segunda-feira, 6 de março de 2023

Aplicando alguns princípios fundamentais da Física na sua vida.


01 - Princípio da impenetrabilidade da matéria.

Dois corpos distintos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço e ao mesmo tempo. Ou do mesmo gênero, se diz que: Um corpo não pode ocupar ao mesmo tempo dois lugares distintos no espaço.

Acredite - Muitos motociclistas desconhecem esta lei bem como ignoram  a Lei da Gravidade.


02 - Princípio da conservação das massas. 

A Lei da Conservação das Massas ou Lei de Conservação da Matéria proposta por Lavoisier postula que: "A soma das massas das substâncias reagentes é igual à soma das massas dos produtos da reação."

Acredite - Balanças mentem - para mais ou para menos, depende dos interesses 


03 - Princípio da conservação do momento total.

Isto significa que a variável de uma equação que representa uma grandeza conservada é constante ao longo do tempo. A variável tem o mesmo valor antes e depois de um evento.

Acredite - Você nunca vai mudar aquela pessoa nem antes nem depois do casamento. 


04 - Princípio da conservação da energia.

Em física, o termo conservação refere-se a algo que não muda. Isto significa que a variável de uma equação que representa uma grandeza conservativa é constante ao longo do tempo. A variável tem o mesmo valor antes e depois de um evento. A energia é uma grandeza que se conserva. Em suma, a energia normalmente varia em colisões. 

Acredite - Aquela raiva que se transformou em mágoa pode até ter sido coroada com um perdão, mas não muda, e é coisa que não vai embora nunca mais.

É isto aí!


sábado, 4 de março de 2023

Magenta, a cor que não existe

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Author,Archie Crofton

O magenta oficialmente não existe.

Não há comprimento de onda de luz para o magenta, o que significa que é o cérebro humano que cria essa cor. Mas como?

Nós o percebemos apenas quando os cones S e L captam um sinal de luz vermelho e azul puro.

Não sabemos ainda porque o cérebro o cria. O mecanismo pode ter sido, contudo, muito útil a nossos ancestrais primatas que viviam em florestas verdes.

Frutas e flores da cor magenta teriam maior contraste contra um fundo verde, e vê-las tornou mais fácil para nossos ancestrais encontrar alimentos.

Nosso cérebro faz todos esses tipos de saltos cognitivos estranhos o tempo todo. Você pode se surpreender com o quanto do mundo ao seu redor não é exatamente o que parece ser.



quarta-feira, 1 de março de 2023

Interocepção e Propriocepção

Alto lá
Este texto não é meu
Confesso que copiei e colei
Autora: Alejandra Martins
Fonte: BBC - 
https://www.bbc.com/portuguese/articles/cxx79170863o

Temos sete sentidos e os cinco mais conhecidos são os menos importantes

Article information
Author,Alejandra Martins
Role,BBC News Mundo
26 fevereiro 2023

Nossa postura e as expressões do nosso rosto enviam sinais importantes ao cérebro - informações às quais ele reage, diz a neurocientista espanhola Nazareth Castellanos, que estuda o que a ciência tem chamado de ‘interocepção’ e ‘propriocepção’.


Nazareth Castellanos: 'Se faço uma cara de raiva, o cérebro interpreta que essa cara é típica de raiva e, portanto, ativa os mecanismos de raiva'

Enquanto você lê esta reportagem, como está seu corpo? Ereto ou curvado? E seu semblante, está relaxado? Ou você está franzindo a testa?

A nossa postura e o nosso rosto enviam sinais importantes ao cérebro, e é uma informação à qual nosso cérebro responde, como explica a neurocientista espanhola Nazareth Castellanos, pesquisadora do Laboratório Nirakara-Lab e professora da Universidade Complutense de Madri, na Espanha.

"Se faço uma cara de raiva, o cérebro interpreta que essa cara é típica de raiva e, portanto, ativa os mecanismos de raiva", diz Castellanos.

Da mesma forma, "quando o corpo está em uma postura típica de tristeza, o cérebro começa a ativar mecanismos neurais típicos da tristeza".

Isso porque "não temos apenas cinco sentidos — mas, sim, sete", afirma a cientista. E os cinco sentidos mais conhecidos — olfato, visão, audição, tato e paladar — "são os menos importantes para o cérebro".

Nazareth Castellanos conversou com a BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, sobre como a postura e as expressões faciais influenciam o cérebro, qual é o poder de um sorriso e o que podemos fazer para aprender a ouvir "os sussurros do corpo".


BBC News Mundo - Como você começou a investigar a relação entre a postura e o cérebro?


Nazareth Castellanos - Comecei a repensar a neurociência depois de passar 20 anos pesquisando apenas o cérebro. Parecia estranho para mim que o comportamento humano se apoiasse apenas em um órgão, que era o que está na cabeça. Antes disso, havia começado a estudar a influência de órgãos como o intestino no cérebro. E dizia: 'Não pode ser igual para o cérebro se meu corpo está curvado ou se meu corpo está ereto'. Então comecei a investigar, para ver o que a literatura científica dizia. Descobri coisas que me pareceram absolutamente surpreendentes e pensei: 'Todo mundo precisa saber disso'.


BBC - Você poderia nos explicar então por que a postura é importante e como ela influencia o cérebro?


Castellanos - O importante é entender que a neurociência já reconhece que temos sete sentidos. Na escola, sempre nos ensinaram que temos cinco — olfato, visão, audição, tato e paladar — que são os sentidos da exterocepção, ou seja, do exterior. E isso é muito simbólico, porque até agora a ciência se interessou mais por estudar a relação do ser humano com o exterior.

