava sonhando?

Eu?? Sonhando?? Com mamãe.

Mentiroso, levanta e vai cuidar de trabalhar.

Só mais dez minutos ... zzzzzz ... a mulher de azul foi atravessando o salão, veio até a minha presença, sorriu um sorriso elegante, levantei-me e fomos dançar bolero - Sabor a mi - uau, aquilo era algo mágico. "Tanto tempo desfrutamos deste amor / nossas almas se aproximaram tanto assim /  que eu guardo teu sabor / mas tu levas também o meu sabor ..." e bolerávamos pela pista somente nossa.

Merda, Armandinho, acorda agora.

Qual é, Carminha? 

Este seu sorriso cínico, está sonhando com mulher.

Eu??? 

Eu te conheço, vagabundo. Levanta agora.

Carminha, hoje é domingo.

Sério? Puxa, desculpa então, Armandinho, pode voltar a dormir.

E voltou ao salão, a mulher de azul, o bolero, agora a orquestra tocava Historia de un amor - "Já não estás mais ao meu lado, coração / Na alma, eu só tenho solidão E se eu não posso mais te ver / Por que Deus me faz te querer / Para me fazer sofrer mais?"

Mas que merda é esta, Armandinho? Acorda, hoje é segunda-feira. Levanta seu vagabundo. Vai trabalhar.

Hum!! Ahn! Hem!! Carminha!! Estou atrasado, puxa vida, deixa eu correr.

Volta aqui, moleque, quero saber que sonho é este que te deixou com esta carinha de felicidade, volta aqui...

É isto aí!





domingo, 25 de julho de 2021

nulla dies sine linea



Nulla dies sine linea (nem um só dia sem uma linha) é uma expressão que ficou famosa no Latim,  atribuída a Plínio referindo-se a Apeles - Apeles (em grego Ἀπελλῆς) de Cós (fl. século IV a.C.) foi um renomado pintor da Grécia Antiga. Plínio, o Velho, a quem se deve o conhecimento deste artista (Naturalis Historia), considerava Apeles mais importante que pintores que o antecederam e precederam. Plínio situou Apeles na 112ª Olimpíada (332–329 a.C.), possivelmente porque pintou um retrato de Alexandre, o Grande.

Lembrei dela agora a pouco, pois já estava determinado a não publicar nada hoje, dado a um estado espiritual fragilizado pelas contingências e relevos da estrada da vida, mas independente de mim, segue a Terra sendo mãe e mundo com seus movimentos de Rotação; Translação; Precessão dos Equinócios; Nutação e o Deslocamento do Periélio.

Neste planeta com estes movimentos acima citados, estou numa jornada fantástica, no caminho místico de um universo de eventos, com uma força cósmica subjacente que cria e, destrói e cria e destrói e forma e deforma e deforma e forma este universo, promovendo surgimento e  desaparecimento de fenômenos que estão além da minha imaginação.

Quantos sentimentos tenho comigo? Muitos. E eles me governam. Não existe um sentimento único, todo sentimento é plural nesse sentido. Ademais, os sentimentos são diferentes entre si e podem se manifestar de diferentes formas dependendo do contexto e das minhas crenças, dores, esperanças desejos.

Então é isto. Estou triste, mas estou fazendo os movimentos que não me deixam parado, assim sigo a trilha da vida, motivado (ou não) pelas minha escolhas.

É isto aí!

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Estivemos fora do ar




Já sei, já sei, já sabia.

Mas mesmo assim pessoas próximas cobraram uma declaração explícita. Bem, vamos lá:

Prezados/Prezadas leitores/leitoras, estivemos fora do ar, como alguns narraram pessoalmente, e isto é uma coisa muito engraçada. Fora do ar deveria ser um vácuo, e não estivemos no vácuo, estivemos sem conseguir abrir processos saneadores de problemas. Não consigo imaginar-me fora do ar e permanecer respirando o ar que para os outros está ... confuso isto daí. Enfim, estivemos sem acesso ao conteúdo plantográfico. 

Não tente corrigir o neologismo deste reino. Eu não quis dizer pantográfico, que é aquela coisa que se faz com um pantógrafo, (do grego pantos = tudo + graphein = escrever) que é um aparelho utilizado para transferir e redimensionar figuras e que pode ser regulado de modo a executar também ampliações e reduções nas proporções desejadas.

Plantográfico (do latim plantae = planta/plantar + do grego graphein = escrever) que é esta coisa que se faz ou pelo mesmo se tenta fazer aqui, ou seja - semear, adubar e florescer as palavras escritas neste reino da Pitangueira).  

Para facilitar, estivemos fora do ar por motivos (marque um, dois ou todos que achar conveniente):

01 - Passionais
02 - Ancestrais
03 - Umbilicais
04 - Neanderthais
05 - Colossais
06 - Abissais
07 - Gastrointestinais
08 - Congestionais
09 - Gramaticais
10 - Analfabetismo High - Tech
11 - O suporte estava indisponível

Marque a alternativa correta para a dúvida sobre o porquê das 11 alternativas:

A - Por que não foram 10 ou 12? Por que colocou 11 opções? 
B - Por quê não foram 10 ou 12? Por quê colocou 11 opções? 
C - Porque não foram 10 ou 12?  Porque colocou 11 opções?
D - Porquê não foram 10 ou 12? Porquê colocou 11 opções? 