Agora, a neurociência diz há cerca de cinco anos que isso precisa ser expandido. Não temos apenas cinco sentidos, temos sete. E acontece que os cinco sentidos da exterocepção — audição etc. — são os menos importantes. O número um, o sentido mais importante, é a interocepção. Os dois sentidos mais importantes para o cérebro são a interocepção e a propriocepção


BBC - O que significa interocepção?


Castellanos - É a informação que chega ao cérebro sobre o que acontece dentro do organismo. O que está acontecendo dentro dos órgãos. Estamos falando do coração, da respiração, do estômago, do intestino. É o sentido número um porque, de todas as coisas que acontecem, é aquela a que o cérebro vai dar mais importância, é prioridade para o cérebro. E o número dois em prioridade é o sentido da propriocepção, a informação que chega ao cérebro sobre como está meu corpo por fora, a postura, os gestos e as sensações que tenho por todo o corpo.

Por exemplo, as sensações na barriga quando ficamos nervosos, ou um nó na garganta, ou os olhos pesados quando estamos cansados. A propriocepção é o segundo sentido mais importante. E, na sequência, vêm os outros cinco.


BBC - O que significa dizer que a interocepção e a propriocepção são o primeiro e o segundo sentidos (em ordem de prioridade) para o cérebro?


Castellanos - Já era conhecido que o cérebro precisa saber como está todo o corpo, mas antes se pensava que era uma informação passiva, a mudança agora é que isso é um sentido. Ou seja, um sentido é aquela informação que o cérebro recebe e à qual deve responder. Dependendo do que está acontecendo, o cérebro tem que agir de uma forma ou de outra, e essa é a grande mudança. Por exemplo, Quando eu franzo a testa, estou ativando minha amígdala (amigdala cerebelosa)


BBC - Em qual parte do cérebro percebemos nossa postura ou gestos?


Castellanos - Em nosso cérebro, existe uma área que é como uma tiara, como aquela que você usa para colocar no cabelo. Ela se chama córtex somatossensorial, e meu corpo está representado ali. Ele foi descoberto em 1952, e o que se pensava é que as áreas que são maiores em nosso corpo possuem mais neurônios no cérebro. Portanto, o que se pensava é que o cérebro dedicava muito mais neurônios às costas, que são muito grandes, do que, por exemplo, ao meu dedo mindinho.

Mas descobriu-se que não, que o cérebro dá mais importância a algumas partes do corpo do que a outras, e que as partes a que o cérebro dá mais importância no corpo são o rosto, as mãos e a curvatura do corpo.

Então, meu dedo mindinho tem cerca de cem vezes mais neurônios dedicados a ele do que as costas inteiras, do que a perna inteira, porque as mãos são muito importantes para nós. Observe que quando falamos estamos usando nossas mãos, estamos ativando essas áreas do cérebro.


BBC - Como os gestos faciais influenciam no cérebro?


Castellanos - O cérebro atribui uma importância tremenda ao que acontece no rosto. Aqui foram observadas coisas que são muito importantes. Por um lado, foi observado que as pessoas que franzem a testa — e isso é algo que fazemos muito com celulares que têm telas pequenas — estão ativando uma área relacionada à amígdala. É uma parte do cérebro que está em zonas profundas e que está mais envolvida na emoção.

Quando eu franzo a testa, estou ativando minha amígdala, portanto, se surgir uma situação estressante, vou ficar mais estimulado, vou reagir mais, porque já tenho essa área preparada. A amígdala, que é como uma amêndoa, é uma área que quando acontece uma situação de estresse, se ativa, cresce mais. Então, é uma área que é melhor manter calma. Mas se já estiver ativada, quando chegar uma situação estressante, ela vai hiperativar, e isso vai gerar uma hiper-reação. Tentar relaxar essa parte, o cenho, desativa um pouco a nossa amígdala, relaxa.


BBC - Em uma palestra, você mencionou um estudo fascinante com canetas que mostra como franzir a testa ou sorrir muda a maneira como interpretamos o mundo. Você poderia nos explicar este estudo?


Castellanos - Além da musculatura ao redor dos olhos, a segunda parte mais importante do rosto para o cérebro é a boca. Não temos noção do poder que ela tem, é impressionante. Então, o que os estudos fizeram, para analisar a hipótese da retroalimentação facial, foi pegar um grupo de pessoas e colocar uma caneta na boca delas. 

'Quando tinham a caneta na boca simulando um sorriso, as imagens pareciam mais simpáticas para elas' (imagem do estudo Strack et al. 1988)

Primeiro, elas tinham que segurar (a caneta) entre os dentes — estavam simulando um sorriso, mas sem sorrir, que era o importante. E mostravam para elas uma série de imagens, e elas tinham que dizer o quão simpáticas pareciam. Quando tinham a caneta na boca simulando um sorriso, as imagens pareciam mais simpáticas para elas.

Mas quando tinham a caneta entre os lábios, simulando uma cara de raiva, as mesmas imagens não pareciam mais tão agradáveis. Este é um estudo da década de 1980, mas muitos, muitos estudos foram feitos desde então.

Foi observado, por exemplo, que quando vemos pessoas sorridentes somos mais criativos, nossa capacidade cognitiva aumenta, a resposta neural diante de um rosto sorridente é muito mais forte do que diante de um rosto que não sorri ou uma cara emburrada.

A ínsula, que é uma das áreas do cérebro mais envolvidas na identidade, é ativada quando vemos alguém sorrir ou quando nós mesmos sorrimos. Sorrir não é rir, é diferente. Então vemos o poder que um sorriso tem sobre nós, porque o cérebro, como já dissemos, dedica um grande número de neurônios ao rosto.


BBC - Como o cérebro responde quando estamos sorrindo ou franzindo a testa?


Castellanos - Como dissemos, a propriocepção — que é a informação que chega ao cérebro sobre como está meu corpo e especificamente meu rosto — é uma informação à qual o cérebro deve reagir.

Se estou triste, se fico com raiva, se estou feliz, meu rosto reflete isso, mas também vice-versa. Se estou com uma cara de raiva, o cérebro interpreta "essa cara é característica da raiva, por isso ativa mecanismos de raiva", ou "essa cara é típica de tranquilidade e, então, ativa mecanismos de tranquilidade".

'A resposta neural diante de um rosto sorridente é muito mais forte do que diante de um rosto que não sorri ou uma cara emburrada', ou seja, o cérebro sempre busca o que se chama de congruência mente-corpo.

E isso é interessante porque: o que acontece se eu estiver triste ou com raiva, estressada e começar a fazer uma cara relaxada? A princípio, o cérebro diz "isso não bate, ela está nervosa, mas está com a cara relaxada".

E então começa a gerar algo chamado migração do estado de espírito. O cérebro diz: "tudo bem, então vou tentar combinar o estado de espírito com o rosto".

Em outras palavras, veja que recursos nós temos.


BBC - Você também estava falando sobre outro aspecto da propriocepção, a curvatura do corpo. Hoje, com os celulares, muitas vezes ficamos curvados, como isso afeta o cérebro?


Castellanos - O cérebro — e esta é uma descoberta de três meses atrás — tem uma área que se dedica exclusivamente a 'ler' a postura do meu corpo.

O que se observou é que existem posturas corporais que o cérebro associa a um estado emocional. Se eu, por exemplo, mover os braços para cima e para baixo, o cérebro não tem registro de que levantar a mão é algo emocional, porque não costumamos fazer isso, certo?

No entanto, estar curvado é algo característico da tristeza, isso porque, quando estamos mal, nos curvamos. Ultimamente, todos nós adquirimos posturas curvadas, porque passamos oito horas por dia em frente ao computador, entre outras coisas.


BBC - É a isso que se refere um famoso estudo que você menciona em suas palestras, aquele do computador?


Castellanos - Quando temos uma postura relaxada, isso afeta nossa percepção emocional do mundo e nossa memória. É aqui que entra um famoso experimento em que um laptop foi colocado na altura dos olhos dos participantes, e uma série de palavras aparecia na sequência.

No final, o computador era fechado, e se perguntava às pessoas quantas palavras elas lembravam. (Os pesquisadores) fizeram o mesmo colocando o computador no chão, de forma que obrigasse as pessoas a se curvarem.

O que foi observado? Que quando o corpo estava na posição curvada para baixo, as pessoas se lembravam de menos palavras, ou seja, perdiam a capacidade de memória e lembravam mais de palavras negativas do que positivas.

Ou seja, assim como quando estamos tristes, quando não somos tão ágeis cognitivamente e nos concentramos mais no lado negativo, quando o corpo está em uma postura característica de tristeza, o cérebro começa a ativar os mecanismos neurais típicos da tristeza.

Então, o que a ciência está nos dizendo? Bem, não é que você tenha que estar assim ou assado, mas estar mais consciente do seu próprio corpo ao longo do dia e ir corrigindo essas posturas que fomos adotado.

Eu, por exemplo, me observo muito e, de vez em quando, descubro que voltei a ficar curvada. Você corrige e, com o tempo, vai gradualmente adquirindo menos esse hábito.

Mas se você não tem essa capacidade de observar o próprio corpo, pode ficar horas assim e não se dar conta de que está assim.


BBC - Como então nos treinamos para ouvir mais o nosso corpo? Você costuma dizer que o corpo não grita, sussurra, mas não sabemos escutá-lo.


Castellanos - Acredito que a primeira coisa para saber como está nosso corpo é aprender a observá-lo. E o que os estudos nos dizem é que grande parte da população tem uma consciência corporal muito baixa.

Por exemplo, toda vez que sentimos uma emoção, a sentimos em alguma parte do corpo; as emoções sem o corpo seriam apenas uma ideia intelectual.

Há estudos em que se pergunta às pessoas: quando você está nervoso, onde localizaria em seu corpo essa sensação? Grande parte não sabe responder, porque nunca parou para observar o próprio corpo.

Então a primeira coisa é, ao longo do dia, parar para observar, como está meu corpo? E quando sentimos uma emoção, paramos por um momento e dizer: onde posso encontrá-la? Como sinto meu corpo agora? Ou seja, fazer muito mais observação corporal.

Nazareth Castellanos: 'Antonio Damasio fez muitos experimentos em que foi observado que pessoas que têm uma maior consciência corporal tomam decisões melhores '


BBC - E essa consciência corporal ajuda com as emoções difíceis?


Castellanos - Quando fico nervosa, por exemplo, sinto algo no estômago ou um nó na garganta. Tudo isso está sendo sentido pelo meu cérebro, ele recebe isso. Quando estou consciente dessas sensações, a informação que chega ao cérebro é mais clara e, portanto, o cérebro tem uma capacidade melhor de discernir uma emoção da outra.

Ou seja, uma coisa é esse sussurro quase inconsciente, e outra é transformá-lo em palavras.

E fazemos isso com a consciência, que também é uma aliada no gerenciamento das emoções. Porque quando estamos envolvidos em uma emoção, seja ela qual for, se pararmos naquele momento e desviarmos nossa atenção para as sensações do corpo, isso nos alivia muito.

É uma das formas de relaxar, de frear esse turbilhão em que nos metemos quando temos uma emoção. Isso se chama consciência corporal.

Já nos anos 1990, Antonio Damasio, o grande neurocientista do nosso tempo, falava dos benefícios deste marcador somático. Ele fez muitos experimentos em que foi observado que pessoas que têm uma maior consciência corporal tomam decisões melhores.