Se rolar a tela, tem cola!

É isto aí!

























Dicas para o uso dos porquês

Por que = Usado no início das perguntas.
Por quê? = Usado no fim das perguntas.
Porque = Usado nas respostas.
O porquê = Usado como um substantivo.

É isto aí!



Inconcebível (Vittorio Medioli - OTEMPO)



Editorial: Publicado em 18/07/21 - OTEMPO
Fotografia: Dida Sampaio/AE

Se perguntar nas ruas se alguém concorda em atribuir R$ 5,7 bilhões aos partidos para custear suas campanhas, é provável que não se encontre um cidadão, entre os primeiros cem questionados, disposto a dar seu apoio.

Matérias legais tão importantes quanto o financiamento público dos partidos políticos e, mais ainda, do fundo de financiamento eleitoral (que a cada dois anos transfere alguns bilhões de reais para parlamentares e figuras políticas) nunca poderiam ser decididas pelos mesmos parlamentares interessados, como vem acontecendo. Apesar de os próprios constituintes, em 1988, terem tangenciado a proibição de “legislar em causa própria” – uma afronta aos alicerces da democracia –, preferiram limitar aos termos de uso de “impessoalidade” e “moralidade” as ações dos legisladores e de qualquer agente público.

O princípio da impessoalidade é de contornos vagos e sombreados; estabelece uma atitude de imparcialidade na defesa do interesse público, impedindo discriminações e privilégios indevidamente dispensados a particulares no exercício da função administrativa ou ao próprio legislador. Indiscutível, portanto, o dever de coibir a prática de atos que visem a atingir fins pessoais. Mais ainda quando em contraste frontal com o pensamento explícito da opinião pública.

Se perguntar nas ruas se alguém concorda em atribuir R$ 5,7 bilhões aos partidos para custear suas campanhas, é provável que não se encontre um cidadão, entre os primeiros cem questionados, disposto a dar seu apoio. A medida é repulsiva.

Quem paga a conta disso é a população, por meio de impostos, destacados ou embutidos, na compra do que lhe serve para sobreviver. Paga, assim, com privações para beneficiar principalmente o legislador que se atribuiu o Fundo Eleitoral.

O valor de R$ 5,7 bilhões representa uma dezena de milhões para cada um dos congressistas, concedendo-lhe a decisão de direcionar e gastar em favor da sua reeleição. E, ainda, com a disponibilidade de mais R$ 1 bilhão em repasse anual ao partido, somando em 2022 R$ 6,7 bilhões que sairão dos cofres públicos.

Nesse caso gritante de pessoalidade e direcionamento, deveria ser a população a referendar a decisão, como ocorre em países moralmente “evoluídos”. Como também o referendo deveria abranger a remuneração, as vantagens e as verbas indenizatórias dos parlamentares.

As decisões no Congresso se dão na calada da noite, sem coerência com parâmetros plausíveis, de regra em frontal divergência com o pensamento popular.

O que foi aprovado na última semana (R$ 5,7 bilhões de verba para o Fundo Eleitoral dos partidos) se choca com um país onde as privações fustigam mais de 50 milhões de indivíduos mergulhados abaixo da linha da pobreza.

Os 584 congressistas (apesar de 51 senadores continuarem com mandato) terão, assim, cerca de R$ 10 milhões cada um para custear a reeleição, além de outros R$ 2 milhões per capita da cota anual do Fundo Partidário.

Absurdo, pois o princípio constitucional da impessoalidade estabelece o dever de imparcialidade na defesa do interesse público, impedindo discriminações e privilégios indevidamente dispensados aos agentes no exercício da função administrativa. Existe nesse termo o imperativo de coibir a prática de atos que visem atingir fins pessoais, impondo-se a observância das finalidades públicas e dos interesses difusos.

Dever-se-ia recorrer nesses casos ao plebiscito, que é convocado com anterioridade a ato legislativo ou administrativo, cabendo ao povo, pelo voto, aprovar ou denegar o que lhe tenha sido submetido. Ou ainda o “referendo”, que é convocado com posterioridade ao ato legislativo ou administrativo, cumprindo ao povo a respectiva ratificação ou rejeição.

De qualquer forma, não poderia a decisão em causa própria prosperar antes do pronunciamento da população convocada a escolher ou ratificar.

O que agrava neste momento a decisão dos parlamentares é a exorbitância dos valores, já que nas eleições de 2018, primeiro ano em que vigorou o insano Fundo Eleitoral (também não referendado), o valor foi de R$ 1,71 bilhão, quando o salário mínimo era de R$ 937. Ou seja, o fundo correspondeu a 1,83 milhão de salários. Estarrecedor que em apenas quatro anos, com o salário mínimo de 2021 em R$ 1.100, os parlamentares tenham elevado o fundo para 5,18 milhões de salários mínimos, decretando para si um aumento real de 332%. No mesmo período o salário mínimo registrou uma evolução de apenas 17%.