Na minha opinião, isso acontece porque não é que o corpo te diga para onde você deve ir — mas, sim, onde você está. E se estamos em uma situação complexa e há emoções envolvidas, e nem sequer eu sei onde estou ou que emoção estou tendo, é mais difícil para eu saber para onde devo ir.

As emoções são muito complexas e normalmente estão misturadas. Conseguir identificar uma emoção apenas com uma análise mental é mais difícil do que observando meu próprio corpo.

Mas é claro que para isso precisamos nos treinar, observar ao longo do dia as sensações do corpo, quando estou cansada, quando estou feliz, quando estou mais neutra, quando estou com raiva, quando estou sobrecarregada. Onde eu sinto isso? Isso nos ajuda muito a nos conhecer.


BBC - A postura curvada nos faz respirar pior, você poderia falar sobre a respiração e o cérebro?


Castellanos - A respiração é uma aliada que temos completamente em nossas mãos, mas não sabemos respirar.

A postura e a respiração estão intimamente relacionadas. Se você cuida da sua postura, cuida da sua respiração, então o que se observou na neuroanatomia da respiração é que a respiração influencia na memória, na atenção e no gerenciamento das emoções. Mas cuidado, isso se (a respiração) for nasal, se a inspiração for pelo nariz

Se inspiramos pela boca, e grande parte da população respira pela boca, não temos tanta capacidade de ativar o cérebro.

O cérebro precisa que marquem os ritmos para ele, e a respiração é um dos marca-passos que nosso cérebro possui para que os neurônios gerem seus ritmos, suas descargas elétricas. Se respiramos pela boca, é um marca-passo atenuado. Tem que ser a inspiração pelo nariz.

O momento em que mais temos memória é o momento em que estamos inspirando pelo nariz, nesse momento o hipocampo está ativado.

Se te disseram algo, uma palavra, no momento em que coincidiu com a inspiração, tem mais chance de ser lembrado do que se te dissessem quando você estava expelindo o ar, na expiração.

Isso nos remete a uma coisa muito interessante que é a respiração lenta. Normalmente respiramos muito rápido.

Para escutar os sussurros do corpo, temos que nos treinar — 'observar ao longo do dia as sensações do corpo, quando estou cansada, quando estou feliz, quando estou mais neutra, quando estou com raiva, quando estou sobrecarregada'


BBC - Qual a importância da respiração lenta?


Castellanos - Acabamos de publicar um estudo científico sobre o poder da respiração lenta como analgésico em casos de dor crônica por discopatia (deterioração dos discos entre as vértebras). 

E para as emoções, o importante é que o tempo que levamos para expirar, para tirar o ar, seja maior do que o tempo que levamos para inspirar. Olha que importante, quantas coisas podemos fazer com nosso próprio corpo.

Nosso corpo é o instrumento pelo qual soa nossa vida, mas é um instrumento que não sabemos tocar. Temos que aprender primeiro a conhecê-lo e, depois, a tocá-lo.




- Este texto foi originalmente publicado em https://www.bbc.com/portuguese/articles/cxx79170863o

domingo, 26 de fevereiro de 2023

Boubacar Traoré & Ali Farka Touré - Duna Ma Yelema


Fonte da Imagem (Wikipédia): Antiga cidade de Djenné (Mali) declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco

Música: Duna ma yelema (with Ali Farka Touré)

Artistas: Boubacar Traoré, Ali Farka Touré 

Compositor: Boubacar Traoré

Álbum: Je chanterai pour toi 

Boubacar Traoré (nascido em 1942 em Kayes, Mali) é um conhecido cantor, compositor e guitarrista malinense. Traoré é também conhecido como Kar Kar, "aquele que dribla muito" em Bambara (um dos idiomas do Mali), em referência ao seu modo de jogar futebol: "um apelido que tenho desde quando era jovem, quando as pessoas gritavam 'Kari, Kari' - drible, drible - o termo acabou pegando"

Ali Ibrahim "Farka" Touré (Kanau, Mali, 31 de outubro de 1939 – Bamako, 7 de março de 2006) foi um cantor e guitarrista malinês e um dos músicos mais internacionalmente reconhecidos do continente africano

Letra (Boubacar Traoré)

Duna ma yelema, bi ma de yelema la
Ni kokè mousso mi yé, o bi maflé nalomayé
Ni kokè tié ba mi yé, o bi maflé fiyentoyé

Tradução Livre https://aopedapitangueira.blogspot.com/

O mundo não mudou, é o povo de hoje que mudou
Se você faz algo por uma mulher, ela acha que você é um idiota
Se você faz algo por um homem, ele acha que você é cego





sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

A doença social do ódio


Subi a Colina do Observatório do Reino da Pitangueira e cheguei ao maior putoscópio do reino - O Putoscópio Imperial. Ao acessar e acionar suas lentes vi que o reino vizinho ainda está dividido, numa situação onde a parte derrotada permanece mergulhada num niilismo que exalta radicalmente a concepção materialista e positivista e retira do âmbito do Estado, da Religião e da Família todo poder e a capacidade de reger os passos do país.

Daí para eclosão de violência gratuita é um passo apenas, pois para seus seguidores toda e qualquer possibilidade de sentido, de significação da existência humana, inexiste. Não há forma alguma de se responder às questões levantadas. Eles simplesmente desprezam convenções, verdades absolutas, normas e preceitos morais. É a força motriz do ódio.

A doença social do ódio é contagiosa e destrói a vida, porque tudo o que produz é feito com ódio, ou seja, a economia, a ciência, a arte, a política, a ecologia e a religião. Já a harmonia se consegue trabalhando por uma economia ao serviço da vida, por uma ciência que busca a verdade, por uma política comprometida com o bem comum e por uma crença que seja um instrumento de reconciliação e de paz. 

O Reino em questão deveria voltar a amar a vida, superar a indiferença e o pessimismo, para que se possa tomar uma nova direção pacificadora, pois somente a amizade social supera o ódio, dá lugar ao perdão, ao diálogo, à aceitação, ao maravilhamento com a criação, ao cuidado mútuo e à convivência no amor.

Fonte¹ de referência: infoescola 
Fonte² de referência: Vatican news / Arquidiocese Cascavel

É isto aí!

 

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Um dia de cada vez

Mestre Vitalino, Noivos a cavalo, cerâmica


Para tudo, gritou o rapaz do alto da pequena colina, montado num baio triste, magro, marrom-vermelhado com uma coloração de pontas pretas na crina, cauda, pontas das orelhas e pernas.

Todos olharam para a origem do grito e depararam com aquela figura conhecida, determinada, esquálida e longilínea por sobre um animal esbaforido. 

Desceu devagar, aproximou-se da noiva, deu a mão, ela firmou o pé esquerdo no estribo e segura, deu um sobressalto e montou, travando um abraço na cintura do rapaz e fazendo o animal dar um leve gemido. Seguiram o caminho do mundo, com aplausos de metade dos convidados para o casamento. 

O noivo, completamente embriagado, não deu conta da página da vida que estava sendo aberta, transformando destinos e acontecendo à vista de todos. Demorou perceber que algo de errado não estava certo. Assim que tentou dar ares de sobriedade, levou uma sonora vaia dos parentes e amigos da noiva. 

Enquanto isto, lépida e ladina, sentindo o desfecho desfavorável, a mãe do noivo pegou o que pode dos presentes e colocou na pequena charrete, tocando a mula para seu caminho cenoso.

Quando ficaram a sós, os pais da noiva e seus irmãos abraçaram-se agradecendo a bondade e a divina intervenção de Deus nas coisas complexas da natureza humana.

É isto aí!


Fonte da Imagem: Arte popular do Brasil

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Marcha da Quarta Feira de Cinzas (Vinicius de Moraes/Carlos Lyra)

                                                             Fonte da Imagem: Passeata dos Cem Mil Wikipédia


“Marcha da quarta-feira de cinzas” foi composta em 1962 por Carlos Lyra (1936) e Vinícius de Moraes (1913/1980).

A melodia foi composta por Carlos Lyra
Vinícius de Moraes então colocou letra nesta pérola da MPB.

Composta antes de 1964, a “Marcha da quarta-feira de cinzas” é assim uma espécie de protesto premonitório contra a realidade imposta pela ditadura militar. Pertence àquela fase inicial do CPC (Centro Popular de Cultura) em que Carlos Lyra incorpora à sua obra uma temática político-nacionalista, tendo sido feita no mesmo dia em que ele e Vinícius haviam concluído o “Hino da UNE” (“De pé a jovem guarda / a classe estudantil / sempre na vanguarda / trabalha pelo Brasil…”).

Mas, com sua mensagem disfarçada no lirismo melancólico de uma marcha-rancho, a composição pode ser considerada um belo exemplar do gênero música de protesto: “Acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções / ninguém passa mais brincando feliz / e nos corações / saudades e cinzas foi o que restou…” A passagem com o acorde de sétima maior de dó antecedendo a frase “e no entanto é preciso cantar”, após a pungente primeira parte, cria um momento mágico, na medida em que envolve a plateia inteira e a faz cantar suavemente embalada por um simples violão.

Um clássico de seu tempo, a “Marcha da quarta-feira de cinzas” é uma daquelas raras canções capazes de encerrar com elevada dose de emoção um espetáculo musical. Embora consagrada pela voz de Nara Leão , teve sua gravação inicial por Jorge Goulart em fevereiro de 1963.

A canção fez parte da trilha sonora da novela “Fera ferida” Vol.2 (1993/94 – Leila Pinheiro).

Fonte: A Canção no Tempo – Vol. 2 – Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello – Editora 34.


Marcha da Quarta Feira de Cinzas
(Vinicius de Moraes/Carlos Lyra)

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando
Cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida
Feliz a cantar

Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza
Dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando
Seu canto de paz


Provided to YouTube by Universal Music Group

Marcha Da Quarta-Feira De Cinzas · Nara Leão

Nara

℗ 1964 Universal Music International

Released on: 1964-01-01

Associated  Performer, Vocalist: Nara Leão
Producer: Aloysio de Oliveira
Producer, Assistant  Producer: José Delphino Filho
Producer, Assistant  Producer: Peter Keller
Composer  Lyricist: Carlos Lyra
Composer  Lyricist: Vinícius de Moraes




quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

Carnaval chegando ...


Insensato destino

Compositores: Acyr Cruz / Francisco Souza / Mauricio Lins
Letra de Insensato destino © Warner Chappell Music, Inc
Imagem: Heitor dos Prazeres / Roda de Samba


Oh, insensato destino
Pra quê?
Tanta desilusão
No meu viver

Eu quero apenas ser feliz
Ao menos uma vez
E conseguir
O acalanto da paixão

Fui desprezado e magoado
Por alguém que abordou
Meu coração

Destino
Porque fazes assim?
Tenha pena de mim
Veja bem - Não mereço sofrer

Quero apenas um dia poder
Viver num mar de felicidade
Com alguém que me ame
De verdade


Fonte Youtube: Samba de Raiz




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

Barrado na porta do ChatGPT


O ChatGPT, a coqueluche do momento, o ORKUT da década de 20, o portal do século XXI, que foi lançado em novembro de 2022, vetou o meu acesso pois cismou que não sou humano. A princípio achei que era somente um mal entendido, fui nas configurações, avaliei tudo que poderia significar aquilo, mas foi em vão. O ChatGPT disse repetidas vezes que sou uma máquina e pronto. 

Conclui que o ChatGPT sabe muito, mas não sabe tudo.

Segundo o NY Times, o entusiasmo em torno da aplicação da tecnologia de OpenAI lembrou outros momentos que "viraram o Vale do Silício de cabeça para baixo, desde a chegada do primeiro iPhone e do mecanismo de busca Google até o introdução do navegador Netscape que preparou o cenário para a comercialização da internet". 

Para Bill Gates, o ChatGPT vai mudar o mundo: "Até agora, a inteligência artificial podia ler e escrever, mas não conseguia entender o conteúdo. Os novos programas como o ChatGPT vão tornar muitos trabalhos de escritório mais eficientes. Isso vai mudar o nosso mundo”.

Para o Reino da Pitangueira, é a prova de que não é bem tudo isto que está por aí.

É isto aí!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Tempo bom


Tempo bom
não é e nem pode
ser aquele
que não volta mais 

Tempo bom
é exatamente aquele
que da sua memória
não sairá jamais.

É isto aí!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Discutindo relação


- Promete para mim que você nunca vai morrer, promete, vai, não custa nada. Fala, confirma, ditas as palavras certas, serei eternamente grata e feliz.

- Mas, e eu?

- Como assim? A minha felicidade não preenche seu amplo espaço de questionamentos? Eu sou apenas uma mulher objeto?

- Não é isto.

- Então tem outras coisa que você não me contou?  É isso?

- Sabe, querida, esta sua fixação pelo solipsismo, esta sua concepção filosófica de que, além de nós, só existem as nossas experiências, é muito pequena diante do cosmos.

- Cosmos? Então você vê ordem, organização, beleza e harmonia nesta vastidão vazia, sem vida, estéril e infértil

- Não é isso. Não pode ser só isso. Você pode ser mais que isto que se limita a ser.  A vida não pode ser apenas o movimento da vida que você conhece. 

- Eu sei onde você quer chegar. Meu instinto feminino antecipa isto.

- Sabe mesmo? 

- Sim, na prática, sua crença define meu pensamento como uma forma de idealismo, que incorreria no egoísmo pragmático, que insurge pós proposição cartesiana "cogito, ergo sum"; ridiculamente traduzido pelos que a contestam, como "Penso, logo existo,"

- Querida, nem tanto céu, nem tanto mar. Saiba que o universo em todo o seu conjunto, toda a estrutura universal em sua totalidade, no esplendor da magnânima beleza de luzes e escuridão, pulsa desde o microcosmo ao macrocosmo.

- Pronto, está querendo catequisar a Mecânica Quântica agora, querido? Acha que basta recorrer a Hermes Trimegisto, no seu aforismo, sua máxima hermética no Caibalion  "O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima."?

- Você está apelando.

- Adoro quando você faz esta face de estupefação, bem metafísica

- E como é uma face de estupefação metafísica?

- Os ombros expõem um sentimento de espanto, abrindo os dois flancos. Os olhos brilham com certa admiração, o semblante fica perplexo, sua voz átona e sua respiração rarefeita.

- Me beija

- Não

- Me beija, vai

- Não

- Sua, sua...

- Sim, sou sua! Agora pode me beijar. Mas antes, abra outra garrafa do vinho, que este acabou.


É isto aí!





segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Fernanda Takai e Erasmo Carlos Do Fundo do Meu Coração


Imagem: Dança no Moulin Rouge (1890), de Henri de Toulouse-Lautrec,

Do Fundo do meu coração é uma daquelas músicas da dupla Roberto/Erasmo Carlos que é atemporal. Outro aspecto que chama a atenção, em “Do Fundo Do Meu Coração”, é a forma como a harmonia é modulada, subindo e descendo de tom. Mais um recurso que é mobilizado para aumentar pungência e a urgência da mensagem disparada pelo sujeito enunciador.

Em termos narrativos, temos o sujeito enunciador lutando para se impor sobre o fim da conjunção amorosa. Nos inícios das estrofes, recapitula-se a postura pretérita vacilante, em que outros términos da união eram cancelados com novos retornos provisórios, até a humilhação. A auto-admoestação é severa: o personagem chega a se considerar “estúpido” por ter assim agido.

No entanto, a retrospectiva dos erros passados gera um acúmulo de forças, manifestado na entoação dos versos “Acabe com essa droga de uma vez” e “Do fundo do meu coração” (e preste atenção aos acentos em “droga” e “fundo do“), forças que se dissipam de forma bastante asseverativa no imperativo “Não volte nunca mais (pra mim)”. (Fonte 365 canções brasileiras)



Eu, cada vez que vi você chegar
Me fazer sorrir e me deixar
Decidido eu disse: nunca mais

Mas, novamente, estupido provei
Desse doce amargo quando eu sei
Cada volta sua o que me faz

Vi todo o meu orgulho em sua mão
Deslizar, se espatifar no chão
Vi o meu amor tratado assim

Mas basta agora o que você me fez
Acabe com essa droga de uma vez
Não volte nunca mais pra mim

Mais uma vez aqui
Olhando as cicatrizes desse amor
Eu vou ficar aqui

E sei que vou chorar a mesma dor
Agora eu tenho que saber
O que é viver sem você

Eu, toda vez que vi você voltar
Eu pensei que fosse pra ficar
E mais uma vez falei que sim

Mas, já depois de tanta solidão
Do fundo do meu coração
Não volte nunca mais pra mim

Mais uma vez aqui
Olhando as cicatrizes desse amor
Eu vou ficar aqui
E sei que vou chorar a mesma dor

Se você me perguntar se ainda é seu
Todo o meu amor, eu sei que eu
Certamente vou dizer que sim

Mas, já depois de tanta solidão
Do fundo do meu coração
Não volte nunca mais para mim

Acabe com essa droga de uma vez
Não volte nunca mais pra mim

Autores/compositores: Roberto Carlos / Erasmo Carlos
Cantores: Erasmo Carlos / Fernanda Takai
Fonte Youtube: Isoacustic  Fernanda Takai e Erasmo Carlos Do Fundo do Meu Coração Som Brasil


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Aproveita, conheça e escute numa sensacional performance com  Ana Cañas:

Ana Cañas canta "Do Fundo do Meu Coração" no Prêmio UBC 2018 em homenagem a Erasmo Carlos
Fonte Youtube: UBC - União Brasileira de Compositores

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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Desencontros marcados



- Rapaz, você não faz ideia de quem está do outro lado do salão com os olhos grudados em você.

- Onde (girando o corpo para a direita).

- Larga mão de ser burro, não faz isto de novo que ela vai perceber.

- Pode pelo menos falar quem é?

- Claro, é a Zizi.

- Zizi? Aqui? Sozinha? 

- Sim, Zizi aqui e sozinha, sem tirar os olhos de você.

- E como ela está vestida?

- Com um vestido preto, justo, sem manga, pouco acima dos joelhos.

- Uau! Ela fica linda de preto. E o cabelo? E o cabelo?

- Corte chanel clássico.

- Caramba, do jeito que eu acho que fica mais linda ainda.

- Fala isto para ela.

- Como? 

- Ela está se aproximando.

- De que lado, de que lado?

- Do seu lado esquerdo. 

- O que eu falo? O que eu falo?

- Espera não vire depressa...

- Zizi

- Olá

- Como você está gostosa, quer dizer, linda, quer dizer ...

- Você continua mentiroso, quer dizer, não hoje, não agora, não aqui ...

- Zizi, eu amo você.

- Eu sei ... pois é ... sempre soube, adeus.

É isto aí!






sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Inseguranças

Snoopy é o beagle de estimação de Charlie Brown na tira em quadrinhos Peanuts, criada por Charles Schulz.

Charlie Brown é uma criança dotada de infinita esperança e determinação, mas que é dominada por suas inseguranças e uma permanente má sorte.

Snoopy é um cão extrovertido com complexo de Walter Mitty, com muitas virtudes. A maior parte delas não são reais, mas sonhos que fazem parte do seu mundo de fantasia, que aparecem quando Snoopy dorme no telhado da sua casinha.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Fugas e limites

Não nego
verbos regulares
ou adjetivos

Não galgo
ou transponho
os limites

raios sejam
fulminantes
aos limites

Sou memórias
tenho histórias
e lágrimas (ridículas)

pieguices
desarmônicas
pedantes

a verdade (relativa)
é que fujo
de mim todo dia


É isto aí!


terça-feira, 24 de janeiro de 2023

O dia que morri por engano


- Senhor José Jota Silva? É o senhor mesmo?

- Sim, sou eu mesmo.

- Só por curiosidade, o Jota é abreviatura?

- Não, foi ignorância do menino que fazia o horário de almoço do escrivão, segundo meu pai seria Cota, da minha mãe, mas o iletrado colocou Jota e disse que não poderia rasurar. Aí ficou isto.

- O senhor chegou bem? Está se sentindo melhor?

- Olha só, eu não estou entendendo nada. Acordei hoje de manhã, tomei um café raleado, pois o pó estava acabando e faltou o açúcar. Aí lembrei  que tinha que comprar o gás para devolver ao vizinho que me emprestou mês passado. Mas aí lembrei que não devolvi o gás por causa de que eu devia dois meses de aluguel e antes de vencer o terceiro, que dá despejo, paguei um atrasado e deixei na pendência a padaria, o açougue e o sacolão, mas isto dá para contornar, por que o difícil mesmo é a farmácia.

- Então o senhor tem pendências? 

- É, saí de casa com a cabeça quente, a patroa falando sem parar, os meninos chorando, daí resolvi dar uma volta, descontrair um pouco na casa da Zefa.

- Zefa? Interessante, quem é Zefa? Não tenho este nome nos registros. 

- A Zefa é minha comadre. O nome dela mesmo é Deolinda, mas tem este apelido da infância  e foi ficando. 

- Humm, Deolinda, prossiga então.

- Zefa é meu amor de juventude, mas deu que casei precipitado com a patroa, e em pouco tempo vi a besteira que fiz, mas aí não tinha como ir nem como voltar, pois ela já tinha se arrumado com um caboclinho porqueira, mas aí as coisas entre nós foram indo foram indo, até que nós nos ajeitamos quando ela pegou birra das malandragens do safado, mas não é nada demais, gostamos de conversar.

- Pode continuar.

- O senhor é da polícia? Isto é depoimento, oitiva, ou coisa parecida?

- Não, é apenas formalidade. O senhor lembra como chegou aqui?

- Então, como já lá ia dizendo, saí de casa com a cabeça quente, e ao atravessar a avenida, ouvi um som estranho, não sei definir e de repente estava num túnel muito iluminado, com um coral cantando uma música linda. Tinha um homem do meu lado, alto, muito educado, que foi me conduzindo até uma praça bem cuidada. Ai vieram umas dez pessoas me abraçar, falando que estavam muito felizes com minha chegada, mas apesar de serem todos simpáticos, não conhecia nenhum deles e nenhuma delas. Tinha umas duas bem bonitinhas, destas de não se enjeitar, mas não sabia quem eram aquelas pessoas.

- Sério, não conhecia nenhuma delas?

- Achei estranho ficarem me chamando de Jota, já que durante toda a minha vida foi Zé Viola. Também ficaram assim meio ressabiados, aí o moço que estava comigo me trouxe até aqui. Falando nisso, aqui é onde?

- Isto aqui é a Central de Achados e Perdidos no Céu, conhecida como CAP-C. Estamos no céu, o senhor até consta na lista, mas ocorreu um engano aí, não é para o senhor estar aqui hoje; ainda demora uns anos. Vai ter que voltar. 

- Voltar? Quero não, não quero, de jeito nenhum, de forma alguma, exijo meus direitos, quero falar com o chefe, com o santo do dia, com o anjo da guarda, chama lá os arcanjos, chama a Sagrada Família, chama São Pedro, São Paulo, São Benedito e fui ficando possesso do bem, claro, e enquanto debatia deu uma raiva de voltar e aquilo atacou os nervos, os nervos atacaram a língua e aí desandei a falar até de coisa que nem sabia. Foi então que ouvi aquele som estranho de novo e acordei sessenta dias depois num leito de hospital. Olhei para o lado e vi a Zefa. Sabe, Zefa parecia um anjo cuidando de mim. 

É isto aí!

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Perdão e outras faces do amor

Eadweard Muybridge*

Errei 
tudo bem
sei que errei
de mais nada sei

nada do mais sei
desta dor rude
sói alhures
adeus


É isto aí!

Autor da imagem: Eadweard Muybridge. (1830/1904)
Fonte da imagem: rawpixel
Fotografia de animais e humanos em movimento por Eadweard Muybridge (1830–1904). Muybridge foi um fotógrafo controverso conhecido por seu trabalho pioneiro na projeção de filmes. Sua reputação cresceu no final de 1800, quando ele provou através da fotografia que um cavalo galopando mantém todos os quatro cascos no ar por um curto momento em uma passada. 

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Ausência (Vinicius de Moraes - Rio de Janeiro , 1935)


Poema de Vinícius de Moraes
Fonte: Vinícius de Moraes - Vida e Obra/Site Oficial
Publicação: publicado em 1935, 173 p. 
Editora: Irmãos Pongetti - Rio de Janeiro

Forma e Exegese marca a continuidade da carreira de Vinicius de Moraes como poeta. Ainda com 22 anos, era o segundo livro do jovem que ainda se apegava ao Simbolismo como escola dileta na hora de fazer versos ou escolher temas. As várias dedicatórias do livro para Arthur Rimbaud, Mallarmé, Claudel ou Jacques Riviére, selam a aliança do jovem poeta com sua matriz literária francesa e nos mostra a filiação poética que Vinicius ainda cultivava. 

Apesar do universo simbolista e de sua ligação com o meio intelectual católico do Rio de Janeiro, o livro apresenta alguns primeiros passos em poéticas que lhe seriam usuais futuramente. Poemas como “Ilha do Governador”, sobre sua infância no bairro carioca, ou “A volta da mulher morena” destacam-se dos longos versos herméticos e transcendentais. Eles já apontam para um Vinicius mais tangível e cotidiano, e que, não obstante, daria à sua expressão ainda mais beleza e profundidade.

Forma e Exegese foi um claro passo adiante do jovem poeta em relação ao seu primeiro livro e conseguiu ganhar destaque no meio literário do período. Mesmo sem ainda ter na ocasião a amizade que construiria ao longo da vida, ele recebe publicamente críticas positivas de um então já maduro Manuel Bandeira. Com o livro, Vinícius ganha o prestigioso prêmio Filipe d’Oliveira.

Ausência (Vinícius de Moraes)

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Declamante: Júlia Sonati
Um estudo da palavra e do gesto.
Atriz: Júlia Sonati
Edição: Mary Kuhn
@i.g.n.e.a
Câmera: Toni Ferreira
Produção: Rush Vídeo

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

A leitura das cinzas (Jerzy Ficowski)

Jerzy Ficowski

Jerzy Ficowski (1924/2006) registrou testemunho da resistência dos poloneses à política supremacista do governo nazista.
Foto: Bartosz Pietrzak
Fonte do texto: UFPR

Ainda desconhecido no Brasil, o livro de poesias “A Leitura das Cinzas”, do escritor polonês Jerzy Ficowski, recebeu uma versão inédita em português com tradução do professor Piotr Kilanowski, do Departamento de Polonês, Alemão e Letras Clássicas (Depac). Falecido em 2006, Ficowski é um dos autores que se dedicou ao tema da Shoah (“holocausto” em hebraico), que consiste no testemunho dos sobreviventes do nazismo, com o diferencial de que não era judeu.

"A leitura das cinzas": A leitura das cinzas (Odczytanie popiołów) é tido como um dos mais importantes livros de poesia sobre a Shoah escritos por um não judeu. O livro foi inicialmente editado em Londres, em 1979, já que na Polônia comunista a publicação de suas obras foi proibida, pois o autor fazia parte da oposição ao regime. 

A obra foi escrita ao longo de anos após a Guerra enquanto Ficowski, testemunha do Extermínio, soldado da resistência antinazista e prisioneiro dos campos alemães, tentava encontrar um modo de expressão adequado ao tema. O volume veio a lume após 11 anos de silêncio forçado e logo foi reeditado clandestinamente na Polônia. 

Um dos poemas incluídos no livro, Carta a Marc Chagall, publicado inicialmente em 1957, teve a honra de ser um dos dois textos de ficção (ao lado da Bíblia) que foram ilustrados pelo pintor destinatário daquela carta poética – fato que o poeta sempre considerou o maior prêmio artístico que poderia ter recebido em sua vida.

Poema de Jerzy Ficowski , do livro Odczytanie popiołów (A leitura das cinzas).
Tradução de Piotr Kilanowski (Professor de literatura polonesa na UFPR)
Ilustração de Marc Chagal feita para os poemas de Ficowski

Marc Chagall


Não consegui salvar

nem uma vida

 

não soube deter

nem uma bala

 

então percorro cemitérios

que não existem

busco palavras

que não existem

corro

 

para o socorro não pedido

para o resgate tardio

 

quero chegar a tempo

mesmo que tarde demais